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Blogue do Centro Nacional de Cultura

Um espaço de encontro e de diálogo, em defesa de uma cultura livre e pluridisciplinar. Estamos certos de que o Centro Nacional de Cultura continuará, como há sete décadas, a dizer que a cultura em Portugal vale a pena!

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CRÓNICA DA CULTURA

 

Pedia sentado no chão, sempre numa das esquinas da Place Vendôme. Fora para Paris há 27 anos e nunca a vida lhe fora propícia, acabando na rua, e dormindo num quarto gélido de um sótão de uma casa ali perto, por generosidade do proprietário a quem fazia todas as compras necessárias e lhe limpava a casa a troco.

 

A sua vida era feita de longos sonos sem dormir e de longos dias sem esperança. Fome e frio deitavam-lhe cartas de má sorte. Quando estas apertavam mais, lembrava-se de uma cómoda antiga que tinha herdado de um tio e que era o grande bem que lhe restava no quarto onde dormia. Via aquela cómoda como uma hipótese de independência face à tragédia. Temia por ela e por essa razão limpava-lhe o pó com o cobertor no qual se enrolava numa espécie de colchão para dormir, e olhava-a sempre como seu aval contra o mundo antes de adormecer.

 

De quando em vez, entrava numa igreja, não para rezar, mas para se acolher do frio e logo que essa eterna cicatriz de inverno se atenuava no seu corpo, voltava à esquina da Place Vendôme, qual país onde fora para ficar.

 

Um dia, quase ao anoitecer, chegado de breve estada na igreja, encontrou uma mulher a chorar na esquina onde costumava estar. Aproximou-se dela e viu uma beleza indecifrada a deitar fora tempo de vida através de largas lágrimas, num soluçar de corpo que casado ao frio a não deixava esconder um tremer que tudo nela anunciava, ser sofrimento.

 

Desculpe – disse -, desculpe o que tem? Como se chama? Eu moro aqui, exatamente no sítio onde está, ou seja moro aqui e noutro sítio ali em cima, tão esquina de ar gelado quanto este, mas mágico quando de repente aquece e diz tudo dos poderes que eu não receio, e que você deixará de recear também. Venha comigo, venha

 

E os olhos de Nicolau não deixavam aquela mulher, na verdade, desviavam-se e repetiam-na

 

Sou Julieta. Não tenho de existir. Entende? - Disse-lhe num grito de desespero - Mas não sou corajosa. Choro em vez de ter ido com o rio.

 

Logo ali pressentira Nicolau um jogo. Não decifrava a pessoa contida naquela mulher. Contudo ela apoiara-se nele e juntos subiram as longas escadas até ao quarto do sótão. Cobriu-a com o seu cobertor e julgou vê-la num quase-sorriso ou a vela projetava-lhe um alívio de lágrimas nos olhos, apenas por cumplicidade? Não descortinava. Todavia, Julieta continuava a tremer enquanto intrigada o olhava baixinho.

 

O velho machado que cortava a lenha para a velha e mal albardada salamandra do sótão, que ardia apenas quando alguma rara lenha lhe chegava, abriu de um só golpe a cómoda ao meio. Nicolau fora certeiro. Mais umas machadas nas poucas gavetas e já estas cabiam dentro da salamandra enquanto uma cor rosa começava a aquecer o quarto com o perfume de volúpia vaidosa de uma cómoda antiga. E vendo tal coisa acontecer, Julieta abriu com o braço uma parte do cobertor com o qual se se abrigava e assim o chamou para aquele calor de uma lonjura sem palavras que se continha junto dela.

 

Ainda disse a Nicolau com ar de desvendamento

 

Não vejo aqui mais nada para arder no teu quarto. Saibas tu, que eu não sou uma primeira escolha da vida, nem o meu choro merece esta poderosa magia que o teu sótão encerra.

 

Apertaram as mãos e assim ambos adormeceram.

 

Nicolau sonhou-se numa caça com alimento fresco e companhia na partilha.

 

Pela manhã, não viu Julieta a seu lado. Tão só um pedaço de madeira no qual ela escrevera

 

O rio não me espera.

 

Teresa Bracinha Vieira