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Blogue do Centro Nacional de Cultura

Um espaço de encontro e de diálogo, em defesa de uma cultura livre e pluridisciplinar. Estamos certos de que o Centro Nacional de Cultura continuará, como há sete décadas, a dizer que a cultura em Portugal vale a pena!

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CRÓNICA DA CULTURA

 

A ilusão da sabedoria

 

De fato a felicidade não é uma ideia nova, o que é novo é associar-se a conquista da felicidade às facilidades da vida, diz-me o Rui Vassalo ao entrarmos para o Jardim da Estrela, local de boas conversas do nosso grupo de então.

 

E sim, digo-lhe, concordo contigo, mas tudo me parecem caminhos indefinidos para um paraíso ali mesmo ao lado de cada um, e como já ninguém aceita o seu destino, há que aligeirar o que no mundo pode ser transformado, sem que qualquer preocupação de aperfeiçoamento pessoal colha hipóteses de embelezar o viver do eu na terra de todos. As metamorfoses das quais me dou conta são puramente do foro material. Julgo que se pensa dever existir um mínimo confortável a que todos tenham acesso, independentemente da insalubridade em que cada qual venha a viver esse mínimo: interessa sim, que dê pelo nome de mínimo confortável. Não sentes assim?

 

Pois. Entendo-te. O conforto são os muitos eletrodomésticos, as roupas de marca, a renovação periódica da imagem, a simplificação da vida e do descanso passivo, afinal o encontro de braços abertos com a felicidade individualista de massa. A ausência de conhecimento por parte do utilizador disto tudo, é óbvio, já que a evasão confortável é a que se instala nos prazeres e juízos fáceis. Nem imaginas Rui, o quanto sinto a violência disto tudo, vomitada em palavras mesquinhas e pensares rotos de telenovelas, equipamento-base para se avaliar comportamentos e mundo. Eu até acho que o formato dos prédios dos dias de hoje são bem o espelho de quem neles habita. A orientação dita estética conforma-se com a não proteção da paisagem interior e exterior de cada qual. Tudo, tudo está ligado. Não existirem hábitos de leitura, mas sim o carregar de tecla para que os motores de busca respondam de imediato onde se localiza hoje o novo território da felicidade.

 

Olha Rui, o teu irmão disse-me com um sorriso esclarecedor que a qualidade de vida dos utentes dos casamentos de hoje, assentam naquilo a que as mulheres querem chamar de amizade, e que permite que o casamento resulte porque são amigos e os divórcios são para o desamor, e, assim, safam-se estas mulheres pois sendo as maiores amigas dos seus maridos, mesmo que haja alguma separação elas mandam dentro da futura relação deles, e, se existir uma traição, não faz mal pois são apenas amigos e tudo se recompõe no somos muito felizes mesmo não sendo. E isto é felicidade.

 

Mas qual a razão de serem as mulheres a apregoar essa amizade?

 

Ora porque querem permanecer no mando do individuo pelo seu espaço e pelo seu sentir. Não sabias?

 

Bom! sei que não estou a pensar casar contigo e és a minha melhor amiga. Sei que no amor também há amizade, mas não quero ouvir falar dela nos votos nupciais, entendes?

 

Sim entendo. Tudo isto que está a acontecer não é novidade; são meros trabalhos de reabilitação do habitat afetivo. Repete-se o que não tem alicerce; receia-se que o amor seja pouco, seja escasso, termine mesmo, e, depois não sabem o que fazer, enquanto, a amizade é outra “tranquilidade”, mesmo que nos estejamos a referir à amizade nos votos matrimoniais. Assim não se arrisca o amor. Arrisca-se a cosmética… e não se entende depois o recurso aos médicos e a intolerância da doença…ainda que a maior parte das patologias são do foro dos piercings intelectuais. Enfim, envelhecer em bom estado faz parte da felicidade adquirida pelas facilidades da vida que se desejam viver. A própria inflação orgíaca do sexo agressivo e banalizado, consumível a toda a hora, o culto do obsceno e a justificação de que todos podem fazer o que querem, dependendo do seu registo, não os questiona. Ora, assim sendo, o aceder aos sites da pedofilia faz parte do mundo que se planteia com maior publicidade mesmo que saibam que a pornografia já em 1983 excedia as receitas geradas pelo cinema ou que agora a cannabis é tendência.

 

Vivemos afinal o tempo da festa dita decente?

 

Sim Rui vivemos o tempo da festa pálida do Homo festivus, tão pálida, tão light que os seus espectadores não resistem à sua própria hegemonia, à sua ambiência fun: só os decibéis da maré humana contam. Regressamos ao culto do instante exibindo-se a felicidade hedonista e narcísica numa estranha obsessão pela performance.

 

Será tudo isto apenas uma parte da ilusão da sabedoria? Digo-te Rui, às vezes penso que já cá não existimos.

 

Teresa Bracinha Vieira