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Blogue do Centro Nacional de Cultura

Um espaço de encontro e de diálogo, em defesa de uma cultura livre e pluridisciplinar. Estamos certos de que o Centro Nacional de Cultura continuará, como há sete décadas, a dizer que a cultura em Portugal vale a pena!

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Um espaço de encontro e de diálogo, em defesa de uma cultura livre e pluridisciplinar. Estamos certos de que o Centro Nacional de Cultura continuará, como há sete décadas, a dizer que a cultura em Portugal vale a pena!

CRÓNICA DA CULTURA

 

Qual é o défice de que falamos?

 

Segundo critérios contabilísticos normais, o défice ficará acima de x ou abaixo de y, dependendo dos compromissos que a Nação assumiu, ouve-se desde há muito na radio, na televisão, em tudo quanto é órgão por onde se faça comunicação. Também nos explicam uns, que pode existir inscrição de receitas falsas, camuflando o défice e este surgindo w ou z. Acontece que nos explicam ainda que não tenhamos ilusões, mas o défice não é um facto financeiro, é sim, uma decisão política assente no comportamento expectável de exigir a todos o não defraudar do fisco e por aí adiante. Mas, o motorista do táxi olhou para mim pelo espelho do retrovisor e perguntou-me bruscamente:

 

- Bolas, mas o raio do défice nunca se segura? ou tem de ser admitido porque tem de se pagar a saúde, ou, não pode ser admitido porque o motivo dele é todos roubarmos em tudo?

 

É assim?

 

- Hum!

 

- Hum! Então e a senhora não acha que o défice de que eles falam só tem lugar porque o verdadeiro défice é o da nossa falta de confiança neles, e olhe que com toda a razão. Neles e nos que se passeiam com eles, e nos que eles deixam a passear-se, não é?

 

- Pois…percebo.

 

- Claro que percebe. Se até eu percebo que o meu défice de sono assenta nas 12h de trabalho que faço, e ainda assim não durmo com a preocupação do dinheiro e as despesas a crescerem, e eu a saber o que agrava o meu défice de confiança em que eles me protejam quando eu já preciso de ajuda…e olhe, não entendem o meu défice, mas querem obrigar-me a entender o deles, e o deles, dizem que é o meu, ou que é por minha causa ou porque a culpa é da vigarice se encontrar a cada esquina e agrava o défice. Então não acha que o défice é um vício não tratado? é um vício de mata bicho e mata homem, sem prisão? E não há vacina?

 

- Bom, sabe, a democracia é muito frágil e abusa-se do que ela oferece de melhor e

 

- E…, desculpe, e…, nada, porque a democracia está a ser um vicio de país pobre, que já nem mata a sede com o voto, porque o défice é também a falta de trabalho e ninguém faz o necessário para o criar, pois, ou não sabem, ou não se querem meter em prejuízos se as medidas descambam. Não é? E a malta desmoraliza e já vota pouco. É outro défice, não é?

 

Olhe e temos conversa…, com este trânsito! completamente parado, pois já viu que neste país é um por cada carro? Aqui não há défice, não é? Então qual é o défice de que falamos? É nuns locais e noutros não? Então porque não copiam onde não há défice? nos tais locais do não? Que acha? Era boa ideia, não?

 

- Boa ideia era podermos acreditar nos direitos, nas instituições…e

 

- E…, desculpe, e…, nada. Como posso acreditar nas instituições se são elas que me tramam? Ando há 8 meses a tentar perceber quem me resolve um problema da reforma da minha mulher e até já me disseram a sorrir, olhe vá no dia 13 a Fátima e lá dizem-lhe. Vê, vê, isto é um défice de respeito ou um excesso de desvergonha? Que podemos fazer para termos paz face às garantias que a democracia nos prometeu?

 

- Prometeu e se o senhor lutar por ela, ela cumpre!

 

- Ah!, não sabia, então, desculpe lá, mas acha que eu não votei estes anos todos? Ninguém me pode acusar desse défice, e olhe que sempre fui pondo o pão na mesa, e olhe que tenho honra em Portugal e na minha aldeia. Mas pronto os portugueses habituam-se à miséria desde que respirem, e tem de haver algum défice estranho que os mantém assim. Não acha? Não acha? E os bancos? Olhe, minha senhora, quem não tem dinheiro para arranjar esse onde vai sentada, sou eu, e se os clientes continuarem a queixar-se, lá vou viver das dívidas, aumentar o défice, e os especuladores e os corruptos em crescimento na boa, até já nem haver crédito. Desculpe lá, ando a pregar e não mudo nada com isto, mas se não falo com os clientes, chego a casa bem pior que uma panela de pressão.

 

Ora faz favor, aqui está o troco. E tenha um bom dia e tenha esperança! e ainda fique com esta: o Estado precisa que existam pobres para justificar alguma proteção bondosa e daí o défice. Se calhar é desse défice que se quer que todos falemos e pelo qual não nos podemos queixar. Devemos ser bondosos. A senhora não é jornalista, pois não? Pois não?

 

Teresa Bracinha Vieira

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