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Blogue do Centro Nacional de Cultura

Um espaço de encontro e de diálogo, em defesa de uma cultura livre e pluridisciplinar. Estamos certos de que o Centro Nacional de Cultura continuará, como há sete décadas, a dizer que a cultura em Portugal vale a pena!

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CRÓNICA DA CULTURA

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   A EUROPA: uma possibilidade

 

Creio que se deseja uma Europa que consiga preservar a paz, uma Europa próspera, uma Europa em cuja cultura civilizada os cidadãos se identifiquem, desafiadores de um futuro responsável, responsável também pela ordem social que abarca a procura de uma justiça justa, uma justiça fora dos cenários das utopias, uma justiça como condição única e natural forma dos povos se entenderem e se serenarem.

Quero crer que se deseja a Europa! Quero crer que esse desejo é consciente de que terá de ser urgentemente realizado nesta Europa, um imediato futuro diferente daquele por onde tanto errámos. Em rigor, também sinto que o projecto de integração europeia, na actual União Europeia resultou nesta Europa sacudida e doente; tombada pelas mãos das inúmeras políticas e instituições que dela se serviram para a abater, para a partir em tantos pedaços quanto os necessários à manipulação da sua fragilidade, de modo a que o seu reerguer não se pudesse concretizar.

Todavia, volto a insistir: quero crer que se deseja uma Europa unida e noutros parâmetros, quero crer que se vai lutar por ela, ou a certeza de que o corolário natural da actual situação, se nada de relevante for feito, terá tantas consequências negativas que este nosso Portugal se transformará em mero ancião-cidadão-comum de destino de inaceitável preço.

A nível global, a realidade que acarretaria a queda desta Europa sem alternativa no seu seio, tenho-a, na minha modesta opinião, como imprevisível e perigosíssima, ou essa realidade não deitasse mão da entropia e dos equívocos vividos neste projecto, para que as grandes rupturas globais, onde se não desejam, fossem activadas, clarificando-se enfim, o mundo, que se não apraz nas ideias da consensualização.

Urge falarmos, discutirmos, actuarmos em urgência prioritária à ideia de uma Europa unida com possibilidades de “exigência pragmática de utopia” como referiu Steiner, mas igualmente com a capacidade de protegermos objectivamente as democracias dos nacionalismos que se deleitam a provar, em estratagemas de ocasião, o quanto os direitos humanos são exigentes de concretizar.

Quero crer que iremos saber provar que para um novo mundo europeu, existem caminhos que só se percorrem pelo respeito dos menos poderosos; pelo respeito pelas diferenças pois que a Europa é plural, pelo assumir da solidariedade, e entre tantas outras vertentes nucleares, pelo conhecimento de que as grandes preocupações são não-territoriais.

A Europa continuará a ser uma possibilidade, se desde logo não descurarmos que o aumento terrível da pobreza na União Europeia significa, em última análise, a descrença de milhões de europeus na sua melhoria de vida, e por essa descrença somos todos responsáveis de modo agravado, se não criarmos de imediato, dentro da União Europeia as vias que concretizem a união política que venha a suportar outras uniões que façam frente aos poderosos interesses instalados.

Quando o nosso futuro comum, enquanto europeus, resvala para o abismo, e depois das grandes guerras vividas, resta acreditar que a Europa é uma possibilidade! sim! é uma esperança!, sim!, contra os fatalistas, se se souber refundar  a tempo de não permitirmos que esta Europa seja mero joguete esfarrapado nas mãos dos directórios internacionais.

Urge que um dos grandes muros a destruir seja o que impede o vigor no combate para que se inicie um futuro melhor, um futuro que seja pedra fundamental e pedra filosofal, pedras que impeçam, nomeadamente que a hegemonia do capital e a desregulação que lhe deu chão impeçam de vez, que a arquitectura do dinheiro se infiltre nos processos de deliberação política.

A Europa: uma possibilidade!

 

                                                       Se voltasse ao princípio, começava pela cultura.

                                                                                Jean Monnet

 

Teresa Bracinha Vieira