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Blogue do Centro Nacional de Cultura

Um espaço de encontro e de diálogo, em defesa de uma cultura livre e pluridisciplinar. Estamos certos de que o Centro Nacional de Cultura continuará, como há sete décadas, a dizer que a cultura em Portugal vale a pena!

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CRÓNICA DA CULTURA

Quem testemunhara as primícias da doença?

 

Só se sabia que alguém ao aproximar-se sentira a iminência do vigor da morte.

 

Sabe-se também que uniu as letras e dali fugiu, então, a correr, num passo aflitivo sem ideia de o parar.

 

Ante o que vira, estranhava agora, o fato de estar vivo, e ainda que de rosto no chão, a desfalecer, sabia que não tinha sido infetado, assim lhe diziam as seguras palavras antigas do conhecimento: era imune.

 

Os novos vírus enfurecidos abraçavam primeiro as cidades, antes de correrem aldeias e mundo em abraços de nó cego.

 

A área da epidemiologia esclareceu, que eles, os novos vírus, não se deixavam aprisionar e que as criaturas, nunca se moveriam mais rápidas do que eles, ou, elas mesmas, não fossem as portadoras-ninho, onde eles, de vontade, se aninhavam.

 

Intrigante achado este, o de saber que as criaturas eram em si os vírus, apesar de amáveis e muitas vezes afáveis até em extremos.

 

Deste modo, todos eram testemunhas em causa própria das primícias da doença. Todos temiam o inevitável contato consigo mesmos.

 

Machos ou fêmeas, afinal malditos cães e cadelas, uivavam, quem afinal cuidará de mim? Escravos, eunucos, quem cumprirá as nossas ordens? E assim bradavam contra vivos e mortos que se negavam a servi-los, enquanto, nos vírus deles próprios, um furor letal.

 

Às vezes, soube-se, as criaturas paravam e olhavam-se, de olhos revirados, soltos, sem noção verdadeira da extensão da catástrofe, e iniciavam uma marcha em todas as direções, ignorantes de que tinham a doença no abraço de si, e, que deles próprios, não saberiam o como do início de uma debandada.

 

Amontoavam-se os cadáveres insepultos. O pânico impunha as condições. O caos era senhor.

 

Algumas criaturas voaram nos seus próprios aviões numa fuga que incandescia de imediato e desaparecia sugada pelos buracos negros, enquanto outros ponderavam rezar, fazer quarentenas, peregrinar, e a coberto do caos, negociar a vida.

 

Esta era a doença na sua primeira erupção.

 

Foi quando se começaram a declarar casos isolados de criaturas de grau de infecciosidade mais baixo, que, enfim, se descobriu o imune, de rosto no chão, quase arrebatado de entre os mortos, e era o tal que unira as letras.

 

Inexplicável facto, este, de entre todos, imune. De entre todos, a esperança. E nunca a sua responsabilidade fora maior: assim pensou, ainda de rastos a ler no chão.

 

Mas qual o matiz da diferença? Qual o motor que nele não ignorou o dever de resistência e de interpretação? Seria esta uma desigualdade natural? Sem pertencer a grupo, e era imune?

 

E fora, afinal, o estado de conhecimento que o fizera unir as letras em completude.

 

Esta a chave do inexplicável primordial: a vacina nas cores de Sandro Botticelli, testemunhas, e afinal primícia do grande segredo que pode jorrar da humanidade. 

 

Teresa Bracinha Vieira

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