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Blogue do Centro Nacional de Cultura

Um espaço de encontro e de diálogo, em defesa de uma cultura livre e pluridisciplinar. Estamos certos de que o Centro Nacional de Cultura continuará, como há sete décadas, a dizer que a cultura em Portugal vale a pena!

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CRÓNICAS PLURICULTURAIS

 

70. AVALIANDO O INDIVÍDUO E AS SUAS IDEIAS


Deverá o indivíduo ser apenas avaliado em função das suas ideias? 
Ser mais avaliado do que as suas ideias?
Ser menos avaliado do que as suas ideias?    
Há obras sublimes de pessoas machistas, femistas, misóginas, misândricas, mitómanas, alcoólicas, avarentas, devassas, xenófobas, racistas, homicidas, vigaristas, escandalosas, opiómanas, perversas, cujos autores ambicionavam mudar para melhor a natureza humana, mas que não hesitavam pessoalmente em humilhar ou tiranizar.  
Se é um dado assente que o mundo pode ser remodelado ou transformado pela força do intelecto, podendo criar uma sociedade e civilização melhor, também há utopias fraudulentas em que a teoria colocada à frente da experiência transforma esta, quando no poder, em controlos totalitários não poucas vezes louvados por intelectuais promotores de ideias tirânicas.     
Se as falhas privadas do indivíduo não devem anular o seu génio, havendo que separar o autor da obra quando falamos, por exemplo, de criação artística, é compreensível investigar e saber o essencial da biografia de mentores e mentes que tentaram e ousaram modificar, transformar e revolucionar a sociedade e a natureza humana.
Haverá sempre algum ganho se adicionarmos ao conhecimento biográfico o da obra. 
O que nos leva a concluir que há autores cuja biografia se confunde com a obra, outros não, ou nem por isso.  
Muitos deles, como cidadãos comuns, foram maus e péssimos exemplos, o que não traz nada de novo, por também inerente ao ser humano.   
Justifica-se que as suas ideias sejam liminarmente rejeitadas? Mesmo não concordando com elas, apesar do seu autor, como cidadão comum, ser uma boa pessoa? 
A avaliação e reflexão, em democracia, situa-se noutro patamar: as suas ideias devem ser reprovadas pelos argumentos, pela discussão, pelo debate, questionamento, réplica, exercício do contraditório e sentido crítico, pela força da razão, e não porque foram inaptos de as adaptar na sua circunstância ou por qualquer outro fundamento moral que as anule ou desacredite.

 

16.04.2012
Joaquim Miguel de Morgado Patrício