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Blogue do Centro Nacional de Cultura

Um espaço de encontro e de diálogo, em defesa de uma cultura livre e pluridisciplinar. Estamos certos de que o Centro Nacional de Cultura continuará, como há sete décadas, a dizer que a cultura em Portugal vale a pena!

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CRÓNICAS PLURICULTURAIS

 

92. A OBRA E O ANONIMATO


Pode separar-se a obra do seu autor.

Daí que possa haver bons escritores, cineastas, escultores, pintores e artistas em geral, e más pessoas ou maus cidadãos.

Nem as tendências pró-fascistas do futurismo italiano, nem o fascismo de Ezra Pound,  nem o alcoolismo e fúrias explosivas de Hemingway que findavam em maus-tratos e humilhações da esposa, nem a ideologia comunista de José Afonso, entre tantos exemplos, impediram o reconhecimento da sua obra.  

A separação entre a obra e o autor garante a pureza em termos da criação artística.

Seja o autor conhecido ou desconhecido.

Pelo que também é defensável que a não revelação da verdadeira identidade seja legítima, focando-se o destinatário da obra (leitor e público em geral) no livro, pintura, escultura, obra de arte, não sendo contagiado pelos efeitos mediáticos associados ao seu criador.     

Nesta perspetiva, também o anonimato pode garantir a pureza da obra. 

O que importa, de novo, é a obra, não o autor.

Surge na memória a decisão da escritora italiana Elena Ferrante de não querer aparecer em público nem revelar a sua verdadeira identidade. 

Mas se é a obra que importa, o anonimato pode de igual modo ser visto como uma forma de o autor preservar a sua liberdade, libertando-o de compromissos públicos e preconceitos pré-estabelecidos coligados a um nome, e recorrendo a pseudónimos, por exemplo.  

E se é falacioso fixar uma relação direta entre a obra e o seu autor, isso não exclui que para além de ser fundamental conhecermos a obra, também não o seja conhecer a circunstância em que foi criada pelo autor.

Pois se importa a obra, também importa o nome.  

Por maioria de razão num mundo em que o processo criativo visa um reconhecimento permanente do que permanecerá e será esquecido, rumo a uma imortalidade, exposição e glória mediática quase sempre desejada pelo do autor da obra.      

 

07.01.22
Joaquim Miguel de Morgado Patrício