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Blogue do Centro Nacional de Cultura

Um espaço de encontro e de diálogo, em defesa de uma cultura livre e pluridisciplinar. Estamos certos de que o Centro Nacional de Cultura continuará, como há sete décadas, a dizer que a cultura em Portugal vale a pena!

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CRÓNICAS PLURICULTURAIS

  


159. O NÃO PODER E O SUPERPODER DA CRIAÇÃO ARTÍSTICA


Rareia alguém querer que os seus filhos sustentem permanentemente as suas vidas como escritores, desenhadores, pintores, escultores, compositores, músicos, fotógrafos, ilustradores, através do cinema, do teatro, da dança, da moda, de experiências artísticas que possibilitem misturar imagens, movimentos, sons, textos, pela via digital ou computacional.


Quase ninguém, ou “ninguém”, quer filhos artistas ou criadores artísticos, porque há a perceção, na sociedade, que a criação artística e as artes em geral não dão, aos seus mentores e protagonistas, estabilidade e sustento, mas sim carência, incerteza, insegurança.     


Mesmo que únicos, geniais ou dotados de uma singularidade diferenciadora, essa genialidade deve ser canalizada para áreas mais estáveis, portadoras de conforto e de uma garantia de sucesso em termos económicos e sociais.


Querem-se filhos economistas, engenheiros, gestores, informáticos, juristas ou médicos, mas não profissionais do âmbito e domínio artístico, mesmo que exaltemos grandes escritores, poetas, músicos, pintores, escultores, realizadores, atores, começando por aqueles que podemos fruir, ler ou ouvir nas nossas casas.


No entanto, todos reconhecemos que os criadores artísticos são uma grande parte das referências do mundo em que vivemos, estimulando e escrutinando o sentido crítico das coisas, inovando e superando a nossa condição humana, enriquecendo a cultura com o belo, criações e ideias novas, numa aventura sem fim. 


E como referências do nosso espaço existencial podem definir a História, criar um registo ou deixar um testemunho para o futuro. Para que o futuro o possa ler, ouvir, reproduzir ou ver. 


Se a História fala de poderosos, que tiveram poder sobre milhares ou milhões de pessoas enquanto vivos, ao invés do pouco poder que a quase totalidade dos criadores artísticos tiveram em vida, após a morte de todos sobrevive apenas o testemunho e o registo que ficou como superpoder dos escritores, pintores, escultores, músicos, cineastas, entre outros, como classificação e memória coletiva de uma época e civilização, como o exemplifica a “Guerra e Paz”, de Tolstoi, obra que melhor retrata a invasão da Rússia por Napoleão. 


Mesmo quando perseguidos ou assassinados em vida, muitos desses criadores sobreviveram e sobrevivem, com o legado da sua obra, após a morte, através de um poder (ou superpoder) que contrasta com o pouco ou nenhum que tiveram enquanto vivos.     


26.01.24
Joaquim M. M. Patrício