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Blogue do Centro Nacional de Cultura

Um espaço de encontro e de diálogo, em defesa de uma cultura livre e pluridisciplinar. Estamos certos de que o Centro Nacional de Cultura continuará, como há sete décadas, a dizer que a cultura em Portugal vale a pena!

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CRÓNICAS PLURICULTURAIS

  


161. O MELHOR E O PIOR NAS ARTES E NA VIDA


“É muito libertadora a facilidade, sempre que ouvimos a música de Wagner, com que nos esquecemos da maldade do compositor. A razão é simples: a música é muito boa. Deve haver uma escala de correspondências morais entre os defeitos humanos de um artista e as qualidades artísticas das coisas que criou. Se foi - ou é - muito má pessoa, as obras de arte têm de ser muito boas. Wagner tinha muitos defeitos para compensar, mas compensou-os.


Também há artistas que são humanamente muito bons, mas que artisticamente são infernalmente maus. Talvez sejam bonzinhos por serem tão maus. Nisso, parecem-se com os bons artistas que acham graça serem mauzinhos como as cobras.


Talvez a maldade tenha uma tabela de preços: quanto maior, mais se tem de pagar em obras de arte”
(Miguel Esteves Cardoso, A Tabela de equivalências, Público, 22.01.24).     


Eis um exemplo de um bom compositor e de um mau cidadão. Do que há de melhor na música, a maior de todas as artes, para muitos, e o que há de pior na sua vida, conhecida pelo seu anti-semitismo, prosseguido por descendentes (o que não significa que, o que com acutilância, ironia e perspicácia é citado, seja adequadamente extensivo e científica e diretamente proporcional à maioria dos criadores).     


A História está cheia de pecados e vícios privados, tantas vezes horrendos e ocultos, de homens e mulheres das letras, ciências e artes em geral que foram e são pessoas canonizadas e consagradas pela sua obra, mas desaconselháveis, maus exemplos ou desprezíveis em função de uma moral pública e legal vigente, em convivência com sórdidas histórias de família.


Pergunta-se: pode o autor ser menos avaliado do que as ideias que defende enquanto indivíduo, pessoa singular ou cidadão comum, separando a obra do seu criador?


Considerando que uma obra vale e deve valer por si, ao arrepio das opções pessoais do seu autor, do politicamente correto ou das políticas que a divulgam ou promovem, sempre entendemos que pode e deve separar-se o valor intrínseco da obra do seu criador, quando falamos de criação artística, por exemplo.   


O que não exclui ser legítimo saber o essencial da biografia dos criadores, alguns tidos por génios ao pretenderem ajudar a regenerar, revolucionar e alterar a natureza humana, o que nos leva a concluir que o mundo não pode ser apenas modificado e remodelado pela força do intelecto, das ideologias, ideias e conceitos, havendo que averiguar e examinar de perto a vida das pessoas, in casu, dos autores das coisas criadas.


Sem esquecer que a arte é um espaço de liberdade onde tudo é possível, onde podemos colocar o que há de melhor e pior em nós à revelia do sistema, em que esse melhor e pior é parte de quem somos como seres humanos evoluíveis, defectíveis e perfectíveis.


09.02.24
Joaquim M. M. Patrício

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