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Blogue do Centro Nacional de Cultura

Um espaço de encontro e de diálogo, em defesa de uma cultura livre e pluridisciplinar. Estamos certos de que o Centro Nacional de Cultura continuará, como há sete décadas, a dizer que a cultura em Portugal vale a pena!

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CRÓNICAS PLURICULTURAIS

  


175. É MAIS DIGERÍVEL CONVERTER O MAL HUMANO NUM MAL NATURAL? 1


A identidade de uma pessoa é maleável, em grau maior ou menor, segundo aqueles que nos acompanham. A sociabilidade de certas pessoas pode estimular a nossa compaixão, generosidade, humanidade e sensibilidade. A de outras, a nossa crueldade, frieza, desumanidade e indiferença.


Para William Wordsworth, a natureza incute-nos a acessibilidade de procurar na vida e uns nos outros o que há de bom e saudável. A natureza, ser inanimado, tem a capacidade de exercer influência sobre os outros seres que a rodeiam. Cascatas, flores, glaciares, icebergues, montanhas, oceanos, vulcões, um castanheiro ou uma celidónia, têm o poder de nos sugerir certos valores. Há quem veja nas flores modelos de humildade e mansidão, nos lagos de serenidade e nos pinheiros de resolução. 


Estes seres, que temos como desprovidos de consciência, não são apenas arquétipos inspiradores de virtude, mas também instigadores do medo, do terror, do inconquistável e invencível. Muitos deles fazem-nos sentir pequenos e insignificantes na ordem natural das coisas, perante a imensidão do deserto, dos oceanos, a altivez, altitude e imponência de algumas montanhas. Uns, com a sua aura sublime, também suscitam sentimentos de natureza espiritual ou dimensão religiosa. Outros, são indomáveis na sua impensável beleza.     


A hegemonia da natureza também está presente na obra de W. G. Sebald (escritor alemão, 1944-2001), onde as civilizações humanas acabam sempre em ruínas. São sempre reconquistadas pela natureza, que é insuperável e está permanentemente em guerra com o que é humano.     


A natureza determina a visão de Sebald sobre o seu país e a própria natureza humana: a sociedade sobrevive moralmente quando transforma o mal humano num mal natural, ou seja, quando mascara uma catástrofe causada pelos seres humanos com a roupagem de uma calamidade natural. A destruição causada pela guerra, as suas atrocidades e bombardeamentos convertem-se na destruição causada por uma tempestade, um terramoto ou um tsunami.   


Enquanto Wordsworth sustentava que a “amabilidade” da natureza servia de guia a incitar-nos à busca do bem dentro de nós, a Alemanha, em pleno nazismo e segunda guerra mundial, recorria à amoralidade da história natural de molde a justificar o mal que há dentro de nós.     


Ao lado da deslumbrante e idílica beleza dos campos, pode haver a fascinante beleza da ordem, do medo que intimida e aterroriza.


Este recurso a elementos amorais e inconscientes da natureza, como causa de justificação da ilicitude ou da culpa, levou Sebald a revoltar-se contra essa metamorfose da memória, convertendo-a em deturpação, interpelando o silêncio sobre a Alemanha enquanto agressora e, também, enquanto vítima.


Opina que os alemães, com especial responsabilidade para escritores e intelectuais em geral, não souberam ou não quiseram lidar com os bombardeamentos aéreos sobre as suas cidades, com as vítimas civis, os feridos, os órfãos, os que perderam tudo, conduzindo-os a uma sociedade moral desacreditada. Conclui: “parece que ninguém escreveu sobre essas coisas nem se lembrava delas”.


Assumiram a destruição da segunda grande guerra, incluindo a sua derrota e consequências, do mesmo modo que um terramoto ou tsunami, não procurando o luto ou culpados, impedindo qualquer reflexão como agressores e vítimas, o que Sebald censurou, sem querer diabolizar os vencedores e vitimizar os vencidos.


Se não havia responsáveis de ambos os lados, nem reflexão a fazer, aguenta-se e segue-se em frente, transformando o mal humano num mal natural, ou levantamo-nos contra esta perspetiva e, se sim, em que termos?   


Há quem se rebele contra esse consentimento, mesmo que tácito, sendo um deles W. G. Sebald.           


17.05.24
Joaquim M. M. Patrício

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