CRÓNICAS PLURICULTURAIS
236. SEXTA-FEIRA PRETA
A sexta-feira preta ocorre na última sexta-feira do penúltimo mês do ano, no dia de hoje, 28 de novembro de 2025.
Com raízes nos Estados Unidos da América e mundializada pela globalização anglo-saxónica, indicia-se ser mais universalmente conhecida por “black friday”, como sucede entre nós, o que se lamenta, tanto mais que o seu nome e dicção, em português, é eficaz e marcante, mesmo em termos comerciais lusófonos. Ou sexta-feira negra? Tenho, por mim, a sexta-feira preta como menos artificial e elaborada, porque naturalisticamente mais nativista.
Porquê esta anglicização incorporando na língua portuguesa vocabulários desnecessários, quando o nosso idioma é portador de expressões que têm um significado igual e um efeito similar? Ou até um impacto superior, e não inferior, em termos de pronunciação linguística, com a vantagem de que fazemos “jus” à nossa língua materna como elemento e referência número um em termos da nossa singularidade como nação e no espaço lusófono.
Há que não contribuir para que nosso idioma seja “socialmente subestimado”.
Há que não promover o uso confidencial da nossa língua.
Há que não fazer o culto de esconder dos ouvidos externos um bem de que eventualmente nos julguemos ser os únicos possuidores.
Muito menos ter um complexo de inferiorização linguístico de algo que nos identifica e é uma língua de comunicação global e internacional, transcontinental e transcultural.
E que surge na galáxia linguística mundial como integrando o restrito conjunto das “central languages” (línguas centrais), no quadro de um sistema linguístico global, mesmo sabendo que o inglês surge como hipercentral, função que agora lhe cabe.
Se já há quem não resiste à sexta-feira preta em termos de um consumismo apelativo de um consumo compulsivo tendencialmente tido como enganador ou indutivo em erro, o ideal seria começar por não sucumbir a um estrangeirismo, um anglicismo tomado desnecessariamente por empréstimo.
Por preguiça mental ou puros interesses comerciais? Por ambos os motivos, por certo, a par de um provincianismo de seguir mimeticamente, com uma subordinação alegre, chique e inconsciente, o que é importado de países alegadamente “superiores”.
É lamentável que nem nós próprios, na nossa própria casa, não consigamos resistir a esta usucapião pacífica linguística, subtil e lesiva, de um bem jurídico que nos singulariza e universaliza.
28.11.25
Joaquim M. M. Patrício