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Blogue do Centro Nacional de Cultura

Um espaço de encontro e de diálogo, em defesa de uma cultura livre e pluridisciplinar. Estamos certos de que o Centro Nacional de Cultura continuará, como há sete décadas, a dizer que a cultura em Portugal vale a pena!

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CRÓNICAS PLURICULTURAIS

  
   © AP Photo/Emilio Morenatti


237. O TEMOR DA OPINIÃO PÚBLICA


As pessoas devem ser naturais e seguir os seus gostos e convicções na medida em que não sejam abertamente antissociais.   

Poucas são felizes se a sua vida, elaboração e idealização do mundo não forem sancionadas, no geral, por aqueles com quem se relacionam socialmente, em especial por aqueles com quem vivem.

A maioria, para se sentir bem e realizada, carece de um ambiente simpático, de adaptar-se aos costumes e credos usuais, aguardando o reconhecimento dentro da norma. 

Outros, em pequenas ou grandes minorias, fogem às convenções demasiado convencionais, formais e rígidas, submetendo-se o estritamente necessário a uma convivência de coexistência integrante e pacífica.   

É menos saudável uma sociedade onde a opinião pública se rege por convenções em que toda a gente procede do mesmo modo, dado ser mais interessante uma sociedade em que, em princípio, as pessoas não são réplicas da maioria ou de todas as outras.   

Por exemplo, todos os que têm algum mérito artístico ou intelectual se sentem mais facilmente “hostilizados” num meio ou sociedade em que o futebol é rei, porque fogem ao que é a regra. Do mesmo modo, ao escolher-se uma carreira ou profissão, mesmo que respeitável, mas não costumeira ou consagrada no meio, pode-se ser apelidado de cobiçoso ou desajustado.

Havendo timidez injustificada, pode ser mais tirânica a reação, por analogia com a velha máxima de que um cão ladra e morde com mais força quando a vítima se assusta do que quando manifesta indiferença.   

Porém, uma pessoa estimulada e inclinada a ter gostos e convicções diferentes da opinião geral, pode sentir-se “degredada” ou “exilada”, condenada a isolamento hostil e causa de sofrimento, o que não exclui que noutro grupo não possa ser tida como alguém totalmente normal.   

Se o receio dos vizinhos é agora menor do que antigamente, surgiu um novo medo, com o aparecimento da imprensa em papel e digitalizada, que é o pânico do que podem dizer os jornais, as revistas e as redes sociais, uma nova forma de perseguição social, em especial para quem se expõe publicamente, um temor opressivo que pode ser tão assustador como o da caça às bruxas em tempos idos. 

Se bem que seja compreensível, em regra, respeitar a opinião pública dentro do que é exigível a uma convivência consensual mínima em sociedade, tudo o que ultrapasse esses limites pode ser submissão ou infelicidade. 

Mas sabemos que sempre houve e há pessoas de uma vida interior tão poderosa que o seu isolamento, a sua solitude, a incompreensão e a hostilidade do grupo ou do meio não as subjugaram, dada a sua envergadura espiritual, como as irmãs Bronte (em especial Emily) a quem alguma simpatia só sorriu após a publicação dos seus livros. 


05.12.25
Joaquim M. M. Patrício

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