CRÓNICAS PLURICULTURAIS
Wordsworth
239. DOS LUGARES E MEMÓRIAS DO TEMPO
Há lugares do tempo de que podemos ter ou não consciência da inscrição que gravaram na nossa memória.
A sua permanência interior (em nós) é testemunho de que há na natureza lugares que nos acompanham ao longo de toda a vida, consciente ou inconscientemente, e que, quando voluntariamente a eles acedemos, em termos de consciência, podem ser uma força de combate e de consolo perante as dificuldades do presente.
Wordsworth, poeta inglês, expressa as suas experiências, que apelida de “lugares no tempo”, nestes termos:
Há na nossa existência lugares no tempo,
Que preservam em clara permanência
Uma virtude que renova…
Que nos penetra e faz subir mais alto
Quando é alto que estamos, e caídos nos levanta.
Há na natureza lugares do tempo que sugerem valores e virtudes: serenidade nos lagos, lagoas e espelhos de água, desenvoltura, eficiência e determinação na verticalidade dos pinheiros, beleza, humildade, docilidade e suavidade das flores nos jardins, admiração e emoção pela grandeza dos grandes desertos ou monumentalidade dos Himalaias, Perito Moreno ou do glaciar Upsala.
Mas nem tudo o que é puro, são e virtuoso, tem caraterísticas de permanência na natureza, como os cataclismos e fenómenos naturais que nos ultrapassam e de que, quando vividos, temos consciência da inscrição que gravaram na nossa memória.
Do mesmo modo que há um processo similar quanto às nossas memórias do tempo, em que a sua permanência interior, em cada um, nos levam a sustentar que há memórias que nos acompanham para sempre, enquanto vivos, muitas delas vindo ao de cima no nosso consciente de modo involuntário e automático.
Se ao longo da vida, por maioria de razão ao se aproximar o nosso fim terreno, fizermos intencionalmente, em retrospetiva, uma análise da nossa existência, haverá lugares e memórias do tempo de permanência interior, no seu melhor e pior, sendo revelador saber, em qualquer caso, quais os mais e as mais marcantes e qual a primeiríssima memória do tempo e o primeiríssimo lugar do tempo da nossa infância de que temos consciência. E há lugares e memórias do tempo que não consciencializamos, como o dia em que nascemos.
Sem esquecer a capacidade do cérebro em aceder a lembranças sem esforço aparente, de que aparentemente não nos recordamos, mas que, na verdade, conscientizamos em termos de “memória involuntária”, como nas madalenas de Proust que o transportavam para a memória gustativa e olfativa da sua infância, numa dualidade entre lugares do tempo e memórias do tempo.
19.12.25
Joaquim M. M. Patrício