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Blogue do Centro Nacional de Cultura

Um espaço de encontro e de diálogo, em defesa de uma cultura livre e pluridisciplinar. Estamos certos de que o Centro Nacional de Cultura continuará, como há sete décadas, a dizer que a cultura em Portugal vale a pena!

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CRÓNICAS PLURICULTURAIS

  
    Wordsworth


239. DOS LUGARES E MEMÓRIAS DO TEMPO

Há lugares do tempo de que podemos ter ou não consciência da inscrição que gravaram na nossa memória.  

A sua permanência interior (em nós) é testemunho de que há na natureza lugares que nos acompanham ao longo de toda a vida, consciente ou inconscientemente, e que, quando voluntariamente a eles acedemos, em termos de consciência, podem ser uma força de combate e de consolo perante as dificuldades do presente.

Wordsworth, poeta inglês, expressa as suas experiências, que apelida de “lugares no tempo”, nestes termos:

Há na nossa existência lugares no tempo,     
Que preservam em clara permanência       
Uma virtude que renova…     
Que nos penetra e faz subir mais alto   
Quando é alto que estamos, e caídos nos levanta.

Há na natureza lugares do tempo que sugerem valores e virtudes: serenidade nos lagos, lagoas e espelhos de água, desenvoltura, eficiência e determinação na verticalidade dos pinheiros, beleza, humildade, docilidade e suavidade das flores nos jardins, admiração e emoção pela grandeza dos grandes desertos ou monumentalidade dos Himalaias, Perito Moreno ou do glaciar Upsala.   

Mas nem tudo o que é puro, são e virtuoso, tem caraterísticas de permanência na natureza, como os cataclismos e fenómenos naturais que nos ultrapassam e de que, quando vividos, temos consciência da inscrição que gravaram na nossa memória. 

Do mesmo modo que há um processo similar quanto às nossas memórias do tempo, em que a sua permanência interior, em cada um, nos levam a sustentar que há memórias que nos acompanham para sempre, enquanto vivos, muitas delas vindo ao de cima no nosso consciente de modo involuntário e automático. 

Se ao longo da vida, por maioria de razão ao se aproximar o nosso fim terreno, fizermos intencionalmente, em retrospetiva, uma análise da nossa existência, haverá lugares e memórias do tempo de permanência interior, no seu melhor e pior, sendo revelador saber, em qualquer caso, quais os mais e as mais marcantes e qual a primeiríssima memória do tempo e o primeiríssimo lugar do tempo da nossa infância de que temos consciência. E há lugares e memórias do tempo que não consciencializamos, como o dia em que nascemos.  

Sem esquecer a capacidade do cérebro em aceder a lembranças sem esforço aparente, de que aparentemente não nos recordamos, mas que, na verdade, conscientizamos em termos de “memória involuntária”, como nas madalenas de Proust que o transportavam para a memória gustativa e olfativa da sua infância, numa dualidade entre lugares do tempo e memórias do tempo.    


19.12.25

Joaquim M. M. Patrício

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