CRÓNICAS PLURICULTURAIS
240. FAMÍLIA
1. Definir, hoje, o que é uma família, implica, para os ocidentais, ir para além da trindade fundadora e nuclear composta por pai, mãe e filhos unidos por laços biológicos.
O conceito incluso nesta palavra teve, nos últimos anos, uma significativa evolução, em que a família pode assumir as mais variadas formas, quer provenientes do casamento tradicional, de serem constituídas apenas pela mãe ou pai e os filhos, de enlaces entre pessoas do mesmo sexo, liberalização e normatividade consagrada que se estende às fertilizações in vitro, barrigas de aluguer, uniões de facto hétero ou homoafetivas, além de situações em que os dois elos ou apenas um deles trazem descendentes de relações anteriores.
Embora a norma dominante continue a ser, na civilização ocidental, a que configura a família clássica e nuclear, novas formas de parentalidade e de organização familiar emergiram, abalando o único modelo oficializado, durante séculos, dos pais se organizarem para cuidarem da sua filiação, inviabilizando outros relacionamentos familiares com o estigma de que neles as crianças pudessem crescer felizes e psicologicamente equilibradas.
2. Há quem veja na felicidade de ter filhos uma dupla origem: pelo sentimento de exteriorização do próprio corpo, pelo qual a vida continua sob a forma de uma nova pessoa, assegurando a perenidade do recurso genético e da espécie e, ao mesmo tempo, o impulso natural de suprir ao novo ser humano as suas necessidades, enquanto necessário, num desejo e satisfação de amor e autoridade.
Porém, procriar, não é como era antes, dado ser hoje, para a maioria, cada vez menos instintivo ou um dever público. Havia em relação às mulheres o preconceito de que ter filhos era a sua grande missão terrena, o que não sucede, atualmente, no ocidente, não lhe conferindo prestígio social o facto de ser mãe. Se tiver êxito na vida profissional e conciliar ambas as coisas, aí sim, é bastante considerada.
Se os pais são verdadeiros pais, a sua afeição pelos descendentes reside essencialmente no facto de ser tida como mais digna de confiança que qualquer outra, sendo nos momentos de infortúnio um “porto de abrigo”, pelo que, em princípio, tendo como referência a natureza humana, não surpreende que para a esmagadora maioria dos progenitores os filhos lhes proporcionem psicologicamente a felicidade maior que a vida pode dar. Há quem renuncie a essa felicidade, outros a desejaram e tentaram e não conseguiram.
3. Ter filhos não é um requisito obrigatório para constituir família. Mas quando o é os defensores do antigo e único modelo familiar resistem. Argumentam que os portadores dos novos modelos não defendem a família nem a proteção das crianças, sofrendo estas sérias consequências psíquicas.
Não sendo a construção da filiação, per si, um processo natural, o mais determinante não será o desenvolvimento de uma criança ser rodeado de amor, apoio, carinho, compreensão e preocupação no imaginário familiar a que pertence? Ou o lugar que tem no afeto daqueles que integram o seu aconchego e regaço familiar, do que a constituição da família à qual pertence? Se assim é, há que considerar o conceito de família nuclear como modelo único?
Se a família já não é o que era, há que encarar essa realidade de profundas mutações éticas, jurídicas, políticas e sociológicas no seu entendimento hodierno, mesmo que não nos surpreendam as resistências que consideram a noção de família nuclear como modelo exclusivo e exclusiva possibilidade para os relacionamentos familiares que se estabelecem. E mesmo que o paradigma dominante da sagrada família continue a ser, na civilização ocidental, o que configura a família nuclear.
26.12.25
Joaquim M. M. Patrício