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Blogue do Centro Nacional de Cultura

Um espaço de encontro e de diálogo, em defesa de uma cultura livre e pluridisciplinar. Estamos certos de que o Centro Nacional de Cultura continuará, como há sete décadas, a dizer que a cultura em Portugal vale a pena!

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CRÓNICAS PLURICULTURAIS

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241.  TRABALHO, NÃO TER NADA PARA FAZER E NÃO FAZER NADA

 

O trabalho, se não for excessivo, é preferível à ociosidade. Preenche uma boa parte do dia sem termos de decidir sobre o que havemos de fazer, sendo um preventivo e um alívio para o aborrecimento e o tédio. Dá oportunidades de sucesso e abre as portas à ambição. E há nele um elemento construtivo com uma intenção que ganhou forma no seu estado final, que o distingue da desordem relativa inicial, gerando um prazer ou satisfação pelo dever cumprido.

Quanto mais monótono, rotineiro e excessivo, mais lembra o mito de Sísifo que tinha recebido de Zeus o castigo de empurrar uma pedra até ao topo de uma montanha e que, quando chegava ao cimo, a pedra fugia-lhe das mãos e rebolava montanha abaixo, recomeçando de novo. Só que, diz-nos a experiência, para muitos de nós, o que recebemos de Zeus não foi uma condenação, mas sim um favor, dado que, nesta interpretação, a vida sem trabalho não faz sentido, não servindo para nada. E há quem queira apenas trabalhar e abomine férias, tendo o trabalho como mecanismo de defesa e fuga para a frente.

O que nos questiona sobre o não ter nada para fazer e o não fazer nada que, na sua aparente indiferença, nos pode conduzir à conclusão de que há diferença entre não fazer nada e não ter nada para fazer.

Intui-se que o ter trabalhado (anteriormente) pressupõe ter-se tido algo de útil e necessário para fazer, enquanto o não ter nada para fazer pressupõe o prazer de ter tempo livre para não fazer nada depois de se ter trabalhado, sob a forma de uma espécie de compensação, em termos materiais e espirituais. O trabalho dignifica antecipadamente o subsequente não ter nada para fazer, o que não sucede com o não fazer nada. Enquanto no não ter nada para fazer, após se ter trabalhado, há usualmente contentamento, satisfação, gozo ou prazer tido como merecido e reconhecido como gratificante, no não fazer nada pode haver frustração ou sofrimento, um potencial maior para o aborrecimento e o tédio, mas também uma possibilidade de autoconhecimento e descoberta de novos interesses.

De todo o modo, seguindo este raciocínio, não fazer nada (ou ter poder em não fazer nada) é o mais difícil, exige mais energia para o superar, por maioria de razão quando não se compreende o pensamento de Pascal segundo o qual: “Toda a infelicidade dos homens tem por única origem não saberem ficar sossegadamente nos seus aposentos”.


02.01.26
Joaquim M. M. Patrício

 

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