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Blogue do Centro Nacional de Cultura

Um espaço de encontro e de diálogo, em defesa de uma cultura livre e pluridisciplinar. Estamos certos de que o Centro Nacional de Cultura continuará, como há sete décadas, a dizer que a cultura em Portugal vale a pena!

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CRÓNICAS PLURICULTURAIS

  
    Michael J. Sandel © Foto de Rick Friedman


243. O GRUPO CERTO


“Fazer parte da classe certa, do grupo certo, da família certa, dos comensais certos, dos círculos certos, é muito mais do que uma mais-valia, é uma certeza de sucesso. A democratização da elite político-económica, que se esboçou desde o 25 de Abril, acabou. A elite encolheu para uma posição fetal, e está num período tão cheio de possibilidades, que sabe serem quase únicas, que não brinca em serviço”
(José Pacheco Pereira).  

Sem fazer generalizações excessivas e nem sempre justas, há que reconhecer tratar-se de uma observação transversal à esmagadora maioria dos países (senão mesmo a todos), com especial incidência nos mais pobres e subdesenvolvidos, incluindo territórios e povos que integram o chamado mundo desenvolvido, como Portugal.

Em qualquer caso, todos nós, portugueses, temos noção e a experiência de que é realista a análise, a começar por quem luta pelo acesso ao poder pelo poder, havendo sempre exceções, o que não é fácil num país onde perdura, mesmo em democracia, o ressurgimento de velhas forças e mentalidades como a cunha, o clientelismo, o compadrio, a partidocracia rotativista, o nepotismo, o tráfico de influências e a concussão. A que acresce, como crime e conduta mais grave, a corrupção. Mesmo sabendo que a cunha e o nepotismo não são ilegais, porque toleradas socialmente e tidas como normais, mesmo que antiéticas.     

O filósofo Michael J. Sandel, defende que os bem-sucedidos devem questionar se o sucesso lhes deve ser inteiramente atribuído, ou de igual modo (ou mais) à família, ao grupo, à tribo, à comunidade, ao ensino, às circunstâncias da vida, ao país ou à sorte. E, por arrastamento e consoante o contexto, à cunha, aos conhecimentos, apelidos, ao nepotismo e outras práticas socialmente toleradas. E adianta que as elites, mesmo as meritocráticas, são altivas, arrogantes e pouco humildes, raramente se interrogando sobre os seus privilégios, havendo que desafiar essa naturalização tida como adquirida, abrindo espaço a pessoas de todas condições e furando a bolha em que vivem.   

Infelizmente, após décadas de democracia, ainda há a ideia de que vivemos num sistema que obriga muitas pessoas a fazer o uso normal dos conhecimentos, da cunha, do nepotismo, do tráfico de influências e quejandos para sobreviverem, ou como um álibi para alcançarem certos fins, ouvindo-se dizer que numa sociedade onde as elites se apropriam do grosso dos recursos, não ensinar aos filhos a legitimidade de uma certa astúcia e vigarice seria privá-los de meios de subsistência.   

Mas não generalizemos, também há gente que chegou, viu e venceu, subiu e prosperou com esforço e saber, sem ter nascido numa pretensa elite ou na alegada “família certa”. Ou que também tendo nela nascido, igualmente conseguiu e venceu. 


16.01.26
Joaquim M. M. Patrício

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