CRÓNICAS PLURICULTURAIS
244. ORWELL E A EXPERIÊNCIA À FRENTE DA TEORIA
George Orwell integra a tribo de pessoas para quem as coisas não são aquilo que parecem, pelo que só através de uma análise e investigação cuidadosa podemos chegar à verdade, a uma possível verdade dentro da verdade acessível e realizável.
Sempre acreditou, como intelectual, e com maior firmeza enquanto jovem, que o mundo podia ser remodelado pela força do intelecto, em termos de ideias, conceitos e valores, mas o seu instinto dizia-lhe que o fundamental é a experiência pessoal, o observar e ver com os nossos próprios olhos o comportamento das pessoas no seu dia a dia, por oposição a imaginações teóricas e doutrinas ideológicas.
Como idealista e socialista quis examinar de perto a vida da classe trabalhadora e ser um deles. Daí o seu apoio, aquando da guerra civil de Espanha, à República e, mais importante, lutou por ela, ao invés do mero amparo moral da quase totalidade dos autodeclarados e aclamados intelectuais e progressistas do Ocidente.
Combateu na milícia anarquista, a secção mais sacrificada, cuja experiência foi um ensinamento crucial para a sua sobrante vida. Quando da purga que o partido comunista fez aos anarquistas, por ordens de Estaline, milhares de camaradas seus foram assassinados, executados, torturados, tendo tido sorte em sobreviver. A recusa de publicação pela intelligentsia britânica, tida como veículo de transmissão de opiniões progressistas, da denúncia que Orwell fez da brutalidade e atrocidades dos comunistas (em Homenagem à Catalunha), foi brutal e reveladora.
Para quem se prezava em colocar a experiência à frente da teoria, o que viveu na Catalunha provou-lhe que tinha razão. Se a teoria ensinava que a esquerda se estivesse no poder seria mais justa e respeitadora da verdade, porque tida como ideologicamente mais progressista, a experiência demonstrara-lhe que era capaz de um grau de desumanidade e de injustiça que rivalizava com as crueldades dos nazis, estando também sempre preparada a silenciar e suprimir a verdade pela causa daquilo que defendia, não olhando a meios para o atingir.
Concluindo que o ser humano tem mais importância que as ideias e teorias abstratas e que o comportamento político também tem muito de irracional, as suas críticas passaram a incidir sobre as utopias fraudulentas, alegadamente progressistas e socialistas, ao invés das tradicionais acusações à sociedade capitalista.
Apoiou a causa dos ameaçados ou perseguidos pela denúncia ou repressão, definindo-o, numa missiva, nestes termos: “Discordo sempre quando se acaba por dizer que só se pode combater o comunismo, o fascismo, ou seja o que for, caso se desenvolva um fanatismo que os iguale. A mim, parece-me que se derrota o fanático, precisamente, não a ser fanático, mas, pelo contrário, ao usar a inteligência”.
São antitotalitárias, transversais a todos os totalitarismos, e não apenas anticomunistas, obras célebres e flagrantemente presentes, como 1984 e O Triunfo dos Porcos.
Eis uma merecida homenagem a Orwell, 76 anos após a sua morte, em 21.01.1950.
23.01.26
Joaquim M. M. Patrício