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Blogue do Centro Nacional de Cultura

Um espaço de encontro e de diálogo, em defesa de uma cultura livre e pluridisciplinar. Estamos certos de que o Centro Nacional de Cultura continuará, como há sete décadas, a dizer que a cultura em Portugal vale a pena!

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CRÓNICAS PLURICULTURAIS

  


246. O FIM DO TRABALHO?


O fim do trabalho foi profetizado como uma utopia moderna e futurista por filósofos, sociólogos e economistas. Keynes, aproximadamente há 100 anos, previu que um século depois o tempo ocupado pelo trabalho seria de 15 horas semanais, o que é contrariado pela realidade que vivemos. 

A era da cibernética, da digitalização, da inteligência artificial e da robótica, com a sua automatização, veio reforçar a ideia do fim do trabalho e reavivar as utopias. O que coloca novos desafios, entre eles o de repensar a própria noção de trabalho.

Para o sociólogo francês Casilli, o trabalho é “digitalizado” ou “plataformizado”, como sucede ao fazermos reservas de avião, comboios e espetáculos, serem os clientes a substituir empregados nas caixas automáticas dos supermercados, bancos e um sem número crescente de tarefas. É o trabalho digital do dedo que clica ou carrega no botão, participando num sistema de produção escondido e gratuito, que sustenta a titânica economia digital.   

E a celeridade e a rapidez velocista e transformadora da tecnologia acelerou a impessoalidade, substituindo a presença física, as conversas e os diálogos circunstanciais da mesma forma que se começaram a substituir empregados e trabalhadores presenciais e manuais, sendo evidentes os ganhos proporcionados e a proporcionar pelos recentes e futuros desenvolvimentos na inteligência artificial.       

Se a tradição resiste e o novo ainda não se afirmou com clareza, tendo emergido um novo agente transformador que combina regras e algoritmos, permanecendo o futuro enigmático, entre a utopia e a distopia, a meio de um caminho de fusão entre o natural e o artificial, há que não estranhar a novidade.   

Se a geração nova tem o papel messiânico de romper com o passado, transcender o presente, acelerar a evolução e criar o novo, não há que começar também a pensar em deixar de encarar como puramente hedonistas atividades e micro-tarefas vanguardistas e adotar, quanto a elas, uma visão “trabalhista”?     

De todo o modo, em qualquer caso, é impossível que algo não mude seriamente em termos de trabalho, não se excluindo, em termos sociais, uma epidemia da solidão estimulada, sem contacto, promovida e desenvolvida pelas novas tecnologias, abolidoras ou não potenciadoras de relações interpessoais.   

Indicia-se ainda que à medida que que se desenvolvem as tecnologias que prometiam diminuir o trabalho, o tempo livre não aumenta, rareando ou extinguindo-se, não poucas vezes.   

E será que sem trabalho a vida humana não serve para nada e que o que Sísifo recebeu de Zeus não foi um castigo, mas sim um favor?   


06.02.26
Joaquim M. M. Patrício

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