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Blogue do Centro Nacional de Cultura

Um espaço de encontro e de diálogo, em defesa de uma cultura livre e pluridisciplinar. Estamos certos de que o Centro Nacional de Cultura continuará, como há sete décadas, a dizer que a cultura em Portugal vale a pena!

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CRÓNICAS PLURICULTURAIS

 

45. CIÊNCIA, HUMANIDADES E HUMANISMO (II)

 

Não consta que o Renascimento tenha sido uma época de infelicidade e não reconhecimento do trabalho dos seus autores, como movimento literário, artístico e científico que foi, mesmo aquando da leitura, redescoberta e compreensão dos nomes mais representativos da antiguidade grega e latina, como Sócrates, Platão, Homero, Cícero, Virgílio, Ovídio, Suetónio, Tito Lívio, revivendo-os e fazendo-os renascer, apesar de serem passado.

 

O humanismo é tido como o pai do Renascimento significando, etimologicamente, culto, civilizado, onde a pessoa é o centro e objeto fulcral tendo, como nomes permanentes, Erasmo, Dante, Petrarca e Bocácio na literatura, na pintura e arquitetura Rafael, na escultura, pintura, poesia, urbanismo e arquitetura Miguel Ângelo, na sociologia e política Maquiavel e Tomás Moro.

 

Teve também cientistas, entre os quais Leonardo da Vinci e Copérnico. 

 

Leonardo foi astrónomo, engenheiro, matemático, geólogo, médico, investigador, desenhador, pintor, poeta, escultor, um humanista, um homem de ciência e das humanidades, mais que qualquer outro do seu tempo, até ao atual.

 

Copérnico foi um genial cientista do movimento científico humanista e renascentista, afirmando que a Terra girava, com outros planetas, à volta do Sol, o que foi completado e verificado, mais tarde, por Kepler e Galileu. 

 

Este movimento científico frutificou em grandes descobertas como as de Vesálio (pai da anatomia), Servet (leis da circulação do sangue) e Pedro Nunes (cientista e humanista português, inventor do nónio).   

 

Este humanismo prova que para ser integral e íntegro, nada melhor que a interligação entre as humanidades e a ciência, embora realidades autónomas, mas não independentes, face a face numa relação de colaboração e interdependência recíproca. 

 

À data, tão reconhecidos eram os homens das humanidades, como da ciência, tão infelizes, perseguidos e condenados podiam ser os primeiros (Damião de Góis, entre nós), como os segundos (Galileu), como Einstein também é censurado e responsabilizado pelo seu saber ao serviço da bomba atómica, de que o próprio se culpabilizaria e não mais se libertaria, apesar de hoje as humanidades serem tidas de menor valia e mais penalizadas que a ciência. 

 

A que acresce a menorização que é dada às humanidades, no fim da vida, por Steiner, entre outros, quiçá num desabafo de pontual pessimismo, por antagonismo com a maioria do seu legado, abalando admiradores, e com o qual não concordamos.   

 

Embora seja imperioso ter consciência que na ciência e tecnologia pode sempre haver o lado negro das trevas, que desumaniza, e o lado bom, que humaniza. 

 

A energia nuclear pode ser benéfica ou maléfica consoante o uso que tiver para alcançar o fim pretendido.   

 

É, por exemplo, um benefício para a humanidade na cintigrafia óssea, avaliação da função renal com o renograma, no avaliar da função alveolar com a cintigrafia pulmonar, no avaliar da função do miocárdio com a cintigrafia cardíaca e em muitas outras aplicações na medicina, particularmente na doença oncológica, mas também pode ser destrutiva, mediante o uso da bomba atómica. 

 

De igual modo o saber ler, escrever e falar línguas é imprescindível para qualquer pessoa, incluindo as da ciência e da tecnologia, bem como uma notável obra literária, musical ou das artes em geral que beneficie a idealização e perpetuação da nossa espécie, mas não é um ideal a seguir, se destrutiva e sem sentido crítico, havendo também o lado solar e sombrio das humanidades.   

 

O que se impõe é uma ética humanista que imponha limites, colocando o ser humano, na sua dignidade, acima de qualquer utopia científica e tecnológica por mais importante, progressiva e poderosa que seja, em comunhão e conjugação de esforços e reciprocidade com as humanidades e o humanismo.

 

03.04.2020
Joaquim Miguel de Morgado Patrício