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Blogue do Centro Nacional de Cultura

Um espaço de encontro e de diálogo, em defesa de uma cultura livre e pluridisciplinar. Estamos certos de que o Centro Nacional de Cultura continuará, como há sete décadas, a dizer que a cultura em Portugal vale a pena!

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DE SINTRA AO OCEANO…


TU CÁ TU LÁ

COM O PATRIMÓNIO

 

Diário de Agosto * Número 12 

 

Continuamos a lidar com o inesperado património cultural. Eis os “Eléctricos” de Sintra. Senão vejamos. Foi atribulada a história da linha que hoje se designa como Sintra-Atlântico. Em 1904 foi inaugurada como hoje persiste, primeiro no troço até Colares (março) e depois até à Praia das Maçãs (julho). As ideias iniciais foram mais ambiciosas, envolvendo a hipótese de um troço entre S. Pedro e a Vila Velha e outro até Mafra e Ericeira. Houve até projetos para um ramal para Monte Estoril e Cascais… Mas os sonhos não passaram de intenção e de papel. O que se concretizou é o que existe. E a designação em 1904 foi “De Sintra ao Oceano”… Tecnicamente, é uma ferrovia sazonal de bitola estreita (1000 mm, metro) tração elétrica por trólei. A bitola métrica é a habitual nestes casos. Tem carris clássicos assentes em travessas de madeira ou betão sobre balastro, onde passa em canal próprio, protegido por contracarris no cruzamento de passadeiras para acessos particulares em madeira e terra batida. E permitam-me, como modesto estudioso da ferrovia, falar-vos ainda de carris de encastrar nivelados ao pavimento, no cruzamento de estradas e no espaço urbano.

 

O velho elétrico da Praia das Maçãs está felizmente a circular. Como diz Miguel Esteves Cardoso: “A viagem não podia ser mais calma ou mais bonita, passando pela Ribeira de Sintra, por Galamares e Colares, pelo Banzão e pelo Pinhal, sempre com prioridade sobre os automóveis”. 12 quilómetros em 45 minutos. Três euros. Hoje é uma lembrança. Há cinquenta anos era o natural modo de vida. Ia-se assim à Praia das Maçãs – gozando do microclima em toda a sua pujança. Um dia D. João de Castro trouxe para a Pedra Verde plantas exóticas da Ásia – e tudo mudou. A serra escalvada tornou-se verdejante. Sintra ficou Sintra. E D. Carlos dizia que o Inverno vinha passar o Verão a Sintra. Mas como as acácias não têm com quem dialogar e espraiam-se sem disciplina…

 

Hoje também a literatura não falta, e recordo um velho amigo – Francisco Costa (1900-1988). Não podemos falar de Sintra, da Biblioteca e do Arquivo sem o recordarmos. Num passo pachorrento, estou a vê-lo a ver passar o elétrico para a Praia das Maçãs, que fora inaugurado tinha ele apenas 4 anos, tendo acompanhado todas as crises e sobressaltos desta linha que o Município de Sintra hoje mantém. E antes de irmos abastecer-nos de uma boa pomada vínica ao Chitas de Colares, lá havia dois dedos de conversa com a memória viva de Sintra (como bem tem lembrado Miguel Real). Para não o esquecermos, na sua casa lá está o poema que hoje aqui trazemos:

 

«Quando esta casa, feita mesmo em frente

da Serra Verde, ainda mal se erguia

e as traves da futura moradia

eram belos pinheiros, simplesmente,

houve uma tarde, sob um sol ardente,

em que o suor em bagas escorria

da testa dos pedreiros e fazia

da cal e areia uma argamaça quente.

Hoje há paredes contra os vendavais

Mas é cá dentro que soltamos ais

Nos dias mais aflitos e mais duros.

Enquanto gemem temporais lá fora,

Pagamos nós em lágrimas agora,

A dor incorporada nestes muros.»

 

Agostinho de Morais