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Blogue do Centro Nacional de Cultura

Um espaço de encontro e de diálogo, em defesa de uma cultura livre e pluridisciplinar. Estamos certos de que o Centro Nacional de Cultura continuará, como há sete décadas, a dizer que a cultura em Portugal vale a pena!

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DOIS GRANDES TEATROS ROMANOS EM PORTUGAL

 

Como é evidente, já aqui referimos, em textos diversificados, dois grandes teatros romanos de Portugal, o de Braga e o de Lisboa: aliás, temos obviamente evocado em diversíssimas ocasiões, esta monumental tradição da arte do espetáculo, que vem portanto das origens da história e da cultura do nosso país. E citamos designadamente esses dois monumentos, chamemos-lhes assim, o primeiro aqui referido e analisado em 2015, o segundo em 2014 e novamente em 2019. E se hoje retomamos o tema, isso deve-se à relevância desta tradição de espetáculo, que não pode ser esquecida.  

Como dissemos, as ruínas do Teatro Romano de Braga foram descobertas em 1999 no contexto de trabalhos de reconversão urbana da cidade. A partir dessa data, têm avançado trabalhos notáveis de recuperação, descritos no estudo intitulado “A Construção do Teatro Romano de Bracara Augusta”, da autoria de Manuela Martins, Ricardo Mar, Jorge Ribeiro e Fernanda Magalhães.

O estudo acima citado permite avaliar esse trabalho notável de recuperação. Há muito a descobrir nas ruínas do teatro romano de Braga, o qual teria uma lotação de 4000 a 4500 espetadores, o que dá a dimensão dos trabalhos em curso e do muito que ainda há a descobrir na região, que na época se chamava Bracara Augusta, já fora dos limites históricos da Lusitânia.

Os trabalhos de expansão urbana da cidade atual puseram a descoberto, em 1999, o conjunto do teatro e anfiteatro. A Câmara Municipal e a Universidade do Minho desenvolveram, em parceria, um trabalho de recuperação arqueológica e de divulgação histórica digno de registo, sobretudo porque, como temos visto em artigos publicados no CNC, são poucos os recintos de espetáculo oriundos do período da civilização romana que chegaram até nós.

Aliás, como se sabe, a Lusitânia romana não abrangia o território português a norte do Douro. Estendia-se pela Península, e a capital era Augusta Emerita, hoje Mérida, diz-nos Carlos Fabião. E evoca-se o Anfiteatro de Mérida, capital que foi da Lusitânia e hoje o mais imponente, significativo e utilizado recinto/monumento de espetáculos de origem romana da Península.

O estudo já referido refere que “a intenção política terá residido no estabelecimento de uma relação privilegiada do edifício com o fórum que se situava a nascente do teatro”: e destaca designadamente “a construção de termas públicas anexas que se dispõe a sul do teatro, sendo de sublinhar que existem numerosos exemplares de uma estreita relação entre os teatros, os equipamentos termais e os jardins”.

Ora bem:

Já aqui temos referido o Teatro Romano de Lisboa.  E a esse respeito citamos novamente um artigo de Susete Francisco, publicado no DN em janeiro deste ano, que refere declarações de Lídia Fernandes, coordenadora do Museu de Lisboa – Teatro Romano, onde se descreve o histórico deste teatro e se anuncia a intenção da CML no sentido de as ruínas serem classificadas como monumento nacional e entrarem em nova fase de recuperação e ampliação dos trabalhos de pesquisa.

Já tivemos ocasião de referir o que resta deste teatro, evocando o longo processo de recuperação das ruínas que até hoje sobrevivem. Trata-se efetivamente de um conjunto de vestígios da construção clássica, vestígios esses redescobertos em 1798, e desde aí sujeitos a variadas intervenções. Desde logo a partir dos anos 60 do século passado, quando se foi procedendo a trabalhos de recuperação e valorização histórica.

Tal como tivemos ensejo de assinalar em “Teatros de Portugal” (ed. INAPA – 2005) o teatro seria datável da era de Augusto, remodelado no tempo de Nero (século I) mas posteriormente vandalizado para aproveitamento de materiais na reconstrução de Baixa Pombalina. E tal como aí referimos, só a partir dos anos 60 do século passado, e mesmo assim com interrupções, se procedeu à recuperação possível. O Teatro seria pois um edifício central, mas nada se sabe da sua atividade e não muito da sua configuração.

O artigo de Suzete Francisco, que aqui citamos, assinala que os primeiros trabalhos de recuperação se devem ao arquiteto italiano Francisco Xavier Fabri, e decorrem da recuperação de zonas destruídas no terramoto de 1755 e que não foram então devidamente recuperadas. De tal forma que a “sobrevivência” do Teatro Romano terá ficado a dever-se aos Professores Fernando de Almeida, sobretudo a partir de 1964, e mais tarde de trabalhos dirigidos por Irisalva Moita (ambos professores da Faculdade de Letras de Lisboa),  que prosseguiriam a partir de 2001.

E os trabalhos de recuperação da Lisboa Romana duram até hoje!...

Daí, o interesse do projeto de qualificação e prosseguimento desses trabalhos de recuperação do Teatro Romano  de Lisboa como monumento nacional, a que se refere o artigo de Susete Francisco.


DUARTE IVO CRUZ