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Blogue do Centro Nacional de Cultura

Um espaço de encontro e de diálogo, em defesa de uma cultura livre e pluridisciplinar. Estamos certos de que o Centro Nacional de Cultura continuará, como há sete décadas, a dizer que a cultura em Portugal vale a pena!

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EIS COMO MORRE O JUSTO…

 

         Minha Princesa de mim:

 

Em Domingo de Ramos, quando arrefece a tarde e vem mansa a noite, recolho ao abrigo deste estar sozinho. Tenho recebido, todavia, inúmeras mensagens amigas, a desejarem-me santa Páscoa. Muitas já respondem a um voto que hoje enviei: Em tempo de sentida inequidade e incerteza, seja a nossa Páscoa mais um passo na partilha da alegria! Está aí uma ideia, cujo vocábulo não consta de qualquer dicionário que se preze: inequidade. Muito embora se diga e escreva, bem, equidade,  do latim  aequitas . Mas para a negativa,  ortograficamente correcto seria escrever-se iniquidade! E assim é: o étimo latino é iniquitatem, acusativo de iniquitas, que quer dizer iniquidade, injustiça, desigualdade. E já os romanos chamavam iniquus ao inimigo. E nós, finalmente, guardámos mais essa ideia de iníquo como sendo o inimigo da alma, algo que tanto desafiou a lei divina e a infringiu, que é o mal incarnado... E, com tanto temor do inferno e certeza da razão do nosso recto propósito, decretámos que eram iníquas muitas coisas, e fomos esquecendo uma, fundamental: a desigualdade, que, essencialmente, quer precisamente dizer iniquidade, injustiça. Ao escrever inequidade, quis que entendêssemos todos como, aos olhos de Deus, pouco serão os nossos pecadilhos, pouco valerão os nossos indignados protestos contra a iniquidade das ideias de outros... Iníquo mesmo, pecado maior contra o mandamento do amor, é a nossa indiferença perante a falta de equidade, a inequidade, a injustiça no tratamento das pessoas, a nossa ausência de escândalo perante a imensa multidão dos pobres! As três religiões monoteístas, também chamadas religiões do Livro pela sua relação à Bíblia, têm em comum o Deus criador de tudo, eterno, transcendente e misericordioso. Fidelíssimo à sua promessa aos homens, mas temível porque terrível para os que lhe forem infiéis. Mas nesta visão panteocrática, o Cristianismo diferencia-se do Judaísmo e do Islão, por proclamar que Deus se fez homem, padeceu e foi sepultado, tomando a condição humana para a ressuscitar consigo. Reflectindo sobre o apelo de S.Paulo aos hebreus cristãos, para que perseverem na fé nova e se gloriem na cruz de Cristo, Santo Agostinho escreve: Porque hesita ainda a humana fragilidade em acreditar que um dia os homens viverão com Deus? Muito mais incrível é o que já se realizou: Deus morreu pelos homens. Tal pensamento é loucura ou blasfémia para judeus e muçulmanos: Deus não incarna, nem jamais poderá morrer como um homem; está lá em cima, nós cá em baixo. A fé cristã, a herança do reino prometido a Abraão, pai dos povos, é, por Jesus Cristo, a companhia de Deus entre nós todos. A boa nova, o evangelho, não é um código, não privilegia dogmas nem ritos, muito menos a eles condiciona a salvação, a salvação que é a alegria do encontro com Deus. A boa nova é como a Santíssima Trindade representada naquele ícone do Rublev  -  de que já te falei  -  como três anjos anunciadores da boa nova da gravidez de Sara (octogenária que será mãe de Isaac), é a geração incessante do amor. Colhido espiritualmente  - sem quaisquer pretensões de vitória moral, militar ou intelectual sobre outras crenças ou convicções éticas, nem qualquer teimosia separatista ou inimizade sectária, ou,ainda, absurdas pretensões de poder clerical (que, como sabes, me irritam solenemente)  -  o Cristianismo é a génese de Deus connosco. Com Cristo vivemos, no sentido grego, se quiseres, um drama de dimensão universal: sofremos com o próprio Deus a paixão de um mundo novo. A Revolução Francesa só nos veio lembrar  que a liberdade, a igualdade e a fraternidade, são valores divinos do humano, em Cristo Jesus. Em vésperas de quinta-feira santa, festa dessa inovadora revolução que é o Deus-Connosco a dizer-nos que a sua presença entre nós, como corpo seu por nós oferecido e em nós constituído, é a partilha do pão da vida  -  da vida eterna, sim, mas enquanto e porque partilhado nesta  -  escuto os Sept Répons des Ténèbres , encomendados, em 1959, para a New York Philarmonic, por Leonard Bernstein, judeu agnóstico e americano, a Francis Poulenc, católico francês regressado à fé de seus pais. Poderão os peritos designar, aqui e ali, influências dodecafónicas, polifónicas, barrocas ou stravinskianas. Eu apenas reconheço um homem a compor unsresponsoria em que irrompe o sentimento do seu despojamento inevitável, ao comungar na Paixão de Cristo: 

      Caligaverunt oculi mei a fletu meo

      Cerraram-me as lágrimas os olhos

      pois que de mim se afastou

      quem me consolava...

      Vede, gentes de todos os povos,

      se há dor igual à minha...

          ........................ 

      Ecce quomodo moritur justus

      Eis como morre um justo,

      sem que alguém o tenha no coração...

      E homens justos são levados,

      sem ninguém dar por eles...

      Mas o justo subtraído à iniquidade

      repousará em paz sua memória...

 

   A Paixão de Cristo  - e a sua acção de graças, que é a eucaristia  -  é a nossa comunhão de Deus com os pobres. Peço-te, Princesa, uma mão vazia de ti e cheia de tudo, como a que gostaria de te dar agora.

 

                     Camilo Maria

 

   

Camilo Martins de Oliveira 

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