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Blogue do Centro Nacional de Cultura

Um espaço de encontro e de diálogo, em defesa de uma cultura livre e pluridisciplinar. Estamos certos de que o Centro Nacional de Cultura continuará, como há sete décadas, a dizer que a cultura em Portugal vale a pena!

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EM REBUSCA DO JAPÃO V

  

  Sinal do que estou dizendo pode mesmo ser a própria história dessa experiência de Kurodero (Claudel) - L´Oiseau Noir dans le Soleil Levant - na cultura musical e cénica do Japão. Curiosamente, o alter-ego nipónico do poeta francês nessa história foi um tal Yamanouchi Yoshio (1894-1973), universitário francófilo e francófono, que, depois da morte de Claudel, se tornou no fundador e primeiro presidente, em 1962, da Nihon Kuroderu Kyokai (Associação  Claudel do Japão) e, três anos mais tarde, na data do centenário da conversão de Paul Claudel, também se converteu ao catolicismo, escolhendo, para nome de batismo, esse mesmo de Paulo. Mas agora seguirei o relato de Michel Wasserman (D´Or et de Neige: Paul Claudel et le Japon - Les Cahiers de la NRF, Gallimard, Paris, 2018):

 

    Este universitário francês, professor na faculdade de relações internacionais da Universidade Ritsumeikan de Kyoto, depois de referir os antecedentes do poeta embaixador na colaboração com criadores e artistas das artes musicais e cénicas, tais como Milhaud, Honegger, Ida Rubinstein ou Jean-Louis Barrault, aproveitou a sua estadia nipónica para repetir a experiência, elaborando com reconhecidos artistas locais obras coletivas que, para além do seu próprio interesse, fomentassem a miscigenação de duas culturas. E escreve:

 

   Chamo desde logo a atenção para o "mimodrama"  La Femme et son Ombre, de que Claudel, no pós-guerra, aquando duma reposição com nova música de Alexandre Tcherepnine (Ballets de Roland Petit, Théatre Marigny, 1948) se recordará com divertida nostalgia de que o mesmo outrora lhe merecera «no mundo das gueixas e dos artistas, uma agradável popularidade».

 

   ... No Verão de 1922, Yamanouchi recebera, de meios ligados ao teatro kabuki, uma proposta de reposição, em Tokyo, de L´Homme et son Désir, com argumento de Claudel e música de Darius Milhaud que, no ano anterior, fora criado em Paris pelos Balés Suecos e obtivera um êxito de escândalo, tendo a música de Milhaud suscitado "alguns protestos", e a nudez audaciosa e "soberba" do protagonista, o coreógrafo Jean Borlin, alguma agitação. A gente do kabuki pensava retomar o argumento claudeliano, mas confiar a recomposição musical ao maestro Yamada Kosaku que fora, em Berlim, aluno de Max Bruch, e desempenhava, de regresso ao Japão, o papel de propulsor do arranque da música ocidental. Admire-se, a talho de fouce, a qualidade da informação sobre a atualidade artística ocidental, inclusive as suas manifestações vanguardistas, tal como a rapidez de reação dos meios do teatro tradicional japonês nesses longínquos anos vinte [Os tais anos ditos loucos, lembro eu]. 

 

   Creio que Claudel descobriu Nijinsky em 1917/18, no Brasil, onde o bailarino russo dava uma série de espetáculos com os Balés Russos, e o poeta diplomata se encontrava então colocado como secretário de embaixada. E o que descobriu foi um bailarino que nos trazia o salto, isto é, a vitória da respiração sobre o peso... Fascinado também pelo encanto da música de L´Après-Midi d´un faune, de Debussy, e em companhia de Darius Milhaud, logo se deixou tentar pela ideia de escrever um guião para uma peça de balé, L´Homme et son désir, levada à cena, em Paris, no Théatre de Champs-Élysées, em junho de 1921, com direção musical de Inghelbrecht. O guião de Claudel põe em cena um homem adormecido a sonhar com o fantasma da «Mulher Morta», à luz da lua e seus reflexos. Apaga-se o fantasma, acorda o homem para dançar a paixão: «é a dança eterna da Nostalgia, do Desejo e do Exílio, bailado dos cativos e dos amantes abandonados, e que, durante noites a fio, leva a marcar passo, de uma a outra ponta da varanda, esses seres febris que a insónia atormenta, ou os animais encerrados que se atiram, uma vez mais e outra, às grades intransponíveis»... (cf. LA Danse, Junho de 1921).

 

   Como terá o público japonês em seu coração recebido esta obra que, vinda de fora dele, por ele tão aplaudida foi? E por que meditações, hesitações e trabalhos, terão passado os artistas nipónicos que se dedicaram, com o autor francês, a lhe descobrir e encontrar uma expressão musical e cenográfica que a traduzisse? Mais do que tentação do modernismo, gosto da moda e emulação talvez os movesse - e comovesse - esse desejo inato de comunhão universal, de participação e partilha que, por vezes demais, infelizmente esquecemos. No caso presente, a criação desta obra de Claudel, em língua japonesa, num teatro japonês e para uma assistência japonesa, foi certamente um ato amoroso e de aturada procura de entendimentos e correspondências, como aliás deveria ser sempre até a simples tradução de um texto literário. Logo veremos o seu como e porquê. E nos surpreenderemos com a complexidade e atenção ao pormenor que exige qualquer encenação intencional, atenta e cuidada.

  

Camilo Martins de Oliveira