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Blogue do Centro Nacional de Cultura

Um espaço de encontro e de diálogo, em defesa de uma cultura livre e pluridisciplinar. Estamos certos de que o Centro Nacional de Cultura continuará, como há sete décadas, a dizer que a cultura em Portugal vale a pena!

Blogue do Centro Nacional de Cultura

Um espaço de encontro e de diálogo, em defesa de uma cultura livre e pluridisciplinar. Estamos certos de que o Centro Nacional de Cultura continuará, como há sete décadas, a dizer que a cultura em Portugal vale a pena!

ÉRAMOS ASSIM NOS ANOS SETENTA...

Sala do CNC nos anos 80.jpg


Foi pelos meus verdes anos de actividades subversivas nas associações de estudantes da Universidade. Um amigo (tu, Mário Mesquita? tu, Jorge Silva Melo?) falou-me de uma conferência a não perder num lugar de Lisboa chamado “Centro Nacional de Cultura”.

- Centro Nacional de Cultura? Isso é fascista! – protestei logo.

O regime tinha-nos roubado a própria ideia de Nação, para a reduzir àquela odiada ideologia de extrema direita vigente e reinante no nosso país. “Nada contra a Nação” significava então “nada contra a república unitária e corporativa e sua democracia orgânica”.

O amigo explicou-me que não, que este centro nacional não era uma instituição do regime, era um lugar de liberdade.

A primeira vez que lá fui, bem antes do curso do Eduardo Prado Coelho sobre o estruturalismo, onde encontrei a menina que mais tarde se dispôs a casar comigo, bem antes das conferências da Maria Belo (tão bonita!) sobre psicanálise lacaniana, onde o meu id se debatia em vão com o meu ego, nessa primeira vez estava na sala um homem alto e muito assertivo, que depois soube ser Francisco Sousa Tavares, pai do meu colega Miguel e marido da muito por mim admirada poeta Sophia.

Ora a certo ponto da conferência (de quem?) ouviu-se da rua (janela aberta, verão portanto ou primavera) vozes dirigidas ao lugar onde estávamos, insultando em tom vulgar e ordinário o “Tareco”.

Eu não sabia quem era o “Tareco”, mas vi Francisco Sousa Tavares levantar-se, muito calmo, e explicar:

- São os pides. Saem da António Maria Cardoso, aqui ao lado, e vêm cá meter-se comigo.

Dirigiu-se então à janela e durante alguns minutos trovejou aos pides da rua troças e vitupérios do mais profundo desprezo.

Fez-se silêncio e Sousa Tavares voltou ao seu lugar, muito risonho, e pediu que fosse retomada a sessão.

Ciente então do que era o Centro Nacional de Cultura, passei a frequentá-lo desde esse dia.

     Feliz aniversário!

Luís Filipe Castro Mendes