Saltar para: Post [1], Pesquisa e Arquivos [2]

Blogue do Centro Nacional de Cultura

Um espaço de encontro e de diálogo, em defesa de uma cultura livre e pluridisciplinar. Estamos certos de que o Centro Nacional de Cultura continuará, como há sete décadas, a dizer que a cultura em Portugal vale a pena!

Blogue do Centro Nacional de Cultura

Um espaço de encontro e de diálogo, em defesa de uma cultura livre e pluridisciplinar. Estamos certos de que o Centro Nacional de Cultura continuará, como há sete décadas, a dizer que a cultura em Portugal vale a pena!

ÉSQUILO


 

ÉSQUILO e para ele as palavras de Aristófanes:

« Ó tu, que foste o primeiro dos Gregos a construir torres de palavras majestosas e criaste um mundo de trágica ilusão»
 

De facto para se compreender hoje a cultura do mundo ocidental, é indispensável o conhecimento dos textos que Grécia e Roma nos deixaram. Que se não duvide que o Saber não se atinge, nem o percurso até ele, nos é suficiente para o atingir. Talvez cheguemos até reflexos que nos elucidam das nossas limitações, e ter essa ideia é já tanto! Parece paradoxal, mas assim é. Os valores estéticos, onde incluo os da linguagem, são-me muito caros, e, bem gostava de ter aprendido várias línguas - incluindo o grego - como indispensável acesso às literaturas. Queria ter conseguido ler os grandes autores no original já que nenhuma tradução o substitui.

Não obstante, eis-me de novo e de novo com Oresteia escrita já quase no fim da vida de Ésquilo que nascera em 525-4 a.C.

Como se sabe é Oresteia constituída pelo Agamémnon, as Coéforas e as Euménides, verdadeira obra-prima da literatura dramática de sempre. Drama e lirismo afrontam as profundas questões morais e religiosas que se colocam ao homem num mundo em permanente crise. Crise esta que, na interpretação-sentir da obra esquiliana, atinge mesmo os próprios deuses, também eles procurando a justiça perfeita. Contudo, a Justiça irá lutar contra a Justiça: Clitemnestra e o seu direito de mãe a erguer-se contra o direito do filho. E homens e deuses procuram uma solução, mas uma solução que, implacavelmente quebre de uma vez por todas a cadeia de culpa e da sua expiação.

Julgo ter chegado até mim, e muito, através de Ésquilo, o compreender a diferenciação entre culpa pessoal e hereditária, quais rainhas de destinos rasgados na alma dos homens, face a numerosos deveres que entre si se contrastam. Quantas vezes a assunção da responsabilidade de um acto, implica a ofensa a um dever? E eis-nos no cerne dos conflitos que inaugurarão eras, criarão novos árbitros de vida e de morte, enfim, sempre vinculados ao destino que não levanta hipótese alguma de libertação. E reinventa-se a polis? E são os homens reinvestidos na função de julgar?!

Antes de Ésquilo foram compostas tragédias, é certo, mas também é certo que se foram desgastando com o tempo, enquanto, Ésquilo surge com solar capacidade de expor uma forma de arte em que, dotado de insuperável excelência, expõe os grandes problemas do homem. O Poeta expôs a vida para que outro futuro se construísse, e a trilogia temática de Oresteia é-nos assim colocada nos olhos do entendimento, trazida pela Antiguidade nas augustas palavras esquilianas, as mesmas que explicam a tirania e o seu confronto com a consciência cívica.

Graças à tradução do grego feita pelo Professor Catedrático Manuel de Oliveira Pulquério, tive conhecimento também do epitáfio que se crê talvez ter sido composto em Atenas depois da morte de Ésquilo.
 

«Este túmulo de Gela rica em trigo encerra os restos mortais do ateniense Ésquilo, filho de Eufórion. Da sua famosa coragem poderão falar o bosque de Maratona e o Medo de longa cabeleira que a experimentou.»
 

Assim se mostrou a vida entregue à comunidade e em defesa do futuro. No entanto, a sua vida tinha sido inteiramente doada à arte dramática sob os grandes temas da culpa e da expiação, do sofrimento humano e do sentimento que percorre a longa marcha do tempo. Agiganta-lhe a estatura este casamento dentro de si conseguido e transmitido. A atenção constante às ciladas sob os pés, quando pisam os tapetes de púrpura. A Sorte e o ornamento, a angústia em que a razão se perde. O grito de Orestes aos frágeis de memória:

 

Estes ultrajes não te fazem despertar, pai? 

 

Teresa Bracinha Vieira

 

Estudos:
Lebeck, The Oresteia, Harvard University Press, 1971;

M.O. Pulquério, Estrutura e função do diálogo lírico-epirremático em Ésquilo, Coimbra, 1964.

Traduções

Ammendola, Eschilo : Agamennone, Florença, «La Nuova Italia» Editrice, 1955;

Mazon, Eschyle, Tome I, Paris, Les Belles Lettres, 1953; Tome II, Paris, Les Belles Lettres, 1955