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Blogue do Centro Nacional de Cultura

Um espaço de encontro e de diálogo, em defesa de uma cultura livre e pluridisciplinar. Estamos certos de que o Centro Nacional de Cultura continuará, como há sete décadas, a dizer que a cultura em Portugal vale a pena!

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EVOCAÇÃO DE DIOGO FREITAS DO AMARAL DRAMATURGO


Seja-me permitida esta perspetiva pessoal na referência ao teatro de Diogo Freitas do Amaral, pelas razões que aqui se referem e que amplamente a justificam. Em outubro de 1958, iniciei estudos de Direito no primeiro curso da nova Faculdade na Cidade Universitária da Lisboa, nesse mesmo ano inaugurada. A distribuição de lugares era fixa e definida por ordem alfabética, com a particularidade de colocar nas duas primeiras filas as então poucas alunas.

 

E assim, o nome Duarte colocou-me precisamente ao lado de um colega que então não conhecida, e que vim a saber que se chamava Diogo.

 

Daí nasceu uma amizade profunda, que durou até à morte de Diogo Freitas do Amaral, ocorrida como sabemos no passado dia 3 de outubro. Foram pois mais de 60 anos. E amplamente justificou que eu tivesse o gosto de colaborar no livro intitulado precisamente “Em Homenagem ao Professor Doutor Diogo Freitas do Amaral” com um artigo que bem justifica esta referência: “Diogo Freitas do Amaral: Um Político Dramaturgo, um Dramaturgo Político” (comissão organizadora do livro - Augusto de Athayde, João Caupers e Maria da Glória F. P. D. Garcia, ed. Almedina 2010).

 

No meu texto assinala-se que Freitas do Amaral é autor de três peças de teatro, intituladas “O Magnífico Reitor” (1999), “Intervenção em África” (2001) e “Viriato” (2002). E como então escrevi, inscrevem-se todas elas na tradição histórico-política do teatro português.

 

Em todas estas peças o que ressalta e as torna coerentes no ponto de vista de conteúdo é o grande apelo aos valores de liberdade. E isto, independentemente da época histórica que cada uma delas recria.

 

Assim, o “Viriato”, que aliás prevê certa intervenção musical, comporta uma reconstituição histórica, em si mesma de grande valor cultural mas que envolve uma transposição epocal adequada e culturalmente válida.

 

As outras duas peças, pelo tema e pelo envolvimento histórico-político, mais reforçam essa perspetiva. E é de assinalar que uma e outra traduzem as alterações dos temas e da cronologia respetiva. 


E sobre as três peças, seja-me permitido remeter para o que escrevi e que, decorridos nove anos desde a publicação do livro, não perdeu atualidade.

 

 

Até no histórico “Viriato”, que expressa e claramente assume posições coerentes com o que se documenta nas outras peças de atualidade.

 

Assim diz Viriato:
“Não tenho nenhuma ambição que não seja impedir os romanos de ocuparem a nossa terra, substituírem os nossos deuses e roubarem a nossa liberdade”.

 

“O Magnífico Reitor” passa-se no final do período de Salazar, o qual, é dito na peça, “só quer saber do Ultramar, dos Negócios Estrangeiros e da Defesa Nacional”.

 


E na “Intervenção em África”, “os apelos que lançamos à França, ao Secretário Geral das Nações Unidas, não tiveram até agora qualquer efeito prático”...

 

Em suma, o que caracteriza esta dramaturgia de Diogo Freitas do Amaral é basicamente o escrúpulo da investigação histórica, a interpretação moderna respetiva, o sentido da linguagem teatral, o equilíbrio entre a história, a política, o sentido social, pessoal e familiar, e a mensagem coerente, veemente, consistente e sempre atual da liberdade.

 

E, insista-se, tudo isto em termos de grande qualidade de escrita e de espetáculo!...

 

DUARTE IVO CRUZ