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Blogue do Centro Nacional de Cultura

Um espaço de encontro e de diálogo, em defesa de uma cultura livre e pluridisciplinar. Estamos certos de que o Centro Nacional de Cultura continuará, como há sete décadas, a dizer que a cultura em Portugal vale a pena!

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FOMOS EM BUSCA DO JAPÃO

 

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   O título do livro Fomos em Busca do Japão tem um motivo e outras intenções. Quando o CNC me convidou para desenhar e guiar uma viagem ao Japão, o Doutor Guilherme d´Oliveira Martins disse-me claramente que ela se inseria no ciclo de peregrinações abrangido pelo globo de Os Portugueses em Busca da sua História. Desde logo, foi-me proposto um tema, que não só me instruía um propósito, como também me antepunha o esboço de um itinerário: eu teria de conduzir uma visita a uma espécie de Japão luso-nipónico, e não propriamente apenas àquele que eu conhecia e gostaria de apresentar... Na verdade, acabei por tentar conciliar os dois, aliás desculpado pela dificuldade de conseguir um percurso em tempo útil  --  e modo interessante para os participantes  --  que incluísse sítios como Tanegashima (ilha de arribação dos primeiros portugueses, náufragos num junco chinês) e Tokushima ( cidade onde Wenceslau viveu os seus últimos anos e está sepultado), deslocações consumidoras de tempo e conducentes a quase nada para ver. Ainda que com pena de não poder visitar melhor o Japão contemporâneo, optei por seguir passos de um encontro registado  --  quer pela perspectiva da memória das culturas que então se defrontaram, quer pelo que dessa confrontação foi ficando, quer sobretudo pelo gosto de co-descobrir o Japão que os nossos maiores conheceram  --  agora como ponto de partida para a busca de uma miragem da alma japonesa, duma razão e dum modo de ser que se revela e evolui no tempo histórico, e vai pertencendo ao passado, ao presente e ao porvir.

   O livrito que escrevi não é, portanto, nem um compêndio de História, nem um relato de viagem, nem uma lição seja do que for, ainda que necessariamente inclua informação para facultar o enquadramento dos factos e impressões nele relatados. É um caderno de apontamentos e memórias, dessas coisas que guardamos no coração, quando somos amigos e queremos ir em busca do outro, para o entendermos na sua diferença, lembrados de que com olhos nossos o olhamos... É, assim, uma obra inacabada e despretensiosa, apenas procura indicar abertas para uma procura que será sempre a que cada qual quiser por bem empreender. [Desde já peço desculpa do que, nas minhas considerações, possa ser menos claro ou acessível: não procurei distanciar-me, falando de coisas mais estranhas; antes tentei partilhar percepções minhas, o que pode não ser fácil, porque todos nós, humanos, por vezes ansiosos de comunicar, afinal escurecemos...] Para qualquer de nós, ir em busca do Japão não é só desvendar coisas passadas  --  factos, vestígios, representações e ideias  --  é, mais, uma aproximação ao entendimento do outro e com o outro, ele mesmo, o tal que interpelamos e nos interpela.

   Às que vêm no livro, junto aqui outra ilustração, quiçá simplória, do que quero dizer, apesar de me parecer que vários passos daquele são mais elucidativos de experiências de diálogos espirituais que o convívio com a gente nipónica me proporcionou. Sou, por educação e cultura, um cristão católico. Entre os japoneses, os crentes dessa fé são uns 0,5% da população, outros tantos professando outras confissões cristãs. Todavia, em nenhum outro país onde vivi  --  e foram alguns, em todos os continentes  --  senti assim tanto a minha alma ser interpelada pela minha fé, pois jamais sentira, como nessa cultura tão estranha à minha própria, que outros seres humanos, e diferentes, pudessem sentir e praticar valores de vida que a instrução que eu recebera me ensinara a julgar exclusiva ou genuinamente cristãos. Narro, já a seguir, a história de Momofuku Ando, que não vem no livro. [Mas abro, antes dela, este parêntese, só para dizer que me lembrei, agorinha mesmo, de que, por alguma misteriosa simpatia, o nosso São Francisco Xavier achou que no Japão habitava uma promessa do reino de Deus...]

   Quem for ao Japão com algumas liberdades de passeio depressa travará conhecimento com as chicken ramen, uma espécie de esparguetes de tipo chinês, muito finos, em caldo de galinha. É prato popularíssimo, encontra-se por todo o lado. Vende-se hoje muito nas lojas de conveniência (abertas 24 horas por dia), macarrão e caldo liofilizado, conservado em copos herméticos de cartão, nos quais basta verter um pouco de água quente, para ter pronta a refeição. Milhões de japoneses, estudantes noturnos ou trabalhadores fora de horas, vão diária ou, melhor dizendo, noturnamente comprar, a baixo preço, esse conforto quentinho, antes de se deitarem nos seus futon, em exíguo apartamento. Essa receita instantânea foi inventada por Momofuku Ando e comercializada a partir de 1958. Mas só em 1971 ele criou as Cup Noodles, umas tigelas ou copos de massas logo prontas a consumir, depois de se lhes acrescentar a água necessária, e que actualmente são fabricadas (mais de mil milhões por ano!) em todo o mundo. A história de Ando Momofuku (como se diz o nome à japonesa) é paradigmática da alma nipónica. Cedo perdeu os pais, teve de se pôr a cozinhar e vender, para se sustentar a si e à irmã mais nova; chegou a construir uma indústria em Osaka, que bombardeamentos destruíram durante a 2ª Grande Guerra. Finda esta, retoma os negócios, mas arruína-se; Osaka é destruição e cinzas, as pessoas abastecem-se no mercado negro, e aí também se atropelam em filas intermináveis para conseguirem comida. Ando assiste ao triste espectáculo de homens, mulheres e crianças que esperam horas intermináveis pela sua ração de macarrão quente. Daí lhe virá a ideia de procurar uma solução que torne esse alimento mais facilmente acessível, não necessariamente dependente de cozinhas provisórias, com tempos de espera muito longos. Será preciso encontrar uma receita que, cozidas as massas, as mantenha em condições de serem consumidas mais tarde. E é ao ver sua mulher fritar tempura, que ele gritará  --  em japonês, presumo  --  eureka, achei! Na verdade, se fritar o macarrão em óleo, e o secar depois, obterá uns esparguetes que, mais tarde, só pedirão um pouquito de água  quente para saberem bem... Curiosa mesmo, ao falarmos de conservação de alimentos, essa inspiração da tempura, termo que, na culinária japonesa, se aplica a fritos de peixe ou marisco ou, alguns legumes e tubérculos, modo de preparação  --  dizem  --  de origem portuguesa (peixinhos da horta?). Talvez. Não porque tempura queira dizer tempero  --  que não diz nem quer  --  mas quiçá porque Dona Catarina de Bragança  --  que, já no reinado de Filipe I, acolhera quatro jovens nobres de Omura, os enviara a ver o papa em Roma e os remetera para o Japão  --  tenha mandado que, quando eles iniciaram a viagem de regresso, a bordo fosse posto peixe frito, para comerem "magro", pois eram as quatro têmporas (donde tempura) da quaresma. O peixe frito e seco conserva-se mais tempo... Abreviando o conto: em 2005, o astronauta japonês Soichi Noguchi levará para o espaço uns saquinhos de plástico contendo Space Ram, o macarrão concebido para viagens interestelares, pela empresa de Momofuku Ando. 

   O que me seduz neste caminho de descoberta é ele ser motivado por olhar os outros na sua circunstância, e querer acudir-lhes. Depois, a simplicidade e a economia das soluções encontradas, a despretensão, aliás evidente na opção que Ando faz por um invólucro mais pequeno do que o don (malga japonesa) em que as massas eram comercializadas, ao ver, num mercado americano, que os yankees não se sentiam confortáveis com esse formato. Assim nasceu o copo das ditas. Na verdade, o criador de tudo isto foi ver, visitar, as pessoas nos seus locais, perceber as suas necessidades e procurar as soluções mais acessíveis para elas. O atendimento, no sentido genuíno de sentimento do outro, está (é?) omnipresente no Japão. Faz, como nas aldeias antigas de Portugal, parte da cultura tradicional do povo. Pela experiência da carência, sua e de outros, na vida, Momofuku Ando, percebeu que a paz só reinará quando todos os homens tiverem com que comer, ou que nada se deve nem pode tirar às crianças. O sofrimento próximo, próprio ou alheio, por que passou, não fez deste homem um derrotado, amargo, desesperado ou revanchista. Não o levou a detestar a vida nem a odiar seja quem for, mas a oferecer a outra face, sem ofensa, simples sinal de solidariedade e paz. Conta-se que ganhou o hábito de chamar colaboradores e operários e lhes perguntar o que estavam a fazer, não para avaliar desempenhos ou produtividades, mas para saber se se sentiam bem, como poderiam gostar mais do seu trabalho, que ideias e novidades teriam... Todos eram assim chamados a viver em comunidade, a sentirem-se próximos, a contribuir, com esforço de braços ou com ideias criativas, para o bem comum. Claro que encontramos aí os princípios do marketing, mas com outra inspiração: não se trata de gerar e promover novas, ainda que supérfluas, necessidades de consumo, para se ir fazendo render o progresso tecnológico. Antes se procura acudir, com novos meios, a necessidades existentes, de modo a que não fiquem de fora os mais desvalidos. O engenho e o lucro podem  --  e devem  --  ser diferentemente inspirados.

   No Japão, aprendi muito sobre a vizinhança, o reconhecimento do nosso próximo, o cerne do evangelho da misericórdia. E, sobretudo, o amor da paz. Vi o mal, também, tal como ele anda por aí, por todo o lado. Mas senti sempre isso a que, desde menino, chamo o apelo de Deus à compaixão, a vocação dos homens de boa vontade. Todos nós, ou quase todos, de um ou doutro modo, devemos trabalhar, pois temos de ganhar com que viver, e é porque a obrigação de trabalhar e a necessidade de produzir são imperativos universais que a organização da economia não pode esquecer-se da complementaridade nem da solidariedade. Ao verificar que 95% dos japoneses se consideram "classe média", percebi que, na prática quotidiana de uma economia de mercado, e muito inovadora, se pode ir assegurando um lugar ao sol para todos. Escandalize-se por sua conta própria quem não me levar a bem dizer que vejo aí uma boa nova realizada no tempo e no modo.

 

Camilo Martins de Oliveira

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