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Blogue do Centro Nacional de Cultura

Um espaço de encontro e de diálogo, em defesa de uma cultura livre e pluridisciplinar. Estamos certos de que o Centro Nacional de Cultura continuará, como há sete décadas, a dizer que a cultura em Portugal vale a pena!

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FRANCISCO NA TAILÂNDIA: O DIÁLOGO INTER-RELIGIOSO

 

Era um sonho desde os tempos da juventude: ser missionário no Japão. A vida não o permitiu, mas Francisco acabou por realizar em parte, na semana passada, esse sonho, ao visitar durante sete dias (19-26) a Tailândia e o Japão. A partir da Ásia, Francisco deixou mensagens decisivas para o mundo, acentuando, na Tailândia, a importância fundamental do diálogo inter-religioso, e, no Japão, condenando como crime imoral não só a guerra nuclear mas também a simples posse de armamento atómico.

 

Hoje, incidirei na mensagem a partir da Tailândia. O próprio Francisco, após o seu regresso a Roma, na passada Quarta-Feira, na audiência geral, resumiu a sua estada na Tailândia. “Na Tailândia, prestei homenagem à rica tradição espiritual e cultural do povo thai, o povo do belo sorriso. As pessoas estão sempre a sorrir. Animei o impulso pela harmonia entre as diversas componentes da nação, para que o desenvolvimento económico possa beneficiar a todos e se curem as feridas da exploração, especialmente de mulheres, de meninas e meninos, expostos à prostituição e ao tráfico. A religião budista é parte integrante da história e da vida deste povo, por isso fui visitar o Patriarca Supremo dos budistas, prosseguindo o caminho da estima recíproca, começada pelos meus predecessores, para que cresçam no mundo a compaixão e a fraternidade. Neste sentido, foi muito significativo o encontro ecuménico e inter-religioso, celebrado na maior Universidade do país.”

 

Há muitos anos que o famoso teólogo Hans Küng não se cansa de proclamar que “não haverá paz entre as nações sem paz entre as religiões” e não haverá paz entre as religiões sem conhecimento e reconhecimento mútuo e, consequentemente, diálogo.

 

Como não podia deixar de ser, Francisco fez do diálogo inter-religioso uma das marcas essenciais do seu pontificado, e isso ficou bem claro também nesta visita à Tailândia. Enquanto no sul do país um grave e sangrento conflito confronta separatistas muçulmanos e forças governamentais, insistiu na necessidade do diálogo inter-religioso como “serviço a favor da harmonia social na construção de sociedades justas, compassivas e inclusivas.”

 

Logo no primeiro dia da sua visita oficial, num acontecimento histórico, encontrou-se no templo budista Wat Ratchabophit com o Patriarca Supremo Somdet Phra Maha Munivong, chefe do budismo oficial tailandês, começando por lembrar que o encontro se inscrevia “dentro do caminho de reconhecimento mútuo” iniciado pelos predecessores, e convidando a “aumentar não só o respeito mas também a amizade entre as nossas comunidades”, cinquenta anos depois da primeira visita de um patriarca budista a Paulo VI, tendo João Paulo II visitado também aquele templo. “Pequenos passos que ajudam a testemunhar, não só nas nossas comunidades mas também no nosso mundo tão inclinado a gerar e propagar divisões e exclusões, que a cultura do encontro é possível”. Referiu os fundamentos do budismo, que fazem parte indelével da identidade dos tailandeses, com “o seu modo de reverenciar a vida e os seus anciãos, prosseguir um estilo de vida sóbrio baseado na contemplação, no desapego, no trabalho duro e na disciplina”, permitindo definir a Tailândia como “o povo do sorriso”. “Possibilidades como estas lembram-nos como é importante que as religiões se manifestem cada vez mais como faróis de esperança, promotoras e garantes de fraternidade”, agradecendo ao povo tailandês que “desde a chegada do cristianismo à Tailândia, há uns quatro séculos e meio, os católicos, embora sendo um grupo minoritário, tenham desfrutado da liberdade na prática religiosa e durante muitos anos vivido em harmonia com os seus irmãos e irmãs budistas”. Os responsáveis religiosos, lembrou, devem oferecer ao mundo “uma palavra de esperança capaz de alimentar e apoiar os que são sempre os mais afectados pelas divisões”. Pelo seu lado, reiterou o seu “compromisso pessoal e o de toda a Igreja a favor do fortalecimento do diálogo aberto e respeitoso ao serviço da paz e do bem-estar deste povo”. Assim, “poderemos estimular entre os fiéis das nossas religiões a elaboração de novas iniciativas de caridade, capazes de gerar e multiplicar projectos concretos no caminho da fraternidade, especialmente para os mais pobres e na relação com a nossa tão maltratada casa comum”, para contribuir para “a construção de uma cultura da compaixão, da fraternidade e do encontro tanto aqui como noutras partes do mundo.”

 

O Papa Francisco deu um exemplo concreto, visitando o hospital Saint-Louis, fundado em 1898 por um bispo francês, que o confiou às Irmãs de São Paulo de Chartres, e que testemunha, explicou, “o precioso serviço que a Igreja oferece ao povo tailandês”. Aí, deixou palavras de inexcedível empatia e humanidade. “Todos vós, membros desta comunidade terapêutica, sois discípulos missionários quando, olhando para um doente, aprendeis a chamá-lo pelo seu nome. Estai abertos ao imprevisível”. “Realizais uma das maiores obras de misericórdia, uma vez que o vosso compromisso vai muito para lá de um simples e louvável exercício de medicina. Deveis ir para lá, abertos ao imprevisível”. Deveis “receber e abraçar a vida conforme chega à urgência do hospital para ser atendida com piedade especial, que nasce do respeito e amor à dignidade de todos os seres humanos”. “Os vossos esforços e o trabalho das muitas instituições que representais são o testemunho vivo do cuidado e da atenção que estamos chamados a mostrar a todas as pessoas, especialmente aos idosos, aos jovens e aos mais vulneráveis”. “Todos sabemos que a doença traz sempre consigo grandes interrogações. A nossa primeira reacção pode ser a de nos rebelarmos e até viver momentos de desconcerto e desolação. É o grito de dor, e é bom que assim seja: o próprio Jesus sofreu isso e fê-lo”.

 

No termo da sua visita e antes de partir para o Japão, Francisco, evocando os desafios do país e do mundo perante responsáveis de diferentes religiões (budistas, hindus, muçulmanos, sikhs) e confissões cristãs, voltou a apelar à cooperação inter-religiosa. “Os rápidos progressos, prometendo aparentemente um mundo melhor, coexistem com a persistência trágica de conflitos: migrações, expatriações, fomes e guerras, sem contar a degradação e a destruição da nossa casa comum. Todas estas situações colocam-nos em alerta e lembram-nos que nenhuma região nem nenhuma parte da nossa família humana pode considerar-se ou construir-se como uma entidade estranha ou imunizada em relação aos outros”, impondo-se, portanto, a salvaguarda contra “a lógica do fechar-se em si mesmo” e a defesa da “lógica do encontro e do diálogo na reciprocidade”. Em ordem à “solução dos conflitos”, à “compreensão entre as pessoas” e à “salvaguarda da criação”, “as religiões, sem por isso renunciarem às suas características essenciais e às suas diferenças próprias, têm um enorme contributo a dar e a oferecer”. O Papa apelou aos responsáveis religiosos que “construam fundamentos sólidos, ancorados no respeito e no reconhecimento da dignidade das pessoas, na promoção de um humanismo integral capaz de reconhecer e de reclamar a defesa da nossa casa comum”.

 

Neste seu discurso, pronunciado na Universidade Chulalongkorn, do nome de um rei de Sião, primeiro chefe de Estado não cristão recebido, segundo o diário La Croix, no Vaticano em 1897, Francisco insistiu ainda na necessidade de “aceitar a exigência de defender a dignidade humana” e “respeitar o direito
à liberdade religiosa”. Numa Tailândia budista, onde os idosos são muito considerados, Francisco manifestou também a sua satisfação por ver “preservadas as raízes necessárias para que o vosso povo não desvaneça por detrás de slogans que acabam por esvaziar e hipotecar a alma das novas gerações. Continuai a fazer com que os mais  jovens descubram a bagagem cultural da sociedade em que vivem. Ajudai os jovens a descobrir a riqueza viva do passado e ir em busca das suas raízes, com vista ao seu crescimento e às escolhas que são chamados a fazer.”

 

Neste contexto de diálogo inter-religioso, Francisco insistiu na sua mensagem constante: “O missionário não é um mercenário da fé nem um gerador de prosélitos. A evangelização não consiste em somar o número de membros nem aparecer como poderosos, mas em abrir portas para viver e partilhar o abraço, misericordioso e que cura, de Deus Pai, que nos faz família.”

 

Anselmo Borges
Padre e professor de Filosofia

Escreve de acordo com a antiga ortografia
Artigo publicado no DN  | 1 DEZ 2019