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Blogue do Centro Nacional de Cultura

Um espaço de encontro e de diálogo, em defesa de uma cultura livre e pluridisciplinar. Estamos certos de que o Centro Nacional de Cultura continuará, como há sete décadas, a dizer que a cultura em Portugal vale a pena!

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HELENA MARQUES

 

(…) E revoltava – a também que a sua própria mãe, que a dera à luz trinta anos atrás, quando tinha apenas dezassete anos, continuasse a produzir, ano depois de ano, aquele caudal de gritos apavorados, aquelas apaixonadas promessas de nunca mais, nunca mais. E no ano seguinte, tudo se repetiria, o mesmo terror, o mesmo medo cego, a mesma rejeição, a mesma revolta. Como podiam? Como podia o pai provocar e impor tamanho sofrimento? (E ela, a mãe? utilizar como poder?)

 

(…) Marta não quer filhos, não terá filhos, não irá nunca casar-se.

 

Esta passagem do livro de Helena Marques - o livro que eu cheguei a chamar durante muito tempo “o livro da âncora”- refletiu em mim uma luz que insistia em não se mostrar como claridade que eu levasse à escrita. Essa luz, quando chegou, resumiu e ampliou o que eu não tinha colocado no papel, acerca da estranha insatisfação de um prazer doentio, quando este oblitera o caminho do amor, e, levando em si, um tudo em vão, um tudo de poder, portador de um elixir de puro logro que corrói os dias e constitui enfim, sua única sustentação. Disso, disso se quer fugir!

 

E se quer fugir também não casando. Não atribuindo a ninguém o direito de lhe fazer filhos, e que se evitasse que ela os manipulasse, se nascessem.

 

Os homens deveriam ser procurados apenas nas suas saídas solares e se paixão houvesse que ela fosse vivida em fulgor e não no langor da sua dissipação.

 

As mulheres deveriam ser achadas em núpcias de vida breve, antes que tivessem tempo de transmitir os cantos das resignações às suas eventuais descendências. Antes de lhes ensinar que a solidão envolve temer os tempos das laminárias sendo esse o único caminho.

 

Surgia-me assim uma consciência trágica do entendimento dos tempos que Marta vivera. Na sua memória, sempre algo de monstro, algo de envelhecido ao ritmo de um jugo. Algo subtraído às leis da duração da ordem cósmica.

 

Às vezes, Marta despenhava-se no mar e fitava de frente os turbilhões da água na procura de um deus. Outras vezes, julguei ver Marta menos prisioneira e mais afoita às constelações das aves, tão tristemente adiadas do seu conhecer. E sempre o mesmo medo de tudo se repetir como se repetira desde que nascera e a assombrara tanto.

 

Prometia-se ao seu interior num nunca mais. Prometia-se, mordendo-se para que uma marca a fizesse cumprir a promessa, evitando o desespero do desastre de uma vida igual àquela que tanto repudiara.

 

Via-se jovem e sabia que detinha uma passagem, uma cumplicidade subversiva que iria gerir entre dois mundos: o que repudiara e aquele que lhe era plataforma para um outro, um que iria descortinar por entre as duas margens da sua vida, e que saberia gerir.

 

Entretanto o tempo passava, alívio e cansaço, e a fronteira entre o mundo e a morte fechava-se.

 

 

Recordo bem que assim me ative no interpretar do que seria o último cais de Marta. 

 

Desconheço se Helena Marques assim pensou quando escreveu o parágrafo com que iniciei este acontecer. Resta que talvez os humanos possam ter o dom de entenderem várias palavras escritas e por elas comunicarem outras até saciarem a sua sede de saberem do Ser, sobretudo quando Marta foi para mim a criatura vinda de um outro frio; um frio larvado do seu interior, um frio onde seria aposto o dia em que deixaria o mundo, e, esse facto não era terrível, não! nem maligno, antes impenetrável mistério como o das cegonhas quando voando alto, levando consigo o azul, nas suas silhuetas migratórias.

 

Teresa Bracinha Vieira