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Blogue do Centro Nacional de Cultura

Um espaço de encontro e de diálogo, em defesa de uma cultura livre e pluridisciplinar. Estamos certos de que o Centro Nacional de Cultura continuará, como há sete décadas, a dizer que a cultura em Portugal vale a pena!

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Um espaço de encontro e de diálogo, em defesa de uma cultura livre e pluridisciplinar. Estamos certos de que o Centro Nacional de Cultura continuará, como há sete décadas, a dizer que a cultura em Portugal vale a pena!

LONDON LETTERS

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A classic Tory Civil War, 2016

 

O choque é magistral entre The Judean People’s Front e The People’s Front of Judea. Perdão! A luta agudiza-se entre Conservatives’ Inners que defendem a permanência do United Kingdom na European Union e Conservatives’ Outers que antes apoiam a retirada do Club 27. Os competidores vestem cores que

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confundem o humble spectator. Assim: A hoste Bremain exibe ministros de HM’s Government; a hoste Brexit apresenta ministros da Crown também. O Prime Minister lidera os Inners, mas comanda estes e aqueloutros no Cabinet Room. Confusos?! Bom, não fiqueis. Magnificente mesmo é a visão dos futuros debates televisionados do Brexit. The Movie candidato a louros e expulsões. — Chérie. Rien ne sert de courir, il faut partir à point. Mr Leonardo DiCaprio conquista o Oscar de Best Actor pelo papel de Hugh Glass em “The Revenant”. Mr Tom McClean ultima preparativos por cá para, a bordo do “Moby,” aos 73 anos, atravessar o Atlantic Ocean. — Well! Life’s a journey. We certainly must enjoy the expedition. Os norteamericanos antevêem duelo entre Mrs Hillary Clinton e Mr Donald Trump na White House Race após a Supertuesday. Tréguas na Syria abrem janela de oportunidade para a paz. Pope Francis elogia a generosidade grega na crise dos refugiados, exortando Europe a esforço articulado para acolher quantos dela hoje necessitam. As eleições em Ireland continuam em contagem, sem executivo previsível, com a eventual derrota da coligação no poder e a vitória do Fianna Fáil comparadas a algo suave como shocks, sea changes & seismic shifts.

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Light rain showers within windy and mild fresh days em London. Os jardins em volta denotam the early joys da primavera. Antecipando os ventos quentos e a passarada que com estes vem, Mr Nigel Farage intervém na UKIP's Spring Conference em Llandudno para declarar o já lendário 23rd June como "independence day" caso os Brits votem para sair da EU. Quando o Chancellor RH George Osborne planeia nova vaga de cortes na despesa pública, o G20 soa os alarmes contra a Brexit e o Labour Party contrata Mr Yanis Varoufakis como advisor, o foco na riviera galesa afirma a paleta das atenções em Westminster. A batalha Inners/Outers manifesta velocidade e intensidade tamanhas que partidos e políticos parecem até distraídos das eleições em Northern Ireland, Wales, Scotland e London agendadas para 5th May. Quer os competidores, quer a charanga mediática trabalham as dimensões concetuais da soberania ‒ aquele poder que não aceita igual dentro das fronteiras ou superior fora destas. Logo no início da quadrimensal corrida, porém, temo que os dois lados do argumento hajam esgotado o leque de razões pró e contra a ligação muito ou nada sentimental da ilha ao continente além Channel.

Padrão comum há nas barricadas. Por motivo de bons soundbytes, todos Tories que Labourites e Lib-Dems jogam na assistência, uns e outros tendem a clássicas comparações plumitivas. Afinal, sempre Sir Winston Churchill ancora a Britishness na “Law, language, literature.” Tome-se, por exemplo, o Inner Prime Minister. Amiúde o primus inter pares é descrito como Julius Caesar em Ides of March; tal serve para de caminho apontar como Marcus Junius Brutus o seu até há pouco close friend, most loyal ally e ainda Secretary of Justice RH Michael Gove. Daí a glosada linha do "Et tu Michaeltus." Veja-se agora distinto Big Outer: RH Boris Johnson. Aqui o caso refina, por colisão de egos. Em plena House of Commons sibilinamente sublinha RH David Cameron que se move não por ambições, sim obrigações. À adaga do oportunismo responde o Mayor of London com invocação de Lucius Quinctius Cincinnatus, herói que salva Rome de ataque Aequi e depois deposita laureado bastão para regressar ao cultivo das terras. No demais: Only 114 days to go…

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Recomendável teatro é visto ainda noutro palco. O projeto é multimédia, o texto surge abreviado e somente apresenta duas idas à cena. Todavia, o espetáculo sobre o diário íntimo de um ajudante de guarda-livros na baixa de Lisboa suscita boa nota a quantos rumam ao Coronet Theatre para ver The Book of Disquiet, do Sr Fernando Pessoa. O cineteatro de South London acolhe no fim-de-semana a “a stunning UK premiere” do holandês Mr Michel van der Aa’s, com as palavras ditas por Mr Samuel West e o som da London Sinfonietta dirigida pela maestrina Sra. Joana Carneiro. The Times qualifica o conjunto como “remarkable 75-minute conflation of avant-garde music, film and theatre.” Nada diverso! O trabalho erguido sobre “a factless autobiography” ensaia, enquadra e vivifica o estilo avulso das reflexões do heterónimo Bernardo Soares que cedo afirma o que retém o autor entre o tinteiro e o papel: “a poesia da Pérsia, que não é de um lugar nem de outro, faz das suas quadras, desrimadas no terceiro verso, um apoio longínquo para o meu desassossego. Mas não me engano, escrevo, somo, e a escrita segue, feita normalmente por um empregado deste escritório.” O livro propriamente dito tem edição póstuma e três vozes, seja a do amanuense da Rua dos Douradores, seja a do onírico Vicente Guedes, seja ainda a do poeta confinado em destino exíguo: "uns livros de contabilidade e a capacidade de sonhar." A “fortune's Wheel” ecoa no 28 New Kent Road. — Hmm! Do remember Master Will in “The Tragical History of Julius Caesar:” The fault dear Brutus lies not in not our stars but in our selves if we are underlings.

 

St James, 29th February              
Very sincerely yours,
V.