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Blogue do Centro Nacional de Cultura

Um espaço de encontro e de diálogo, em defesa de uma cultura livre e pluridisciplinar. Estamos certos de que o Centro Nacional de Cultura continuará, como há sete décadas, a dizer que a cultura em Portugal vale a pena!

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LONDON LETTERS

 

The hand of God, 2017

 

A mão de Deus passou por Parsons Green Station. Há um bombista incompetente e uma bomba que não mata em mais um ataque terrorista em London. À explosão no metropolitano sucedem gritos e rostos lívidos, pânico e estupefação.

As pessoas abandonam os haveres e perdem até os sapatos ao correr para fora das carruagens apinhadas. Surgem os gestos que ajudam e os que atropelam. O divino desce ali sob a forma dos bons samaritanos. E há ainda aquele British spirit do keep calm and carry on. Um 18th years' old é capturado em Dover.  —  Chérie! Les jours se suivent et ne se ressemblent pas. A Great Repeal Bill passa com confortável maioria na House of Commons, em nova etapa legislativa rumo à separação continental. O Foreign Secretary RH Boris Johnson agita as àguas com um artigo no Daily Telegraph ao recordar causas, formas e finalidades da saída do UK da European Union A Prime Minister Theresa May igualmente prepara memorável intervenção sobre a Brexit, esta semana, em Florence (It)  — Well. Actions speak louder than words. O furacão Maria gira nas Caribbeans. O US President DJ Trump discursa nas United Nations e exorta o Secretary General António Guterres "to make changes.". Em Brussels, o EU Commission President Jean-Claude Juncker reafirma que o reino unido "will regret leaving" enquanto traça uma utópica visão federalista do superestado europeu.

 

Light blue clouds at Great London. O senhor louro puxa da pena e é sempre um imenso alvoroço. Bastam pouco mais de 4,000 palavras espalhadas pela primeira página do Telegraph e eis fresco recentrar do debate em torno do Brexiting. Esta é a primeira intervenção pública de RH B Johnson depois do histórico voto no euroreferendo e um recatado silêncio nas funções do Foreign Office. Ora, Boris escreve a 2017 UK Declaration of Independence. E é o splash quando a direção das negociações eurobritânicas parece rumar para um forçadíssimo consenso balizado por indefinido período de transição com acesso ao mercado único e indeterminado cheque do Treasury pela trela. A dias da Prime Minister May fazer “a major Brexit speech” na cidade italiana filha da Old Rome, ao que se sabe, para detalhar as linhas orientadoras do seu definidor discurso em Lancaster House, o campeão dos Leavers retoma as ideais centrais do argumento que persudiu 17,4 milhões de britânicos a optarem por futuro soberano. Apenas dois sublinhados em peça de leitura obrigatória. O dinheiro dos contribuintes hoje enviado para o orçamento bruxelense será bem melhor aplicado segundo prioridades domesticamente definidas. A permanência do país nas estruturas comerciais ou aduaneiras da Europen Union, seja qual seja o molde formal, fará do voto democrático de 2016 "a complete mockery."

 

As reações às palavras escritas de Boris são tempestuosas. Uns veem na tinta um movimento para publicamente condicionar o Her Majesty Government nas negociações da retirada continental e outros antes aqui vislumbram pé de candidatura à liderança dos Tories. Destaque para a resposta da Home Secretary RH Amber Rudd, e possível rival pelo leme conservador, de o colega intentar a "back-seat driving." Ineludível é a surpreendente vinda a terreiro do ex Mayor of London revelar que a Prime Minister tem tarefa difícil na condução do seu Cabinet. Tal qual inequívoco é, dias depois do incendiário discurso federalista de Mr Juncker no European Parliament, já com trono imperial e exército a 27, Mr Johnson ter injetado um sopro de oxigénio no debate político interno, com uma positiva visão de Britain pós Brexit de novo erguida no meio dos espantalhos semeados pelo omnipresente Project Fear. Ele é o rosto otimista da autonomia, o qual muitos querem apagar num país que há muitos séculos experiencia a vida em liberdade.

 

A semana fica também marcada pela perda de um dos grandes. Parte da existência Mr Peter Hall (1930-2017), o empreendedor que funda a Royal Shakespeare Company em Stratford-Upon-Avon e encenador que dirige o National Theatre em London. O seu nome está indissociavelmente ligado às artes e ao que de melhor há décadas roda nos palcos britânicos, entre Camino Real e Amadeus, da voz de Mr Laurence Olivier, John Gielgud ou Anthony Hopkins ao estilo de Dames Maggy Smith, Peggy Ashcroft ou Judi Dench. Deixa legado valioso e inspirador. — Farewell, gentle Sir. Go by the sun and see Master Will remembering his deep poetry: — “You and I will meet again, When we're least expecting it, One day in some far off place, I will recognize your face, I won't say goodbye my friend, For you and I will meet again."

 

St James, 18th September 2017

Very sincerely yours,

V.