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Blogue do Centro Nacional de Cultura

Um espaço de encontro e de diálogo, em defesa de uma cultura livre e pluridisciplinar. Estamos certos de que o Centro Nacional de Cultura continuará, como há sete décadas, a dizer que a cultura em Portugal vale a pena!

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LUÍS MIGUEL NAVA

 

O Círculo de Poesia da Moraes Editores publica em 1979 o livro de poesia PELÍCULAS de Luís Miguel Nava prémio de revelação de poesia da Secretaria de Estado da Cultura.

 

Recordo a referência expressa a este livro em diálogo com António Alçada Baptista. Não nos restava qualquer dúvida sobre a inquestionável qualidade e originalidade da obra de poética de Luís Nava numa incessante ideia do conhecimento de excesso e de limite, e que muito clara nos surgia neste livro.

 

Formado em Filologia Românica na Faculdade de Letras da Universidade Clássica de Lisboa, na qual foi assistente, parte para Oxford como leitor de português, mudando-se em 1986 para Bruxelas, tendo sido cruelmente assassinado em 1995 no seu apartamento por um companheiro de circunstância.

 

Estávamos a almoçar em Sintra eu e o António ainda incrédulos acerca da notícia do assassinato do Luís quando nos veio à memória a profunda influência que nele teve Eugénio de Andrade aquando do conhecimento de ambos em 1975. Em rigor, Luís Miguel Nava, nunca mais referiu como escrita ativa tudo o que tinha escrito antes de conhecer Eugénio de Andrade. Terá sentido o Luís - dizia-me o António – que até Eugénio de Andrade o que escrevera fora apenas indício de nada.

 

Julgo que o modo de se acender na escrita surge-lhe depois de Eugénio e surge-lhe do jeito que surge às águas: fala de torrente por caminho de ondas. Digo.

 

Há pouco tempo escrevi sobre uma obra de Bashô, e logo abri a página 10 deste livro de Luís

 

O TANQUE DE BASHÔ

O tanque junto a que o crepúsculo mo traz é o de

bashô.

   A água maravilha-se.

 

Inquinam-se as imagens, a pequena rotação do outono,

o dia decompõe-se, o sangue explode contra a claridade.

 

Um nó de leite a nudez cresce pela água.

 

e

ARS ERÓTICA

Eu amo assim: com as mãos, os intestinos. Onde

ver deita folhas.

 

ou

OLHANDO O MURO

E assim ficava olhando o muro. Não atentava então na claridade em que a casa e a terra a essa hora faleciam (…) metade do seu rosto entrava pelas paisagens, era prisioneira da fabulação.

 

Creio que existe sempre um relâmpago de cores diferentes quando relemos Luís Miguel Nava.

 

Teresa Bracinha Vieira