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Blogue do Centro Nacional de Cultura

Um espaço de encontro e de diálogo, em defesa de uma cultura livre e pluridisciplinar. Estamos certos de que o Centro Nacional de Cultura continuará, como há sete décadas, a dizer que a cultura em Portugal vale a pena!

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MAIS 30 BOAS RAZÕES PARA PORTUGAL

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  (XXX) MANOEL DE OLIVEIRA, INESQUECÍVEL

 

Quase a acabar o nosso folhetim, vamos ao Porto e encontramos Manoel de Oliveira (1908-2015), e terminamos na Arrábida, sempre a Arrábida… A começar, um delicioso relato feito pelo jovem poeta Carlos Queirós de uma conversa com o grande Luigi Pirandello, numa viagem de táxi entre os Restauradores e o Hotel Palácio do Estoril. O Mestre estava fatigado e escusara-se a ir a Alfama a uma festa popular organizada por António Ferro. Tinham acabado de ver a exibição do documentário «Douro Faina Fluvial» do jovem Manoel de Oliveira. Carlos Queirós conta o ocorrido: «Durante a exibição do filme – que o crítico francês Vuillermoz declarou ter sido, como realização, a estreia mais auspiciosa que tinha visto. Contudo, alguns espectadores ameaçaram patear. Pirandello, inclinando-se para trás, perguntou a um dos portugueses que o acompanhavam no camarote: “Porque estão a bater com os pés? – Porque não gostam. – Mas o filme é muito bom! – É verdade, mas não gostam… E Pirandello, com ar de quem acaba de reconhecer uma classe (talvez a lembrar-se do que aconteceu a algumas das suas melhores peças): – Ah! São os idiotas!…». E, entre dentes: de facto, confundem os pés com as mãos… Estava tudo dito. Sabemos que Oliveira estava suficientemente seguro de si, inspirado por Walter Ruttmann, e agora contava com o veredicto absoluto de Pirandello. José Régio disse, aliás, de «Douro», na «Presença»: «Realizado num mínimo de condições favoráveis, é, além duma surpresa e duma audácia, um milagre de apaixonada persistência» e Adolfo Casais Monteiro foi perentório: o filme «inaugurava em Portugal uma nova época».

De facto, um grande autor anunciava-se. Não falaremos hoje de tantas obras que nos encantaram, como “Aniki-Bobó” até “Amor de Perdição” (que o tempo apenas valorizou) ou “Palavra e Utopia”. Falaremos apenas de “O Convento” (1995), baseado na novela de Agustina “As Terras do Risco”. O romance decorre na Arrábida, onde há muitos séculos o homem conhece a confrontação com a sua própria obscuridade, dando-lhe às vezes o nome de Deus, outras de rei ou de poderes telúricos, terramotos e tempestades. A trama desenrola-se no misterioso convento, isolado na serra da Arrábida. Michel Padovic, investigador americano (John Malkovich) está apaixonado pela busca de uma pista histórica inédita e procura indícios de que William Shakespeare era um Judeu espanhol, descendente de gente expulsa da Península Ibérica, que teria partido para Florença e daí para Inglaterra. Acompanhado pela mulher, Helène (Catherine Deneuve), Michel trabalha na Arrábida. E deparamos com a releitura do mito universal de “Fausto” – entre Shakespeare e Goethe. Alguém vende a alma ao demónio em troca do conhecimento. E Manoel de Oliveira trabalha o mito, demonstrando que Fausto existe em todo o tempo. Mas é por Hélène que se interessa o guardião do local, a figura algo sinistra de Baltar (Luís Miguel Cintra), que vive com Piedade (Leonor Silveira). Há vários tempos sobrepostos: o presente, a Idade Média e a Antiguidade clássica, já que Hélène se transfigura em Helena de Troia.

João Bénard da Costa está  muito ligado a este filme. Conhecia a serra como ninguém. Manoel de Oliveira pediu-lhe ajuda para fazer um levantamento das histórias da Arrábida. “Numa das cenas, eu devia contar (disse João) à Catherine Deneuve a história do Convento Velho, que eu contei tantas vezes a tanta gente ao longo da minha vida. Lembro-me perfeitamente de ter pensado, naquele momento, que sentia estar a viver um sonho. Um ano antes, naquele mesmo sítio onde vou tantas vezes, até poderia ter imaginado esta cena, rido com ela e pensado que ela era um sonho. Mas não. Estava ali, com a Catherine Deneuve, a contar uma história da Arrábida. (…) A verdade é que tenho vivido coisas que nunca pensei viver, que parecem fazer parte da dimensão do sonho, da dimensão do cinema. Nesse sentido, sou um homem privilegiado”. De facto, todo o carácter mágico que rodeia “O Convento” estava bem patente nos vários planos apresentados. Agustina, por sugestão do seu amigo, começa a escrever “Pedra de Toque”, sobre um dos lugares mais mágicos de Portugal. No entanto, demorou-se na escrita, mais do que o realizador necessitaria. Então este falou a Agustina para que ela resumisse o enredo. Assim foi, e Oliveira elaborou um guião próprio, dando início à concretização do filme. E apresentou o filme como “inspirado na ideia original de Agustina Bessa-Luís”. Resultado? Agustina não gostou. Recusou-se a ver o filme e qualificou o episódio como “desencontro total” e “colaboração falhada”. A zanga foi séria, mas o tempo aplainaria esse acidentado episódio. Agustina seguira uma via algo diferente da de Oliveira. Teria preferido a obsessão do investigador tão concentrado no seu estudo, correndo o risco de se confundir com ele. Pelo contrário o cineasta optara por enfatizar a história dos ciúmes entre duas mulheres. E, como bem sabemos, Agustina sempre repetiu que “o Manoel de Oliveira filma filmes de amor, e o amor não entra nos meus romances”. A verdade é que não podia ser durável a zanga, por várias razões – de facto o que houve com “Pedra de Toque”, que depois se tornou “Terras do Risco”, por maior fidelidade à Arrábida, que passou à tela como “O Convento”, foi um mero equívoco, gerado pela pressa de Oliveira e pela falta de um real acerto de ideias quanto ao projeto. Quando vemos o filme, percebemos que poderia ter sido ela a principal responsável pelas ideias, com mais ou menos ciúmes e desencontros. Talvez tenha existido no cineasta um excesso de confiança no exercício de seguir o que a autora teria feito. Passada a tempestade, no ano seguinte, Oliveira voltou a lançar a Agustina o desafio para escrever sobre mulheres e homens, num cenário em que dois casais, um mais novo e outro mais velho, se encontram nos Açores. E assim o filme “Party” (1996) vai marcar uma rápida reconciliação – sendo curiosa a forma como Agustina vai aos Açores para conhecer pessoalmente Michel Piccoli e Irene Papas, que contracenam com Rogério Samora e Leonor Silveira. Surpreendida, a escritora depara-se com a filmagem de uma garden party em plena tempestade – com chuva, neblina e vento forte… E Agustina concluiria que a nova colaboração cinematográfica foi interessante.

GOM

 

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