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Blogue do Centro Nacional de Cultura

Um espaço de encontro e de diálogo, em defesa de uma cultura livre e pluridisciplinar. Estamos certos de que o Centro Nacional de Cultura continuará, como há sete décadas, a dizer que a cultura em Portugal vale a pena!

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NO TEATRO DE D. MARIA, A EXPOSIÇÃO SOBRE AMÉLIA REY COLAÇO

 

O Teatro Nacional de D. Maria II organizou uma exposição de fotografias  evocativas da carreira de Amélia Rey Colaço (1897-1990), designadamente, mas obviamente não só, nos anos em que dirigiu precisamente o TNDM II, onde começou a atuar no início dos anos 20 e que codirigiu  desde 1930, primeiro com o seu marido Robles Monteiro  até à morte deste em 1958, e depois dessa data até ao incêndio que em 4 de dezembro de 1964 quase destruiu o teatro, obrigando a empresa a uma certa itinerância oficinal. 

 

Passou para o Teatro Avenida, mas este também arde em 1967! 

 

Amélia continua no entanto a dirigir a Empresa Rey Colaço-Robles Monteiro em sucessivas temporadas no Capitólio e no Trindade, até se retirar de cena, mantendo no entanto atividade ligada ao teatro, ao cinema e à televisão. E recorda Jorge Leitão Ramos no “Dicionário do Teatro Português” que Amélia em 1978 exerceu funções de consultora no Museu do Teatro, em fase de organização.  

 

Como atriz, Amélia Rey Colaço estreou-se em 1917 no então Teatro Republica, atual São Luiz, com uma peça, “Marinela” da autoria dos dramaturgos espanhóis, à época  mais do que hoje conhecidos e celebrados, Irmãos Quintero. Não mais deixará de estar ligada às artes do espetáculo e, durante décadas à própria direção e encenação, em Portugal e também com certa regularidade no Brasil. 

 

Deixou a direção do Teatro Nacional em 1974. Mas ainda em 1985 esteve ligada à estreia em Portalegre da peça “El Rey Sebastião” de José Régio, o qual, como sabemos, foi docente, dezenas de anos, no Liceu local. 

 

A exposição do Teatro Nacional documenta através de fotografias essa longa carreira de atriz. Desde logo na primeira personagem da estreia, a Marinela, em fotos da sua irmã Alice Rey Colaço. Segundo refere o texto que documenta a exposição, a jovem Amélia terá enviado as fotografias ao escritor Afonso Lopes Vieira (18978-1946) para saber a sua opinião. Lopes Vieira era então um nome exponencial da sociedade e da cultura portuguesa. Amélia daria relevo a essa opinião, na época reforçada pelo prestígio do escritor. 

 

A exposição mostra fotografias de Amélia Rey Colaço, a sua filha Mariana Rey Monteiro e outros elementos da companhia numa visita aos escombros do Teatro, na manhã seguinte ao incêndio.  De tudo isto guardo memória. 

 

Seja-me pois permitido transcrever um texto que na altura, jovem estudante na Faculdade de Lisboa mas também estudante na cadeira de Estética Teatral e Filosofia do Teatro no Conservatório Nacional e já colaborador no imprensa, escrevi logo a seguir ao incêndio:

 

“Estive no Teatro Nacional de D. Maria II às primeiras horas da manhã trágica, e guardarei para sempre na memória a sensação terrível que aquele monte de ruínas provocou. Com alguma dificuldade (ainda se percebiam focos de incêndio) consegui assomar ao buraco de um resto de camarote: e assim foi-me fácil entender o caráter brutal da destruição. O palco, visto da sala, nada mais mostra do que uma estrutura negra – e a sala, vista do palco, completa o panorama desolador”... 

 

Este desastre surge documentado na exposição, bem como o espetáculo que dias depois a Companhia realizou no Coliseu dos Recreios com o “Macbeth”, numa inesquecível homenagem aos artistas do Teatro Nacional!... 

 

Vale pois a pena visitar a exposição sobre os 120 anos de Amélia Rey Colaço: por tudo isto mas também pela evocação da carreira de uma atriz e diretora de teatro que marcou época e que é  homenageada precisamente no Teatro que durante tantos anos dirigiu e prestigiou.  

 

DUARTE IVO CRUZ