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Blogue do Centro Nacional de Cultura

Um espaço de encontro e de diálogo, em defesa de uma cultura livre e pluridisciplinar. Estamos certos de que o Centro Nacional de Cultura continuará, como há sete décadas, a dizer que a cultura em Portugal vale a pena!

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O Teatro Ribeiro Conceição de Lamego – Uma Perspetiva Histórica

 

 A arquitetura e o património teatral reserva-nos surpresas. Em Lamego, encontramos hoje, em plena atividade, o Teatro Ribeiro Conceição. A fachada, datada de 1727, de certo modo não identifica a função de espetáculo e a salvaguarda da arquitetura interna inerente. E no entanto, o Teatro em si mesmo conserva a traça, a estrutura e o ambiente das salas de espetáculo de inícios do século passado, designadamente nos camarotes.

Trata-se do edifício construído para albergar, na época, o Hospital da Misericórdia de Lamego. Aí se manteve até 1882, ano em que lá se instala o quartel de bombeiros. Mas por pouco tempo: em 1897 um incêndio atingiu o interior. O edifício encerra então, mantendo a ruína, durante décadas, no centro da cidade. E mais extraordinário ainda, a fachada original, apesar de todas estas ocorrências, conservou mais ou menos na sua traça original, marcando então como hoje o centro da cidade…

Até que em 1924, um benemérito local, Comendador José Ribeiro Conceição, adquire em hasta pública o edifício semi-arruinado para o transformar em sala de espetáculos. E assim temos em 1929 o Teatro Ribeiro  Conceição, com a estrutura e a fachada mais ou menos original, ainda marcadamente setecentista nas três ordens de janelas, de certo modo inesperadas num já então cine-teatro, no interior restaurado na funcionalidade que na época ainda marcava as salas de espetáculo,  no caso concreto, reforçada pela adaptação de  um edifício anexo.

Todo este conjunto é então inaugurado como teatro em 2 de fevereiro de 1929. Curiosamente, o interior, na escadaria de acesso à sala de espetáculos propriamente dita, manteve reminiscências decorativas que evocam a origem funcional do edifício. E, tal como noutro lado escrevi, “a fachada lateral merece também destaque, pois o conjunto de quatro portas em arcada de acesso elevado, servidas por escada nobre e encimadas por janelões correspondentes, também em arco, conferem uma linha arquitetónica, essa sim, mais adequada à vocação teatral, no duplo termo, do edifício”. (cfr. “De Volta aos Teatros”, ed. Livraria Civilização Editora 2008, pág. 67).

É interessante este critério de arquitetura de espetáculo, sobretudo se tivermos em conta a recuperação do palco e a aplicação de tecnologias de cena, digamos assim, que permitem uma maior rentabilização artística e de público. Renovaram-se por completo as áreas anexas e complementares ao espetáculo em si: palco tecnologicamente equipado, novos camarins, sala de ensaios, estúdio, zona de exposições autónoma e foyer.

Mas insista-se: a sala, em si mesma, mantém a estrutura, a arquitetura e a decoração originais, com plateia e duas ordens de camarotes, numa lotação total de cerca de 370 lugares. E sobretudo, mantém a atividade teatral-cultural, até hoje.

Resta acrescentar que Lamego tem uma tradição de arquitetura teatral pelo menos desde o século XIX, consagrada num Teatro Lamecense inaugurado em 1841, com plateia, camarotes, superior e geral, que ainda existia no princípio do século XX.

 Mas mais do que isso: segundo Vergílio Correia, Lamego terá “um capítulo especial na história do movimento artístico português”. (in. “Artistas de Lamego” – Coimbra 1923).   

 


DUARTE IVO CRUZ

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