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Blogue do Centro Nacional de Cultura

Um espaço de encontro e de diálogo, em defesa de uma cultura livre e pluridisciplinar. Estamos certos de que o Centro Nacional de Cultura continuará, como há sete décadas, a dizer que a cultura em Portugal vale a pena!

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Estátua de Maiomonides em Córdova.

 

9. O TRIUNFO DE S. TOMÁS DE AQUINO


Foi tema algo popular na pintura cristã ocidental, sobretudo nas igrejas e conventos dominicanos dos séculos XIV e XV. Representava o autor da Summa Theologiae, abençoado e iluminado por Deus, rodeado e festejado por anjos, papas, bispos, muitos santos e doutores e sábios, da Igreja e de fora dela, até da Grécia Antiga e do mundo islâmico. A Suma de frei Tomás não é aí apenas o resumo de todos os saberes, é a cúpula que os coroa. Sempre gostei de ver, nos grandiosos frescos de Andrea Bonaiuti - que desde o sec. XIV (1365) estão em Santa Maria Novella, em Florença  -   acocorado e apoiado a um livro, de turbante e semblante nobre, pousando a mão esquerda num joelho, segurando com a direita o rosto inteligente e atento, Averroes (1126-1198), sábio árabe e muçulmano. Alegra-me a presença dele ali, não por pensar que S. Tomás também dele triunfou, mas antes por vê-lo participante da festa de um triunfo da razão. Significativamente, o filósofo muçulmano que, no sec. XII, foi com o judeu Maimónidas (1135-1204) um dos mais abrangentes sábios do mundo controlado pelo islão, está no centro do fresco da esquerda, logo abaixo do homenageado. Apontam-se muitas vezes tais representações como sinais da esmagadora superioridade do pensamento tomista, intenção compreensível na cristandade europeia desse tempo. Mas faço questão em realçar aqui o reconhecimento de Averroes, tradutor e comentador de Aristóteles, como predecessor do Doutor Angélico. A Europa medieva sabia reconhecer a contribuição da cultura árabe na herança recebida dos gregos. A expansão árabe, isto é, a afirmação religiosa e política do islão, iniciou-se em territórios já bastante povoados por judeus e cristãos, muitos deles, aliás, árabes, entre os quais se encontravam gentes de cultura helenística, inclusive entre as de língua aramaica e sua derivada siríaca... A cidade egípcia de Alexandria, por exemplo, era a capital cultural do império bizantino. E já citei Ibn Khaldun, que afirmava serem as ciências apanágio dos persas e dos rum, estes sendo os bizantinos herdeiros da cultura greco-romana. Na verdade, as ciências mais cultivadas, logo desde os califados omíada (Damasco) e abássida (Bagdad), eram as matemáticas e a geometria, a astronomia e a física, por um lado, e, por outro, a medicina e a metafísica... O contacto mais estreito com a cultura romana latina, faz-se sobretudo no ocidente muçulmano, a partir de finais do sec. VIII, na Península Ibérica. No oriente, o cultivo das ciências, com traduções e comentários de autores gregos, como Platão, Aristóteles, Hipócrates, Galiano, Euclides ou Ptolomeu, é fomentado por califas e outros mecenas, desenvolvendo-se a investigação científica por árabes e gentes de outras etnias e religiões, submetidas ao poder islâmico. E desde muito cedo, esses tesouros de conhecimento acumulado e acrescido se foram distribuindo também pelos restos do império romano do ocidente, provavelmente entrando pelo sul de Itália e beneficiando da curiosidade e apoio do papado romano, dos mosteiros (onde mais se concentravam os copistas, em tempos já de papel mas ainda sem tipografia...), e dos imperadores carolíngios e alemães, logo desde Pepino o Breve, pai de Carlos Magno. Devemos reconhecer que a conservação e transmissão desse acervo, elo tão importante da cultura cristã europeia com a sua antepassada grega ou clássica, se deve em grande parte ao islão e à sua política científica. Variados fatores se poderão considerar para uma nomenclatura das razões do declínio científico e técnico do islão mediterrânico, quando, precisamente na Europa cristã, a Renascença iniciada ainda no sec.IX, empurrada pelo surto dos centros urbanos, universidades e comércios, sobretudo no sec.XIII, desabrochava nos secs.XV e XVI, conduzindo a um longo período de progresso científico e tecnológico que as grandes descobertas ajudaram a abrir. Observe-se que, com excepção da queda dos reinos islâmicos de Espanha, o islão terá provavelmente constituído, até meados do sec.XVII, maior ameaça para a cristandade, do que o inverso. Aliás, uma das motivações apontadas aos descobrimentos tem sido a necessidade de se contornar o cerco islâmico... Mas, para além do conforto relativo do império otomano, não teria havido um cerceamento da actividade científica e liberdade de pensamento pelo poder religioso e político do islão? Claro que tentativas de semelhante hegemonia se manifestaram na Europa cristã (vg. a Inquisição), mas as comunidades locais  --  como aliás seria historicamente demonstrado pelos movimentos de  reforma eclesial  --  pelas complexas relações de inter-independência em que durante séculos foram vivendo, quase impossivelmente teriam aceite um poder central  --  ainda que teocrático - inibidor. O sentimento inato de liberdade e igualdade dos povos europeus marcou-lhes um caminho diferente. Em 1978, um palestiniano professor na Columbia University de Nova Iorque publicava um livro : Orientalism. Em Março deste ano, um filósofo argelino, Mohammed Taleb, envolvido no movimento renascentista islâmico Nahda, escrevia: Aquele intelectual palestiniano, exilado desde 1948, demonstrava que a vontade de poder do Ocidente relativamente às sociedades do Próximo Oriente, do Magrebe, ou mesmo da Índia, não era só político-militar, mas também cultural. E referindo a "ala sábia" do exército napoleónico que, em 1798, desembarcara no Egipto, acrescenta que ela provocara um cataclismo na consciência árabe muçulmana do século XIX. Essa ocupação representou um verdadeiro choque para os intelectuais islâmicos, que tomaram consciência da sua decadência face à civilização ocidental. É impossível compreender a vida religiosa e social do mundo muçulmano nestes dois últimos séculos, se ocultarmos o carácter traumático dessa experiência... E conta que nasce então uma nova consciência e, com ela, um movimento de ideias e renovação do pensamento e da sociedade: a Nadha ou renascença, a seguir a uma missão de estudo a França, em meados dos anos 1800, que ali permanece cinco anos. No fundo, penso eu, a fazer o que, pelo seu lado, fizeram as missões japonesas, sensivelmente na mesma altura... E devo pensar bem, posto que Egipto e Japão chegarão à mesma conclusão quanto às bases de lançamento da sua Renascença  --  que deverá ser a recuperação de uma soberania perdida: Trata-se menos de modernizar o islão propriamente dito, do que fazê-lo voltar à sua forma original, empreender um duplo combate contra a decadência interna e a dominação externa. Recusar o tradicionalismo socio-religioso, fundado no princípio da imitação. A verdadeira fidelidade aos percursores, aos salaf, reside na reforma e na revolução, assim como na libertação dos quadros apertados...  ...Mohammed Abdu sublinha no seu livro "A Mensagem da Unidade Divina: Em caso de conflito entre a razão e a tradição, é à razão que compete decidir...  ... Mas este reformismo muçulmano será consideravelmente modificado, no primeiro terço do sec.XX, por um discípulo de Abdu, o sírio Rachid Rida...  ...que conheceu, na segunda parte da sua vida, uma inflexão rigorista hostil à razão, sob influência do wahabismo. Desse ponto de vista, Rida pode classificar-se entre os percursores do neo-salafismo islâmico contemporâneo, que foi gerado pela corrente dos Irmãos Muçulmanos... Sabemos que o wahabismo é a ideologia do estado saudita, e que do salafismo se reclama o Daech. Os chamados "integrismos" religiosos, sobretudo pelas suas interpretações "canónicas" da religião e da vida são sempre ossos difíceis de roer. Até na Igreja temos disso... Acabo com as sete interrogações de Mohammed Taleb sobre o futuro do islão: Em que medida será possível reabilitar as dimensões temporais, históricas, culturais e civilizacionais da palavra corânica, ou evitar a redução da Mensagem à sua componente estritamente jurídica? Como articular, no terreno do conhecimento do Corão, as ciências tradicionais e as ciências humanas? Como permitir o surto de uma teologia islâmica da libertação, fundada na alquimia entre justiça social, democracia e vida espiritual? Como promover uma gestão não violenta dos conflitos no seio das sociedades muçulmanas, para evitar a sua degenerescência em guerras civis? Como permitir o desenvolvimento de uma teologia feminista muçulmana, de um feminismo pós-colonial e culturalmente contextualizado?  Como dar uma expressão islâmica à ecologia, a fim de contribuir para o movimento planetário de salvaguarda do meio ambiente? Como promover uma filosofia muçulmana da diversidade cultural, do pluralismo das religiões, na óptica de um enriquecimento mútuo, para ultrapassarmos a lógica do "choque de civilizações”? Mutatis mutandis, também outros, ou todos, poderão assim interrogar-se.


Camilo Martins de Oliveira

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