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Blogue do Centro Nacional de Cultura

Um espaço de encontro e de diálogo, em defesa de uma cultura livre e pluridisciplinar. Estamos certos de que o Centro Nacional de Cultura continuará, como há sete décadas, a dizer que a cultura em Portugal vale a pena!

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OLHAR E VER

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João XXIII
 

18. PRECONCEITO E PLURALIDADE - II

 

Os dois últimos concílios católicos - um em cada um dos dois últimos séculos - trataram de modo diferente o "preconceito". O Vaticano I insistiu na reafirmação dogmática de formulações de princípios e juízos de valor, numa atitude de receio e oposição ao modernismo e a um mundo que se ia crescentemente movendo fora dos enquadramentos que antes lhe balizavam o percurso. Repetiu fórmulas, como se elas fossem tão eternas como verdades. O Vaticano II respondeu ao apelo de João XXIII para o aggiornamento, essa abertura do espírito a um mundo plural que desafia a Igreja a pensar e sentir mais em consonância com o palpitar das vidas que a rodeiam. O primeiro pretendia que o mundo regressasse à cerca onde imaginara encerrá-lo, na normalidade assegurada por um comando único, uma língua, as mesmas formulações e ritos, na imobilidade impeditiva de reexames e revisões, na abstracção da pluralidade real das pessoas, grupos e movimentos. O segundo interrogou-se sobre a relação com a diferença como procura da harmonia, como se os homens, com instrumentos, vozes e registos diversos, formassem o coro e orquestra de Deus. Para tanto, olhou para si e seus preconceitos, fez-lhes exame e revisão, lavou-se e arranjou-se para sair e ir ter com os outros. E o papa Francisco não se cansa de chamar a Igreja para o encontro com o mundo plural, e à própria cúria romana lembrou as doenças que  a sectarizam, entre as quais mencionou o bloqueamento mental, a indiferença ao mundo exterior, os círculos fechados, a divinização dos chefes... Vai experimentando, na coragem de todos os dias, aquelas reformas que já Paulo VI vira malogradas pelo poder interno de uma "Cúria" que,  apesar de, e depois, do Vaticano II, ia procurando assegurar o governo da Igreja à imagem e semelhança dos Estados Pontifícios - essa herança de inspiração constantiniana que se foi desfazendo pela própria história, se cindiu com a Reforma e foi reduzida à mínima expressão territorial durante o risorgimento e, finalmente, pelos acordos de Latrão. Talvez descubramos agora a consciência necessária de que o Reino de Deus não é deste mundo enquanto forma fixa ou paradigmática de poderes e instituições : pode revestir-se delas, mas não as pereniza na história, tem outra vocação. O Reino de Deus é profético, está agora e depois, escuta e anuncia, é o clamor da voz dos homens, contra si e consigo mesmos e o Deus connosco até ao cumprimento da história... Nesta perspectiva escatológica, o Reino de Deus vai crescendo em nós e por nós: porque todos somos feitos à imagem divina, somos inerentemente bons, chamados a ser santos como o Pai. São Paulo - que influenciará a teologia de tradição ortodoxa oriental no sentido de não considerar o pecado original, muito menos como estigma transmissível (pecado sendo, então, "apenas" o afastamento da relação com Deus, de que cada um é responsável)  -  é muito claro sobre esse ponto: Nada é impuro em si, todas as coisas são puras (Romanos 14, 14 e 20) ; Tudo o que Deus criou é bom (I Timóteo 4,4) Diferentemente da tese agostiniana do pecado original - e dois séculos antes dela ser formulada e declarada dogma católico no concílio de Cartago (418)  - Santo Ireneu comentava que, em Génesis 3, é a serpente que é maldita, não Adão. Este e Eva apenas são crianças, pelo que muito embora Deus pudesse dar a perfeição ao homem, desde o princípio, o homem teria sido incapaz de a receber logo, porque era ainda criancinha... Não sou, nem por nem contra a ordenação de mulheres: mas desafio a recusa da revisão das normas canónicas que a pretendem negar, como a recusa de uma reflexão sobre os fundamentos teológicos que as suportam; e mais sugiro que abertamente se estudem as análises sérias e bem feitas das origens e progressos da ideologia misógina que, a partir de Fílon de Alexandria, judeu helenístico, influenciou a patrística cristã e determinou a tradição católica de exclusão das mulheres do ministério ordenado... E também pergunto (perguntar não ofende) se fará sentido, para muitos, essa excepção, num tempo do mundo em que mulheres são chefes de Estado e de governo, médicas, militares, polícias, etc.... Não creio que, como por aí se tem dito, a consagração episcopal de mulheres na Igreja Anglicana seja antiecuménica: numa tradição cristã próxima mas exterior à Igreja Católica, ela acontece sem que a comunhão de ambas na fé cristã seja afectada... Se assim não for, mais uma vez estaremos a pôr o secundário acima do essencial. O papa Francisco, em Istambul, pediu ao patriarca ortodoxo Bartolomeu que abençoasse a Igreja de Roma... Eles não são hereges, muito menos infiéis, são cristãos como nós, na sucessão apostólica... Na sua tradição, o celibato dos padres não é exigível, tal como nem sempre o foi na Igreja romana ocidental... É tão preconceituoso, quer defender-se o celibato como a ínclita via da santidade (todos somos chamados a esta), ou como condição indispensável ao exercício de um ministério eclesial, quer, por outro lado, afirmar-se que o voto de castidade é motivo de pedofilia (esta até será mais frequente e secreta em grupos sociais estranhos a estabelecimentos religiosos e, infelizmente, no seio de famílias). Ou ainda, pretender-se que acabar com esse voto ou abrir o sacerdócio a mulheres iria aumentar o número de vocações ministeriais... A questão que se levanta não deve ser tanto a escassez de clérigos, mas bem mais a da decrescência de praticantes e crentes... Aliás, tenho imenso respeito e admiração pelas vidas consagradas, de homens e mulheres que Deus chama a serem, pela pobreza e pela castidade, por via eremítica ou cenobítica, corações proféticos. Mas tais vocações não são necessariamente ministeriais, servem de modos diversos a Igreja. Insistindo-se numa igreja sectária - que, indiferente a dramas familiares, por exemplo, excomunga de facto pessoas divorciadas que refizeram as suas vidas, quando, afinal, noutros casos se reserva o direito de declarar a nulidade de matrimónios que, por vezes, pelos argumentos invocados, nenhum tribunal civil decretaria - será provável que muita gente vá buscar a outra fonte a água da vida...

 

Camilo Martins de Oliveira

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