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Blogue do Centro Nacional de Cultura

Um espaço de encontro e de diálogo, em defesa de uma cultura livre e pluridisciplinar. Estamos certos de que o Centro Nacional de Cultura continuará, como há sete décadas, a dizer que a cultura em Portugal vale a pena!

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OS PRIMEIROS TEATROS DO BRASIL

 

Nesta série de artigos, tivemos já ocasião de evocar os teatros romanos da Lusitânia, com destaque adequado para o teatro de Mérida.  Referiremos agora alguns teatros que, historicamente, estiveram ligados a Portugal: e desde logo, os que, a partir do século XVIII, foram sendo contruídos dispersamente no Brasil.

 

Há, efetivamente, documentação de uma tradição de espetáculo que remonta pelo menos ao século XVIII. Por exemplo, uma Casa da Ópera funcionou no Rio de Janeiro, a partir de 1770, por iniciativa do “reinol” (como então se dizia de quem tinha nascido em Portugal) Manuel Luis Ferreira, com intervenção também, de um denominado Padre Ventura e onde se representaram dramas e comédias por atores locais ou idos de Lisboa; ou o Drama, assim mesmo designado, de José Eugénio de Aragão e Lima, “recitado” num aludido Teatro do Pará em honra do nascimento da futura Rainha D. Maria I, editado em 1776.

 

E vale a pena recordar que António José da Silva nasceu em 1705 no Rio de Janeiro, e só veio para Portugal em 1711. Falaremos dele mais adiante.

 

Mas o que agora nos prende a atenção é a criação do primeiro grande Teatro-edifício no Rio de Janeiro.  Remontamos então a 1810, regência do Príncipe D. João, futuro Rei D. João VI. Em 1810, determina, por meio de decreto, que “nesta capital se erija um teatro decente e proporcionado à população e ao seu maior grau de elevação e grandeza em que se acha pela minha residência nela.”

 

Foi este o primeiro grande edifício representativo (e a palavra não é redundante!…) na infraestrutura e na arquitetura de espetáculo do Brasil. Mas isso não significa que, na imensa geografia brasileira, fosse o único teatro em função.

 

Há efetivamente, fora do Rio,  pequenos edifícios  anteriores, com vocação de espetáculo: veja-se por exemplo a atividade em Vila Rica, hoje Ouro Preto, com as tragédias dos chamados Inconfidentes, percursores da independência do Brasil, designadamente Cláudio Manuel da Costa ou Alvarenga Peixoto. Temos notícia de salas construídas pelo menos desde 1805. E em 1812 funcionava um Teatro São João em Salvador da Bahia, e em 1817, um Teatro União, este em São Luís do Maranhão.

 

Em São Paulo, registam-se atividades teatrais já em 1797.  E em 1818, dois alemães, Von Mariius e Von Spix, deixam curioso testemunho citado por Décio de Almeida Prado, de um teatro e de um espetáculo a que assistiram na cidade, já então em crescimento:

 

«Assistimos, no teatro construído em estilo moderno, a representação de uma opereta francesa, “Le Deserteur”, traduzida para o português. (…) O ator principal, um barbeiro, emocionou profundamente os seus concidadãos. O fato de ser a música ainda confusa, a busca dos seus elementos primitivos, não nos estranhou, pois além do violão para o acompanhamento do canto nenhum outro elemento foi tocado com estudo”.

 

E prosseguem citações: «Foi representado “O Avaro” e uma pequena farsa. Os atores eram todos operários (…) A maior parte dos atores não era constituída por melhores comediantes, entretanto não se pode deixar de reconhecer que alguns deles possuíam inclinação para a cena”…  (cfr. “História Concisa do Teatro Brasileiro – 1570-1908” ed. Universidade de São Paulo - págs. 26-27; do mesmo autor,  “A Literatura no Brasil”, vol. VI págs.7 e segs.).

 

Ora bem: o “teatro decente” mandado construir no Rio de Janeiro em 1810 pelo Príncipe D. João está pois em pela atividade a partir de 1813. E para início, chamou-se a atriz Mariana Torres, então considerada “a primeira atriz portuguesa, sobressaindo muito nos papéis e na tragédia, diz a crítica da época. “De acidentada história, a rigor o nosso primeiro edifício público de teatro condizente com essa atividade, que passa então a ser estimulada”, refere José Aderaldo Castello. (cfr. “Manifestações Literárias no Brasil Colonial” ed. Cultrix pág. 212).

 

O Teatro São João do Rio de Janeiro sofreu sucessivos incêndios e alterações, desde o nome ao edifício em si. Mas a sala primitiva guardou uma memória e uma imagem que faz recordar o Teatro de São Carlos de Lisboa. A aguarela de Thomas Ender, que aqui reproduzimos, confirma-o amplamente.

 

E não será alheio ao surgimento de uma literatura dramática de expressão brasileira. Volto a António José da Silva, já acima referido. Cito, a propósito, Arlete Cavalieri, para quem “o surgimento de uma arte teatral nacional liga-se ao papel de Gonçalves de Magalhães (1811-1882), introdutor do romantismo no Brasil, cuja peça «António José ou o Poeta e a Inquisição» é considerada a primeira tragédia brasileira sobre tema nacional”. (cfr. “Teatro no B” no “Dicionário Temático da Lusofonia” - direção e coordenação de Fernando Cristóvão, Texto Editores pág. 909). 

 

DUARTE IVO CRUZ