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Blogue do Centro Nacional de Cultura

Um espaço de encontro e de diálogo, em defesa de uma cultura livre e pluridisciplinar. Estamos certos de que o Centro Nacional de Cultura continuará, como há sete décadas, a dizer que a cultura em Portugal vale a pena!

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OUVIR O SILÊNCIO. VER O INVISÍVEL

 

1. Há perguntas ingénuas que parece quase tocarem o ridículo. No entanto, são das mais interessantes.


Exemplos: Onde começa um ser humano? Começar, não apenas no sentido cronológico, mas quase diria topográfico... Em que instante começou um ser humano? Aliás, a pergunta do início é similar à do fim: Que instante é esse em que um ser humano deixa, pela morte, de pertencer a este mundo e ao tempo? No tal sentido quase topográfico, a pergunta poderia assumir a seguinte formulação: O que é que um ser humano vê, quando olha, não os olhos, mas o olhar de alguém? Hegel disse  que vê o abismo do mundo. Se estivermos atentos, é isso: quando dois olhares se olham no olhar contemplam o abismo do mundo e o seu mistério.


A pergunta pode explicitar-se, perguntando: O que é que está por detrás e no íntimo e no fundo do que se vê? O que é o invisível do visível? Ou então: O que é que o visível torna visível? Melhor: O que é que o visível, precisamente ao mostrar, esconde? O que é que está na raiz do que vem à luz, do que se manifesta?


Onde é que radica qualquer pergunta digna desse nome senão aí onde habita o imostrável, mas precisamente para mostrá-lo enquanto imostrável? O que é que um rosto mostra senão alguém que está a vir à janela de si próprio, ocultando-se?


Afinal, o que vem à luz acende-se na noite... E as nossas palavras, onde é que se acendem também senão precisamente na noite do Silêncio? Mas há o silêncio morto e vazio, e o Silêncio habitado, que fala. E ouvir o Silêncio que fala não é o que propriamente se deveria chamar oração?


Quando não se ouve o Silêncio que fala, as nossas tempestades de palavras não passam de verborreia e barulho caótico, ensurdecedor. De facto, quem não bebe na fonte do Silêncio que fala, o que é que diz, quando fala? Não quero apontar para os parlamentos...


Não será precisamente porque já não há tempo para ouvir o Silêncio que os pais pouco ou nada têm a dizer aos filhos, que a palavra dos professores anda gasta e murcha, que os padres proferem palavras engasgadas e mortas, que a vida pública se vai tornando pura poluição sonora?


2. De repente, tropecei no título da rádio TSF: Como se visse o invisível. É isso: o ser humano anda distraído, mas pode acontecer que subitamente se dê conta. Aliás, o homem é homem, diferente do animal, precisamente porque não vive estando aí pura e simplesmente, mas se dá conta de que vive, reflecte sobre as coisas, sobre a existência, sobre si próprio.


Como se visse o invisível... Afinal, como é? Trata-se de um simples "como se" ou vê-se mesmo o invisível? E se se vê, que invisível é esse? E como é que se vê o que é invisível? E esse ver é privilégio de alguns ou todos podem vê-lo? Ou acontece até que todos o vêem, simplesmente não se dão conta disso?


Quem ouve como se visse o invisível não espera ouvir dizer que alguém viu Nossa Senhora ou bruxas ou o diabo ou um anjo aí numa esquina qualquer, numa igreja, numa esplanada, no cimo de um monte... Mas então quem fala em Como se vissse o invisível o que é que viu de especial para ousar falar do invisível, como se o tivesse realmente visto? Afinal, o que é que ele ou ela viu ou vê?


Quando não andamos completamente distraídos, sabemos que vemos sempre mais do que aquilo que julgamos ver, ouvimos sempre mais do que pensamos ouvir, pensamos sempre mais do que pensamos. Toda a experiência é sempre experiência com experiências. Seja qual for a esperiência, sabemos dela, de nós e das condições de possibilidade do experienciar. Quando vemos algo, não vemos apenas esse algo que estamos a ver, pois vemo-nos também a nós que estamos a ver, embora não tenhamos imediatamente consciência disso. Por outro lado, por mais que vejamos de nós, nunca nos vemos completamente: somos sempre mais do que vemos de nós ou sabemos de nós. Nunca conseguimos ir até ao fundo de nós, tornar-nos completamente transparentes a nós próprios.


O olho vê o que vê, mas nunca se vê a si mesmo; sabemos, no entanto, que está lá. Como dizem os Vedas, livros sagrados dos Hindus, "o que vê não pode ser visto; o que ouve não pode ser ouvido; e o que pensa não pode ser pensado". O mais fundo de nós nunca pode vir à consciência, é, por sua própria natureza, invisível. Quando demos por nós já lá estávamos, e a existência nunca pode ser reflectida adequadamente nem tornar-se plenamente consciente de si própria. Assim, quando nos vemos é sempre com o invisível que contactamos.


Antes da execução, aos condenados à morte vendam-lhes os olhos, porque o olhar da vítima é intolerável. Afinal, quando vemos alguém no olhar o que é que vemos senão o invisível na sua visibilidade, mas precisamente de tal modo que permanece invisível? Uma pessoa no seu corpo, melhor, um corpo pessoal não é simplesmente uma estrutura fisiológica visível: ninguém faz amor com uma estrutura orgânica visível, mas ama-se uma pessoa na sua invisibilidade palpável e visível. Um corpo humano é uma "alma" visível e vista, cheirada, palpável...


Quando olhamos para o mundo com olhos de ver é sempre com o invisível visível que entramos em contacto. A realidade toda é a visita do invisível. Na raiz de tudo está um mistério que se diz, que vem à luz, mas que ao mesmo tempo continua velado e sem se ver: vê-se precisamente como invisível.


Como se visse o invisível: apontamentos para chamar a atenção para o mistério do ser, para a dignidade de ser homem, para a justiça, para a religação última à fonte invisível de tudo o que se vê...

 

Anselmo Borges
Padre e professor de Filosofia

Escreve de acordo com a antiga ortografia
Artigo publicado no DN  | 20 de novembro de 2021

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