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Blogue do Centro Nacional de Cultura

Um espaço de encontro e de diálogo, em defesa de uma cultura livre e pluridisciplinar. Estamos certos de que o Centro Nacional de Cultura continuará, como há sete décadas, a dizer que a cultura em Portugal vale a pena!

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Um espaço de encontro e de diálogo, em defesa de uma cultura livre e pluridisciplinar. Estamos certos de que o Centro Nacional de Cultura continuará, como há sete décadas, a dizer que a cultura em Portugal vale a pena!

PARA LÁ DAS PORTAS DE BENFICA…

 

TU CÁ TU LÁ

COM O PATRIMÓNIO


Diário de Agosto * Número Extra 3

 

Não sou do tempo da Porcalhota, mas a minha idade permite-me ter ouvido e lido muitas histórias sobre os passeios lisboetas às hortas, para ir comer o famoso coelho à caçadora… E bebi muita água de Caneças. Para lá das portas de Benfica era outro mundo. As portas separavam as duas zonas de Benfica (dentro e extramuros). Foram posto da guarda fiscal, herdeira dos guarda-barreiras, até 1892. Por lá passavam os aguadeiros, os pastores, os comerciantes, os ferro-velhos, as lavadeiras com os seus róis (é assim mesmo o plural de rol) de roupa, lençóis, fronhas, guardanapos, toalhas… E havia os figos de capa-rota, as maçãs de roer, a fruta da época e os pregões. A-ú, para a água, Azeitonas a 30 réis, petroline, fava rica, quem quer figos quem quer almoçar, quem tem trapos e garrafas para vender, esticadores para os colarinhos… Caneças, Venda Seca, Assafora, Belas – tudo nomes bem conhecidos, com águas puríssimas e lugares de grandes convívios e comezainas. E havia ainda os célebres burros, com cangalhas, albardas e gorpelhas… A Porcalhota tornou-se Amadora em 1907 por solicitação dos fregueses da terra, em nome da dignidade do lugar e para pôr fim a um velho rol de chistes. E em 1919 aí se instalou a Esquadrilha de Aviação República. Vasco Porcalho, herói de Aljubarrota, está na origem da designação primitiva… Oiçamos, no entanto, Raul Proença no seu “Guia de Portugal” falar-nos dos saloios: “Quando D. Afonso Henriques tomou posse de Lisboa consentiu-se ao mouro que refluísse para os subúrbios da cidade, e ele aí se estabeleceu, entregue ao cultivo das hortas, com a água a escorrer da nora gemedora. É desta população consentida, mourisca e subalterna, que deriva o mais da gente que habita os contornos de Lisboa – o saloio de tez morena, pele tisnada, olhos e cabelos negros ou castanhos, membros secos, tipo sem finuras de raça e beleza plástica de linhas, tão afastado em verdade da gente bela e robusta do Norte, como um berbere dum dos melhores rebentos de gente circassiana. Psicologicamente, caracteriza-o o espírito de rotina, a curteza de vistas, a avareza levada à sordidez, e essa sistemática atitude de desconfiança, que, sob o nome esperteza saloia, tomou foros de proverbial e foi filão aproveitado por muita veia cómica nos teatros de Lisboa”. O falar castiço vai-se perdendo, mas ainda é lembrado… Os berberes são os bárbaros do sul, a etimologia é a mesma. Çaloio ou Çalaio era o tributo que os mouros pagavam para comerciar em Lisboa. Daí talvez a designação desses habitantes dos arrabaldes de Lisboa… Proença exagera. Os moçárabes têm características várias e o certo é que todo o povoamento do sul e o municipalismo contaram muito com eles. Há dias, olhando um boneco de Leal da Câmara recordei-me disto tudo, mas quando passo pela floresta de cimento dos arredores de Lisboa sinto que tudo mudou. E quando lemos Ramalho a falar dos passeios às hortas ou das conversas dos saloios, sentimos que tudo é diferente. Os casais saloios foram demolidos, os burros foram-se, os pastores e os seus rebanhos ou os perus do Natal desapareceram… Mas se tivermos olhos de ver, descobriremos pequenos apontamentos – e se bem insistirmos na descoberta reencontramos uma boa e inesperada receita de coelho à caçadora, em que os saloios eram exímios ou uma pequena romaria que os jovens teimam em não deixar morrer… Os moinhos são raros, as noras desvaneceram-se, mas não podemos esquecer um genuíno poeta árabe estudado nas escolas marroquinas e que é muito nosso…  

 

Ibn Mucana (século XI), o poeta árabe de Alcabideche, dá-nos o tom e a lembrança – onde os moinhos, as noras e os engenhos agrícolas têm uma presença essencial. Ah, mas onde estão eles?

«Ó tu que vives em Alcabideche, oxalá nunca te faltem

nem grãos para semear, nem cebolas nem abóboras
Se és homem decidido precisas de um moinho
que trabalhe com as nuvens sem dependeres dos regatos.
Quando o ano é bom a terra de Alcabideche
não vai além das vinte cargas de cereais.
Se rende mais, então sucedem-se,
ininterruptamente e em grupos compactos,
os javalis dos descampados.
Alcabideche pouco tem do que é bom e útil.
como eu próprio quase surdo como sabes.
Deixei os reis cobertos com os seus mantos
e renunciei a acompanhá-los nos cortejos…
Eis-me em Alcabideche colhendo silvas com uma podoa ágil e cortante.
Se te disserem: gostas deste trabalho?, responde; sim.
O amor da liberdade é o timbre de um carácter nobre.
Tão bem me governam o amor e os
benefícios de Abu Bacre Almofadar
que parti para um campo primaveril."

 

Agostinho de Morais

 

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A rubrica TU CÁ TU LÁ COM O PATRIMÓNIO foi elaborada no âmbito do 
Ano Europeu do Património Cultural, que se celebra pela primeira vez em 2018
#europeforculture