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Blogue do Centro Nacional de Cultura

Um espaço de encontro e de diálogo, em defesa de uma cultura livre e pluridisciplinar. Estamos certos de que o Centro Nacional de Cultura continuará, como há sete décadas, a dizer que a cultura em Portugal vale a pena!

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Um espaço de encontro e de diálogo, em defesa de uma cultura livre e pluridisciplinar. Estamos certos de que o Centro Nacional de Cultura continuará, como há sete décadas, a dizer que a cultura em Portugal vale a pena!

PORVENTURA VERSOS

17.

versos 17.jpg

 

Mancebo o cravo

Já não da árvore ou tão pouco flor

Exaltou a memória

De vitórias

De antes, de muito antes, de se ter sentido flor

 

Contou e disse

Por gentes estrangeiras

Que o regaram

 

Sou mero sábio cego

aos tempos de futuro

mas do passado e do presente

sou mágico em força tamanha

que contra mim o vosso poder

é nada ou manha

de assustar quem viveu

na glória dos vencidos

e esse sou eu

ó gente miúda

imperadores do nada

que me regais para me roubar

a fortuna de não ter preço

mas ser semente que não se igual.

Prósperos de pobreza sois

ouro tingido de água impura

ide a outro endereço

que o meu arde

e há muito aquece

o céu perpétuo

sacro e nu

que por entre vós

firmemente vos faz frente

e permanece

 

Mancebo cravo

Que tua qualidade tenha por irmão

Deixa que dos teus conselhos

Saiba ouvir todos

 

E informando-me de quem sou

Repouse meus pés por justo atalho

 

E chegue à tua casa

Juntamente contigo

 

Meu regimento

Minha vida

Meu coração

Pátria em mim

Ou meu costume

 

Meu mui vizinho

Meu lume

 

Teresa Bracinha Vieira

2015

 

18.

versos 18.jpg

 

Uma carta te enviei depois de mil

Em todas levantei ferro, sabes tu

E em quase todas te achei no destino indicado

Par onde se descrevem as longas curvas

Que por rumos encontram soltas

As verdades

 

E assim mil cartas impossíveis

De traçar nas rotas todas

Por onde se fizeram mar

Eu te escrevi

 

Mas esta? Esta, depois das mil

É só uma

A travessia fez-se, é certo

Mas amor

O tempo cresceu e a tempestade

Pontuada de ilha em ilha

Cruzou-se com a carta

 

Levou-a, soube, até ser tempo de iniciar

Uma outra curva

Quando de súbito retornou-se no caminho

E aqui a tenho

 

Nas mãos deste destino

Ao contrário da expedição

 

Diz-me

Foi a data que te desagradou?

Ou o número da carta

Mil e um ? que a tua região do peito

Quis perder?

 

Que faço? A não ser

Não voltar para trás

Por não ser possível já não escrever

Contra tudo o que te disse

 

Assim aqui me tens

Na morada de onde se soltam as amarras

De onde se corta o norte e o leste

O agosto e o dezembro

Até que os deuses e Deus por mim

Ou por nós

Façam empenho

 

E depois de anos te esperar

Possa eu apurar meu muito amor no teu

E conjugar

O braço nos abraços

Da carta mil e um

 

Sem desejar

Que tudo isto se explique

Ou seja sequer

 

A boa esperança

 

Teresa Bracinha Vieira

2015