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Blogue do Centro Nacional de Cultura

Um espaço de encontro e de diálogo, em defesa de uma cultura livre e pluridisciplinar. Estamos certos de que o Centro Nacional de Cultura continuará, como há sete décadas, a dizer que a cultura em Portugal vale a pena!

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QUANDO EU VI O ARCO-IRIS…

 

Minha Princesa de mim:

 

Por ter passado uma noite insone, adormeci esta tarde na cadeira austera do meu gabinete. Na verdade, já estaria de olhos fechados, escutando minuetos de Haydn... É música de dança, serviu em salões principescos dos Estherhazy da Hungria e noutros de Viena de Áustria, de Londres também. Mas estes minuetos não são só música de salão, divertimentos fúteis para sedas e rendas, pó de arroz e perfumes. Não se quedam em convencionalismos ritmicamente calculados, antes procuram harmonias por vir, e vão às melodias e danças camponesas  -  como a sons urbanos e mesmo militares  -  buscar uma dança mais inspirada e universal. Já te disse e repito: Joseph Haydn é a harmonia como procura, um primeiro Mozart, clássico entre a regra já ousada do barroco e a explosão "autista" dos românticos. Como quem é contido e, todavia, estende a mão num convite à dança... Assim embalado, dormi mesmo, e sonhei. Sonhei-me no balançar da arca de Noé, no meio das águas revoltas do Dilúvio. Lá estava eu, não por ser o patrão nem qualquer dos seus três filhos, nem nenhuma das respectivas mulheres, menos ainda  -  presumo  -  qualquer dos animais transportados. Nem pedi licença fosse a quem fosse para encolhido me acolher à nave salvadora. De pouco me serviria, aliás, o OK! de Noé ou da serpente (e respetivas cônjuges): mas Yahvé sabia que eu estava ali, invisível e atento a tudo, feito transmigrante fantasma. Era eu, mas inconsciente de mim, todo olhos bem abertos que vêem tudo e não contam nada. Afinal, penso agora  --  já acordado e com o whisky-soda à mão  --  talvez seja assim a eternidade: o contentamento de ver. Mas volto ao sonho que tive. Quando da encobridora, castigadora, nuvem surgiu o arco polícromo, e cristalinamente desceu até beijar a terra que se desanuviava, Deus disse a Noé (e eu ouvi muito bem!) : Eis o sinal da aliança que estabeleço entre mim e toda a carne sobre a terra!  E vi então o esplendor das cores todas unidas descendo dos céus. E pensei: se vêm juntas, única será a sua origem; mas algures terão de se separar, seria horrível um mundo em que todos fossem pintados de todas as cores (como pretendem os relativistas e políticos do nosso tempo) ou todos da mesma (como exigem os fanáticos, chamados integristas ou fundamentalistas). Imaginei então o mundo como jardim florido de cores e perfumes vários, como se a glória de Deus fosse o múltiplo esplendor da liberdade da sua criação. No termo desse dilúvio de quarenta dias, ao fim de quarenta noites de trevas, a paz do Senhor regressava, dita por esse arco multicolor, saído do escuro, como o próprio sol que o criava,  o mesmo divino sol que iluminava  -- pondo em cada coisa um traço especial da sua luz  -  o universo inteiro... Da sombra diluviana, espessa e escura, despertava uma claridade nova, a pôr vivas cores diversas em todas as coisas! E eu também despertei, a lembrar-me do padre Louis-Bertrand Castel (1688-1757), inventor de um cravo musical óptico ou cromático, que nunca conseguiu fabricar, tal como o recorda Claude Lévi-Strauss: ... Castel percebera muito bem que cores e sons são de natureza diferente: «É próprio do som passar, fugir, estar imutavelmente preso ao tempo, e dependente do movimento...  ... A cor, sujeita ao lugar, é fixa e permanente como ele. Brilha em seu repouso...» Por outro lado, se « o tom está para a cor, como o grave-agudo para o claro-escuro», este existe independentemente da cor (podemos representar uma cena em preto e branco), enquanto «que ambas as diferenças se reúnem no som, pois não é possível emitir sons graves e agudos que não sejam tonais.» Já mais desperto, melhor percebo porque é que Yahvé quis dizer a aliança através de um arco de cores: para que cada uma delas brilhasse e permanecesse no coração que a recebera, e todos se amassem na diferença. Pois, na verdade, da escuridão inicial viémos todos. Diz o padre Castel (cito-o a partir de Des sons et des couleurs  de Claude Lévi-Strauss: « O negro é uma abundância de cores...  ...E há boas razões para do negro fazer derivar as cores». Que razões? Se o branco resulta da mistura de todas as cores, o negro contem-nas em potência, é, de certo modo, o seu gerador. Assim o prova a matéria, que é, só por si, «tenebrosa e inanimada». Aquecido, o negro ferro vai tomando todas as cores, até ficar branco. Para obterem o negro, os tintureiros vão sucessivamente mergulhando o tecido em banhos de três cores primitivas. Enfim, se o negro é uma tinta, o branco não o é: define-se como a privação de uma riqueza que o negro em si contém: «Tudo vem do negro para se perder no branco». Na minha arca de Noé, eu não era, nem luto negro, nem fantasma pálido e branco. Era invisivelmente transparente, e por isso me foi dado ver, através de mim, esse arco de luz vindo de um negro céu, unindo-se na divisão das suas cores que, dispersas pela terra dos homens, em distante dia de novo se reuniriam na brancura da luz... Dou-te a mão para que contes sete notas, sete cores...

 

Camilo Maria

 

Camilo Martins de Oliveira 

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CorretorMais

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