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Blogue do Centro Nacional de Cultura

Um espaço de encontro e de diálogo, em defesa de uma cultura livre e pluridisciplinar. Estamos certos de que o Centro Nacional de Cultura continuará, como há sete décadas, a dizer que a cultura em Portugal vale a pena!

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Um espaço de encontro e de diálogo, em defesa de uma cultura livre e pluridisciplinar. Estamos certos de que o Centro Nacional de Cultura continuará, como há sete décadas, a dizer que a cultura em Portugal vale a pena!

Ricardo Araújo Pereira

 

Ricardo Araújo Pereira: o poder da sua inteligência é contaminante: a sua capacidade humorística experimenta sempre o ceticismo perfeito

 

Quantas vezes ao escutar uma frase de Ricardo Araújo Pereira deixei soltar a melhor gargalhada que me condenasse a aderir ao seu raciocínio brilhante ou a desaparecer em estratégia sobrevivente pois, aqui não me apanhas, não comungo eu de verdades absolutas, isto caso fosse o caso ou outra coisa sobre o destino do homem que ri.

 

Já me imaginei no rio de Heraclito a lutar contra a corrente da História, enquanto Ricardo, ao leme, me olhava de jeito agudo, como só ele sabe, pois eu lhe recordava por gestos de grande caudal e com a ajuda do remo, que, ali existiam saídas por todos os lados, máscaras de oxigénio fartas enquanto os olhos vissem o céu e coletes de puxar guitas para o caso do S. Pedro estar distraído. Depois continuávamos a conversa do imbecilismo, iniciada na sua frase as pessoas não se tornam estúpidas, elas já nascem assim

 

As águas continuavam em proporções crescentes num irreversível estado de negação de se verem face a correntes mais serenas. E Ricardo insistia

 

A morte, muitas vezes (se não todas), acaba com o sofrimento; o casamento dá-lhe início. A morte é a morte e acabou-se; o casamento é mais cruel: é como uma doença. Daí a expressão «contrair matrimónio». Estar casado é uma condição que se contrai, como um vírus. O facto de o Código Penal de alguns países prever a condenação à pena de morte mas não a condenação ao casamento tem intrigado as pessoas casadas de vários tempos e lugares. Creio que o celibato dos padres tem como objetivo fazer com que a instituição do casamento perdure: se os sacerdotes soubessem o que o casamento é, sendo homens de Deus não teriam coragem de infligir o mesmo castigo a outro ser humano.“

 

E deitava para o alto dos seus quase dois metros o escutar de uma resposta minha

E eu atirava-lhe uma citação dele

 

Eu vou e chamo a atenção para o facto de a leitura ser uma atividade perigosa: D. Quixote enlouqueceu a ler romances de cavalaria, a Madame Bovary ficou meio maluca a ler histórias de amor e perdi a conta ao número de pessoas a quem a leitura da Bíblia ou do Corão fez mal.“

 

E ele gritava

Ah, assim não vale isso é batota, tens que me meter um susto, um susto absurdo que me elucide do teu grau de transgredir a reflexão dos árbitros dos jogos do Benfica. Vá, diz, diz depressa, a corrente é forte e o telejornal das 20h está a chegar e não o podemos perder, convoco-o todos os dias para lhe pesar a seiva mercantil e os interstícios dos seus textos ocos onde circula o sucesso. Até me comovo com tanto sensacionalismo de imagem e uso mesmo os lençóis XL sempre que me chega a consciência, mesmo à pontinha dos dedos!

 

Não digas?

Comungamos afinal! Pois não é que logo que estas correntes me libertem e eu, ai eu olharei para sempre o mundo pela memória da máquina e explicarei que tudo se saberá pelo não-questionamento, pela não-cultura, por todas as gamas de simplificação e Ricardo! nada como repetir o horizonte da expressão «contrair matrimónio» ou ler enquanto atividade auto- explosiva e

 

O bote rasgou-se na pedra, ou bem que és o homem do leme ou os nossos espíritos serão sugados a nível do para baixo, aquele das guitas do colete salva-vidas que leva o mundo à morte, ou pelo menos é o que nele está escrito a contrario

 

Olha, disse o Ricardo, todo a espenujar das forças, tenho uma última pergunta a fazer-te:

 

Tem o homem do leme o dom da fala?

 

Teresa Bracinha Vieira

Fevereiro 2018