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Blogue do Centro Nacional de Cultura

Um espaço de encontro e de diálogo, em defesa de uma cultura livre e pluridisciplinar. Estamos certos de que o Centro Nacional de Cultura continuará, como há sete décadas, a dizer que a cultura em Portugal vale a pena!

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Samuel Taylor Coleridge (1772-1834)

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Li a “Rima Do Velho Marinheiro” de Coleridge, numa tradução de Gualter Cunha, publicado este livro pela Relógio d’Água. Não obstante as diversas opiniões acerca das traduções efectuadas a um poema/texto tão difícil de colocar fora da sua língua mãe, creio ter retido algo desta importantíssima viagem e que gostaria de comunicar.

Este texto que inicia o percurso do Romantismo na Europa, conta a história de um navegante que, retornando de uma expedição à Antártida, mata com a sua besta, e, sem finalidade alguma, um albatroz cujo voo lhe indicara o caminho do norte, após o seu navio se ter perdido na neblina e no gelo austral. Não respeita este marinheiro as criações de Deus ao matar um albatroz e a maldição não se faz esperar. A partir desse gesto gratuito, ou inadvertido, uma série de desgraças têm lugar. Tórridas calmarias, sedes mortais, pesadelos e terríveis visões marinhas, navios fantasma que têm de enfrentar, e outros horrores, são alguns dos tormentos pelos quais todos na embarcação de destino funesto, sofrem dia após dia, e, ao marinheiro que abateu a ave, aguardou-o uma vida pior do que a morte mesmo depois de retornar ao seu próprio país.

Acode-nos os Lusíadas de Luís de Camões a esta outra extensa tradição histórico-literária que nos remete às explorações marítimas e à sua importância na história do homem. Seguramente o estabelecer de um cotejo entre o épico camoniano e esta rima ou balada de Coleridge é acutilante trabalho analítico, nomeadamente na relação do homem com o mar.

 

                                                                                           O mar é a religião da Natureza.

                                                                                                              Fernando Pessoa

 

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O crítico Stopford Brooke afirmou:

“Tudo o que merece ficar de Coleridge poderia ser reunido em vinte páginas e estas vinte páginas deveriam ser encadernadas em ouro!”

O Gigante Adamastor ajuda-nos a entender a aparição de mortes horrendas em clareiras de visão extremas como são descritas neste livro. Recolhemo-nos aos pensamentos das naturezas invisíveis que habitam lugares desconhecidos na nossa alma. A mente humana sempre e de alguma forma ousou os mistérios e nunca os alcançou. E o mar, o mar de Ulisses, o jovem e fulguroso mar, o mar da epopeia, o mar de Trafalgar, o nosso incessante mar, tão bem sentido e escrito pelo grande Borges, aqui abre luta à nossa coragem, ao nosso interpretar.

Este poema romântico do inglês Samuel Coleridge leva-nos também à proximidade com a queda e a redenção dos homens. Um rapaz que se dirige a um casamento, acaba fascinado por esta história trágica que lhe é contada pelo velho marinheiro de destino diferente de sua tripulação. Assim se narra também como a alma de todos a bordo do barco é disputada por dois espíritos: a morte e a vida-em-morte (death and life-in-death).

Digo: cada vez que lemos um texto deste tipo aprendemos algo que não tínhamos entendido antes. Corre sempre à frente de nós uma outra realidade por estrear, uma outra busca, e afinal é isto o que sempre esperamos de um bom livro.

 

Teresa Bracinha Vieira

Setembro 2015

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