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Blogue do Centro Nacional de Cultura

Um espaço de encontro e de diálogo, em defesa de uma cultura livre e pluridisciplinar. Estamos certos de que o Centro Nacional de Cultura continuará, como há sete décadas, a dizer que a cultura em Portugal vale a pena!

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SONETOS DE AMOR MORDIDO

Femme au corsage bleu, de Rouault..JPG
Femme au corsage bleu, de Rouault

 

19. À MULHER FATAL

 

Tropecei em ti como na vida

uma vez só se cai desamparado,

sem nunca ser por falta de cuidado

e sempre só por sina desmedida...

 

 Transpus o passo não considerado

corri a dar-te a chave do meu peito

por cego amor, não sei, sei que por preito

à sedução do teu olhar magoado...

 

Não era piedade, era respeito,

era essa rendição de que é feito

o amor, mais que o desejo de agradar; 

 

era, na tua dor, a redenção

de mim com ela, com paixão,

meu sacrifício posto no altar...

 

P.S. -  A paixão é uma sujeição ou submissão, seja ao sofrimento imposto e assumido, seja a uma fixação ou obsessão da alma ou dos sentidos. Etimologicamente, a palavra vem da latina passio, que significa padecimento e passividade. Por este seu cariz de entrega ou consentimento, a paixão sempre nos parece fatal, e amiúde a confundimos com algo que não quereríamos mas finalmente - por fraqueza, exaustão ou desejo - aceitamos e sofremos. E tanto chamamos Paixão à de Cristo, esse caminho da cruz ou via sacra, como à loucura de um homem ou mulher que tudo esquece - convenções, fortuna, família, religião, pátria, o que for a sua circunstância - para totalmente se render àquela ou aquele que ardentemente deseja... A esse objecto, quando pessoa, chamamos fatal. Porque não se luta contra o fado. Na alma sofremos todos de entre miopia e presbitia. O olhar do coração não mede distâncias, quase sempre vê melhor, de longe, o que está perto, e, de perto, melhor o que está longe... As razões do coração - de que Pascal falava - são lúcidas porque afectuosas, afectuosas porque lúcidas. Somos vocacionados para pensarsentir, e ninguém ama ou odeia só com a cabeça ou só com o coração. As paixões vulgares são uma derrota do querer bem pelo desejo, como quem se afoga por não saber nadar. A sedução imediata do prazer dá-se quando o nosso olhar não chegou ao outro porque se fixou na curteza da nossa satisfação. Olhar míope. E presbíopes somos quando não vemos, para além da névoa próxima ou da desfocagem do nosso olhar, a beleza íntima de outro ser humano. Só amamos - aprendemos a amar - quando nos encontramos com a interrogação - que é súplica essencial - do outro que, como nós, espera ser amado. Quando compreendemos que o amor é a fidelidade da resposta que damos. E assim todo o amor verdadeiro é paixão secreta e forte.  Ao longo da vida, fui deparando com aventuras e dramas passionais, desde os que lia nos romances (e, quando jovem, li muita literatura do século XIX, repleta de adultérios e extravagâncias sentimentais) ou encontrava na história real de heróis e reis, aos que me surpreendiam na roda de gente conhecida. Confesso que lhes ganhei medo, muito mais do que ao inferno com que nos ameaçavam vários sermões e que nunca me assustou. Cedo aprendi a confiar na misericórdia de Deus, e a pensar e sentir que o coração da misericórdia bate quando se reconhece o sofrimento. É-me difícil explica-lo, mas a verdadeira paixão amorosa não é, nem pode ser, exclusiva, pois é uma cegueira que se ilumina por dentro, ao encontro dessa graça que está na dor universal que se partilha.

 

Camilo Martins de Oliveira

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