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Blogue do Centro Nacional de Cultura

Um espaço de encontro e de diálogo, em defesa de uma cultura livre e pluridisciplinar. Estamos certos de que o Centro Nacional de Cultura continuará, como há sete décadas, a dizer que a cultura em Portugal vale a pena!

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A VIDA DOS LIVROS

  

De 8 a 14 de janeiro de 2024


Maria Archer (1899-1982) foi uma escritora multifacetada. Como romancista enalteceu os direitos da mulher, como cronista e ensaísta deu-nos um retrato da África e do mundo do seu tempo, temas que merecem leitura nos nossos dias.


AUDÁCIA E ENERGIA
João Gaspar Simões afirmou em 1930 sobre Maria Archer: «Não conheço outra escritora portuguesa que à audácia dos temas e das ideias alie uma expressão tão enérgica e pessoal. O seu estilo respira força e solidez.» Pode dizer-se que se trata de um juízo justo, sobretudo quando tomamos contacto com a rica e diversificada obra de uma escritora, que infelizmente é muito pouco conhecida na nossa República das Letras. Contudo, sempre que alguém regressa à sua obra escrita é invariável o espanto e a admiração. 


Maria Archer nasceu em Lisboa a 4 de janeiro de 1899. Foi a primeira de seis irmãos e começou cedo, a viajar com os pais e a acompanhá-los - Ilha de Moçambique (1910-13) e Guiné-Bissau (1916-18). Uma vez que terminou tarde a instrução primária, por decisão própria, podemos considerá-la autodidata. Em 1921, vive em Faro com a família e aí casa com Alberto Passos, indo viver para o Ibo – Moçambique. Cinco anos depois regressam a Faro e de seguida vão para Vila Real, tendo o casamento durado apenas dez anos. Em 1932, parte para Angola, ao encontro de seus pais. Em Luanda, publica o seu primeiro livro - Três Mulheres (1935) – com o apoio de Pinto Quartin. Escreve para os jornais e vê-se confrontada com a incompreensão da própria família, designadamente aquando da publicação do romance Aristocratas (1945), uma vez que os elementos autobiográficos chocam os mais próximos de si. Em 1943, escreve com Branca de Gonta Colaço Memórias da Linha de Cascais. E no mesmo ano publica uma apresentação sobre os Parques Infantis, a convite de Fernanda de Castro. Participa em várias conferências, em Lisboa e no Porto, e faz várias entrevistas como jornalista. Em 1955, parte para o Brasil, por considerar a censura como intolerável. Os livros Ida e Volta duma Caixa de Cigarros (1938) e Casa Sem Pão (1947) tinham sido proibidos. Conhecedora da situação africana, desde muito cedo compreende a tendência para a emancipação dos povos coloniais, no que se aproxima de Henrique Galvão, quer nas preocupações culturais, quer nas políticas. Acompanha, por isso, o julgamento do antigo fundador da Emissora Nacional, tornado crítico da política de Salazar em Angola, que decorreu no Tribunal Militar de Santa Clara. Defensora dos direitos das mulheres tem na sua escrita a afirmação clara da exigência do necessário reconhecimento de uma igualdade substancial, deixando na sua obra a marca indelével da afirmação da democracia.


ENTENDER O FEMININO
Maria Archer é, de facto, uma das mais dotadas escritoras portuguesas do século XX. Soube entender o feminino até ao âmago, como nenhuma outra, o feminino nos seus sonhos, nos seus anseios e denunciar corajosamente a teia dos preconceitos absurdos que pendiam sobre as mulheres, sobretudo as que procuravam lutar pela sua dignidade. Em Ela é Apenas Mulher (1944) fica evidenciado não apenas uma capacidade extraordinária para definir quadros narrativos, mas também para retratar as personagens, em especial as femininas. A figura de Biluca Morgado, a protagonista de Nada lhe Será Perdoado (1953), é bem o símbolo do sofrimento de uma mulher ao pretender seguir, depois do divórcio, o seu próprio caminho de liberdade e dignidade... Já no Brasil e apesar da chantagem do regime, sobre o seu relato do julgamento de Galvão, publicará Os Últimos Dias do Fascismo Português (1959), que causará brado, pela natureza das acusações relativamente à política de Salazar. No Brasil, apesar da doença e da míngua de meios de vida, escreveu bastante para diversos jornais, nomeadamente para O Estado de S. PauloSemana Portuguesa Portugal Democrático. São desse período as seguintes obras: Terras onde se Fala PortuguêsÁfrica sem LuzBrasil, Fronteira da África. A obra de Maria Archer foi bastante diversificada, designadamente em periódicos, como Correio do Sul, Diário de Lisboa, Eva, Fradique, Ilustração, Ler, O Mundo Português, Portugal Democrático, Seara Nova, Sol e Estado de S. Paulo.


De 1935 a 1944 foi sobretudo novelista ou contista. De 1944 a 1955 chega à maturidade na sua produção literária, revelando-se perspicaz observadora e narradora dos problemas que atingem a mulher dessa época. A partir de 1956, temos a fase da resistência no Brasil com a publicação de vários artigos no Portugal Democrático e do livro referido sobre o julgamento de Henrique Galvão. Há coerência nos ensaios e estudos sobre África e os costumes dos seus povos (13 obras), nos quais se sente um sentido emancipador que envolve a necessidade da autodeterminação colonial.  A obra de Maria Archer traduz-se na publicação de trinta livros, três dos quais chegaram à terceira edição e cinco tiveram três, o que prova a apreciação positiva do público leitor, em especial das mulheres. Todos reconhecem um valor especial na literatura feminina do início do séc. XX, envolvendo novela, romance, ensaio e literatura de viagens. Escreveu, também, 5 peças de teatro, um romance de aventuras infantis e dois ensaios para que o público mais jovem aprendesse a História de forma lúdica. Como premonitoriamente reconheceu Gaspar Simões, foi na forma audaciosa como retratou a mulher portuguesa e os seus problemas familiares e sociais que se tornou uma referência essencial na literatura do séc. XX. Ainda no Brasil, em 1974, apesar de enfraquecida, continuou o seu combate na afirmação da democracia, em 1977 foi internada em São Paulo, donde regressou a Portugal em abril de 1979. Permaneceu em Lisboa até à morte em 23 de janeiro de 1982, há quarenta e dois anos.


Guilherme d'Oliveira Martins
Oiça aqui as minhas sugestões – Ensaio Geral, Rádio Renascença

A LÍNGUA PORTUGUESA NO MUNDO

  


XCVIII - POR UM IDIOMA COMUM SEM RESSENTIMENTOS


Eis algumas palavras da intervenção de Paulina Chiziane, escritora moçambicana e prémio Camões 2021, na abertura do festival literário da Póvoa de Varzim, este ano: “Começaria por um verso célebre: “Mudam-se os tempos, mudam-se as vontades”. Mas que tempos? De que tempos falo eu, que vim de África? Falo (…) dos tempos de ódio até aos tempos de paz.” 

Acrescenta:   
Estamos aqui nas Correntes d`Escritas, todos chamados a conviver apenas numa língua que é a Língua Portuguesa. Estão aqui todas as raças. Viemos de vários países. Temos várias histórias, algumas de opressão, outras de opressores, outras de lutas de libertação. O que aconteceu para estarmos aqui? O que nos uniu? Mudaram os tempos”   

Prosseguindo, responde: 
“As Correntes d`Escritas provam-nos que, (…), o mundo pode ser melhor. O opressor de ontem pode ser o amigo de hoje. As Correntes d`Escritas: este movimento que nos uniu e tirou de casa, de diferentes continentes, para estarmos aqui. Se, ontem, a língua portuguesa era para nós a língua do opressor (…) hoje é a língua do “bontu” (…) que significa língua de humanidade, (…) de harmonia, (…) de fraternidade. (…) Deixou de ser língua de opressão para ser língua de união. (…) os tempos podem mudar para melhor. (…) E, para o amanhã, na língua portuguesa, podemos construir um mundo melhor.”       

Outro moçambicano, Mateus Katupha, quando antigo ministro da Cultura, em 1999, declarou: “A língua portuguesa já não é mais só dos portugueses, é universal”. 

Linguagem só surpreendente para quem defende que os portugueses transferem para o idioma devaneios, quimeras e sentimentos imperiais, porque a língua nasceu em Portugal, pertence aos portugueses, que não aceitam o princípio simples de que pertence àqueles que a falam, tratando-se de uma visão em que o nosso país, por ter sido o ex-colonizador, tem de ser sempre o mau da fita.   

Por mais que se diga que este idioma comum pertence, em primeiro lugar, aos respetivos falantes em igualdade de partição e uso, que Portugal não programou qualquer estratégia neocolonial, nem tem poder para, doravante, por si só, se impor como “força imperial” através da língua (voluntariamente escolhida pelas ex-colónias), que os antigos impérios coloniais europeus são cada vez menos eurocêntricos, dada a emergência e ascensão, a todos os níveis, de algumas das suas ex-colónias, há sempre quem entenda, por ressentimentos, no mínimo, que tudo o que se herdou do ex-colonizador (e do ocidente) é sempre mau, incluindo a língua, por muito útil e funcional que seja, mesmo que, por mera opção dos mesmos, em qualquer momento, deixe de o ser.   

É, pois, gratificante o reconhecimento feito, sem ressentimentos, a esta língua comum, por vozes africanas, neste caso de Moçambique, nomeadamente por um dos nomes consagrados da literatura moçambicana e lusófona (Paulina Chiziane) que, juntamente com Mia Couto e Craveirinha, também a promovem internacionalmente, e a quem o português muito deve, em novas palavras e vocábulos, originários do continente africano.    


21.04.2023
Joaquim M. M. Patrício

O PAPA FRANCISCO VOLTOU A ÁFRICA

  


1.
A Igreja é, originariamente, a assembleia dos que acreditam em Jesus como o Messias Salvador. De facto, é também uma instituição e hoje, na realidade, a única instituição verdadeiramente global, com um chefe, que é também chefe de Estado. Assim, ergue-se, imensa, uma pergunta, formulada nestes termos por Paulo Rangel no Posfácio ao meu livro O Mundo e a Igreja. Que futuro?: “Que sentido faz que o chefe de uma Igreja seja chefe de Estado? Depois do Vaticano II, com a inauguração duma possível era republicana na cúpula da Igreja Católica, é admissível ou não a natureza político-constitucional e jus-internacional da própria Igreja e do seu vértice? Não seria altura de separar as águas e despir o Papa das últimas vestes de César? Não seria esse o próximo passo da Igreja no caminho do despojamento e do desprendimento?”


Paulo Rangel reconhece que são muitos os que vão neste sentido de uma “despolitização” do Vaticano e da Igreja, que deveria entregar-se à sua missão puramente espiritual e pastoral. Mas, por outro lado, quando se olha para o contributo do Papa e da rede diplomática do Vaticano para a paz, para a justiça, na defesa da dignidade das pessoas (refugiados e marginalizados), na denúncia do capitalismo selvagem, das perseguições e violências, é preciso perguntar também: “O mundo estaria melhor e os humanos viveriam melhor se a Igreja não dispusesse deste “aparelho” estadual? É evidente que não”. E conclui: A Igreja, não há dúvida, precisa de se reformar e converter, mas essa conversão “não exige nem postula o abandono de um dos grandes ministérios de que dispõe para servir a Humanidade — a sua diplomacia em favor da justiça e da paz, decorrente do reconhecimento internacional da sua natureza de Estado. Pelo contrário, pode mesmo reclamar essa natureza e identidade  como forma supina de servir.”


2. Foi neste quadro que o Papa Francisco esteve, entre 31 de Janeiro e 5 de Fevereiro, na República Democrática do Congo e no Sudão do Sul, massacrados pela violência, pela exploração, numa dor sem fim. No Sudão do Sul, esteve acompanhado pelo arcebispo anglicano de Cantuária, J. Welby, e o moderador da Assembleia geral da Igreja da Escócia, I. Greenshieds, irmãos numa peregrinação ecuménica ao serviço da paz. Foi Welby que recordou aquele gesto inesquecível em Roma, em 2019, quando Francisco, num esforço fisicamente tão penoso, se ajoelhou diante dos três líderes do Sudão do Sul e lhes beijou os sapatos, suplicando um esforço para avançarem na paz.


E nestes dias juntaram-se multidões para saudar Francisco, ouvi-lo nas denúncias sem rodeios de tanta exploração económica e bélica mundial, suplicando pontes de entendimento em ordem à paz. O Papa, na sua debilidade física, em cadeira de rodas, mas firme na sua missão profética, foi exemplo evangélico, cristão, de entrega ao cuidado da Humanidade  na justiça, na fraternidade e na paz. Também se alegrou quando presidiu àquelas celebrações a que acederam multidões cantando e dançando num ritmo que só os africanos sabem e têm. E comoveu-se tantas vezes, no contacto com mutilados de guerra, e certamente nunca esquecerá aquela menina a oferecer-lhe uma esmola.


3. Também deixou recados para o interior da Igreja, nomeadamente para o clero. Assim: “Se vivermos para ‘nos servirmos’ do povo em vez de ‘servir’ o povo, o sacerdócio e a vida consagrada tornam-se estéreis. Não se trata de um trabalho para ganhar dinheiro ou ter uma posição social nem para resolver a situação da família de origem, trata-se de ser sinais da presença de Cristo, do seu amor incondicional, do perdão com que quer reconciliar-nos.” “Que não suceda que nos julguemos autossuficientes, muito menos que se veja no episcopado a possibilidade de escalar posições sociais e de exercer o poder. O espírito malvado do carreirismo! E, sobretudo, que não entre o espírito mundano, que nos faz interpretar o ministério segundo critérios de benefício pessoal, que nos torna frios e distantes.” “Não somos os chefes de uma tribo, mas pastores compassivos e misericordiosos; não somos os donos do povo, mas servos que se inclinam a lavar os pés dos irmãos e irmãs.”


O essencial da mensagem transmitida nos dois países foi retomado na conferência de imprensa, já no regresso a Roma. Assim:


“Vi no Congo muita vontade de avançar, muita cultura. Têm tantas riquezas naturais que atraem quem vem explorar o Congo, perdão pela palavra. É preciso abandonar a ideia de que África é para explorar. Dá dor: as vítimas dessa guerra, amputados, tanta dor, tudo para levar as riquezas. Não, não pode ser.”


“A violência é um tema quotidiano. É doloroso ver como se provoca a violência. Um dos problemas é a venda de armas. A venda de armas creio que é a maior praga do mundo. O negócio! Alguém me disse que, se não se vendesse armas durante um ano, se acabaria com a fome no mundo. Também é certo que se provoca a luta entre tribos vendendo armas  e depois  explora-se a guerra entre tribos. Isto é diabólico.”


“O mundo todo está em guerra (Síria, Iémen, Myanmar, na Améria Latina, quantos focos de guerra!). O mundo está em guerra e em autodestruição. Paremos a tempo, porque uma bomba traz outra maior e outra maior e, na escalada, não sabes onde acabarás.”


E a sua saúde? Felizmente, sempre com humor: ”Este joelho chato!, mas, como se sabe, erva ruim nunca morre!”. Continuará, pois, o combate contra “a globalização da indiferença, presente em todo o lado.”

 

Anselmo Borges
Padre e professor de Filosofia

Escreve de acordo com a antiga ortografia
Artigo publicado no DN  | 11 de fevereiro de 2023

OS TEATROS DAS COLÓNIAS NO INÍCIO DO SÉCULO XX

  


Fazemos hoje aqui uma evocação de teatros em funcionamento nas colónias portuguesas a partir do início do século passado. E vale a pena desde logo referir que havia na época uma tradição de espetáculo, efetuado a partir de Lisboa por companhias que se deslocavam às colonias africanas, e que dessa forma reforçavam uma certa, se bem que ténue atividade cultural.


E recuando ainda mais no tempo e na história, recorda-se o que Eça escreveu em “Os Maias”, a propósito do projeto do Conde de Gouvarinho para a criação de teatros em África. Trata-se de uma conversa com João da Ega no Teatro da Trindade:


«Ega então afirmou que o amigo Gouvarinho, com o seu interesse geográfico pela África, faria um ministro da Marinha iniciador, original, rasgado... / Toda a face do Conde reluzia, escarlate, de prazer. / - Sim, talvez... Mas eu lhe digo, meu querido Ega, nas colónias, todas as coisas belas, todas as coisas grandes estão feitas.  Libertaram-se já os escravos; deu-se-lhes já uma suficiente noção de moral cristã; organizaram-se já os serviços aduaneiros... Enfim, o melhor está feito. Em todo o caso, há ainda detalhes interessantes a terminar... Por exemplo, em Luanda... Menciono isto apenas como um pormenor, um retoque mais de progresso a dar. Em Luanda, precisava-se bem um teatro normal, como elemento civilizador!» (“Os Maias” cap. XVI).


Ora bem: temos aqui citado Sousa Bastos e o seu “Diccionário do Theatro Português” (ed. 1908), onde descreve, por vezes em muito vastas referencias, nada menos do que 2002 Teatros, em Portugal   e nas colónias.


E os das colónias eram então os seguintes: Teatro Africano, de São Tiago de Cabo Verde, com 14 camarotes, 7 frisas, 120 lugres de plateia e geral; Teatro Caridade de São Vicente de Cabo Verde; Teatro Garrett de Moçâmedes, com 30 camarotes de duas ordens, 110 lugres de plateia, 60 de geral e 40 de galeria; Teatro de Luanda, com plateia, duas ordens de camarotes e lotação de 300 lugares; e Teatro de S. Tomé, este em sucessivos edifícios adaptados...


Isto, em 1908.


Mas vale a pena citar outra vez  “Os Maias”.


Quando o Conde Gouvarinho é nomeado ministro, o João da Ega faz troça: “Lá vai o Gouvarinho batendo para o poder, a mandar representar a Dama das Camélias no sertão!” 

 

DUARTE IVO CRUZ

 

Obs: Reposição de texto publicado em 19.01.19 neste blogue.

CRÓNICAS LUSO-TROPICAIS

 

9. GILBERTO FREYRE E O LUSO-TROPICALISMO
CRÍTICAS E MÉRITOS (VI)

 

Outra crítica refere-se à inadequação do luso-tropicalismo na África e na Ásia, por confronto com o Brasil. 

 

Maria Archer, tomando como referência a sua vivência em África, entende que o pensamento de Freyre não pode ser aplicado do mesmo modo em todos os lugares colonizados por Portugal. Aponta, para África, duas explicações básicas: uma política colonial preferencialmente não amiga da mestiçagem e a ausência de amor no contacto do português com o negro (“Aspectos da “paisagem social” na África portuguesa e no Brasil do passado sugeridos pelos livros de Gilberto Freyre”, Seara Nova, n.ºs 536 e 537).     

 

Acresce que os portugueses se estabeleceram e fixaram no Brasil por mais tempo e com caráter de permanência, ao invés do que se verificou nas colónias lusitanas de África e da Ásia, onde a dominação e fixação demográfica dos dominadores foi territorialmente menos profunda e mais circunstancial, conforme as necessidades europeias.   

 

Nas palavras de Adriano Moreira, Freyre transita de um “modelo observado”, traduzido na formação histórica do Brasil, para um “modelo observante”, em que o modelo observado se torna sujeito observador de uma realidade mais ampla e complexa, a que correspondiam os demais territórios do império colonial português. Pretendia-se verificar se os traços característicos da configuração brasileira se reproduziam fora do Brasil, na África e na Ásia. 

 

Como o próprio A. Moreira reconhece, apenas algumas décadas de presença portuguesa fora do Brasil, nomeadamente em África, não poderiam ter resultados equivalentes aos de vários séculos de manutenção do luso-tropicalismo no Brasil (“Da Europa nos trópicos aos trópicos na Europa”, Anais do Seminário Internacional Novo Mundo nos Trópicos, p. 308).   

 

Observa ainda Adriano Moreira: “Também o português, como os outros navegadores e colonizadores, foi um homem só, e tal como eles, cruzou-se com as mulheres nativas. Igualmente, como regra, sobretudo em relação às negras, não legitimou as uniões. No Brasil tornou-se característica a família mista, na qual o senhor de engenho tinha uma mulher legítima e respetiva descendência, e uma prole numerosa nascida do cruzamento com as negras. Mas todos viviam juntos numa empresa específica que era a Casa Grande, compareciam juntos nos atos religiosos, não era adequado referir a sanguinidade, mas não era apropriado ignorá-la” (“Teoria da Relações Internacionais”, Almedina, Coimbra, 1999, p. 522).     

 

Reconhece que o método português foi integrador (com o fim de construir sociedades igualitárias, independentemente das diferenças entre elas), assimilador (ao pretender implantar preferencialmente padrões europeus de conduta e a fé católica) e sincrético (aceitando modelos de conduta nativos, sobretudo na área da sociedade civil, originando uma miscigenação étnica e cultural).   

 

Apesar de a mestiçagem ser o fenómeno que mais sobressai e socialmente mais relevante, é apenas um entre outros. 

 

Mesmo que se entenda, à semelhança de Cláudia Castelo, que Freyre após enaltecer a miscigenação e proceder à sublimação do mestiço, não se limita a “normalizar” a mestiçagem, como Adriano Moreira, elevando-a a fator de excelência, dado que “Inconscientemente (ou não), inverte a avaliação racista em proveito da nova raça (o mestiço luso-tropical), caindo numa nova argumentação racista” (ibidem, p. 122). E mesmo que se argumente, como Freyre, que o Brasil pode e deve continuar à frente do avanço mundial antirracista.   

 

E mesmo para quem entenda que os portugueses só se misturaram com outras raças por serem numericamente poucos em população e diminutos em território europeu, para tão vasto império, ao contrário dos outros colonizadores, também os houve demograficamente diminutos e de pouco território que o não fizeram, como os holandeses e belgas. Daí que, mesmo agora, muitos aleguem ser mais europeia do que portuguesa uma certa xenofobia e racismo latentes em Portugal. Serão mais um produto de uma europeização do que de uma portugalidade (tendo como seu defensor, por exemplo, o cantor brasileiro e antigo ministro da Cultura Gilberto Gil). 

 

13.12.2019
Joaquim Miguel de Morgado Patrício

CRÓNICAS LUSO-TROPICAIS

 

1. GILBERTO FREYRE E O LUSO-TROPICALISMO    

O sociólogo e ensaísta brasileiro Gilberto Freyre é uma referência incontornável, para uns, e dispensável, para outros.

Amado e desamado, a sua obra não é consensual, mas sim polémica, aberta à controvérsia, à contestação, ao debate, à discussão.   

Adulado por uns e censurado por outros, o seu legado perdura, sem a marca da indiferença, antes a da permanência temporal.

Concorde-se ou não, merece referência, com os seus merecimentos e críticas de amores e desamores tropicais. 

Há que falar, ab initio, do seu luso-tropicalismo. 

Tentou demonstrar o papel relevante que os portugueses tiveram nos trópicos.

Os primeiros estudos sobre os trópicos foram feitos pelos escritores que acompanhavam os navegadores e pelos europeus que se fixavam nos territórios que ocupavam.   

Gilberto Freyre defendeu existir um novo ramo de conhecimento, chamado tropicologia, que se destinava a estudar as regiões tropicais, constituídas por sub-ramos ligados a diversos países coloniais, como a anglo-tropicologia, a franco-tropicologia e a luso-tropicologia. 

Cada um dos países que se tinha disseminado e participado nas navegações marítimas e na colonização tinha a sua própria tropicologia, com a particularidade específica de se diferenciarem entre si consoante o método adotado no modo de observar os trópicos e neles viver.   

Nesta sequência, o luso-tropicalismo é uma consequência do processo de colonização portuguesa nos trópicos, da especial capacidade de adaptação e relacionamento dos portugueses às terras e gentes tropicais, manifestando-se essencialmente através da miscigenação e interpenetração de culturas.   

A obra “Casa Grande e Senzala” lança as bases do luso-tropicalismo, que de modo sintético se pode definir como uma “ciência” especializada no estudo sistemático do processo ecológico-social de integração de portugueses, seus descendentes e continuadores em ambientes dos trópicos. 

Tem o português como um povo indefinido entre a Europa e a África, de origem étnica híbrida, como gente flexível, flutuante, de plasticidade intrínseca, de sentido pragmático e riqueza de aptidões, sem imperativos categóricos em termos doutrinais e morais, reinando sem governar, no Brasil, miscigenando-se com os índios e os negros, formando nos trópicos uma civilização sui generis equilibrada, apesar dos antagonismos. Estas caraterísticas de superação das hostilidades, mobilidade, plasticidade, complexidade, mestiçagem e erotismo são preponderantes na linguagem do bem conhecido livro clássico de Freyre.   

Sendo o Brasil de base mestiça, pelo caldeamento de três raças, a branca, a negra e a ameríndia, também a linguagem em “Casa Grande e Senzala” é mista, colorida de saberes, sabores e efeitos de sentido.

Para além de ter a mobilidade, miscigenação e aclimatibilidade como três caraterísticas fundamentais do povo português, Freyre acaba por mostrar ao povo brasileiro, em toda a sua obra, a necessidade de se aceitar tal e qual como é, não se envergonhando nem inferiorizando.

 

18.10.2019
Joaquim Miguel de Morgado Patrício

DEMISSÃO DO PAPA FRANCISCO

 

1. No passado dia 10, após uma viagem apostólica a África, visitando Moçambique, Madagáscar e Maurício, o Papa Francisco, já no avião, de regresso a Roma, deu, como é hábito, uma longa conferência de imprensa. E foi respondendo a muitas perguntas.

 

1.1. Congratulou-se com o abraço histórico da paz em Moçambique: “Tudo se perde com a guerra, tudo se ganha com a paz. O esforço dos líderes das partes contrárias, para não dizer inimigos, é o de ir ao encontro um do outro. É o triunfo do país: a paz é a vitória do país, é preciso entender isso... E isso vale para todos os países, que se destroem com a guerra. As guerras destroem, fazem perder tudo.”

 

1.2. África é um continente jovem, tem uma vida jovem, “se a compararmos com a Europa, e vou repetir o que disse em Estrasburgo: a mãe Europa quase se tornou “avó Europa”. Envelheceu, estamos a viver um inverno demográfico muito grave na Europa.” E acrescentou que leu algures que há um país europeu que em 2050 terá mais reformados do que pessoas a trabalhar, “e isso é trágico”.

 

Os jovens em África precisam de educação, “a educação é uma prioridade”. E louvou Maurício, cujo primeiro-ministro tem em mente a gratuidade do sistema educativo.

 

1.3. A xenofobia é “uma doença humana” e, lembrando “discursos que se assemelham aos de Hitler em 1934”, acrescentou: “muitas vezes as xenofobias cavalgam a onda dos populismos políticos”. Mas África transporta consigo também “um problema cultural que tem de ser resolvido: o tribalismo”. Temos de “lutar contra isso: seja a xenofobia de um país em relação a outro, seja a xenofobia interna, que, no caso de alguns lugares de África e com o tribalismo, leva a uma tragédia como a de Ruanda.”

 

1.4. “São fundamentais as leis que protegem o trabalho e a família. E também os valores familiares.” E chamou a atenção para os dramas das crianças e jovens que perdem os seus laços familiares.

 

1.5. “Hoje não existem colonizações geográficas — pelo menos, não tantas como antes.... , mas existem colonizações ideológicas, que querem entrar na cultura dos povos e transformar aquela cultura e homogeneizar a Humanidade. É a imagem da globalização como uma esfera, todos os pontos equidistantes do centro. Ao contrário, a verdadeira globalização não é uma esfera, é um poliedro, no qual cada povo se une a toda a Humanidade, mas preserva a própria identidade.” Contra a colonização ideológica, é preciso respeitar a identidade de cada povo e dos povos.

 

1.6. Opôs-se de novo ao proselitismo em religião, lembrando uma palavra de São Francisco de Assis: “Levem o Evangelho, se for necessário, também com as palavras”. A evangelização faz-se sobretudo pelo exemplo, pelo testemunho. O testemunho provoca a pergunta: “Porque é que vive assim, porque age assim?” Aí explico: “É pelo Evangelho”. “E qual é o sinal de que um grupo de pessoas é um povo? A alegria.”

 

1.7. Não podia deixar sublinhar a urgência da defesa do meio ambiente. No contexto da destruição da biodiversidade, da exploração ambiental e concretamente da desflorestação, não deixou de apontar e condenar de modo veemente a corrupção descarada: “Quanto para mim?”. “A corrupção é feia, muito feia.”

 

Revelou que “no Vaticano, proibimos o plástico.” É preciso defender “a ecologia, a biodiversidade, que é a nossa vida, defender o oxigénio, que é a nossa vida. O que me conforta é que são os jovens que levam adiante esta luta”, porque o futuro é deles. “Creio que ter-se chegado ao acordo de Paris foi um bom passo adiante, e depois também outros... São encontros que ajudam a tomar consciência.” E, a menos de um mês do Sínodo para a Amazónia, sublinhou:  “Há os grandes pulmões, na República Centro-Africana, em toda a região Pan-amazónica, e outros menores.”

 

2. E vieram a pergunta e a resposta que mais visibilidade tiveram nos meios de comunicação social mundiais.

 

Jason Horowitz, do The New York Times, perguntou: “No voo para Maputo, reconheceu estar sob ataque de um sector da Igreja nos Estados Unidos. Obviamente existem fortes críticas de alguns bispos, há televisões católicas e sítios americanos muito críticos e até alguns dos seus aliados mais próximos falaram de um complô contra si. Há algo que esses críticos não entendem sobre o seu pontificado? Há algo que tenha aprendido com as críticas? Tem medo de um cisma na Igreja americana? E, se sim, há algo que poderia fazer — dialogar — para evitá-lo?”

 

E Francisco foi longo na resposta.

 

Não é contra as críticas. “As críticas ajudam sempre, sempre. Quando se recebe uma crítica, deve-se fazer imediatamente uma autocrítica: isso é verdade ou não? E eu tiro sempre benefícios das críticas.” Reconheceu que as críticas “não vêm só dos americanos, existem um pouco por todo o lado, mesmo na Cúria.” O problema todo das críticas é se há honestidade ou não. “Uma crítica justa é sempre bem recebida, pelo menos por mim. Uma crítica leal — eu penso isto e isto — está aberta à resposta, e isso constrói, ajuda. No caso do Papa: não gosto deste Papa, critico-o, falo, escrevo um artigo e peço que ele responda. Isso é justo. Mas fazer uma crítica sem querer ouvir a resposta e sem dialogar é não amar a Igreja, é perseguir uma ideia fixa, mudar o Papa ou criar um cisma.” “Não gosto quando as críticas estão sob a mesa: sorriem para ti, mostrando os dentes e, depois, apunhalam-te pelas costas. Isso não é leal, não é humano.” “Atirar a pedra e esconder a mão... isso não serve, não ajuda. Ajuda os pequenos grupinhos fechados, que não querem ouvir a resposta à crítica.”

 

Há uma real ameaça de cisma? “Na Igreja houve muitos cismas.” Há o exemplo do Concílio Vaticano I, por causa da infalibilidade pontifícia. Um grupo fundou os vétero-católicos, que evoluíram e agora ordenam mulheres. Também aconteceu no Concílio Vaticano II, com a separação de Mons. Lefebvre. “Existe sempre a opção cismática na Igreja, sempre. É uma das opções que o Senhor deixa à liberdade humana. Eu não tenho medo de cismas, rezo para que não existam, porque está em jogo a saúde espiritual de tantas pessoas. Que exista o diálogo, que exista a correcção, se houver algum erro, mas o caminho do cisma não é cristão.”

 

Defende-se. “Um cisma é sempre uma separação elitista provocada por uma ideologia separada da doutrina. É uma ideologia, talvez justa, mas que entra na doutrina e a separa. Por isso, rezo para que não ocorram cismas, mas não tenho medo.” Acusam-no de comunista, mas as coisas sociais que diz são as mesmas que disse João Paulo II. “Eu apenas o copio.” E o mesmo deve dizer-se quanto à questão da graça e da moral (eu julgo que, aqui, tem em mente aqueles que o acusam por abrir a porta à possibilidade da comunhão para católicos divorciados e recasados). Avisa: “Quando virem cristãos, bispos, sacerdotes rígidos, é porque por trás há problemas, não há a santidade do Evangelho. Por isso, devemos ser mansos com as pessoas que são tentadas por esses ataques, estão a passar por um problema, devemos acompanhá-las com mansidão.”

 

3. Francisco não exclui a possibilidade de um cisma, mas não tem medo. Ele tem muito opositores e até inimigos, incluindo cardeais influentes, como G. Müller, R. Burke, W. Brandmüller, R. Sarah, que o acusam de não ser um grande teólogo e de herético.

 

Pergunta-se: ele é mesmo herético? Alguém que conheça minimamente o Evangelho e tenha estudado Teologia poderá acusá-lo de herético? Alguém pode ser acusado de herético por anunciar e praticar o Evangelho, aproximando-se dos mais pobres, abandonados, marginalizados? Por proclamar que o nome de Deus é misericórdia? Por abrir a porta à possibilidade de acesso à comunhão, em casos concretos, de católicos divorciados e recasados? Por arremeter contra o clericalismo e o carreirismo e querer que a Igreja siga um caminho sinodal (caminhar juntos em Igreja, decidindo colegialmente, com a participação de todos, pois a Igreja somos todos)? Por avançar numa reforma profunda da Cúria, um verdadeiro cancro da Igreja? Por declarar a urgência da salvaguarda da Criação, do meio ambiente, da biodiversidade, de uma ecologia integral? Por exigir transparência no Banco do Vaticano (como resolver o défice de mais de 70 milhões de euros num orçamento de 300 milhões do Vaticano)? Por estabelecer normas e práticas severas para acabar com o monstro da pedofilia na Igreja? Por abrir a porta à possibilidade da ordenação de homens casados? Por querer que as mulheres tenham o lugar que lhes compete por vontade de Jesus Cristo também em lugares cimeiros de decisão na Igreja? Por promover o diálogo ecuménico e  inter-religioso? Por afirmar que não se pode ficar parado e imóvel no “sempre se fez assim”? Numa palavra, por querer a Igreja que o Vaticano II sonhou?

 

A questão é outra: há muitos, dentro e fora da Igreja, que estão interessados em forçar a demissão de Francisco para, no conclave a seguir, eleger alguém que acabe com as reformas que ele está a operar. O superior geral dos jesuítas, Arturo Sosa, disse-o esta semana: “Existe uma luta política na Igreja entre os que querem a Igreja sonhada pelo Vaticano II e os que a não querem. Estou convencido de que não se trata só de um ataque contra o Papa. Francisco está convencido da sua acção desde que foi eleito. Na realidade, do que se trata é de influenciar a eleição do próximo Papa.”

 

Anselmo Borges
Padre e professor de Filosofia

Escreve de acordo com a antiga ortografia
Artigo publicado no DN  | 22 SET 2019

OS TEATROS DAS COLÓNIAS NO INÍCIO DO SÉCULO XX

 

Fazemos hoje aqui uma evocação de teatros em funcionamento nas colónias portuguesas a partir do início do século passado. E vale a pena desde logo referir que havia na época uma tradição de espetáculo, efetuado a partir de Lisboa por companhias que se deslocavam às colonias africanas, e que dessa forma reforçavam uma certa, se bem que ténue atividade cultural.

 

E recuando ainda mais no tempo e na história, recorda-se o que Eça escreveu em “Os Maias”, a propósito do projeto do Conde de Gouvarinho para a criação de teatros em África. Trata-se de uma conversa com João da Ega no Teatro da Trindade:

 

«Ega então afirmou que o amigo Gouvarinho, com o seu interesse geográfico pela África, faria um ministro da Marinha iniciador, original, rasgado... / Toda a face do Conde reluzia, escarlate, de prazer. / - Sim, talvez... Mas eu lhe digo, meu querido Ega, nas colónias, todas as coisas belas, todas as coisas grandes estão feitas.  Libertaram-se já os escravos; deu-se-lhes já uma suficiente noção de moral cristã; organizaram-se já os serviços aduaneiros... Enfim, o melhor está feito. Em todo o caso, há ainda detalhes interessantes a terminar... Por exemplo, em Luanda... Menciono isto apenas como um pormenor, um retoque mais de progresso a dar. Em Luanda, precisava-se bem um teatro normal, como elemento civilizador!» (“Os Maias” cap. XVI).

 

 Ora bem: temos aqui citado Sousa Bastos e o seu “Diccionário do Theatro Português” (ed. 1908), onde descreve, por vezes em muito vastas referencias, nada menos do que 2002 Teatros, em Portugal   e nas colónias.

 

 E os das colónias eram então os seguintes: Teatro Africano, de São Tiago de Cabo Verde, com 14 camarotes, 7 frisas, 120 lugres de plateia e geral; Teatro Caridade de São Vicente de Cabo Verde; Teatro Garrett de Moçâmedes, com 30 camarotes de duas ordens, 110 lugres de plateia, 60 de geral e 40 de galeria; Teatro de Luanda, com plateia, duas ordens de camarotes e lotação de 300 lugares; e Teatro de S. Tomé, este em sucessivos edifícios adaptados...

 

Isto, em 1908.

 

Mas vale a pena citar outra vez  “Os Maias”.

 

Quando o Conde Gouvarinho é nomeado ministro, o João da Ega faz troça: “Lá vai o Gouvarinho batendo para o poder, a mandar representar a Dama das Camélias no sertão!” 

 

DUARTE IVO CRUZ

UM PLANO MARSHALL PARA ÁFRICA

 

1. Desde a década de oitenta do século passado que me tenho manifestado favorável a uma espécie de Plano Marshall para África. A última vez que me pronunciei foi no passado dia 13 de Agosto, na RTP 3, em conversa com a jornalista Sandra de Sousa, a partir de declarações do cardeal António Marto, a propósito das migrações.

 

Fica aí textualmente o que disse nessa conversa, no contexto da leitura dos jornais do dia.

 

Sim, nós estamos perante uma questão dramática, que, no meu entender, será cada vez mais dramática. Estamos a tratar das migrações, dos refugiados. E eu quereria chamar a atenção para dois ou três pontos.

 

Em primeiro lugar, é evidente que a Terra é de todos, o mundo é de todos e, por isso mesmo, há o direito de visita, de hospitalidade, de que já Kant falava. Mas a Europa, neste momento, está com este problema, que é um dos maiores problemas, o das migrações. Sobre isso gostava de chamar a atenção para os direitos humanos, e a defesa dos direitos humanos é qualquer coisa que está profundamente ligada à Europa - a Europa sempre se distinguiu por receber. Mas gostava de chamar também à colação que esta é uma questão da Europa enquanto União Europeia.

 

Em segundo lugar, julgo que é preciso entender que não podemos, para resolver um problema, criar problemas maiores, por exemplo, criar xenofobia, uma direita cada vez mais agressiva... Depois, é necessário também combater os traficantes ­ - é fundamental perceber isso. O próprio Papa Francisco tem dito que o Mediterrâneo não pode ser um cemitério. Estamos completamente de acordo. Mas, ultimamente, chamou a atenção para a prudência. Chamou a atenção para qualquer coisa que me parece fundamental.

 

Há a pequena política e a grande política. Se houver a grande política, vai-se perceber que, como a seguir à Segunda Guerra Mundial, houve o famoso Plano Marshall, que desenvolveu a Europa, que estava completamente destruída, e isso foi bom para a Europa e também para os Estados Unidos, algo parecido pode ser bom para África e para a Europa. Eu penso que é necessário, concretamente em relação a África, um Plano Marshall, isto é, desenvolver África lá. Lá. Com regras, evidentemente, pois sabemos que há governantes africanos que também não têm regras e apoderam-se dos dinheiros que chegam. Então, um Plano Marshall para África, para fixar as populações lá. Os africanos têm direito a viver bem e a desenvolver-se lá. Isso seria bom para África e isso seria bom para a Europa.

 

Sandra de Sousa observou: porque é que a Europa se tem regido pela pequena política? Porque tem pequenos líderes, não tem grandes estadistas?

 

Respondi: porque não há uma real união europeia. Eu penso que a Europa, sem união, sem estruturas minimamente federativas, com o tempo, torna-se insignificante no mundo. Veja: a Alemanha é um país grande, mas dentro da Europa; no quadro de um mundo cada vez mais globalizado, a própria Alemanha é pequena. Portanto, nós precisamos da grande política, no sentido de estadistas que criem uma União Europeia forte. Porque não é apenas a Europa, é o mundo que precisa da Europa. Porque os direitos humanos onde é que apareceram em primeiro lugar? Foi aqui, na Europa. Onde é que há segurança social? É na Europa.

 

Para que a Europa possa responder a esta questão gigantesca - o problema das migrações e dos refugiados é um problema gigantesco -, precisa de estadistas. Hoje, os africanos podem viver em condições difíceis e em lugares recônditos, mas em qualquer sítio há possibilidade de aceder através da internet à situação da Europa, e a Europa aparece como um paraíso e, portanto, vão querer vir. Depois, com a desertificação de África, vão aparecer milhões de africanos às portas da Europa, concretamente da Europa do Sul. Então, é necessária a grande política, e por isso é que eu, há muito tempo, sou defensor de um Plano Marshall para África. Para que se desenvolvam lá.

 

Sandra de Sousa: não se resolve com muros, com portas...

 

Respondi: não é possível, não é possível face a milhões de africanos que vão chegar...

 

2. Fiquei, pois, muito satisfeito, ao saber que a França e o Benelux, numa reunião recente no Luxemburgo, que juntou Emmanuel Macron e os primeiros-ministros luxemburguês, holandês e belga, querem que a Europa concretize esta ideia. "A União Europeia deve implementar uma versão do Plano Marshall em África, com uma ambição operacional concreta com os parceiros africanos", afirmou o belga Charles Michel.

 

3. Neste contexto, penso também que o clero africano tem um contributo fundamental a dar, desde que assuma as suas responsabilidades, ultrapassando as razões que sustentam críticas de missionários e de bispos. "O sacerdócio não pode ser um trampolim para sair de África porque é pobre", disse à Agência Fides o padre Donald Zagore, da Sociedade de Missões Africanas, citando Marcelin Yao Kouadio, bispo da diocese de Daloa. "As razões recorrentes (da emigração de pessoal eclesiástico) continuam a ser a procura de bens materiais e de prestígio." Além disso, "muitos africanos pensam que são superiores ao resto, particularmente nos círculos eclesiásticos, porque vivem, trabalham ou estudam na Europa. É dramático pensar que a essência de África chegue à sua realização quando goza do prestígio europeu". Em Maio de 2018, Ignace Bessi Dogbo, presidente da Conferência Episcopal da Costa do Marfim, também denunciou o fenómeno dos "sacerdotes errantes": sacerdotes que se negam a voltar a África depois de estudos ou de uma missão na Europa.

 

Seria lamentável que o clero africano, concretamente o mais bem preparado com especializações no estrangeiro, fugisse às suas responsabilidades e não desse o seu contributo imprescindível à promoção e ao desenvolvimento do seu continente e dos seus países.

 

Anselmo Borges

Padre e professor de Filosofia
Escreve de acordo com a antiga ortografia
Artigo publicado no DN | 15 SET 2018

A VIDA DOS LIVROS

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   De 24 a 30 de setembro de 2018

 

«Sua Excelência, de Corpo Presente» (D. Quixote, 2018) de Pepetela é o retrato implacável de um país imaginário, situado em África, visto por um alto dignitário que inesperadamente morre…

 

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COMPREENDER A CULTURA ANGOLANA

Não podemos compreender a cultura angolana contemporânea sem lermos a obra muito rica e multifacetada de Pepetela, Prémio Camões de 1997. Pode dizer-se mesmo que, ao longo do tempo, Artur Carlos Maurício Pestana dos Santos, nascido em 1941, em Benguela, tem procurado refletir de modo dinâmico sobre a evolução da história de Angola – olhando-a não nos seus paradoxos e dificuldades, mas na compreensão das suas potencialidades. Desde “Mayombe” (1980) até “Se o Passado Não Tivesse Asas” (2016) encontramos uma caminhada complexa e interessante, na qual a cada passo encontramos novos problemas e novos desafios. E agora, com “Sua Excelência, de Corpo Presente” talvez se feche um ciclo na análise da evolução da sociedade angolana. Para o romancista trata-se de compreender que há ciclos na vida dos povos, dos quais depende o progresso, o desenvolvimento e a emancipação. Veja-se, por exemplo, em “A Geração da Utopia” como a independência angolana gerou acontecimentos e sentimentos contraditórios que culminaram em mil dramas. Numa análise de diversos momentos-chave, passamos de um entusiasmo épico a uma progressiva instalação, que torna os interesses imediatos, a burocracia, o dinheiro e o favor mais importantes que os valores éticos. Olhando a vida de Pepetela, compreendemos que há uma evolução pessoal em que o sentido crítico e o talento se vão aperfeiçoando. Tendo passado, na sua formação em Portugal, como estudante da Casa dos Estudantes do Império, do Instituto Superior Técnico para a Faculdade de Letras – e contando com a rica experiência anterior em Benguela e no Lubango – cedo Pepetela ligou uma preocupação humanista e a consciência da emancipação social e política, que obrigava a criação de um novo Estado independente e desenvolvido. Como salienta em “As Aventuras de Ngunga”, haveria que ligar as raízes e as tradições do povo angolano ao espírito emancipador e revolucionário. A partir da necessidade de revisitação da história, Pepetela refletiu profundamente sobre a tensão entre a continuidade e a mudança. Pode dizer-se que essa é uma preocupação contínua – que articula a consciência política, o sentido crítico, a compreensão do tempo e da sua evolução e a consciência de um mundo melhor. Tendo sido Vice-Ministro da Educação do Governo de Agostinho Neto (1975-1982), foi chamado à responsabilidade de encontrar, num sector-chave, as medidas indispensáveis nos domínios didático e pedagógico, da coesão social e da dignidade humana, para preparar os jovens angolanos para uma fase decisiva da sua história coletiva. Só a aprendizagem, a experiência e o exemplo podem permitir uma emancipação eticamente fundamentada.

 

ENTRE METÁFORAS E DESAFIOS

Em “Yaka”, romance histórico sobre a colonização de Benguela, o romancista usou a metáfora de uma escultura de madeira, símbolo guerreiro, para articular a consciência das raízes identitárias e do novo espírito da nacionalidade. Pepetela compreende bem o tema da legitimidade numa sociedade que se pretende mais justa – as raízes fortalecem-se graças à capacidade de responder com instrumentos do presente aos desafios que se reeditam. Pensando nas origens da sua própria família, Pepetela procurou investigar a evolução histórica, designadamente em “A Gloriosa Família”, cujo tema nos leva ao século XVII. O que está em causa, porém, é compreender melhor Angola de hoje. A dimensão épica de “Mayombe” evolui para uma perspetiva crítica de “A Geração da Utopia” (1992), onde a história é confrontada com a dura tomada de consciência das divisões e contradições de uma sociedade atravessada pela exploração colonial, pela libertação, pela guerra civil e por um compasso de espera que obriga à reflexão crítica. A emergência da corrupção e da burocracia obriga a uma séria atitude de questionamento. Com Jaime Bunda, o detetive contraditório e vacilante, que é obrigado a entrar no bas-fond, o escritor visa o método satírico, que reforça o sentido agudo da crítica. Ao tratar temas muito sérios, Pepetela fá-lo reforçando os traços caricaturais da sociedade que melhor revelam os elementos dramáticos de um tempo, que em lugar de cumprir os melhores desejos esperançosos dos idealistas da libertação deixa-se arrastar pelas piores tentações do poder, que corrompe e atrai os corrompidos. Por outro lado, o realismo mágico começa a emergir na sua obra, com sentido imagético que não esquece a tradição africana e o culto da compreensão dos mitos – marcado de algum modo pela desilusão. E o tema policial associa-se à crítica do contexto internacional e às ameaças de dependência. O mundo dominado pelas superpotências, os interesses dos grandes blocos económicos, a cegueira relativamente às desigualdades e às injustiças, eis o que encontramos como pano de fundo da procura de descobrir os sintomas de uma doença política, económica e social…

 

QUE UTOPIA?

Oiçamos afinal, o escritor num momento chave de “A Geração da Utopia”: “Isso de utopia é verdade. Costumo pensar que a nossa geração se devia chamar geração da utopia. (…) Pensávamos que íamos construir uma sociedade justa, sem diferenças, sem privilégios, sem perseguições, uma comunidade de interesses e pensamentos, o Paraíso dos cristãos, em suma. A um momento dado, mesmo que muito breve nalguns casos, fomos puros, desinteressados, só pensando no povo e lutando por ele. E depois, tudo se adulterou, tudo apodreceu, muito antes de se chegar ao poder. Quando as pessoas se aperceberam que mais cedo ou mais tarde era inevitável chegarem ao poder, cada um começou a preparar as bases de lançamento para esse poder, a defender posições particulares, egoístas. A utopia morreu. E hoje cheira mal, como qualquer corpo em putrefação. Dela só resta um discurso vazio”. A lucidez do crítico está perante nós. E lendo com atenção, poderemos entender por que razão o sentido crítico de «Sua Excelência, de Corpo Presente» corresponde a uma exigência talvez paradoxal – a de não abandonar o sentido crítico, a de compreender as razões da sociedade imperfeita e a de prosseguir um caminho de emancipação individual mercê de um desenvolvimento comum. Para Pepetela: “Será muito cedo para lançar foguetes, mas não se poderá negar haver uma ‘brisa nova’ soprando nas nossas faces. Que as flores tenham oportunidade de desabrochar e que não percamos (nós continente, nós país) o comboio da modernidade e do progresso, que parece estar ao alcance da mão, é o meu desejo”.

 

Guilherme d'Oliveira Martins
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