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Blogue do Centro Nacional de Cultura

Um espaço de encontro e de diálogo, em defesa de uma cultura livre e pluridisciplinar. Estamos certos de que o Centro Nacional de Cultura continuará, como há sete décadas, a dizer que a cultura em Portugal vale a pena!

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Um espaço de encontro e de diálogo, em defesa de uma cultura livre e pluridisciplinar. Estamos certos de que o Centro Nacional de Cultura continuará, como há sete décadas, a dizer que a cultura em Portugal vale a pena!

A FORÇA DO ATO CRIADOR

  


O cinema é para Eric Rohmer uma simples captação mecânica das coisas.


No livro “Eric Rohmer. Film as Theology.” de Keith Tester (Palgrave Macmillan, 2008) lê-se que o território dos filmes de Eric Rohmer situa-se entre o campo e a cidade. Cada espaço, para Rohmer estabelece uma relação profunda e intrínseca com o ser humano - porque é capaz de o influenciar e de o fazer sonhar.


Nos seus filmes, Rohmer insiste na criação que existe para lá da construção humana. Numa entrevista a Antoine de Baecque e Thierry Jousse, em 1993, Rohmer afirma que o cinema não tem uma relação predatória com a natureza. Pelo contrário, para Rohmer, o cinema tem a capacidade de gravar a beleza do real: “My love of cinema itself springs from my love of nature.” (Handyside 2013, 138)


O cinema é, assim para Rohmer uma simples captação mecânica das coisas - é uma máquina que se coloca perante algo e que nada altera. Rohmer diz que a pintura é diferente porque é forçada a transpor, a descrever, a usar a metáfora, a representar. Na verdade é um filtro: “Painting (…) is a strength of the imagination which bothers me more.” (Handyside 2013, 138)


Foi o enorme interesse pela natureza que levou Rohmer a amar o cinema acima de todas as artes. Para Rohmer, a ambição e o desejo em construir um mundo novo e melhor, pode ser devastadora e pode até levar à desumanidade extrema: “The demagogues’ problem is that they want to impose culture, because that implies that there is a correct culture, and one that is wrong. While in fact there are different cultures for different audiences.” (Handyside 2013, 137)


“I’ve always kept faith in the future and trust in the past together. In a certain way, I am very conservative, but the more conservative I am, the more I’m waiting for the future (…) You have to be conservative in the framework of tradition, for example, in Paris, but one has to be resolutely futuristic in Utopian settings, such as in the New Towns, where everything can be allowed.” (Handyside 2013, 139)

 

Ana Ruepp

A FORÇA DO ATO CRIADOR

O Jardim do Tarot.jpg

 

O Jardim do Tarot, de Niki de Saint Phalle.

 

“My purpose, however, was to make a garden of joy.”, Niki de Saint Phalle

 

Tal como o nome indica, o Jardim do Tarot (1979-2002) de Niki de Saint Phalle (1930-2002) tomou como inspiração o ofício hermético do Tarot. As cartas do Tarot são usadas desde a Idade Média para prever o futuro. Esta actividade, pouco compreensível para o indivíduo comum, é descrita como sendo o espelho da alma. Niki de Saint Phalle utiliza, no seu Jardim do Tarot todo o potencial inexplicável, sobrenatural e imagético intrínseco de cada carta do Tarot para conceber todos os objectos que nesse jardim se erguem. Em 1979, os príncipes de Caracciolo deram a Niki de Saint Phalle uma montanha em Capalbio, na província de Grosseto, em Itália, e a artista passou os últimos vinte anos da sua vida a criar o primeiro parque de escultura monumental concebido por uma mulher. Já no início dos anos sessenta, Niki tinha mencionado a enorme vontade em construir um jardim com esculturas baseadas nas cartas de Tarot.
Os objectos representam cartas como: The Sphinx, The Empress, The Falling Tower, The Sun, The High Priestess, The Magician, The Dragon, The Emperor’s Castle, The Justice, The Tree of Life, The Wheel of Fortune, The Temperance, The World, The Hermit, The Oracle, Death e The Devil. Cada espaço, objecto e escultura pensadas por Niki tem uma forma, cor e tatilidade distintas. Cada um, à sua maneira, funciona como um reflexo de nós próprios e do cosmos incontrolável que nos rodeia.

 

“I realized the entire project was meant as a permanent expression of her undying love for (Jean) Tinguely as much as her obsession with her work and making her dreams reality.” (Groom 2008, 89-90)

 

Pensa-se que Niki terá tomado como referências a escultura Cyclop, de Jean Tinguely em Milly-la-Forêt em França e o Parque Güell de Antoni Gaudí, com os seus mosaicos e formas orgânicas, antropomórficas e grotescas. À medida que o projecto avançou e se desenvolveu a Niki de Saint Phalle passou a viver na cabeça da The Sphinx. Para conseguir financiar este enorme projecto, construído com a colaboração de inúmeros ajudantes, Niki desenhou perfumes, lenços, gravatas e diversas peças de joalharia.
Niki de Saint Phalle sempre se interessou imenso pelo mundo dos sonhos, e pelo espaço ocupado pelo inconsciente desconhecido. Ao imaginar uma sociedade mais igualitária e humana através das suas Nanas (numa eterna homenagem à origem do mundo), Niki também se arrisca a fazer referência a tudo aquilo que se perde quando crescemos e nos tornamos adultos. No Jardim do Tarot, outros deuses são evocados e opõem-se aos deuses do conformismo, da apatia e do materialismo.

 

“Art, to most people is something terribly serious and people refuse to realize that joy is something terribly serious too.”, Niki de Saint Phalle

 

Com o seu Jardim do Tarot, Niki ensina-nos a olhar para o outro lado do espelho. O outro lado é tão profundo quanto o lado em que estamos e ao qual chamamos realidade. Os espelhos têm a qualidade de rejeitar todo o tipo de obscuridade e trazer movimento, vida, cor, brilho e luz. Talvez o Jardim do Tarot evoque essa voz profunda e latente que em nós existe desde que nascemos. Stephen Nachmanovitch em Free Play. Improvisation in Life and Art. escreve que as experiências, as dificuldades e os sofrimentos inerentes ao nosso crescimento podem servir para desenvolver e fazer durar essa voz latente ou original, que transportamos e que nos liga ao que é eterno, mas infelizmente essa voz acaba por ser ignorada, calada e enterrada.
A realidade que nos é dada a conhecer através do mundo instituído, está infinitamente condicionada por suposições subentendidas que construímos após múltiplas experiências quotidianas. É por isso que a experiência oferecida pela arte, tal como acontece no Jardim do Tarot, nos parecem extraordinárias. O Jardim do Tarot, e todas as experiências criativas, na verdade ensinam-nos a ver a eternidade, e a redescobrir a voz latente através do mais pequeno e subtil gesto.

 

Ana Ruepp

 

A FORÇA DO ATO CRIADOR

  


Por uma cidade humanizada.


Cities must never be allowed to stop breathing.” Jaime Lerner (Lerner 2014, 7)


Acupuntura Urbana,
de Jaime Lerner, é um conceito concretizado através da vivência tangível de uma cidade. É um conjunto de soluções práticas e possíveis que prometem resolver os múltiplos e complexos problemas urbanos.


“As cidades não são problemas. São soluções.”, Jaime Lerner


A cidade, de acordo com Jaime Lerner é um organismo vivo e o cuidado e a intervenção estratégica e pontual podem trazer mudanças em grande escala. Ao revitalizarmos os sinais vitais de uma determinada área estamos a contribuir para a reinvigoração de toda a área circundante. Intervenção é sinónimo de fazer um organismo reviver através de estímulos perspicazes, táticos e habilidosos. Novas abordagens e novos pontos de vista acordam uma cidade. Um plano é um processo que pode demorar anos a concretizar-se. Mas a acupuntura urbana funciona como um incentivo local, não necessariamente planeado, eficaz, rápido e de escala muito limitada. É uma cura exata e precisa, um simples começo que poderá ou não despoletar uma mudança mais alargada.


“Good acupuncture is about drawing people out to the streets and creating meeting places. Mainly, it is about helping the city become a catalyst of interactions between people.”, Jaime Lerner (Lerner 2014, 47)


As medidas concretas, propostas por Jaime Lerner, tentam contribuir para a construção de uma cidade mais humanizada e são as seguintes:


. Polifuncionalidade;

. Promover do encontro entre pessoas;

. Existência de várias velocidades e de vários meios de transporte que se completam e que permitem um uso controlado do carro;

. Ruas com vida (através de ruas onde as pessoas possam andar, com lojas abertas durante 24 horas, com comércio ambulante, com mercados e galerias e que servem múltiplos usos);

. Preservar e restaurar a identidade cultural de um lugar para que seja experienciado (a memória de uma cidade é um ponto de referência vital, capaz de recuperar um sentido comum de coletividade e de pertença);

. Construir em pequena escala;

. Dar importância a pequenas e simples pre-existências;

. Nada fazer, sempre que for necessário;

. Incentivar a atenção e a dedicação, por parte de cada habitante, à cidade;

. Constante presença de sons e de cores variados;

. Continuidade (ao eliminarem-se os vazios e abandonados lugares urbanos);

. Salvar, nem que seja temporariamente, estruturas devolutas e perdidas;

. Integrar ricos e pobres, através da mistura de pessoas de várias idades no espaço público e no espaço construído;

. Garantir o fornecimento de infraestruturas, serviços e emprego em bairros clandestinos;

. Estimular o conhecimento aprofundado do lugar onde se vive;

. Aproximar a casa do trabalho;

. Plantar árvores nas ruas;

. Introduzir espaços que contribuam para o uso da memória e da imaginação - a praça serve para observarmos o mundo, o parque ajuda-nos a descobrir o que existe para além de todos os limites físicos;

. Urgência em construir objetos abertos para a cidade.


Através do exemplo de Curitiba e da sua acupuntura urbana, Jaime Lerner deixou-nos a possibilidade de transformar a cidade, com pequenos gestos, num espaço onde a fusão e coexistência de inúmeras atividades humanas acontecem incessantemente: “The more you blend incomes, ages and activities, the more human the city becomes.”, Jaime Lerner (Lerner 2014, 63)


Ana Ruepp

A FORÇA DO ATO CRIADOR

  


O espaço abstrato produz, impõe e reforça a homogeneidade social


Na opinião de Henri Lefebvre, as vanguardas modernas, do início do séc. XX, concretizaram novas formas da arquitetura e da cidade mas como sendo uma resposta à economia moderna. Estas vanguardas simplesmente não resolveram a questão do espaço.


Os administradores e os urbanistas fazem do espaço um valor de troca e por isso existe uma tentativa por parte de Lefebvre em reconstruir o espaço, sobretudo o espaço urbano, como um espaço social e orgânico. Lefebvre explica que o funcionalismo moderno elimina qualquer tipo de complexidade. Na verdade, o espaço resulta de uma construção social natural e complexa, baseado em valores, ações, pensamentos, significados e símbolos.


Para Lefebvre, a vida social para existir tem de ter como base um espaço que valoriza o conhecimento e a poesia, o encontro e o símbolo, a informação e os momentos de revelação, a claridade emocional e a presença do ser. Por isso o espaço urbano é por natureza um espaço polifuncional. O indivíduo contemporâneo ocupa à sua maneira o espaço que lhe é oferecido, mas os espaços urbanos modernos só se referem a si próprios e eliminam qualquer possibilidade de intuição e de imaginação. O espaço não pode ser mero contentor de consumo abstrato, deve sim ser um influenciador ativo nas nossas relações e comportamentos sociais, ao trazer heterogeneidade, complexidade e contradição.


Para Lefebvre, a importância e o poder dado ao espaço abstrato trouxe à nossa vida quotidiana uma lógica reducionista, homogénea, plana, fragmentada e invisível. É o espaço abstrato que produz, impõe e reforça a homogeneidade social. É com o passar do tempo que um espaço se transforma naturalmente num espaço social, real e palpável. Um espaço muito regularizado, comercializado e efémero serve somente determinadas e reduzidas necessidades e movimentos.


Lefebvre apela, assim, à urgência de criar uma nova linguagem para o espaço, de modo a afastar-se dos interesses de poder e das estruturas estabelecidas. Os espaços do mundo moderno (por exemplo a auto-estrada e o centro comercial), não foram resultado de intuições e de desejos coletivos que se manifestaram com o passar do tempo, são espaços produzidos tal qual como um bem de consumo corrente, que hipertrofiam uma só função, um só fluxo e um só comportamento. Sendo assim, os espaços abstratos, efémeros, homogéneos e monofuncionalistas são um meio muito eficaz e concreto de controlo abusivo por parte de um sistema vigente.

 

Ana Ruepp

A FORÇA DO ATO CRIADOR

  


Por uma nova ciência do espaço urbano.


Em 1972, Henri Lefebvre em entrevista (Régnier, Michel. 1972. “Entretiens avec Henri Lefebvre.” L’Office National du Film du Canada. Youtube.) explica que o período urbano atual ainda é pensado de acordo com os princípios estabelecidos durante o período industrial. Para Lefebvre todas as noções símbolos, ideias, conceitos, práticas e representações deveriam ser repensados para de facto passarmos a um período verdadeiramente urbano.


Os problemas urbanos são problemas mundiais e devem portanto ser atualizados. O espaço urbano ainda não foi na realidade reformado, porque as noções de tempo e de espaço numa cidade ainda estão por desvendar. Sendo assim o espaço segrega-se, a população dispersa-se e todos os elementos da sociedade dissociam-se da vida social. Na opinião de Lefebvre, ainda está por descobrir a solução para a reunião e o encontro entre as pessoas que habitam uma cidade.


Nunca na verdade foi feita uma reforma urbana, tal como aconteceu na primeira metade do séc. XX com a reforma agrária. Marx, Engels e Lenine pensaram que a força mais eficaz que seria capaz de questionar a estrutura da antiga sociedade e assim conceber uma sociedade completamente nova, seria a classe operária e o proletariado e assim se deu a reforma proletária sobre o solo cultivado. Porém semelhante reforma não se deu na cidade.


Para Lefebvre a questão da propriedade do solo construído, do solo da cidade é tão importante quanto a questão do solo cultivado. A cidade precisa de uma reforma urbana, que seja profunda o suficiente para ser capaz de influenciar toda a sociedade e toda a sua estrutura. Para Lefebvre, vivemos numa sociedade de classes e isso está bem visível na forma com a cidade está construída.


A questão da especulação imobiliária tornou-se uma questão preocupante, porque sem mecanismos eficazes de controlo da força do mercado imobiliário e dos interesses instalados, por parte do estado, nunca se irá permitir que nenhum planeamento, por melhor que seja, se cumpra.


Para Lefebvre, grave é sobretudo a questão do solo construído que é ainda e sobretudo controlado pelo capital privado. O solo da cidade é tão importante como o solo cultivado. Sem uma reforma urbana nem arquitetos, nem planeadores sozinhos serão capazes de transformar uma cidade e por conseguinte fazer emergir uma nova sociedade.


Ao mesmo tempo que a sociedade atual se urbaniza cada vez mais, assiste-se a uma espécie de ruralização do fenómeno urbano. Assiste-se a uma assimilação num determinado meio de comportamentos, valores, atividades e atitudes consideradas rurais. Aqui ruralização significa que as pessoas vindas de um meio rural para a cidade não se conseguem adaptar e integrar a nível cultural, social e económico. Simultaneamente assiste-se também a uma reruralização do campo - que contribui para uma maior separação entre a cidade e o campo. Os subúrbios e as periferias não são uma síntese harmoniosa e não ajudam na transição entre estas duas realidades. Segundo Lefebvre, a urbanização da sociedade e a sua simultânea ruralização gerou um processo dialético contraditório.


Ao falar em segregação, Lefebvre refere-se aos espaços particulares que as diferentes camadas e classes de uma determinada sociedade ocupam. Ao estar tudo separado, através do fenómeno moderno da funcionalização, a vida social e pública deixa de existir. Lefebvre explica que no passado as cidades não apresentavam espaços especializados e tinham uma vida urbana intensa - por exemplo a praça do mercado ao apresentar um conjunto de atividades e ao ser polifuncional permitia o encontro entre pessoas mas também permitia a expressão de opiniões e decisões políticas por parte de um ou vários grupos.


Para Lefebvre, um espaço especializado é um espaço morto. A comercialização dos espaços supõe que cada espaço esteja separado para que possa ser vendido e comprado. A especialização do espaço, na opinião de Lefebvre é um fenómeno que advém da divisão do trabalho em parcelas, é consequência de uma sociedade profundamente especializada. Cada espaço de uma cidade atual é preenchido por uma determinada atividade que ocorre num momento preciso do tempo. Se esse momento termina, por qualquer motivo, a atividade perde-se e o espaço esvazia-se. Vivemos, por isso numa sociedade que se constrói através de infinitos espaços fragmentados, isolados e perdidos.


Lefebvre explica que entre 1960 e 1970 foram colocadas ilimitadas esperanças no urbanismo. Durante essa década acreditou-se ser possível fazer do urbanismo uma ciência nova, eficaz e reformadora da vida social. Mas na verdade, o urbanismo por si só, por enquanto, reduz-se a um conjunto de considerações ideológicas e de ações concretas que equilibram uma determinada vontade pública e um interesse privado específico. O urbanismo atual deseja somente a rentabilidade imediata e corresponde a medidas de curto prazo.


Lefebvre adianta porém que não se deve abandonar a ideia de criar uma nova sabedoria ou ciência do espaço, que não se funda através de leis administrativas mas que se gera sim por uma nova longa elaboração da noção de espaço e da noção de tempo-espaço. Esta nova noção de espaço deverá prender-se naturalmente à noção de espaço habitável - e está nas mãos dos filósofos e dos poetas encontrar o verdadeiro significado de habitar. A ideia de espaço como: vivência, presença, memória, multiplicidade, complexidade, permanência, obra de várias atividades humanas, constante relação com um lugar e com o cosmos, materialização de pequenas realidades (onde se pode conhecer e sentir mais, permitindo a construção de diferentes interpretações e pontos de vista diversos acerca da ideia de que se tem do mundo) - é uma ideia poética muito poderosa e poderá reformar a cidade em que vivemos.


“Le Corbusier a cru faire un travail révolutionnaire mais en réalité il a fait le project architectural du capitalisme monopolistique d'état et aussi du socialisme d'état!”, Henri Lefebvre (Régnier 1972)

 

Ana Ruepp

A FORÇA DO ATO CRIADOR

  

 

Espaço é um instrumento hegemónico poderoso.


“(Social) space is a (social) product.” (Lefebvre 1991, 26)


No livro The Production of Space, Lefebvre avança com a ideia de que ao mudar-se a vida e a sociedade, deve inevitavelmente revolucionar-se o espaço. Lefebvre acredita que a pessoa humana comum é um ser social capaz de produzir a sua própria vida, a sua própria consciência e o por isso também produz o seu próprio espaço: “...each living body is space and has its space: it produces itself in space and it also produces that space.” (Lefebvre 2008, 170)


Lefebvre explica que a cidade é a materialização de dois circuitos de capital. O circuito primário diz respeito ao investimento de capital em mão de obra, em materiais e em máquinas de maneira a produzir produtos que possam ser vendidos no mercado e de modo a gerarem lucro que de novo poderá ser aplicado em novos investimentos. O circuito secundário diz respeito aos bens imóveis, ao capital investido em propriedade e no seu lucro. É através destes dois circuitos que se avalia a estabilidade, o rejuvenescimento e o declínio de uma cidade moderna.


Na cidade, na opinião de Lefebvre, o capital é hegemónico. Por isso é o capital que produz o espaço da cidade. O espaço ao ser produto de uma sociedade é necessariamente uma rede de relações sociais - é um produto social. Cada sociedade produz um espaço único, adaptado às suas necessidades e condições.


Na sociedade, os seres humanos produzem espaços sociais. As relações sociais, que são abstrações concretas, não têm existência real, mas existem e concretizam-se através do espaço. O espaço é assim, um produto e um meio de produção. O espaço é tão importante ao produzir o ambiente em que vivemos, porque somos constantemente moldados e influenciados pelo espaço que nos rodeia. O papel do governo é vital na determinação e conceção espacial de uma cidade - ao ter a capacidade para atrair investidores, ao possuir grande parte da propriedade e ao ter a competência legal para impor condições e sanções.


O espaço urbano é assim propriedade daqueles que têm dinheiro e poder. É pensado e concebido por um determinado conjunto de pessoas com determinadas necessidades e vontades mas é de facto vivido e experienciado por outro conjunto de pessoas (o indivíduo comum) que tem de se adaptar e obedecer a regras pré-estabelecidas. Para Lefebvre, o espaço real e vivido é um resultado do concebido e do percecionado. E as ideias dos proprietários e gestores de um determinado espaço nem sempre coincidem com as ideias do indivíduo comum que experiência e que utiliza esse espaço. Existe, por isso, naturalmente uma tensão entre o indivíduo comum e o capitalista. Na opinião de Lefebvre, essa tensão, materializa uma forma de repressão e esmagamento do indivíduo comum pelas classes dominantes.


Espaço é e sempre foi um instrumento hegemónico poderoso. Sobretudo se é a concretização do domínio, da manipulação, da exploração e da influência extrema de um conjunto de pessoas em relação a outro. Apesar de ser criado pelo ser humano, é um produto do poder e o indivíduo comum não tem nunca hipótese de criar o seu próprio espaço. A sociedade moderna só produz assim o espaço requerido e pensado pelo capital e pelo investidor.


Ana Ruepp

A FORÇA DO ATO CRIADOR

  


A cidade como teatro e o ser como atividade estética.


Richard Sennett em The Fall of Public Man acredita que o mundo é ainda uma peça de teatro (theatrum mundi). A cidade é um palco. A existência é uma atuação contínua. A tradição cristã, por exemplo, acredita que Deus é o único espectador que nos observa sempre.


A ideia de que o ser humano adota ininterruptamente diferentes papéis para conseguir viver, concebe pois a vida social como uma experiência estética contínua.


Para Sennett muito mais importante do que cultivar a auto-expressão deve-se sim desenvolver a capacidade de atuar, de modo a garantir a existência de uma cultura com vida pública.


Esta ideia de que o mundo é uma peça de teatro considera que todo o ser humano é um ser criador por excelência, é um ser capaz de representar, de se adaptar, e de se recriar constantemente.


Esta visão do theatrum mundi, para Sennett, contém uma verdade fundamental: a capacidade de atuar só é possível se houver na infância condições, espaço e tempo para brincar.


Sennett explica que ao longo do séc. XIX assistiu-se a uma descrença gradual na capacidade expressiva de cada indivíduo. Por isso, elevou-se a figura do artista, como sendo o único capaz de fazer manifestamente e livremente, aquilo que as pessoas comuns não conseguiam fazer no dia a dia.


Porém, é através do ato de brincar, durante infância, que se prepara uma pessoa para a futura experiência estética social. Segundo Sennett, o ato de brincar prepara-nos para vivermos uns com os outros em civilidade. Prepara-nos para os diferentes papéis que futuramente teremos de adotar, leva-nos a considerar e a testar certas condutas e ensina-nos a olhar para as convenções como um conjunto de regras de comportamento que nos permitem a aproximação ao outro. Através do ato de brincar e ao tornar um conjunto de certas convenções como credível, a criança está a desenvolver a capacidade de explorar, mudar, questionar e redefinir a qualidade dessas mesmas convenções.


“…people can playact with each other for purposes of immediate sociability but the terms on which they do so are still of contriving expression at the distance from the self; not expressing themselves, but rather, being expressive. It was the intrusion of questions of personality into social relations which set in motion a force making it more and more difficult for people to utilize the strengths of play.” (Sennett 2017, 331)


Ora, para Sennett a intromissão da personalidade nas relações sociais põe em causa a necessidade do ato de brincar. Desde o séc. XIX, que esta intrusão sobrecarrega o gesto expressivo com uma dúvida autoconsciente e repetida: será que o que estou a mostrar aos outros é realmente aquilo que sou?


Através do ato teatral o contacto social pode dar-se de imediato. O indivíduo ao ser puramente expressão/representação, distancia-se do eu. Sennet explica que sempre que o eu se apresenta em situações impessoais transforma-se num peso e dificulta a atuação na vida pública.


A sociedade moderna fragmentada, pessoal e íntima faz acreditar que o domínio público deixou de existir, que é impossível criar uma distância entre o ser social e o eu e que é inimaginável actuar em qualquer situação da vida: “An intimate society encourages uncivilized behaviour between people and discourages a sense of play…” (Sennett 2017, 332)

 

Ana Ruepp

A FORÇA DO ATO CRIADOR

  


A cidade moderna opõe a vida íntima à vida pública.


“The self no longer concerns man as an actor or man as a maker; it is a self composed of intentions and possibilities… now what matters os not what you have done but how you feel about it.” (Sennett 2017, 326)


De acordo com Richard Sennett, em The Fall of Public Man, no tempo atual o indivíduo vive dividido entre a vida pública e a vida íntima. As pessoas na sociedade atual concebem uma comunidade numa escala muito restrita. O próprio indivíduo está limitado e pronto a excluir todos aqueles que são diferentes. Para Sennett, vivemos num mundo que organiza a família, a escola e a vizinhança através de motivações e localismos (convém não esquecer que os regimes totalitários favorecem os localismos pela desconfiança constante, pelo medo do diferente e por isso como forma eficaz de controlo em escala limitada de modo a manter uma sociedade limpa e pura).


Lê-se também em The Fall of Public Man que foram os sociologistas, que ao longo do séc. XX, desenvolveram a ideia de que a vida em sociedade é um conjunto de tarefas separadas, instrumentais e mecânicas - à luz destas ideias a escola e o trabalho são vistos como uma obrigação, são vistos como veículos inapropriados para sentimentos mais verdadeiros e próximos.


A este mundo meramente instrumental, os sociologistas contrastam experiências afetivas, holísticas e integrativas. Ficou assente então que as pessoas só realmente sentem, só realmente vivem inteiramente o momento presente e só realmente se revelam em ambientes íntimos - entre a família, os vizinhos e os amigos. Para os sociólogos, o mundo alargado significa sobrevivência, obrigação e luta.


Porém, Sennett argumenta que a sociedade que apresenta a vida íntima como a vida verdadeira faz do indivíduo um ser autómato, um ator que não se pode exprimir nunca. Sennett revela que é ao incentivar-se a expressão criativa e mais especificamente ao dar-se espaço e abertura para que se desenvolva o ato de brincar, de jogar, de fazer de conta, poderá levar o indivíduo a ter uma vida mais significativa. A aproximação entre a esfera privada e pública só é possível através do uso de uma máscara.


A máscara, para Sennett, é civilidade. Sennett explica que civilidade e cidade, tem a mesma origem etimológica (Civis, Civitas): “Civility is treating other as though they were strangers and forging a social bond upon that social distance. The city is that human settlement in which strangers are most likely to meet. The public geography of a city is civility institutionalized.” (Sennett 2017, 328)


Para Sennett, as máscaras por isso ser criadas através do desejo em viver com os outros. As máscaras permitem criar a distância necessária para que a pura sociabilidade se manifeste. A máscara não representa o eu que manipula e que se impõe, afirma sim que todas as condições do mundo são plásticas e por isso a máscara é capaz de conduzir à construção de uma dimensão que para vai além do desejo e da identidade. Na sociedade atual, Sennett explica que as motivações do eu bloqueiam as pessoas de se sentirem livres para se exprimirem criativamente. E esta habilidade para se ser expressivo é posta em causa porque o indivíduo moderno deseja constantemente que a sua aparência transpareça aquilo que verdadeiramente é: “… everything returns to motive - Is this what I really feel? Do I really mean it? Am I being genuine? (…) Expression is made contigent upon authentic feeling, but one is always plunged into the narcissistic problem of never being able to crystallize what is authentic in one’s feelings.” (Sennett 2017, 331-2)

Ana Ruepp

A FORÇA DO ATO CRIADOR

  

A cidade moderna opõe a comunidade à sociedade.


No livro The Fall of Public Man, de Richard Sennett, lê-se que uma comunidade, na cidade moderna, actuará sempre como se fosse o único conjunto de indivíduos capaz de ser verdadeiramente humano (à luz desta ideia todas as outras comunidades serão vistas como menos humanas). Numa sociedade cujos espaços se encontram fragmentados, as pessoas vivem sempre com medo de perder o contacto próximo social. Impulso e intenção são as únicas substâncias disponíveis para que as pessoas se possam relacionar na cultura moderna - todas as emoções experienciadas numa comunidade determinam que tipo de pessoas formam aquele grupo.


Para Sennett, a construção de uma comunidade local proposta por urbanistas pode ser extremamente perigosa para a vivência de uma cidade - muito mais importante será a tentativa de reativar o verdadeiro sentido do espaço público e da vida pública na cidade e no seu todo. 


A solidariedade que existe dentro de uma comunidade tem uma função perversamente, estabilizadora em relação às mais alargadas estruturas da sociedade, porque segundo Sennett, quanto mais envolvidas estão as pessoas em problemas e desentendimentos de pequena escala, mais intocável permanece a atual ordem social. (Sennett 2017, 382) 


“Most so-called progressive town planning has aimed at a very peculiar kind of decentralization. Local units, garden suburbs, town or neighborhood councils are formed; the aim is formal local powers of control, but there is no real power that these localities in fact have. In a highly interdependent economy, local economy, local decision about local matters is an illusion.” (Sennett 2017, 383)  


Uma sociedade que receia impersonalidade encoraja fantasias relacionadas com a constituição de vida coletiva e comunitária de carácter íntimo, local, reduzido, segregado e fechado. A concretização de quem somos - a nossa identidade - é feita através de diversos atos seletivos da nossa imaginação: família, trabalho e vizinhos. Para Sennett, na sociedade moderna torna-se cada vez mais difícil o relacionamento e a identificação com aqueles que não conhecemos - pessoas que nos são estranhas mas que até poderiam partilhar interesses culturais, étnicos e religiosos comuns. Porém as ligações impessoais ainda que étnicas ou de classe não são fortes o suficiente e para criar vínculos duradouros entre pessoas que não se conhecem. Quanto maior a imaginação local maior se torna o número ilusório de interesses em comum - quanto mais reduzido é o sentido do eu, menos riscos pessoais serão tomados. A recusa em lidar, absorver e explorar realidades fora da escala íntima é aparentemente uma característica humana universal, porque está relacionada simplesmente com o intrínseco medo do desconhecido. 


Para Sennett, qualquer comunidade está assim construída sobre uma fantasia, é produto de um engano e da projeção de um ideal: “What is distinctive about the modern gemeinschaftcommunity is that the fantasy people share is that they have the same impulse life, the same motivational structure.” 


Comunidade é então, como já foi escrito no início, a união entre semelhantes impulsos e motivações, sentidos com grande intensidade local. Se dentro de uma comunidade novos impulsos emergem esses terão de ser imediatamente destruídos ou reprimidos - porque aquele alguém que muda ou substitui os seus motivos estará a trair a comunidade. Para Sennett, qualquer desvio individual ameaça a força do fragmento - por isso, todo o indivíduo que pertence a um grupo fechado será sempre posto em prova e estará sob constante vigilância. Suspeição e solidariedade formam então, a comunidade moderna.  


Mesmo pertencendo a uma comunidade o ser humano experiencia sentimentos de afastamento, de desentendimento e de indiferença em relação ao mundo exterior. O mundo mais alargado em relação a uma comunidade moderna, é visto como algo menos autêntico e menos real - é um mundo que não tem espaço para emoções individuais. Ao não se deixar manipular ou influenciar por desejos emocionais, o mundo exterior não é um desafio, mas um vazio. O indivíduo moderno procura por contacto social íntimo, somente junto daqueles que o entendem e desliga-se do mundo mais alargado: “This is the peculiar sectarianism of a secular society. It is the result of converting the immediate experience of sharing with others into a social principle.” 


Num contexto mais alargado, as únicas ações que uma comunidade pode tomar estão relacionadas com a coordenação e controlo de emoções e a constante distinção entre aqueles que lhe pertencem ou não: “The community cannot take in, absorb, and enlarge itself from the outside because then it will become impure.Thus a collective personality comes to be set against the very essence of sociability - exchange - and a psychological community becomes at war with societal complexity.”(Sennett 2017, 385) 


Sennett escreve ainda que foram os urbanistas mais conservadores que fizeram acreditar que uma pessoa só é sociável se se sentir segura, protegida e num ambiente estreito e controlado. Segundo os mais conservadores, o ser humano é destrutivo, violento e perigoso por natureza se não tiver barreiras, fronteiras e distâncias mínimas. Este pensamento urbanista conservador, para Sennett, é um erro mas o autor admite ser o resultado de uma cultura gerada pelo capitalismo e pelo secularismo moderno que transforma o conflito entre irmãos lógico sempre que se usam as relações íntimas como base para as relações sociais. (Sennett 2017, 385) 


Sennett pensa que os seres humanos têm uma verdadeira capacidade para a vida em grupo em condições de superlotação (de seres e de coisas) - a arte de criar praças numa cidade tem sido praticada com grande sucesso desde há séculos e geralmente sem arquitetos formalmente treinados. Sempre que o urbanista procura melhorar a qualidade de vida comunitária tornando-a mais íntima está a contribuir para uma irreversível esterilidade e por conseguinte a contribuir ativamente para a morte da vida e do espaço público na sociedade moderna. Sendo assim, se tomarmos tudo isto em conta, a ideia de uma comunidade local forçada pode ser em casos extremos perversamente utilizada como um meio eficaz de controlo e pode por isso opor-se a qualquer ideal democrático. 


“Historically, the dead public life and perverted community life which afflicts Western bourgeois society is something of an anomaly.” (Sennett 2017, 385) 

Ana Ruepp

A FORÇA DO ATO CRIADOR

  


Uma compo­nente essencial do espaço público é a sobreposição de funções.


No livro The Fall of Public Man de Richard Sennett (W. W. Norton & Company, Inc., 2017), lê-se que as ideias de Barão Haussmann, para Paris, no séc. XIX foram baseadas na homogeneização. Os novos bairros da cidade destinavam-se a uma só classe e na cidade antiga central ricos e pobres foram separados. Este foi o início da função única no planeamento urbano, isto é, um desenho urbano em que cada espaço na cidade está destinado a um uso particular. A desagregação da cidade em que um espaço corresponde a uma função, por princípio pode parecer ordenada, operante e rentável. Mas na opinião de Sennett, uma compo­nente essencial do espaço público é a sobreposição de funções. Historicamente, assim que as necessidades funcionais numa determinada área mudam o espaço já não consegue responder a estas mu­danças e acaba por ser abando­nado.


“Think, for Instance, of what a city of atoms, with a space for each class to live, for each race to live, for each class and race to work, means for attempts at racial or class integration, either in education or in leisure: displacement and invasion must become the actual experiences involved in the supposed experience of intergroup rapprochement. Whether such forced mixings would ever work in racialist or highly class-segregated societies is an open question; the point is that a city map of single-functions, single-spaces makes all such problems worse.” (Sennett 2017, 367)


Se uma cidade se apresentar como uma cidade de átomos - desagregada e fragmentada - com espaços especí­ficos para cada classe e para cada etnia viver e trabalhar, sempre que houver tentativas de integração, quer seja através da educação ou através do lazer, essas experiências de aproximação intergrupal podem agravar problemas que possam existir. Pensa-se verdadeiro que uma cidade que separa classes, etnias e funções possa pôr fim à criação de complexidades incontroláveis. Porém, Sennett escreve que a destruição da multiplicidade de funções e que a conceção do espaço de modo a que os usos não possam mudar à medida que os usuários mudam, é racional só em termos de investimento inicial. A atomização da cidade e a consequente destruição do espaço público, imposta por urbanistas, cria uma comunidade com sede de contacto humano.


Para Sennett, os esforços urbanísticos de Haussmann puseram um término definitivo ao cruzamento entre habitar, trabalhar, educar, tratar e socializar dentro e ao redor de uma única casa - na cidade pré-industrial lojas, escritórios e habitação situavam-se muitas vezes concentrados num só edifício. Quanto mais as cidades se fragmentam e morrem mais as pessoas deixam a cidade. Sennett declara que o desenvolvimento urbano moderno faz com que o próprio contacto social somente através de centros comunitários pareça uma resposta à morte social da cidade. (Sennett 2017, 368)


A cidade moderna opõe a comunidade à sociedade e naturalmente à multidão. Psicologicamente, o indivíduo protege-se contra a multidão: “The bourgeois man in the crowd developed in the last century a shield of silence around himself. He did so out of fear. This fear was to some extent a matter of class, but it was not only that. A more undifferentiated anxiety about not knowing what to expect, about being violated in public, led him try to isolate himself through silence when in this public milieu.” (Sennett 2017, 369)


A multidão é desconfortável e automaticamente coloca o indivíduo em isolamento, confrontado somente com a sua solidão: “Strangers on crowded streets give each other little clues of reassurance which leave each person in isolation at the same time: you drop your eyes rather than stare at a stranger as a way of reassuring him you are safe; you engage in the pedestrian ballets of moving out of each other’s way, so that each of you has a straight channel in which to walk; if you must talk to a stranger, you begin by excusing yourself and so forth…” (Sennett 2017, 369)


Desde o séc. XIX, que se pensa que a multidão tem o poder de pôr em causa a segurança de uma cidade. Desde então, existe a ideia de que a multidão precisa estar sob controlo, porque se acredita que a multidão é o modo pelo qual as paixões do indivíduo se deixam corromper e se expressam sem limites - a multidão tem a fama de ser capaz de transformar um indivíduo banal num monstro. Para Sennett, essa imagem da multidão está associada à ideia de que as pessoas que se expressam ativamente numa multidão são vistas geralmente como potencialmente perigosas: “…the people actively expressing their feelings in crowds are seen usually as the Lumpenproletariat, the under-classes, or dangerous social misfits.” (Sennett 2017, 369)


Sennett explica que no início do séc. XX, estudos relacionados com a psicologia social mostravam e expandiram exageradamente a ideia de que a multidão pode induzir a uma espécie de exaltação e loucura psicótica - a saúde psicológica de um indivíduo ao ser então analisada variava de acordo com o facto de pertencer ou não a um determinado grupo social. Esta suposição, ainda que pouco infundada, implicitamente levou à ideia de que apenas um simples espaço claramente demarcado e que permite o contacto entre um número limitado de indivíduos, mantém a ordem.


Esta imagem moderna, acerca da multidão, teve inevitavelmente ressonância no planeamento urbano moderno. Na cidade moderna persiste a ideia de que quanto mais simplificado o ambiente (reduzindo o número de funções e de interligações) haverá ordem e controlo - numa multidão ninguém se conhece e há mais liberdade. Na opinião de Sennett, uma cidade segregada é assim uma cidade fechada e aprisionada, sob permanente vigilância e escuta.


A vida na cidade moderna apresenta como característica esta contradição permanente - a ânsia de liberdade e abertura associada ao desejo de segurança e de previsibilidade. A cidade moderna aproxima somente os iguais, põem em contacto as pessoas que acreditam nas mesmas coisas, que partilham as mesmas expectativas e que pensam e atuam da mesma maneira. E por isso, qualquer pequeno desentendimento se pode tornar numa luta sangrenta porque os limites estão bem traçados e qualquer sentimento de invasão pode incrementar as diferenças. Num ambiente segregado é mais difícil conviver e aceitar a diferença - a presença do outro torna-se uma constante ameaça. Nestas circunstâncias e numa cidade fragmentada a ideia de pertencer a um mundo maior e mais complexo parece assustador e leva a um isolamento e a uma frustração ainda maior do indivíduo e do seu pequeno núcleo social - uma comunidade é então sinónimo de proteção emocional contra a sociedade em geral e por isso uma barreira territorial dentro da própria cidade: “This new geography is communal versus urban; the territory of warm feelings versus the territory of impersonal blankness.” (Sennett 2017, 372)

Ana Ruepp