Saltar para: Posts [1], Pesquisa [2]

Blogue do Centro Nacional de Cultura

Um espaço de encontro e de diálogo, em defesa de uma cultura livre e pluridisciplinar. Estamos certos de que o Centro Nacional de Cultura continuará, como há sete décadas, a dizer que a cultura em Portugal vale a pena!

Blogue do Centro Nacional de Cultura

Um espaço de encontro e de diálogo, em defesa de uma cultura livre e pluridisciplinar. Estamos certos de que o Centro Nacional de Cultura continuará, como há sete décadas, a dizer que a cultura em Portugal vale a pena!

A FORÇA DO ATO CRIADOR

 

O verdadeiro sentido do habitar - a cidade como projeto de vida coletiva, segundo Manuel Graça Dias.

 

‘Se uma cidade é o artefacto humano que mais nos pode surpreender (não só pela sua construção física, pelos segredos sempre redescobertos, pelos esconderijos que lentamente se amontoam, pela glória da luz subitamente amanhecendo tudo, mas também por ser um contentor de vidas, de actores, de outros homens iguais a nós e tão diferentes, um cenário que é suporte do movimento das pessoas que o habitam e que tantas vontades cumprem lado a lado, respeitando-se, fazendo-se cidadãos), as diferentes casas construídas, retratando diferentes épocas, necessidades e objetivos, são a matriz mesma dessa complexidade e surpresa que só a cidade nos consegue oferecer.’, Manuel Graça Dias em ‘Manual das Cidades’

 

No livro ‘Manual das Cidades’ (2006), Manuel Graça Dias define a cidade como sendo um território conformado para a possibilidade da vida em comum. A cidade é a única enorme estrutura construída, capaz de fazer com que pessoas diferentes compartilhem e dividam o mesmo espaço. E esse espaço é, por excelência, coletivo. Por isso, múltiplo e polivalente, ao permitir o equilíbrio e o respeito em relação às diferenças entre as pessoas e oferece a possibilidade e a liberdade das pessoas tentarem ser quem verdadeiramente gostariam de ser.

 

A cidade é um espaço que deve ser construído em conjunto - só assim poderá garantir a absorção de toda a complexidade da vida humana.

 

‘A cultura europeia contemporânea procura esse nivelamento, essa igualização forçada, esse auto-contentamento fácil, construindo disponíveis consumidores.’, Manuel Graça Dias em ‘Manual das Cidades

 

Para Graça Dias, os modos sucessivamente mais individualistas de viver, que têm vindo a manifestar-se na sociedade contemporânea, põem em causa a vivência comunitária que a cidade propõe - por exemplo as feiras são substituídas pelos centros comerciais isolados, as ruas são substituídas pelas estradas, a habitação coletiva pela habitação familiar isolada. Porém Graça Dias defende que a cidade é, acima de tudo um projeto de vida coletiva. Sendo assim, o planeamento urbano deve tentar não anular a complexidade e a diversidade da vida - o acidente, o acaso, o imprevisto, a surpresa e o maravilhamento pressupõem a interpelação social.

 

‘A cidade verdadeira, o verdadeiro “espaço público”, é um território de grande de liberdade e de imprevisto, de alguma dureza às vezes, de contrastes (de clima e de cheiros), de confrontos entre raças e classes, géneros e idades.’, Manuel Graça Dias em ‘Manual das Cidades

 

A sociedade contemporânea tenta simplesmente fazer da cidade um fenómeno de massificação, de homogeneização e de simplificação. Porém para Graça Dias, a cidade deve sim ter a capacidade de acrescentar algo ao ato solitário de viver. Deve determinar e limitar espaços que permitam estarmos rodeados uns dos outros.

 

Graça Dias esclarece também que o espaço da cidade, deve ser um espaço constantemente mutável e em permanente recuperação - para que pare de crescer para fora dos seus limites, de qualquer maneira e para que nunca pare de ser vivida e habitada (a cidade não é um parque temático só para peões e turistas).

 

A cidade é, acima de tudo, um fenómeno coletivo muito importante para o nosso desenvolvimento individual com as suas ligações espaciais infinitas - ao estarmos rodeados uns dos outros temos referências, somos confrontados com a diferença e isso possibilita-nos ver quem somos. A cidade desenhada deve sujeitar-nos constantemente a confrontos, a dificuldades, a contradições e por isso a aprendizagens.

 

‘Gosto de falar da vida nas (das) cidades. Da vida que ainda pode ser generosa, complexa, imprevista, caótica, múltipla e dos diversos obstáculos que a tolhem.’, Manuel Graça Dias em ‘Manual das Cidades

 

Ana Ruepp

A FORÇA DO ATO CRIADOR

 

Acerca do cubismo de Picasso, segundo Gertrude Stein.

 

‘So when the contemporaries were forced by the war to recognise cubism, cubism as it had been created by Picasso who saw a reality that was not the vision of the nineteenth century, which was not a thing seen but felt, which was a thing that was not based upon nature but opposed to nature like the houses in Spain are opposed to the landscape, like the round is opposed to cubes.’, Gertrude Stein in ‘Picasso’

 

No livro ‘Picasso’ de Gertrude Stein lê-se que a guerra trás a mudança que toda a gente espera. É a violenta materialização de uma transformação radical que já se deu na sociedade mas que ainda não se reconhece (talvez só os criadores a consigam sentir). Obriga e impõe um diferente e radical modo de ver.

 

O cubismo representa um completo novo modo de ver. Um modo de ver o mundo verdadeiramente do século XX. É inesperado e nunca visto. O século XIX esgotou-se na necessidade de se ter um modelo. A verdade, de que o progresso e a ciência, era o único meio possível de gerar modos de expressão, perdeu significado.

 

‘At present another composition is commencing, each generation has its composition, people do not change from one generation to another generation but the composition that surrounds them changes.’, Gertrude Stein in ‘Picasso’

 

Para Stein nada muda de uma geração para a outra. As pessoas são exatamente as mesmas, com as mesmas necessidades, com os mesmos desejos, com as mesmas virtudes, qualidades e as mesmas falhas. O que muda é a circunstância, o que muda são as coisas que nos rodeiam (as ruas, os edifícios, os meios de transporte, as roupas). E o criador é sensível às mudanças. A sua arte é inevitavelmente influenciada pela maneira como cada geração se move num momento preciso.

 

‘So then the composition of that epoch depended upon the way the roads are frequented, the composition of each epoch depends upon the way the frequented roads are frequented people remain the same, the way their roads are frequented is what changes from one century to another and it is that that makes the composition that is before the eyes of every one of that generation and it is that that makes the composition that a creator creates.’, Gertrude Stein in ‘Picasso’

 

O cubismo é composição. Uma composição em que tudo tem a mesma importância, onde não existe um centro. É uma composição nova, sem princípio nem fim e que vai para além dos limites da tela.

 

O cubismo é a afirmação de que nem tudo se resume ao prazer das descobertas científicas. É um novo modo de expressão, completamente criado por Picasso, que mostra exatamente aquilo que se vê, que privilegia um lado e não o outro, sem se deixar interferir pelo conhecimento do objeto que se têm à partida. É uma maneira de expressão que mostra o objeto sem a intersecção do saber ou da lembrança. Stein escreve que Picasso quando vê um olho, o outro olho deixa de existir. E Picasso, como pintor que é, deseja afirmar somente aquilo que ele vê. Na verdade o resto que se acrescenta é uma reconstrução feita pela memória.

 

‘...and so the cubism of Picasso was an effort to make a picture of these visible things and the result was disconcerting for him and for the others, but what else could he do, a creator can only do one thing, he can only continue, that is all he can do.’, Gertrude Stein in ‘Picasso’

 

E Picasso preocupa-se somente com as coisas, com aquilo que lhe é realmente visível. De Courbet a Van Gogh e a Matisse, a natureza era vista como tal, como toda a gente a via e a preocupação destes pintores era a de expressar essa visão partilhada.

 

O esforço de Picasso é outro. É o de expressar a única e irrepetível forma de ver as coisas que o rodeiam - e tenta expressar a existência dessas coisas sem se deixar interferir pelo hábito de já as ter visto e de já as conhecer. As coisas pintadas são as coisas vistas, mais especificamente, vistas através de um olhar que depende de uma específica posição física no espaço.

 

Matisse and all the others saw the twentieth century with their eyes but they saw the reality of the nineteenth century, Picasso was the only one in painting who saw the twentieth century with his eyes and saw its reality and consequently his struggle was terrifying, terrifying for himself and for the others, because he had nothing to help him, the past did not help him, nor the present, he had to do it all alone...’, Gertrude Stein in ‘Picasso’

 

O cubismo é oposição. Para Gertrude Stein o cubismo faz parte da vida quotidiana de Espanha. O cubismo é arquitetura espanhola - linhas que cortam abruptamente a paisagem. Por isso o cubismo representa todo o trabalho do ser humano que está em descontinuidade e em desarmonia com a natureza. O humano opõe-se ao natural. A esfera opõe-se ao cubo. As casas opõe-se à paisagem. O estático opõe-se ao que se move. O pequeno opõe-se ao dominante. E Picasso tenta, na sua pintura, expressar formas que se opõe, que se separam (apesar de formarem um só todo). As linhas pintadas opõem-se aos objetos vistos. O mundo real opõe-se a um modo de ver particular.

 

‘Everyone was forced by the war which made them understand that things had changed to other things and that they had not stayed the same things, they will force then to accept Picasso.’, Gertrude Stein in ‘Picasso’

 

Ana Ruepp

A FORÇA DO ATO CRIADOR

 

A pintura de Rose Wylie - uma maneira particular de ver.

 

‘The way we see things is affected by what we know or what we believe (...) We only see what you look at. To look is an act of choice.’, John Berger

 

Para a pintora Rose Wylie (1934), olhar é sempre um ato extraordinário que transforma e que interrompe o mundo, porque aquilo que é visível está sempre em contacto com o invisível - sentimentos, pensamentos, intuições e memórias.

 

A pintura de Wylie expõe uma maneira específica de ver o mundo e por isso resulta numa forma muito própria de pintar.

 

‘I like to present to the world a kind of painting which is considered not totally acceptable painting.’, Rose Wylie

 

Em resposta a momentos visuais, Wylie cria uma pintura táctil, sintética e informada.

 

Táctil porque Wylie pinta de acordo com um processo físico que começa na execução de desenhos (muitos desenhos a caneta e a lápis). Eventualmente, de um dos desenhos gera-se uma tela. A tela é cortada e pintada plana (no chão ou na parede), ainda sem estar montada na grade. Os desenhos são muito espessos, porque os papéis colam-se sucessivamente uns em cima dos outros, para emendar ou para tornar mais precisa a informação que surge acerca do tema. Durante o processo, apesar de tudo estar planeado, há espaço para a interpretação e reinterpretação do tema, segundas intenções e correções, novos desenhos e reordenamentos e por isso a tela é feita de emendas, improvisos, colagens sucessivas e a tinta é espessa e a pincelada é imprecisa.

 

‘I don’t want to be told how to draw right. The final drawing always comes from the memory of having drawed many times before. I do both, looking at it and from the memory of it. I like awkward, unfamiliar. I don’t like knowledge shouting at you.’, Rose Wylie

 

Rose Wylie pinta as especificidades do mundo real - que é visual - e sempre que o faz, utiliza tudo aquilo que é possível utilizar e que está ao seu dispôr. E tenta propor uma pintura síntética. A pintura de Wylie é uma ligação ao que nos rodeia, pelo seu olhar. Responde a um processo de transformação (não é uma cópia e não é uma análise) do objeto a pintar - através da memória ou da observação direta.

 

A sua pintura responde sempre a um processo de filtragem, de personalidade, de redução, de clarificação e de adição. É um confronto entre o sujeito, que observa e que se lembra, e o objeto. É um desejo de comunicar da forma mais direta e imaginativa. Tenta referir-se ao objeto original sempre da forma mais clara, verdadeira, justa e informada, porém livre de qualquer representação convencional. É um processo de correção e de aproximação fiel tanto ao objeto como aos tantos desenhos já feitos desse mesmo objeto.

 

Divergentes temas podem ser tratados, mas a maneira de ver única de Wylie mantém-se.

 

Rose Wylie acredita que há um fator fundamental e que determina o curso de qualquer obra, que é aquilo que se é - uma mistura de identidade, de lembranças e de experiências - e se se tenta ser o mais fiel a isso encontra-se uma linguagem muito própria, uma maneira muito particular e intransmissível de pintar. A pintura reflete sempre uma essência, é uma fusão consigo próprio e apresenta muitas formas singulares e irrepetíveis.

 

‘I draw what I like. It is the visual impact on me that I draw - and when you work with memory, you work with your brain. You look at your mind, which is much fainter than reality - that’s what imagination and transformation is about.’, Rose Wylie

 

Primeiramente, existe um impacto visual, um maravilhamento. Wylie tenta ser o mais fiel a esse impacto através de listas, através de desenhos sucessivos, e corretivos. E assim que se recorre à memória, ao desenhar, olha-se para a imagem no cérebro - incompleta e baça. Ao trabalhar assim é possível dar espaço à interpretação individual, à construção, à filtragem, à impressão e à projeção de si próprio.

 

Art may have an agenda, a contemporary agenda, which could be political or anything in order to have significance because that’s what’s going on, but I’m not sure whether it’s necessary to have that. And people straight emotional response to the work without any knowledge, is what I would like, because I think that’s what painting is about.’, Rose Wylie

 

Rose Wylie acredita que o decalque da lembrança mantém aquilo que interessa desde início - a descrição pode não ser totalmente aturada em relação ao tema mas a pintura deve ser aturada e fiel à memória desse tema. Sem ser literal, o trabalho de Wylie revela o específico e o particular. A tela é um todo que nunca está completo - essa vontade de completude e de fidelidade a uma memória visual pode estender-se por uma sucessão de mais telas e desenhos que vão adicionando ou filtrando a informação. As pinturas são planas - talvez a profundidade seja dada pela alteração dramática de dimensão. Dentro da mesma composição, aparecem por vezes corpos e cabeças enormes em relação a outras figuras - planos abrem-se e fecham-se sucessivamente.

 

‘You paint from the moment, from the thing, from what you are on that moment.’, Rose Wylie

 

Rose Wylie deixa que o tema se revele por si só e pode surgir no dia-a-dia, em artigos de jornais, revistas, programas de televisão, filmes ou determinados factos da história. A sua pintura é informada e as suas referências são improváveis, que vão desde a pintura renascentista, a Giovanni di Paolo, a Matisse, a Picasso, até à pintura votiva mexicana ou livros de colorir para crianças.

 

‘I do like to work with film stars and footballers because I think there’s a shared interest. It’s democratizing the whole thing. It is just work and we can all engage with it.’, Rose Wylie

 

A pintura de Rose Wylie tem o intuito de ser um meio de contacto, um meio de comunicação ativo. Contém informação conhecida e que pode pode ser partilhada com toda a gente - bico do fogão, uma boca a comer uma bolacha Leibniz, um olho a pôr rímel, Rooney a chutar a bola, Serena Williams a jogar ténis, Kate Moss entre luzes, Nicole Kidman com uma saia vermelha, etc. Wylie recorre frequentemente ao uso da escrita que dá informação particular adicional, local, nome do filme, actores, descrição da cena, descrição do tema, descrição da personagem, intensificação de sons e de barulhos. São pintadas figuras que espelham tanto o tempo do passado como o tempo do presente, figuras etéreas ou artificiais, heróis, lendas, mitos, santos, mártires, reis, celebridades, galinhas, insetos, coelhos, gatos, cães, patos a fazer ‘quack, quack’, aviões carregados com bombas.

 

‘Matisse once said ‘Go for it, try to get it, as it is, out of your head and it won’t be right anyway but it’s fine.’, R. Wylie

 

Por isso, na pintura de Rose Wylie, existe a constante vontade em mostrar e tornar evidente da forma mais essencial e económica, a transformação pessoal a que o tema foi sujeito. A pintura torna-se num diálogo permanente, memorável e fluído. É uma representação clara, que aceita opostos e mudanças de escala. É um espaço onde as figuras aparecem recortas e isoladas e as cores são vivas. Funde-se, num só plano, o fragmento e o todo, o planeado e o acaso, a realidade e a imaginação, o geral e o particular.

 

‘But one of the things that art does is to unify everybody (...) It crosses the whole boundaries of a nation. Certainly it is good for the development of the person, it can give you a reason, in fact a purpose for life.’, Rose Wylie

 

Ana Ruepp

A FORÇA DO ATO CRIADOR

 

‘Desert Moon’ de Lee Krasner.

 

Painting is not separated from life. It is one. It is like asking - do I want to live? My answer is yes - and so I paint.’, Lee Krasner

 

A pintura ‘Desert Moon’ (1955) de Lee Krasner (1908-1984) é pura vida.

 

‘I like a canvas to breathe and be alive. Be alive is the point. And, as the limitations are something called pigment and canvas, let’s see if I can do it.’, Lee Krasner

 

Krasner, ao pintar, tenta reunir todo o seu ser (corpo e espírito, consciente e inconsciente, interior e exterior), como que no processo descrito por Carl G. Jung de individuação - processo alquímico que procura a familiarização e o relacionamento com as partes de nós mesmos que se tornaram reprimidas, anestesiadas, separadas ou rejeitadas.

 

The body is merely the visibility of the soul, the psyche; and the soul is the psychological experience of the body’, C. G. Jung

 

Para Krasner, a pintura deve ser mais do que uma resposta, uma representação, uma transferência daquilo que está no mundo, daquilo que está fora de nós. Na história da arte, até então, a relação que se tinha com a natureza, com o mundo, com o corpo e com o espírito era de separação, era uma simples relação frontal. Krasner ao pintar deseja aproximar toda a esfera física, da esfera espiritual de modo, a serem transparentes uma à outra, de modo a que o domínio espiritual se torne acessível dentro e através do domínio físico.

 

‘I start with the blank, and there is nothing more horrifying than a blank canvas, because I don’t have a thought, an idea, or I’m going to do this or I’m going to do that. Then finally something stimulates you to move, it may be an obsession with a colour. (...) If I’m ready to work, or whatever there is that gets me into working, and I can’t define that, I have no idea what it might be, I will start and make some brushstrokes across the entire canvas and pretty soon some image will suggest itself to me (by image I don’t mean a naturalistic image, but some form) and start out from that and I keep moving with it.’, Lee Krasner, 1982

 

A sua pintura toma forma através do conhecimento apurado dos mais pequenos gestos, sempre em intensa relação com o corpo, com o espírito, com as coisas, com os outros, com as ideias e com a natureza. A sua pintura realiza um processo de integração - de modo a completar o incompleto, a unificar o fragmentado, a ordenar o que não se ordena, a compreender o incompreensível.

 

Para tentar lidar com a complexidade e com o imprevisibilidade (desenhos rasgados) do processo de pintar, Krasner recorre a uma série de ações e de reações em cadeia. Isto porque não se pode forçar a pintura a tomar uma determinada direção - a pintura é vida.

 

When you are painting, it’s a total statement of all of your interests, so to speak.’, Lee Krasner

 

Ao utilizar a colagem, em ‘Desert Moon’, Krasner experiencia um processo de renovação no seu trabalho. O uso de uma nova matéria traz uma nova liberdade, traz novas formas. E este renascer só se tornou possível através da ação de rasgar os desenhos a preto e branco que estavam pendurados nas paredes do seu atelier. Krasner ainda insiste em retirar inspiração no seu eu total e integrado (interior e exterior, gesto e pensamento), porque só assim existe verdadeira conversão, transformação, libertação e profundo entendimento. Se houver sempre a necessidade de impor um preestabelecido plano, o processo de pintar poderá tornar-se fragmentado, opressivo e sem vida. É a constante interrogação e inquietação que traz a descoberta e uma renovada compreensão.

 

‘I never violate an inner rhythm. I loathe to force anything. I do not force myself, ever... I have regard for the inner voice.’, Lee Krasner

 

Ana Ruepp

A FORÇA DO ATO CRIADOR

 

"ÆOLUS" de Gillian Ayres

 

‘I don’t see why you shouldn’t be filling yourself up, making yourself happy. Enjoying yourself. Feasting on beauty. I want an art that’s going to make me feel heady, in a high-flown way. I love the idea. I’d use the word spiritual. I’m not frightened of all that.’ Gillian Ayres

 

As grandes telas pintadas por Gillian Ayres, na década de 1980, engolem-nos, rodeiam-nos, enchem-nos. A sua incontrolabilidade e a imprevisibilidade excede qualquer tentativa de explicação e de interpretação.

 

No percurso de Ayres, estas pinturas, como por exemplo ‘Æolus’ (1987), tornam-se muito intensas, com contornos mais definidos. Estão profundamente enraizadas na experiência do fazer, num preencher abundante e fluído. Revelam um caminho de descoberta, não são uma representação e não são só forma. Gillian Ayres entende a pintura como uma superfície ou plano, do tamanho da tela, que está em aberto. O espaço vazio e infinito da tela é lugar de ação, é lugar onde se dispõem e sobrepõem marcas de tinta e de cor. É uma celebração de vida.

 

You are doing area against area of color and it has to work. One hopes it touches the soul of somebody at the end of it.’, G. Ayres

 

Para Ayres, a abstração, no mundo das formas, é a revelação mais enérgica e reveladora do séc.XX - e todas as suas possibilidades estão ainda por explorar.

 

Sem recorrer ao pré-concebido, ao conceptualizado, ao racionalizado, ao repetitivo, Gillian Ayres, com ‘Æolus’, abre a possibilidade ao desconhecido, ao que está para lá do que se sabe, ao abismo.

 

‘I love obscurity in modern art. I don’t want a story. There are no rules about anything. I just go on doing what I do. I want to do nothing else.’, Gillian Ayres

 

No início, existe sempre a necessidade de uma procura. Uma procura que não acaba nunca e que já teve início em telas anteriores e cuja resposta é interminável.

 

Em ‘Æolus’, o ato de pintar é:

 

  • um ato de sinceridade - o resultado está ali, sem filtro e sem enganos. Aquele é o processo, aquele foi o caminho;
  • um ato de confiança - ao criar uma beleza completamente nova, que não se conhece, cheia e abundante;
  • uma experiência do seu tempo - que pertence a um momento específico;
  • uma experiência silenciosa - que se constrói num diálogo puro;
  • uma experiência singular - onde cada tela é única e contém uma determinada e irrepetível ordem;
  • uma experiência total - a pintura é resolvida de modo a que todas as partes façam parte de um todo;
  • uma experiência visual - o resultado não é verbal, não é literal, pois uma pintura é feita através de um conjunto de marcas que se vêem.
  • uma experiência material e tátil - a tinta é espessa e é colocada com as mãos;
  • uma experiência de cor - intensidade (e não tom) é o processo utilizado, e que ao relacionar e misturar cores complementares, permite uma elevação mais viva e forte da cor.

 

‘For some time we have gone through a period where people quite like non-beautiful things. I do like beauty, absolutely. Tintian, Rubens and Matisse all were in love with beauty. I like the idea that people can lose their feet looking at art - or even at nature. I love the idea that in our life we can be lifted by looking at art.’, Gillian Ayres

 

Ana Ruepp

A FORÇA DO ATO CRIADOR

 

O verdadeiro sentido do habitar - Les Étoiles d’Ivry, de Jean Renaudie e Renée Gailhoustet

 

Architecture is the physical form which envelops human lives in all the complexity of their relations with their environment.’, Jean Renaudie, 1968

 

A urbanização de Les Étoiles em Ivry-sur-Seine (Val-de-Marne), dos arquitetos Jean Renaudie (1925-1981) e Renée Gailhoustet (1929), é constituída por oito edifícios construídos entre 1971 e 1980. Esta urbanização concretiza uma alternativa densa aos espaços urbanos modernistas e situa-se numa cidade que cresceu intensamente na periferia de Paris.

 

Jean Renaudie e Renée Gailhoustet acreditam que é o homem que faz a cidade e não os edifícios. Ao arquiteto cabe assim, criar sobretudo, espaços de interação e de comunicações infinitas.

 

Para Renaudie e Gailhouste a cidade determinada apenas na Carta de Atenas, através de quatro funções não constitui cidade. Uma cidade é uma totalidade, que inclui um sem número de complexas relações, que se estabelecem sem cessar. Não deve, por isso, haver separação entre trabalho, habitação, equipamento e lazer. Jean Renaudie e Renée Gailhoustet foram por isso ao encontro de novas formas - que estruturam o espaço diverso e que garantem as relações mais próximas com os outros.

 

O complexo de Les Étoiles é a afirmação da cidade como um organismo complexo e vivo. Aqui os espaços públicos e privados intersectam-se incessantemente. Existe uma abertura constante ao exterior - através dos terraços - e uma abertura constante aos vizinhos - através da inclusão de várias funções (habitação, escritórios, comércio e espaços públicos).

 

O desenho da arquitetura é assim fundamental, é estrutura (fixa e até um pouco rígida) e é garante de densidade e diversidade - confirmando-se sempre o direito à diferença, à liberdade, ao movimento e a sensibilidade à vida.

 

Jean Renaudie insistia que, a impraticabilidade de alguns dos ângulos internos para uso doméstico, era precisamente a sua intenção. O ângulo permite o alongamento e a extensão do espaço limitado:

 

These forms, this geometric organisation, offer us many possibilities for innovation in the organisation of living space. To offer a simple example, the use of diagonal planes allows us to give the apartment, which is small due to being social housing, the impression of space, as there are apartments with spans of up to 15 metres. This is important for the inhabitants.’, Jean Renaudie, 1979

 

A sucessão de plataformas que se justapõem, atravessam estradas e introduzem várias camadas - artificiais (de afirmada geometria e ângulos agudos) e naturais (cada apartamento tem uma varanda com jardim).

 

Jean Renaudie e Renée Gailhoustet não desejam a sistematização da arquitetura, nem a utilização dos métodos de produção dos grandes conjuntos (como os usados nas Villes Nouvelles) mas anseiam sim por uma solução viva, pública, social, experimental, participada, adequada, específica e única.

 

Ana Ruepp

A FORÇA DO ATO CRIADOR

 

Neutelings Riedijk e as iconografias volumétricas.

 

‘Laziness, one of the seven cardinal sins, is one of an architect’s most useful characteristics. The combination of diligence and ambition is highly dangerous; the combination of laziness and ambition ensures a pleasing balance, which often leads to happy results because compensating for laziness requires the application of ingenuity.’, W. J. Neutelings

 

Para Neutelings Riedijk os edifícios são acima de tudo esculturas na cidade. Por isso, são objetos devem ter um forte carácter, ser facilmente identificáveis, concretizar um programa específico e conseguir expressar as intenções mais subjetivas. As formas esculpidas na cidade criam, para Neutelings Riedijk, necessariamente iconografias volumétricas, e estas são conseguidas através de:

 

Persuasão - é ao arquiteto que compete convencer o cliente a renunciar à ideia de que a construção é um fim em si mesmo e é o único modo de criar valor acrescentado.

 

‘It seems to me that more laziness amongst Dutch designers is the only cure for the thundering avalanche of ever more cheerful street furniture, inimitable public works of art, constantly changing traffic situations and a succession of incomprehensible town plans.’, W. J. Neutelings

 

Contextualização - para garantir qualidade de vida, contacto físico direto com o dia a dia do indivíduo, é muito importante afirmar como certa, uma relação aberta, do objeto construído com a restante cidade e o seu espaço público envolvente.

 

Reutilização de edifícios - este instrumento ecológico, no processo de projeto, pode ser muito eficaz e durável ao revelar a necessidade de construir muito pouco ou até mesmo revelar a possibilidade de reciclar por inteiro um edifício preexistente.

 

Reutilização de tipologias e conceitos - a ação de retirar da história da arquitetura exemplos e experiências, pode trazer uma riqueza interminável de soluções.

 

Organização matemática do programa - permite constituir uma sólida base racional, funcional e programática capaz de conduzir todo o processo conceptual (que muitas vezes se manifesta irracional e intuitivo).

 

Escavação - projetar sempre através de maquete (a várias escalas) é o método utilizado por Neutelings Riedijk para determinar uma forma escultural. É ao arquiteto que compete retirar, encontrar e escavar a forma que já está dentro do bloco a esculpir para a maquete.

 

Materialização - a expressão volumétrica e a contextualização de um edifício é conseguida através de uma investigação aturada de adequados materiais para cada projeto - essa investigação pode até gerar a imaginação e a invenção de materiais completamente novos. A estrutura muito contribui para assegurar e consolidar a matéria do objeto.

 

Determinação do restante não especificado - nos dias de hoje, qualquer encomenda para um edifício vem sempre acompanhado por um grosso livro que especifica o programa até ao último detalhe. Sendo assim, parece que todo o espaço está já absolutamente concebido e estabelecido. Porém, para Neutelings Riedijk, é o arquiteto que determina e dá forma a tudo aquilo que não apresenta requerimento algum.

 

Caracterização - o trabalho de Neutelings Riedijk é muitas vezes apresentado através de desenhos que acentuam exageradamente o carácter dos edifícios. Ora esta maneira de comunicar afirma uma enorme vontade de simplificar e descodificar a arquitetura - todo o processo de projeto é difícil mas o objeto já construído deverá ser sempre de fácil entendimento e utilização.

 

Nevertheless, no matter how successful laziness might be as a method, it still has a great disadvantage: it requires a lot of effort.’, W. J. Neutelings

 

Ana Ruepp

A FORÇA DO ATO CRIADOR

 

Manuel Graça Dias e Egas José Vieira - o elogio à vida e o fascínio pela descoberta.

 

‘Nós queremos ser todos iguais perante a lei, temos essa vontade e construímos edifícios organizativos que o garantam. A democracia é, onde conseguimos chegar, no mundo ocidental, no sentido de garantir a todos igualdade - o acesso à cultura e a todos os bens, à vida digna, ao trabalho... Mas, sentimos cada vez mais que somos profundamente diferentes uns dos outros e que essa gestão da vontade de igualdade passa também pelo respeito pelas nossas diferenças. E eu acho, sinceramente, que a cidade consegue, desde há muito tempo reunir todas essas diferenças e geri-las com alguma facilidade.’, Manuel Graça Dias, 2006

 

Ao fazer como mais ninguém faz, Manuel Graça Dias e Egas José Vieira concretizam de modo irrepetível, nos seus projetos, um constante elogio à vida. A paixão pelas formas construídas e pela cidade, permite-lhes descobrir a beleza e a harmonia, onde se suporia apenas encontrar o caos, a desumanização, a velocidade, a máquina, o artificial, o escuro e o despedaçado.

 

Manuel Graça Dias e Egas José Vieira (MGD+EJV) formaram, desde 1985, o atelier ‘Contemporânea’. E desde muito cedo, os seus projetos se formulam sempre num lugar real e concreto. A exploração claramente expressiva, dos elementos formais e construtivos, advém da enorme importância que é dada à diferença e ao particular; à fluidez entre o interior e o exterior; aos desfasamentos subtis; e ao construir no construído.

 

MGD+EJV resgatam o gosto pela cidade - compacta e não dispersa, aberta e não fechada - com todas as suas características e atributos, como sendo a plataforma ideal para a vida do homem que gosta de se estabelecer em conjunto com os outros.

 

MGD+EJV, através dos seus projetos, fazem parecer que o mundo é fluído e todas as coisas se complementam. Talvez, por isso concebam uma arquitetura que se predispõe a ter um lugar concreto, que deseja pertencer a alguém e que anseia ser óbvia, acessível e inclusiva.

 

MGD+EJV olham o existente e a banalidade como um potencial. Introduzem a arquitetura como uma nova forma que valoriza a cultura urbana, o seu ritmo, a sua mudança e a sua artificialidade. Acreditam que arquitetura é uma oportunidade de recuperar, de emendar e de estimular novas relações com um território (que, idealmente, se quer sempre solidário e compartilhado).

 

Atravessar a pé uma enorme avenida larga, por uma ponte aérea, percorrer um túnel, mesmo que só de automóvel, ocupar o espaço com as pegadas de um viaduto terá (pode e deve ter) sempre que ser encontrado em estruturas que nos redimam desse esforço, desse incómodo, desses rasgões, dessas barreiras que o excesso dos modos individuais reclama e, tão desastrosamente a cidade contemporânea tem vindo a aceitar. Tentámos sempre associar um fator lúdico (de desperdício, de contemplação) a ações tão pequenas, tão pobres, tão redutoras; combatemo-las com o seu oposto.’, MGD+EJV, 2006

 

Os projetos de MGD+EJV desejam descodificar a arquitetura e as suas diversas camadas de complexidade. É uma arquitetura, obviamente planeada, desenhada, detalhada e refletida, mas que, por um lado, se relaciona com o seu tempo e com os lugares mais banais e que por outro lado, dá uma dimensão mais profunda ao existir do homem no espaço (nos recantos, na luz, na cor, nos volumes que sobressaiem).

 

A curiosidade, a descoberta pelo novo, pelo desconhecido, pelo inesperado e pelo inconstante advém de uma permanente insatisfação. MGD+EJV conseguem descobrir arquitetura em muita coisa que não é arquitetura e acreditam que o acontecimento/objeto mais banal se pode tornar de repente fascinante, com outras e várias leituras - porque tudo é passível de ser transformado e utilizado como referência e inspiração. E talvez por isso, MGD+EJV não produzam o espectável, as suas soluções saiem da norma e permitem o cruzamento de diversos temas, sensibilidades, assuntos, mas onde transparece também uma grande admiração pela arquitetura dos outros (as referências não precisam de ser propriamente eruditas).

 

O conhecimento, que permite a arquitetura de MGD+EJV, alcança-se em permanente diálogo com os outros e com as coisas construídas - numa tentativa de não cultivar o lugar comum, nem as ideias preconcebidas, colocando sempre em causa o pré-estabelecido. MGD+EJV criam por isso uma arquitetura para o quotidiano, que pode oferecer a possibilidade de transcendência, de exaltação, de emoção e até de provocação - a sua forma inclui tudo o que está à volta, numa adaptação constante a uma realidade concreta, usando aquilo que está ali, à mão.

 

Ana Ruepp

A FORÇA DO ATO CRIADOR

 

Phyllida Barlow e o ‘Objeto para uma poltrona’.

 

The urgency to get something done is very important in my work. I make work very quickly. I then need ages to understand what I’ve done, and that is an odd paradox (...) You’ve put everything into the work, and you look at the thing and you haven’t got a clue what it is. You’re left with this very raw thing.’, Phyllida Barlow

 

Ao sermos confrontados diariamente com o desejo de ser em plenitude, de ser outro, de viver outra vida, o ‘Objeto para uma poltrona’ de Phyllida Barlow (1994) introduz uma outra realidade, uma nova possibilidade no interior de uma privacidade. É um corpo inesperado que se ergue. A estranheza que o objeto provoca elimina qualquer tipo de idealização e obriga-nos a aterrar na realidade daquela sala, daquele espaço específico.

 

A introdução do objeto, naquela intimidade, tenta encontrar o equilíbrio entre o belo e o obscuro, entre o confortável e o bruto, entre o agradável e o cru, o tudo e o nada.

 

A escultora Phyllida Barlow (1944), na sua obra, revela sempre uma curiosidade em relação a qualidades abstratas como o tempo, o peso, o equilíbrio, o ritmo, o colapso e a postura flexível. No fundo, interessa-se por tudo o que se relaciona com o estado (do real e do agora) em que as coisas se apresentam num determinado momento.

 

Neste caso, o ‘Objeto para uma poltrona’ está dobrado, apertado, constrangido, atado, colado, quase a rebentar e em equilíbrio instável. É como que um teste de duração, de resistência e de persistência. Aqui procura-se talvez por uma precaridade, por uma nudez, por uma dimensão submersa, espessa, escondida. E é esse não saber, não entender que se torna verdade e que abre a possibilidade para todos os saberes.

 

‘I like that sense of my own physicality being in competition with something that has no rational need to be in the world at all.’, Phyllida Barlow

 

Barlow manipula os materiais mais acessíveis e primários (madeira, cartão, gesso, cimento, rede metálica, tela e tinta) e é nessa ação e nessa imposição física do fazer, e que provoca um determinado comportamento, que os objetos vão adquirindo conteúdo. Muito mais do que um produto finalizado e visual, Phyllida Barlow procura por uma ação física, real, dinâmica e interminável.

 

And when I say I don’t know what the subject is, I really don’t know. Therefore there is an ongoing chase to find that. I sort of know what the content is. And I can know what the form is (...) But what the subject within that is, I don’t know.’, Phyllida Barlow

 

 

Ana Ruepp

A FORÇA DO ATO CRIADOR

 

Anthony Caro e a expansão no espaço.

 

‘I never work from maquettes, I never make drawings. I work from the material. It is a sort of technique for letting it flow out of yourself, without worrying too much (...) It comes directly from cubism, from collage and I am able to do things in an immediate way. There is less space between the idea and what you make.’ Anthony Caro

 

No início dos anos 1960, o escultor Anthony Caro (1924-2013), na esperança de tornar o seu trabalho mais puro, mais real, mas ainda expressivo, enveredou por um território mais aberto e ambíguo. Caro afirmava assim uma ideia de claridade de intenções e de intuição, diretamente expressa sobre os materiais empregues.

 

Qualquer semelhança com a figura humana voltaria a transportar o trabalho de Caro para a linguagem da representação. E de modo, a perseguir um estado mais puro e sem qualquer tipo de conotação, Caro abandonou toda e qualquer referência antropomórfica. Por isso, talvez, os seus primeiros trabalhos abstratos, tenham surgido pelo uso de um novo material já existente - nomeadamente o aço (em forma de painéis, vigas, redes e tubos) - e pela influência da pintura de Kenneth Noland (ver Twenty Four Hours, 1960).

 

Surgia então assim e pioneiramente, uma escultura de formas irreferenciáveis, fisicamente próxima, colada ao chão e de uma gravidade leve.

 

‘In pictorical sculpture the structural solidity of the object is evaporated.’ Anthony Caro

 

O trabalho de Caro tem a incrível capacidade de incluir todo o diálogo que existe com o material, com aqueles que ajudam na execução da obra e com o espaço. Ao retirar a base da escultura e ao colocá-la diretamente no chão, o fruidor passa a reconhecê-la como um objeto, como uma estrutura aberta.

 

Em esculturas como Aroma (1966) e Smoulder (1965) afirma-se a fluidez em vez da solidez; a quase inexistência em vez da monumentalidade; a ligeireza em vez da massa; contenção e amplificação; ausência e intersecção. Define-se espaço (feito de pontos, linhas e planos) com grande eficácia e imediatismo. E são precisamente as descontinuidades, as distâncias, as transparências e a escala que permitem as várias e diferentes leituras de espaço. A redução dos elementos permitiu a exploração de conceitos como rotação, pausa, extensão e a quase imaterialidade (porque se estabelece fora das referências do mundo das coisas).

 

A noção de escultura como massa fechada e compacta explode e passa a dar-se importância à profundidade espacial - à expansão dos elementos que flutuam no espaço, em diferentes planos. A leveza é aparente, virtual porque na verdade a matéria física, que Caro utiliza, é real e pesada.

 

‘I think the edges of subjects are interesting: where sculpture meets drawing, where sculpture meets architecture - these are borderlines which invite exploration’, Anthony Caro

 

Ana Ruepp