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Blogue do Centro Nacional de Cultura

Um espaço de encontro e de diálogo, em defesa de uma cultura livre e pluridisciplinar. Estamos certos de que o Centro Nacional de Cultura continuará, como há sete décadas, a dizer que a cultura em Portugal vale a pena!

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Um espaço de encontro e de diálogo, em defesa de uma cultura livre e pluridisciplinar. Estamos certos de que o Centro Nacional de Cultura continuará, como há sete décadas, a dizer que a cultura em Portugal vale a pena!

A LÍNGUA PORTUGUESA NO MUNDO

  


XCIX - RESPONSABILIDADES E RECIPROCIDADES LINGUÍSTICAS E INSTITUCIONAIS


Nas inúmeras visitas oficiais de Estado, do anterior e atual presidente do Brasil, sobressai o uso regular, ao que me apercebi permanente, do uso da língua portuguesa como idioma de comunicação global e internacional, no mesmo plano de igualdade e de reciprocidade, com os seus homólogos de outros países. Sucedeu nos Estados Unidos, na China, Rússia, Alemanha, França, Espanha, Arábia Saudita, Emirados Árabes Unidos, Hungria, Argentina, Uruguai, Chile, Japão, entre outros, incluindo colóquios, palestras e entrevistas para a imprensa.   


Nem em inglês, francês, portunhol ou espanholês, apenas em português, em paralelo com o uso da língua materna dos seus interlocutores, com a respetiva tradução.


Também em recente visita do presidente gaulês a Angola, este expressou-se em francês, o seu equivalente angolano em português, usando este, de novo, o nosso idioma comum aquando da última viagem dos reis de Espanha, comunicando estes em castelhano. O mesmo em visitas congéneres com Moçambique.   


Entre nós, é frequente os nossos políticos, ao mais alto nível, em circunstâncias similares, falarem em inglês, francês, português, alemão (se o souberem), chegando a exprimir-se só em portunhol, ou em português e portunhol, em cimeiras, reuniões ou encontros bilaterais ibéricos, sem que haja reciprocidades dos nossos vizinhos, nem sequer quando connosco o atual rei espanhol, não obstante ter vivido vários anos em Portugal.   


Esta nossa não dignificação regular do nosso idioma, em termos bilaterais ou multilaterais, em conjugação com o contexto e a não obrigatoriedade do uso da língua global franca (hoje o inglês), não eleva a língua portuguesa num espaço de diversidade e igualdade recíproca, que merece por direito próprio, corroborado pela sua dimensão geolinguística, sendo uma das mais faladas pelo seu número global de falantes e dispersão intercontinental.       


Indicia-se, de igual modo, que são os “descendentes” linguísticos de Portugal que mais contribuem para a promoção internacional do português, como idioma, em termos de responsabilidade e reciprocidade linguística num patamar institucional, apesar das responsabilidades históricas lusas neste domínio, o que é um contrassenso. 


E os exemplos duma permissividade subserviente das elites tem reflexos na população em geral dos seus países, nomeadamente quando negativos e os seus esforços não têm correspondência recíproca e são inversamente proporcionais aos dos seus parceiros e destinatários, bilaterais ou outros. Mesmo políticos que falam fluentemente inglês, como o presidente francês e o chanceler alemão, são useiros e vezeiros na sua língua materna e oficial, que é menos falada que a nossa, para não referir o uso exclusivo do mandarim e russo pelos seus líderes, mesmo que não sejam fluentes noutra língua, o que não os embaraça, pois impulsionam os seus idiomas, o mesmo devendo ser feito para estimular e dar visibilidade condigna ao português, fale-se ou não outras línguas.   


Ou será que parte significativa das nossas elites caminha para o reforço de uma vocação essencialmente europeísta, abdicando aparentemente de uma promoção mais adequada do nosso idioma, mesmo que o proclamem internacionalmente como uma prioridade estratégica reforçada via CPLP?       


28.04.2023
Joaquim M. M. Patrício

A LÍNGUA PORTUGUESA NO MUNDO

  


XCVIII - POR UM IDIOMA COMUM SEM RESSENTIMENTOS


Eis algumas palavras da intervenção de Paulina Chiziane, escritora moçambicana e prémio Camões 2021, na abertura do festival literário da Póvoa de Varzim, este ano: “Começaria por um verso célebre: “Mudam-se os tempos, mudam-se as vontades”. Mas que tempos? De que tempos falo eu, que vim de África? Falo (…) dos tempos de ódio até aos tempos de paz.” 

Acrescenta:   
Estamos aqui nas Correntes d`Escritas, todos chamados a conviver apenas numa língua que é a Língua Portuguesa. Estão aqui todas as raças. Viemos de vários países. Temos várias histórias, algumas de opressão, outras de opressores, outras de lutas de libertação. O que aconteceu para estarmos aqui? O que nos uniu? Mudaram os tempos”   

Prosseguindo, responde: 
“As Correntes d`Escritas provam-nos que, (…), o mundo pode ser melhor. O opressor de ontem pode ser o amigo de hoje. As Correntes d`Escritas: este movimento que nos uniu e tirou de casa, de diferentes continentes, para estarmos aqui. Se, ontem, a língua portuguesa era para nós a língua do opressor (…) hoje é a língua do “bontu” (…) que significa língua de humanidade, (…) de harmonia, (…) de fraternidade. (…) Deixou de ser língua de opressão para ser língua de união. (…) os tempos podem mudar para melhor. (…) E, para o amanhã, na língua portuguesa, podemos construir um mundo melhor.”       

Outro moçambicano, Mateus Katupha, quando antigo ministro da Cultura, em 1999, declarou: “A língua portuguesa já não é mais só dos portugueses, é universal”. 

Linguagem só surpreendente para quem defende que os portugueses transferem para o idioma devaneios, quimeras e sentimentos imperiais, porque a língua nasceu em Portugal, pertence aos portugueses, que não aceitam o princípio simples de que pertence àqueles que a falam, tratando-se de uma visão em que o nosso país, por ter sido o ex-colonizador, tem de ser sempre o mau da fita.   

Por mais que se diga que este idioma comum pertence, em primeiro lugar, aos respetivos falantes em igualdade de partição e uso, que Portugal não programou qualquer estratégia neocolonial, nem tem poder para, doravante, por si só, se impor como “força imperial” através da língua (voluntariamente escolhida pelas ex-colónias), que os antigos impérios coloniais europeus são cada vez menos eurocêntricos, dada a emergência e ascensão, a todos os níveis, de algumas das suas ex-colónias, há sempre quem entenda, por ressentimentos, no mínimo, que tudo o que se herdou do ex-colonizador (e do ocidente) é sempre mau, incluindo a língua, por muito útil e funcional que seja, mesmo que, por mera opção dos mesmos, em qualquer momento, deixe de o ser.   

É, pois, gratificante o reconhecimento feito, sem ressentimentos, a esta língua comum, por vozes africanas, neste caso de Moçambique, nomeadamente por um dos nomes consagrados da literatura moçambicana e lusófona (Paulina Chiziane) que, juntamente com Mia Couto e Craveirinha, também a promovem internacionalmente, e a quem o português muito deve, em novas palavras e vocábulos, originários do continente africano.    


21.04.2023
Joaquim M. M. Patrício

A LÍNGUA PORTUGUESA NO MUNDO

  


XCVII - DIVERSIDADE, IGUALDADE E RECIPROCIDADE


Se o combate pela diversidade cultural e linguística não pode ser isolado, porque feito com os que para ele sensibilizados, significa que essa partilha é uma participação em igualdade, que acautele e evite posições de preponderância de um dos parceiros.


É saudável e gratificante cultivar e manter a diversidade linguística, dado que cada língua tem um tipo de relação com a realidade, sendo perigoso e redutor poder apenas contar com uma.         


Sendo a língua um bem imaterial, da esfera do conhecimento, difícil de quantificar, o conhecer vários idiomas dá-nos mais probabilidades de encontrar mais e melhor, usando diversas ferramentas para pesquisar a realidade.   


Se é verdade que o princípio da igualdade linguística impulsiona, em sentido crescente, o respeito pela variedade cultural e das línguas, de igual modo, em contrapartida, o progresso e a globalização, resultante dessa reciprocidade, estimula uma uniformização cultural e linguística.     


Não podemos - consciente ou inconscientemente, por predisposição, inércia, paixão, ausência de amor próprio, provincianismo ou complexo de inferioridade - deixar que a nossa língua seja preterida ou dominada por uma estrangeira, revelando baixa consideração por ela.       


O princípio da reciprocidade tem aqui papel primordial, institucionalizando-a em reuniões bilaterais, trilaterais, ou similares, em termos políticos e governamentais, onde cada elite ou poder interveniente faz questão em usar, mediática e publicamente, o seu idioma, dignificando-o num patamar de diversidade e igualdade recíproca, por maioria de razão quando línguas de comunicação global e internacional, como a nossa, nem sempre acarinhada e favorecida, por nós, a esse nível, por quem tem o dever primordial de o fazer, por confronto com terceiros que não ocultam a sua dos ouvidos alheios, nem a têm em baixa estima, muito menos na própria casa.


10.03.23
Joaquim Miguel de Morgado Patrício

A LÍNGUA PORTUGUESA NO MUNDO


XCVI - PERFIL DE ANTERIORES E NOVAS VAGAS IMIGRATÓRIAS


Comparativamente às novas vagas imigratórias em Portugal, eram as anteriores, no essencial, de imigrantes das ex-colónias, cuja ligação se fixava, maioritária e naturalmente, por uma língua comum.  


Eram imigrantes preferencialmente do espaço lusófono, ao invés de um novo perfil de origem anglófona, francófona, asiática, eslava, entre outros.


Enquanto anteriormente se diferenciavam, na quase totalidade, por baixas rendas e qualificações, há um novo perfil imigratório que se particulariza por serem recursos humanos qualificados e de um elevado património líquido. 


Sendo um país intercultural, aberto a imigrantes, de emigrantes e com uma população das mais envelhecidas, é-nos dada uma esperança para amenizar o inverno demográfico e escassez de mão de obra.  


Sucede que, em termos linguísticos - e se acreditarmos que o português é um ativo que não podemos desperdiçar - há uma nova vaga de imigrantes que se limita a estar entre nós enquanto auferir um benefício pessoal imediato, não se vendo como solução para os nossos problemas demográficos, económicos e outros, alheando-se da nossa cultura, a começar pela língua, e não reconhecendo em Portugal uma fonte civilizadora. 


São, essencialmente, imigrantes muito qualificados, de altos rendimentos, criativos, cosmopolitas, globalizados, falantes fluentes de inglês, entre outras línguas, com capacidade para uma mobilização conjuntural e permanente (de país em país), ao gosto das circunstâncias, não portadores de uma mais valia estrutural, com uma experiência de inclusão limitada. 


Interessa que permaneçam, não só porque aconchegados pelo nosso clima, pacifismo, natureza, gastronomia, baixo custo de vida (para eles), mas também abrindo novos espaços e mentalidades, investindo, criando postos de trabalho e integrando-se, o que mais vezes, do que seria desejável, não acontece, manifestando-se amiúde na não aprendizagem da nossa língua.


Nem sempre por responsabilidade exclusiva, dado o provincianismo de alguns portugueses, no próprio país, omitirem o idioma materno e usarem o alheio, mesmo que o interlocutor se esforce por o aprender e falar, chegando ao cúmulo de ter presenciado, num hipermercado, uma portuguesa atender, sempre em inglês, um imigrante que se esforçava, expressando-se e respondendo sempre em português!  (apelei a uma colega, que se apercebeu, para chamar a atenção para o exagero, que compreendeu, prontificando-se a fazê-lo, dado me ter antecipado e não poder esperar).  


O que nunca exclui, por uma questão de princípio e de respeito para com o país que nos acolhe, que todo o imigrante se tente integrar e aprender, ab initio, o nosso idioma, apropriando-se dele e tornando mais fácil, por arrastamento, a compreensão e interação com a nossa cultura. 


Imigrantes de mais baixos rendimentos e qualificações, incluindo países de nível de vida inferior ao nosso, como das ex-colónias, leste europeu e de algumas bolsas asiáticas (não todas), reveem-se mais e melhor, até agora, como solução para a crise demográfica e aprendizagem da língua, sendo esta comum, para alguns. 


Anote-se que entre os originários do Brasil, falantes de português na vertente brasileira, há um novo perfil e uma nova vaga de pessoas qualificadas, de altos rendimentos, diferentes dos brasileiros comuns, singularizando-se por bolsas de brasilidade, preferindo ser vistos como “não residentes” e não como “imigrantes”, em paralelo com os que estão de passagem ou trabalham no nosso país para o exterior, em que uma percentagem relevante nos quer mais como de acolhimento que como de integração.


Em qualquer caso, o permanente aumento da população estrangeira obriga Portugal a refletir sobre o seu futuro como país, contando com o perfil das tradicionais e novas vagas imigratórias, em termos de uma maior inclusão e integração (e não só acolhimento), com reflexos na nossa história e cultura, a começar pela língua, um ativo primordial e internacional de projeção global.


03.03.23
Joaquim M. M. Patrício

A LÍNGUA PORTUGUESA NO MUNDO

  


XCV - MUSEU DA LÍNGUA PORTUGUESA


O único Museu da Língua Portuguesa existente, até hoje, está em São Paulo, no Brasil. Embaraçosa a sua ausência em Portugal onde, pela ordem natural das coisas e seu sentido literal (língua portuguesa), faria cabimento que também existisse.


É no Brasil, antiga colónia, que é homenageada, museologicamente, pela primeira vez, em todo o espaço lusófono, da CPLP e a nível mundial, quando é tida, para tantos, como imperialista, colonialista, neocolonialista, xenófoba, racista, homo-hegemónica, que atua em nome da uniformidade, fixando a norma e anulando os dialetos.   


Embora haja quem alegue que Portugal transferiu para a língua, que tem como sua, um sentimento imperial, não se compreende que perdido o império, com a subsequente descolonização, expulsão e independência, se possa falar em “língua do colonizador” ou “neocolonialista”, quando foram os novos países (incluindo os africanos) que, voluntariamente, viram nesse idioma um instrumento de unidade e progresso adequado ao tempo presente, e não uma forma de exclusão e regressão.


Há que ultrapassar desconfianças e suspeitas de que tudo o que vem do ex-colonizador é mau por natureza, cabendo referir, por exemplo, Amílcar Cabral que reconheceu que uma coisa boa que ficou no continente africano foi a língua portuguesa.


Nem Portugal tem atualmente “força imperial “para a impor, pois além da língua ser de quem a fala, é de excluir uma presunção de superioridade do português europeu, dado que o futuro do nosso idioma já é, e será, protagonizado de fora da Europa, essencialmente a partir da América do Sul e de África, com a predominância atual do Brasil, havendo uma espécie de inversão, com o fim do colonialismo, dos antigos “colonizadores” em territórios “colonizados”.   


Quanto ao Brasil não foi pelo facto de, em tempos idos, ter sido colónia que se inibiu de ser pioneiro em homenagear a língua portuguesa, num museu interativo paulista, inaugurado em 2006, reconstruído e concluído em 2019, após um incêndio em 2015, apresentando a sua diversidade, numa viagem por textos escritos, imagens, sons, vídeos, exposições temporárias (algumas de escritores, como Clarice Lispector, Fernando Pessoa, Guimarães Rosa e Machado de Assis).


O MLP, aquando da sua reabertura, em 2021, foi agraciado, pelo presidente da república de Portugal, com a primeira medalha da mais recente ordem honorífica portuguesa, a Ordem de Camões, destinada a: “(…) a galardoar serviços relevantes prestados à cultura portuguesa, à sua projeção no mundo, à conservação dos laços dos emigrantes com a mãe-pátria, à promoção da língua portuguesa e à intensificação das relações entre os povos e as comunidades que se exprimem em português”.   


Significativo também, nesta sequência, um texto conjunto do escritor angolano Agualusa e do moçambicano Mia Couto, que sintetiza o porquê e a importância do museu: “Ao mesmo tempo que ia sendo instrumento de dominação colonial, a língua portuguesa era já o avesso disso: componente fundamental na criação de identidades autónomas, no Brasil, em Angola, em Moçambique, em Cabo-Verde, São Tomé e Príncipe e Guiné-Bissau” (a que acrescentaremos Timor-Leste).   


Sugestivo ser em São Paulo a sua localização, urbe com o maior número de falantes de português.


Porquê a sua omissão em Portugal? Ou de monumentos, evocações, sem complexos, deslumbramentos ou sacralizações, mas sim com a dignidade e merecimento que merece? Será que o exemplo tem de vir de “fora”?


24.02.2023
Joaquim M. M. Patrício

A LÍNGUA PORTUGUESA NO MUNDO

  


XCIV - POLÉMICAS LINGUÍSTICAS


1. Steven Roger Fisher diz que no futuro o português desaparecerá e será substituído pelo portunhol, argumentando que os falantes de espanhol, que rodeiam geograficamente o Brasil, irão usar dizeres do nosso idioma na variante brasileira, embora sustente que há diferenças significativas entre o português de Portugal e Brasil, que indiciam a sua separação, se essa tendência crescer, ao invés de uma aproximação do inglês americano e europeu, dada a crescente influência dos Estados Unidos através de filmes, música, cultura em geral, programas radiofónicos, televisivos, de streaming, informática e novas tecnologias. 


Para Ivo de Castro: “a história da língua portuguesa pode ser resumida numa frase: falamos de uma língua que nasceu fora do nosso território (de nós, portugueses) e cujo futuro será em larga medida decidido fora das nossas mãos. A língua portuguesa, numa visão temporal ampla, acha-se de passagem por Portugal”.   


Qualquer idioma é uma realidade viva, surpreendente e geradora de soluções hipotéticas, não sendo os portugueses europeus a definir, no futuro, o percurso sobreveniente e imprevisível do português, dado serem os herdeiros, sucessores ou continuadores da antiga Europa imperial os novos impérios linguísticos vindouros, como está sucedendo.   


Se assim é e o futuro também depende de uma evolução gradual e profunda, sendo o português uma língua aberta, cosmopolita, flexível, integradora e transigente, é de questionar se faz sentido o seu desaparecimento ou substituição, segundo Fisher, ou mesmo o afastamento estrutural e irreversível da norma portuguesa e brasileira, que tornam ociosa qualquer tentativa de intervenção.    


2. O tema é polémico, mas também há argumentos que contrariam tais perspetivas.


Se tudo fosse tão simplista, o português europeu de Portugal já tinha desaparecido e sido substituído pelo espanhol, tendo presente que há centenas de anos a Espanha é o único país com que temos fronteira terrestre, que entre 1580 e 1640 correu o risco de ser absorvido pelo castelhano ou ser um idioma ibérico menor sendo, hoje, um dos mais globais e falados internacionalmente.


Corroborado por Portugal ser um Estado unitário e uma só nação, por antagonismo com uma Espanha não homogénea, de várias nações e realidades linguísticas diferentes, suficientemente fraturantes e impeditivas que o hino (espanhol) seja cantado. 


Também é redutor falar no seu desaparecimento no Brasil por estar rodeado por países falantes de espanhol, ou ser substituído por outro idioma, tipo portunhol, agudizado por se constatar falarmos de um país que tem 40% da população da América do Sul, o maior poder económico latino-americano, uma potência emergente e Estado-nação, potencialmente mais exportador (que importador) de mercadorias culturais. 


De igual modo é de contestar que haja uma mais acentuada tendência de separação entre a norma portuguesa e brasileira, por confronto com a americana e britânica, porque o inglês europeu e americano se aproximam pelos programas televisivos, cinema, séries, filmes, músicas e eventos culturais que os Estados Unidos exportam em crescendo; dado que entre nós a influência cultural do Brasil está em ascensão e expansão, através da música, filmes, séries, telenovelas, crescente legendagem na vertente brasileira a nível do cinema, ópera, concertos (com uso crescente, por exemplo, do gerúndio verbal), notícias, textos e traduções nas redes sociais, na net, sem esquecer todo o tipo de obras e literatura em português, incluindo a tradução, na variante americana.   


A que se junta, recentemente e em permanência, a mais numerosa e nova vaga de imigrantes brasileiros, da mais alta à menos qualificada, em que uma língua comum é sempre determinante e uma mais-valia, independentemente do perfil de alguns que preferem ser vistos por “residentes estrangeiros” e não como “imigrantes”.


Sem ignorar demais países lusófonos e suas potencialidades futuras, que têm o português como língua oficial, lusófilos, seu potencial crescente demográfico e como idioma de exportação.


Para concluir que o eventual desaparecimento, separação ou substituição do português, vale o que vale, por redutor e simplista, como tantas outras previsões registadas ao longo da História, em alternativa com o seu reforço, via norma padrão ou não balcanização.     


O francês, por exemplo, era o idioma dominante e diplomático por excelência há cem anos, lugar que perdeu, nos tempos atuais, em benefício do inglês.   


Estamos perante uma realidade complexa, em movimento permanente, com raízes na Galiza, cujo futuro dependerá de muitos fatores, entregue a mecanismos históricos imprevistos e que, em qualquer caso, a nossa força de vontade e querer são o mais decisivo.


10.02.23
Joaquim Miguel de Morgado Patrício 

A LÍNGUA PORTUGUESA NO MUNDO

  


XCIII - OLHARES ESTRATÉGICOS LINGUÍSTICOS


Se em relação às línguas de origem europeia são os descendentes da velha Europa imperial os novos impérios linguísticos do futuro, como sucede, de momento, quanto ao inglês, por meio dos Estados Unidos, o mesmo ocorrendo, por analogia, com o português, via Brasil, isso significa estarem aquelas, numa visão temporal ampla, de passagem pelo velho continente.


Assim, não surpreende que o estudo do nosso idioma se deva essencialmente ao interesse pelo Brasil, seguido por Angola. 


Sendo o Brasil, com Portugal, os dois países, dos oito lusófonos, que têm uma ação de política de língua institucionalizada.   


À acusação de que o Brasil tem feito pouco pelo português, há uma tentativa de inversão desse diagnóstico, a que não será alheio, até hoje, um só Museu da Língua Portuguesa, em São Paulo, a que se junta, recentemente, o Instituto Guimarães Rosa, sob tutela do Ministério das Relações Exteriores, que tem por missão a promoção do português e a difusão e relançamento da cultura brasileira no exterior.


Considerando ter este instituto brasileiro (GR) por fim específico “promover a cultura e língua portuguesa de vertente brasileira pelo mundo” (sublinhado nosso), pode questionar-se se não será prejudicial para a difusão da cultura e o português de variante europeia, sendo a resposta, por nós, negativa. 


O IGR “peca” apenas por tardio, não sendo novidade como modelo de atuação tendo, como referências anteriores, o Instituto Camões, em Portugal, o Britânico, no Reino Unido, o Cervantes, em Espanha, o Goethe, na Alemanha, o Confúcio, na China, a Aliança Francesa, em França.


A que acresce o Wall Street English (sucessor do Wall Street Institute) e a American School of Languages, dos EUA, na variante do inglês falado na América, pelo que também não é original que haja um instituto que promova a variante do português falado no Brasil e em Portugal, o que não é inconveniente nem incompatível, pois podem ser uma mais valia para evitar uma balcanização da língua portuguesa.


Assim como é importante, para melhorar o idioma de forma mais global, conhecer o inglês na vertente britânica, mesmo que a intenção seja apenas aprender a variante americana, também o é conhecer o português na sua variante europeia, mesmo que haja só o querer na vertente americana, e o inverso. 


O que implica vontade prévia de cooperação entre o IC e o IGR no curto, médio e longo prazo, com contributos de falantes de português de outras latitudes, mesmo que o dificulte, quanto a estes, a ausência de uma política externa não institucionalizada.


E por que não uma colaboração e cooperação do Instituto Internacional da Língua Portuguesa, sobre o qual não há matéria pública relevante que se conheça?


03.02.23
Joaquim M. M. Patrício

A LÍNGUA PORTUGUESA NO MUNDO

  


XCII - VARIANTES E COOPERAÇÃO


Contrariamente a um pensar usual o inglês, o francês e o espanhol também apresentam grafias diversas para a mesma palavra, várias opções lexicais, expressões e frases de imediato não acessíveis a um falante de outros países, inovações sintáticas que ocorrem em línguas globais faladas em diversos continentes (ou extremos do globo) sem comunicação no dia a dia, não o sendo exclusivo do português, e nada disso exclui o seu uso ou impede a sua aceitação.   


Seria surpreendente, por exemplo, que não houvesse diferenciação entre a variante do inglês falada no Reino Unido, Estados Unidos, África do Sul, Índia, Austrália e Nova Zelândia, a do francês falada em França, no Quebeque (Canadá) e em África, o mesmo sucedendo quanto às tradicionais variantes portuguesa e brasileira (sem esquecer a africana, ainda no começo).


Se todos estes idiomas apresentam realidades similares em relação às suas variantes, é pertinente estudar estes fenómenos a nível interno e no espaço natural em que se integram (anglofonia, francofonia, hispanofonia, lusofonia), sendo-o desaconselhável a nível político internacional, uma vez enfraquecer a sua afirmação, funcionando essencialmente como um argumento contra quem o levanta.


É uma questão que aparenta ser tida como um problema “inultrapassável” para o nosso idioma, não só interna e, mais grave, que se exponha externamente, não constando que internacionalmente os responsáveis falantes dessas línguas, tão globais como a nossa, promovam que se ponha à vista, em público, esse assunto. Parece que só para o nosso idioma é relevante, quando factualmente não é, com a agravante de, politicamente, em termos internacionais, ser desvantajosa para o português.


É necessário um empenhamento em dar do português uma imagem de uma língua internacional comum que não compete ruinosamente intra muros, vincando mais o que a une do que as diferenças, o que não impede campanhas de sensibilização dos seus falantes em vários países para as especificidades das variantes europeia, americana e  realidades culturais e transcontinentais diferentes.


Há quem entenda que o Brasil nunca se interessou suficientemente pela promoção do português, em proporção com o seu peso e número de falantes, sendo premente a sua colaboração e cooperação para travar o nefasto tipo de posicionamento que pode ser aproveitado pelos organismos internacionais para travar o seu uso efetivo, escudando-se em questões ultrapassáveis, como saber que norma ortográfica ou variante usar. 


Quando um dia, por direito próprio, o Brasil integrar o Conselho de Segurança da ONU, abrindo caminho ao português como língua oficial, há que, antecipadamente, e desde já, todos os países lusófonos e os lusófilos em geral cooperarem reciprocamente (e não em conflito) para que isso suceda, vincando menos as diferenças que o comum que os une, a começar pela língua.


Evidenciar mais as diferenças que o global que as une, é prejudicial para a afirmação e expansão da nossa língua, enfraquecendo-a por confronto com os outros idiomas internacionais, por maioria de razão no plano externo.  


27.01.23
Joaquim M. M. Patrício

A LÍNGUA PORTUGUESA NO MUNDO

 

XCI - DO ABUSO DO INGLÊS AO DESDÉM PELO PORTUGUÊS


É crescente e abusiva a invasão da terminologia inglesa, incluindo a versão norte-americana, no nosso país.


O ser saudavelmente poliglota ou o uso de palavras ou frases estrangeiras no dia a dia, por necessidade ou por graça, não justifica o desdém pela nossa língua materna.


Além da omissão das autoridades em matéria linguística não terem por bem criar adaptações ao nosso idioma, há cada vez mais expressões portuguesas que são substituídas aleatoriamente por termos ingleses: ”chavões” por “soundbites”, “parceiro, sócio” por “partner”, “baixo custo” por “low cost”, “opinião, comentário, retorno” por “feedback”, “vistos dourados” por “vistos gold”, “mistura” por “mix”, “classificação” por “ranking”, “descarregar” por “download”, “em linha” por “on line”, “pausa para café” por “coffee break”, “clube, equipa” por “team”, “sítio” por “site”, “reunião” por “meeting”, “cartão presente” por “gift card”, “marca registada” por “trademark”, “tanto faz” por “whatever”, “exibir, exibição” por “show off”, “gerente” por “maneger”, “chefe ou diretor executivo” por “CEO”, “lugares, empregos para amigos” por “jobs for the boys”, “esboço” por “sketch”, “alvo, objetivo” por “target”, “boletim informativo” por “newsletter”,  “gosto” por “like”, “patrocinadores” por “sponcers”, “desempenho” por “performance”, “jogador” por “player”, “formadores de opinião” por “opinion makers”, “tempo” por “timing”, “treinador ou instrutor pessoal” por “personal trainer”, “leve” por “light”, “limpo” por “clean”, “adeus” por “bye, bye”, “estojo, equipamento” por “kit”, …


A que acresce o abuso em programas e concursos televisivos, como o Big Piture, Big Brother, Cook off, Got Talent Portugal e The Voice Portugal.  


Compreensível que se usem anglicismos, galicismos, etc, dificilmente traduzíveis, dada a sua especificidade, mas daí a uma permanente adulteração e corrupção do nosso idioma por desdém, ignorância ou provincianismo, não faz sentido.  


O que é mais censurável dado que, algumas pretensas ou autoproclamadas “elites” tidas como patriotas, puristas e acérrimas defensoras da nossa ortografia e idioma, nada dizem ou fazem para contrariar ou excluir esta progressiva invasão do vírus do anglicismo, ao mesmo tempo que, em contrapartida são, tantas vezes, obsessivas em defender e escrever na antiga ortografia, que também é consequência de uma gradual evolução ortográfica e lexicográfica, incluindo vários acordos anteriormente assinados (confronte-se a imprensa do século XIX, XX e atual).   


06.01.23
Joaquim Miguel de Morgado Patrício

A LÍNGUA PORTUGUESA NO MUNDO

  


XC - APENAS UM NOBEL DE LITERATURA EM PORTUGUÊS   


Criado há mais de cem anos (1901), o prémio Nobel de Literatura só foi atribuído a um escritor de língua portuguesa, ao português José Saramago, em 1998.


O Brasil, país independente há 200 anos, não foi, até hoje, contemplado, o mesmo sucedendo com escritores africanos (ou timorenses) de países de língua oficial portuguesa.   


O que contrasta com 33 prémios de escritores de língua inglesa (entre os quais 12 do Estados Unidos, 11 do Reino Unido, 4 da Irlanda, 2 da Austrália e 1 do Canadá), 16 de autores em língua francesa, 14 em alemão (2 da Áustria), 12 em espanhol (2 do Chile, 1 da Colômbia, Guatemala, México e Perú, além dos de Espanha), 7 em sueco, 6 em italiano e russo, 2 em dinamarquês e norueguês, 2 em grego e japonês.   


Sendo o nosso idioma transcontinental, transoceânico, cultural, pluricultural, pluricêntrico, de exportação, internacional e global, o mais falado do hemisfério sul, o terceiro do ocidente, quinto na internet, quinto ou sexto a nível mundial, com mais falantes que o francês, alemão, italiano, russo e japonês, é legítimo perguntar se será pela inexistência de autores potencialmente nobelizáveis que escrevem em português, sendo a resposta negativa.   


A possibilidade de premiar a terceira língua do ocidente e uma das mundialmente mais faladas, foi abordada várias vezes antes de ser galardoado Saramago. Teixeira de Pascoaes, Miguel Torga, Jorge Amado, Carlos Drummond de Andrade, Lygia Fagundes Telles, António Lobo Antunes, também constaram da lista. Consta que Torga teria sido premiado, se não já falecido, apesar da quase ausência de livros seus traduzidos para sueco, sendo levantada a hipótese de subsidiar a sua obra, suprindo tal défice.   


O que nos interpela para indagar do porquê de apenas um autor e escritor em língua portuguesa ter sido premiado, num universo de quase 300 milhões de falantes.


Para além da carência de escritores lusófonos traduzidos para sueco (principal língua escandinava, sendo a Suécia patrocinadora da entrega do Nobel de Literatura), também é indispensável, nos dias de hoje, a tradução no idioma global por excelência, ou seja, o inglês, deficiências atempadamente supridas por Saramago. 


Quanto à visão eurocêntrica do mundo, subjacente à entrega do prémio, justificativa da falha de escritores lusófonos premiados, nomeadamente brasileiros, não se intui ser decisiva, dado que da lista dos nobelizados há um número significativo de todo o continente americano, que inclui o Canadá, Estados Unidos e toda a América Latina, continuadores e descendentes da Velha Europa, sem esquecer a Austrália e países como o Japão, segundo um critério estratégico do chamado Ocidente.


Por que não, por exemplo, subsidiar, se necessário, a tradução para inglês e sueco, entre outros idiomas, de autores laureados com o prémio Camões, da mesma natureza ou prestígio?


O que nos questiona sobre uma estratégia para a cultura, tendo como ideal, a este nível,  uma parceria com os países de língua portuguesa, em que instituições como o Instituto Camões, Fundação Biblioteca Nacional do Brasil, o Instituto Internacional da Língua Portuguesa e a Comunidade dos Países de Língua Portuguesa, incluindo entes privados como a Fundação Gulbenkian, tenham uma voz ativa, com um empenho de todas as partes, sem complexos ideológicos e políticos, em prol de um reconhecimento mais adequado, proporcional e razoável, até agora injustamente não alcançado.  


16.12.22
Joaquim M. M. Patrício