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Blogue do Centro Nacional de Cultura

Um espaço de encontro e de diálogo, em defesa de uma cultura livre e pluridisciplinar. Estamos certos de que o Centro Nacional de Cultura continuará, como há sete décadas, a dizer que a cultura em Portugal vale a pena!

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Um espaço de encontro e de diálogo, em defesa de uma cultura livre e pluridisciplinar. Estamos certos de que o Centro Nacional de Cultura continuará, como há sete décadas, a dizer que a cultura em Portugal vale a pena!

A LÍNGUA PORTUGUESA NO MUNDO

 

XXXII - GLOBALIZAÇÃO E PODER LINGUÍSTICO

 

Os avanços técnico-científicos permitiram uma globalização de vizinhança do mundo que nos rodeia. 

 

Em alinhamento com a globalização económica, é promovido o uso do idioma dominante nas empresas multinacionais que controlam a produção, operando em vários países, através da língua da casa mãe. Como no atual quadro económico há uma elevada probabilidade de essa sede ser num país anglófono, a língua da empresa é a dos países onde está a criatividade, a inovação e o dinheiro. É a língua do poder, de comunicação global e internacional por excelência.   

 

Essa hegemonia, nos tempos atuais, cabe à língua inglesa, tida como impositiva em termos económicos, políticos e culturais. Para os seus opositores tem como maior ameaça a sua caraterística “glotofágica”, ou seja, a sua capacidade para, ao mesmo tempo que se substitui às outras, provocar o seu enfraquecimento ou desaparecimento. Comparam-na a uma “erva daninha” que impede o desenvolvimento das outras, modificando de forma dramática o equilíbrio ecológico no que às línguas diz respeito.

 

Esse perigo aumenta quando o inglês encontra terreno particularmente favorável e permissivo para a sua implantação, em especial em países mais permeáveis, com uma fraca imagem de autoestima e de si próprios em termos económicos, políticos e culturais, onde o que é estrangeiro é que bom, sinal de desenvolvimento e prestígio. Onde se prima pela ausência de legislação que obrigue ao uso do idioma materno na etiquetagem e instruções dos bens importados, ou até, havendo legislação, esta não é aplicada, cumprida ou fiscalizada, não passando de meras exigências politicamente corretas.

 

Cimentou-se, simultaneamente, nas gerações mais jovens, a conceção de uma relação de sinonímia entre o que é moderno e vanguardista e a língua inglesa. 

 

Com reflexos no nosso país e idioma.

 

Exemplificando, tempos houve, entre nós, em que havia um maior gosto cinéfilo no uso da língua portuguesa.

 

Por exemplo, em 1977, aquando do início da saga da “Guerra das Estrelas”, de George Lukas. Hoje, em 2017, o último filme foi anunciado como “Star Wars”. Com a ausência de tradução, para português, de títulos de filmes e séries televisas como: “Mad Men”, “The Walking Dead”, “Newsroom”, “The Good Wife”, “Breacking Bad”, “The House of Cards”, “The Knick” e “True Detective”.

 

Esta omissão, pura e simples, da língua portuguesa, gradualmente extensiva a vários níveis, fere o nosso idioma como língua materna, comum, oficial, costumeira, de exportação e constitucionalmente consagrada, discriminando-a, pela negativa, no seu próprio berço e território materno.

 

Compreende-se e são aceitáveis nomes, expressões e frases em inglês, como língua global e veicular contemporânea mais internacionalizada, mas é incompreensível, inaceitável e inconstitucional que o nosso idioma, na nossa própria casa, seja simplesmente omitido, quando deve e deveria constar, obrigatoriamente, e em primeiro lugar, por óbvias razões e do mais elementar bom senso.

 

Mesmo que se tenha por objetivo, por exemplo, o reconhecimento a nível internacional de uma instituição de natureza científica, devido à certificação e prestígio internacional que o inglês aufere, tal omissão é injustificada, sendo certo que se não somos nós, portugueses e lusófonos, a defender a nossa língua, por certo, e por maioria de razão, não serão os outros a fazê-lo. Nada impede, justificando-se, que em conjunto com o nosso idioma, coexistam outros, mas nunca omitindo a nossa língua como língua materna e oficial, por costume e legalmente consagrada.

 

27.03.2018

Joaquim Miguel De Morgado Patrício

A LÍNGUA PORTUGUESA NO MUNDO

 

XXXI - DAVID MOURÃO FERREIRA

 

“Não acredito propriamente no Quinto Império; nem estou seguro do advento da Idade do Espírito Santo. Mas reconheço o que estas utopias contêm de positivo e de exaltante se delas não excluirmos a Magia do Corpo e da Palavra, a Palavra e o Corpo da Magia. E continuo a crer que os textos literários de matriz lusófona terão, também quanto a isto, um principal papel a desempenhar” (David Mourão Ferreira, “Magia, Palavra, Corpo: Perspetivas da Cultura de Língua Portuguesa”, Cotovia, Lisboa, 1993, p. 28).

 

Esta citação do texto de David Mourão Ferreira, parece ter por função não permitir confundir o discurso (pretensamente objetivo) do seu autor com quaisquer conceções providencialistas, míticas ou messiânicas, tantas vezes cheias de emotividade, sobre o destino manifesto e universal do povo português, do seu insondável mistério e da sua irreduzível originalidade, afastando, desde logo, qualquer familiaridade com a ideia do Quinto Império, de Joaquim de Fiore, Padre António Vieira e Fernando Pessoa, com a Idade e Culto do Espírito Santo, de Agostinho da Silva e António Quadros, com as teorias providencialistas, ocultistas e esotéricas, com particularidades próprias, de António Telmo, Manuel Gandra, Dalila Pereira da Costa, Eduardo Amarante, Rainer Dachnhardt, Raul Leal e Augusto Ferreira Gomes, o sebastianismo ou a saudade de António Sardinha, o lirismo sonhador de Jorge Dias, entre outros.

 

Conclusão que as palavras seguintes não confirmam, dado reconhecer o que essas utopias têm de construtivo, desde que assentes no valor da língua, para além da crença no papel a desempenhar pela palavra escrita, neste particular pela literatura de matriz lusófona.

 

Assim, apesar de todos os cuidados tidos pelo autor para se exprimir, não deixa de, curiosamente, permitir que se coloque o seu prognóstico num lugar próximo ao que as conceções do Quinto Império e do Espírito Santo têm de comum: o visionar e o advento de um tempo novo ou de uma nova era em que Portugal, neste caso, a Cultura da Língua Portuguesa, tem uma missão fraternal e solidária a cumprir, por desígnios manifestos da sua própria história, e o constatarmos revestir-se essa missão de um universalismo augurado em vários momentos da nossa existência secular. Cita, a propósito, Afonso Lopes Vieira ao admitir, cinquenta anos antes, a enorme importância do número de falantes que viriam a exprimir-se em língua portuguesa.

 

Nesta perspetiva, encontramos aqui, uma vez mais, a tal linha de continuidade entre utopias que só aparentemente são diversas: a do Quinto Império, religioso para António Vieira, cultural para Fernando Pessoa, a da Idade do Espírito Santo para Joaquim de Fiore, Agostinho da Silva e António Quadros, a da Era Lusíada para Teixeira de Pascoais e a da Cultura de Língua Portuguesa para David Mourão Ferreira.

 

Sonhos ou utopias que pressupõem todos uma realidade espiritual, imaterial, um universalismo como vocação de um Povo ou de uma Cultura que conseguirá com vantagem substituir-se ao poder predominantemente económico que outras culturas atualmente dispõem.

 

Defende, porém, uma relação igualitária da cultura portuguesa com outras culturas de língua portuguesa, defendendo uma Comunidade Lusófona com uma componente de absorção e recetividade, em termos linguísticos e literários, criticando os que se crispam ao verem o nosso léxico “invadido” por termos vindos de outros países lusófonos (por exemplo, de telenovelas brasileiras ou de canções cabo-verdianas), posição também defendida por Eduardo Lourenço e Gilberto Freyre. Refere palavras de Afonso Lopes Vieira, segundo as quais “para tal glória da Linguagem é mister que a leguemos pura e forte, latina na raiz e nacarada nos Trópicos, com a sintaxe plantada em chão natal, mas liberal no acolher de vocábulos, Língua sempre dona e perpétua donzela, nobre de passado senhorial e crioula em todas as latitudes, capaz, enfim, de aparelhar com gesto airoso para os rumos prodigiosos do porvir” (ibidem, p. 7).

 

Portugal crescerá porque a sua língua crescerá também, em comunhão de esforços com o restante mundo lusófono, apesar do caráter mais restrito desta Cultura de Língua Portuguesa, em termos literários e linguísticos, a que não foi alheia a profissão do seu autor.  

 

20.03.2018

Joaquim Miguel De Morgado Patrício 

A LÍNGUA PORTUGUESA NO MUNDO

 

XXX - OBSERVAÇÕES E CRÍTICAS AO PESSIMISMO DE FISHER

 

1. Quanto à hipótese de desaparecimento do português, avançada por Steven Fischer, vale o que vale, como tantas outras, registando a História muitas previsões. Por exemplo, há cem anos o francês era a língua diplomática por excelência, com a correspondente projeção internacional, o que hoje não sucede, com a consagração do inglês como língua diplomática universal e global.

Em face do processo de globalização, assiste-se simultaneamente ao crescimento de expressões regionais e nacionalismos, incluindo o fomento de vários idiomas, apoiados na internet, que curiosamente muitos defendem ser o maior veículo de homogeneização cultural.  

 

2. Tendo o Brasil 40% da população latino-americana, sendo um país continental onde cabem vários dos países latino-americanos que o rodeiam, uma potência emergente, o maior poder económico latino-americano, exportando mais mercadorias culturais do que aquelas que importa, vivendo rodeado há centenas de anos de países falantes de espanhol, não faz sentido dizer que o português aí desaparecerá no futuro, sendo substituído por outro idioma, o portunhol. Se assim fosse, e as coisas fossem tão  simplistas, também o português já poderia há muito ter desaparecido de Portugal e ter sido substituído pelo espanhol, se nos lembrarmos que há centenas de anos a Espanha é o único país com quem partilhamos fronteira terrestre, de maior dimensão e mais populoso. E que entre 1580 e 1640 o nosso idioma correu o risco de se tornar uma língua ibérica menor, subjugado pelo castelhano para fins oficiais e diplomáticos, sendo hoje dos mais globais e falados mundialmente.
Também não vemos fundamento para que exista uma tendência de separação mais acentuada entre o português do Brasil e o de Portugal, e que o caso do inglês dos Estados Unidos e Reino Unido seja diferente, porque o inglês britânico e norte-americano se estão aproximando pelos programas de televisão, filmes e músicas que a América exporta aos milhares; dado que igualmente em Portugal a influência cultural e audiovisual do Brasil é cada vez maior, nomeadamente através da música, telenovelas,  outros filmes, séries televisivas e da cada vez mais numerosa colónia de emigrantes brasileiros, em que a língua é sempre fator determinante. A que acresce, com tendência crescente, a legendagem em português do Brasil, entre nós, de eventos culturais no cinema, ópera, concertos. Sem esquecer a tradução, para o nosso idioma, via Brasil, de todo o tipo de obras e literatura.
Convém referir que Steven Fischer fala do Brasil como uma espécie de monopólio da língua portuguesa, falando ao de leve de Portugal e ignorando os países africanos lusófonos omitindo, quanto a estes, as suas grandes potencialidades, demográficas e outras, em especial de Moçambique e Angola, designadamente desta, além dos milhões de lusófilos disseminados pelo mundo, razão pela qual o futuro do português não está apenas dependente da América Latina, apesar de agora aí ter o seu centro.
Tudo a demonstrar que muitos fatores terão de ser ponderados e outros surgirão nos próximos trezentos anos, pelo que a previsão do fim do português no Brasil tem tanto valor como o do fim de qualquer outro dos idiomas mais falados no mundo. 

 

3. Quanto a previsões, há que ter presente que nos EU a comunidade latina é muito representativa, nomeadamente a hispânica, pressionando para que o espanhol seja considerado o segundo idioma oficial, pelo que, mesmo aí, outros idiomas podem ultrapassar o inglês, como o espanholês, à semelhança do que Fischer diz do portunhol em relação ao Brasil.   
Que assim pode ser, refira-se a opinião do linguista inglês Nicholas Ostler, autor de “Empires of the Word” (Impérios da Palavra), segundo a qual a língua inglesa não está segura, pelo menos a longo prazo, considerando que de futuro outras línguas irão apanhar e ultrapassar o inglês, uma vez que a população que o tem como língua materna não cresce ao mesmo ritmo da de outras, como o espanhol, o árabe e o português.    Prevê, ainda, que o que deu prestígio à língua inglesa nos séculos XIX e XX, caso da ciência, entretenimento, tecnologia e grandes empresas, não vai durar para sempre, o que é agravado pelo avanço das tecnologias, prevendo-se o aparecimento dentro de uma ou duas gerações de aparelhos de interpretação e tradução automática.
Com os avanços tecnológicos é possível que no século XXI surjam máquinas de tradução e interpretação automática, tornando desnecessário, em termos de comunicação, o conhecimento mútuo de uma língua franca, estando as Nações Unidas a desenvolver o projeto “Universal Networking Language” (UNL), uma linguagem universal de tradução automática para uso na internet e em computadores, usando cada pessoa o seu idioma, o que não é tido em atenção por Fischer. 

 

28.11.2017
Joaquim Miguel De Morgado Patrício

A LÍNGUA PORTUGUESA NO MUNDO

 

XXIX - OBSERVAÇÕES E CRÍTICAS AO OTIMISMO DE MORENO


1. Embora sugestiva e sedutora, tendo por base, no essencial, uma perspetiva comercial e de mercado, o otimismo de Moreno pode ser desde já criticado pelo facto de entendermos que acredita em demasia na bondade e predisposição dos povos hispânicos, falantes de espanhol (a começar por Espanha), quererem aceitar a língua portuguesa como língua global, dada a mais valia que tem, ao ser falada, de com ela se perceber 90% do castelhano, 50% do italiano e 30% do francês. Independentemente de tal caraterística ser ou não exclusiva do nosso idioma, mesmo que o seja (o que desconhecemos), não vislumbramos que esse bloco linguístico esteja disposto a assumir o português como segunda língua visando, no futuro, a solidificação da Iberofonia ou Comunidade Iberófona, promovendo-se, assim, um “bilinguismo inteligente”, tendente ao reconhecimento da língua portuguesa como o “Ferrari” do comboio linguístico deste século.

A tradicional mentalidade imperial castelhana, o seu centripetismo e força centrípeta, a que não será alheia uma certa altivez ou orgulho ostensivo, tanto mais que atualmente são em maior número os falantes de espanhol que os de português, são sérios obstáculos a que se concretize o reconhecimento dessa mais valia tida como caraterística intrínseca do nosso idioma. 

Aliás, se fosse intenção dos falantes de espanhol, a começar pelos próprios castelhanos, de Castela, tirar proveito dessa mais valia, já há muito o teriam feito, mesmo para quem tenha como dado assente que é mais fácil quem fala português entender o espanhol do que o inverso. Ora, todos sabemos, por experiência própria, que é mais usual um lusófono tentar exprimir-se em castelhano, mesmo que não saiba, ou em portunhol, do que o inverso. 

 

2. As justificações poderão ser muitas, desde o ser mais difícil para os falantes do idioma vizinho entenderem ou falarem português, até à ausência de qualquer esforço nesse sentido, porque simplesmente presumem, por certo, que não vale a pena, não só porque português e espanhol são idiomas parecidos, porque o português uma língua menor, ou porque os falantes de português os entendem ou tentam entendê-los, mesmo quando de passagem ou de visita pela nossa própria casa, por exemplo, em Portugal.  Que assim é, os exemplos abundam, desde logo, entre nós, quando se veem falantes de espanhol de passagem, residentes ou a trabalhar no nosso país falando e escrevendo com naturalidade no seu idioma, tantas vezes sem concessão alguma ao uso de expressões em português, sendo mais fácil ver portugueses ou jornalistas portugueses a falar ou simular falar espanhol, inclusive intramuros. Já o mesmo não sucede quando lusófonos transitam, trabalham ou residem, por exemplo, em Espanha, onde na maioria dos casos, tendo como interlocutores espanhóis, se exprimem, ou tentam exprimir (mesmo não sabendo) em espanhol. 

Também é usual a maioria das nossas elites (políticas e outras) tentarem falar em espanhol ou portunhol, quando em países falantes de espanhol, fazendo-o mesmo em  Portugal; já o inverso não é verdade. 

A velocíssima rapidez com que falantes de português se adaptam ou tentam adaptar a um bom uso do idioma oficial de Espanha quando aí residem ou trabalham, é inversamente proporcional aos esforços que a maioria de falantes de espanhol fazem para se adaptar a um bom domínio do português em terras lusas. Além da ausência de reciprocidade, subalterniza-se o nosso idioma como uma espécie de dialeto do castelhano. No que respeita aos portugueses em geral, há aqui, por confronto, um complexo de inferioridade linguístico que contrasta com as manifestações desproporcionadas do nacional ufanismo. O que é extensivo a uma percentagem significativa de brasileiros.

Não faz sentido defender-se estarmos perante dois idiomas parecidos, de fácil entendimento entre ambos, quando essa realidade só funciona, normalmente, para um dos lados, nem nos parece ser essa a melhor maneira de preservar e divulgar a língua portuguesa.

Esta é uma das razões determinantes para o nosso ceticismo em relação ao otimismo de Moreno, pois se é a falar que as pessoas se entendem, não será assim que os falantes de espanhol assumirão e reconhecerão, numa primeira fase, a língua portuguesa como o idioma de futuro por excelência da globalização. 

 

3. O que não facilita nem possibilita que os falantes de inglês tomem consciência e percebam, fazendo contas, que o nosso idioma tem esse valor acrescentado, apesar de o português e o espanhol serem falados por 700 milhões de pessoas, sendo 1300 milhões se lhe juntarmos 600 milhões de monoglotas anglófonos, criando-se um mercado mais global.

Nem é de crer que a atual superpotência mundial (anglófona) promova a tal categoria o nosso idioma, pois para além de não ser a sua língua identitária, também não teria interesse que ao difundi-la o Brasil fosse o seu motor, porque um potencial concorrente. Brasil que, por sinal, alguns livros didáticos de conceituadas escolas norte-americanas, têm como um “reino da violência, tráfico, ignorância e um povo sem inteligência”. Ousando alguns editores não reconhecer a Amazónia e o Pantanal como territórios brasileiros. Defendem que desde os anos 80 a mais importante floresta mundial passou a ser da responsabilidade dos Estados Unidos e da ONU, sendo a chamada “PRINFA” (Primeira Reserva Internacional da Floresta Amazónica), fundada por a Amazónia estar localizada numa das regiões mais pobres do planeta “e cercada por países irresponsáveis, cruéis e autoritários”, com povos primitivos e sem inteligência (Jornal “Tribuna da Bahia”, Salvador, 22/12/2004).

O que releva, com inerentes adaptações, no que toca à China e à Índia, referidas por Moreno, no seu otimismo, que passariam a ser Sino-Hindi-Anglo-Iberófonos,  mantendo o seu idioma materno e reconhecendo o português como segunda língua e a única do mundo a excluir o monolinguismo. 

Parece-nos, pois, que seria necessário começar por uma real e efetiva afirmação dos países lusófonos e seu reconhecimento como tal em termos internacionais, não sendo suficientes construções teóricas que embora bem-intencionadas e positivas para o nosso ego, estão desfasadas da realidade.

Apesar de Moreno colocar o centro do “mundo que o português criou” no Brasil, descentrando-o e deslocalizando-o do continente europeu para o americano, para um gigante promissor, sem dúvida, fazendo lembrar compatriotas seus, como Gilberto Freyre, entre outros.               

 

21.11.2017

Joaquim Miguel De Morgado Patrício

A LÍNGUA PORTUGUESA NO MUNDO

 

XXVIII - UMA VISÃO PESSIMISTA

 

O americano Steven Roger Fisher, coloca a hipótese de no futuro a língua portuguesa desaparecer e ser substituída pelo portunhol. 

 

Argumenta que dentro de 300 anos o Brasil falará um idioma muito diferente do atual, em face da enorme influência da língua espanhola, tendo como provável que surja uma espécie de portunhol.

 

Além de fazer parte da própria dinâmica evolutiva das línguas, reforça a sua posição dizendo que o Brasil está rodeado de países falantes de espanhol, desde argentinos, uruguaios, chilenos, colombianos, bolivianos, paraguaios, peruanos e venezuelanos, que também irão usar expressões do português do Brasil, o que contribuirá para que haja uma fusão, com a agravante de ter os dois idiomas de origem ibérica muito parecidos.

 

Esta pressão de múltiplos países falantes de um mesmo idioma sobre um que tem um idioma diferente e parecido, aliada ao facto de existirem no mundo menos falantes de português do que espanhol, leva Fisher a ter como hipótese maioritária que o Brasil está destinado a trocar o seu idioma pelo portunhol. 

 

Não obstante, diz: “O português não será substituído pelo espanhol. O que irá acontecer é a mistura das duas línguas. Numa escala menor, é o que deve acontecer com o inglês também. Sem dúvida, o idioma que mais influencia hoje o inglês é o espanhol”.     

 

Embora considere que o português do Brasil e o de Portugal é a mesma língua, entende que há entre ambos grandes diferenças, apontando para a separação, se essa tendência se acentuar. Ao inverso do inglês, dado entender que o britânico e americano se aproximam cada vez mais, uma vez que a influência dos Estados Unidos é cada vez maior, desde o fim da segunda guerra mundial, através de filmes, músicas, programas televisivos, informática e novas tecnologias.

 

Trata.se de uma visão de raiz anglo-saxónica, que peca, desde logo, por defeito.

 

Fala tenuemente de Portugal. E do Brasil como monopolizador da língua portuguesa. Ignora os demais países lusófonos falantes de português, lusófilos e o potencial crescente do português em termos demográficos e como língua de exportação. Tem o continente americano e o seu país natal como o centro do mundo e orientador de tendências linguísticas futuras. 

 

Tomarei posição mais detalhada, em próximos textos, sobre a perspetiva otimista e pessimista da língua portuguesa, que acabo de expor.

 

14.11.2017

Joaquim Miguel De Morgado Patrício

A LÍNGUA PORTUGUESA NO MUNDO

 

XXVII - UMA VISÃO OTIMISTA

 

Segundo o investigador brasileiro Roberto Moreno, a estrutura gramatical da língua portuguesa permite, a quem a usa, entender 90% do espanhol, 50% do italiano e 30% do francês, o que não sucede no sentido inverso.

 

O fundamento essencial para esta mais valia, reside no facto de servir de elemento descodificador do espanhol, do italiano e do francês, dado ter um sistema fonético vocálico de 12 entidades (doze símbolos fonéticos), constituído por sete fonemas orais e cinco nasais, contra cinco símbolos fonéticos orais do espanhol, o que desde logo permite aos lusófonos entender mais facilmente o espanhol. Além disso, há inúmeros ditongos e tritongos em português que não existem em espanhol, elevando a comunicação em língua portuguesa a um estatuto e patamar de diálogo mais completo e eficiente. 

 

Daí defender que “(…) das cinco línguas latinas o português é o Ferrari deste comboio linguístico”

 

Em linguagem comercial e publicitária pode dizer-se, a título de exemplo: “Grande promoção da língua portuguesa, pague uma, leve duas e meia!”. Trata-se de um valor acrescentado que o nosso idioma possui, razão pela qual os Estados Unidos, sempre preocupados com o dólar, o poder e a economia, terão todo o interesse em promover o bilinguismo e o “Pague um e leve dois e meio”.

 

Ao mesmo tempo, de entre as línguas românicas (português, espanhol, francês, italiano e romeno), o português e o espanhol são os que têm maior afinidade entre si. Têm o latim como tronco comum e uma história evolutiva paralela, a da universalização pela diáspora dos respetivos idiomas, partindo e deslocalizando-se da Península Ibérica para os vários continentes, por via marítima, tendo como suporte atual o conjunto de países de fala ibero-românica. 

 

Propõe, então, Moreno: “Já que é moda criar comunidades, muitas vezes feitas com interesses muito particulares, por governos, porque não ressuscitar a mais antiga comunidade do mundo, que é a Iberófona? É uma espécie de Tratado de Tordesilhas ao contrário, onde as duas línguas se unem para reconquistar aquilo que era, há 500 anos atrás, a língua mais estratégica de negócios - o português”.

 

E acrescenta: “(…) se Portugal já não traz naus carregadas de especiarias das Índias, é nos trinta países que falam português e espanhol que se concentram as terras férteis nos principais recursos do século que se avizinha, da água à informação”.

 

Traça uma nova linha vertical no mapa mundial, pondo a Península Ibérica, os PALOP e a América Latina de um lado, e o resto do globo do outro. Defende que a metade formada pelos 700 milhões de falantes de português e espanhol no início deste século, tem potencialidades de desenvolvimento, só lhes faltando autoestima. Embora as semelhanças entre o português e o espanhol nos tornem bilingues à nascença, ser lusófono trás mais vantagens, já que se nasce a falar dois idiomas e meio.

 

Faz questão em frisar que não defende uma fusão entre o português e o espanhol, o chamado portunhol. Pretende tão só demonstrar, com fundamentação científica, que é a língua portuguesa que possui o elemento descodificador, à revelia das outras.

 

Sustenta que no futuro o nosso idioma será o mais falado mundialmente, a língua comercial por excelência.

 

No processo de globalização cada cidadão terá de falar duas línguas: a primeira, a sua língua materna, a segunda, uma língua que não incentive o monolinguismo. Exclui o inglês, o francês e o espanhol, dado concorrerem entre si, tentando impor-se. Resta o português, tido como um idioma fantástico que permite ao mundo comunicar através do bilinguismo, de uma forma natural e não artificial.

 

Sugere que quando o acordo ortográfico se concretizar entre os oito países lusófonos, se apelide de “Geo” ou “Geolíngua” a língua portuguesa que daí resulte.

 

Acaba por defender um Plano de Marketing Estratégico para a Língua Portuguesa quando o mundo, em geral, se aperceber de que aprender o português vale a pena, dado ser uma mais valia.

 

Concluindo, a língua portuguesa é a única que preenche todos os pré-requisitos para ser a língua global por excelência, uma língua híper global, sendo o seu motor o Brasil, sobressaindo no iberismo e na iberofonia a portugalidade, antecessora da lusofonia, sua atual sucessora.

07.11.2017

Joaquim Miguel De Morgado Patrício

A LÍNGUA PORTUGUESA NO MUNDO

 

XXVI - OS DOIS OCIDENTES


No ocidente há dois ocidentes: a Europa e os países descendentes da Europa, por exemplo, os Estados Unidos da América, o Brasil e a Austrália.

 

O passado colonial teve um papel preponderante na formação e consolidação de espaços, globalmente dispersos e suficientemente amplos em termos demográficos e territoriais, o que originou que os atuais quatro idiomas ocidentais mais falados mundialmente sejam o inglês, o castelhano, o português e o francês.

 

A revolução industrial, iniciada em Inglaterra, contribuiu para a sua afirmação como potência e para o seu progresso económico, este extensivo a algumas das suas colónias, desenvolvimento de que beneficiou a França ou as regiões que deram lugar à Alemanha, embora apenas duas línguas mantivessem a condição de línguas dominantes: o francês e o inglês. O que foi reforçado com a admissão de ambas nas conversações da Conferência de Paz que veio a findar com a redação do tratado de Versalhes escrito em francês e inglês, servindo de primeiro passo para que fossem as duas línguas oficiais da Sociedade das Nações.

 

Nos novos países, antigas colónias europeias, onde foram os próprios descendentes dos colonos europeus que tomaram em mãos o poder e o destino político desses territórios, sem participação das populações indígenas, não era um problema a escolha de uma língua, dado que não era um dilema a resolver para os seus novos dirigentes ou elites, uma vez o idioma materno da potência colonizadora ser o dos novos colonos e países independentistas. Foi o que sucedeu na América do Norte, Central e do Sul, na Austrália e Nova Zelândia, ao invés do que sucedeu com as antigas colónias africanas e asiáticas, com dirigentes nativos, umas vezes optando, e outras não, pela língua do colonizador.

 

Quando a Europa perdeu estatuto, nomeadamente após o advento da segunda guerra mundial, deixando de ser um ator ativo em termos políticos, houve uma espécie de justiça imanente dos países emergentes, começando a impor o seu modelo.

 

Há modelos e países emergentes como a China, a Índia e o Brasil. Destes três o único que nos tranquiliza, a nós ocidentais, em termos de transferência e transmissão sucessória, é o Brasil, uma vez tomar como modelo e referência o ocidente, apaziguando-nos como potência emergente, dado ser aquele que agarra mais de perto as caraterísticas do mundo ocidental.

 

Se a Europa é o antigo e velho ocidente, uma espécie de museu vivo em termos históricos, os seus descendentes eurocêntricos e sucessores mais diretos são o novo ocidente, um outro ocidente, desde o Canadá, Estados Unidos, Brasil, Argentina, até à Austrália e Nova Zelândia. Exemplificam-no novas regiões e novas localidades com nomes em homenagem ao velho ocidente, como Nova Inglaterra, Nova Escócia, Nova Iorque, Nova Jersey, New Hampshire, Nova Orleães (Estados Unidos), Óbidos, Alenquer, Almeirim, Santarém, Bragança, Caxias, Oeiras, Valença, Belmonte, Campo Maior (Brasil), Córdova (Argentina) e Newcastle (Austrália). A que acrescem nomes cristãos, importados da Europa: São Paulo, São Salvador, Santa Catarina, São José (Brasil), São Francisco, São Luís, São Bernardino, Santo António (Estados Unidos), Santa Fé (Estados Unidos e Argentina), entre tantos outros.  


04.07.2017

Joaquim Miguel De Morgado Patrício

A LÍNGUA PORTUGUESA NO MUNDO


XXV - COMO LÍNGUA BIPOLAR

 

Há uma manifesta desproporção entre a posição ocupada pela língua portuguesa no Mundo e na Europa, dado ser um idioma de caraterísticas dominantes e globais a nível mundial, com um estatuto regional, secundário e de “pequena” língua no continente europeu.

 

Tomando como referência, em linguagem metafórica, as medalhas e diplomas dos melhores atletas das modalidades que integram os Jogos Olímpicos, tem direito a duas medalhas de ouro por ser a língua mais falada do atlântico e do hemisfério sul, uma de prata por ocupar o segundo lugar entre as línguas românicas, três de bronze por ser a terceira mais falada do ocidente, do continente americano e africano, dois diplomas olímpicos por ter a quinta ou sexta posição entre as mais faladas em termos globais e ser a quinta língua internauta.

 

Na Europa é a sétima língua mais falada da zona euro, com direito a um diploma olímpico, o que já não sucede pela décima e décima terceira posição que ocupa, respetivamente, na União Europeia e em todo o continente, dado que, nestas últimas situações, não está entre as oito mais faladas. Esta bipolarização, baseada numa distribuição desproporcionada, em termos demográficos, territoriais e geográficos, dos seus falantes fora e dentro da Europa, carateriza o nosso idioma, cada vez mais, em termos evolutivos, como uma língua não europeia, apesar da sua génese europeísta.

 

Daí não ser apenas nossa, mas também nossa.

 

Nem se pode ter uma língua cosmopolita, intercontinental e transoceânica, implantada e viajando por todos os continentes e oceanos, querendo ter a sua posse e ser dono dela, uma vez ser ela dona e senhora de quem a fala.

 

Portugal, embora seja o condómino mais antigo, não usufrui de mais mordomias que os demais condóminos, muito menos em termos demográficos, sendo o Brasil, por agora, o grande motor, o mais eficaz e melhor vendedor da língua portuguesa no mundo. Para defesa e como prioridade estratégica do português, o critério mais aceitável é o do número global de falantes das línguas no mundo, a começar por Portugal e extensível aos restantes países lusófonos que o têm como língua oficial e ou materna, sem esquecer os lusófilos.

 

E embora Portugal, em termos mundiais, seja um país médio, tem no mundo grandes responsabilidades históricas e atuais, por causa da nossa cultura, onde impera o nosso idioma como língua de várias culturas.1

 

27.06.2017

Joaquim Miguel De Morgado Patrício

 

1. Como complemento desta temática, podem ler-se, neste blogue do CNC, da nossa autoria, os seguintes textos: A Língua Portuguesa no Mundo X - A língua Portuguesa na União Europeia, XI - O Dilema Bipolar da Língua Portuguesa, publicados, respetivamente, em 28.07.16 e 11.08.16.

A LÍNGUA PORTUGUESA NO MUNDO

 

XXIV - POLÍTICAS LINGUÍSTICAS - II

 

1. Alterado o modo de entender a língua, uma nova política linguística se foi e vem estabelecendo em Portugal, com etapas diferenciadas.

 

A primeira, iniciada em 1936, teve como objetivo prestigiar a nossa cultura e língua, dando continuidade aos leitorados no estrangeiro, iniciados em 1930, visando estes findar com a menoridade cultural do português. A que se juntaria outro objetivo: o de preservar e promover o nosso idioma junto das comunidades de emigrantes, através do ensino feito por portugueses enviados de Portugal.

 

Uma segunda etapa tem início nos anos 80, dirigida para a prioridade do ensino da língua portuguesa.

 

Teve como impulso decisivo a publicação da obra “Un Milliard de Latins em l´an de 2000”, em 1983, do francês Philippe Rossilon, onde sobressai a grande expansão da língua portuguesa, em termos demográficos, ultrapassando a língua francesa, criando uma dinâmica coletiva que para além do ICALP envolveu o Estado português, começando a emergir o termo lusofonia.

 

As discussões em redor do projeto do Acordo Ortográfico, em 1986, proposto pelos então sete países lusófonos, deram visibilidade à questão da língua, passando a integrar os programas dos governos e a fazer parte, entre nós, da Constituição da República Portuguesa.

 

2. A nossa Lei Constitucional pautou-se por uma época de omissões, passando de uma fase de uma tímida consagração até uma proteção e valorização mais explícita.

 

As Constituições do Estado Novo, a de 1933 como a revista de 1971, eram omissas a respeito da língua.  

 

Após o 25 de Abril de 1974, na Constituição de 1976, também nada constava.

 

Era tida como oficial por costume constitucional. Mas impunha-se declará-lo para reforço dos laços aos demais países seus falantes e da identidade de Portugal dentro da União Europeia, em conjugação com a sua crescente difusão e projeção mundial.

 

De modo tímido, na primeira revisão de 1982, de acordo com as alterações introduzidas pela Lei Constitucional n.º 1/82, de 30/9, alterou-se a redação dos n.ºs 1, 2 e 3, alínea f), do artigo 74.º, acrescentando-se as alíneas g) e h) ao n.º 3. Aí se estabeleceu incumbir ao Estado, na realização da política do ensino, “Assegurar aos filhos dos emigrantes o ensino da língua portuguesa e o acesso à cultura portuguesa” (art.º 74.º, n.º 3, alínea h)). Previsão que foi ampliada na revisão de 1989, que no seu art.º 9.º, alínea f), fixou como uma das tarefas fundamentais do Estado a de “Assegurar o ensino e a valorização permanente, defender o uso e promover a difusão internacional da língua portuguesa”, cujo conteúdo se mantém atualmente.

 

Na revisão de 2001, no art.º 11.º, sob a epígrafe “Símbolos nacionais e língua oficial”, ficou a constar, no seu n.º 3, que “A língua oficial é o português”.

 

As revisões de 2004 e de 2005 nada acrescentaram.  

 

3. De um quadro biológico, confidencial, costumeiro e tradicional baseado numa retórica mais tranquila, doméstica e patrimonial, transitou-se para uma alteração do uso da língua, entendendo-a como de estratégia e de vanguarda, como língua útil, querida e de exportação, com incidência na sua difusão, promoção e projeção internacional, em que todos os falantes lusófonos assumem, em igualdade de circunstâncias, função primordial.

 

A maioria do prestígio atual da língua portuguesa não resulta da afirmação e peso de Portugal no mundo, antes sim, e sobretudo, do peso dos países, comunidades e povos que voluntariamente a adotaram, dos que são mais eficazes e a vendem melhor, sendo o Brasil, de momento, o seu grande motor a nível mundial.

 

Assim, partindo de uma perspetiva lusíada, luso-brasileira e luso-afro-brasileira chegou-se, em certo momento, a uma perspetiva lusófona e de exportação.      

 

28.02.2017

Joaquim Miguel De Morgado Patrício

A LÍNGUA PORTUGUESA NO MUNDO

 

XXIII - POLÍTICAS LINGUÍSTICAS - I  

 

1. Da atitude dominante das soberanias europeias de considerar que “a língua é nossa”, para o conceito de “a língua também é nossa”, transitou-se de uma visão patrimonial da língua, para uma conceção não patrimonial, resultado da mestiçagem ou crioulização a que os idiomas estão sujeitos, convivendo com a corruptela decorrente do seu uso global, de tendência crescente à medida que aumenta a sua utilização mundial.

 

Esta mudança coexistiu com a ascensão do Direito Internacional Público e de organizações internacionais, pondo de lado a ideia tradicional de que os problemas da língua eram da responsabilidade das Academias, segundo a regra de que cada soberania transferia esses modelos para os territórios pelos quais era responsável.

 

Sustenta-se a necessidade de “… substituir essa sede das Academias, que têm uma herança ainda à luz de uma tradição colonial, por um instituto onde todos estivessem em pé de igualdade. Veio daí a ideia de um Instituto Internacional da Língua Portuguesa …, mas que, …, não tem funcionado. Tem uma debilidade equivalente à dos países da CPLP… Julgo que ambas as instituições correspondem a uma conceção mais atualizada do papel da relação das culturas e do papel da língua, mas não vejo que tenha sido assumido…porque ainda não foi assumido que o paradigma de relação entre as áreas culturais mudou desde meados do século passado” (Adriano Moreira, “A Língua Portuguesa: Presente e Futuro”, Fundação C. Gulbenkian, pág.ª 290). 

 

Defende-se um organismo onde estejam em pé de igualdade todos os Estados que têm como idioma comum a língua portuguesa, visando a definição e a prossecução de interesses comuns, ao arrepio da opinião de defensores puristas que advogam sistemas de imobilidade, proclamando uma estrita visão patrimonial da língua.

 

No caso português, uma política multicultural da língua portuguesa põe de lado o monocentrismo homogeneizador da norma metropolitana, dando lugar a um policentrismo baseado na variedade de fatores antropológicos, culturais, étnicos, geográficos, linguísticos, sociais, entre outros, daquilo que se designa por lusofonia. Neste espaço ou mundo lusófono, a língua portuguesa pertence de igual modo a todos os povos, países e Estados que a têm como língua materna, nativa, nacional, oficial ou comunicacional, nela se comunicando e expressando, falando-a, escrevendo-a e exportando-a. Dada a ausência de proprietários da língua, ninguém tem mordomias ou privilégios sobre ela.

 

Com consciência de que a língua portuguesa é uma questão estratégica de longo ou médio prazo, não só a nível de imagem externa, mas também de afirmação cultural dos seus países e comunidades falantes, além de, num contexto alargado, ser parte representativa de uma comunidade de mais de 200 milhões de pessoas.

 

É, ao mesmo tempo, uma visão estratégica para dar maior unidade e visibilidade aos seus falantes, não os subalternizando, mas direcionando-os para fazer frente à força concorrencial e globalizante de outros blocos  histórico-linguísticos, de aproximações  culturais e ideológicas que se associaram como comunidades com interesses convergentes, como a anglofonia, francofonia, hispanofonia, reavivando-se a germanofonia, após a queda do muro de Berlim, embora esta de localização europeia e não transcontinental.  

 

Enquadra-se, neste contexto, a criação de organizações como o Instituto de Alta Cultura (ICALP), o Instituto Camões, o British Council, a Alliance Française, o Instituto Cervantes, o Goethe Institut e o Instituto Confúcio, servindo não apenas para defesa das línguas a eles afetas, mas também para a sua difusão, expansão e exportação. 

 

21.02.2017
Joaquim Miguel De Morgado Patrício