Saltar para: Posts [1], Pesquisa [2]

Blogue do Centro Nacional de Cultura

Um espaço de encontro e de diálogo, em defesa de uma cultura livre e pluridisciplinar. Estamos certos de que o Centro Nacional de Cultura continuará, como há sete décadas, a dizer que a cultura em Portugal vale a pena!

Blogue do Centro Nacional de Cultura

Um espaço de encontro e de diálogo, em defesa de uma cultura livre e pluridisciplinar. Estamos certos de que o Centro Nacional de Cultura continuará, como há sete décadas, a dizer que a cultura em Portugal vale a pena!

A LÍNGUA PORTUGUESA NO MUNDO

 

XLVII - NEOLOGISMOS

 

Neologismo - “emprego de palavras novas, derivadas ou formadas de outras já existentes, na mesma língua ou não” (Dicionário Houaiss de Língua Portuguesa). 

 

Toda e qualquer língua viva está aberta a alterações. Daí que os neologismos, em si mesmos, não sejam um problema e dificilmente se podem encarar como uma “heresia”, uma vez serem um fator de vitalidade da língua, pelo que esta sem neologismos é tida como morta.   

 

Se esses neologismos forem apenas “estrangeirismos” ou “empréstimos”, ou seja, palavras importadas de outras línguas, necessitam de uma intervenção linguística que permita a sua integração harmoniosa na língua importadora. Essa realidade releva em especial quando se trata de palavras importadas de línguas que possuem sistemas fonológicos e morfológicos diversos dos da língua importadora e com convenções ortográficas notoriamente divergentes, como sucede com o inglês e o português. Por exemplo, há a importação de palavras inglesas que são escritas e pronunciadas como em inglês sem qualquer esforço de adaptação ao sistema fonológico e morfológico do português, caso de palavras como “site”, “on line”,”drive”, “farmodrive” em que a vogal “i” se lê “ai”. E que dizer da useira e vezeira utilização por escrito da palavra “shampoo”, em desfavor da bem portuguesa “champô”?!... 

 

Uma entrada maciça de palavras importadas pode levar à descaraterização do idioma de acolhimento e, por outro lado, a que a língua que importa indiscriminadamente deixe de ser usada em contextos de comunicação técnica e científica, conducente à perda do seu estatuto de língua de ciência e de cultura.

 

É necessária uma política de planificação linguística que permita que uma língua com o estatuto de comunicação quotidiana e de aprendizagem, transite para uma língua de comunicação científica e técnica, adaptada e apetrechada para qualquer situação.

 

Não existe em Portugal uma política de língua credível, nem de planificação linguística. Mesmo ao nível da CPLP é insuficiente, na medida em que ao pretender criar-se um espaço geopolítico, cujo principal elo de união é a língua, não se vislumbra uma estratégia suficientemente sólida e concertada para a desenvolver e promover o seu uso.

 

Há ausência de uma instituição credível encarregada de proceder à normalização do português e, em particular, dos seus neologismos, uma Academia com atribuições comparáveis às da Academia Francesa ou à do país vizinho.

 

Carecemos, ainda, de um efetivo investimento na produção de materiais que possibilitem o desenvolvimento e a promoção do nosso idioma, nomeadamente de dicionários bilingues, de terminologia mono e multilingue, materiais de ensino como língua estrangeira ou para fins específicos, além de um investimento sério e programado, incluindo via internet.

 

23.04.2019
Joaquim Miguel de Morgado Patrício

A LÍNGUA PORTUGUESA NO MUNDO

 

XLVI - CAMÕES E O BRASIL

 

A língua portuguesa é um idioma global, intercontinental e transnacional, com centenas de milhões de falantes disseminados por várias latitudes.

 

Tendo tido como ponto de partida a Europa, está essencialmente implantada, nos dias de hoje, em espaços fora do continente europeu, com especial densidade no continente americano e africano.  

 

Indicia-se que o futuro global da futura globalização do nosso idioma será protagonizado e revitalizado de fora da Europa, nomeadamente através do continente sul-americano, via Brasil (o “imenso Portugal”, cantado por Chico Buarque), um país de escala continental e potência emergente.

 

Os emigrantes que a Europa recebe e de que necessita, também operarão essa revitalização.        

 

Tendo como referência a liderança dos Estados Unidos, com a projeção e prestígio global do inglês, são os descendentes da velha Europa imperial os novos impérios linguísticos do futuro, o que, por agora, se aplica ao Brasil, no que toca ao português. 

 

Todavia, o poema épico por excelência que canta as façanhas e os feitos dos portugueses (“Os Lusíadas”) é omisso quanto ao Brasil.

 

Camões celebra a epopeia portuguesa em África e na Ásia, mas não na América.   Sendo Os Lusíadas   parte integrante do imaginário nacional, assinalando e cantando a história do Portugal guerreiro e marinheiro, falta-lhe assinalar, cantar e priorizar as navegações portuguesas que nos levaram até ao Brasil.  

 

Há em Camões e no seu poema épico um Portugal marinheiro omitido, não cantado, nem celebrado, atenta a enorme importância do Brasil para Portugal e para a nossa história, pois embora a viagem de Vasco da Gama seja o motivo central, o assunto principal d`Os Lusíadas é toda a história de Portugal (não a viagem do Gama à Índia). 

 

Nos tempos atuais, para nós, portugueses, a importância do Brasil, por confronto com a Índia, é incomparavelmente superior, fazendo parte do nosso imaginário.

 

Será que esta amputação terá contribuído para um certo alheamento entre Portugal e Brasil, que foi atenuada séculos depois pela fuga da família real portuguesa às invasões napoleónicas?

 

Um promissor estudo de caso (case study).

 

16.04.2019
Joaquim Miguel de Morgado Patrício

A LÍNGUA PORTUGUESA NO MUNDO

 

XLV - Do Neocolonialismo e Imperialismo Linguístico
Alfredo Margarido, A Lusofonia e os Lusófonos: Novos Mitos Portugueses
Apreciação e Crítica (II)     

 

Recapitulando, no essencial e na opinião de Alfredo Margarido, extinto o império, Portugal transferiu para a língua, que tem como sua, um sentimento imperial, reforçado pela lusofonia, tratando-se então de defender que a língua portuguesa tem de ser preservada a todo o custo, porque é essa a sua essência. 

 

Salvo o devido respeito, trata-se de uma visão maniqueísta em que os portugueses são sempre os maus da fita. 

 

Não se vê o porquê em falar-se em “língua do colonizador”, “língua imperial” ou “força imperial”, uma vez já não existir o pretenso colonizador, tendo-se perdido a guerra e o império, com a subsequente descolonização e expulsão; mas também por a língua pertencer a quem a fala, pelo que a língua portuguesa pertence, em primeiro lugar, a todos os seus falantes em igualdade de partilha e uso, à semelhança do que defende o ensaísta, e com quem, a este propósito, concordamos.

 

Nem se antevê que Portugal tenha atualmente potencial suficiente para se impor como “força imperial”, mesmo através da língua, apesar de ser a língua portuguesa (ou será tão só por “portuguesa” se tratar?). Se são tantos aqueles, incluindo africanos, que aceitam que Portugal não arquitetou nenhum plano nem delineou qualquer estratégia do tipo neocolonial para continuar nas ex-colónias, facilmente se conclui que a lusofonia, nesta perspetiva, não é estratégia de neocolonialismo.

 

Alfredo Margarido esquece o óbvio: que a lusofonia será, de momento, aquilo que o Brasil entender que deve ser. O resto será encenação e retórica.

 

Por que não falar do Brasil, no pressuposto de que o presente e o futuro da lusofonia e da Comunidade dos Países de Língua Portuguesa (CPLP) será, no essencial, aquilo que quiser e vier a ser esse país, com caraterísticas continentais e de potência emergente? Será que pelo facto de já ter sido colónia se lhe não pode aplicar tal raciocínio?

 

Nem a outras ex-colónias que venham a ter potencialidades para se afirmarem e concorrerem com a ex-metrópole, como Angola?

 

Tanto mais que existe uma ex-colónia inglesa que se impôs à ex-potência colonizadora, os Estados Unidos, com a agravante de que a debilidade portuguesa, por confronto com a hegemonia francesa e inglesa, pode abrir relacionamentos pós-coloniais mais democráticos.     

 

E agora, quem coloniza quem? Os antigos impérios coloniais europeus, tidos por muitos, no presente, como neocolonialistas, ou algumas das ex-colónias, umas já emergentes e outras em ascensão?

 

Em especial no que toca aos países africanos, foram eles que viram no português um instrumento de emancipação, progresso, de identidade e unidade, adequação aos tempos atuais e novas tecnologias, e não uma forma de exclusão. A sua adoção foi um ato de soberania desses países e de Timor-Leste.

 

Sugestivo é o exemplo angolano, onde após a independência o português era uma segunda língua para a maioria populacional, materna para parte significativa da população urbana, dando-se prioridade às línguas nacionais como reivindicação de afirmação identitária, falhando o objetivo de introdução dos idiomas nativos no ensino.

 

Reconhecendo a realidade, um estudo do escritor Pepetela defendeu, em 1985, a tese da nacionalização da língua portuguesa, reclamando uma evolução autónoma em relação ao português de Portugal. Tal tese, inicialmente polémica, uma vez a fala do colonizador não poder ter a mesma dignidade e estatuto dos idiomas nacionais, foi torneada via eufemismo da “língua veicular”. De idioma nacional e materno para parte dos angolanos, a idioma de comunicação entre todos os habitantes é, na atualidade, língua oficial do Estado e de ensino, por opção dos angolanos.

 

Amílcar Cabral, referindo-se aos colonialistas portugueses, reconheceu que a língua portuguesa foi uma das coisas boas que os tugas deixaram em África.

 

Nem o tráfico negreiro foi de exclusiva responsabilidade portuguesa, sendo conhecido e praticado pelos próprios africanos aquando da chegada dos europeus, por muito politicamente incorreto que seja lembrá-lo.

 

E se tudo aponta para tentativas neocolonialistas, também é verdade que há quem contra-argumente, por mera defensiva, que os países lusófonos e da CPLP mais pobres só se interessam por tais realidades na medida em que as instrumentalizem em seu benefício.   

 

É urgente superar complexos e desconfianças de que tudo o que vem do ex-colonizador é mau.

 

Também à custa de se querer não ser paternalista (ou neocolonialista), acabam por não se desenvolver projetos interessantes, caindo-se na retórica do vazio.

 

Além de que a crítica da suposta superioridade do português europeu, esquece que o futuro da futura globalização do nosso idioma será protagonizada de fora da Europa, no essencial a partir do Brasil e de África.

 

Num certo sentido, o fim do colonialismo transformou os antigos colonizadores em territórios “colonizados” pelas antigas possessões, sendo estas uma certa continuidade daqueles e algumas delas as novas potências do futuro.

 

Perspetivar a lusofonia apenas em termos redutores de neocolonialismo do ex-colonizador, ou de ideologias radicais, revela ausência de pragmatismo, desprezando um factor de imagem de união internacional, em favor de interesses de terceiros, também baseados num mesmo conceito linguístico-estratégico (como a anglofonia, francofonia, espanofonia, germanofonia).             

 

 

05.03.2019
Joaquim Miguel de Morgado Patrício

A LÍNGUA PORTUGUESA NO MUNDO

 

XLIV - Do Neocolonialismo e Imperialismo Linguístico
Alfredo Margarido, A Lusofonia e os Lusófonos: Novos Mitos Portugueses
Apreciação e Crítica (I)  

 

Para Alfredo Margarido, no opúsculo “A Lusofonia e os Lusófonos: Novos Mitos Portugueses”[1], o discurso lusófono procura recuperar uma parte da antiga hegemonia imperial portuguesa, pretendendo manter o colonialismo, atento o modo como o colonizado é incitado a alienar a sua autonomia para servir os interesses portugueses.

 

Após afirmar que parte significativa dos teóricos da portugalidade têm o idioma como o agente mais eficaz da unidade entre as pessoas e os territórios que ficaram marcados pela presença portuguesa, escreve:     

 

“(…) os portugueses foram obrigados a renunciar à dominação política e económica, mas procuraram assegurar o controle da língua. O drama herói cómico provocado pelo acordo ortográfico luso-afro-brasileiro, deriva dessa inquietação: se a língua não for capaz de assegurar a perenidade da dominação colonial, os portugueses ficarão mais pequenos. A exacerbação da “lusofonia” assenta nesse estrume teórico, que, espera-se, virá a ser revisto, para considerar a importância da vontade do Outro” (ibidem, p. 57).   

 

É a reedição de um comportamento colonial, a redescoberta da língua portuguesa como uma “força imperial”, que se impõe como língua homo-hegemónica, em que a lusofonia atua em nome da uniformidade, fixando a norma e anulando os dialetos,  preparando o neocolonialismo, neste caso o português, dado que “A língua nasceu em Portugal e pertence aos portugueses. Não se consegue aceitar o princípio simples de que a língua pertence àqueles que a falam!” (ib., pp. 6, 7).

 

Rejeitando a auto-complacência ou os paternalismos, formas de colonialismos, apela a uma leitura crítica do passado, desde logo no que toca ao delírio das “descobertas”, como se o Outro só existisse por obra nossa, com a agravante de que ninguém pediu perdão aos africanos pela nossa participação no tráfico negreiro.   

 

A Comunidade dos Países de Língua Portuguesa (CPLP) é tida como uma comunidade utópica, “(…) como se bastasse a magia do enunciado para fazer dos colonialistas de ontem os arautos da igualdade racial de hoje” (ib., p. 25), tanto mais que a comunidade portuguesa aceita mal o modo como os antigos dominados, os “Outros”, rejeitam a violência da dominação.

 

Eis a razão desta obra: proceder ao inventário das feridas e das cicatrizes, sem “(…) ignorar que este inventário de torpezas nacionais me preocupa há já vários anos, e mais particularmente a partir do momento em que, nas antigas colónias, pude ver em ação a nossa especial maneira de “civilizar” (ib., p. 8).   

 

Não se trata de um discurso lusófono eufórico, efusivo, nem de uma comovente e emocionante retórica, nem tinha que o ser.

 

Sem ser entusiasta, nem moderado, opta por um discurso cético e descrente.

 

Porque os portugueses não podem já ter devaneios ou quimeras imperiais, transferem para a língua essas veleidades e sentimentos.    

 

Tido como um dos estudos críticos mais contundentes e emblemáticos sobre a lusofonia, não nos parece suficientemente convincente, como tentaremos fazê-lo sobressair em próximo texto.

 

26.02.2019
Joaquim Miguel de Morgado Patrício

 

 

[1] Alfredo Margarido, A Lusofonia e os Lusófonos: Novos Mitos Portugueses, Edições Universitárias Lusófonas, Lisboa, 1.ª edição, Maio 2000.

 

 

A LÍNGUA PORTUGUESA NO MUNDO

 

XLIII - “A LÍNGUA PORTUGUESA EM NÓS”

 

Quer funcionando como a primeira pessoa no plural, quer no sentido da medida de navegação ligada ao movimento e à velocidade, quer significando o entrelaçamento de cordas, cordões, fios, linhas ou algo mais, a palavra “nós” possibilita múltiplas interpretações assumindo, pelo menos, um triplo sentido de leituras, como metaforicamente o pretende simbolizar a exposição “A Língua Portuguesa em Nós”, na Central Tejo, em Lisboa, entre 6 e 21 de outubro de 2018.

 

Sem fausto, deslumbramento, pompa e circunstância, esta exposição, de raiz brasileira, pretende informar, historiando ao sabor dos tempos e resumidamente, a história do nosso idioma, aí atualmente quantificado em 270 milhões de falantes. 

 

Na sua simplicidade, economia de espaço e meios, fala-nos da grande viagem, de viajantes, promotores e divulgadores da língua portuguesa, desde as navegações marítimas portuguesas e correspondente expansão pelo mar, até aos dias de hoje, com especial enfoque no contributo do Brasil, ou não fosse ela uma iniciativa brasileira, uma espécie de miniatura ou pequena amostra do Museu de Língua Portuguesa, de São Paulo, em recuperação, após o incêndio de 2015 (em parceria com o Governo do Estado de São Paulo, a Fundação Roberto Marinho, o Instituto da Língua Portuguesa, a Fundação EDP e o Instituto Camões). 

 

Por entre painéis, livros, vídeos, era digital, há uma espécie de puzzle onde sobressaem música, textos, culinária e a Cápsula, tendo esta a particularidade de recolher testemunhos individuais da fala, de cidadãos comuns, convidados a falar e gravar depoimentos em vídeo, expondo a sua relação com o nosso idioma, para integrar uma coleta de falares que farão parte do acervo permanente do Museu da Língua Portuguesa, em São Paulo, Brasil.

 

Há a literatura, essa linguagem trabalhada, com frases, textos, referências a Camões, Vieira, Pessoa, Vergílio Ferreira, Sophia, Machado de Assis, Monteiro Lobato, Drummond, Guimarães Rosa, Nelson Rodrigues, Oswaldo de Andrade. 

 

E há a música do Brasil que se internacionalizou e tanto universalizou a língua portuguesa, a quem esta tanto deve, vindo-me à memória uma guia italiana, em Veneza, sem ligações lusófonas, que me surpreendeu pelo seu português tão bem falado, cujo porquê indaguei, respondendo-me que o aprendeu graças à música brasileira, que sempre amou, desde Chico Buarque, Caetano Veloso, Gilberto Gil, João Gilberto, Jorge Ben, Betânia, Gal Costa, Elis Regina, Vinícius de Moraes, entre outros, como Mariza Monte, Dorival Caymmi, Paulinho da Viola, nomes que vamos reconhecendo no decurso da exposição.

 

Fala-se também de Agostinho da Silva, a propósito da canção de Caetano “Minha pátria é minha língua”, dando eco a uma nova cultura que emergiria dos falantes de português no Brasil e na África, que a Praça da Língua intenta difundir e promover.

 

Da culinária e do samba, naquele português com açúcar do Brasil, da fruta e sotaque doce, a que acresce a eterna viola e o violão. 

 

Reconhecendo ser o nosso idioma uma das línguas mais faladas no mundo, dando-lhe o estatuto de língua global, aparecendo entre as seis primeiras (por vezes em quarto ou quinto lugar, consoante as fontes), estranha-se que a população da Guiné Equatorial seja contabilizada para efeitos do número de falantes do português, decerto por arrastamento, dado ser um país membro da CPLP (sendo mera retórica, até agora, ser tido como um país que tem como língua oficial a portuguesa, embora  um pressuposto necessário para integrar a CPLP).

 

Na sua modéstia e contenção de custos, vale a pena a visita, embora merecesse voos mais altos, pelo valor estratégico que a língua portuguesa tem, sem esquecer as ameaças globais que a rodeiam, mesmo a nível interno e lusófono, não obstante uma língua global e a este nível ser enfatizada, em défice com a condição de língua ainda dominada a vários níveis institucionais (e não só), factualidade de que a exposição é omissa.    

 

14.10.2018
Joaquim Miguel de Morgado Patrício 

A LÍNGUA PORTUGUESA NO MUNDO

 

XLII - LÍNGUA E CULTURA

 

A cultura é a guarda avançada do imperialismo mental.

 

A língua é a ponta de lança dessa guarda avançada.

 

O inglês, como primeira língua depois do idioma materno de cada falante, promove produtos culturais que refletem o perfil do capital mundial e da potência dominante: Disney, Coca-Cola, Mac Donald, Microsoft, Google.   

 

No atual quadro do imperialismo linguístico, o inglês é a língua dominante por excelência. 

 

As outras são as línguas dominadas. 

 

Em Portugal, a receção do inglês foi promovida e facilitada pelo cinema, pela televisão, pela edição fonográfica e sua veiculação e disseminação através da rádio.

 

No nosso país, a opção em legendar para português, em vez de dobrar os filmes exibidos, quer no cinema ou na televisão, fez com que o cidadão comum se habituasse a ouvir, no idioma original, a cinematografia e séries americanas e anglófonas em geral, razão pela qual a língua mais ouvida nos media passasse a ser, de modo involuntário e subtil, o inglês. Por motivos de economia de meios e custos, e não por razões estratégicas, passou a ser o idioma estrangeiro mais familiar. 

 

Com a chegada da música pop, em inglês, suplantando a difusão musical radiofónica em português, consolidou-se, nas gerações mais jovens, uma relação sinonímica entre modernidade e língua inglesa, o que é reforçado, no nosso tempo, pelas novas tecnologias de ponta e publicações de investigação e natureza científica do mundo académico.

 

Enquanto o inglês passou a ser uma janela para o mundo futuro, o francês passou a ser associado ao idioma estrangeiro dos mais velhos, das enfadonhas e antigas elites de outrora, algo a evitar. 

 

Portugal, a tal respeito, não se diferenciou significativamente do resto do mundo, embora países como a Espanha, França e Alemanha, dobrem filmes e séries.

 

E se a língua portuguesa não está em questão dentro do espaço da comunidade dos países lusófonos, dissolve-se no universo das restantes línguas faladas no nosso planeta, num laboratório geopolítico de que em certas situações é refém como cobaia, como na Europa da União Europeia e do Conselho da Europa.

 


09.10.2018
Joaquim Miguel de Morgado Patrício

 

A LÍNGUA PORTUGUESA NO MUNDO

 

XLI - SERÁ A UNIÃO EUROPEIA MULTILINGUE?

 

O regime linguístico vigente na União Europeia (UE) baseia-se no princípio da igualdade, consagrando a igualdade linguística, em termos normativos.

 

Sempre se declarou que “A União Europeia será sempre um espaço multilingue”

 

Optou-se, formalmente, por um regime plurilingue, de pluralismo linguístico geral e de não discriminação.     

 

Trata-se de uma declaração formal, amiga e aberta a princípios de natureza humanista, dado que no interior dos edifícios sede do poder institucional da UE o multilinguismo já há muito passou a trilinguismo, com prioridade para o francês, inglês e alemão.

 

É o princípio da aplicação do critério de quem mais precisa cede.

 

Se há países que não se opõem a que o inglês seja o único idioma das instituições da UE, há-os que nunca o aceitaram, em especial a França, que sempre o rejeitou e rejeitará enquanto puder, o que reforçará com a futura saída do Reino Unido, ficando a pequena Irlanda como único representante da língua inglesa na União. 

 

É usual dizer-se que mesmo que a Alemanha aceite o inglês como única língua da União, se a Itália se disponibilizar a e a Espanha oscilar, a França continuará irredutível, quanto mais não seja, na expetativa de que sendo a última e a decisão depender apenas de si, permitam que a UE seja, pelo menos, bilingue (francês e inglês), ou que tudo fique na mesma, como dantes, via defesa do sistema trilingue.

 

Qualquer destas situações de negação de direitos de comunicar na sua própria língua, traduz-se no expurgar de um direito humano e fundamental. 

 

Podemos ser linguisticamente competentes para falar e comunicar em situações de satisfação de necessidades do dia a dia, sem o sermos suficientemente para argumentar, compreender ou exercer o contraditório a uma máquina burocrática sediada em Bruxelas, que pode tomar decisões que afetam substancialmente as nossas vidas, o que inclui a negação do direito dos cidadãos poderem ser informados por escrito ou oralmente na sua língua materna, de receberem resposta e documentação de trabalho nessa mesma língua.   

 

Embora, na prática, venha sobressaindo um critério fundado numa relação custos/benefício, rumo a um plurilinguismo restrito, há quem entenda que o combate à chamada burocracia de Babel não é um problema económico e que o avançar-se definitivamente para uma solução inversa, pode abalar mais a União do que o fim da Política Agrícola Comum (PAC). 

 

Será duvidoso que assim seja para todos os países, dado uns terem mais poder e autoestima que outros, alguns não quererem paralisar a UE enquanto esta for uma mais valia, sem esquecer o já aludido princípio da aplicação do critério de quem mais precisa cede.

 

Em qualquer caso, para Portugal e a língua portuguesa, o único critério aceitável, dos vários estudados e propostos pela UE, é o do número global de falantes do nosso idioma a nível mundial, onde ocupa o quinto ou sexto lugar, com perspetivas seguras, ao invés de critérios como o do número global de falantes na União ou dos maiores contribuintes líquidos para o orçamento comunitário.

 

02.10.2018
Joaquim Miguel de Morgado Patrício 

A LÍNGUA PORTUGUESA NO MUNDO

 

XL - SÍLVIO ROMERO E O ELEMENTO PORTUGUÊS NO BRASIL

 

Em discurso no Gabinete Português de Leitura, no Rio de Janeiro, em maio de 1902, na conferência sobre O Elemento Portuguez no Brasil, o pensador brasileiro Sílvio Vasconcelos da Silveira Ramos Romero (SR),[1] defendeu a tese da conveniência de reforçar no Brasil o elemento português, pois se estudarmos as origens brasileiras, o seu genuíno ascendente europeu é constituído pela gente de Camões.

 

Não se tratava, tão só, e por mero capricho, de opor o elemento português aos outros elementos que colaboraram na formação do Brasil. Tratava-se, sim, “da conveniência de reforçar no Brasil os elementos que o constituíram historicamente uma nação luso-americana, os elementos que falam a língua portuguesa, ou, ainda e como consequência de tudo isso: de como de todas as novas colonizações que possam vir ao Brasil a mais conveniente é a portuguesa”[2]

 

Tendo o Brasil como um povo luso-americano, um prolongamento lusitano na América, tipo Portugal transplantado e metamorfoseado, é apologista que de todos os emigrantes que procuravam o país, os portugueses eram os que mais convinham, tendo tido o desígnio superior de se aliarem e não exterminarem as raças indígenas, nem repeliram o negro, melhorando as condições da extensíssima mestiçagem brasileira, sem alterar a fisionomia histórica da nação.

 

Facto único, a língua, só por si, chegaria para individualizar a nacionalidade brasileira marcando, para sempre, o lugar que o português tem no Brasil. Num período de antilusitanismo, foi firme na defesa da aproximação entre os dois povos, percebendo o papel fundamental de uma língua como eixo central de culturas, antevendo, já então, para o idioma comum, o lugar que agora lhe começa a ser reconhecido.

 

Portugal, pequeno, de diminuta população, teve força e habilidade bastante para entregar integralmente um país gigante e homogéneo àqueles que deviam ser os seus herdeiros.

 

Sendo estes os ensinamentos da história, conclui: “se a nossa nacionalidade é uma nacionalidade luso-americana, e se ela quer continuar a ser o que é para ficar sendo alguma coisa, (…), não temos outro recurso senão apelar para um reforço do elemento português, já que europeus de outras origens quaisquer não querem cá vir espalhar-se um pouco por toda a parte, e os das duas procedências que nos enviam imigrantes, (…), foram perturbadoramente aglomerados nas belas regiões do Sul, e são hoje um perigo permanente para a integridade da pátria”[3]

 

O que justifica, à data, pela ameaça permanente da integridade brasileira, por europeus de outras origens (italianos, e nomeadamente alemães), que não desejavam espalhar-se por todo o país, mas fixar-se nas apetecíveis regiões sulistas aí lançando, deixando-os, o gérmen de futuros Estados, designadamente de origem germânica. Seria assim, dado que o elemento germânico, mais que o italiano, é muito diferente de outros emigrantes e dos concorrentes brasileiros que considera inferiores a si, tendo a experiência provado que não se deixa assimilar e diluir pelas populações nativas. 

 

Propõe que os falantes de português se unam na sua defesa, não vendo como utopia ou sonho uma aliança entre Brasil e Portugal, “como não será um delírio ver no futuro o império português de África unido ao império português da América, estimulados pelo espírito da pequena terra da Europa que foi o berço de ambos”[4]

 

O reconhecer termos muito a aprender com os povos mais ricos, militarmente poderosos e industrialmente avançados, não o deslumbrou, não renegando as origens. Louva-lhes o mérito de um enorme progresso material, mas não os cobiça na sua arrogância de superioridade e hostilização não humanista.

 

O elemento germânico, que tem como superiormente dotado em termos étnicos, mas que, pela negativa, se não deixava assimilar e misturar pelas populações pátrias que o circundavam no Brasil, faz lembrar os medos e demónios que a Alemanha representou e representa para muitos, a começar pelos vizinhos, por confronto com o seu apreço. Mas  nunca o maravilhou. Ao invés de Portugal, não obstante a sua pequenez e a fraqueza de que então era portador como centro de poder. 

 

Parece um contra-senso, qual queda de um mito, a observação de que os emigrantes germânicos se fixavam preferencialmente no sul, em terras ricas e escolhidas a dedo, ao contrário dos portugueses, espalhados por todo o lado. Como que a inverter a fábula lafontaineana da formiga alemã que labuta, labuta, todo ano (e em toda a parte, presume-se), enquanto as cigarras do sul da Europa (incluindo Portugal, Espanha e, por arrastamento, os seus descendentes na América) andam sempre em folia e devem ser punidas. Apesar da História, como mestra da vida, nos ensinar que o ser-se mais ou menos civilizado e poderoso, varia no tempo e espaço, não sendo um dado adquirido para ninguém. Incluindo a Alemanha que, por muito forte e rica que seja, isolada pouco ou nada representa, a começar na União Europeia, onde se questiona, por agora, saber se está em causa a germanização da Europa ou a europeização daquela.

 

Constatando o desaparecimento gradual e total da língua portuguesa de certas zonas do Brasil, apesar de eterna em grande parte do país, conclui com a certeza de nunca vir a perecer entre a Galiza e a foz do Guadiana. Felizmente que tal receio não se concretizou, sendo o Brasil atual, como portador de todas as caraterísticas de uma potência emergente e continental, o maior protagonista da divulgação do nosso idioma comum à escala global, com base no critério da difusão mundial das línguas.

 

Ao promover um reencontro das origens e destino histórico do Brasil para os novos chamamentos competitivos no princípio do século XX, defendendo preferencialmente a utilidade de reforço do elemento português, sem que essa matriz nacional excluísse outros elementos que estiveram na base da sua formação e evolução, SR, para além de ser, eventualmente, o primeiro grande defensor da importância do contributo português na formação do povo brasileiro, foi também um precursor da lusofonia e da CPLP.

 

17.07.2018
Joaquim Miguel de Morgado Patrício

 

 

[1] Romero, Sylvio, O Elemento Portuguez no Brasil, Conferência (1902), Typographia da Companhia Nacional Editora, Conde Barão, 50, Lisboa.

[2] Idem, p. 6.

[3] Idem, pp. 20, 21.

[4] Idem, p. 32.

A LÍNGUA PORTUGUESA NO MUNDO

 

XXXIX - PORTUGAL E A PROMOÇÃO DO PORTUGUÊS

 

1. Na época dos impérios coloniais, a língua das metrópoles europeias, ou do centro, era companheira do império, numa conceção de imperialismo linguístico. 

Com a ascensão do Direito Internacional e das organizações internacionais, emergem vários agrupamentos de países em blocos de poder, blocos linguísticos aglutinados por um idioma comum, como a anglofonia, a hispanofonia, a lusofonia e a francofonia, com o mundo ocidental centrado e repartido em quatro línguas de comunicação global internacional: inglês, espanhol, português e francês.
A língua deixou de ser só nossa, passando a ser também nossa.
De uma visão nacionalista e patrimonial transitou-se para uma visão não patrimonial, transnacional, transcontinental, partilhada.
Quanto ao nosso idioma, partindo de uma perspetiva lusíada chegámos, em dado momento, a uma perspetiva lusófona e de exportação.

 

2. Tem entre oito a nove décadas a ação de Portugal no âmbito do ensino do português no estrangeiro. Primeiro sob a dependência da Junta de Educação Nacional (1929/36). Pela atividade do Instituto para a Alta Cultura (1936/52). De seguida pelo Instituto de Alta Cultura (1952/76). Passando a designar-se, ainda em 1976, por Instituto de Cultura Portuguesa, até 1980. Passa, depois, a Instituto e Cultura de Língua Portuguesa, até 1992, data em que nasce o atual Instituto Camões, ligado ao Ministério da Educação (1992/94) e, desde 1994, sob a tutoria do Ministério dos Negócios Estrangeiros.

Durante anos, promoveu-se a difusão e ensino do português numa perspetiva centrada no âmbito das comunidades portuguesas emigradas e no espaço dos países de língua oficial portuguesa, ou seja, numa visão centrada e integrada no espaço potencial dos seus próprios falantes, sem intenção de a difundir e promover fora desse espaço, o que perdura, no essencial, até ao programa do X Governo Constitucional (1985/7).
Prevalecia a ideia de que o português era uma língua confidencial, de consumo doméstico e interno dos seus falantes, e não um idioma de comunicação internacional que poderia ser falado como língua estrangeira, como sucedia com o francês e inglês.

 

3. Surge, pela primeira vez, entre nós, de modo inequívoco, como medida programática de uso do português como língua estrangeira, uma proposta global de reforma, de julho de 1988, da Comissão de Reforma do Sistema Educativo, via “utilização progressiva do Português como língua de comunicação internacional”.   

Esta linha programática pretende ultrapassar as fronteiras naturais dos seus falantes nativos, servindo de veículo de comunicação a outros falantes não nativos.
É a negação da manutenção do uso confidencial, paroquial ou regional da língua, de um sentimento de posse de quem se julga ser o seu único possuidor.
Num mundo globalizado, é uma visão redutora e simplista ver os recursos destinados à difusão e promoção da cultura e da língua portuguesa como fundos perdidos, desperdiçando um produto que para além de imagem de marca e simbólica, é um recurso económico com implicações tecnológicas e de imagem externa, como língua de comunicação global e de exportação à escala mundial. 

 

10.07.2018 
Joaquim Miguel de Morgado Patrício 

A LÍNGUA PORTUGUESA NO MUNDO

 

XXXVIII - HISPANOFONIA

 

A hispanofonia integra a comunidade linguística de todas as pessoas que têm em comum a língua espanhola, iniciada pelos falantes iniciais que a diáspora castelhana conquistou e espalhou pelo mundo, quer a nível da Península Ibérica (com a submissão, por Castela, de Leão, Navarra, Aragão, Catalunha, Granada), quer pelos descobrimentos, em especial nos países hispano falantes atualmente mais concentrados no continente americano.

 

O seu núcleo central e nuclear localiza-se atualmente nos países que têm o espanhol como língua materna, oficial ou dominante.

 

Além de Espanha, na Europa, e da Guiné Equatorial, em África, a sua implantação predomina nos países hispano-americanos, dispersos entre a América do Norte (México), Central (Guatemala, Belize, Honduras, El Salvador, Nicarágua, Costa Rica, Panamá, Cuba, República Dominicana, Porto Rico) e do Sul (Colômbia, Venezuela, Equador, Peru, Bolívia, Chile, Paraguai, Uruguai e Argentina).

 

Também a população de origem hispânica nos Estados Unidos tem vindo a aumentar, dada a emigração e a queda da taxa de natalidade da população nativa daquele país, o que não garante, por si só, uma ameaça para a língua inglesa, mas é um estímulo para a subida do espanhol à categoria de segundo idioma, com forte presença em regiões como a Califórnia e o Texas.

 

Refira-se, na Ásia, a substituição do espanhol pelo inglês nas Filipinas, uma antiga colónia espanhola após a invasão pelos Estados Unidos, em 1899.

 

O que não invalida que a língua espanhola seja a segunda mais falada e de maior projeção internacional do mundo ocidental.

 

Dado o número de países, sua estabilidade, identidade e número de falantes que têm o espanhol como idioma materno, oficial e nacional, é uma língua que não está ameaçada, nem em risco. Excetua-se a Guiné Equatorial, que ascendeu à independência apenas em 1968, estando linguisticamente isolada.

 

Em termos continentais, tem grande implantação apenas em dois continentes: na Europa e maioritariamente na América, ao invés do português, mais disseminado, pluralizado e universalizado por vários continentes, embora menos falada.

 

Comprovativo de que o espanhol vai ganhando força e espaço, é a expansão do Instituto Cervantes, com um orçamento mais agressivo e generoso que o do nosso Instituto Camões, sem nunca esquecer que os dois principais idiomas ibéricos (espanhol e português), para além de globais, são concorrentes entre si.

 

03.07.2018
Joaquim Miguel de Morgado Patrício