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Blogue do Centro Nacional de Cultura

Um espaço de encontro e de diálogo, em defesa de uma cultura livre e pluridisciplinar. Estamos certos de que o Centro Nacional de Cultura continuará, como há sete décadas, a dizer que a cultura em Portugal vale a pena!

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A LÍNGUA PORTUGUESA NO MUNDO

  


LXXXVIII - SÍNTESE AO REDOR DA LÍNGUA E DA LUSOFONIA
3. ALGUMAS BREVES PERSPETIVAS LINGUÍSTICAS E LUSÓFONAS


Rumo a uma visão mais abrangente, escreve Adelino Maltez: “Consideramos, com efeito, que a Comunidade Lusíada é um passo para a recriação do espaço maior, exigindo uma nova leitura da respublica christiana com a Ibéria, a América de Língua Portuguesa, a América de Língua Castelhana e a África dos PALOP e, portanto, a criação de uma comunidade onde a união ibérica se extinguiria como fantasma, porque é mais aquilo que, pelo futuro nos une, do que aquilo que, no passado, nos dividia”.[1]


Temos responsabilidades históricas para com outros povos com que partilhamos um idioma comum, estando em causa o futuro da lusofonia, agudizado por Castela, com a sua mentalidade altiva e imperial, que dificilmente a abandonará. O que não exclui a recriação de um espaço maior predominantemente lusófono, liderado por um lusófono, potencialmente o Brasil, por se nos afigurar ser portador, em termos de ser e dever ser, de maior tolerância e humanismo, por confronto com uma hipotética liderança de raiz castelhana.


Refira-se o texto de uma autora polaca onde sobressai a ideia de que na Europa de leste se formou a crença de que “(…) o imperialismo e a Lenda Negra de Portugal não constituíam uma realidade tão grave como a de Espanha. A convicção apoiava-se em elementos da automitificação portuguesa incluindo a famosa “Carta de Pero Vaz de Caminha” que apresentava o primeiro contacto com os recém-chegados portugueses e os índios do Brasil como verdadeiramente excecional, produtivo e pacífico”[2] (em confronto com o relato desumano de Bartolomeu de Las Casas). E acrescenta: “Na Polónia, a Lenda Negra ligada a Espanha direcionou a nobreza para o exemplo da expansão portuguesa a Oriente, considerada menos culposa e mais atraente, especialmente devido às viagens de Vasco da Gama ou ao povoamento de ilhas desabitadas, mais do que a sua colonização na América do Sul”[3], além do contraste intra-ibérico das corridas de touros.


O que não significa que Portugal e demais mundo lusófono se devam sentir orgulhosamente sós. Justifica-se, sim, que possam dialogar com outros espaços, em igualdade, numa perspetiva de humanismo universal.


O conceito de lusofonia, além de ter em si o significado de um espaço geolinguístico, baseia-se no reconhecimento de um universo comunicacional real da língua portuguesa e no assumir dos benefícios dos dinamismos que um bloco linguístico-económico-cultural comporta, de uma realidade complexa plasmada na aceitação de um idioma comum como oficial, que outros blocos comprovam como útil, sob pena de se beneficiarem interesses de terceiros, também eles fundados no mesmo conceito linguístico-estratégico. 


Não se esgota no uso de uma língua comum, mas de tudo o que o diálogo por ela facilitado proporciona: na aproximação dos povos e países, na ciência, na economia, na política, no desporto, em todos os alinhamentos. 


Todavia, é óbvio que, por serem tais aproximações e parcerias facilitadas pela língua, ela assume uma importância básica e prévia a quaisquer entendimentos. Natural e lógico que as primeiras preocupações lusófonas se voltem para as questões linguísticas, da sua defesa, difusão, enriquecimento e ensino.


Se a adoção do português foi um ato de soberania, a do termo lusofonia não resultou de iniciativa própria ou comum de todos os seus destinatários. Se é verdade que o conceito de língua portuguesa é tido como objetivamente linguístico e politicamente neutro,  é verdade que não existe essa consensualidade no que toca ao de lusofonia.


25.02.2022
Joaquim Miguel de Morgado Patrício

 

[1] Curso de Relações Internacionais, Principia, p. 341.
[2] Cieszynska, Beata Elzbieta, O(s) mito(s) da Península Ibérica na Polónia e em outros países do antigo “Bloco de Leste”, p. 56, no livro Europa de Leste e Portugal, Esfera do Caos, 1.ª edição, 2010, tendo como coordenadores José Eduardo Franco, Teresa Pinheiro e a autora ora citada.
[3] Ibidem, p. 60.

A LÍNGUA PORTUGUESA NO MUNDO

  


LXXXVII - SÍNTESE AO REDOR DA LÍNGUA E DA LUSOFONIA
2. ANÁLISE CRÍTICA DAS CRÍTICAS (II)


Quanto ao argumento da pretensa superioridade da norma culta e literata do português padrão, vários povos se apropriaram voluntariamente da língua portuguesa de modos plurais, imprimindo-lhe a variedade das suas experiências e enriquecendo-a. Este idioma comum foi recriado em cada continente, adaptando-o e integrando-o nas particularidades locais, alterando-lhe o ritmo, modulação, pronúncia, sonoridade, diversificando-se na sua unidade. 

O que a lusofonia deve exprimir (e a CPLP institucionalizar) é essa globalidade de diferentes falares, não excluindo, se necessário, um acordo entre comunidades e países lusófonos, uniformizando o essencial, como no vocabulário técnico-científico. 

Em relação ao contra-ataque cultural de que a lusofonia (e CPLP) tem sido vítima, via celebração prioritária das literaturas portuguesa e brasileira, e só depois das africanas, refira-se que cada vez mais a atual literatura de ex-potências coloniais tem como protagonistas autores de origem africana e asiática. São novos escritores “europeus” usando a literatura como afirmação identitária e modo de interpelar o seu espaço de origem no país onde nasceram ou vivem. Veja-se, entre nós, o escritor Agualusa. Na música Mariza, Sara Tavares, a notória recetividade da música brasileira, a par do pintor moçambicano Roberto Chichorro. O mesmo em França, Inglaterra e Holanda. 

A crítica duma presumível superioridade do português europeu omite que o futuro da   globalização e internacionalização da língua portuguesa será operada maioritariamente de fora da Europa, no essencial a partir do Brasil e em África, mormente de países portadores de caraterísticas a potências emergentes. 

Num certo sentido, o fim do colonialismo transformou os pretéritos colonizadores em territórios “colonizados” pelas anteriores possessões coloniais, sendo estas uma certa continuidade daqueles e algumas delas as novas potências do futuro.    

 

18.02.2022
Joaquim Miguel de Morgado Patrício 

A LÍNGUA PORTUGUESA NO MUNDO


LXXXVI - SÍNTESE AO REDOR DA LÍNGUA E DA LUSOFONIA

2. ANÁLISE CRÍTICA DAS CRÍTICAS (I)


Tendo uma perspetiva crítica sobre as críticas anteriormente expostas, é redutora uma visão segundo a qual a lusofonia é uma tentativa de Portugal manter o neocolonialismo, com sobranceria em relação aos demais países que falam português. 

O pretenso colonizador e o fictício império já não existem, sendo a língua  apenas também nossa, não se vendo que Portugal tenha força para uma legitimação neocolonialista e impor-se como “força imperial” através da “língua do colonizador”.[1]   

O poder de hegemonia colonial português nunca teve a densidade do inglês ou francês, com a agravante de que a defender-se haver uma tentativa neocolonialista portuguesa, é legítimo perguntar se faz sentido em relação a uma ex-colónia como o Brasil, sabido que, de momento, o futuro da lusofonia está essencialmente dependente do interesse que tal país tiver por ela.

O mesmo releva quanto a outras ex-colónias que no futuro tenham potencialidades para se afirmarem e concorrerem por essa pretensa hegemonia, como é o caso de Angola. Já existe uma ex-colónia britânica que se impôs à ex-potência colonizadora, caso dos Estados Unidos da América, não pertencente à Commonwealth. Por que não o Brasil em relação ao espaço lusófono? Será pelo facto de já ter sido colónia portuguesa que não se lhe pode aplicar tal raciocínio?     

Não  serão os “descendentes” da Europa os novos impérios linguísticos do futuro?

Acresce que, se tudo indicia tentativas neocolonialistas, há também quem contra-argumente que os lusófonos e países da CPLP mais pobres só se interessam por tais realidades na medida em que as possam instrumentalizar em seu benefício. 

E no que toca aos países africanos em especial (para além de Timor Leste, na Ásia), foram eles que voluntariamente viram na língua portuguesa um instrumento de inclusão, de identidade e unidade nacional, sobressaindo o exemplo angolano, em que após a independência era segunda língua, priorizando-se os idiomas nacionais, tidos como afirmação identitária, que acabaram por falhar.

O próprio Alfredo Margarido, ao falar no novo estatuto de “língua imperial” do nosso idioma, realça que foram também as elites africanas (e portuguesas) que se apressaram a organizar uma justificação para a força agregadora do português.

Amílcar Cabral reconheceu que o português foi uma coisa boa que os “tugas” deixaram,  questionando se tudo o que vem do ex-colonizador é mau.

 

11.02.2022
Joaquim Miguel de Morgado Patrício

 

[1] Margarido, Alfredo, ibidem, Edições Universitárias Lusófonas, 1.ª edição, 2000, p. 76.

A LÍNGUA PORTUGUESA NO MUNDO


LXXXV - SÍNTESE AO REDOR DA LÍNGUA E DA LUSOFONIA

1. CRÍTICAS À LUSOFONIA


Há quem entenda a lusofonia como um sonho inatingível, retórica imaginada que tem mais de ficção que realidade, uma tentativa de reconstruir um ente pós-colonial com capacidade para anular e compensar o efeito erosivo da globalização e a marginalidade portuguesa no seio da União Europeia, uma criação meta-histórica que funciona como sucedâneo do império perdido no imaginário coletivo português. 

Trata-se sempre, e no essencial, de uma quimera, de uma invenção, de uma imaginação, de um mito, pretendendo devolver aos portugueses a convicção de que, tendo perdido o império, a guerra colonial e as colónias, não deixaram de manter o seu centro e hegemonia, mesmo que reduzido a estruturas simbólicas.

Um novo centro de que Portugal se socorreu para contrabalançar a sua periferia europeia, havendo quem o veja como uma estrutura que tem por fim preparar as condições do neocolonialismo. 

Portugal tornou-se, a partir do século XV, numa potência mundial, fazendo com que o seu idioma se tornasse uma língua franca no âmbito da economia, comércio e diplomacia, o que fez com que os portugueses interiorizassem esse desígnio de grandeza histórica que os impede de ser contidos no apertado retângulo do seu território, mesmo após o desaparecimento de tal poder.

Independentes as ex-colónias, os interesses das ex-potências, incluindo Portugal, desenharam uma estratégia de continuidade com outra roupagem, configurando um novo modelo que tomou o nome de comunidade linguística.

Ao colonialismo clássico seguiu-se o neocolonialismo. 

Trata-se, quase sempre, de um discurso lusófono efusivo e de um comovente vazio, do Mundo que o Português criou, da ação civilizadora dos portugueses, garantindo-se que Portugal não pretende ser, a qualquer título, o centro do que quer que seja.   

Eduardo Lourenço, por exemplo, tendo como adquirida a ausência de um “destino” para o povo português, e, como corolário, que não é mais heroico, sábio ou virtuoso que outros povos, vê a lusofonia como um mito cultural português recente, uma nova projeção imperial, expurgando-o de teorias emotivas, míticas ou messiânicas.  

A celebrada alma portuguesa repartida, evocada por Camões, foi, sobretudo, língua deixada pelo mundo, que não é propriedade de ninguém, sendo sempre dona de quem a fala, razão pela qual não admitindo o espaço lusófono a unicidade de uma só cultura, tem de ser apenas o espaço da língua portuguesa. Na sua obra Imagem e Miragem da Lusofonia, diz que a comunidade luso-brasileira é um mito criado pelos portugueses, e que Portugal não tem lugar no mais sincero sonho brasileiro. 

Mais contundente é o ensaísta Alfredo Margarido. No seu livro A Lusofonia e os Lusófonos: Novos Mitos Portugueses, alude à redescoberta da língua portuguesa como uma força ou língua imperial, em que a retórica da lusofonia estabelece o ponto de observação privilegiado a partir do qual se fixam as formas corretas pelas quais se devem guiar todas as demais manifestações linguísticas.  

Língua imperial” equivalente a “língua do colonizador”, impondo-se como língua homo-hegemónica, em que a lusofonia atua em nome da uniformidade, fixando a norma e anulando os dialetos, preparando o neocolonialismo, neste caso português, à semelhança da mais recente época colonial, em que aos africanos não era dada a possibilidade de gerir o português ao seu modo.

 

04.02.2022
Joaquim Miguel de Morgado Patrício

A LÍNGUA PORTUGUESA NO MUNDO


LXXXIV - AFETOS LINGUÍSTICOS E (NÃO) ESTRATÉGIA


Os afetos existem e são fundamentais.

Os afetos linguísticos não são muito diferentes daquilo que se passa entre pessoas. Por vezes estamos apaixonados, amanhã divorciados.  

Tem de haver um conhecimento contínuo de um reconhecimento recíproco atualizado permanentemente.

Mas não há uma sensibilidade política e da sociedade civil para facilitar uma cooperação lusófona, atentas as dificuldades burocráticas para quebrar as barreiras alfandegárias institucionalizadas, mesmo em termos estritamente culturais, apesar de o fator língua agarrar mais de perto tal realidade.

Também há alunos lusófonos, nomeadamente dos PALOP, que tendem a diminuir os seus estudos em Portugal, não pela ausência de afetos, mas porque querem dominar o inglês, tido como língua global.  

Toda a cooperação é interessada, no sentido de eficaz, trabalhada, pois se o não for não é cooperação.   

Não podemos utilizar os afetos para ocultarmos incompetências.   

Não há estratégia? Porquê?  

É porque se não quer ter estratégia?    

A própria ausência de estratégia é uma estratégia.  

Essa estratégia global deve ter várias estratégias. 

Mas o discurso dos afetos permanece, mesmo que de quando em quando, o mesmo sucedendo nas relações pessoais.

Oculta, por vezes, um mero interesse de natureza comercial ou económica, o que é redutor e acaba por prejudicar.

 

28.01.22
Joaquim Miguel de Morgado Patrício

A LÍNGUA PORTUGUESA NO MUNDO


LXXXIII - O VÍRUS DO ANGLICISMO


Saber inglês é hoje uma ferramenta necessária para quem estuda, investiga, trabalha, viaja e tem de ter acesso ao mundo globalizado. Em todas as épocas há uma língua franca, sendo a de hoje o inglês.


Os avanços técnico-científicos permitiram uma globalização que possibilitou uma maior proximidade, em que o inglês foi promovido a língua dominante nas empresas que controlam a produção, beneficiando-o nos impressos e folhas de instruções, nas etiquetas, caixas, distribuição, transportes, publicidade, ou seja, em todas as apresentações e disponibilização do produto desde a origem ao consumidor. 


Esta permissividade tem condições especialmente favoráveis em países que têm falta de autoestima ou uma fraca imagem de si em termos económicos, onde o estrangeiro associado aos mais ricos é que é bom, sinónimo de culto, moderno, desenvolvimento e prestígio. Por vezes há ausência de legislação obrigatória quanto ao uso da língua materna ou oficial nas instruções e nos rótulos dos produtos importados. E quando há legislação, nem sempre os entes competentes a fazem cumprir, sendo injustificável que se invoquem dificuldades na sua implementação ou fiscalização. Não fazer cumprir uma lei também é uma opção e estratégia, tida como uma mera exigência do politicamente correto, sem conteúdo prático.  


Por questões de imagem e de redução de custos, a língua da empresa é a da casa mãe, que não se compadece com traduções, com perda de tempo e de dinheiro, o que é agudizado pelo facto de, no atual momento económico, a sua sede ter a maior probabilidade de ser num país anglófono, ou que tenha tão só o inglês como língua de comunicação global.


Opta-se quase sempre pelo idioma tido internacionalmente como mais conveniente, o das empresas multinacionais, em que a língua da empresa é a do país onde está a inovação criativa e o dinheiro, sendo a língua do poder.


Esta imposição do inglês como língua económica, cultural e política, é tida, por vários autores, como imperialismo linguístico e um vírus do anglicismo. 


O uso de palavras ou frases estrangeiras no nosso dia a dia, por necessidade ou diversão, não é censurável. O seu abuso, sim, nomeadamente do inglês, sob uma capa apelativa da modernidade, como o exemplificam, entre nós, tantos concursos televisivos, desde o Big Brother, Got Talent Portugal, The Voice Portugal, The Voice Kids, Love on Top, All Together Now, Fama Show, TV Shop, Kitchen Team, Hell`s Kitchen, etc.


Agudizado pelo linguajar e a gíria que usa e abusa de anglicismos na economia, gestão, cultura, ensino, política, novos condomínios de luxo ou de topo, recentes urbanizações universitárias, muitos deles desnecessários ou por preguiça em não encontrar designação adequada no nosso idioma. Ou sem haver a preocupação de pedir ajuda a linguistas ou instituições vocacionadas para o efeito, embora estas devessem estar atentas e antecipar-se a uma cada vez mais virulenta massificação, fazendo falta uma academia que se ocupasse das respetivas traduções, quando necessário. Por que não o Instituto Internacional da Língua Portuguesa, ou similar, no âmbito da CPLP?  


Porquê ficarmo-nos cada vez mais por uma língua estrangeira em novos termos e expressões de avanços técnico-científicos, económicos, financeiros, de gestão, entre outras áreas?


O que é agravado pela abdicação a que chegou o público ao excluir, pela primeira vez, a língua portuguesa para o festival da eurodemissão. 


Há que estabelecer regras e prioridades, não queiramos ser universais sem diversidade, pois a indiferença, o desdém e a tontice pela nossa língua, ignorando-a ou marginalizando-a, farão o resto.

 

18.06.2021
Joaquim Miguel de Morgado Patrício

A LÍNGUA PORTUGUESA NO MUNDO


LXXXII - LÍNGUA GLOBAL E DE COMUNICAÇÃO GLOBAL


Ser língua global não é sinónimo de língua de comunicação global ou internacional.


O português é uma língua global e pluricontinental, disseminado territorialmente pela África, América, Ásia e Europa, o que significa que é um idioma falado por países e comunidades que o têm como idioma materno, veicular ou oficial em vários continentes.    


Mas ser um idioma em circuito fechado, sem extravasar os falantes indígenas ou nativos, não conduz a que uma língua seja tida como de comunicação global, já que, para tanto, é necessário que os seus utilizadores estejam para além dos seus limites territoriais enquanto língua nativa ou oficial.     


O inglês não é uma língua de comunicação global ou internacional porque é falado no Reino Unido, nos Estados Unidos da América, no Canadá, na África do Sul, na Austrália, onde é língua materna e oficial, o que faz dele uma língua global. 


O que o torna uma língua de comunicação global é ser falado por portugueses, espanhóis, franceses, alemães, japoneses ou chineses. O mesmo sucede com o português, francês, chinês ou japonês.  


Para o Instituto Camões, “A presença do ensino de português no mundo deve ser avaliada preferencialmente pelo número de cursos e de alunos de português e não pelo número de professores portugueses deslocados no estrangeiro. É a capacidade de o impormos como língua veicular de várias culturas e políticas que importa”


O que nem sempre é feito, ou é-o muito deficientemente, em que a ausência de política também é uma política, entregando-a à natureza das coisas.     


A maioria da importância atribuída à língua portuguesa não resulta sobretudo de Portugal, mas do peso dos países que a falam.   


Por exemplo, o português, em Macau, não tem um futuro de permanência espontânea, porque a comunidade portuguesa aí residente tende a diminuir ou a extinguir-se, o mesmo sucedendo com os luso-descendentes. O interesse pelo qual a China aí fomenta a sua aprendizagem e o seu ensino, relaciona-se com os países ex-colonizados por Portugal, nomeadamente o Brasil, promovendo o português a língua de trabalho e de comunicação global ou internacional.

 

11.06.2021
Joaquim Miguel de Morgado Patrício

A LÍNGUA PORTUGUESA NO MUNDO

 

LXXXI - INTERNACIONALIZAR E ANGLICIZAR


O fim da segunda guerra mundial foi, sobretudo, a vitória dos aliados anglófonos e, por arrastamento, da língua inglesa.


A ideia que prevalece é a de que os que detêm o poder impõem a sua língua.


Mas há que ter presente que nem sempre a língua dos conquistadores acabou por se impor, como resulta das invasões bárbaras, que ditaram a queda do império romano, em que os conquistadores adotaram a língua dos conquistados, cedendo-lhe contributos que foram causa de modificações que o latim viria a manifestar.


Decisiva foi a intervenção americana na segunda grande guerra, cuja economia estava em condições de acudir à devastação gerada, trazendo com ela o inglês, a língua dos vencedores.


Os defensores e promotores do inglês continuam a confiar na onda e imagem que impele as instituições e organizações internacionais a restringirem, na prática, cada vez mais o acesso de outras línguas.


Mesmo na União Europeia usar o inglês é tido como mais barato do que permitir o uso de outras línguas, tido como ruinoso a nível de custos, o que não vai mudar com o Brexit, embora a língua inglesa só seja idioma oficial da Irlanda, com menos falantes que Portugal.


Há um assumir, cada vez mais banalizado, de uma caminhada do inglês como idioma oficial internacional, internacionalizando-o como língua dominante, a par da materna, a ser aprendido desde os primeiros anos de escolaridade, o que é facilitado, para as crianças, pela quase totalidade dos produtos de entretenimento, gerando a ideia geral, em vários países, incluindo o nosso, de que pessoas até aos 40 anos compreendem e leem em inglês, o que não é verdade.


Fala-se em “imperialismo anglófono”, “englofonite endémica”, língua hegemónica de caraterísticas glotofágicas, “erva daninha” que provoca o definhamento e desaparecimento das outras, alterando o equilíbrio ecológico no domínio linguístico, idioma quase exclusivo em áreas científicas, potenciado por políticas de avaliação universitária, que beneficiam a publicação em inglês em editoras e revistas internacionais, com universidades cada vez menos instituições de ensino superior e cada vez mais vocacionadas na captação de fundos para investigação.


Goste-se ou não, o inglês é a língua franca, o que não exclui que se evitem exageros e condescendências absurdas, estabelecendo prioridades e equilíbrios, desde a promoção bilingue em trabalhos académicos e científicos, à promoção do multilinguismo em conferências internacionais, sem esquecer que entre os estudantes universitários estrangeiros que frequentam as nossas universidades há os provenientes dos países de língua portuguesa, não se internacionalizando o nosso ensino superior ensinando-os e forçando-os a aprender em inglês.


Internacionalizar não é só anglicizar o conhecimento e o saber.


Internacionalizar é também, e por maioria de razão, dotar a língua portuguesa (já uma língua internacional), de recursos materiais, científicos e humanos que lhe permitam ser um meio de acesso ao conhecimento e ao saber, veículo de ciência e tecnologia acessível a todos os seus falantes, a começar pelos seus nativos.


O que significa que o português é sempre essencial e nunca pode ser menosprezado, sendo certo que dominar o inglês é uma ferramenta que nos torna mais competitivos a nível internacional.

 

09.04.21
Joaquim Miguel de Morgado Patrício

A LÍNGUA PORTUGUESA NO MUNDO


LXXX - REPRESENTANDO O OFICIAL E O REAL


Nem sempre o número de países que cada potência colonial gerou é proporcional ao de falantes.  


Por exemplo, o francês tem menos falantes como língua materna ou segunda que o português, mas gerou quatro vezes mais países do que aqueles que têm o nosso idioma como oficial ou língua segunda, o que lhe dá maior projeção e prestígio nos fóruns e organizações internacionais permitindo-lhe, até hoje, ser a segunda língua oficial mais representativa a seguir ao inglês.   


Como consequência de um passado colonial ligado à França e à Bélgica, há entre 25 a 30 países que têm o francês como língua oficial. Além da França, Bélgica,  Luxemburgo, Suíça e Mónaco (na Europa), há mais de vinte países africanos, o Canadá (Quebeque), apesar de haver países árabes, colonizados pela França, que não adotaram o francês como língua oficial. 


Portugal, enquanto império colonial, defendeu a unidade administrativa e política das suas colónias, atendendo apenas à sua descontinuidade geográfica, o que se repercutiu no número de países gerado pela sua descolonização.  


Ao invés do processo de descolonização espanhol na América Latina, que originou uma pulverização nacionalista de vários países, o mesmo não sucedeu com o Brasil, apesar das tentativas no Rio Grande do Sul entre 1835 e 1845 e na então província do Grão-Pará, para bem da unidade brasileira, mas que do ponto de vista estratégico e pela frieza e natural força representativa dos números seria mais benéfico para a língua portuguesa. Não teríamos hoje, porém, um país com a dimensão continental e potencialidades que o Brasil tem.       


Há uma acentuada diferença entre o oficial e o real, daí resultando vantagens e desvantagens consoante o contexto, estratégia e perspetiva, com reflexos inerentes à representatividade linguística global dos vários idiomas.

02.04.2021
Joaquim Miguel de Morgado Patrício

A LÍNGUA PORTUGUESA NO MUNDO


LXXIX - FONIAS “BOAS” E “MÁS”


Há teorias, tipo imperialista, que defendem haver línguas superiores, eleitas, mais perfeitas, coerentes e harmoniosas, baseadas na sua perfeição intrínseca, na superioridade de um povo, de uma raça, face às quais cedem as línguas inferiores e imperfeitas.   


O mesmo sucede para quem defende a teoria das línguas ricas e desenvolvidas, por confronto com as pobres e subdesenvolvidas.   


A ser assim, um país pobre, subdesenvolvido ou em vias de desenvolvimento, não falante de uma língua de eleição ou superior, deveria juntar-se ao grupo de línguas ricas e de países desenvolvidos.      


Sucede, porém, que apesar da maioria dos países africanos terem como língua oficial o francês e o inglês, nenhum deles consta do grupo dos países mais desenvolvidos e ricos, embora contribuam com os seus recursos naturais para o desenvolvimento e riqueza daqueles.      


Conclui-se, assim, que não é suficiente falar e ter como idioma oficial o inglês ou o francês para se chegar a desenvolvido e rico mais depressa. 


E aceitar que há fonias “boas” e “más” é não querer perceber a estratégia e dinâmica dos blocos, ou estar ao serviço das supostas “boas”, colocando as presumíveis “más” numa inaceitável posição de subalternidade e subserviência.  


Daí que quando se fala em anglofonia, francofonia ou lusofonia, o importante é o que tais conceitos encerram como definição de espaço linguístico.

 

26.03.21
Joaquim Miguel de Morgado Patrício