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Blogue do Centro Nacional de Cultura

Um espaço de encontro e de diálogo, em defesa de uma cultura livre e pluridisciplinar. Estamos certos de que o Centro Nacional de Cultura continuará, como há sete décadas, a dizer que a cultura em Portugal vale a pena!

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ANTOLOGIA

  


A PALAVRA DE JOÃO BÉNARD DA COSTA
A GRAVIDADE E A GRAÇA


1 -
 Antigamente, era lamúria de lavradores. Todos os anos eram maus, sobretudo todos eram piores do que o ano passado, que já tinha sido péssimo. Agora, continuam a ser os lavradores - ao que parece, espécie em vias de extinção - mas também todos os que não são lavradores. Por exemplo, e para me acercar do meu terreno de hoje, os editores e livreiros. 

Não há ninguém que não vos diga que "isto" é um "sítio" de analfabetos (até os analfabetos). Nunca se venderam menos livros, nunca se leram menos livros, etc, etc. À primeira vista, parece que têm carradas de razão. Basta entrar numa livraria (das raras sobreviventes, fora das muralhas dos "centros comerciais") à busca de um livro que não seja o último de Margarida Rebelo Pinto ou de Paulo Coelho. Ou nos respondem logo que não há ou está esgotado, ou nos fazem perder 20 minutos diante de um computador, em aparente e opaca pesquisa, para chegar à mesma conclusão. Sobretudo se o livro procurado for "velho" (por "velho" se entendendo tudo o que foi publicado há mais de seis meses). Pior ainda, se for um "clássico". Pois, pois. Mas é igualmente certo, por razões misteriosas e plurilaterais, que é raro o mês que não se editam obras obnóxias, que aparecem e desaparecem vertiginosamente, sobretudo para a banda das traduções. Para além da minha própria experiência (e quantas boas surpresas não tenho tido!), verifica-se, de cada vez que faço a asneira de escrever, por aqui ou por ali, que saiu a primeira tradução portuguesa do livro de A ou de B. O meu correio de leitores aumenta logo, com editores a corrigir-me certeiramente, lembrando que A ou B já foram publicados por eles, em 1979, em 1987, em 1993 ou em 2001. Envergonhado, peço desculpa e vou à procura. Inútil procura. Levaram sumiço. A única hipótese é a Feira do Livro, mas mesma dessa me dizem que nunca correu pior. Quando me tentam pacientemente explicar o que sucede, a explicação foi ainda mais misteriosa do que o facto. Mas hoje não venho para maledicências, antes para estimas. E estimei - estimei mesmo muito - quando o Jorge Silva Melo me disse que tinha acabado de sair na Relógio d'Água (numa coleção chamada Antropos) "A Gravidade e a Graça", tradução portuguesa de Dóris Graça Dias de "La Pesanteur et la Grâce" de Simone Weil. Simone Weil, finalmente em português (não ouso dizer que em vez primeira, mas é verdade que não me recordo doutras) neste ano de 2004? Bem verdade! Graças a Deus!


2 -
 Alguns portugueses conhecerão de nome Simone Veil, política francesa de certo destaque, que, sendo bem da direita, se celebrizou, enquanto ministra, por ter feito passar a lei que despenalizou o aborto em França e que é, "de certo modo, uma pessoa respeitável", como José Miguel Júdice disse que Álvaro Cunhal é. Muitos menos conhecerão Simone Weil (1909-1943) que, de comum com ela, só tem o primeiro nome, um apelido parecido e a origem judia. O livro da Relógio d'Água não ajuda muito. A um curto excerto, na contracapa, do texto de George Steiner "Simone Weil's Philosophy of Culture" se reduz a informação disponibilizada. Nem prefácio, nem mais nada. Como se abundassem em Portugal os leitores para os quais "La Pesanteur et la Grâce" faça parte dos "encontros primordiais" e se conte entre esses "raros livros que nos pode acompanhar ao longo da vida". Sucede - não desfazendo - que esse é o meu caso e que a descoberta de Simone Weil - lá volto eu aos anos 50 - marcou mesmo a minha vida. Por isso "aqui estou", como Jesus disse à criança, por isso fiquei feliz quando soube do caso e caso o é. 

E jorraram em catadupa muitas e antiquíssimas memórias. Nos bons tempos da Morais e do "Círculo do Humanismo Cristão", do António Alçada e do Pedro Tamen, Simone Weil, santa da casa, foi convocada, como não podia deixar de o ser. Como me pediram a mim um livro sobre Mounier, pediram ao M.S. Lourenço - de todos nós, quem a conhecia melhor - um livro sobre Simone Weil, introdução à obra dela, com ampla antologia de textos. O M.S. Lourenço fê-lo. Mas nem o António nem o Pedro gostaram do resultado. Se Simone Weil já não era muito ortodoxa - ela que se recusou a entrar na Igreja, permanecendo no limiar, imóvel, en "úpomoné" (na expectativa) "para assim ficar ao lado de todos os que não puderam entrar no recetáculo universal da Igreja" - M.S. Lourenço foi achado heterodoxíssimo. Já bastavam à Morais trapalhadas políticas com a Igreja. Trapalhadas teológicas (um famoso comentário ao Padre Nosso que "O Tempo e o Modo" publicou, oito anos depois, no caderno "Deus O Que É?") pareceram-lhes ultrapassar as marcas. O livro, chamado "O Possível e o Impossível", foi achado impossível. Ficou eternamente no prelo. Descobri agora, quando o pedi ao autor, para beber da fonte e para comparar a tradução dele com a de Dóris Graça Dias, que nem mesmo ele o tem. Eu, que julgava ter cópia do original, também não a achei. Quem sabe se existe traço desse primeiro coiso interrompido entre um português e Simone Weil? Talvez não. Perdemos tudo. 
É certo - lembro-me agora, recuperada a memória ao correr da pena - que uns anos depois (1967, salvo erro) a Morais publicou dela "Opressão e Liberdade", em tradução de Maria Velho da Costa (eu não vos dizia que há sempre um antes da primeira vez?). Mas se é admirável obra, não o é ao plano de "La Pesanteur et la Grâce". Ou de "Atteinte de Dieu". Ou da "Lettre à un religieux". Esses, sim, os cumes do que abusivamente chamo a "teologia negativa" de Simone Weil.


3 -
 Chegou a altura de vos dizer um pouco quem foi Simone Weil. Antes de se licenciar em Filosofia em 1925 (aos 16 anos) já a sua "excentricidade" e a sua cultura tinham dado que falar. Diz-se que, aos cinco anos, se recusava a comer açúcar porque os soldados de 1914 também o não comiam, como se diz que, aos seis, sabia Racine de cor. Não são só anedotas. O sofrimento do mundo e o mundo da cultura foram obsessões perenes dela. Professora de Filosofia, trocou uma carreira brilhante por um emprego humilhante numa fábrica de automóveis, para viver entre os operários. Teve um breve namoro marxista, mas, em 1932, já perdera as ilusões sobre o "paraíso soviético" e já achava que revolução era termo sem conteúdo algum. "O progresso, se se quiser falar em termos rigorosamente matemáticos, é uma regressão" e a classe operária não era portadora de salvação. Doentíssima, desde muito nova quase não comia, para saber, no corpo, o que era a fome. 

Em 1936, juntou-se em Espanha a um grupo anarquista, mas o seu pacifismo proibiu-lhe combater e depressa se desentendeu com os novos companheiros. Foi então que veio até Portugal. Escreveu: "O que eu sofri nessa ocasião marcou-me de uma forma muito particular e muito profunda, de tal modo que, ainda hoje, quando um ser humano qualquer, em quaisquer circunstâncias, me fala sem brutalidade, não consigo deixar de pensar que há um engano, engano que, infelizmente, vai acabar. Desde a minha vida como operária, recebi para sempre a marca da escravidão, como a marca de ferro em brasa que os romanos impunham aos escravos mais desprezados. Desde esse momento, considero-me, também, escrava. Foi nesse estado de espírito e num estado físico miserável, que cheguei, sozinha, numa noite de lua cheia, a uma aldeiazinha portuguesa muito miserável. As mulheres dos pescadores iam numa procissão, em torno dos barcos, com velas acesas, cantando cantigas certamente antiquíssimas e de uma tristeza lancinante. Nada pode servir para dar uma ideia. Nunca ouvi coisa alguma tão triste, exceto os cânticos dos barqueiros do Volga. Foi aí que tive, subitamente, a certeza de que o cristianismo é a religião dos escravos, a religião a que os escravos, ou eu ou os outros, se não podem recusar." Data desse período (entre 1938 e 1940) a sua aproximação ao catolicismo, como desses anos data a maior parte dos seus escritos místicos e filosóficos numa produção teórica quantitativa e qualitativamente inacreditável, que alguns aproximaram de espiritualidade cátara e outros da ascese da patrística grega ("La Source Grecqe" é outra das suas obras maiores). Mas, de uma obra com 18 títulos (só reunida em edição definitiva em 1999), nada publicou em vida. 
Fugiu de Paris quando os alemães chegaram, depois de escrever "Quelques reflections sur les origines de l'hitlerisme" e fixou-se em Marselha, onde dirigiu os "Cahiers du Sud". Recusou-se ao baptismo, para não se separar do povo judeu perseguido. Em 1942, fixou-se nos Estados Unidos, mas pouco se demorou, decidida a reunir-se à França livre em Inglaterra. Desentendeu-se também com os gaulistas. Tuberculosa, morreu aos 34 anos, num sanatório em Ashford. O seu primeiro livro - justamente este que acaba de sair em Portugal - publicou-se em 1947.


4 -
 Foi nos anos 50, simultaneamente em França e em Inglaterra (Simone Weil foi dos raros pensadores franceses do século XX a conhecer enorme projeção em Inglaterra), que começou a fama dela, para a qual Graham Greene contribuiu poderosamente. 

Heterodoxa politicamente, heterodoxa teologicamente, heterodoxa filosoficamente, creio que foi a confluência entre "a truer liberty" e a "silent question", a que se referiu Buber, que suscitaram a paixão de alguns em Portugal, nos idos de 50 ou desde os idos de 50 até hoje. 
Isso e aquilo a que ela chamou o "ateísmo purificador". Gosto de terminar, citando o primeiro parágrafo do capitulo de "A Gravidade e a Graça", que tem exatamente aquele título. Onde ela diz o que dela mais tenho citado ao longo da minha vida e que transcrevo, por fidelidade e por gosto, na tradução de M.S. Lourenço: "Estou certa de que não existe Deus no sentido em que estou certa de que nada de real se assemelha àquilo que eu concebo quando pronuncio esse nome. Mas aquilo que eu não posso conceber não é uma ilusão."

 

João Bénard da Costa
4 de junho 2004 in Público

ANTOLOGIA


A PALAVRA DE JOÃO BÉNARD DA COSTA
A POESIA DA MORTE

1 - Os meus avós paternos tiveram nove filhos, nascidos entre 1880 e 1900. Nada de excecional, nesses tempos e no meio social que era o deles. Mais excecional é que desses nove, oito tenham chegado a adultos, já que "isso de crianças morre muito" como dizia uma velha criada minha, também vinda desses tempos. Só um morreu no berço, aos seis meses, e sempre me fez confusão que me falassem desse bebé dos retratos, com o pomposo nome de Tio Mário. É indiscutível que era meu tio, mas nunca consegui ultrapassar a desproporção entre o grau de tio e os degraus onde ele nem sequer chegou a brincar. Coisas de crianças, para usar um plural abusivo, pois que dele não foram certamente. 
Numa família tão dada ao culto dos mortos, falava-se pouco dele. Os quatro irmãos nascidos depois nunca o viram. Dos quatro mais velhos, dois nunca os conheci e os dois, que tios de verdade me foram, tinham, respetivamente cinco e três anos quando ele morreu de uma dessas mortes de que morriam os infantes de então, de uma dessas mil coisas que existiam para as meninas e os meninos morrer delas, para citar uma personagem de Oliveira ("O Passado e o Presente") que por acaso fui eu. Falei de retrato, mas, em boa verdade, nem me lembro de ter visto algum. Se calhar, nunca foi fotografado, já que em 1888 não havia fotógrafos por maternidades (nem mesmo se nascia em maternidades) nem as máquinas para as tirar eram de uso doméstico. Pelo contrário, muitos retratos vi, e com muitos convivi, do tio que depois dele morreu. Tinha 19 anos e morreu tuberculoso. Embora também fosse morte comum nesse ano de 1906, choraram-no como raríssimos terão sido chorados. O meu pai costumava contar do vexame que sofreu, quando uma senhora estrangeira (tinha que ser estrangeira) se insurgiu contra a imagem dele e do irmão mais novo (respetivamente, com dez e seis anos), cobertos de luto da cabeça aos pés, negríssimamente vestidos em tardes de Verão e de mar. Durante meses, eram severamente repreendidos quando riam. "Já te esqueceste?" E ele acreditava, culpabilizadíssimo, que era pecado esquecer. Muitos dos irmãos guardaram essa culpa e esse luto pela vida fora. "Somos uma família que sofreu muito", ainda me lembro de ter ouvido frequentemente, eu que nasci quase 20 anos depois da morte dele. A morte do tio de 19 anos continuava a ser a razão maior de tamanha dor, incessantemente alimentada e renovadamente ateada. "O teu tio Raul [era o tio Raul] fazia hoje 38 anos, se fosse vivo." "Faz hoje anos que morreu o teu tio Raul." Ainda hoje, quase no centenário da morte dele, sei de cor o dia em que ele nasceu e sei de cor o dia em que ele morreu. Outro tio também não o conheci nunca. Era o mais velho, chamava-se José Pedro, como o pai, como o avô e como o bisavô, e morreu aos 60 anos, quando eu tinha quase seis. Mas não se atribua à minha tenra idade a falta de memória. A verdade é que, três anos antes de eu ter nascido, cortara relações com todos os irmãos (ou todos os irmãos cortaram relações com ele) como não podia deixar de ser por questões de partilhas ou, como hoje eu penso, por mal resolvidas questões de primogenitura. No estado em que as coisas estavam, não foi muito chorado nem em casa dos meus pais, nem em casa dos meus tios. Não me recordo de retratos nas salas. Ele e o recém-nascido eram os incessantes ausentes, contra a omnipresença do irmão Raul, que até deu nome a uma casa, casa das minhas perpétuas saudades.

 

2 - Bem ao contrário do meu pai, a morte nunca rondou nem a minha infância nem a minha adolescência. Morreram, é certo, dessas mortes a que chamamos naturais (como se morte alguma o fosse) tios-avôs e tias-avós, primos e primas velhas ou amigos da família. Mas eram mortes distantes, que nunca me fizeram chorar uma lágrima. Quanto muito, ou quando mais surpreendentes, davam origem a muitas noites e dias de conversa, com minudentes pormenores do antes e do depois. Os meus avós paternos morreram antes de eu nascer. O meu avô materno, tinha eu dois anos. E a minha avó materna morreu no fim do ano que começou com a primeira morte que me doeu a valer. 
Foi, em 1957, tinha eu quase 22 anos, a morte da irmã mais velha do meu pai, a única que sempre foi solteira, a que herdou a casa sombria e imensa que fora dos meus avós - a Casa do Jardim do Tabaco - como herdou a casa da Arrábida, essa batizada com o nome de Raul. Nela vivia com uma tia, com uma irmã e com uma sobrinha, casa de mulheres, mas onde a ausência-presença masculina era figurada em imensas efígies. Quase tanto como a casa dos meus pais, ou como a casa da Arrábida, casa minha, pois que semanalmente a visitava, até à morte dela, semanalmente lá passava as tardes e semanalmente lá jantava, em jantares preparados para os meus gostos e pelo gosto que ela gostava de mim. 
Contaram-me que, quando eu nasci, foi ela a primeira pessoa a pegar-me ao colo. Desde que a conheci, assumira a herança familiar, o lugar de zeladora de todas as memórias e a memória dela era familiarmente lendária. Dado que de coisas íntimas nunca se falava, ignoro porque não casou. Mas cedo lhe coube um papel sacrificial, que assumiu sem disfarces nem exibições. Aos vinte e poucos anos, foi ela quem acompanhou a doença e a agonia do irmão tuberculoso, como, mais tarde, acompanhou a de tios e tias que não tinham descendência direta. Mas se a morte a rodeou por todos os lados e se de mortes se rodeou, não lhe faltava um sentido de humor peculiar. Não me lembro de a ver rir - mais do que todos e todas, carregando lutos ancestrais - mas lembro-me que me fazia rir, com imagens cortantes para pessoas e situações. Para além da família, não tinha vida social. Mas praticamente conhecia "toda a gente" e dessa "toda a gente" sabia as histórias todas, reais ou imaginárias. Por exemplo: eu falava-lhe dos meus colegas de liceu. Para todos os que tinham apelido, logo ela me dizia que devia ser neto de X, sobrinho de Y ou primo de Z. Eu, depois, ia perguntar ao dito cujo. Invariavelmente, este confirmava-me quanto ela me dissera. Como o sabia, foi sempre mistério para mim. Como mistério era que folheando esses enormes volumes, de capa azul e fechos dourados, que Rocha Martins consagrou a D. Carlos e a D. Manuel II, ela identificasse quase todos os retratos (e tantos eles eram) relacionando-os com vivos ou conhecidos, por coisas só por ela sabidas. Ainda hoje, quase todas as "petites histoires" de quem foi quem no fim da monarquia ou no princípio da república, com ela as aprendi, a ela as devo. Se bem me lembro, nunca viajou mais longe do que os Açores, no início da guerra de 14. Mas, ou com Júlio Verne ou com Ferreira de Castro, sabia tudo o que havia a saber sobre o vasto mundo. 
Posso contar uma história vergonhosa? Pelo vosso silêncio - mais atónito do que nunca perante o que me deu para hoje - concluo que não têm objeções, até porque a história só é vergonhosa para mim e, mesmo assim, nos tempos em que me vou correndo, muito menos do que já foi. Um dia, nessa casa do Jardim do Tabaco, onde estavam sempre a acontecer surpresas - e onde até havia uma porta, que dava para a rua, hermeticamente fechada, para impedir eventual acesso aos carbonários da primeira república - descobri, numa antiga escrivaninha, uma mola de segredos que fazia deslocar o armarinho central. Retirado este, descobri duas gavetas que ninguém suporia que lá estivessem (eu não suporia, pois que o expediente é useiro e vezeiro em escrivaninhas dessas). As gavetas estavam vazias, o que muito me dececionou. Lembrou-se ela então de me incitar (eu devia ter 11 ou 12 anos, e também já tinha lido muito do Júlio Verne que nessa casa abundava) a esconder lá uma mensagem. Que mensagem? Surgiu então a ideia de uma "carta aos vindouros". Que desejei eu aos meus descendentes? Que já tivessem chegado a outros planetas e que já vivessem livres do espectro do comunismo. Não nos passava pela cabeça que os vindouros não tivessem que vindourar tanto como imaginávamos. Se acaso o segredo ainda existe e a carta ainda lá está, os meus netos a leriam como a antiguidade que é. Não foi no tempo da minha tia, mas foi no meu. O dom da profecia nunca foi o meu forte.

 

3 - A redação vai longa e não merece nota alta. Sei-o bem, mas deixem lá que vezes são vezes e o revés é só meu. Estava a pensar numa coisa e saiu-me outra. Nem sempre o mote obriga, embora aconteça que desabrigue. Só eu me sinto abrigado, com o gosto das castanhas piladas a voltar-me à boca que já não as pode comer. Volto às mortes que aqui me trouxeram. Essa minha tia, que vira casas feitas e casas desfeitas, e aguentou a pé firme muitos velórios, do tempo em que ainda não se mandavam defuntos para as igrejas e se morria em casa e não nos hospitais (e, em casa, ela morreu) conhecia, como raros, as ilusões que os efeitos dela provocam nos vivos. Nada como os pesares para aligeirar consciências. A paz dos mortos pesa-nos e, para sacudir esse peso, esses são os momentos ideais (pêsames vem de peso) para juras eternas de eterna remissão. Com a graça dos mortos, propomo-nos, Senhor, nunca mais pecar, como no fim dos atos de contrição. Amaremos os vivos como os mortos os não amámos. Inimigos reconciliam-se, ódios velhos repousam e nem espuma fica à superfície. Trocam-se promessas impossíveis de cumprir. Nada como um caixão para o renascimento da paixão. Os "dear ones" tornam-nos a todos queridíssimos, pelo menos até à missa de 7º dia. Era tudo isso que ela resumia na expressão que dei por título a este artigo. Sempre que lhe contavam efusões dessas, ela que tantas vezes as havia conhecidas e tantas vezes verificara a sua fátua verdade, comentava com uma expressão bem dela: "A poesia da morte." E preparava-se para as duras prosas futuras, à hora da leitura dos testamentos.

 

4 - Porque será que me lembrei tanto dela e que tanto me lembrei dessa expressão nestes últimos dias? A porca da vida. A poesia da morte. E a terrível solidão - tão maior quanto mais acompanhada - daqueles que, num ápice, passam de uma a outra. E com a porcaria ainda agarrada à pele - ou à alma - recebem os arrobos poéticos dos que, na véspera e no dia seguinte, voltarão a ser como eram e quem eram. Porque - como se costuma dizer, finda a hora da poesia - a vida continua.

 

João Bénard da Costa
18 de junho de 2004 in Público

ANTOLOGIA

   

 

A PALAVRA DE JOÃO BÉNARD DA COSTA
A POESIA DA MORTE

1 - Os meus avós paternos tiveram nove filhos, nascidos entre 1880 e 1900. Nada de excecional, nesses tempos e no meio social que era o deles. Mais excecional é que desses nove, oito tenham chegado a adultos, já que "isso de crianças morre muito" como dizia uma velha criada minha, também vinda desses tempos. Só um morreu no berço, aos seis meses, e sempre me fez confusão que me falassem desse bebé dos retratos, com o pomposo nome de Tio Mário. É indiscutível que era meu tio, mas nunca consegui ultrapassar a desproporção entre o grau de tio e os degraus onde ele nem sequer chegou a brincar. Coisas de crianças, para usar um plural abusivo, pois que dele não foram certamente. 
Numa família tão dada ao culto dos mortos, falava-se pouco dele. Os quatro irmãos nascidos depois nunca o viram. Dos quatro mais velhos, dois nunca os conheci e os dois, que tios de verdade me foram, tinham, respetivamente cinco e três anos quando ele morreu de uma dessas mortes de que morriam os infantes de então, de uma dessas mil coisas que existiam para as meninas e os meninos morrer delas, para citar uma personagem de Oliveira ("O Passado e o Presente") que por acaso fui eu. Falei de retrato, mas, em boa verdade, nem me lembro de ter visto algum. Se calhar, nunca foi fotografado, já que em 1888 não havia fotógrafos por maternidades (nem mesmo se nascia em maternidades) nem as máquinas para as tirar eram de uso doméstico. Pelo contrário, muitos retratos vi, e com muitos convivi, do tio que depois dele morreu. Tinha 19 anos e morreu tuberculoso. Embora também fosse morte comum nesse ano de 1906, choraram-no como raríssimos terão sido chorados. O meu pai costumava contar do vexame que sofreu, quando uma senhora estrangeira (tinha que ser estrangeira) se insurgiu contra a imagem dele e do irmão mais novo (respetivamente, com dez e seis anos), cobertos de luto da cabeça aos pés, negríssimamente vestidos em tardes de Verão e de mar. Durante meses, eram severamente repreendidos quando riam. "Já te esqueceste?" E ele acreditava, culpabilizadíssimo, que era pecado esquecer. Muitos dos irmãos guardaram essa culpa e esse luto pela vida fora. "Somos uma família que sofreu muito", ainda me lembro de ter ouvido frequentemente, eu que nasci quase 20 anos depois da morte dele. A morte do tio de 19 anos continuava a ser a razão maior de tamanha dor, incessantemente alimentada e renovadamente ateada. "O teu tio Raul [era o tio Raul] fazia hoje 38 anos, se fosse vivo." "Faz hoje anos que morreu o teu tio Raul." Ainda hoje, quase no centenário da morte dele, sei de cor o dia em que ele nasceu e sei de cor o dia em que ele morreu. Outro tio também não o conheci nunca. Era o mais velho, chamava-se José Pedro, como o pai, como o avô e como o bisavô, e morreu aos 60 anos, quando eu tinha quase seis. Mas não se atribua à minha tenra idade a falta de memória. A verdade é que, três anos antes de eu ter nascido, cortara relações com todos os irmãos (ou todos os irmãos cortaram relações com ele) como não podia deixar de ser por questões de partilhas ou, como hoje eu penso, por mal resolvidas questões de primogenitura. No estado em que as coisas estavam, não foi muito chorado nem em casa dos meus pais, nem em casa dos meus tios. Não me recordo de retratos nas salas. Ele e o recém-nascido eram os incessantes ausentes, contra a omnipresença do irmão Raul, que até deu nome a uma casa, casa das minhas perpétuas saudades.

 

2 - Bem ao contrário do meu pai, a morte nunca rondou nem a minha infância nem a minha adolescência. Morreram, é certo, dessas mortes a que chamamos naturais (como se morte alguma o fosse) tios-avôs e tias-avós, primos e primas velhas ou amigos da família. Mas eram mortes distantes, que nunca me fizeram chorar uma lágrima. Quanto muito, ou quando mais surpreendentes, davam origem a muitas noites e dias de conversa, com minudentes pormenores do antes e do depois. Os meus avós paternos morreram antes de eu nascer. O meu avô materno, tinha eu dois anos. E a minha avó materna morreu no fim do ano que começou com a primeira morte que me doeu a valer. 
Foi, em 1957, tinha eu quase 22 anos, a morte da irmã mais velha do meu pai, a única que sempre foi solteira, a que herdou a casa sombria e imensa que fora dos meus avós - a Casa do Jardim do Tabaco - como herdou a casa da Arrábida, essa batizada com o nome de Raul. Nela vivia com uma tia, com uma irmã e com uma sobrinha, casa de mulheres, mas onde a ausência-presença masculina era figurada em imensas efígies. Quase tanto como a casa dos meus pais, ou como a casa da Arrábida, casa minha, pois que semanalmente a visitava, até à morte dela, semanalmente lá passava as tardes e semanalmente lá jantava, em jantares preparados para os meus gostos e pelo gosto que ela gostava de mim. 
Contaram-me que, quando eu nasci, foi ela a primeira pessoa a pegar-me ao colo. Desde que a conheci, assumira a herança familiar, o lugar de zeladora de todas as memórias e a memória dela era familiarmente lendária. Dado que de coisas íntimas nunca se falava, ignoro porque não casou. Mas cedo lhe coube um papel sacrificial, que assumiu sem disfarces nem exibições. Aos vinte e poucos anos, foi ela quem acompanhou a doença e a agonia do irmão tuberculoso, como, mais tarde, acompanhou a de tios e tias que não tinham descendência direta. Mas se a morte a rodeou por todos os lados e se de mortes se rodeou, não lhe faltava um sentido de humor peculiar. Não me lembro de a ver rir - mais do que todos e todas, carregando lutos ancestrais - mas lembro-me que me fazia rir, com imagens cortantes para pessoas e situações. Para além da família, não tinha vida social. Mas praticamente conhecia "toda a gente" e dessa "toda a gente" sabia as histórias todas, reais ou imaginárias. Por exemplo: eu falava-lhe dos meus colegas de liceu. Para todos os que tinham apelido, logo ela me dizia que devia ser neto de X, sobrinho de Y ou primo de Z. Eu, depois, ia perguntar ao dito cujo. Invariavelmente, este confirmava-me quanto ela me dissera. Como o sabia, foi sempre mistério para mim. Como mistério era que folheando esses enormes volumes, de capa azul e fechos dourados, que Rocha Martins consagrou a D. Carlos e a D. Manuel II, ela identificasse quase todos os retratos (e tantos eles eram) relacionando-os com vivos ou conhecidos, por coisas só por ela sabidas. Ainda hoje, quase todas as "petites histoires" de quem foi quem no fim da monarquia ou no princípio da república, com ela as aprendi, a ela as devo. Se bem me lembro, nunca viajou mais longe do que os Açores, no início da guerra de 14. Mas, ou com Júlio Verne ou com Ferreira de Castro, sabia tudo o que havia a saber sobre o vasto mundo. 
Posso contar uma história vergonhosa? Pelo vosso silêncio - mais atónito do que nunca perante o que me deu para hoje - concluo que não têm objeções, até porque a história só é vergonhosa para mim e, mesmo assim, nos tempos em que me vou correndo, muito menos do que já foi. Um dia, nessa casa do Jardim do Tabaco, onde estavam sempre a acontecer surpresas - e onde até havia uma porta, que dava para a rua, hermeticamente fechada, para impedir eventual acesso aos carbonários da primeira república - descobri, numa antiga escrivaninha, uma mola de segredos que fazia deslocar o armarinho central. Retirado este, descobri duas gavetas que ninguém suporia que lá estivessem (eu não suporia, pois que o expediente é useiro e vezeiro em escrivaninhas dessas). As gavetas estavam vazias, o que muito me dececionou. Lembrou-se ela então de me incitar (eu devia ter 11 ou 12 anos, e também já tinha lido muito do Júlio Verne que nessa casa abundava) a esconder lá uma mensagem. Que mensagem? Surgiu então a ideia de uma "carta aos vindouros". Que desejei eu aos meus descendentes? Que já tivessem chegado a outros planetas e que já vivessem livres do espectro do comunismo. Não nos passava pela cabeça que os vindouros não tivessem que vindourar tanto como imaginávamos. Se acaso o segredo ainda existe e a carta ainda lá está, os meus netos a leriam como a antiguidade que é. Não foi no tempo da minha tia, mas foi no meu. O dom da profecia nunca foi o meu forte.

 

3 - A redação vai longa e não merece nota alta. Sei-o bem, mas deixem lá que vezes são vezes e o revés é só meu. Estava a pensar numa coisa e saiu-me outra. Nem sempre o mote obriga, embora aconteça que desabrigue. Só eu me sinto abrigado, com o gosto das castanhas piladas a voltar-me à boca que já não as pode comer. Volto às mortes que aqui me trouxeram. Essa minha tia, que vira casas feitas e casas desfeitas, e aguentou a pé firme muitos velórios, do tempo em que ainda não se mandavam defuntos para as igrejas e se morria em casa e não nos hospitais (e, em casa, ela morreu) conhecia, como raros, as ilusões que os efeitos dela provocam nos vivos. Nada como os pesares para aligeirar consciências. A paz dos mortos pesa-nos e, para sacudir esse peso, esses são os momentos ideais (pêsames vem de peso) para juras eternas de eterna remissão. Com a graça dos mortos, propomo-nos, Senhor, nunca mais pecar, como no fim dos atos de contrição. Amaremos os vivos como os mortos os não amámos. Inimigos reconciliam-se, ódios velhos repousam e nem espuma fica à superfície. Trocam-se promessas impossíveis de cumprir. Nada como um caixão para o renascimento da paixão. Os "dear ones" tornam-nos a todos queridíssimos, pelo menos até à missa de 7º dia. Era tudo isso que ela resumia na expressão que dei por título a este artigo. Sempre que lhe contavam efusões dessas, ela que tantas vezes as havia conhecidas e tantas vezes verificara a sua fátua verdade, comentava com uma expressão bem dela: "A poesia da morte." E preparava-se para as duras prosas futuras, à hora da leitura dos testamentos.

 

4 - Porque será que me lembrei tanto dela e que tanto me lembrei dessa expressão nestes últimos dias? A porca da vida. A poesia da morte. E a terrível solidão - tão maior quanto mais acompanhada - daqueles que, num ápice, passam de uma a outra. E com a porcaria ainda agarrada à pele - ou à alma - recebem os arrobos poéticos dos que, na véspera e no dia seguinte, voltarão a ser como eram e quem eram. Porque - como se costuma dizer, finda a hora da poesia - a vida continua.

 

João Bénard da Costa
18 de junho de 2004 in Público