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Blogue do Centro Nacional de Cultura

Um espaço de encontro e de diálogo, em defesa de uma cultura livre e pluridisciplinar. Estamos certos de que o Centro Nacional de Cultura continuará, como há sete décadas, a dizer que a cultura em Portugal vale a pena!

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Um espaço de encontro e de diálogo, em defesa de uma cultura livre e pluridisciplinar. Estamos certos de que o Centro Nacional de Cultura continuará, como há sete décadas, a dizer que a cultura em Portugal vale a pena!

A VIDA DOS LIVROS

  

De 26 de setembro a 2 de outubro de 2022


A compreensão do Constitucionalismo moderno português obriga-nos a ler as principais memórias do século XIX, entre as quais encontramos as do Marquês de Fronteira e Alorna.


UM REPOSITÓRIO FUNDAMENTAL
Quando lemos as “Memórias do Marquês de Fronteira e Alorna”, D. José Trazimundo (1802-1881) (Imprensa da Universidade, Coimbra, 1926), notável repositório de um dos períodos mais complexos da história portuguesa dos últimos dois séculos, apercebemo-nos da importância da Revolução de 1820 e da Constituição a que deu origem em setembro de 1822, há exatamente duzentos anos. Se, por vezes, há a tentação injusta de dar menor importância a esses acontecimentos, em virtude de uma vigência muito curta da nossa primeira lei fundamental do moderno constitucionalismo, a verdade é que, como fica evidenciado no testemunho do memorialista, independentemente das resistências, a história política portuguesa alterou-se irreversivelmente depois de 1820-22. Lemos o texto das Memórias no capítulo X da parte II: “As Cortes ordinárias deviam reunir-se no fim do ano, o espírito público ocupava-se com as eleições, e já o partido exaltado guerreava os nomes dos deputados mais célebres da Constituinte, que tinham defendido as prerrogativas da Coroa e pugnado por uma constituição monárquica. Denominavam o partido moderado de corcunda, tendo a triste ideia de acreditar que os moderados se curvavam mais ante o trono do que eles. Apesar de todos os esforços empregados pelos patriotas, o partido denominado corcunda foi dignamente representado nas Câmaras ordinárias. As eleições fizeram-se regularmente. Foi a primeira vez que assisti oficialmente a este ato e que votei sendo um dos escrutinadores na mesa eleitoral da minha paróquia”. Apercebemo-nos das incertezas que rodearam os acontecimentos, e se invoco a personalidade do Marquês de Fronteira, é para demonstrar como uma figura influente manteve, com sacrifício da própria vida pessoal, uma coerente determinação na defesa de um constitucionalismo moderno, na linha das revoluções inglesa, americana e francesa. O rei D. João VI apenas veio para o Continente em vésperas da nova Constituição ser votada, legitimada por uma eleição de cidadãos, e esse regresso levaria a uma alteração de circunstâncias: a independência do Brasil tornara-se inexorável de um modo não violento, em desenvolvimento da existência do Reino Unido de Portugal, Brasil e Algarves, desde 16 de dezembro de 1815.


PORTUGAL RECUPERA INDEPENDÊNCIA
Para o Portugal europeu tratava-se de pôr termo a uma situação em que, na prática, a colónia prevalecia sobre o colonizador histórico. Por outro lado, a Revolução regeneradora do Porto de 24 de agosto de 1820 (a primeira Regeneração) visara pôr termo a uma subalternização relativamente à Inglaterra, evidenciada na humilhação em que se traduzira a condenação à morte e execução do General Gomes Freire de Andrade e dos mártires da pátria. Afinal, a presença inglesa, que tivera efeitos positivos vários, prolongara-se para além do tolerável. As Memórias do Marquês de Fronteira permitem o conhecimento de como era Portugal no início do século XIX, dando-nos um retrato impressivo sobre os elementos de continuidade e descontinuidade de um Estado que se preparava para seguir os novos caminhos europeus – na política, na economia, na sociedade e na cultura. Se D. José Trazimundo descendia dos Távoras, vítimas trágicas do pombalismo, a verdade é que tinha a influência e o gérmen do francesismo, representados por D. Leonor de Almeida, Alcipe, a célebre Marquesa de Alorna, sua avó. Estamos, assim, perante uma curiosíssima síntese compromissória, que será simbolizada pelo jovem Almeida Garrett, defensor da sementeira da modernização da cultura portuguesa, ao ritmo da renovação europeia. E se falamos de uma síntese, apercebemo-nos de que a modernização da sociedade portuguesa será profundamente influenciada não só pela resistência nacional contra o expansionismo napoleónico, mas também pela influência do cosmopolitismo do novo pensamento liberal. Portanto, o caso português corresponde a um exercício de geometria variável – em que a influência das revoluções inglesa, americana e francesa converge com a afirmação de uma identidade nacional aberta e independente, não nacionalista, centrada num patriotismo construído na afirmação de um caminho próprio gerado pelo constitucionalismo moderno de 1822, enaltecido por Garrett, e completado por Alexandre Herculano, o qual apesar de não ter apoiado a Revolução de Setembro de 1836 e de defender a Carta Constitucional outorgada por D, Pedro em 1826, tornou-se um partidário ativo da Constituição de 1838 (contra Costa Cabral), que influenciaria o duradouro Ato Adicional de 1852, na segunda Regeneração.


TENTAR PERCEBER
Trago à colação o exemplo do Marquês de Fronteira, braço direito do Duque da Terceira, para evidenciar que a Revolução de 1820 e o que se lhe seguiu foi um acontecimento definidor de um novo paradigma constitucional em Portugal. Se D. José Trazimundo se tornou defensor do Cartismo, com uma carreira relevante durante o consulado de Costa Cabral, nos antípodas da posição de Herculano, foi sempre um constitucionalista no sentido moderno, usando mesmo a expressão “democrata” para se designar, demarcando-se das tentativas ocorridas antes do início dos trabalhos da Assembleia Constituinte, designadamente em novembro de 1821, conciliadoras com a lógica das antigas Cortes Gerais da Nação. A Revolução de 1820 não foi, assim, um acontecimento subalterno, limitado no tempo. A guerra civil contra D. Miguel e a tentativa de regresso às instituições do absolutismo (1828-1834) não conseguiram que se apagasse a consagração de um constitucionalismo novo – que passou a marcar a tradição cultural portuguesa: a soberania indivisível e inalienável da nação; a prevalência dos direitos de cidadania, no lugar dos deveres dos súbditos; os direitos e deveres individuais; a liberdade, a segurança e a propriedade como direitos fundamentais; o primado do Direito, a proibição da prisão sem culpa formada; a inviolabilidade do domicílio, a liberdade de expressão e de imprensa; o direito de petição; o direito ao sigilo da correspondência, o direito de acesso a cargos públicos; a igualdade perante a lei; a justiça penal e a proibição de penas cruéis e infamantes; a separação e interdependência de poderes legislativo, executivo e judicial (compreendendo-se que Montesquieu tenha sido o autor mais citado pelos constituintes). Não se entenda, porém, que o que aqui se afirma significa o carácter imaculado da lei fundamental de 1822. A subalternização completa do rei ou o parlamentarismo de uma só Câmara tornaram muito frágil a nossa primeira Constituição, como ficaria claro no longo período de conflito e de instabilidade até 1851. Contudo, o que fica evidente é que na história política e cultural portuguesa abriu-se em 1820 um novo capítulo, que chega aos nossos dias – colocando esse momento fundador ao mesmo nível das Revoluções consagradoras dos Estados de direito baseados na cidadania e nos direitos e liberdades fundamenais.     

 

Guilherme d’Oliveira Martins
Oiça aqui as minhas sugestões – Ensaio Geral, Rádio Renascença

A VIDA DOS LIVROS

  

De 19 a 25 de setembro de 2022


João Manuel Duque, autor de “Dizer Deus na Pós-Modernidade” (Alcalá, 2003), recebeu o Prémio Árvore da Vida – Padre Manuel Antunes. Damos conta das palavras que proferiu na cerimónia de entrega do galardão.
 


O CONFRONTO COM A TECNOLOGIA
Na cerimónia de entrega do Prémio Árvore da Vida – Padre Manuel Antunes, o teólogo João Manuel Duque, agraciado este ano, afirmou estarmos perante a tentação da prevalência de posições extremas, na relação entre a humanidade e a tecnologia entre quem sonha “com uma espécie de divinização do humano através da sua transformação e transfiguração tecnológica, e da demonização da tecnologia”. Essas duas atitudes correspondem, porém, a um mesmo deslumbramento (e submissão) relativamente às inovações da tecnologia, tantas vezes sob o esquecimento do carácter permanente e irrepetível da humanidade. No fundo, importa saber qual o impacto dos recursos digitais e da internet sobre as sociedades e as pessoas. A vontade, a autonomia, a consciência e o livre arbítrio não podem deixar de estar presentes nesse confronto. Daí a necessidade de distinguir os fins e os meios. A pessoa humana e a dignidade estão no domínio dos fins, enquanto as tecnologias, a inteligência artificial e os robôs se encontram no campo dos instrumentos, ao serviço das pessoas.  


Importa debater, “de forma mais equilibrada o impacto antropológico da tecnologia e as transformações que comporta, seja a nível psíquico seja a nível social”, sendo impossível pensar os humanos reais do nosso tempo sem essa dimensão. Nesse sentido, “o discurso teológico não é, em primeiro lugar, apenas para ambientes eclesiais”, devendo as comunidades que aí se movem “estar permanentemente envolvidas e interessadas nas questões significativas da humanidade, sobretudo naquelas que tocam a convicção fundamental do que seja humano e do que seja o seu sentido sobre a Terra”. A teologia deve, por isso, “falar para fora, a partir de dentro, e falar para dentro a partir de fora. E isso não como alternativa”, mas sim num movimento permanente de vaivém, envolvendo quem se move dentro e fora dos meios eclesiais. De facto, a ideia de um dentro e de um fora da Igreja – ou do mundo – é problemática, por ser rigidamente dualista. “Distinguir é benéfico e mesmo necessário; mas separar é, normalmente, prejudicial ou mesmo perigoso”. Urge deste modo, evitar a confusão entre o humano e o divino, assim como nunca poderemos separá-los, como mundos diferenciados e à parte. O pensamento teológico exige, assim, uma inserção cultural. Por isso, a teologia que se pratica entre nós é uma teologia contextualizada na Europa, devendo, no entanto, ainda considerar-se a sua relação com o resto do mundo.


PENSAR-NOS NA RELAÇÃO COM OS OUTROS
Para João Manuel Duque, estamos perante dois desafios: “pensar-nos em relação aos outros, diferentes de nós; e pensar-nos nos dinamismos internos” da Europa, onde nos encontramos. Quanto ao primeiro aspeto, estamos perante a possibilidade de desenvolvimento de uma fértil relação com a América Latina, África e Ásia, em cujos contextos o impacto do pensamento que podemos designar como “decolonial” sobre a teologia se torna evidente. Já quanto ao segundo aspeto, há dois caminhos possíveis: por um lado, a relação da teologia com a política de acolhimento do que é diferente e outro, nomeadamente na questão das migrações e dos refugiados. Uma teologia completamente alheia a esta questão seria uma teologia incapaz de compreender a realidade. Complementarmente, no caminho alternativo importa compreender a relação da teologia com o mundo da cultura, nomeadamente com o mundo das artes, no sentido mais abrangente da criação. E então estamos perante fatores desafiantes, que procuram interpretar o mundo que nos cerca, através de formas que se aproximam do discurso teológico.


QUE PÓS-MODERNIDADE?
Quando João Manuel Duque escreveu “Dizer Deus na Pós-Modernidade” (2003), Eduardo Prado Coelho considerou tratar-se de uma obra referencial que merecia uma especial atenção. Para o autor, “sendo a teologia de sempre uma tentativa, simultaneamente renovada e inculturada, de articular Deus num discurso humano, a teologia contemporânea – pelo menos no mundo dito ocidental – não poderá ser outra coisa, senão a constante procura de dizer Deus na pós-modernidade. Mas a abordagem do espaço e tempo culturais, considerando o mundo que habitamos em termos de ‘pós-modernidade’, exige ainda uma elaboração crítico-reflexiva vasta e alargada”. Por isso, esboçar uma teologia na pós-modernidade pressupõe a análise atenta da cultura e do pensamento pós-modernos, “tarefa a que nenhuma teologia atual pode esquivar-se, quer venha a enfrentar esse contexto de forma radicalmente crítica, quer pretenda torná-lo fértil no seu próprio interior”. Assim se compreende a referência e a atenção dada a autores como Hans Urs von Balthasar, na consideração do amor como plenitude metafísica; Eberhard Jüngel, ao referir a morte de Deus por amor; Johann Baptist Metz, interrogador das histórias da História; Jean-Luc Marion, estudioso da superação da idolatria metafísica; e Georg A. Lindbeck, que se preocupa com os limites da intra-textualidade. Isto, sem esquecer H.-G. Gadamer, com quem compreendemos que “o intérprete tem o dever de entrar em diálogo com a realidade de que se fala nas narrativa”. E assim a hermenêutica é sempre dialética, visando a compreensão do texto teológico e sempre a necessidade da compreensão de si mesmo. E temos de lembrar ainda Nietzsche e a tensão que existe com o cristianismo, no tocante ao facto de Deus poder ser mediador da afirmação do homem e o homem mediador da afirmação de Deus. No fundo, o trabalho de uma teologia pós-moderna é imenso, quer se trate da desconstrução de perspetivas modernas ou mesmo pré-modernas, quer se trate do desaparecimento de categorias que se nos tinham tornado habituais, que se trate da redescoberta de temáticas ou perspetivas já antigas e algo esquecidas pela modernidade.


Guilherme d’Oliveira Martins
Oiça aqui as minhas sugestões – Ensaio Geral, Rádio Renascença

A VIDA DOS LIVROS

  

De 12 a 18 de setembro de 2022.


O pensador e ensaísta António Cândido em “Formação da Literatura Brasileira – Momentos Decisivos” (1969) apresenta-nos uma visão panorâmica fundamental sobre a Literatura contemporânea do Brasil.  

 

  

À memória de António Candido. Para Celso Lafer.


DAS RAÍZES À DIVERSIDADE
Quando lemos as sucessivas edições de “Raízes do Brasil” de Sérgio Buarque de Holanda, desde 1936 até 1969, percebemos que a reflexão que lhe está subjacente considera uma significativa complexidade e a coexistência de fatores que são contraditórios. A razão de ser da dificuldade funda-se na extensão do território, na diversidade dos povos que foram constituindo o extraordinário país e na coexistência de influências históricas e políticas diferentes. De facto, torna-se difícil entender como foi possível construir uma tão ampla fronteira, delineada não do modo tradicional das conquistas imperiais, mas a partir de uma articulação de movimentos diversos e simultâneos centrífugos e centrípetos. Olhe-se o mapa da Península Ibérica e faça-se a comparação com o da América do Sul. Na Europa, o retângulo ocidental português tem uma fronteira estável desde o século XIII, como verdadeira exceção no velho continente, com uma língua sem dialetos, construída de norte para sul e de sul para norte, nascida na Galiza, fora do território português, mas projetada globalmente; enquanto o reino de Espanha tem várias autonomias que correspondem a uma acentuada diversidade política e cultural. Já no Atlântico Sul, a grandiosa unidade política e linguística brasileira contrasta com a multiplicidade de estados de influência hispânica. Esta diferença corresponde também à especificidade que levou à independência brasileira através de um processo gradual, que exige a compreensão e o estudo como um fenómeno apenas compreensível pela coexistência de múltiplos fatores com uma tendência convergente.


Basta lembrar que estamos perante o caso singular de uma colónia emancipada, sobretudo depois das guerras napoleónicas, tornando-se cabeça de um Estado europeu, quando a capital e a Corte se fixaram no Rio de Janeiro, os portos brasileiros se abriram ao comércio internacional (ao invés do tradicional pacto colonial) e se instituiu o Reino Unido de Portugal, Brasil e Algarves (1815). Assim se pode explicar a dificuldade em encontrar uma chave única para a análise sobre a dominação e a emancipação e sobre os seus protagonistas. De facto, as explicações simplistas tendem a ser erróneas. A tensão entre o modelo jesuítico das reduções e o modelo expansionista dos bandeirantes paulistas constitui, na sua heterogeneidade, motivo para uma reflexão séria sobre a persistência da síntese da unidade territorial, apesar da profunda diferenciação de fatores relevantes. Sérgio Buarque de Holanda foi, assim, alterando a sua perspetiva nas “Raízes do Brasil” e é curioso ver, como hoje também a interpretação de Gilberto Freyre, em “Casa Grande e Senzala” voltou a ser motivo de interesse para a compreensão das diferenças brasileiras relativamente a outros casos da colonização americana. E a própria noção de “homem cordial” de Sérgio Buarque de Holanda merece uma nova leitura, na herança cultural da colonização portuguesa. A verdade é que, como o tempo demonstrou, nada ou muito pouco havia de genético nessa análise. Existia, sim, sentido crítico, que nunca deixou de ser salientado, considerando que o atraso económico seria consequência dessa sobreposição do afeto e da racionalidade com consequências na difícil distinção entre público e privado ou entre eficiência e emancipação. Contudo, a capacidade de adaptação dos diferentes povos em presença à diversidade das culturas e do território foi permitindo a compreensão de uma progressiva abertura à legitimidade democrática, apesar das dificuldades e resistências.


ENTENDER AS DIFERENÇAS
A compreensão do Brasil obriga a entender as diferenças. Há uma realidade brasileira que nos apaixona e gera perplexidades. Eis porque temos de fazer um esforço para conhecer melhor essa realidade heterogénea, que os meus amigos António Alçada Baptista e Eduardo Lourenço consideravam essencial até para perceber Portugal. Assim, também a leitura crítica de “Formação do Brasil Contemporâneo” (1942) de Caio Prado, Jr. se revela útil, em especial quanto à emancipação social, à valorização do mercado interno e aos desafios da coesão económica. Não esqueçamos, porém, que será Celso Furtado a abrir as portas para uma noção dinâmica e positiva de desenvolvimento social e económico, de modo a superar o facto de os países subdesenvolvidos terem tido um processo de industrialização indireto, tornando-os dependentes dos países industrializados. Importaria pôr em xeque essa dependência, criando condições para um planeamento estratégico no espaço público, capaz de garantir o caráter reprodutivo do investimento, de assegurar uma partilha justa de recursos, com limitação do consumo debilitador… Estas considerações levam-nos à necessidade de entender o Brasil como uma realidade sócio-cultural e política de caráter múltiplo, com todas as fragilidades inerentes a essa natureza – como é visível na conjuntura presente.


Todas as referências que acabamos de fazer demonstram que a diferença e a heterogeneidade de um território tão amplo e vocacionado necessariamente a ser influente obrigam à consideração de uma economia assente no desenvolvimento humano, na sustentabilidade ambiental, na democracia baseada na cidadania ativa, na justiça e na partilha de responsabilidades. E António Cândido em “Formação da Literatura Brasileira – Momentos Decisivos” fala-nos da essencial dimensão cultural e de um caminho de autoconsciência pela literatura, a começar “numa imaturidade, por vezes provinciana”, que “deu à literatura sentido histórico e excecional poder comunicativo, tornando-a língua geral duma sociedade em busca de autoconhecimento. Sempre que se particularizou, como manifestação afetiva e descrição local, adquiriu, para nós (brasileiros), a expressividade que estabelece comunicação entre autores e leitores, sem a qual a arte não passa de experimentação dos recursos técnicos”. Há um encontro das forças universais e nacionais, técnicas e emocionais, numa “permanente mistura da tradição europeia e das descobertas do Brasil. Mistura do artesão neoclássico ao bardo romântico, duma arte de clareza e discernimento a uma ‘metafísica de confusão’”. É verdade que “no Brasil sempre houve a produção de textos importantes, desde Anchieta no século XVI, mas só a partir do século XVIII, a literatura passou a ser uma instituição da sociedade, não simples ocorrência de textos, por mais importantes que fossem, como são de facto, por exemplo, no século XVII os de Gregório de Matos (inéditos até ao século XIX) e do Padre António Vieira; ou o de Rocha Pita na primeira metade do século XVIII”. Dois séculos de independência brasileira obrigam-nos a ver muito para além do gesto político de 1822. Há um caminho que prossegue e nos obriga a compreender o Brasil, das raízes às diferenças.     

 

Guilherme d’Oliveira Martins

A VIDA DOS LIVROS

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   De 5 a 11 de setembro de 2022

 

"Agosto Azul" (1904) de Manuel Teixeira-Gomes (1860-1941) é uma obra-prima na qual encontramos as extraordinárias qualidades literárias e estilísticas do seu autor. A sua leitura permite-nos usufruir virtudes artísticas únicas, pelas quais ganhamos com melhor conhecimento de Portugal, na sua beleza e na riqueza da nossa identidade, que atingem a plenitude da qualidade.

 

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AS CORES MÁGICAS DO ALGARVE

Continuo com os livros. Vim à Feira do Livro, para celebrar sessenta anos dos Clássicos da Fundação Gulbenkian – como sinal de que os grandes textos sobrevivem para além dos episódios passageiros. Mas trouxe nos olhos as cores mágicas do mar do Algarve e os ecos das palavras de Teixeira-Gomes. Ainda é Agosto, como recordei com Nuno Júdice, quando nos encontrámos. E releio. “O calor abateu com o declinar do Sol que desaparece quando aproamos à barra. Como se extingue o braseiro no vasto disco de bronze amarelo assim se afogou o Sol em cinzas ao resvalar no polido oiro pálido do céu. Descobre-se a curva inteira da baía; mas a atmosfera perde a sua jubilosa limpidez, satura-se a humidade que a repassa de tons cetíneos e esfuma-se a poente de puídas cambraias arroxadas. A superfície do mar embebe-se de violeta, nas restingas da barra, a água rola espumas de arco-íris. O ar arrefece sem que bafeje o mais ténue sopro de arejo”.

 

Como esquecer estas palavras inapagáveis numa paisagem às vezes tão distraidamente olhada por tantos forasteiros. Desde o azul cobalto que avisto da minha janela ao roxo sombrio que faz realçar o “azul-verdoso” dos campos, continuo a recordar a descrição sentida. “A luz parece morrer numa atonia de pérola sem brilho; mas à revivescência do crepúsculo forra-se inesperadamente o horizonte do purpúreo damasco-escuro lavrado a fogo. Nesse plano ardente as altas serras do Algarve, que fecham a bacia do rio, ampliam-se e endurecem tornadas em maciço vidro fosco. A noite cresce do oriente com asas tenebrosas de morcego; esvai-se o crepúsculo e a escuridão cristaliza”. Avizinha-se a vila. Olham-se os “retalhos de papel furado por luzes cujos trémulos reflexos penetram profundamente no coração da água. Suspiram as estrelas no cristal negro do céu”. Estamos perante uma das invocações mais belas da literatura e da língua portuguesas, saída da oficina magistral de um artista espontâneo e cultivado. E nesse barlavento é o Algarve todo que se encontra, a ilustrar a vida, a memória, a paisagem. Que é a paisagem senão a expressão do encontro entre a vida e a humanidade?  Ou não estivéssemos na convergência do Mediterrâneo e do Atlântico, ou, se quisermos, no mediterrânico atlântico – que Teixeira-Gomes não cessaria de recordar até aos últimos dias da sua vida em Bougie.

 

PATRIMÓNIO E CULTURA EM PLENO

Tenho insistido nesta noção ampla de património e de cultura, envolvendo a relação das pessoas com o meio natural, bem como a compreensão da arte como capacidade de olhar e entender o mundo e a vida com olhos de ver. É a vida que importa e a língua como consequência natural dessa vitalidade. E nas palavras que lembrámos há um constante vai-e-vem entre o que o artista vê e sente e a transição de um dia glorioso que a pouco e pouco se desvanece na imersão da noite, no magnífico céu estrelado que nos projeta para uma dimensão desconhecida que a cultura e a arte revelam. E regresso a Manuel Teixeira-Gomes e ao seu “Agosto Azul”, a que não me canso de voltar. Desconfiado das revoluções artísticas, o mestre prefere salientar a vitalidade das metamorfoses que a cada passo encontramos: “Cuido até que um talento pouco literário pode ser mais proveitoso à riqueza da língua do que o mais poderoso e versado humanista. Não faltam exemplos históricos de línguas empobrecidas por excesso de claridade e ressecadas à inclemência dos preceitos infrangíveis”, mas ganhas por uma ampla “gama de meios-tons, onde a cor se conjuga ao sentimento”, os quais, “alargando a vida, sugerem sensações inefáveis”. E eis o maior dos elogios à língua e à literatura, à criação e à cultura como modo ético de melhor nos fazermos compreender. É a palavra viva que importa.

 

Guilherme d'Oliveira Martins

 

 

 

A VIDA DOS LIVROS

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   De 29 de agosto a 4 de setembro de 2022

 

“Raízes do Brasil” (1936) de Sérgio Buarque de Holanda (1902-1982) são motivo de reflexão sobre a construção do Brasil contemporâneo, no momento em que se celebram dois séculos da independência brasileira.

 

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BRASIL - O OUTRO LADO DE NÓS

Parece audacioso o título que encima esta prosa. Poderá ser. É verdade que há muitas simplificações na apreciação das relações luso-brasileiras, como por exemplo a suposta irmandade, a coerência entre o que nos une e nos separa, a relação com o idioma comum. A verdade, porém, é que há uma grande complexidade nos elos que nos ligam. Não esqueço os inesgotáveis diálogos que estabeleci e estabeleço, tantas vezes apenas espiritualmente, com o meu saudoso mestre António Cândido, com Hélio Jaguaribe, mas também com o meu querido confrade Celso Lafer, com Fernando Henrique Cardoso, com Alberto Costa e Silva ou com Marcos Vinicios Vilaça. Devo dizer que se trata de matéria em que sou suspeito, uma vez que nasci numa família luso-brasileira. Minha avó Leonor nasceu no Estado de Paraná, na cidade de Paranaguá, de uma família de industriais da colonização alemã. Conheci em casa de meus avós Jordão Emerenciano, nos anos cinquenta, quando se vivia uma situação dramática com a morte de Getúlio Vargas, e não esqueço a gravação de poemas de Manuel Bandeira, que eram um regalo para o ouvido, a começar em “Recife” e no reconhecimento da sabedoria de Totónio Rodrigues. Anos depois, quando estive no Recife, corri à rua do Sol e verifiquei que ainda lá está, e não se chama doutor fulano de tal.

Partilhando muitas preocupações de amigos comuns, como José Carlos de Vasconcelos, gostaria que houvesse maior presença do Brasil em Portugal e de Portugal no Brasil. E recordo saudosamente conversas entusiasmadas com Mário Soares, José Aparecido de Oliveira, António Alçada Baptista, Zélia e Jorge Amado. Era um tempo em que Quincas Berro de Água fazia parte de um certo quotidiano. Com esta recordação bem viva, todos aspiramos a que haja uma maior relevância internacional da Comunidade de Países de Língua Portuguesa. Só uma relação biunívoca e uma compreensão das diferenças e complementaridades (ou se se quiser suplementaridades) poderão beneficiar-nos a todos. Longe de idealizar as relações comuns, trata-se de partir da heterogeneidade, das diferenças e da adaptação para delinear uma agenda de interesses e valores comuns. Se invoquei a experiência familiar, foi para tornar claro que sempre ouvi o teor contraditório dos debates, ora de lá, ora de cá. Tenho à entrada de minha casa a imagem de D. Pedro, enquanto o meu amigo Hélio, me levou a admirar o papel desempenhado por D. João VI na preservação da unidade brasileira. Conhecendo praticamente todo o território brasileiro, não apenas percorri o roteiro das reduções jesuíticas, mas também o impressionante percurso dos Bandeirantes, com a obra de Jaime Cortesão sobre Raposo Tavares nas mãos. E percebe-se bem a multiplicidade de fatores que contribuíram para a construção deste imenso território – podendo perceber-se a diversidade de fatores, lendo Sérgio Buarque de Holanda, Caio Prado Jr., Gilberto Freyre e naturalmente António Cândido.

 

UM MUNDO DA LÍNGUA PORTUGUESA

De facto, não há uma lusofonia, mas um mundo da língua portuguesa com muitas diferenças por encontrar e descobrir. E esse mundo da língua comum alberga várias línguas e várias culturas que devemos compreender melhor. Neste ano em que celebramos duzentos anos da independência formal brasileira e em Portugal assinalamos a nossa primeira Constituição, não esquecemos que o Reino Unido de Portugal, Brasil e Algarves já existia em 7 de setembro de 1822, quando foi dado o grito do Ipiranga, desde 16 de dezembro de 1815. O Rio de Janeiro foi desde então capital de Império e essa circunstância definiu o novo tempo que permitiu ao Brasil definir uma história singular que ainda hoje marca as nossas relações. Eis por que tem razão de ser a referência ao Brasil como outra face de nós. Não se trata de uma idealização, mas sim relação tornada natural, com todas as dificuldades inerentes a uma proximidade quase familiar, com todos os encontros e desencontros dessa paradoxal proximidade. Por isso, Eduardo Lourenço fala do Brasil como um outro “mesmo quando o pensamos, para reforço da nossa identidade onírica, como o outro sublimado de nós mesmos”. Eis por que precisamos uns dos outros para nos compreendermos melhor.

A colonização portuguesa, o tráfico de escravos, a relação com África e o papel da população ameríndia são os fatores de formação do Brasil. As diversas mediações articulam-se. Lembremo-nos de Diogo Álvares Correia, designado como “Caramuru” pelos tupinambá, casado com uma índia que contribuiu para o enraizamento da sociedade colonial. Mais do que o controlo da costa é a descoberta do ouro que conduz ao desenvolvimento económico, desde a ocupação do interior e aproveitamento dos rios até à produção agrícola e abastecimento dos mercados urbanos. Cana-de-açúcar, tabaco, ouro e diamantes definem a evolução do sistema económico, bem como a exploração do pau-brasil que inicia a desflorestação. O sistema político é inicialmente influenciado pelo português, com adaptações consuetudinárias. Franceses, holandeses e espanhóis constituem uma concorrência que permite alargar as áreas de colonização e influenciar o sistema de transporte. Com os espanhóis há a competição de que é exemplo o caso de Colónia de Sacramento até ao Tratado de Madrid (1750), mas a monarquia dual facilitará a chegada ao Forte Príncipe da Beira, muito para além do meridiano de Tordesilhas. A coesão social do sistema imperial torna-se possível graças à circulação das elites à influência económica dos cristãos-novos, apesar da ocorrência de tensões – ora influenciadas pela herança holandesa no nordeste, ora entre bandeirantes paulistas e reinóis em Minas Gerais. A Inconfidência Mineira (1789) foi resultado do descontentamento pelo agravamento fiscal e incerteza económica.

 

RESULTADO DE MOVIMENTO COMPLEXO

O Brasil não é produto do acaso. Corresponde a uma convergência de fatores centrípetos e centrífugos, em que a economia, a natureza e o fator humano criaram condições para a afirmação de um território de grandes dimensões que resistiu à fragmentação hispânica. O Padre António Vieira teve uma influência diplomática e humanista importante. A Universidade de Coimbra foi um fator de coesão e de prestígio para a elite intelectual. A política jesuítica face aos índios foi um elemento estabilizador. A mitologia tupi, o Candomblé como rito afro-brasileiro, o cristianismo e o messianismo que chegaria aos “Sertões” de Euclides da Cunha e a António Conselheiro geraram movimentos híbridos a que se somou a influência puritana holandesa. Com afirma Francisco Bethencourt: “De uma forma geral, o sistema normativo e a religião cristã deixaram quadros de comportamento e de crença sobre os quais se inscreveram boa parte dos desenvolvimentos contemporâneos” (Público, 8.8.2022). Os legados que permitiram a independência de um Brasil unificado são de caráter plural e misto com consequências contraditórias, no contexto de uma cultura na qual destacamos a herança artística de António Francisco Lisboa (o Aleijadino) até à literária de Tomás António Gonzaga.

 

Guilherme d'Oliveira Martins

A VIDA DOS LIVROS

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   De 12 a 28 de agosto de 2022

 

Torga, discípulo de Cervantes e de Unamuno, definiu Portugal como um ponto de encontro entre a vontade, o mar e a insatisfação. A leitura da sua obra permite entendermo-nos nas nossas contradições e nos nossos anseios.

 

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CADINHO DE VÁRIAS INFLUÊNCIAS

Portugal é um país difícil de entender. O cadinho de várias influências apresenta-nos elementos contraditórios. Mas há fatores que são permanentes e definem uma identidade que começa no querer, continua na omnipresença do mar e pressupõe uma luta constante. Lembremo-nos da saga dos poveiros, com o negro do luto das viúvas e dos órfãos nas praias atlânticas ou do combate contra a adversidade do meio em Trás-os-Montes, no Douro ou no Alentejo. Eduardo Lourenço e José Mattoso lembram que “uma das descobertas mais simples e irrecusáveis do após 25 de Abril é que Portugal é um país como os outros. Sem missão providencial, sem Quinto Império, sem realizações espetaculares, sem lugar especial no mundo, apesar dos Descobrimentos”. Isto significa, porém, que dependemos da nossa responsabilidade, do nosso querer e do saber pensar e fazer. Assim chegámos aqui. Precisamos uns dos outros. E temos de saber planear o futuro, partindo do presente, e avaliar os resultados que somos capazes de obter. Sempre que preparámos o futuro, ganhámos. Ao Deus dará perdemos e agravámos o nosso atraso, que não é uma fatalidade. O mérito não é um mito, só funciona quando resulta do reconhecimento das diferenças e da dignidade de cada um. Miguel Torga foi tantas vezes duro na sua apreciação de quem somos. Sabia do que falava e que nada se consegue de ânimo leve ou de ilusão. O desencanto assalta-nos tantas vezes, e o lirismo poético é apimentado com o picaresco e o maldizer.

 

O MUNDO CONTRADITÓRIO

Desejamos coisas contraditórias. E assim, se temos vícios devemos combatê-los, em vez de cultivar utopias enganadoras e esperanças vãs. Considerando-nos ou os melhores ou os piores, não nos safamos. Relendo o “Portugal” de Miguel Torga, surpreendemo-nos quando nos fala do Algarve, onde o conheci e cuja memória guardo num lugar especial. Disse ele, depois de nos descrever quem somos e onde estamos, sem ilusões: «O Algarve, para mim, é sempre um dia de férias na pátria. Dentro dele nunca me considero obrigado a nenhum civismo, a nenhuma congeminação telúrica nem humana. Debruço-me a uma varanda de Alportel e apetece-me tudo menos ser responsável e ético. As coisas de Trás-os-Montes tocam-me muito no cerne para eu poder esquecer a solidariedade que devo a quem sofre e a quem sua. E isto repete-se com maior ou menor força no resto de Portugal. Mas, passado o Caldeirão, é como se me tirassem uma carga dos ombros. Sinto-me livre, aliviado e contente, eu que sou a tristeza em pessoa! A brancura dos corpos e das almas, a limpeza das casas e das ruas, e a harmonia dos seres e da paisagem lavam-me da fuligem que se me agarrou aos ossos e clarificam as courelas encardidas que trago no coração. No fundo, e à semelhança dos nossos primeiros reis, que se intitulavam senhores de Portugal e dos Algarves, separando sabiamente nos seus títulos o que era centrípeto do que era centrífugo no todo da Nação, não me vejo verdadeiramente dentro da pátria. Também me não vejo fora dela. Julgo-me numa espécie de limbo da imaginação, onde tudo é fácil, belo e primaveril». Não, não há contradição nesta bela página, que temos de ler em estreita ligação a tudo o resto. O que Torga nos diz, é exatamente que temos de ser quem somos. E no caso algarvio, compreender que não é de sol e praia que se trata, mas de entender a cultura como capacidade de construir e usufruir, de amar a liberdade e de ligá-la à entreajuda, à compreensão da diversidade das raízes e ao desenvolvimento humano. E José Mattoso definiu o ponto que permite entender a paradoxal visão de Torga: «o fundamento da esperança no futuro é o reconhecimento dos ‘justos’ que nos rodeiam, seja qual for o meio em que vivem, e o apoio que somos capazes de lhes dar na sua luta pela ‘justiça’».

 

Guilherme d'Oliveira Martins

 

A VIDA DOS LIVROS

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  De 15 a 21 de agosto de 2022

 

A Ideia de Decadência na Geração de 70, de António Manuel Machado Pires (Ponta Delgada, 1980) constitui uma obra fundamental para a compreensão da cultura portuguesa, numa perspetiva panorâmica.

 

António Manuel Machado Pires

 

FRADIQUE MENDES E ANTERO DE QUENTAL

A última vez que estivemos juntos, foi em S. Miguel, nos Açores. António Machado Pires ainda teve ânimo para nos lembrar as diabruras do nosso amigo Fradique Mendes. Companheiro de muitas peregrinações, ora intelectuais, ora sociais e políticas, ora profissionais, cheguei mesmo a desafiá-lo para uma difícil missão educativa, era um amigo dileto. Fradique foi nosso companheiro de reflexões e lembranças. Sobre ele falámos nesse último encontro: “Fradique Mendes viaja por todo o mundo civilizado (entenda-se Europa) e vai mesmo até ao oriente, onde constata que este está já tão decadente como o Ocidente… Aliás, a ideia de decadência havia de perseguir esta geração, que nos anos oitenta já estava a dar lugar a outra, fim de século. Num verdadeiro discurso de tentação, o diabo fala a Teodoro (n’ “O Mandarim”, de Eça de Queiroz) em carruagens de luxo com molas fofas como nuvens e Carlos da Maia também usufrui do conforto da mobilidade parisiense. De Paris vem a imagem do 202 de Jacinto, a quem Eça empresta traços que o fazem pertencer à geração de 70, contemporâneo de Antero” (Antero Hoje, 2017). Na lembrança do amigo que nos deixou, recordo ainda Almada Negreiros a afirmar, de modo insidiosamente chocante: «Ainda nenhum português realizou o verdadeiro valor da língua portuguesa (…) porque Portugal, a dormir desde Camões, ainda não sabe o verdadeiro significado das palavras». E António Machado Pires, com Vitorino Nemésio, compreendeu-o muito bem, afirmando as duas linhas de pensamento dominantes na reflexão sobre a cultura portuguesa, uma idealista e outra racionalista, representadas por Teixeira de Pascoaes e António Sérgio, devendo ambas ser consideradas “para o balanço de ser português na vida, na cultura e no mundo”. Dando maior importância ora a uma ora a outra, o certo é que os dois polos têm de estar presentes na compreensão e na construção do “ser de Portugal” (para usar uma expressão de Pedro Lain Entralgo). A vontade, o sentimento de pertença, “a estruturação da Cultura e a organização do Estado”, caminhando a par, na análise de António José Saraiva, a construção de um imaginário, a experiência “madre de todas as cousas” (de Duarte Pacheco Pereira e de Camões), os conflitos entre a sociedade antiga e a sociedade moderna (bem evidentes no Portugal Contemporâneo), a compreensão de um culto de sentimentos contraditórios, os mitos da origem, de resistência ou de predestinação, tudo nos permite tentar perceber quem somos e o que nos motiva e desafia. Daí termos de comparar, de ver de dentro e de fora, de cruzar saberes e campos de pesquisa.

 

UMA VISÃO PANORÂMICA

Ao contrário de considerações superficiais, designadamente sobre a Geração de 70, sem esquecer as raízes vindas de Garrett e Herculano, verdadeiros fundadores da nossa modernidade, António Machado Pires ocupou-se, com grande rigor, na demonstração do carácter complexo da cultura portuguesa como “melting pot” de múltiplas influências e de uma capacidade especial de assumir uma atitude crítica positiva, orientada num sentido emancipador, centrada não só nas preocupações ligadas à justiça e à coesão social, mas também na criação de condições concretas para pôr o coração do país a bater ao ritmo da civilização. Por isso, Machado Pires, ao analisar o final do século XIX português como período de paradoxal decadência considera essa ideia «como “complexo de inferioridade” de povo que olha outros povos com consciência da sua inferioridade e com nostalgia da grandeza passada, mas, apesar de tudo, ainda com um sentimento de missão, que, mesmo em períodos de crise, parece poder manter-se. Não julgamos ter sido outro o mérito maior da geração de 70: inebriada de leituras novas, ter-se ocupado muito da decadência e da Revolução, acabando “vencida” ou conformada, mas como diz Eça de Fradique, nobilitando a nação e a cultura nacional pelo próprio ato de refletir e pensar. Isto é, provando que uma nação existe porque pensa». E assim se confirma que essa complexa geração de 1870 não tenha sido verdadeiramente vencida, até porque «Vencidos da Vida» é uma expressão irónica, como bem sabemos, saída de um diálogo irónico entre Ramalho e Oliveira Martins. “Battus” é o que verdadeiramente somos, diziam os dois companheiros, no sentido de zurzidos pelos acontecimentos, mas não como desistentes ou conformistas. Foi essa, aliás, a mesma ideia defendida por Eduardo Lourenço, em nome de uma imperfeição que originava uma exigência de atenção aos movimentos globais e de capacidade crítica capazes de entender o “país relativo” de Alexandre O’Neill como “meu remorso de todos nós”. E a circunstância de ter havido a atitude depressiva do pessimismo, a verdade é que nos libertamos dessa tentação, ficando-nos na real convergência entre o picaresco do maldizer e o amor-próprio que nos leva ao orgulho essencial quando falamos da grei. Daí a ideia cultivada por Machado Pires, na linha dos mestres das Conferências do Casino Lisbonense da crença numa capacidade regeneradora, já que a nação existe porque pensa.

 

AUTONOMIA AÇORIANA

Defensor da autonomia açoriana, o estudioso da cultura portuguesa compreendeu como poucos a pluralidade de fatores que permitem considerar uma identidade aberta. O Atlântico constitui uma convergência de influências, um verdadeiro laboratório cultural, que invoca a mítica Atlântida e articula a Macaronésia. Estamos na base do paradigma de um idioma que se projeta em várias culturas e diversas línguas. O Roteiro Cultural dos Açores que, Machado Pires coordenou, constitui um trabalho muito sério e aprofundado que não pode confundir-se com uma obra de divulgação, como alguns pretenderam. Trata-se de um repositório fundamental que terá de se constituir em ponto de partida para uma ação necessária de apresentação de um percurso esclarecedor para o visitante, que permita descobrir a magia de uma natureza inesgotável e de uma história complexa, a ligar naturalmente património material e imaterial, flora e fauna, paisagem única, além de lugar de criação artística e literária, social e cultural. Quem quisesse um simples roteiro turístico e se contentasse com superficialidades, precisaria de outro instrumento. No caso do mestre humanista, encontram-se as grandes referências culturais dos Açores, muito para além de postais à la minuta. E assim poderemos encontrar Gaspar Frutuoso, Antero de Quental, Vitorino Nemésio, Manuel de Arriaga ou Natália Correia e a esplendorosa identidade açoriana – onde tudo floresce entre o diálogo universalista, o sentido de pertença e a criatividade humana. Não por acaso, a iniciar A Ideia de Decadência na Geração de 70, Garrett é citado nas inesquecíveis Viagens: “Vi o Tejo, vi a bandeira portuguesa flutuando com a brisa da manhã, a Torre de Belém ao longe… E sonhei, sonhei que era português, que Portugal era outra vez Portugal».

 

Guilherme d’Oliveira Martins

 

A VIDA DOS LIVROS

De 8 a 14 de agosto de 2022.


A homenagem que prestamos a Ana Luísa Amaral é inteiramente subscrita por Eduardo Lourenço no número 187 da revista Colóquio Letras da Fundação Calouste Gulbenkian, de setembro de 2014, sobre o livro “Escuro” (Assírio e Alvim), que o ensaísta apresentou publicamente. Oiçamos o nosso querido e saudoso mestre.


UMA SUBTIL NAVEGAÇÃO A CÉU ABERTO
«Os que conhecem e amam a poesia de Ana Luísa Amaral sabem como ela é uma subtil navegação a céu aberto entre os recifes da realidade. (…) Ana Luísa é da raça das sibilas e das cassandras, mas também das penélopes fiando às avessas o fio mortal da vida como obscuridade original na esperança de que se volva luz. E mesmo luz eterna. Esta vocação onírica e mítica, revisitação do imaginário clássico do Ocidente, irmana e distingue a sua aventura poética da outra corrente também a ela paralela da poesia como empresa real de transfiguração da vida épica inaugural da humanidade em modelo dos atos mágicos e utópicos de uma outra criação. (…) Toda a sua original obra poética podia levar o título de Memórias Revisitadas, uma outra versão do mítico título proustiano ‘Em busca do Tempo Perdido’, não em mera chave sublimemente autobiográfica, mas transtemporal como jogo de todos os tempos: «Em vez de vinte tempos / de mudança / queria um tempo / só meu: revisitado // Um tempo o mesmo / tempo sempre o mesmo / polvilhado de salas / de visita // Um tempo de mudar / formas às coisas / às vezes / abrir portas.» Embora fascinada pelos mistérios na aparência mais profundos que os do «tempo humano», é neste e deste que a sua voz poética se faz glosa e se extasia: «Revisitar os sítios / do pressentimento: / quase não ter-te / o tempo a recolher-se // E não mandar no tempo, / eu impotente / a vê-lo recolher-se // Tu quase a já / não estares / volume a menos // Revisitar / a / tua / ausência».


SOB O SIGNO DE DOIS VIDENTES
No seu livro de poemas “Escuro”, colocado sob o signo de dois videntes, S. João da Cruz e William Blake, Ana Luísa revisita uma vez mais a pura memória, a de uma infância onde obscuridade escutada e «a mais pura alegria» se misturam». Através «de tempos que nunca sobre si mesmos se fecham, (Ana Luísa) encontra no absoluto da paixão, com abandono e perda glorificada, a sua música mais rente ao silêncio, a da obscuridade da alma convertida como a de Mariana no cântico dos cânticos de todas as seduzidas e abandonadas. Chama-se «A Carta», dirigida ao que lhe foi tudo e ninguém, pura chama de amor por Stendhal lembrada como a mais alta forma de paixão:


«Senhores: / hão de a dor e a ausência ter sabor, / um certo cheiro doce e demorado, / em forma de mil olhos // Pois vós olhastes essa minha ausência, / dissestes que dali criei palavras, / mas não por minha mão // Na vossa história, senhores, /eu fui só voz, /em vez de gente inteira // Inteira, nunca o fui, / dobrada ao meio pelo escuro das vestes, / pelas juras forçadas que cumpri, / pelo dever que me ditou meu pai // Porém, fui eu que as fiz, às letras dessas cartas, / eu, que as fui construindo devagar, / na escuridão da cela […] // Não fui só voz: / fui eu, dona de mim, / porque as letras me foram, e o amor, /e o ódio vagaroso // Só para isso me valeu viver, / para compor, igual a sinfonia, / tudo o que considerei // Ele foi só palavras que em palavras forjei, / bigorna onde moldei espadas e lanças, / o lume necessário // Só não moldei / as grades da prisão onde vivi: / essas, moldastes vós / até incandescência // Mas eu, nas letras que compus, / eu inventei a ausência como mais ninguém. / Eu fui a mão da ausência / numa cela escura // E os atos dele foram-me as metáforas, / imagens a seguir-me, mais fortes / do que a vida. / Por isso me chamastes, senhores, / no vosso tempo, uma palavra nova e ágil: / literatura // E assim eu fui-vos voz, / e doce mito. E nada mais / vos fui // Quero dizer-vos hoje, / neste tempo tão escuro, / mas de um escuro diverso do que tive: / adeus // Deixai-me o escuro, o meu. / Porque ao lado da minha, / a vossa ausência, essa que em mim plantastes, / nada é. // Tomáreis vós saber o que é ausência / Ausência: eu: demorada nestas linhas. / Dizer com quanto escuro / a noite se desfaz / e se constrói».


Desta ausência Ana Luísa fez não uma luminosa habitação, mas uma espécie de esplendor, não como aquele com que Rilke dourou a Morte, mas pura saudade intérmina da Vida. Bem haja ».


(O Texto encontra-se integralmente digitalizado, como acontece com toda a coleção de “Colóquio Letras”).

 

Guilherme d’Oliveira Martins

A VIDA DOS LIVROS

De 1 a 7 de agosto de 2022.


«Os Sermões» do Padre António Vieira são na língua portuguesa o exemplo do momento mais alto atingido na prosa por uma língua moderna.

 

A VEZ DO PADRE VIEIRA
Depois de termos sido guiados por Francisco de Holanda na jornada romana, é a vez de trazermos à nossa caminhada o Padre António Vieira, encontrado, com especial agrado em diversos recantos desta peregrinação. E cito-o numa carta de cerca de 1670, onde diz com ironia: “Embarquei-me, com esta última, trinta e cinco vezes e sei pouco: que farão os que viram o mar só do Cais da Pedra até Sacavém”. De facto, Vieira teve uma vida viajada e aventurosa, que originou textos “tão diferentes na matéria e lugares em que foram recitados”. Se a missão diplomática de que foi encarregado em 1650 teve como objetivo a paz com a Espanha e a tentativa de casamento de D. Teodósio com a filha de Filipe IV, bem como os projetos relativos aos cristãos-novos, a estada iniciada em agosto de 1669 teve como finalidade as diligências para a canonização do padre Inácio de Azevedo e dos trinta e nove jesuítas assassinados em 1570 por corsários calvinistas quando iam para o Brasil. Tratou-se, porém, de uma missão formalmente modesta (que só viria a ter resultado no século XIX), até porque o regente D. Pedro não concedeu autorização para passagem por Inglaterra em visita a D. Catarina, ficando igualmente prejudicado o encontro em França com o seu amigo Duarte Ribeiro de Macedo. Contudo, nesse ano de 1669 Vieira usa da sua influência e concentra esforços no combate junto da Cúria às práticas do Santo Ofício em Portugal de que o próprio vinha sendo vítima, assim como na defesa dos cristãos-novos e ainda na procura de recursos financeiros para a criação da Companhia Comercial da Índia. Era o tempo em que o Padre João Paulo Oliva desempenhava funções de Superior Geral da Companhia de Jesus e pregador oficial do colégio dos Cardeais. Com a fama trazida pelo português de orador carismático, nasce a ideia de lhe dar encargo de pregador para audiências esmeradas.


OS SERMÕES ITALIANOS
Os primeiros sermões deste período não alcançam, contudo, o sucesso esperado, uma vez que são proferidos em português. O Sermão do Mandato e os alusivos a Santo António ditos em Santo António dos Portugueses são notáveis. “É verdade que Portugal era um cantinho ou um canteirinho da Europa; mas, nesse cantinho da terra pura e mimosa de Deus, quis o céu depositar a fé, que dali se havia de derivar a todas essas vastíssimas terras, introduzida com tanto valor, cultivada com tanto trabalho, regada com tanto sangue, recolhida com tantos suores e metida, finalmente, nos celeiros da Igreja debaixo das chaves de Pedro, com tanta glória”. Mas Vieira sabia também que “luzir português entre portugueses e muito menos luzir com a sua luz, é coisa muito dificultosa na nossa terra”. O pregador circula pela cidade e nós procuramos as suas referências: “Mais gosto de ver em Roma as ruínas e o desengano do que foi a vaidade e variedade do que é, e com isto me parece o mundo mais estreito e a minha cela mais larga”. Só em 1672 na festa de S. Francisco d’Assis o padre prega pela primeira vez em italiano e a fama desde logo se difunde. Na solenidade de S. Estanislau partilha o tratamento do tema com o próprio Padre Oliva, que não esconde a grande admiração pelo português. Confessará Vieira que foi em resultado de muita insistência que cometeu a audácia de usar a língua italiana. Chegarão até nós dez sermões e um discurso em língua italiana, havendo mais onze sermões em português. É o encontro com a Rainha Cristina Alexandra da Suécia (1626-1689) e a participação do orador sagrado nos salões desta que irão torná-lo em Roma um reconhecido e maravilhoso artista, confirmando a grande fama trazida desde onde exercera o seu múnus. Quando passamos pela igreja de Salvatore in Lauro, na via dei Coronari, sentimos a presença da Rainha (que viveu no palácio Farnese) e os ecos do orador sagrado. A rua, inaugurada por Sisto IV (sempre continuamos a encontrá-lo), foi da predileção dos romeiros, que aqui encontravam objetos religiosos, e hoje antiguidades e restaurantes.


A RAINHA CRISTINA DA SUÉCIA
Muito provavelmente foi a audição de um dos sermões num ofício religioso em Salvatore in Lauro que suscitou o convite para que em cinco terças feiras da Quaresma de 1674 pregasse breves reflexões sobre o tema “Conhece-te a ti mesmo”, a propósito das cinco pedras da funda de David – a que acresceu o discurso “Lágrimas de Heráclito”. Neste caso, coube a Vieira participar num jogo citadino que se traduzia num confronto entre o riso e o choro, cabendo ao português defender o choro na perspetiva de Heráclito e a Jerónimo Cattaneo o riso em Demócrito. “Se a primeira propriedade do racional é o risível, o exercício próprio do mesmo racional, e o uso da razão, é o pranto” – usando o pregador um subterfúgio pelo qual tornava o choro um meio natural de ligar razão e espírito. Aliás, quanto ao tema do conhecimento, a propósito de David, a primeira pedra de cor branca simbolizaria o conhecimento e a transparência; a segunda, de cor negra, representaria a dor do bem perdido; a terceira, vermelha, cor da vergonha, corresponderia ao “pejo do mal cometido”; a quarta, o temor do castigo futuro, sendo amarela e pálida; e trataria a quinta da esperança do gosto eterno, simbolizada pelo verde, cor da esperança – “spes eterni gaudii”. O verdadeiro conhecimento de David e a sua força provinham do fundo da sua alma. “Levai na memória a pedra do conhecimento próprio, e lembrai-vos que sois almas, e almas mortais: levai a pedra da dor do bem perdido, e doei-vos do pecado: levai a pedra do mal cometido, e envergonhai-vos de Deus e dos homens, e de vós mesmos: levai a pedra do temor do castigo eterno, temei mais que todas as pedras do Inferno, o ódio e as blasfémias contra Deus. Levai finalmente, a pedra da esperança do céu, e vivei como que espera salvar-se, e gozar o sumo bem, sumamente”. Este é o período mais alto do pregador, que conquista plenamente as cortes refinadas do Papa Clemente X e de Cristina da Suécia. É aquele em que Vieira, com a proteção papal e livre do controlo da Inquisição portuguesa, pode retomar a perspetiva profético-religiosa que culminará na “Chave dos Profetas”, cuja originalidade e sentido profundo o tempo tem vindo a revelar. O certo é que, já no regresso do clérigo a Portugal, Cristina da Suécia convidará o Padre António Vieira para seu confessor: “Agora, mais que nunca é V. Reverência desejado de uma senhora que por servir a Cristo não quis reinar…”, segundo o próprio Superior Geral em epístola datada de 12 de setembro de 1680. O orador sagrado recusa, porém, o convite, alegando a idade avançada e as doenças que continuam a fazer-se sentir. Nota-se que há uma preocupação dos amigos de Vieira em Roma no sentido de o libertar dos efeitos das ações nefastas dos adversários, que, de facto, continuarão a fazer-se sentir até ao fim dos seus dias, já na Bahia. O pregador compreende a situação, mas prefere terminar a escrita e a publicação da sua obra, que em parte significativa conseguirá.

 

Guilherme d’Oliveira Martins
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A VIDA DOS LIVROS

  

De 25 a 31 de julho de 2022 


“Alteridade e Transcendência” (Fata Morgana, 1995) de Emmanuel Levinas constitui uma reflexão fundamental na qual a pessoa humana surge no centro da vida. Trata-se do autor do século XX que melhor tratou do tema da importância do rosto na relação humana. A sua leitura permite compreender os grandes dilemas da existência.


«Diz o Povo que o rosto é o espelho da alma. Com os olhos nos olhos entendemo-nos e o carácter demonstra-se na capacidade de nos encararmos frontalmente. Quem foge ao olhar do outro, em boa verdade, foge de si próprio. O outro é, de facto, a nossa natural continuação – a outra metade de nós mesmos. Pelo olhar comunicamos e apercebemo-nos da alegria ou da tristeza, da dúvida ou da certeza, da confiança ou do medo, do pânico ou da indiferença, da atenção ou da dispersão, do conhecimento ou da ignorância, da generosidade ou da ganância, da serenidade ou da perturbação, da violência ou da piedade, do sossego ou do desassossego, da guerra e da paz. E o que é a cultura senão a compreensão da multiplicidade de atitudes, sentimentos e emoções – que o rosto identifica? A razão e o sentimento manifestam-se pela expressão do rosto, mas, como nos ensinou Emmanuel Lévinas, mais de que uma manifestação, do que se trata é da humanidade na responsabilidade para com os outros, que podemos encontrar no diálogo silencioso entre duas pessoas que se encontram através do olhar. A filosofia primeira é uma ética! A palavra grega pessoa, provém de “prosopon”, que significa máscara, ou seja, a identificação pelo rosto da personagem da tragédia helénica. Eis a importância da mais sagrada das marcas do carácter e do “ethos”. O espelho da alma é assim o sinal da dignidade humana. Na pintura, na escultura, nas artes, mas também no canto ou na representação dramática é o rosto a representação da essência da humanidade. Na “Divina Comédia”, no percurso do Inferno, do Purgatório e do Paraíso, Dante é acompanhado  pela bela Beatriz Portinari, na visita das nove esferas celestes do Paraíso – Lua, Mercúrio, Vénus, Sol (símbolo da prudência e do bom uso da teologia), Marte (sinal de coragem), Júpiter (símbolo de justiça), Saturno (da contemplação), Estrelas fixas (da Igreja triunfante), - e é na última esfera do universo físico, que antecede o Empíreo, que se dá o encontro com Deus, como descoberta de um rosto, olhos nos olhos. E quando Beatriz deixa Dante com S. Bernardo, para que a teologia comande, Dante confessa: “não é voo para as minhas asas”… Tal como em S. Paulo, a imagem essencial do supremo encontro faz-se, assim, através do diálogo do rosto. Que melhor expressão? Que melhor descoberta? 

Guilherme d’Oliveira Martins
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