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Blogue do Centro Nacional de Cultura

Um espaço de encontro e de diálogo, em defesa de uma cultura livre e pluridisciplinar. Estamos certos de que o Centro Nacional de Cultura continuará, como há sete décadas, a dizer que a cultura em Portugal vale a pena!

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A VIDA DOS LIVROS

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   De 24 a 30 de setembro de 2018

 

«Sua Excelência, de Corpo Presente» (D. Quixote, 2018) de Pepetela é o retrato implacável de um país imaginário, situado em África, visto por um alto dignitário que inesperadamente morre…

 

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COMPREENDER A CULTURA ANGOLANA

Não podemos compreender a cultura angolana contemporânea sem lermos a obra muito rica e multifacetada de Pepetela, Prémio Camões de 1997. Pode dizer-se mesmo que, ao longo do tempo, Artur Carlos Maurício Pestana dos Santos, nascido em 1941, em Benguela, tem procurado refletir de modo dinâmico sobre a evolução da história de Angola – olhando-a não nos seus paradoxos e dificuldades, mas na compreensão das suas potencialidades. Desde “Mayombe” (1980) até “Se o Passado Não Tivesse Asas” (2016) encontramos uma caminhada complexa e interessante, na qual a cada passo encontramos novos problemas e novos desafios. E agora, com “Sua Excelência, de Corpo Presente” talvez se feche um ciclo na análise da evolução da sociedade angolana. Para o romancista trata-se de compreender que há ciclos na vida dos povos, dos quais depende o progresso, o desenvolvimento e a emancipação. Veja-se, por exemplo, em “A Geração da Utopia” como a independência angolana gerou acontecimentos e sentimentos contraditórios que culminaram em mil dramas. Numa análise de diversos momentos-chave, passamos de um entusiasmo épico a uma progressiva instalação, que torna os interesses imediatos, a burocracia, o dinheiro e o favor mais importantes que os valores éticos. Olhando a vida de Pepetela, compreendemos que há uma evolução pessoal em que o sentido crítico e o talento se vão aperfeiçoando. Tendo passado, na sua formação em Portugal, como estudante da Casa dos Estudantes do Império, do Instituto Superior Técnico para a Faculdade de Letras – e contando com a rica experiência anterior em Benguela e no Lubango – cedo Pepetela ligou uma preocupação humanista e a consciência da emancipação social e política, que obrigava a criação de um novo Estado independente e desenvolvido. Como salienta em “As Aventuras de Ngunga”, haveria que ligar as raízes e as tradições do povo angolano ao espírito emancipador e revolucionário. A partir da necessidade de revisitação da história, Pepetela refletiu profundamente sobre a tensão entre a continuidade e a mudança. Pode dizer-se que essa é uma preocupação contínua – que articula a consciência política, o sentido crítico, a compreensão do tempo e da sua evolução e a consciência de um mundo melhor. Tendo sido Vice-Ministro da Educação do Governo de Agostinho Neto (1975-1982), foi chamado à responsabilidade de encontrar, num sector-chave, as medidas indispensáveis nos domínios didático e pedagógico, da coesão social e da dignidade humana, para preparar os jovens angolanos para uma fase decisiva da sua história coletiva. Só a aprendizagem, a experiência e o exemplo podem permitir uma emancipação eticamente fundamentada.

 

ENTRE METÁFORAS E DESAFIOS

Em “Yaka”, romance histórico sobre a colonização de Benguela, o romancista usou a metáfora de uma escultura de madeira, símbolo guerreiro, para articular a consciência das raízes identitárias e do novo espírito da nacionalidade. Pepetela compreende bem o tema da legitimidade numa sociedade que se pretende mais justa – as raízes fortalecem-se graças à capacidade de responder com instrumentos do presente aos desafios que se reeditam. Pensando nas origens da sua própria família, Pepetela procurou investigar a evolução histórica, designadamente em “A Gloriosa Família”, cujo tema nos leva ao século XVII. O que está em causa, porém, é compreender melhor Angola de hoje. A dimensão épica de “Mayombe” evolui para uma perspetiva crítica de “A Geração da Utopia” (1992), onde a história é confrontada com a dura tomada de consciência das divisões e contradições de uma sociedade atravessada pela exploração colonial, pela libertação, pela guerra civil e por um compasso de espera que obriga à reflexão crítica. A emergência da corrupção e da burocracia obriga a uma séria atitude de questionamento. Com Jaime Bunda, o detetive contraditório e vacilante, que é obrigado a entrar no bas-fond, o escritor visa o método satírico, que reforça o sentido agudo da crítica. Ao tratar temas muito sérios, Pepetela fá-lo reforçando os traços caricaturais da sociedade que melhor revelam os elementos dramáticos de um tempo, que em lugar de cumprir os melhores desejos esperançosos dos idealistas da libertação deixa-se arrastar pelas piores tentações do poder, que corrompe e atrai os corrompidos. Por outro lado, o realismo mágico começa a emergir na sua obra, com sentido imagético que não esquece a tradição africana e o culto da compreensão dos mitos – marcado de algum modo pela desilusão. E o tema policial associa-se à crítica do contexto internacional e às ameaças de dependência. O mundo dominado pelas superpotências, os interesses dos grandes blocos económicos, a cegueira relativamente às desigualdades e às injustiças, eis o que encontramos como pano de fundo da procura de descobrir os sintomas de uma doença política, económica e social…

 

QUE UTOPIA?

Oiçamos afinal, o escritor num momento chave de “A Geração da Utopia”: “Isso de utopia é verdade. Costumo pensar que a nossa geração se devia chamar geração da utopia. (…) Pensávamos que íamos construir uma sociedade justa, sem diferenças, sem privilégios, sem perseguições, uma comunidade de interesses e pensamentos, o Paraíso dos cristãos, em suma. A um momento dado, mesmo que muito breve nalguns casos, fomos puros, desinteressados, só pensando no povo e lutando por ele. E depois, tudo se adulterou, tudo apodreceu, muito antes de se chegar ao poder. Quando as pessoas se aperceberam que mais cedo ou mais tarde era inevitável chegarem ao poder, cada um começou a preparar as bases de lançamento para esse poder, a defender posições particulares, egoístas. A utopia morreu. E hoje cheira mal, como qualquer corpo em putrefação. Dela só resta um discurso vazio”. A lucidez do crítico está perante nós. E lendo com atenção, poderemos entender por que razão o sentido crítico de «Sua Excelência, de Corpo Presente» corresponde a uma exigência talvez paradoxal – a de não abandonar o sentido crítico, a de compreender as razões da sociedade imperfeita e a de prosseguir um caminho de emancipação individual mercê de um desenvolvimento comum. Para Pepetela: “Será muito cedo para lançar foguetes, mas não se poderá negar haver uma ‘brisa nova’ soprando nas nossas faces. Que as flores tenham oportunidade de desabrochar e que não percamos (nós continente, nós país) o comboio da modernidade e do progresso, que parece estar ao alcance da mão, é o meu desejo”.

 

Guilherme d'Oliveira Martins
Oiça aqui as minhas sugestões - Ensaio Geral, Rádio Renascença

 

A VIDA DOS LIVROS

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   De 17 a 23 de setembro de 2018

 

Retábulo das Matérias - 1956-2013” (INCM, 2018) de Pedro Tamen, na coleção Plural, permite a revisitação da obra de um grande poeta, compreendendo a importância e o significado de um percurso ricamente singular.

 

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ARTE DA MEMÓRIA

 

Teria sido Simónides de Cós (séc. V, a. C.) o primeiro cultor da Arte da Memória. Ele disse ser preferível a arte de esquecer que a de lembrar. E hoje quando se fala tanto da memória informática na parafernália dos computadores, é bom voltar a esse entendimento, segundo o qual a sabedoria se faz sempre de lembrança e de esquecimento, para que não se confunda com ressentimento e favoreça a experiência e a aprendizagem. Por isso, ao sair do campo de concentração Joseph Rovan disse que esqueceria a cara dos carcereiros, mas lembraria sempre que importava combater a barbárie, pelo respeito e não pela vingança, pela dignidade e não pela violência. Memória Indescritível de Pedro Tamen (2000) ilustra bem esse cuidado especial com a memória, e essa relação paradoxal entre viver e reviver. A epígrafe de Sá de Miranda é significativa dessa contradição fecunda, que alimenta a existência. “Alma, que fica por fazer desde hoje / na vida mais, se a vã minha esperança, / que sempre sigo, que me sempre foge / já quanto a vista alcança, a não alcança”. E o poeta procura esclarecer essa relação necessariamente imperfeita e contraditória. De facto, não há memória que se complete a si mesma – ela será sempre, por isso, indescritível: “Deixar correr o tempo sem memória/ entre memoriais de tudo quanto houve/ valendo-me assim do que os outros lembram/ para nada lembrar”. É, no fundo e sempre, a complexa relação com o tempo, que tanto perturbava o bispo de Hipona, que está em causa - a tripla dimensão do presente, articulando o agora, o passado e o devir, numa observação atenta e inesperada. “Por sobre o ombro (dói!) lobrigo/ tantas confusas coisas, falo delas./.../o peso, o contrapeso, a palavra que digo. Sufoco o medo a medo, e olho a esteira/ remudo e quedo, sentado na cadeira”. Daí a invocação de Sá de Miranda, que nos remete ainda para o célebre poema: “Comigo me desavim, / Sou posto em todo perigo; / Não posso viver comigo / Nem posso fugir de mim”. Com a memória é também essa perplexidade que se manifesta, entre o alcançar e não alcançar o que a alma diz.

 

 

LUCIDEZ CRÍTICA

 

Com uma lucidez crítica premonitória, e ainda numa fase precoce da produção poética do autor, António Ramos Rosa afirmou: “Vejo na poesia de Pedro Tamen uma das mais sérias tentativas para dar à atividade poética aquele sentido do sagrado, sem o qual não se pode atingir a verdadeira dimensão interior. Violentamente dramático, quase sempre, este poeta restabelece a circulação entre o humano e o elementar infundindo à linguagem poética uma energia e expressividade que superam a mera agressividade do bizarro, tantas vezes esterilmente ofensiva em alguns poetas surrealistas” (in Poesia Liberdade Livre, Ulmeiro, 1968). E o certo é que o tempo veio a confirmar este carácter sagrado e dramático – e um modo especial de lidar com as palavras, sem esquecer a ironia, a dúvida, a incerteza e a compreensão da realidade através do seu avesso. É verdade que o tempo trouxe muitas mudanças, mas Ramos Rosa não se enganou na linha fundamental revelada já nessa altura pelo poeta. Estamos perante um percurso coerente e seguro, de quem sempre aliou a ação e a reflexão: “Formado em direito e solidão, / às escuras te busco enquanto a chuva brilha. / É verdade que olhas, é verdade que dizes. / Que todos temos medo e água pura” (como disse em Escrito de Memória, 1973).

 

 

PRESENÇA DA PALAVRA

 

Na relação com as palavras, importa lembrar que, além de poeta seguro e talentoso, com indiscutíveis provas dadas, Pedro Tamen é um tradutor excecional, com larguíssima experiência com notáveis resultados. Além das traduções de final de sessenta, sob o pseudónimo M. Rodrigues Martins, temos um rol notável, desde Tomás Kêmpis (com Isabel Bénard da Costa) até Gustave Flaubert, Marcel Proust, Georges Perec, Pascal Quignard, Javier Marias ou Michel Houellebecq. Homem de cultura, Pedro Tamen tem um percurso ligado ao que António Alçada Baptista designou como a “Aventura da Moraes”. Vindo da revista “Anteu – cadernos de cultura” (1954), passaria pelo jornal “Encontro” da JUC, onde seria chefe de redação (1955-1957), dirigiu o Centro Cultural de Cinema (CCC) e publicou o primeiro livro Poema para todos os dias (1956). Terminado o curso de Direito, é incorporado no Exército uma primeira vez (1957), mas o ano de 1958 vai significar uma mudança – que se prende aos sobressaltos causados pela candidatura presidencial do General Humberto Delgado, pelo memorando do Bispo do Porto a Salazar, que levaria o prelado ao exílio, e ao início do pontificado de João XXIII. António Alçada Baptista transforma a Livraria Morais da Rua da Assunção num centro de renovação política e religiosa. Pedro Tamen entrou como seu sócio, aos quais se juntou uma equipa constituída por João Bénard da Costa, Nuno Bragança, Luís de Sousa Costa, Helena e Alberto Vaz da Silva, E lança o Círculo da Poesia, com o inesquecível símbolo solar de José Escada, onde publica O Sangue, a Água e o Vinho. Anima as coleções Circulo do Humanismo Cristão e “O Tempo e o Modo” (que dará título à revista em 1963). Segundo António Alçada, havia a “poderosa força da inércia” e a “frágil força da mudança” e um grupo de jovens propunha-se agitar as águas no pensamento e na ação. Pedro Tamen formula o programa – simples e claro: “a ação começa na consciência. A consciência, pela ação, insere-se no tempo. Assim, a consciência atenta e virtuosa procurará o modo de influir no tempo. Por isso, se a consciência for atenta e virtuosa, assim será o tempo e o modo”. A Morais afirma-se como pioneira na reflexão dos grandes temas do Concílio Vaticano II e a revista concretiza-se em 29 de janeiro de 1963 – António Alçada Baptista era o proprietário e diretor, João Bénard da Costa, chefe de redação, Pedro Tamen, editor, além da participação ativa de Nuno Bragança, Alberto Vaz da Silva e Mário Murteira. Não era, porém, uma revista de católicos. Haveria de seguir os passos de Emmanuel Mounier, que fizera em 1932 da revista “Esprit” um lugar de abertura e diálogo com não católicos. Era preciso abrir espaços, havia outros católicos de um setor mais técnico, como Adérito Sedas Nunes e Alfredo de Sousa, mas havia também jovens estudantes da greve de 1962, como Jorge Sampaio, Jorge Santos, Manuel de Lucena e José Medeiros Ferreira, e havia ainda oposicionistas clássicos como Mário Soares e Francisco Salgado Zenha… Sobre a abertura aos não católicos, João Bénard recorda: “um de nós sugeriu que se rezasse uma Avé Maria para que o espírito nos iluminasse”. E a votação fez-se – cinco votos a favor, dois contra e a abertura foi decidida!

 

Como editor, como poeta, como escritor, como intelectual ativo, Pedro Tamen é uma personalidade das mais marcantes do nosso tempo. Os critérios que usou desde o “Círculo da Poesia” até à Gulbenkian, demonstram bem como pôde rodear-se dos melhores, num momento rico da nossa criação cultural. O seu talento foi um natural complemento da qualidade de escolha. Usando a expressão de Ruy Belo sobre a geração dos “vencidos do catolicismo”, a verdade é que estes, como os ancestrais de 1870, não foram vencidos no largo prazo, sendo símbolos vivos do que podemos designar como a “paixão crítica”. Quando foi inventada a expressão “vencidos da vida”, havia um misto de ironia e de revolta. Contra a ideia de fatalismo do insucesso ou do atraso, foi o sentido crítico que venceu nas duas gerações – a da “Vida Nova” e de “O Tempo e o Modo” com a dureza da denúncia e a aventura das propostas audaciosas.

 

 

Guilherme d'Oliveira Martins

 

 

A VIDA DOS LIVROS

De 10 a 16 de setembro de 2018

 

O códice número 477 da Biblioteca Nacional de Portugal, intitulado “Crónica de El Rei Dom Sebastião, Décimo Sexto Rei dos de Portugal na qual se contém, por maior, os sucessos do seu Reinado e vida”, da autoria de Miguel Pereira (1584), constitui o mais antigo relato sobre a vida e reinado de D. Sebastião que chegou até nós.

 

 

UM TEXTO IMPORTANTE
Até ao momento contávamos, além de obras esparsas, como a Crónica de Bernardo da Cruz (1586), podendo ainda referir-se o controverso texto de Girolamo Franchi Cosnestaggio (1585) e a brevíssima relação da Batalha de Alcácer-Quibir de Goes Loureiro (1595). Recorde-se que a Crónica de Frei Bernardo da Cruz, frade menor e capelão-mor da armada de D. Sebastião, que não há certeza de presenciado a batalha, foi publicada pela primeira vez por Alexandre Herculano em 1837. O manuscrito que serve de base à publicação da presente obra é de 1795, sendo uma cópia de outra anterior, que se diz ter sido “tirada fielmente do original”, sendo segundo testemunho do copista, a que Barbosa Machado encontrou ou viu na Biblioteca do Duque de Lafões. A Crónica, como é fácil de ver, corresponde a um roteiro que deveria ter sido escrito para ulterior desenvolvimento, dado o teor parco dos textos. O seu interesse assenta, contudo, no facto de haver uma indicação suficientemente precisa do conteúdo essencial. É certo que faltam pormenores, mas deparamos com a base fundamental que nos permite compreender o curso dos acontecimentos. Não nos fazem falta as considerações pessoais que se adivinham. O texto cobre 59 capítulos curtos, onde se referem os elementos mais significativos da vida do Rei Desejado. Os primeiros 14 capítulos referem-se à regência de D. Catarina, viúva de D. João III, com as vicissitudes conhecidas, e à do Cardeal D. Henrique. Fala-se depois do cerco de Mazagão e do seu levantamento, da chegada ao trono do jovem monarca, de diversas medidas de governo adotadas, designadamente no tocante à desvalorização da moeda (abatimento às valia dos patacões), à evolução legislativa e judiciária, à grande peste (1569), às intervenções militares em África (como em Monomotapa), ao cerco de Goa e Chaul, à exploração das Minas de Achém em Angola, à ida do rei a Ceuta e Tânger, à crise económica e às fomes em Entre-Douro-e-Minho e Beira, até ao embarque do Rei para Alcácer-Quibir. Fica claro que Filipe II de Espanha, tio do Rei, tentou por diversos meios demover D. Sebastião da empresa de África, pedindo mesmo ao Duque de Alba, D. Fernando Álvarez de Toledo y Pimentel, que enviasse um parecer circunstanciado sobre os perigos da guerra. Afinal, apesar da vitória dos cristãos na Batalha de Lepanto sobre os turcos, a conjuntura apresentava-se largamente desfavorável relativamente a uma intervenção em Marrocos, como veio a acontecer. O Rei persiste no intento, procurando mobilizar a fina-flor da nobreza – que, em grande maioria, sente no íntimo que se trará de uma aventura perigosa. Prevalece a ideia da pouca ponderação do monarca. A posição do Cardeal D. Henrique não oferece dúvidas, sendo claramente contrária ao projeto.

 

A PARTIDA PARA ÁFRICA
Até que finalmente na manhã do dia de S. João de 1578 ocorre a partida, com perto de mil velas em que entravam Galés e Galeões, Naus, Caravelas e “outras embarcações de toda a sorte, vela e remo”. Se a racionalidade vê com reserva a empresa, o aventureirismo excede-se em número e dimensão, o que também não facilitou a criação de condições favoráveis. Estava-se no verão, as condições atmosféricas eram desfavoráveis, pelo extremo calor, que reduzia drasticamente a eficácia das tropas mobilizadas. Na descrição rápida de que dispomos, depressa percebemos que tudo se encaminha para um desastre. Após 4 ou 5 horas de combate intenso, verifica-se a completa derrota dos exércitos de D. Sebastião e do seu aliado Abu Addallah Mohammed II Saadi (Mulei Mohammed) com quase 9 mil mortos e 16 mil prisioneiros, nos quais se inclui grande parte da nobreza portuguesa. A batalha ficaria conhecida como “dos três Reis”, todos mortos. D. Sebastião, ao finar-se, abriu de imediato uma grave questão dinástica. A morte deu-se em combate, tendo o seu corpo sido reconhecido por um grupo de nobres portugueses. Abu Abdallah Moahmmed II morreria afogado no rio Mocazim (Mekhazen) e, em sinal trágico, o vencedor da contenda Abdal-Malik I Saadi (Mulei Moluco), tio do aliado de D. Sebastião, também se finaria durante a batalha, uma vez que a sua saúde já era muito precária, tendo mesmo sido obrigado ao esforço de aparecer montado no seu cavalo antes da batalha, numa demonstração inútil de autoridade. Esta morte abriria caminho ao reinado de Amade Almançor Saadi (1578-1603). Precocemente desaparecido aos 24 anos, D. Sebastião é descrito como homem de estatura média, “alvo, loiro e, em boa maneira afigurado, dobrado em carnes e de grandes forças”. Sem grande pormenor e originalidade, a figura do rei é enaltecida pela elegância - “airoso a pé e muito a cavalo, principalmente à gineta, tomava lança com tanto ar, e seguro na sela, que obrigava a quem o via folgar de o imitar”. Trabalhador, determinado, “atrevido mais do que convinha a Rei”. Como caçador era, no entanto, imbatível, e ninguém ousava concorrer com ele. Nos amores, nada se lhe conhece. “Foi tão casto e honesto, que nunca lhe sentiram juntar-se com mulher, nem se inclinar à Damas do Paço no modo que nos Príncipes se permite e lhes é dado”…

 

MAUS AUGÚRIOS
Mas, ao autor não escapa o mau agoiro que rodeia a preparação da batalha. Dir-se-ia que tudo apontava para o desastre. E que sinais foram esses? A passagem de um cometa, o fogo ateado nas tercenas da pólvora, os sinais proféticos aparecidos em Trancoso, um ano antes, com a representação de gente de guerra, tal como se referia o livro dos Macabeus. Se tudo isto não fosse já suficientemente perturbador, ainda havia referência ao texto de S. Lucas sobre os desenganos da guerra, texto da liturgia diária da Missa celebrada perante o Rei. Ainda por cima, o Alferes-Mor encarregado de trazer o estandarte, embicou com ele de modo que “foi causa da bandeira se inclinar de má feição”, ainda que não caísse. Tudo eram sinais perturbadores que culminariam no facto da Galé onde estava El-Rei, apesar do mar quieto, ter sido abalroada por outra embarcação, tendo-lhe quebrado o esporão. Maus agouros acumularam-se. É certo que o autor procura evitar essas considerações pagãs, mas a verdade que não passam despercebidas, como maus augúrios, devendo-se haver “por admoestações e avisos certos”.  

 

O SIGNIFICADO DO MITO…
O sebastianismo, analisado criticamente, tem sido considerado uma «prova póstuma da nacionalidade». Contudo, fácil é de entender que o sebastianismo não é de compreensão fácil. Pode ser visto como um «avatar delirante», mas mais do que isso é o símbolo de uma história complexa que alterna momentos gloriosos e decadentes, em que a fatalidade e a vontade se entrecruzam e se alimentam mutuamente. Qual a relação entre o messianismo judaico e a ideia nacional de um império futuro? Eduardo Lourenço liga o mito cultural de Alcácer Quibir a uma «estrutura de ausência», vista como corolário do tempo em que substancialmente perdemos a independência, ainda que juridicamente tal nunca se tenha consumado verdadeiramente. E é assim que Portugal aparece como «ausente de si mesmo e esperando-se nessa ausência». Interrogando-se sobre os mitos portugueses, Eduardo Lourenço demarca-se das leituras negativistas e fatalistas, uma vez que considera, com Oliveira Martins, que a «estrutura de ausência» não pode confundir-se com a incapacidade de espera. E o certo é que o autor de “Portugal Contemporâneo” sempre se dispôs a crer em uma «Vida Nova», capaz de fazer regressar a pátria a um caminho de vontade e prosperidade. Ao contrário do que se exigiria, o sebastianismo, como mito, é uma prova póstuma da nacionalidade, mas também sonho ou vaga esperança messiânica – e neste ponto o ensaísta contemporâneo chega a Fernando Pessoa. E o poeta pensa no mito cultural como impulso libertador. No pensamento de Eduardo Lourenço estamos perante um «mito», mas não uma esperança de índole transcendente ou religiosa. É o «herói simbólico» que se apresenta – na tradição do ciclo bretão, do rei Artur e dos cavaleiros da Távola Redonda. E o tema do herói merece atenção. Por contraponto a D. Sebastião, há Nun’Álvares, os Filhos de D. João I e o Príncipe Perfeito. Contra o fatalismo, surge a vontade de Herculano temperada pela índole coletiva. Teixeira de Pascoaes ligou o sebastianismo à saudade lusíada (lembrança e desejo, de Duarte Nunes do Leão) e Costa Lobo procurou ancorar nas razões históricas as repercussões do cativeiro – desde as Cortes de Tomar a Dezembro de 1640. Lembramo-nos do Quinto Império de Vieira ou de Pessoa e é de um Império espiritual e cultural que se trata. Entrando de pleno no mundo dos mitos, Eduardo Lourenço chega ao século XX e longe de qualquer tentação ilusória, diz-nos, com clareza, que «o Portugal – D. Sebastião de Pessoa é todo-o-mundo-e-ninguém com ele Pessoa – D. Sebastião é ninguém-e-todo-o-mundo, um e outro, a “eterna criança que há de vir”, aquele que morre como particularidade nacional ou pessoal, para ser tudo em todos, exemplo de um mundo e de uma personalidade sem limites nem fim». Para o Padre António Vieira o que estaria em causa era um império sobrenatural, capaz de superar os «fumos da Índia» e as fragilidades que tinham conduzido a Alcácer Quibir. «Assim o que começou como um sonho de um Império redivivo termina com Pessoa em Império de sonho». E, deste modo, a propósito do «Desejado», Lourenço regressa à sua leitura histórica fundamental – da natureza imperfeita de Portugal como cais de partida e de chegada, do regresso ao infante D. Pedro das Sete Partidas, da compreensão da Europa como lugar de ambição mais amplo do que as suas fronteiras e de um universalismo heterogéneo de uma lusofonia de grandes diferenças e complementaridades, que obriga a entender os mitos e essa ligação extraordinária de reminiscências vicentinas de Todo o Mundo e Ninguém, metáfora de um império que se fez mundo fora na reunião de condições inesperadas e impossíveis, e de que o mais adequado símbolo é o herói picaresco por excelência da nossa literatura, Fernão Mendes Pinto.

 

Guilherme d'Oliveira Martins

A VIDA DOS LIVROS

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  De 3 a 9 de setembro de 2018

 

«Dramas Imperfeitos – Teatro Clássico Português: Um Repertório a Descobrir» (Eos edições, 2017) de Silvina Pereira é um conjunto de pequenos ensaios que constitui um excelente apelo aos nossos educadores e estudiosos para que o Teatro Clássico português seja lembrado, lido e representado.

 

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PRODÍGIOS E ÉPOCAS FABULOSAS

Almeida Garrett disse, num fundamental discurso parlamentar: “ai da nação que não crê cegamente, e com preconceitos ainda, na sua história (…) e nos prodígios e milagres de suas épocas fabulosas” (1.3.1867). O que o mestre quis dizer foi que sem passado e sem memória não há futuro. A citação é feita por Silvina Pereira em Dramas Imperfeitos. O conjunto de pequenos ensaios que constitui esta obra é um excelente apelo aos nossos educadores e estudiosos para que o Teatro Clássico português seja lembrado, lido e representado. Para além das discussões sobre o que se lê, o que se não lê e o que deveria ler-se, importa que se ponha à disposição de todos a extraordinária matéria-prima da nossa cultura. Não esqueço, ao longo da minha vida, e desde os tempos do Liceu de Pedro Nunes, o exemplo de quem muito me marcou, através do contacto com os clássicos, a começar no teatro. Glória de Matos foi minha professora de teatro. Maria do Céu Novais de Faria marcou profundamente todos quantos fomos seus alunos, ligando intimamente a literatura, o teatro e o bom uso da língua – como fatores naturais de conhecimento e sabedoria. Maria Germana Tânger ensinou que o dizer dos clássicos nos ensina a usar a língua como marca de cidadania… No prefácio aos Dramas, José Augusto Cardoso Bernardes põe o dedo na ferida, ao defender: “o alargamento dos textos literários estudados na Escola, sem que isso implique um aumento de tempo que, no geral, lhes é consagrado. Insisto em que não se trata de reivindicar mais horas para a Literatura; trata-se de tentar que o tempo que já hoje lhe é destinado seja objeto de um aproveitamento diferente, visando dois propósitos conjugados: proporcionar mais oportunidades de contacto com textos e escritores menos considerados e abrir possibilidades de leitura, para além do tempo escolar”. Eis a chave do problema. Isto é muito mais importante do que cairmos no puro formalismo das leituras obrigatórias, que poderão agravar uma praga contra a qual continuo a combater, que é a dos resumos – sem contacto com os textos originais. Concordo plenamente com Cardoso Bernardes, do mesmo modo que discordo das propostas de aumento de horas para matérias específicas. E concordo com a “possibilidade de incorporação nos programas de textos devidamente antologiados e acompanhados de informação histórico-literária”. Não esqueço que a criação da Rede das Bibliotecas Escolares (na origem, com Teresa Calçada) e a ligação ao Plano Nacional de Leitura têm constituído contributos decisivos para considerar a Escola, mais do que um conjunto de disciplinas e áreas separadas entre si, como uma comunidade onde o diálogo entre saberes se constitui em fator de enriquecimento mútuo e de descoberta do mundo da vida. Diga-se, aliás, que esta visão de conjunto tem a ver com a criação cultural assim como com a formação cívica. António Sérgio ensinou-nos, por isso, que a Educação Cívica tinha a ver com a República Escolar – e esta não poderia ter existência se não houvesse cidadania cultural, liberdade e responsabilidade.

 

A IMPORTÂNCIA DO TEATRO

Tudo o que refiro tem a ver com a importância do teatro. Desde tempos imemoriais, estamos perante um meio com efeitos pedagógicos incontestáveis. Por isso, mestre Gil foi “habilíssimo em dizer verdades disfarçadas entre facécias; Gil acostumado a censurar (maus) costumes entre leves gracejos” – no dizer de Lúcio André de Resende. Como lembra Silvina Pereira, “as palavras são ações e intenções”, trabalhando o encenador “de acordo com as exigências do seu próprio tempo e da plateia a que se destina”. E como disse Peter Brook: “a peça não pode ‘falar por si mesma’, é preciso ‘extrair-lhe o sentido’, saber ‘fazê-la cantar’ – e esse desígnio realiza-se com a sua representação”. E quanto aos clássicos, importa manter vivo o acervo dramático fundamental de uma língua e literatura tão antigas… Quem encontramos nos textos desta obra? Gil Vicente, Sá de Miranda, António Ferreira, António Ribeiro (o Chiado), Diogo de Teive, Baltazar Dias, António Prestes, Luís de Camões, Jerónimo Ribeiro Soares, Simão Machado e Anrique da Mota… Mas permitam-me que me atenha especialmente em Jorge Ferreira de Vasconcelos, tesoureiro do Armazém da Guiné e da Índia. Silvina Pereira tem-se dedicado ao estudo da obra deste autor, cujo lugar no repertório do teatro clássico português e peninsular se revela de relevância significativa.

 

UMA OBRA FUNDAMENTAL

Foi Vasco Graça Moura quem, com conhecimento de causa e uma grande sensibilidade para as coisas realmente importantes, chamou a atenção da estudiosa e mulher de teatro para a necessidade de dar atenção dobrada a Ferreira de Vasconcelos. E assim aconteceu. De facto, a “Comédia Eufrosina” (ao lado da “Comédia Ulissipo” e da “Aulegrafia”) tem uma importância especial. Há uma relação estreita, por exemplo, com o “Auto do Filodemo” de Camões, representado provavelmente em 1555 em Goa, enquanto a Comédia foi escrita e representada em Coimbra no ano de 1542, tendo sido editada também em 1555. A obra saiu anónima e entrou no Index de livros proibidos, em 1581, depois de ter tido, entre a primeira edição e 1566 quatro edições, o que bem demonstra o sucesso alcançado. Lope de Vega foi o maior admirador da obra e Quevedo escreveu o prefácio da versão castelhana de 1631. Menendez y Pelayo, na edição de 1910, enfatizou o facto de a obra-prima de Ferreira de Vasconcelos ter dimensão ibérica, a ponto de exercer forte influência em “La Celestina”, a Comédia e a Tragicomédia de Calisto e Melibea, obra mista por muitos considerada como pioneira do romance e do teatro moderno. Francisco Rodrigues Lobo editou a versão censurada em 1616 e a mesma foi mantida até 1786. Em 1919, reconhecendo a grande importância da obra, Audrey Bell fez publicar a Comédia pela Academia das Ciências, a inaugurar a coleção dos “Monumentos da Literatura Dramática Portuguesa” e, em 1951, Eugénio Ascensio descobriu e editou em Madrid a edição prínceps de 55. Apesar da extensão e da erudição, a obra de Jorge Ferreira de Vasconcelos, é um repositório com um “vocabulário engenhoso, gracioso e subtil”, que corresponde a um “poderoso motor da ação”. A donzela Eufrosina é vencida pelo amor, pelas mil razões expostas por Zelótipo. As tramoias do Doctor Carrasco são desmontadas pela argumentação sábia de Filótimo… E as palavras são leves, rápidas, precisas, visíveis, múltiplas e consistentes. António Tabucchi tinha pelo “Pranto de Maria Parda” de Mestre Gil uma especial afeição. Considerava-o como um símbolo do carácter picaresco da nossa literatura. E, como a autora acertadamente refere, o “Pranto” parece ter contribuído “para o gosto de dizer e fazer teatro”. Veja-se como na “Comédia Aulegrafia” J. F. de Vasconcelos caracteriza o moço Cardoso como amante e ator de teatro, dizendo que sabia “de cor as trovas de Maria Parda e entra como fegura no Marquês de Mântua”. Assim, como passar indiferentes pelo sério apelo do teatro clássico?

 

Guilherme d'Oliveira Martins

 

 

A VIDA DOS LIVROS

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  De 27 de agosto a 2 de setembro de 2018

 

«Jornal do Observador» de Vitorino Nemésio (Verbo, 1974) é um repositório de crónicas do romancista, poeta e ensaísta onde o tema da cultura portuguesa é recorrente - considerado como um fecundo ponto de encontro de influências diversas, onde o humanismo universalista está bem evidenciado.

 

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CULTURA COMO COMPREENSÃO

De que falamos na História da Cultura? De continuidades e de mudanças, de características singulares e de convergências, de identidades e diferenças, de desafios e respostas. Não se trata de seguir os acontecimentos, mas de compreender as perspetivas sincrónica e diacrónica. No ensino da Cultura Portuguesa, António Manuel Machado Pires recorda, por isso, a preocupação que Vitorino Nemésio tinha com os seus discípulos, no sentido de abrir as suas mentes, ligando e relacionando realidades aparentemente distintas: «E por ‘ligar as coisas’ deve entender-se ligar mesmo, não apenas somar conhecimentos: fazer relacionações entre conhecimentos convencionalmente arrumados em cadeiras diferentes, ligar uma romaria a uma feira, esta a um modelo de vida, este à evocação de um almocreve, este a Gil Vicente e por que não, a O Malhadinhas de Aquilino?» O mesmo se diga quanto ao paralelo ou correspondência entre um anjo bochechudo e corado de um retábulo seiscentista e a vivência do barroco, considerando a imagem nobre simbólico-poética de Pégaso, o cavaleiro medieval ou a ética da cavalaria até… ao cavaleiro tauromáquico português estilo Luís XV. «Não é tudo a cultura simbolicamente aduzida pela imagem do cavalo? Não era Nemésio o autor dos poemas de O Cavalo Encantado?». Nesta afirmação há uma ideia de cultura como diálogo e confronto, entre quem vê e tenta compreender e aquilo que se pretende ver e entender numa relação sempre complexa entre a vida humana e a natureza que a rodeia. Daí a metáfora da varanda para ver a Cultura, tantas vezes usada – Varanda de Pilatos, mas também varanda donde se presencia o cortejo. E Hernâni Cidade, António José Saraiva, Jorge Dias, Orlando Ribeiro, Joel Serrão, José-Augusto França foram exemplos de perscrutadores de pistas culturais entre a intuição e a inteligência, a erudição e a capacidade de entender o “mundo da vida” – porque, no fundo, refletir sobre a cultura é fazê-la, construí-la, interpretá-la e torná-la viva.

 

VARANDAS SOBRE A REALIDADE

Lembre-se, por exemplo, o picaresco e dramático em Fernão Mendes Pinto: “não é só uma narração de experiências, percursos de paisagens exóticas ou encontros e desencontros de povos (Ocidente e Oriente), é a ironia da vida, a dor humana, pecado, entusiasmo e castigo, alegrias e lágrimas, voluntarismos e disponibilidades, uma grandiosa saga coletiva de um povo (nem sempre exemplar), mas provando a exemplar lição do tudo e nada da Vida”. Eis por que razão a perspetiva da Literatura ou da Arte são excelentes varandas para avistar e compreender a Cultura como panorama, uma vez que temos o testemunho concreto, mais do que a lógica de um poder ou do que a mera ostentação de um saber. E mesmo que o autor tenha autoridade (como nos casos de D. Dinis ou D. Duarte) a verdade é que comunica não pelo império, mas pela palavra e pelo sentimento. Assim, não compreenderemos o século XIX português sem ler Camilo (“raptos, fugas e famílias desgraçadas”), Júlio Dinis (“a conciliação social”), Eça (a ironia como método, devendo ser levada muito a sério) ou Cesário (a contradição dos sentimentos), João de Deus, Antero, Nemésio, Aquilino, Torga… Mas há outras dimensões a não esquecer absolutamente: a geografia de Orlando Ribeiro, as origens históricas, como em Damião Peres ou José Mattoso, as raízes mais remotas em Teófilo Braga e José Leite de Vasconcelos…

 

DUAS LINHAS DE PENSAMENTO

Concordo com Nemésio e Machado Pires quando falam de duas linhas de pensamento dominantes na reflexão sobre a cultura portuguesa, a idealista e a racionalista, representadas por Teixeira de Pascoaes e António Sérgio. Ambas têm de ser consideradas “para o balanço de ser português na vida, na cultura e no mundo”. Dando maior importância ora a uma ora a outra, o certo é que os dois polos têm de estar presentes na definição do “ser de Portugal”. A vontade, o sentimento de pertença, “a estruturação da Cultura e a organização do Estado”, caminhando a par (como na análise de A. J. Saraiva) articulam-se com a construção de um imaginário, a experiência “madre de todas as cousas” (de Duarte Pacheco Pereira e de Camões), os conflitos entre a sociedade antiga e a sociedade moderna (bem evidentes no “Portugal Contemporâneo”), a compreensão de um culto de sentimentos contraditórios, os mitos da origem, de resistência ou de predestinação, tudo nos permite tentar perceber quem somos e o que nos motiva e desafia. Mas temos de recusar as simplificações e a tentação de levar a História da Cultura para uma sucessão de factos ou acontecimentos. Daí termos de perscrutar tendências, de suscitar criticamente essas leituras, de comparar, de ver de dentro e de fora, de cruzar saberes e campos de pesquisa.

«“Cultura” não é um “somatório” heteróclito, indiferenciado, anódino e maçador, mas um caminho coerente para um fim demonstrável no seu todo, um rasgão na neblina de dúvidas e problemas, carreando um considerável conjunto de materiais para “forçar” a prova». No caso de Nemésio, este falava ao sabor da memória, “se bem me lembro”, usando as palavras como as cerejas, mas havia sempre um fio condutor, um fito, um meio de prova. O que deve estar em causa é a procura de caminhos explicativos, de linhas de reflexão, de sínteses e de paradoxos. O fim do século, a transição, a análise da crise política, económica e social, Antero de Quental, Eça de Queirós, Carlos Fradique Mendes (extraordinário heterónimo coletivo de uma geração, que encontramos no diálogo tenso entre Carlos e João da Ega), Ramalho Ortigão, Oliveira Martins, Manuel de Arriaga, Bernardino Machado devem ocupar o pensamento e a procura, num verdadeiro apelo a Jano, em resposta ao enigma persistente e contraditório de uma sociedade que oscila entre o messianismo e a vontade, entre o mito e a racionalidade, entre a crítica e a sobrevivência, entre o presente e o futuro.

 

UMA PERSPETIVA CONVERGENTE

A Cultura é “uma perspetiva convergente e unitária de vários ramos do saber”. Por exemplo, ao analisar as “raízes etnogénicas do Povo Português” no pensamento de Oliveira Martins, para quem a nossa identidade provém não só da vontade enfatizada por Herculano, mas também do fundo céltico, com o peso inerente do messianismo. E eis um paradoxo, “se o historiador busca a razão dos acontecimentos, culpa os homens; se procura os imperativos da Raça, culpa o Destino. Transporta a Moïra grega para o drama da causalidade histórica”. E, chamando a atenção para o percurso de vida do historiador oitocentista, fala do pessimismo das suas análises, em contraste com o seu compromisso cívico: “foi, no entanto, também ministro da Fazenda, preconizando a criação de riqueza agrícola, do fomento rural, o aproveitamento das águas públicas, o repovoamento florestal, a nacionalização dos transportes, promulgando mesmo, nos poucos meses do seu governo, a reorganização das Alfandegas e da Fazenda, talvez acreditando ainda, como nos longínquos anos de 1868, no universalismo das comunicações, na grande federação dos homens livres, na imprensa, na locomotiva, na eletricidade, na felicidade pelo Progresso Científico”. Ou seja, num momento em que, nos anos 90 do século XIX, a decadência se manifestava e em que o desastre parecia anunciar-se, com o Ultimato, a bancarrota, a dívida pública, a crise do regime, o desprestígio das instituições, Oliveira Martins não baixa os braços e revela o sentido positivo da atitude crítica, claramente demarcado de um qualquer fatalismo: “vemos como o seu amor à Pátria, à História e à dignidade do homem social nunca o abandonou e define com grandeza uma obra vasta e diversa que termina significativamente numa trilogia patriótica e na busca de arquétipos da excelência portuguesa”. Ao contrário das considerações superficiais sobre a Geração de 70, Machado Pires sempre procurou demonstrar o carácter complexo do seu pensamento e do seu magistério, a atitude crítica positiva orientada num sentido emancipador, a coerência fundamental, centrada nas preocupações ligadas à justiça e à coesão social, bem como à criação de condições concretas para pôr o coração do país a bater ao ritmo da civilização.

 

Guilherme d'Oliveira Martins

 

 

A VIDA DOS LIVROS

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  De 20 a 26 de agosto de 2018

 

Joaquim Sapinho foi convidado para revisitar as reservas do Museu Gulbenkian para dar a sua leitura da coleção.

 

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PERANTE A INTERROGAÇÃO DO TEMPO

Perante o relógio de bolso, desenhado por René Lalique, que Calouste Gulbenkian usava quando morreu, na sua caixa original, tomamos consciência do escrúpulo do colecionador em muito mais do que uma galeria de curiosidades. É o génio de um homem multifacetado e apaixonado pelo mundo e pela humanidade que encontramos – e aquele relógio é símbolo do tempo, o grande mistério da vida humana. Joaquim Sapinho é um cineasta de créditos firmados. A sua paixão pelos museus e pelas coleções levou-o a ser convidado para uma leitura pessoal sobre as reservas de um Museu especial e sobre o fabuloso percurso de Calouste Sarkis Gulbenkian, ao longo de uma vida, que lhe permitiu reunir uma das mais importantes coleções de arte do mundo. E o certo é que essa coleção constituiu para Sapinho desde muito cedo uma referência – “era o museu da minha infância, um modelo de museu para a minha vida inteira”. E assim imaginou uma intervenção que partiu de um mergulho nas suas memórias antigas, sentindo-se de novo criança ao entrar nas reservas da coleção, como se regressasse à leitura de “Tintin e os Charutos do Faraó”. E assim encontrou notícias incríveis de outros espaços com ramificações infinitas, colocando-se na pele do colecionador apaixonado. Partindo das moedas de ouro gregas, revela-nos como Calouste Gulbenkian mandou fazer uma caixa e depois encomendou à casa Louis Vuitton um estojo para transportar esse precioso tesouro. E é a ideia de viagem que o homem da imagem quis apresentar como paradigma do Museu. Mas não há apenas a viagem física, há igualmente a viagem no tempo e no espaço. “Eu parado com uma obra, viajo. Ao olhar para as moedas, imagino Gulbenkian a brincar com elas e a dar a mão a alguém na Grécia Antiga ou em Siracusa”. Os cadernos, as listas, as contas, os pequenos objetos, tudo identifica uma personalidade de exceção – capaz de aliar a formação científica e técnica, o sentido do negócio e a sensibilidade artística. Quando se fala de Património Cultural, aí está a capacidade de compreender um nexo de continuidade, em que cada nova geração vai acrescentar valor ao que recebeu, em conhecimento e em cuidado. E lembramo-nos de Mortimer, de E. P. Jacobs, no Cronoscafo, a máquina de “Armadilha Diabólica”, que permitia viajar no tempo, como em H. G. Wells, apesar de alguns pequenos e perturbadores enganos de percurso e de época. Joaquim Sapinho usou de um grande rigor nessa viagem no tempo – começando com as imagens captadas pela Pathé Filmes em 1928 na inauguração da capela de S. Sarkis em Londres, que Gulbenkian mandou construir em memória de seus pais. Só compreendemos o tempo através da memória.

 

COMO O TÚMULO DE UM FARAÓ

“As reservas deste museu são como o túmulo de um faraó – cheias de tesouros, mas também de objetos pessoais que nos ajudam a compreender como viveu, que mundo era o seu, em que é que acreditava” – esclarece o curador (Público, 20.7.18). Ao depararmos com a imagem do século XVIII que representa Eneias a fugir de Tróia, depois da vitória dos gregos, apercebemo-nos de que o herói transporta com ele Anquises, que carrega os deuses do lar em pequenas esculturas. Joaquim Sapinho dá um especial sentido a esta presença. Não é só a essência da noção de património que está em causa, o serviço (múnus) relativamente aos nossos pais (patres), mas também a experiência de cada um, ora para Gulbenkian na capela de Londres, ora para o próprio cineasta na lembrança pessoal do seu próprio pai (com quem começou, aliás, a nossa amizade). Gulbenkian é como Eneias e os deuses que Anquises transporta representam a extraordinária coleção que está em Portugal, ao serviço do mundo. De facto o Museu em Lisboa foi uma opção do próprio fundador para que o usufruto da magnífica coleção não passasse despercebida, integrada em qualquer outro grande museu. E o que agora se mostra é uma excecional câmara de maravilhas – que constitui um convite à viagem, desde a Anatólia, como Eneias, até à criação de um lugar de chegada, que pudesse ser um apelo contante à partida, pelo conhecimento e pela compreensão das diferenças. Lisboa não é um acaso, é um lugar de partidas para o mundo e a cidade simétrica de Bizâncio. Gulbenkian sentiu isso e Azeredo Perdigão soube interpretá-lo muito bem. Quem não compreender isso perde o essencial. As peças são múltiplas e fascinantes: a lista do que se encontrava na secretária do quarto da avenue d’Iéna, 51 toca-nos. E há tudo o mais: as fotografias do avô e do pai, os passaportes e vistos diplomáticos (um em especial ilustra o desencontro com o Reino Unido), a placa da Chancelaria da Legação Imperial do Irão, um pequeno pássaro embalsamado, um tapete de oração otomano, moedas de Constantinopla, o precioso fragmento de um livro de horas do século XV (uma nota muito especial de espiritualidade), desenhos de Fragonard, panejamentos que pertenceram a Maria Antonieta… Veja-se, aliás, a carta que Gulbenkian envia a John Walker, conservador da National Gallery de Washington. Estamos perante a cabal demonstração de que o atual Museu realiza o desígnio do colecionador, encarando as obras da sua coleção como “filhas”, que não deveriam perder a sua identidade e companhia, não se misturando num grande museu ou não ficando separadas entre si e do público. O fundador deseja que o seu Museu seja vivo, tenha pessoas e seja um fator de encontro de civilizações e cultura.

 

SÓ O MELHOR!

O exercício agora feito por Joaquim Sapinho completa um longo caminho de estudos e investigações. Como não tinha sido feito antes, vai-se ao encontro de Calouste Sarkis Gulbenkian não apenas como genial homem de negócios ou como colecionar ímpar, mas como representante de um diálogo entre culturas e espiritualidades que na cidade de Lisboa sentiu de outro modo a magia de Istambul. Recordo bem, como Orhan Pamuk me disse maravilhado na Biblioteca de Arte da Gulbenkian que tinha visto aí originais sobre a cidade do Bósforo que antes não vira no seu esplendor. A cada passo, sentimos a tentativa de construir a casa ideal. Mas a perfeição é impossível. Calouste diz à mulher: “Prometi-te um palácio, não te prometi a felicidade”… Eis o que sentimos neste exercício de espanto. Procuramos o homem insatisfeito, mas nunca desistente. Por isso, vamos descobrindo a outra face do génio, que deseja legar à posteridade a demonstração de que uma sociedade melhor é possível. Se dizia aos seus colaboradores que só queria o melhor (“Only the best!), fazia-o projetando um futuro em que a felicidade pudesse ser conquistada com passos persistentes. Daí os quatro cavalos que constituem o símbolo da Fundação Gulbenkian: Arte, Educação, Ciência e Beneficência. Trata-se de um nómada muito especial. Quando parte de Constantinopla para o mundo não esquece que a viagem é um modo de encontrar os outros e de se encontrar a si próprio. Joaquim Sapinho compreendeu-o bem, exigindo que prossigamos na capacidade de perceber melhor a importância do homem e da instituição que criou e de um sentido aberto e cosmopolita apaixonante…   

 

 

 Guilherme d'Oliveira Martins

A VIDA DOS LIVROS

 

De 13 a 19 de agosto de 2018

 

«O Tempo da Memória» de Norberto Bobbio (editora Campus, Rio de Janeiro, 1997), com prefácio de Celso Lafer, reúne alguns importantes textos autobiográficos do grande pensador italiano, que permitem compreendermos melhor os mistérios da encruzilhada do tempo presente.

 

 

O PRIMADO DO PENSAMENTO
«A velhice, diz-nos o mestre, torna-se um momento em que temos plena consciência de que o caminho não apenas não está cumprido, mas também não há mais tempo para cumpri-lo, e devemos renunciar á realização da última etapa». Assim, Bobbio trata do que Cícero designou “De Senectute”, sendo que o pensador romano morreu com apenas 63 anos, interrogando-se sobre o não ter sido homem de ação, ainda que sempre preocupado com a compreensão do agir na cidade e com o direito. E o que preocupa o filósofo é dar-nos ainda uma perspetiva sobre a relação entre o pensamento e a vida. O tempo atual está cheio de naturais incertezas. A vida política reserva-nos muitas surpresas. Quando em 1989, com a queda do muro de Berlim, muitos consideraram que se iniciava o tempo incontestável das liberdades e das sociedades abertas, estava-se longe de perceber que o fim da bipolaridade das duas grandes potências e do confronto ideológico da guerra fria daria origem a um tempo de polaridades difusas – ilustrado no estranho acontecimento do ataque às torres gémeas de Nova Iorque em 11 de setembro de 2001, na emergência de um fundamentalismo inorgânico que levaria ao Estado Islâmico e no surgimento de uma mobilidade descontrolada de refugiados de diversas origens – com a consequência no tribalismo defensivo e fragmentário, baseado no medo do diferente e do outro, que consagra a noção absurda de democracias ditas iliberais. Dir-se-ia que a memória de Norberto Bobbio ganha uma nova atualidade, já que o seu pensamento assenta na exigência de uma ligação efetiva entre a liberdade igual e a igualdade livre, entre a coesão social, a justiça distributiva, a correção das desigualdades e a incindível ligação entre a causa dos direitos humanos e a liberdade individual. O pensamento democrático exige o Estado de direito – o primado da lei, a legitimidade do voto, a legitimidade do exercício e a concretização da justiça. Daí a distinção entre um “neoliberalismo” mercantil e político e a liberdade cívica e política. Para Bobbio no fundamento da democracia há um forte conceito de liberdade, compreendida já não apenas como liberdade negativa, mas também como liberdade positiva. “Em poucas palavras, a democracia pode ser definida como o sistema de regras que permitem a instauração e o desenvolvimento de uma convivência pacífica”. E a aplicação das regras obriga à formação de poderes que garantam ao máximo a sua observância. A limitação dos poderes de que nos fala Montesquieu é fundamental. No entanto, “mesmo as democracias mais consolidadas nem sempre estão em condições de obedecer aos princípios de convivência democrática nas relações com os outros Estados. O ‘futuro da democracia’ reside hoje mais do que nunca na democratização do sistema internacional”. Seria necessário seguirem-se duas direções – a gradual ampliação dos Estados democráticos e a democratização universal dos Estados, reduzindo o risco de conflitos entre os pequenos Estados. Se há sinais negativos, como a crescente desigualdade entre países ricos e pobres, pode haver sinais positivos, se a garantia dos direitos humanos for levada a sério. Será irrealista um direito cosmopolítico previsto por Kant? Bobbio fala de um individualismo ético, diferente do ontológico. O Estado existe para a pessoa e não a pessoa para o Estado. O todo não está antes das partes e a pessoa humana tem um valor próprio – por contraponto aos que entendem que o indivíduo não tem valor a não ser como parte de uma totalidade que o transcende…

 

DEMOCRACIA E LIBERDADE URGENTES
Eis como a democracia e a liberdade voltam à ordem do dia! A pedra angular está nos direitos fundamentais – e nestes estão os subjetivos, mas também os sociais. E avançamos na nova geração dos direitos “que se afirmam diante das ameaças à vida, à liberdade e à segurança, que provêm do crescimento cada vez mais rápido, irreversível e incontrolável do progresso técnico”. Bobbio referia-se ao direito à integridade do património genético, que nos leva à complexas relações com a bioética. O poder torna-se legitimo pelo direito e o direito torna-se efetivo pelo poder. Quando um e o outro se separam, chegamos a um dos extremos – ou o direito impotente ou o poder arbitrário. E Montesquieu é claro ao pôr-nos de sobreaviso perante tal situação, que define o governo despótico como aquele que não tem “leis nem freios”. A que se deve então a atual tentação de falar de democracias iliberais? Exatamente à subalternização da singularidade e do primado da dignidade humana, substituindo o relativismo pelo absolutismo ético, e ameaçando a própria laicidade. O medo cultivado por quantos se encerram num perigoso tribalismo (hoje evidente no caso dos refugiados), que leva à desconfiança da liberdade, põe em causa o triângulo fundamental do pensamento de Bobbio: democracia, paz e direitos humanos. Afinal, a democracia tem de se basear no respeito da dignidade humana, ou seja, da singularidade, devendo apontar para uma cultura de paz e de convivência pacífica e para uma permanente capacidade de regulação de conflitos. A filosofia política e a filosofia do direito encontram-se assim e completam-se. O risco que hoje existe é assim o de o direito se tornar impotente, correndo a sociedade o risco de se precipitar na perigosa fragmentação. E onde o poder não é limitado e controlado pelo direito, a sociedade incorre no risco do despotismo e da tirania. Não basta haver votos, ou manifestações imediatas de vontade. Poderíamos criar mecanismos de consulta instantânea dos cidadãos através das redes sociais ou das tecnologias de informação e comunicação. Isso não seria democracia, uma vez que esta exige tempo e reflexão, para evitar a tirania do imediato e do número, fruto de manipulações e demagogia. Num mundo cada vez mais complexo a ilusão das opiniões simples gera o despotismo.

 

LEMBRAR O “BIG BROTHER”
O que George Orwell descreveu em “1984” é hoje quase uma brincadeira de crianças… Os riscos são cada vez mais evidentes – e os Grandes Irmãos existem em toda a parte… As ideias de pós-verdade e de “fake news” têm a ver com isso mesmo. Basta olharmos em volta. A lógica da prevalência de maiorias silenciosas só pretende esconder a necessidade de a democracia promover decisões informadas, conhecedoras e ponderadas. Uma das preocupações de Bobbio teve a ver com a prática democrática e com o debate sobre o Estado democrático. E perante a pergunta “Existe uma teoria marxista do Estado que possa servir de modelo oposto à democracia dos modernos?” – a sua resposta foi negativa. Afinal, se Marx não se preocupa em prever quais deveriam ser as regras para dar vida a um Estado com rosto humano, uma vez que o Estado estaria destinado a desaparecer, o tema torna-se insustentável. No entanto, como o Estado não desapareceu, põe-se a questão de saber se há uma alternativa aceitável para a democracia representativa. E Bobbio não deixou de pôr a tónica na lei e na legitimidade, na legitimidade e na legitimação – mais do que o formalismo, importa a substância: “Da observação da irredutibilidade das crenças últimas extraí a maior lição da minha vida. Aprendi a respeitar as ideias alheias, a deter-me diante do segredo de cada consciência, a compreender antes de discutir, a discutir antes de condenar. E porque estou com disposição para as confissões, faço mais uma ainda, talvez supérflua: detesto os fanáticos com todas as minhas forças”. O que está em causa é a defesa intransigente do pluralismo e a salvaguarda da limitação do poder. Eis por que razão a representação e a participação, o voto e o exercício, são faces da mesma moeda. O tempo e a reflexão têm a vantagem de envolver perspetivas diferentes – o diálogo entre fações opostas, que o filósofo tanto admirava em Erasmo… No entanto a liberdade individual, o respeito mútuo e a coesão social têm de ser concretizados e postos em prática na concretização do Estado de direito e da democracia. Num tempo em que se fala de esgotamento dos modelos, designadamente o contrato social que mantemos desde o fim da última grande guerra, Bobbio põe a tónica na compreensão do que muda e do que se deve manter. A liberdade com consciência social, a cidadania ativa, a cultura da paz são fundamentais. E a memória comum é fonte de ensinamentos e sabedoria. E diz-nos: “Quando percorremos (…) os lugares da memória, os mortos perfilam-se em torno de nós em número cada vez maior. A maior parte dos que nos acompanharam já nos abandonou. Mas não podemos apaga-los como se nunca tivessem existido. No momento em que os trazemos á mente, fazemo-los reviver e ao menos por um instante não estão todos mortos, não desaparecem no nada”.

 

Guilherme d'Oliveira Martins

A VIDA DOS LIVROS

 

De 6 a 12 de agosto de 2018

 

«Memórias Secretas» de Mário Cláudio (D. Quixote, 2018) encadeia textos inesperados, onde se dá vida a personagens célebres da Banda Desenhada (BD).

 

 

 

FAZER REVIVER OS HERÓIS
São três documentos publicados, que têm autonomia e vida própria e, sem uma única ilustração, dão vida a personagens de ilustração, para além do que seria esperável. De facto, não são glosas das aventuras que conhecemos as que verdadeiramente estão em causa, mas um outro lado dessa vida que entusiasma os cultores da nona arte, para usar a classificação de Ricciotto Canudo. Hugo Pratt, de quem iremos falar, referia a “literatura desenhada” e quando comecei nestas andanças falávamos de Histórias aos Quadradinhos (HQ). Com o meu amigo e mestre José Ruy, andamos por vezes às voltas sobre a melhor designação. Mário Cláudio consegue um verdadeiro milagre – faz-nos entrar em pleno no tema e põe-nos perante a literatura, que afinal é madre de tantas cousas. E devo dizer que me deleitei deveras nestas viagens para além do que já se sabia sobre estas personagens a quem Memórias Secretas dão vida. E vieram naturalmente à memória Max e Moritz, o impagável Yellow Kid, os Sobrinhos do Capitão, o Little Nemo e os seus sonhos inverosímeis, as viagens de Becassine, os pioneiros Quim e Manecas de Stuart (que chegaram à minha geração no saudoso “Cavaleiro Andante”), além de Zig e Puce, Tintin, Blake e Mortimer e tudo o mais… Limito-me a escrever ao correr da pena, pois o tema é inesgotável. E lembro “O Mosquito”, “O Papagaio”, “O Senhor Doutor”, o “Mundo de Aventuras”, “O Diabrete”, “Cavaleiro Andante”, “Foguetão”, “Zorro”, “Tintin”… e nomes essenciais como Rafael Bordalo Pinheiro, Cottinelli, Emmérico, Botelho, Júlio Resende, Eduardo Teixeira Coelho, Fernando Bento, José Garcês, José Ruy, Vítor Péon, Adolfo Simões Müller, ou ainda Maria Teresa Andrade Santos (Mitza), Maria Isabel Mendonça Soares, além da célebre “tribo dos pincéis” (Roque Gameiro e Martins Barata)… Quantos nomes esquecidos. Mas ficamos gratos a Mário Cláudio por ter podido suscitar estas lembranças.

 

FANTASMAS OMNIPRESENTES
É um mundo de fantasmas – uma plataforma de ironia e pesadelo com “Casanova, saltando da masmorra para uma coluna, e depois para um telhado, Scarlatti vogando de rosto velado por tules vermelhos, cautério para a sua incurável antropofobia, quem poderá garantir que não resultante da obsessão cultivada pelas ninfetas órfãs, e cantoras de um coro de querubins”. Falamos da Sereníssima República dos Doges – Veneza, naturalmente. E entre Byron e George Sand, Ruskin e Hemingway, aparece-nos o improvável Corto Maltese, que Mário Cláudio, como eu próprio, só conhecemos tardiamente por não ter feito parte da nossa infância, já que só em 1967, na revista “Sgt. Kirk”, Hugo Pratt deu-lhe corpo e história. Mas a verdade é que o adotámos como mito romanesco – nascido a 10 de julho de 1887, filho de Vânia “la Niña de Gibraltar” na ilha de Malta, sede da Soberana Ordem, na descendência atribulada de um português célebre mas controverso, o Grão-Mestre Frei Manuel Pinto da Fonseca (1681-1773), em honra que quem Qormi em Malta se designou como Cittá Pinto. Lembremos os outros três Grão-Mestres: Frei Afonso de Portugal (falecido em 1207), Frei Luís Mendes de Vasconcelos (falecido em 1623) e Frei António Manoel de Vilhena (1663-1736). Pinto da Fonseca fora milagrosamente salvo, depois de um grave acidente de saúde, pela sedutora Severiana, mãe da avó de Corto, Maria de los Milagros – não fadada para as glórias que seu pai gostaria de lhe ter reservado, em virtude do sucessor de Pinto da Fonseca ter posto fim a um tal sonho, arredando-a de quaisquer honras. E assim pudemos descobrir a estirpe portuguesa de Corto, que ganhara tal nome dada a exiguidade do seu corpo à nascença – por ser curto. Novas luzes podemos ter, nesta leitura de Memórias Secretas – e talvez compreendamos melhor um fundo aventureiro, de quem se apaixonara pela obra-prima de Thomas Morus, ou não fosse português Rafael Hitlodeu, a cujo epílogo não chegaria… E como chegou a Portugal? Pela mão de Dinis Machado e Vasco Granja – que, contra ventos e marés, decidiram apostar em Corto Maltese. Dir-se-ia que agora Mário Cláudio legitima essa escolha e completa-a. Hugo Pratt faz desaparecer Corto Maltese durante a guerra de Espanha, mas agora vamos adiante… Não desapareceu então. A 3 de novembro de 1941, apesar da guerra sangrenta, arrendou uma casinha na Ilha de Burano mesmo defronte do Adriático, onde também moram, com Maltese, Tarao, Pandora, Abel e Sephora. Mas aí temos matéria para mais mistério, porque também aqui o testemunho do herói termina abruptamente.

 

DO PRINCIPE VAENTE A CASTAFIORE
Há um momento em que graças à natureza desta arte nona, Bianca Castafiore irrompe no testemunho de Maltese, numa missiva enviada de Lisboa por Pandora Groovesnore, que perdera o marido, rico herdeiro de armadores e médico voluntário da Cruz Vermelha na batalha de Sicília… Bianca (Castafiore, claro) afirma-se satisfeita por aqui estar, mas não esquece toda sua a petulância e antipatia, de que são vítimas Haddock (em cujo nome a diva nunca acerta) e o próprio Hergé, pela insistência nos traços caricaturais. E descobrimos um abundante repertório para além de querido Gounod e das tranças de Margarida na “Ária das Joias” do “Fausto”. E, muito mais do que a Sildávia e Klow, o que aparece é a Europa em plena guerra, com a angústia de quem foge e a soberba de quem detém o efémero poder do tempo. O encontro com Mussolini explica muita coisa. Subitamente é Portugal que surge nas noites do S. Carlos de Lisboa. Castafiore é, por exemplo, Sélika de “L’Africaine” de Meyerbeer, numa peça em que os portugueses e Vasco da Gama se evidenciam. Até Corto Maltese aparece… Ah! temos os éclairs e babás, merengues e duchesses que lhe “encheriam as medidas”, com heroicos quatro quilos a mais. E Bianca torna-se paradigma de certos panegíricos que se aproveitam das dificuldades momentâneas e as confundem com momentos de glória, quando, de facto, do que se trata é de uma sucessão de momentos sombrios. A terceira parte leva-nos até ao “Príncipe Valente nos Dias do Rei Artur” de Harold Foster, que começou a publicar-se nos Estados Unidos em 1937 – e que Mário Cláudio descobriu em tiras em “O Primeiro de Janeiro” (a partir de 1959), sendo que antes fora em “O Mosquito” que primeiro apareceu em Portugal (1948), seguindo-se os continuados do “Mundo de Aventuras”. O protagonista é filho do rei de Thule, lugar mítico do norte europeu que vai até Camelot. A reconstrução da História baseia-se em Geoffrey Art, o cronista de Thule. As aventuras não se limitam ao cenário de Camelot ou Avalon, referem-se à transição para o período medieval. Reino expectante, enigmas do tempo, ilhas de Bruma. O Príncipe Valente torna-se cavaleiro da Távola Redonda, encontra Merlin, Lancelote, a rainha Genebra, numa glosa da História das Guerras do Imperador Justiniano, de Procópio de Cesareia. Mas não é a escrita que interessa, e sim a imagem fulgurante. Sente-se o nosso fundo céltico, tão presente em D. Sebastião… 

 

Guilherme d'Oliveira Martins

A VIDA DOS LIVROS

 

De 30 de julho a 5 de agosto de 2018

 

O «Elogio da Sede» do Padre José Tolentino Mendonça (Quetzal, 2018) reúne os textos das meditações sobre a Quaresma de 2018 feitas em Roma pelo autor, a convite do Papa Francisco no seu retiro espiritual.

 

 

A PASTORAL DA CULTURA

No momento em que o Poeta José Tolentino Mendonça assume as funções de Arquivista e Bibliotecário da Santa Sé e é investido como Arcebispo de Suava, importa lembrar a ação que desenvolveu nos meios culturais como poeta consagrado, que tem procurado abrir horizontes de diálogo com os meios intelectuais numa perspetiva de troca de ideias, de enriquecimento mútuo e de um melhor conhecimento das preocupações espirituais do mundo contemporâneo, a partir da laicidade, da liberdade religiosa, numa sociedade aberta e pluralista. Simbolicamente o novo Arcebispo adotou como lema a frase “Olhai os lírios do campo” (Mt., 6, 28) e escolheu como símbolos os lírios, um elefante, e o Alfa e o Ómega da mensagem bíblica do Filho do Homem. O elefante representa a velha e mítica ligação dos portugueses a Roma, de que a célebre embaixada do Rei D. Manuel ao Papa Leão X em 1514 é uma indelével referência, enquanto os lírios representam a simplicidade da vida. A leitura de «Elogio da Sede» permite-nos compreender melhor a alegria e a disponibilidade pessoal com base no entendimento da sede como “bem-aventurança que nos salva”. «Não é fácil reconhecer que se tem sede. Porque a sede é uma dor que se descobre pouco a pouco dentro de nós, por detrás das nossas habituais narrativas defensivas, asséticas ou idealizadas; é uma dor antiga que sem percebermos bem como encontramos reavivada, e tememos que nos enfraqueça; são feridas que nos custa encarar, quanto mais aceitar na confiança». Eis por que razão, o poeta nos põe de sobreaviso contra a indiferença, contra o encolher de ombros do relativismo. A liberdade religiosa e o encontro entre convicções obrigam a estarmos disponíveis para ouvir e para caminhar juntos, sendo capazes de nos colocarmos no lugar dos outros. Não pode haver diálogo na ignorância ou na suposição de que temos certezas acabadas e fechadas. Ao percorrermos as meditações, seguimos os capítulos, significativamente intitulados – Aprendizes do espanto, a ciência da sede, o perceber que se está sedento, a sede de nada que nos adoece, a sede de Jesus, as lágrimas que contam uma sede, o beber da própria sede, as formas do desejo, a escuta da sede das periferias, e a bem-aventurança da sede. Cada palavra, cada passo devem ser considerados, cultivando o tempo, a reflexão e a atenção. E se alguns põem em causa o facto de o Papa Francisco apelar às periferias, como se estivesse a esquecer as centralidades, a verdade é que a centralidade da dignidade humana só pode ser compreendida se entendermos os limites, as dificuldades, as angústias. Quantas vezes nos sentimos perdidos e abandonados – são esses os momentos fundamentais para que temos de nos prevenir perante o risco de cairmos e de estarmos fortes para nos levantarmos. Mas se estamos demasiado seguros e certos, há qualquer coisa que falta na fé e na esperança e que empobrece o amor.

 

QUE É A MISERICÓRDIA?
Oiçamos. «Perguntamo-nos muitas vezes o que é a misericórdia. E a misericórdia não cabe numa definição. Não se pode dizer: “A misericórdia é isto”. Precisamos de espelhos para compreender a misericórdia. Ela tem de encarnar-se para que a possamos tocar. Misericórdia é compaixão, misericórdia é bondade, misericórdia é perdão, misericórdia é colocar-se no lugar do outro, misericórdia é levar o outro aos ombros, misericórdia é reconciliação profunda. É tudo isso. Mas é isso realizado também com um determinado estilo, que é o estilo do pai da parábola de Jesus. Não há misericórdia sem dádiva, sem doação. Aquele filho trazia tantas feridas, manifestas e escondidas, e precisava de ser curado com o bálsamo da misericórdia». E se falamos de dádiva, temos de ter presente a ideia de troca – dou e dás, encontramo-nos afinal na generosidade. No fundo, “Deus ama a vida e não desiste dela”. De que vida nos fala? Do quotidiano inesperado, em que podemos descobrir o outro que nos procura. Nos caminhos insondáveis temos de ser aprendizes do espanto. “O que nos salva é um excesso de amor, uma dádiva que vai para lá de todas as medidas”. Não, não estamos saciados – estamos sim cientes de uma sede que não se satisfaz imediatamente na nossa condição. Através do amor, do respeito e da dignidade vamo-nos saciando. Mas é a consciência dos limites que nos leva a entender que não estamos sós e que temos de estar atentos a quem nos chama, mesmo em silêncio… S. Paulo di-lo melhor que ninguém. A fé e a esperança passam. O amor e o cuidado ficam – e assim a sede é o desejo e o caminho para esse dia em que poderemos finalmente ver face a face… “Porque Deus não desiste de dizer a toda a vida – à nossa vida – que ela é querida e bem-aventurada. Essa é a sede de Deus”.

 

O MORALISMO FALSEIA O ENCONTRO
Um dia José Tolentino disse a Anabela Mota Ribeiro: «Detesto o moralismo. Penso que o moralismo falseia o encontro connosco próprios e com a humanidade. O que acontece aos outros acontece a cada um de nós. Dizia o cristianíssimo Dostoievski: “Somos responsáveis por tudo perante todos”. (…) A experiência do mal atravessa todas as vidas. Todos precisamos de ser salvos. (…) Somos mesquinhos, banais, egóticos, ressentidos. Se não tomamos consciência disso não conseguimos a transformação. A primeira condição da transformação é a nudez. Ser capaz de contar a sua verdade. Gosto muito da Flannery O’Connor (dizia o poeta), que é para mim, ao lado do Pasolini, uma mestra espiritual. Ela mostra um mundo que se diria monstruoso. De assassinos em série. De gente capaz de tudo. “Esse mundo somos nós”. Até que acontece o encontro com a graça. É esse encontro que transforma a nossa vida. Penso que não se pode dividir [a humanidade] entre homens bons e homens maus. (…) Há a experiência do mal, que é comum a todos, que nos atravessa, corrói, domina em tantos momentos». Quem somos afinal? Quem são os sedentos que se encontram connosco na dúvida e na incerteza? O filho pródigo e o seu irmão ressentido somos nós. S. Pedro a negar três vezes somos, de facto, nós. S. Tomé incrédulo ainda somos nós, muito mais vezes do que julgamos. Graham Greene quando se converteu escolheu o nome de Tomé, exatamente porque sabia que a fé e a incerteza se completam – enquanto paradoxalmente Mauriac num grito algo provocatório lembrava às avessas do Salmo 22: “Meu Deus, meu Deus porque não me abandonaste”. E Santa Teresa de Jesus alertava para a ingenuidade de supor que “as almas às quais Nosso Senhor se comunica, de uma maneira que se julgaria privilegiada, estejam contudo, asseguradas nisso de tal modo que nunca mais tenham necessidade de temer ou de chorar os seus pecados».

 

Guilherme d'Oliveira Martins

A VIDA DOS LIVROS

 

De 23 a 29 de julho de 2018

 

Lembramos Nelson Mandela, autor de “Um Longo Caminho para Liberdade” (Planeta, 2012), na passagem do centenário do seu nascimento.

 

 

CIRCUNSTÂNCIAS ESPECIAIS
Há circunstâncias históricas aparentemente fortuitas que podem tornar-se decisivas ou pelo menos ter consequências significativas para o curso dos acontecimentos. O que a seguir se lembra é um bom exemplo do que acaba de se dizer. Na biografia de Mário Soares, Nelson Mandela surge ligado a um momento dramático da sua vida, aquando do acidente ocorrido com João Soares e que o levou à África do Sul, depois de ter completado exemplarmente as visitas de Estado à Hungria e à Holanda. O que aconteceu então foi que, apesar das condições muito difíceis que rodearam essa ida a Pretória, Mário Soares pôde contribuir, no plano político, para a evolução sul-africana. Havia que romper com a experiência do apartheid e suscitar uma evolução democrática. O Presidente Botha tinha-se demitido em agosto de 1989 e tinha sido substituído por De Klerk. Logo no Aeroporto, quando o Presidente português chegou, profundamente preocupado com a saúde do filho, Pick Botha convidou Mário Soares para almoçar com o Presidente De Klerk. O momento era muito difícil. A evolução da saúde de João era muito incerta e problemática. No entanto, Soares assim que compreendeu que as coisas poderiam ter um caminho positivo, aceitou o encontro, no qual foi acompanhado por Maria de Jesus e pelos Embaixadores José Cutileiro e João Diogo Nunes Barata. O que sabemos desse encontro permite-nos dizer que foi muito significativo – depressa se tendo passado do formalismo para uma troca de ideias com evidente sentido e consequência políticos. Naturalmente que o ponto de partida das autoridades sul-africanas era muito tímido, receoso e conservador, considerando a própria história complexa da África do Sul. Tudo aponta, porém, para que a experiência do prestigiado político português se tenha revelado fundamental. Mário Soares começou por lembrar: “quando o professor Marcelo Caetano substituiu o ditador Salazar, por incapacidade física deste, prometeu ao País fazer uma liberalização. Mas não teve a coragem de a fazer, ficou-se apenas por superficiais mudanças de nomes. Cinco anos depois foi destituído por uma revolução militar que veio já demasiado tarde para permitir uma transição democrática gradual e controlada, tanto da política interna como da colonial”…

 

COMPREENDER A DEMOCRACIA
O testemunho é-nos dado pela indispensável biografia de Maria João Avillez. A evolução é conhecida, devendo acrescentar-se o segundo exemplo suscitado por Mário Soares na altura, provinha de Espanha: “o Presidente Adolfo Suárez, em visita a Lisboa assegurou-me (disse M. Soares) estar disposto a fazer a ‘transição democrática’ no seu País. Quando, porém, lhe perguntei se tencionava legalizar o Partido Comunista, respondeu-me que não poderia fazê-lo, porque os militares nunca o autorizariam. Disse a Suárez que, nesse caso, nunca lograria assegurar uma verdadeira transição para a plena democracia. Expliquei-lhe que o Mundo estava à espera de uma rutura com o passado, que passaria simbolicamente pela legalização do Partido Comunista. Sem ela as suas boas intenções nunca ganhariam credibilidade nem consistência. Dias depois, o próprio Presidente A. Suárez teve a amabilidade de me telefonar, dando-me conta de que tomara a resolução – que ia publicamente anunciar – de legalizar o Partido Comunista Espanhol. Percebi que o corte com o passado ia ser consumado e que a Espanha entraria num período novo”. Depois destas duas referências, Mário Soares dirigiu-se a De Klerk e disse-lhe que só se pusesse Nelson Mandela em liberdade e se comprometesse publicamente a renunciar à política do apartheid a Europa, os Estados Unidos e o Mundo acreditariam na vontade de uma verdadeira transição democrática – mas se hesitasse e ficasse pelo meio caminho por falta de coragem, alguém, um dia, mais tarde ou mais cedo, o iria fazer por si. O Presidente sul-africano agradeceu a franqueza e ficou impressionado com os argumentos. Quando Soares deixou a África do Sul, Pik Botha veio despedir-se e trazia uma mensagem do Presidente De Klerk. Haveria uma verdadeira transição, uma rutura, iria ser anunciada a libertação dos presos políticos, sendo Mandela libertado dois ou três dias depois e o apartheid seria banido do País…

 

UM MOMENTO INESQUECÍVEL
Mário Soares acolheu a mensagem com muita alegria, comprometendo-se a convidar o Presidente De Klerk para visitar Portugal logo que esses objetivos fossem concretizados. E assim o Presidente português considerou o Presidente sul-africano “como um dos mais lúcidos e corajosos do nosso tempo, cuja estatura política não deve ser esquecida quando se enaltece, muito justamente, a figura ímpar e humaníssima de Nelson Mandela”. Continuando a seguir o testemunho de Mário Soares, lembramos o que disse nos momentos imediatos à libertação do resistente sul-africano. “Quando li o discurso proferido por Mandela, ao ser libertado, percebi imediatamente tratar-se de um homem excecionalíssimo de nunca cair na tentação de vingança, tendo passado por perseguições e violências sem guardar o mínimo ressentimento”. Trata-se de seguir o melhor exemplo de quantos no fim da grande guerra, ao saírem dos Campos de Concentração, foram capazes de dizer e de ser coerentes com tal afirmação – que deveriam esquecer a vingança e o ressentimento contra os autores de violência, para impedir a escalada do terror; e que deveriam lembrar onde chegara a barbárie e a cegueira, para que tal não voltasse a acontecer. Esquecer e lembrar são igualmente deveres éticos, para romper com o rancor e o ressentimento e para prevenir o regresso da violência. Em maio de 1994, Mário Soares deslocar-se-ia a Pretória para assistir à tomada de posse do já então Presidente Nelson Mandela e a sua recordação é inesquecível: “Fiquei extremamente impressionado com o discurso que ouvi nessa cerimónia. Proferiu palavras extraordinárias, porque revelaram a sua nobreza de carácter, o seu sentido de dignidade, o seu espírito humanista. Apesar dos longos anos que viveu na prisão, mostrou não sentir qualquer ressentimento, sublinhando que o que mais importava era construir a paz, colaborar no progresso do País, implantar um espírito de tolerância e de sã convivência entre todos. Teve, inclusivamente, palavras de afeto para com dois dos seus carcereiros, que convidara para o banquete oficial, colocando-os ao lado das inúmeras personalidades mundiais presentes”. Mais tarde, Mário Soares integraria o júri que atribuiu a Mandela e a De Klerk o Prémio Houphouet Boigny, tendo ambos sido também laureados com o justíssimo Prémio Nobel da Paz… Nobreza de carácter, sentido de dignidade e espírito humanista – eis o perfil que deve ser realçado, como um modelo para a vida política e cívica. Num tempo em que há tantas nuvens ameaçadoras no horizonte, em especial no tocante ao medo das diferenças e à falta de coragem no sentido de lançar pontes para o diálogo, é indispensável ter bem presente o exemplo de Nelson Mandela, como herói do nosso tempo. Para usar uma expressão cara a Emmanuel Mounier, “o acordar da África Negra” obriga a uma consciência de liberdade, responsabilidade e respeito mútuo, que o exemplo de Mandela bem representa…   

 

Guilherme d'Oliveira Martins
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