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Blogue do Centro Nacional de Cultura

Um espaço de encontro e de diálogo, em defesa de uma cultura livre e pluridisciplinar. Estamos certos de que o Centro Nacional de Cultura continuará, como há sete décadas, a dizer que a cultura em Portugal vale a pena!

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Um espaço de encontro e de diálogo, em defesa de uma cultura livre e pluridisciplinar. Estamos certos de que o Centro Nacional de Cultura continuará, como há sete décadas, a dizer que a cultura em Portugal vale a pena!

A VIDA DOS LIVROS

  

De 30 de janeiro a 5 de fevereiro de 2023


“António Alçada Baptista – Tempo Afetuoso – Homenagem ao Escritor e Amigo de Todos Nós” (CNC – Presença) é um repositório essencial que nos permite recordar um inesquecível amigo.


AS SUAS HISTÓRIAS EXTRAORDINÁRIAS
Era absolutamente extraordinário ouvir as suas histórias, fruto de uma memória prodigiosa para fixar os pormenores, os sinais, os significados e os sentidos. Um conhecido episódio passado com o Padre Anchieta era um bom exemplo. "Com urgência para regressar a uma aldeia, pediu aos carregadores para irem depressa". Com três dias de marchas forçadas, os índios sentaram-se a descansar, e o Padre não compreendeu a paragem, mas eles explicaram: "temos vindo depressa demais e a nossa alma ficou lá para trás. Temos de esperar que ela regresse". Há mil outros casos, como o daquela senhora que procurava uma rua, próximo do Bairro Alto e, perante a indicação do António, disse: "todos sabem tudo, cada um sabe o que sabe". Houve ainda um livro que nunca chegou a ver a luz do dia. Chamar-se-ia “Histórias de Maus – Elementos para uma Anti-hagiografia”. Não sei o que o António esperaria escrever. Tratava-se da descoberta dos sentimentos e ressentimentos que unem e dividem as pessoas. Afinal, como disse Frei Bento Domingues, António Alçada foi o nosso melhor cultor da “teologia narrativa”. Por isso, gostava de invocar o conto enigmático em “El Aleph” de Jorge Luís Borges “Os Teólogos”, em que Aureliano e João de Panónia, o ortodoxo e o herege, se encontram perante Deus no julgamento final, descobrindo que, para a insondável Providência, os dois inimigos, o aborrecedor e o aborrecido, o acusador e a vítima formavam uma única pessoa… Para António, a razão seria sempre insuficiente. Falta-nos tempo para as coisas essenciais, e ficamo-nos pela superfície, por medo ou preguiça. Em “O Riso de Deus”, lemos: “Hoje já não posso ouvir falar em dialética, em competição, em vencer na vida, porque acho que é com nomes desses que se tem tentado encobrir o projeto sempre adiado de descobrir como saber usar a nossa liberdade e, com ela, implantar no mundo o lugar do homem”. E Domingos Lobo, com a sabedoria vinda da velha Goa, diz a Francisco, ao descer a Avenida: “Sabe, a Europa é o continente da dúvida e nós, lá no Oriente, estamos presos pela fé. Eu não sei ainda bem se são as dúvidas se as certezas que fazem mover o mundo”.


TEOLOGIA DA FELICIDADE
Percebe-se que o escritor se admire por não haver uma "teologia da felicidade" (ou “da ternura”, segundo Heinrich Böll), facto tanto mais estranho quanto um dos apelos "que resume e engrandece o Evangelho, é a proposta de felicidade contida nas Bem-Aventuranças: - Felizes aqueles que…" E como escreveu Martin Buber: “Deus não me pedirá contas por eu não ter sido Francisco de Assis ou mesmo Jesus Cristo. Deus vai-me pedir contas por eu não ter sido completa e intensamente Martin Buber”. Praticante ativo da “aristocracia do comportamento”, António acreditava na coerência, na generosidade, na dúvida serena, na procura do sentido da dignidade humana - demarcando-se dos "sentimentos que infetam o espírito do tempo: a culpabilidade dos ricos e o ressentimento dos pobres". E sentimos a recordação do Padre António Magalhães, seu professor em Santo Tirso, pedagogo da liberdade. "Andava por ali. Amigo de Leonardo Coimbra e Pascoaes, de Casais Monteiro e José Marinho, foi quem primeiro me aceitou e me animou a olhar interrogativamente para o homem e para o mundo.". E há a sombra de Lanza del Vasto: "eu tenho de passar pelo amor dos outros para chegar à minha serenidade e creio que a caridade é mais importante do que a sabedoria". "Viver é a obra de arte". José Cardoso Pires desejava reencontrar o "pássaro migrador rodeado de amigos" e disse dele que "a amizade sem humor não sabe ser tolerante" e "sempre que nos lembramos do muito que fez pela liberdade cultural e religiosa deste país, vemo-lo outra vez jovem a sorrir-nos de longe, num convite à aventura de pensar". Procurando compreender a realidade humana que nos cerca, dizia com Jean-Marie Domenach: "é preciso saber em que tipo de conhecimento está assente a nossa ignorância". E num domingo nublado, em que fomos ao Convento dos Capuchos em Sintra, com Domenach, Helena e Alberto Vaz da Silva, recordámos na rude simplicidade do lugar essa ignorância de que o conhecimento e a razão se alimentam… E outro amigo comum, Edgar Morin, pedia-nos, com Montaigne, uma cabeça bem feita, mais do que bem cheia… Helena, cuja luminosidade enriquecia a amizade, dizia que há poucas coisas adquiridas e que o mais importante está em aprofundar o relacionamento entre as pessoas, e os seus saberes.


UM AMIGO DO CORAÇÃO
Alexandre O'Neill, amigo cúmplice de sempre, confessou que gostaria de escrever “Das tias em António Alçada Baptista”. Por isso, “Tia Suzana, Meu Amor” (1989) foi-lhe dedicado, com "um sussurro de saudade". As tias eram uma metáfora, como verdadeira introdução ao universo feminino. Em entrevista a Inês Pedrosa, António disse que o universo feminino se distingue por "uma história de generosidade, uma história dos afetos, uma história de procura de sentido de vida, de apreciação poética da vida, de perceção solidária, de solidariedade com as dores e os sofrimentos"… "Repara que o Evangelho não nos manda amar a humanidade, mas o próximo. É que a humanidade é uma abstração" - disse-lhe Lanza del Vasto. Fernão Mendes Pinto e as suas mil peripécias voluntárias e involuntárias revelavam muito melhor o inesperado sentido da vida do que alguém que se leve muito a sério. O “Quincas Berro d'Água”, de Jorge Amado, apesar de parecer um caso de compaixão, desperta para a esperança e para o gosto de viver. Como a poesia de Alexandre O'Neill: "é tempo de unir o mesmo gesto/ o real e o sonho…/É tempo de acordar nas trevas do real/ na desolada promessa/ do dia verdadeiro".


Na “Peregrinação Interior” (I, 1971; II, 1982), as aventuras de Sandokan e de Texas Jack levam a imaginação a amar intensamente as pessoas. E a epopeia de “O Tempo e o Modo” iniciada em 1963, merece lembrança. No terramoto político de 1958 (candidatura de Delgado, carta do Bispo do Porto), António Alçada deita mãos à obra na editora Moraes. Com os amigos João Bénard da Costa, Pedro Tamen, Alberto Vaz da Silva, Nuno de Bragança e José Domingos de Morais concretiza uma revista de "pensamento e ação", aberta e crítica, como em Espanha os “Cuadernos para el Dialogo”, de Joaquín Ruiz-Giménez. Mário Soares, Francisco Salgado Zenha e Jorge Sampaio apoiam a iniciativa, conscientes da importância do diálogo com os católicos. E António usa eufemismos, que hoje nos fazem sorrir, falando, em vez de "instituições democráticas", em "instituições que pressupõem uma certa dialética". A censura não dava tréguas contra os perigosos "peixinhos vermelhos em pia de água benta". A modernidade reclamava Jorge de Sena, Vergílio Ferreira Agustina Bessa Luís, Sophia de Mello Breyner, Ruy Belo ou até António Sérgio. Eduardo Lourenço diz que "é para trazer à luz, mostrar aos outros, e a si mesmo, o que ainda não era visível, palpável, audível, que a obra nasce" (n.º 6, junho 1963). Ao projeto da revista somam-se, por ocasião do Vaticano II, a revista “Concilium”, bem como a colaboração com o Congresso para a Liberdade da Cultura de Pierre Emmanuel. Era a sociedade portuguesa que se abria, denunciando a “desordem estabelecida”. E, se dúvidas houvesse, valem "os depoimentos das gerações que nos seguiram, para quem essa aventura foi um acontecimento referência que acordou alguns e confortou outros perante um tempo carregado de dúvidas e inquietações". De acordo com o saber náutico sempre achou que se todos se juntam a bombordo ou a estibordo, a embarcação naufraga. Era preciso que alguém ficasse do outro lado, mesmo incompreendido. Assim como assim… Como diz a tia Suzana: "Julgo que o mais importante são as palavras. Quando se vive a solidão, sabe-se que, por causa duma palavra verdadeira, caem muitas vezes as muralhas que levantámos à volta das nossas almas”.

 

Guilherme d’Oliveira Martins
Oiça aqui as minhas sugestões – Ensaio Geral, Rádio Renascença

A VIDA DOS LIVROS

  

De 23 a 29 de janeiro de 2023


Em “Nova Teoria do Sebastianismo” (D. Quixote, 2014) Miguel Real interroga-se sobre Portugal e não apenas sobre o mito sebastianista, permitindo-nos procurar entender a nossa identidade complexa.

 

À DESCOBERTA DE PORTUGAL
A épica e a lírica de Camões, o império do espírito de Vieira, o drama e a poética de Garrett, o querer de Herculano, o sentido crítico de Antero e da sua geração, a Mensagem de Pessoa, a presença da pouca terra e do muito mar e o desafio trágico, lírico e picaresco estão sempre presentes… Miguel Real mobiliza-nos na leitura e no diálogo sobre Portugal. Partindo do Repensar Portugal do Padre Manuel Antunes, o escritor leva-nos a refletir sobre quem somos, o que queremos e quais os desafios a que temos de responder. E o humanismo universalista é tudo menos uma marca redutora ou providencialista. Quando lemos o Padre António Vieira da Clavis Prophetarum, percebemos que as ideias de povo eleito ou de uma vocação imperial caem, de facto, por terra – abrindo caminho ao reconhecimento da dignidade humana como património comum e como objetivo a partilhar pela humanidade… E Miguel Real nos vários registos da sua escrita e da sua reflexão, romance, drama, ensaio tem procurado demarcar-se da tentação de uma certa predestinação de um povo ou de uma existência…


Deste modo, a leitura sobre o risco da mediocridade nacional insere-se na tradição das correntes de pensamento que desde tempos imemoriais olham a nossa realidade numa perspetiva crítica, com a preocupação de assegurar uma séria articulação de esforços, capaz de negar o fatalismo do atraso e de criar condições para podermos viver uma melhor defesa do bem comum. Fala-se do escárnio e maldizer, do picaresco, do “Pranto de Maria Parda”, do não nos levarmos demasiado a sério no “País relativo”, mas também do querer viver ao ritmo do mundo civilizado, como, no Auto da Lusitânia, Todo o Mundo e Ninguém – os elementos são vários e as personagens da nossa cultura apresentam-se com características contraditórias, o que as leva a não se eximirem ao sentido fortemente crítico, que não deve ser confundido com puro negativismo. António José Saraiva falava do “estar-se onde não se está”, o que leva os portugueses a serem religiosos e heréticos; ortodoxos, mas heterodoxos; emigrantes, mas não colonizadores (por força da miscigenação); aventureiros, mas radicados (como na Diáspora); pobres, mas generosos; e atrasados, mas crentes num destino (messianismo). De Gil Vicente a António José da Silva, de Garrett a Camilo e Eça de Queiroz encontramos a exigência crítica como contraponto à indiferença ou ao conformismo. E que é o país de suicidas de Unamuno, que hoje já não seria assim entendido, senão a manifestação séria de um inconformismo, que apenas visa combater a passividade e a irrelevância?


SER E REPRESENTAÇÃO
A abrir “Portugal – Ser e Representação”, Miguel Real cita, sintomaticamente, ainda o Padre Manuel Antunes: “Reencontrar o antigo, por vezes mesmo o mais antigo, para criar algo de novo (…). A nossa história multissecular de Povo independente é feita de espaços de continuidade e de espaços de rutura, de períodos de deterioração e de períodos de recuperação, de anos de sonolência e de momentos de crítico despertar, de estados de descrença e de instantes largos de esperança quase tão ampla como o universo” … Uma história antiga, com raízes culturais múltiplas, as alternâncias entre continuidade e recusa, entre altos e baixos (numa ciclotimia de euforia e pessimismo) e o encontro entre vontade e destino – tudo se soma, numa Ibéria em que a nossa “maritimidade” se contrapõe à “continentalidade” de Espanha, projetando nos dois símbolos contrapostos – Fernão Mendes Pinto, como personagem múltipla no mundo, e D. Quixote, como imaginação e sonho. A multiplicidade da aventura da “Peregrinação” sublima-se na vontade do povo que Herculano encontra como explicação da independência e da unidade. O Brasil é a imagem grandiosa da frente marítima europeia de Portugal, enquanto as Espanhas se projetam na América em múltiplos países, em razão das autonomias metropolitanas…


A Portugal, segundo Eduardo Lourenço, faltou mentalidade europeia desde a segunda metade do século XVI. E o que nos ensinou Antero? A não nos escondermos no nosso passado (o Messias de Portugal é o nosso próprio passado). O sebastianismo, além de prova póstuma da nacionalidade, é uma alucinação mental delirante, sentimentalmente verdadeira e racionalmente falsa (para Miguel Real). “Como nó central do imaginário português, o mito sebastianista sintetizou os quatro complexos culturais recorrentemente sofridos pelos portugueses: o complexo de Viriato ou viriatino, o complexo de Padre António Vieira ou vieirino; o complexo do Marquês de Pombal ou pombalino e o complexo canibalista, vinculado à inveja individual e à intolerância coletiva. De origem histórica negativa, o sebastianismo constitui igualmente uma espécie de motor ético dos portugueses, forçando-os a acreditarem dever o futuro ser melhor do que o presente, mesmo que para tal se sintam obrigados a fugir da medíocre elite portuguesa, que do País se apodera como uma coutada sua e emigrar como o fazem hoje” (o autor escrevia em 2013 na Nova Teoria do Sebastianismo).


TENTATIVA DE SÍNTESE
Aqui se encontra uma síntese, que explica, afinal, a severa crítica, em que Miguel Real aprofunda a exigência de termos de fazer mais do que nos adaptarmos, como se afirma no universo romanesco do autor... Como José Mattoso ou Eduardo Lourenço têm dito, não somos nem melhores nem piores que outros – somos um país médio, com responsabilidades e oportunidades, mas tudo depende do que formos capazes. Um messianismo larvar, a sombra sebástica, a tensão permanente das contradições do nosso código genético, o uso crítico dos nossos mitos para os podermos superar pela emancipação – tudo isto constitui pano de fundo do nosso ser… O melting pot intelectual e ético que nos forma articula menos a ideia de “povo eleito” e mais a exigência de sabermos lidar com a imperfeição, através do “saber só de experiências feito” … Nem providencialismo, nem indiferença - Pascoaes e Sérgio estão sempre a encontrar-se, a contradizer-se e a completar-se. Esta a base para a célebre “psicanálise mítica do destino português”. Nós somos realmente uma mistura de fatores contraditórios. E neste ponto, não podemos deixar de recordar a importância de Matias Aires (1705-1763). A verdadeira felicidade não é a ilusória: do poder, da riqueza e da fama; é, sim, a “da aproximação incessante à verdade, exigindo o desmascaramento da vaidade individual e social, findando no estado interior de serenidade de quem sabe (…) que tudo é vaidade”…

 

Guilherme d’Oliveira Martins
Oiça aqui as minhas sugestões – Ensaio Geral, Rádio Renascença

A VIDA DOS LIVROS

  

De 16 a 22 de janeiro de 2023


Os textos que António Mega Ferreira nos deixou são a demonstração de que os espíritos de Montaigne, de Goethe ou de Stendhal estavam bem vivos em si.

 


A PAIXÃO DA LITERATURA DE VIAGENS
Foi um conhecimento de sessenta anos, desde os tempos do Pedro Nunes, com a diferença de três anos de idade, o que era muito quando se entrava no liceu. Mas havia um espírito especial feito de atenção ao que faziam os mais velhos numa espécie de escol, desde o teatro às artes plásticas ou ao desporto… O Pedro Nunes, que meu avô frequentara em 1914, criava raízes – e aí encontrei o António Mega Ferreira. Em tempos muito recentes foi meu companheiro no Conselho Editorial da Imprensa Nacional, e não esqueço a magnífica conferência na Embaixada de Itália sobre a Comédia de Dante ou uma deliciosa conversa na Associação Portuguesa de Escritores, à Lapa, na primeira edição do prémio Maria Ondina Braga, de literatura de viagens, galardão que viria a ser-lhe atribuído, há poucos meses, pelas “Crónicas Italianas”, quando já há muito deixara esse júri. Foi de peregrinações italianas que essa conversa versou, numa curiosa troca de informações sobre uma busca detectivesca a propósito de um misterioso fidalgo de Chaves que, entre 1510 e 1517, viveu em Roma e deixou um manuscrito de 92 fólios com preciosas informações sobre um período crucial na capital pontifícia – a batalha de Ravena, a morte de Júlio II, a eleição do Cardeal Médicis, Leão X, e a entrada em Roma da embaixada de D. Manuel, chefiada por Tristão da Cunha… Quem foi esse fidalgo de Chaves, criado de D. Jaime, 4º duque de Bragança? Não se sabe e por isso demo-nos a imaginar, concordando sobre a necessidade da publicação desse documento, estranhamente esquecido, em edição diplomática, depois do estudo e das revelações importantes do académico Paulo Alves. Conhecemos apenas a perspetiva arguta do fidalgo sobre o que se passava em Roma, em vésperas de grandes mudanças. Mas perguntámo-nos, nessa tarde, se o esforçado fidalgo escritor o teria sido apenas por incumbência funcional ou mais do que isso? António achava que havia mais do que um mero relatório, estando persuadido de que haveria um autêntico impulso literário nesse texto. A verdadeira identidade do fidalgo e a motivação para a escrita das Memórias ocupou-nos, mas no essencial era a paixão pelas práticas de viagem. O António tinha prometido que, enquanto vivesse, haveria de cumprir o compromisso de regressar todos os anos a Itália. Como disse José Manuel dos Santos, “a sua vida, em tudo o que foi e deixou de ser, nos trabalhos e nos dias, nos frenesins e nos vagares, nos realces e nos refúgios, nos poderes que teve e nas recusas a tê-los, nos favores que recebeu e nos favores que concedeu, nos amores e nos ódios, dava uma daquelas biografias que ele adorava ler e que o faziam sonhar” (Público, 27.12.2022). De facto, a ideia de viagem era, para si, uma procura de lugares e de gentes, de vários tempos. Isso entusiasmava-o, porque simultaneamente descobria novas geografias, ou aprofundava as que já conhecia, mas podia empreender a marcha de uma “Máquina do Tempo” algo descontrolada, como ocorreu, para nós, leitores de banda desenhada, com Mortimer na “Armadilha Diabólica”, mais do que em H. G. Wells. A visita de vários tempos tornava-se possível graças à versatilidade da literatura.


LITERATURA E IMAGINAÇÃO
Só a literatura permite cultivar a imaginação. “Itália – Práticas de Viagem” – é um exemplo de uma obra essencial. “Apenas com um alforge e uma mochila de pele de texugo por bagagem” foi metendo pés ao caminho e assim a sua peregrinação a Itália, partindo da ideia de Goethe, “muito mais uma viagem em busca de si próprio do que uma observação sistemática do que era a Itália em finais do século XVIII”, tornou-se realização literária, necessário complemento da sua inequívoca paixão pela capacidade de mudar o mundo, como fez na sua querida cidade de Lisboa, que ele deixou outra, reforçando, porém, os elos com as raízes antigas. Lembrando a “Bíblia pauperum” que foi o “Cavaleiro Andante”, onde nos formámos, a banda desenhada foi um modo de inventar utopias e de compreender distopias. Corto Maltese, Sandokan, Sinbad o Marinheiro e Robinson Crusoé, personagens dos livros de aventuras, relacionadas com o mar, tornaram-se topónimos de travessas que a cidade de Lisboa herdou da Expo 98 no Parque das Nações, ruas paralelas e que vão do Passeio dos Heróis do Mar à Rua Ilha dos Amores. E aqui encontramos o imaginoso lugar que ele quis criar. Mas se esse nobre povo tem expressão nas placas identificadoras dos arruamentos, importa não esquecer o zelo que pôs na descoberta do português mais universal, Santo António de Lisboa e de Pádua. Como ele disse, é uma obra de afeto e curiosidade, não de ciência ou teologia - “não é uma biografia, no sentido técnico do termo, nem uma devassa erudita sobre o seu pensamento, antes um ensaio literário de indagação das razões e caminhos por que António se constituiu como uma das figuras portuguesas de maior relevância na Europa do seu tempo. E também uma tentativa de aproximação à sua essência propriamente humana, ao seu trajeto pessoal.» Afeto e curiosidade, eis o que sempre encontramos em António Mega Ferreira e nas deambulações italianas. A cada passo está essa sublime impressão – na invocação do “Grand Tour” e da ”Bildungreise” (viagem de formação), em Trieste, no Caffè San Marco com Claudio Magris, nas margens do Adriático, na invocação de Casanova, no imaginário encontro de Montaigne com Tasso, em Ferrara, nos sucessivos reencontros com Dante e a “Comédia”, na meditação sobre o “bom governo” na Sala dos Nove, no Palazzo Pubblico de Siena e nos frescos de Ambrogio Lorenzetti, em San Miniato al Monte com a vista deslumbrante de Florença, com D. Jaime, Cardeal de Portugal, filho do Infante das Sete Partidas, o canto gregoriano, a pintura de Antonio e Piero Pollaiuolo, “sem esta obra quase fortuita seria difícil avaliarmos hoje todo um aspeto da sensibilidade florentina” na arquitetura, escultura e pintura.


O ESPLENDOR DE BERNINI
E a sua curiosidade permite-nos entender como a “mitificação de Lourenço como Il Magnifico tem tanto de aproveitamento político quanto de narrativa cultural”. Há toda uma trama ardilosamente urdida que permite chegar-se a uma lenda, e é essa lenda que leva a entender a própria grandeza adquirida por Florença. Entre o esplendor de Roma de Bernini e a memória de Pasolini no Caffè Rosati, há uma devoção. Quem visita Roma hoje, entrando na Porta del Popolo, sente a ordenação do “tridente” (via del Babuino, via del Corso e via di Ripetta) e percebe que “entre 1623, data da acessão ao sólio pontifício de Maffeo Barberini, o papa Urbano VIII, e 1667, data em que morreu Fabio Chigi, que adotara o nome de Alexandre VII, a cidade de Roma sofreu uma das mais profundas revoluções da sua história: a munificência de três papas e a esplendida criatividade dos seus artistas fizeram da antiga urbe imperial o centro de um movimento que consagrou a imagem do barroco romano e marcou a fisionomia e a história da cidade para sempre”. Luz, matéria e espaço – eis a marca que Bernini valorizou sumamente e que apaixonava António Mega Ferreira.    

 

Guilherme d’Oliveira Martins
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A VIDA DOS LIVROS

  

De 9 a 15 de janeiro de 2023


Nascido em 19 de janeiro de 1923, há cem anos, Eugénio de Andrade é um dos grandes poetas contemporâneos. Cuja leitura permite a abertura de portas amplas para a compreensão da contemporaneidade da nossa cultura.


É URGENTE UM BARCO NO MAR
Qual a força de Eugénio de Andrade (1923-2005) para tornar o Porto ainda mais heroico, dramático e sentimental? Por um momento, percebemos, como a transparência se liga ao granito, à saudade e ao humor melancólico. «A transparência é aqui nostalgia: até a luz terá a cor do granito. Mas o granito é às vezes de oiro velho, e outras azulado, como o luar escasso que nesta noite de outono escorre dos telhados. Quando o sol, mesmo arrefecido, incide nos vidros, as mil e uma claraboias e trapeiras e mirantes da cidade enchem o crepúsculo de brilhos – o Porto parece então pintado por Vieira da Silva: é mais imaginário que real». E ouvimos o poeta: «É urgente o amor. / É urgente um barco no mar. / É urgente destruir certas palavras, / ódio, solidão e crueldade, / alguns lamentos, / muitas espadas. /É urgente inventar alegria, / multiplicar os beijos, as searas, / é urgente descobrir rosas e rios / e manhãs claras. / Cai o silêncio nos ombros e a luz / impura, até doer. /É urgente o amor, é urgente permanecer». As palavras marcam a ligação íntima entre pessoas e pessoas, entre pessoas e lugares. E continuemos a ouvi-lo: «1. Sê tu a palavra, / branca rosa brava. / 2. Só o desejo é matinal. / 3. Poupar o coração / é permitir à morte / coroar-se de alegria. /4. Morre de ter ousado / na água amar o fogo. /5. Beber-te a sede e partir / - eu sou de tão longe. / 6. Da chama à espada / o caminho é solitário. / 7. Que me quereis, / se me não dais / o que é tão meu?». E como não recordar, como procura do essencial: «Colhe todo o oiro»: «Colhe todo o oiro do dia / na haste mais alta / da melancolia?» E o poeta que clarifica: «É contra a ausência do homem no homem que a palavra do poeta se insurge, é contra esta amputação no corpo vivo da vida que o poeta se rebela».


ESTREIA AUSPICIOSA
Estreando-se em 1939 com o livro “Narciso”, ainda sob o seu nome civil, José Fontinhas, Eugénio de Andrade vai-se tornando conhecido, em especial quando em 1942 dá à estampa “Adolescente” Entretanto, é incentivado a prosseguir, por António Botto, com quem entra em contacto, que reconhece a qualidade indiscutível do novel poeta. Mas é com a publicação de “As Mãos e os Frutos” que se verifica o reconhecimento público, através da receção positiva da melhor crítica, como Jorge de Sena e Vitorino Nemésio. E José Saramago resume com felicidade o carácter lírico dessa poesia, que se singulariza por uma permanente referência ao corpo, a que chega através de uma depuração contínua. De Lisboa vai para Coimbra e depois para o Porto – e começa a publicar com regularidade: “Os Amantes sem dinheiro” (1950); “As Palavras interditas” (1951); “Ostinato rigore” (1964); “Véspera da água” (1973); “Escrita da terra e outros epitáfios” (1974); “Limiar dos pássaros” (1976); “Memória doutro rio” (1978); “Matéria Solar” (1980); “Rente ao Dizer” (1992); “Ofício de Paciência” (1994); “O Sal da Língua” (1995); “Os Lugares do Lume” (1998) ou “Os Sulcos da Sede” (em 2003 Prémio de Poesia do Pen Clube). São exemplos de uma maturidade poética adquirida num permanente exercício, como num cuidado produto de oficina de artesão… Também publica em prosa: “Os Afluentes do Silêncio” (1968); “Rosto precário” (1979) ou “À sombra da memória” (1993), além de obras infantis como “A história da Égua Branca” (1977) e “Aquela Nuvem e as Outras” (1986). Traduz Federico Garcia Lorca, António Bueno Vallejo, René Char e Jorge Luís Borges… E em 2001, ser-lhe–ia atribuído o Prémio Camões, graças a uma obra segura e consistente, que se afirma como de primeira grandeza na poesia portuguesa do século XX.


A MEMÓRIA DE MONTAIGNE
Em carta de junho de 1949 (leia-se a “Correspondência - 1949-1978 entre Jorge de Sena e Eugénio de Andrade”, publicada pela Guerra e Paz, 2016) Jorge de Sena era muito claro a propósito de “As Mãos e os Frutos”: “Não sei se alguma vez lhe disse da estima que a sua poesia me merece, pela categoria autêntica, tão diferente do que a nossa desvairada geração tem produzido (…). Lembro-me que, em tempos, o acusaram de desumanidade. Não encontro, todavia, senão uma pagã humanidade; e mais vale uma humanidade assim, que só se importa com o que liricamente toca, do que fingir sentimentalidades oportunas”. É difícil dizer melhor. O tempo confirmou e afinou essas qualidades e a coerência. E vem à memória Montaigne: “l’essentiel est dit: deux êtres singuliers se rencontrent et comprennent en un éclair, que leur vie ne sera plus jamais comme avant». E Eugénio de Andrade fala dos Amigos com especial cuidado: «Os amigos amei /despido de ternura/ fatigada;/uns iam, outros vinham, /a nenhum perguntava /porque partia, /porque ficava; /era pouco o que tinha, / pouco o que dava, / mas também só queria / partilhar / a sede de Alegria / - por mais amarga». E chegamos a La Boétie, que não existiria na nossa memória sem o testemunho admirável de Montaigne: “parce que c’était lui, parce que c´était moi!”. «A partir de 1986, Dario Gonçalves foi, ao mesmo tempo, causa e consequência de muitos versos de Eugénio de Andrade. Passou a ser uma espécie de afinador de palavras e grande fonte de inspiração. Leia-se o postal de outubro de 1987 sobre uma viagem do Porto até Ribatua. Aí se nota a proximidade e a cumplicidade que permitem uma partilha quase perfeita de sentimentos e de sensações. “Querido Amigo. Retomo a tradição dos postais em viagem. Saímos do Porto atrasados, comemos bogas fritas, já perto do Pinhão, e mal chegamos a casa, por volta das quatro, o Laureano acendeu o lume e aqui me tem à lareira a escrever-lhe. Só para lhe dizer que tem de ter cuidado consigo, que tem que alterar o seu ritmo de vida, essas correrias tiram-lhe anos de vida e eu quero que V. dure muitos anos, porque a sua amizade me é preciosa, além do livro sobre o Porto».

 

Guilherme d’Oliveira Martins
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A VIDA DOS LIVROS

  

De 2 a 8 de janeiro de 2023


Graça Morais e Lídia Jorge têm pontos de encontro. Há um diálogo entre as obras de ambas, que nos permite entender como a cultura portuguesa contemporânea, para ser adequadamente compreendida, necessita de uma procura das raízes e dos seus desenvolvimentos.


UMA IDENTIDADE PRÓPRIA
A obra de Graça Morais tem uma identidade própria, em que violência e ternura se encontram, na expressão de Fernando de Azevedo. Não podemos compreender a sua pintura sem entender o sentido do caminho trilhado e a ligação às raízes.  Assim se compreende que “As Escolhidas” fossem “trabalhadoras de uma classe que viveu mal, todas elas falam de uma infância em que passaram fome e andaram descalças. Havia o domínio do masculino sobre o feminino”. Graça Morais é uma artista comprometida. O clima duro e adverso transmontano está vivo na sua pesquisa, através da representação das pessoas concretas que são protagonistas da sua obra. E a sua mãe, forte e corajosa, é quem lhe transmite a determinação e a agudeza do olhar. Como disse Jeanette Zwingenberger: “a paleta de Graça é a da terra e a da luz. Nos seus desenhos a sépia e a tinta-da-china, regista com um traço a força vital da natureza: a eclosão de uma romã, um ramo de oliveira, cerejas, o voo de um inseto ou a agitação febril de um cão. A série da perdiz, seu animal totémico, traduz o ciclo da maturação, do voo, e mais tarde da decomposição”. E o imaginário da infância está bem presente, correspondendo o bestiário a uma verdadeira metáfora da vida. Os gafanhotos evocam tanto as mulheres lutadoras como “anjos de asas translúcidas”, ainda na expressão de Zwingenberger. E são os mitos da natureza e da vida que encontramos nos temas que a artista escolhe. Como diria Octavio Paz e também Eduardo Lourenço: “vemos numa coisa outra coisa”. E a ideia de metamorfose torna-se essencial para entendermos a originalidade da obra. Segundo Fernando Pernes, “os frutos aludem caprichosamente à fecundidade dos ventres maternais”. E, na palavra de Nuno Júdice, há “uma descoberta de passados secretos, revelando que nada morre”. As raízes populares, que Graça Morais vai recordando, esclarecem-nos sobre essa continuidade.  Os caretos representam a interrogação dos mitos e a força da relação múltipla no seio da natureza, entre vencedores e vencidos. Por isso, a pintora faz a natureza dialogar em si mesma trazendo à luz do dia a diversidade da vida. E nessa demanda encontramos as referências fundamentais que a influenciam: Miguel Ângelo, Goya, Van Gogh, Picasso e Bacon. Mas a poesia e o romance também a atraem – Torga, Sophia, Saramago, Nuno Júdice, Agustina, Maria Velho da Costa, Vasco Graça Moura, Manuel António Pina, além da omnipresença de Ovídio nas “Metamorfoses” ou de Dante na “Comédia”. E o teatro, de Shakespeare a Jean Genet está igualmente evidente. Há, deste modo, uma permanente procura da identidade da artista, através da interrogação sobre a existência e a busca do universo.


CONTRA O MEDO, A DETERMINAÇÃO
O medo, a violência, a incerteza, as dúvidas misturam-se com a determinação e a luta. A série “A Caminho do Medo”, apresentada na exposição “Tudo o que eu Quero”, na Gulbenkian e depois em Tours, revelam-se proféticas. Tendo sido concebida em 2011, durante a crise económica, a austeridade e a emergência da chegada dos refugiados, anuncia já a pandemia e a guerra, numa sucessão de momentos dramáticos, representados por uma estranha máscara cirúrgica, apanágio do confinamento que viria depois. E os tempos que aqui se configuram (crise, drama dos refugiados, pandemia e guerra da Ucrânia) definem a incerteza e o medo, que continuam a pôr a humanidade de sobreaviso. A liberdade e a dignidade tornam-se, deste modo, fatores capazes de contrariar o puro ceticismo, seguindo os passos determinados das mulheres, e em especial de sua mãe, trazidas à ribalta na sua produção artística. Como Helena de Freitas lembra: num diário na aldeia, a artista “corporiza a perdiz, o animal que na cadeia da sobrevivência é o animal caçado, que na representação simbólica evoca o feminino na sua duplicidade de luxúria e morte”. “As minhas personagens (lembra a artista) são sempre vítimas, mas que resistem”. E temos assim um inequívoco sinal de esperança, que a dinâmica constante e interminável das metamorfoses nos dá. O mundo transforma-se e aperfeiçoa-se. Se há um paralelo digno de nota entre duas mulheres artistas na cultura portuguesa contemporânea, é o encontro entre Graça Morais e Lídia Jorge. Ambas representam, de modo diferente, uma ligação íntima e insofismável às raízes. E se Trás-os-Montes e o Algarve são distantes, o certo é que têm proximidades maiores do que pode parecer à primeira vista. Portugal é, afinal, o continente em miniatura, que está cheio de tensões e complementaridades que a pintura de Graça Morais e a literatura de Lídia Jorge revelam de um modo exemplar. Tradição e modernidade são chamadas a conciliar-se, num caminho emancipador. E as mães de ambas são símbolos que as aproximam, como intérpretes e mediadoras, cuja influência se projeta nas respetivas obras. Se nos ativermos, aliás, a Misericórdia (D. Quixote, 2022) podemos entender em que medida há uma especial ligação às raízes, à presença e à ausência, à continuidade e à interrogação a respeito do choque entre esperança e desespero. E Lídia Jorge sente uma angústia semelhante à de Graça Morais: “Há trinta anos, nós tínhamos um programa para sair da ruralidade da escola. Aconteceu que, entretanto, o mundo tecnológico veio contrariar esse projeto. E está provado que os países que têm menos tradição letrada e cultural incorporam acriticamente a informação, tendo uma noção de vanguarda – porque é muito fácil uma pessoa quase analfabeta manejar com muita facilidade todos os gadgets – e transitaram de uma cultura iletrada para uma cultura tecnológica, sem passagem pelo filtro civilizante. Foi o caso da sociedade portuguesa, que não tinha suficientes hábitos de leitura, de crítica, de liberdade ou de ousadia da expressão do pensamento para o evitar” (entrevista, revista “Ler”, Inverno de 2022). Lídia Jorge vê aqui o perigo de uma nova barbárie, que pode resultar da recusa da coragem de assumir as diferenças e os riscos, sem a tentação do complexo por não se ser o melhor e o mais avançado, esquecendo que importa cuidar do nosso jardim, sem pretendermos ser melhores ou piores, mas tão só nós mesmos, abertos à compreensão dos outros e dum caminho de verdadeiro diálogo de culturas, baseado no melhor conhecimento mútuo.


UM DIÁLOGO PORTUGUÊS
O diálogo na sociedade portuguesa passa por esta tensão, representada nos dois polos sobre que Graça Morais e Lídia Jorge procuram refletir, o respeito das raízes e a recusa do fatalismo do atraso, num sentido de emancipação, capaz de entender os riscos do medo e da uniformização, da indiferença e do esquecimento. O compromisso deve ser com a humanidade e a dignidade do ser. As personagens que são vítimas resistem e o sinal de esperança baseia-se na ideia da metamorfose, num mundo que se transforma e aperfeiçoa. Eis o ponto em que Graça e Lídia se aproximam.  

 

Guilherme d’Oliveira Martins
Oiça aqui as minhas sugestões – Ensaio Geral, Rádio Renascença

A VIDA DOS LIVROS

  

De 19 a 25 de dezembro de 2022


Eduardo Marçal Grilo em Salazar e a Educação no Estado Novo (Clube do Autor) procede a uma análise em que procura ver as razões do atraso educativo português no salazarismo.


QUE POLÍTICA EDUCATIVA? 
No livro de Christine Garnier Férias com Salazar (1952) surgem considerações sobre o que Oliveira Salazar pensava sobre as políticas educativas. À pergunta “qual deveria ser o principal fator da educação em Portugal?”, a resposta não se faz esperar: “A família. Por felicidade, nós dispomos ainda em Portugal um fator favorável embora insuficiente; a família conserva uma certa consistência ao lado da desagregação que por toda a parte se lhe nota. Afirmando que a educação é da competência e da alçada da família, a Constituição Portuguesa quis exprimir não só o pensamento de que o Estado não pode fazer obra educativa contrariamente ao espírito da família de que a criança proveio, mas o de que a educação deve fazer-se principalmente no seio familiar”. Na introdução que escreveu para a entrevista que António Ferro lhe fez, as considerações educativas do então Presidente do Conselho tinham sido semelhantes: “pesam sobre nós defeitos tradicionais, que é mister desenraizar das almas, do carácter dos portugueses. Pesa conjuntamente com esses defeitos uma educação viciosa que nos não dá rendimento preciso. (…) A obra educativa a realizar, mormente nesta época de renascimento nacional, tem de partir dum ato de fé na Pátria portuguesa e inspirar-se num são nacionalismo”.


EDUCAÇÃO E ESTADO NOVO… 
Eduardo Marçal Grilo em Salazar e a Educação no Estado Novo (Clube do Autor) procede a uma análise em que procura ver as razões do atraso educativo português no salazarismo. Além da perspetiva que demonstra o diminuto interesse do governante pela função educativa, compreendemos que esse entendimento se estende ao grave problema do analfabetismo, que não é visto como prioridade primeira: “Considero mais urgente a constituição de vastas elites do que ensinar o povo a ler”. E assim a limitada definição de um quadro global (ler, escrever e contar) tem de ser lida em contraste com a preocupação que encontramos, designadamente em textos emblemáticos desde Garrett a Adolfo Coelho, sem entrarmos em linha de conta com as reformas do início do século XX, que não puderam ir além das boas intenções, considerando a instabilidade política vivida. Se o discurso é propositadamente limitador e se, nas suas origens, há a preocupação de romper com as medidas visando fazer avançar o país, a verdade é que os acontecimentos mundiais irão forçar um gradualismo reformista, sobretudo no pós-guerra. Como diz o Presidente da República no Prefácio: “o autor demonstra por que razão a educação foi um dos flagrantes fatores de retardamento nacional, entre os anos trinta e sessenta, apesar dos esforços meritórios de alguns visionários ou arrojados”.  De facto, “o Estado Novo não fez na área da educação o investimento que o país necessitava, mas a taxa de analfabetismo sofreu entre 1930 e 1970, uma redução de 34%: em 1930 haveria em Portugal cerca de 70 por cento de analfabetos, e em 1970 cerca de 26 por cento” … Esta evolução, contudo, só avançará de 1950 até aos anos setenta, havendo vários fatores a considerar, desde a criação das regentes escolares até ao plano de alfabetização dos anos cinquenta, passando pelo efeito do serviço militar obrigatório, que deve ser lembrado.

Importa recordar que a primeira alteração introduzida no ensino primário depois de 1926 ocorreu logo em 1927, na Ditadura Militar, antes do Estado Novo, sendo ministro da Instrução Pública Alfredo Magalhães, que alterou a estrutura do ensino primário adotada em 1919 e que reduziu a escolaridade obrigatória de cinco para três anos, facto sem paralelo no contexto das políticas comparadas, já que a evolução normal seria a de um progressivo enquadramento que permitisse um aumento na taxa de escolarização. A influência republicana no meio dos educadores e professores não terá sido alheia a esta orientação, que viria a ser confirmada após a ditadura militar. A reforma de 1936 de Carneiro Pacheco reforçou esse ponto de vista, baseando-se numa orientação ideológica marcada pela doutrinação da juventude, num sentido eminentemente nacionalista e de afirmação de uma “ordem” centrada num chefe absoluto e incontestado e na clara recusa do pluralismo. “As nações que querem viver baseiam a disciplina interior na autoridade de um governo ‘com autoridade’ e procuram dispor de soldados capazes de fazer triunfar o seu direito” – dirá o ministro da Educação Nacional, na defesa da Mocidade Portuguesa.


QUE MODERNIZAÇÃO
A evolução da situação internacional no decurso dos anos quarenta conduzirá, todavia, a uma progressiva mudança no discurso e na concretização política. Em 1940 é posto em prática o ambicioso plano dos centenários, no tocante às construções escolares, havendo inovações no ensino industrial, profissional e agrícola ainda que concebido de forma marginal na relação ao ensino liceal, visto aquele como “ensino dos outros e para os filhos dos outros”. Em 1952, com o ministro Pires de Lima há uma clara tomada de consciência da situação alarmante que se vivia em matéria de analfabetismo, o que obrigou à definição de um plano que envolveu a obrigatoriedade efetiva do ensino primário, o recenseamento escolar, o reforço da fiscalização e a educação de adultos. Pode dizer-se que este momento é o mais importante para o progresso efetivo na luta contra o analfabetismo. Mas será Francisco Leite Pinto o protagonista, no dizer de Rómulo de Carvalho, de uma “política de valorização da educação e da formação dos recursos humanos, como resposta às exigências de uma economia moderna e como forma de promoção de uma certa mobilidade social”. Assim, em 1959, recordo o que aconteceu, o ministro concebeu um plano que denominou de fomento cultural, cuja realização muito ambiciosa necessitaria de meios financeiros e técnicos internacionais. Estabeleceu então contactos com organismos internacionais, a começar na OCDE, no âmbito da aplicação do Plano Marshall, e obteve o apoio indispensável, criando-se a partir daí um núcleo de especialistas, no âmbito do Projeto Regional do Mediterrâneo, que envolveu além de Portugal, a Espanha, a Itália, a Grécia e a Turquia. Deste modo, o despacho do ministro Leite Pinto de 21 de novembro de 1959 cometeu ao Prof. Alves Martins, do ISCEF, a funcionar no Centro de Estudos de Estatística Económica do Instituto de Alta Cultura, a tarefa de proceder à análise quantitativa da estrutura escolar portuguesa, o que coincidiu, na OCDE, à organização da conferência sobre indicadores e técnicas de previsão com largas implicações no ensino. Com esta preocupação, a escolaridade obrigatória foi alargada para os 4 anos, em 1956, mas apenas para o sexo masculino, ao contrário do que o ministro propusera. Só em 1960 as quatro classes passariam a ser obrigatórias para todos. Em 1961, o ministro sairia abruptamente. Estavam, contudo, lançadas as bases de um novo tempo. Por isso, diria: “Afirmo categoricamente que se não acabarmos com a frase rançosa e vergonhosa de que o Tesouro não pode dar prioridade às despesas da Educação, não poderemos ir longe no futuro, nesse futuro que para o Ocidente consiste numa contínua ascensão no caminho da prosperidade”. Com grande cópia de informações úteis, o livro de Eduardo Marçal Grilo é, assim, uma boa base de reflexão, sobre um tema essencial, que não pode ser subalternizado nem esquecido. 


Guilherme d’Oliveira Martins
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A VIDA DOS LIVROS

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   De 12 a 18 de dezembro de 2022

 

“Metamorfose Necessária – Reler S. Paulo” de José Tolentino Mendonça (Quetzal, 2022) é um livro oportuno que devemos escolher para esta quadra de Natal como leitura utilíssima.

 

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APROXIMARMO-NOS DO PRESÉPIO

Ao conhecer melhor o apóstolo dos gentios, aproximamo-nos mais do Menino que vai nascer. Através de Paulo e da sua conversão podemos, assim, entender melhor a essência da Epifania, representada metaforicamente na presença dos Magos no presépio, mas só compreensível através do fundamental encontro na Estrada de Damasco, em tudo o que representou e significou. Numa cronologia possível elaborada no livro pelo Cardeal Tolentino, mercê do que Paulo diz de si nas cartas e do que Lucas refere dele nos Atos, podemos elaborar um percurso: a conversão entre os anos 35 e 37, a evasão de Damasco entre 37 e 39, o incidente em Antioquia entre 43 e 44, a primeira viagem missionária entre 45 e 48, a Assembleia de Jerusalém (48-49), a segunda viagem missionária e a estada em Corinto (49-52), a terceira viagem missionária, com estada em Éfeso e três meses em Corinto (57-60), o cativeiro de Cesareia (60-64) e a morte ocorre provavelmente em Roma, entre 64 e 68. Julgamos que Paulo tenha sido um “fabricante de tendas”, que se orgulhava de, “graças ao seu trabalho, não depender das comunidades nem do patrocínio dos ricos”. Não sabemos, porém, em rigor, quantas cartas teria escrito Paulo, mas no cânone do Novo Testamento são-lhe atribuídas treze, pondo à parte a Carta aos Hebreus. Há consenso em reconhecer a autoria paulina de sete epístolas: a primeira aos Tessalonicenses, a primeira e a segunda aos Coríntios, e ainda as cartas aos Filipenses, a Filémon, aos Gálatas e aos Romanos. A estas designamo-las como autênticas, por análise literária, teológica e histórica, sendo as outras atribuídas a discípulos posteriores.

 

UM MODELO DE COMUNICAÇÃO

O encadeamento dos textos permite-nos ver como o apóstolo, o primeiro escritor cristão, começou de um modo simples e direto e passou, com o decurso do tempo, a usar os melhores “recursos da oficina literária” de um modo mais rigoroso, “a ponto de George Steiner dizer que poucos homens, na história da comunicação humana, acreditaram tanto no poder da palavra como Paulo”. E se há coisas algo difíceis de compreender, o certo é que há uma coerência, que encontramos e que nos ajuda a dar sentido ao conjunto do pensamento e das mensagens. “Paulo nunca foi um pregador solitário ou um one man show. Viveu toda a vida num ritmo comunitário, cultivou uma finíssima rede de relações pessoais, tinha um conjunto de colaboradores que partilhavam o seu quotidiano e o seu pensamento, operava numa verdadeira rede social que é parcialmente reconstruível”. E podemos acrescentar ao que nos diz o autor que se trata de uma “rede” aberta e dialogante (em contraste com o que tantas vezes encontramos em circuitos fechados). Trata-se de uma “teologia de pregação”, que interage com a vida concreta, que determina um sentido direto, dotado de capacidade de sedução, o que levaria supostamente Séneca, numa carta ficcionada dirigida a Paulo, a pedir-lhe: “Usa por favor uma linguagem correta, empresta aos teus nobres conceitos uma bela veste, de maneira que o generoso dom que te foi concedido possa por ti dignamente dar muito fruto”. E qual a chave do ensinamento de Paulo? Estamos diante de “um pensamento móvel, que se estende por declinações muito diversas, a partir de um centro fixo: o encontro com Cristo” – e assim se realiza a “experiência mística de um Cristo que está vivo”. E o apóstolo não pensa apenas no destino dos crentes, mas reflete sobre o destino humano e a metamorfose do mundo.  Como diz o insuspeito Alain Badiou, o pensamento universal de Paulo supera a proliferação de alteridades (o judeu, o grego, as mulheres, os homens, os escravos, os homens livres, etc.) pela afirmação de uma equivalência igualitária. E Giorgio Agamben diz-nos que o essencial em Paulo incide sobre aquilo que resta (o resto que permite compreender o todo), que impede as divisões sumárias e impossibilita que as partes e o todo coincidam consigo mesmos. E assim supera a contradição do primado da lei escrita, “uma vez que divide a lei em lei das obras e lei da fé, lei do pecado e lei de Deus (Rm 7, 22-23) – e assim a torna inoperante -, Paulo pode então cumprir a lei na figura do amor”.

 

VER É SER VISTO

Mais do que viajante, Paulo é peregrino. E o seu ver “não é apenas um observar com os olhos da carne; é o ser visto, é o passar a ver com os olhos da fé”. E esta construção do anúncio cristão inscreve-se na encruzilhada dos mundos judaico-semita e helenístico-romano. “Paulo metamorfoseia o mundo e as relações, ao pensar alternativas de futuro”. E a Filémon diz, com clareza, que o dono e o escravo se devem reconhecer como irmãos. Mas então de que metamorfose falamos? Não por acaso, Lucas descreve Paulo caído por terra, com uma cegueira funcional, protagonista de uma reviravolta na vida – “Aquele que já nos perseguiu anuncia agora a fé que antes destruía” (Gal. 1, 23). E o cristão é para Paulo um sujeito crente em construção, sabendo que a fé é frágil e incompleta. Como Karl Rahner dirá: “o cristão do futuro ou será místico, ou não será cristão”. Urge que possamos experimentar, no sentido criador. “Deus, com efeito, não criou o homem; Ele cria-o e continuará a criá-lo. Nesse sentido, estamos sempre em estado de ser criados e de criar (…).  Não somos simplesmente testemunhas de um passado. Cada pessoa é chamada a ser, e é já, um documento do futuro”. Eis a metamorfose necessária. 

Guilherme d’Oliveira Martins
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A VIDA DOS LIVROS

  

De 5 a 11 de dezembro de 2022


No centenário de José-Augusto França recordamos os passos fundamentais da sua vida como referência fundamental da cultura portuguesa.


HOMENAGEM DA UNESCO
Quando a então Diretora-Geral da UNESCO, Irina Bokova, homenageou José-Augusto França, em 2012, na passagem dos seus noventa anos, sublinhou o que representou um reconhecimento internacional da maior justiça. Disse então: “Grande historiador, crítico de arte e escritor prolífico, os trabalhos de J.-A. F. alargaram consideravelmente o nosso olhar sobre os séculos XIX e XX, em particular sobre a criação artística em Portugal e na Europa. Especialista mundialmente reconhecido na arte portuguesa, autor de um livro fundamental sobre o Romantismo em Portugal, o Professor França teve um papel esclarecedor sobre as origens da nossa própria modernidade, explorando algumas das mais importantes fases da história da civilização europeia. A sua obra é testemunho de uma infinita curiosidade pela cultura sob todas as suas formas: arte, literatura, teatro, cinema, alargando as fronteiras de qualquer destas disciplinas. A sua paixão e o seu empenho ressoam no coração das atividades da UNESCO, mostrando de maneira brilhante a importância da cultura para a compreensão da sociedade em geral”. O percurso e a obra de José-Augusto França merecem uma análise circunstanciada, nos diversos campos em que desenvolveu atividade. Quando hoje relemos “Une Ville des Lumières: la Lisbonne de Pombal” compreendemos a importância do que ocorreu na sequência da catástrofe de 1755, na profunda renovação do urbanismo, nos alvores da chamada idade contemporânea. Como nos casos de S. Petersburgo e de Washington, D.C., na reconstrução global da cidade de Lisboa deparamo-nos com a antecipação de um tempo no qual emergiu uma nova conceção e organização das sociedades. Os três casos são, assim, considerados internacionalmente como modelares e o caso da capital portuguesa assume um especial significado por se tratar de uma sociedade destruída, que foi referida por Voltaire e Kant, e para a qual houve capacidade para começar de novo.


A RECONSTRUÇÃO DE LISBOA
O processo de planeamento e reedificação de Lisboa foi estudado criteriosamente pelo historiador, que afirmou: “A sua criação tornou-se possível graças a uma legislação que soube ligar o facto urbanístico ao facto político, dentro duma visão global onde se verificam perspetivas sociais e económicas, tanto como culturais e ecológicas. Entender a cidade como um todo foi a razão de ser do fenómeno sócio-cultural pombalino, num processo de prática coletiva ligado ao passado tanto quanto ao futuro, à tradição tanto quanto à modernidade, necessários ambos para a definição de um discurso ideológico coerente. Dentro dele, o interesse público era devidamente sublinhado, novo valor que uma nova classe encarnava, com uma nova função. Tal função expressou-se na ‘Praça do Comércio’, na sua monumentalidade tanto como no seu nome, ambos adequados ao papel simbólico, senão mítico exercido no quadro duma sociedade reformada por via iluminista”. A compreensão da obra complexa de Pombal aliou-a José-Augusto França ao estudo do que se seguiu a esse segundo terramoto, que foi a edificação de uma nova cidade. Como ficaria demonstrado no extenso estudo sobre o Romantismo, o estudioso procurou olhar a realidade social, económica e cultural de Portugal em termos complexos e dinâmicos – procurando olhar a modernização a partir das raízes pré-existentes, articulando a tradição e as resistências conservadoras às forças e intenções modernizadoras, bem como aos seus resultados. E a Lisboa pombalina nasceu dos esforços conjugados de três gerações diferentes e de três perspetivas geracionais, representadas por Manuel da Maia, um velho general com mais de oitenta anos, que procurou “acordar” o antigo e o moderno; por Carlos Mardel, vindo de fora, para quem o barroco “ganhara desinências de elegância cosmopolita” mais moderna, e por Eugénio dos Santos, falecido jovem, esgotado de trabalho, para quem era necessária uma cultura nova adequada às circunstâncias. Maia representou a transição de dois séculos, Mardel, o fim do primeiro quartel de setecentos e Eugénio dos Santos, os meados racionais do século.


Se virmos bem, o percurso de vida de J.-A- França foi feito sempre com larga intervenção no campo da cultura, designadamente no período surrealista, na Galeria de Março e em “Unicórnio” e seguintes, representando na escrita e na historiografia a capacidade de ligar o pensamento e a ação. A análise pioneira do Romantismo, considerado com um longo período corresponde a essa ambivalência criativa. Afinal, o caminho português obrigaria a entender a História, desde os prolegómenos iluministas de Pombal, da relevância das guerras peninsulares até às origens do liberalismo, da Revolução de 1820 à vitória liberal de 1834, início do processo romântico português, a culminar em 1880, “no momento em que se caracteriza uma viragem da sociedade portuguesa, e onde sobretudo esta sociedade toma consciência dos seus próprios valores – e da sua própria falência”. E as datas charneira são 1835, 1850, 1865 e 1880. E é neste ponto que o historiador passa do reconhecimento da importância do naturalismo oitocentista, com os seus avanços e recuos, para o seu esgotamento e para a génese do modernismo do século XX. E não por acaso Rafael Bordalo Pinheiro surge como referência especial, na transição, ao caricaturar o romantismo que decai e se transforma. E são 1915 e “Orpheu” que emergem no novo século XX com intensa energia – na heteronímia de Fernando Pessoa, ao lado de Amadeo de Souza-Cardozo, “o Português à Força” e de Almada Negreiros, “o Português sem Mestre”.


UM AUTOR MULTIFACETADO
A obra rica e multifacetada de escritor leva-nos ao romance, de que é um exemplo “A Bela Angevina” (2005), baseado numa estada de Eça de Queiroz no Hotel du Cheval Blanc, em Angers, onde poderia ter encontrado uma jovem, cuja fotografia conhecemos. Tê-la amado e sido amado por ela, cerca de 1880? J.-A. França cria esse encontro, com base em documentação conhecida e também imaginada, numa história atraente que passa por Paris, Bristol, Lisboa e sobretudo por Angers, onde Eça teria escrito o “Mandarim”, enquanto ia andando às voltas com “Os Maias”. A biografia do historiador de Arte é significativa – professor da Universidade Nova de Lisboa, presidente do Centro Nacional de Cultura (1974-76), do Instituto de Língua e Cultura Portuguesa (1976-79), diretor da revista Colóquio – Artes (1971-76), diretor do Centro Cultural Português da Fundação Calouste Gulbenkian de Paris (1983-89), membro do Comité do Património Mundial (UNESCO) (2001-2005), presidente do Conselho Literário do Grémio Literário, sócio emérito das Academias das Ciências e Nacional de Belas-Artes (a que presidiu em 1976-79), presidente de honra da AICA – Association Internationale des Critiques d’Art. Em qualquer destas funções teve sempre um papel fundamental. Ao recordarmos as ações que desenvolveu é impressionante o que nos legou como chave essencial dos tempos que atravessou e soube sempre interpretar de modo inexcedível. Não é possível conhecer a história da Arte portuguesa dos dois últimos séculos sem estudar o que o mestre nos deixou, com o rigor e a sabedoria que são dignos da melhor memória, num permanente diálogo entre o autor e o crítico, como na luta entre Jacob e o anjo, capa do seu derradeiro livro.     

 

Guilherme d’Oliveira Martins
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A VIDA DOS LIVROS

  

De 28 de novembro a 4 de dezembro de 2022


A “Peregrinação” de Fernão Mendes Pinto, adaptada em Banda Desenhada por José Ruy (Âncora Editores) é uma das obras-primas da 9ª Arte em Portugal. Recordamo-la. no momento em que o grande ilustrador nos deixa com 92 anos de idade.


UMA REFERÊNCIA DA CULTURA PORTUGUESA
Se a obra de Fernão Mendes Pinto é uma das maiores referências da cultura da língua portuguesa, esta adaptação feita por José Ruy (1930-2022) e publicada pela primeira vez em continuados no “Cavaleiro Andante”, entre 14 de dezembro de 1957 e 6 de junho de 1959, constitui uma magnífica adaptação gráfica, na qual o público leitor pode ter acesso a uma síntese servida pela mestria de um dos mais importantes mestres das histórias de quadradinhos (HQ), ao lado de Eduardo Teixeira Coelho (ETC), José Garcês ou Fernando Bento. Quando lemos a adaptação de “Peregrinação” percebemos o porquê de Fernão Mendes ter respondido aos que duvidaram da veracidade dos seus relatos do seguinte modo: “a gente que viu pouco mundo, como viu pouco também costuma dar pouco crédito ao muito que os outros viram”. É memorável, por exemplo, o encontro de Fernão Mendes Pinto com António de Faria, o célebre corsário (não se sabe se alter ego do autor), numa situação, em que quiseram saber novidades de Liampó, “porque se soava então pela terra que era lá ida uma armada de quatrocentos juncos em que iam cem mil homens por mandado de El-Rei da China a prender os nossos que lá iam de assento, a queimar-lhes as naus e as povoações, porque os não queria em sua terra, por ser informado novamente que não eram eles gente tão fiel e pacífica como antes lhes tinham dito”. Afinal era engano, pois essa armada tinha ido, afinal, socorrer um Sultão nas ilhas de Goto.


O DOMÍNIO DO MOVIMENTO
E é inesquecível a perseguição ao corsário mouro Coja Acém, que se dizia “derramador e bebedor do sangue português”, a quem Faria jurara vingança, por lhe ter roubado as fazendas e morto os companheiros na batalha mais violenta da “Peregrinação”. “E arremetendo com este fervor e zelo da fé ao Coja Acém como quem lhe tinha boa vontade, lhe deu, com uma espada que trazia, de ambas as mãos, uma tão grande cutilada pela cabeça que, cortando-lhe um barrete de malha que trazia, o derrubou logo no chão…” As ilustrações de José Ruy são exemplares e constituem referências para os melhores especialistas internacionais da Banda Desenhada. Hoje sabemos da verosimilhança de tudo quanto está relatado na “Peregrinação”, que constitui um texto pioneiro na literatura europeia, ao lado da obra imortal de Cervantes sobre o Cavaleiro da Triste Figura. Pode até ter acontecido que não fosse Mendes Pinto o real protagonista de tudo o que é relatado, mas percebemos que cada episódio pôde ocorrer de facto, até porque os estudiosos desse tempo são os primeiros a considerar que não é possível compreender o que João de Barros ou Diogo do Couto nos relatam sem ler Fernão Mendes Pinto. E José Ruy com o seu traço inconfundível e o perfeito domínio do movimento interpretou a mole imensa de acontecimentos de modo exemplar. Dir-se-á que, como acontece na literatura moderna, o autor, como o romancista, compõe a visão dos acontecimentos artisticamente, a partir da matéria-prima dos acontecimentos que de facto viveu.


José Ruy, que aqui homenageamos, nasceu na Amadora em maio de 1930, tendo sido aluno e cursado na Escola António Arroio, que sempre tanto elogiou, onde foi discípulo de Rodrigues Alves, Falcão Trigoso e Júlio Santos. Iniciou-se como desenhador e argumentista com apenas 14 anos em “O Papagaio” de Adolfo Simões Müller, tendo tido uma especial preocupação no aperfeiçoamento das técnicas de desenho, ilustração e gravura. É o autor português com maior número de obras publicadas na sua especialidade, mais de 80 álbuns, sendo cinco dezenas de Banda Desenhada (ou de histórias de quadradinhos, como preferia dizer) com destaque para as viagens de Porto Bomvento, bem como para as biografias de Almeida Garrett, João de Deus, Bernardo Santareno, Pero da Covilhã, Pedro Álvares Cabral, Aristides de Sousa Mendes, Leonardo Coimbra, Humberto Delgado, Charlie Chaplin ou Carolina Beatriz Ângelo. Graças ao encontro com um saudoso amigo comum, Amadeu Ferreira, ilustrou a história da língua e do povo mirandês. Com a publicação de “Os Lusíadas” foi o primeiro autor a publicar um álbum sobre um poema épico. O rigor e a qualidade do seu trabalho têm sido reconhecidos tanto em Portugal como no estrangeiro, estando a sua obra publicada em 11 línguas. Foi o primeiro autor a ser galardoado com a Medalha de Honra do Festival de Banda Desenhada da Amadora, tendo ainda recebido a Medalha Municipal de Ouro de Mérito e Dedicação da Cidade da Amadora. O CNC não esquece a extraordinária lição que nos deu sobre os segredos do artista no tempo em que a gravura era trabalhada diretamente na base metálica, até ao mais ínfimo pormenor. Não podemos deixar que o silêncio possa cair sobre a memória de um artista como José Ruy. A sua obra corresponde a um caso único de qualidade e exigência. Enviamos, por isso, a sua família e amigos a expressão dos nossos sentimentos e uma homenagem profunda ao seu humanismo de sempre.

 

Guilherme d’Oliveira Martins
Oiça aqui as minhas sugestões – Ensaio Geral, Rádio Renascença

A VIDA DOS LIVROS

  

De 21 a 27 de novembro de 2022


Ao lermos os Cadernos de Lanzarote IV de José Saramago encontramos a lista dos autores que, segundo o próprio, mais o influenciaram.


A LISTA DE INFLUÊNCIAS
“A minha lista, com a respetiva fundamentação, foi esta: Luís de Camões, porque como escrevi em O Ano da Morte de Ricardo Reis, todos os caminhos portugueses a ele vão dar; Padre António Vieira, porque a língua portuguesa nunca foi mais bela que quando ele a escreveu; Cervantes, porque sem ele a Península Ibérica seria uma casa sem telhado; Montaigne, porque não precisou de Freud para saber quem era; Voltaire porque perdeu as ilusões sobre a humanidade e sobreviveu a isso; Raul Brandão porque demonstrou que não era preciso ser-se génio para escrever um livro genial, Húmus; Fernando Pessoa, porque a porta por onde se chega a ele é a porta por onde se chega a Portugal; Kafka, porque provou que o homem é coleóptero; Eça de Queirós, porque ensinou a ironia aos portugueses; Jorge Luís Borges, porque inventou a literatura virtual; Gogol, porque contemplou a vida humana e a achou triste”. Ao lermos esta genealogia cultural, compreendemos a obra e o percurso de José Saramago, mas também o sentido do caminho que seguiu. Camões permite entender a gesta portuguesa, nos seus claros e escuros. O épico e o lírico retratam não apenas o desafio da demanda da Índia, mas igualmente a procura do eu e do nós e a distância entre o sonho e a realidade como no Memorial do Convento, onde a sociedade é retratada, a propósito de uma descomunal construção, só possível graças ao ouro do Brasil e à coexistência entre a riqueza e a miséria. E ao lermos Que Farei com Este Livro? podemos compreender, co Camões, a nossa panóplia de paradoxos. Portugal e os portugueses mostram-se contraditórios entre si, capazes de cultivar a ilusão, mas também de se empenharem na obra que não se fica pelas intenções. Já Vieira cria na sua oratória uma realidade em que a construção do futuro corresponde à razão temperada pela fé, num extraordinário encantamento da palavra. “É o verbo vieirino que vai ressoando no meu cérebro enquanto escrevo” – di-lo-á Saramago em entrevista ao “Correio do Minho” em 1983. E completa o raciocínio: “Pegamos nos sermões do Padre António Vieira e, para além do preciosismo e do concetismo do gozo por vezes um pouco obscurecedor do sentido, verificamos que há, em tudo o que escreveu, uma língua cheia de sabor e ritmo, como se isto não fosse exterior à língua, mas lhe fosse intrínseco”. E ouvimos Vieira no Sermão de Santo António aos peixes de 1654 no seu ritmo oral, que afeiçoa o uso da palavra escrita: “Tão alheia cousa é, não só da razão, mas da mesma natureza, que, sendo todos criados no mesmo elemento, todos cidadãos da mesma pátria, e todos finalmente irmãos, vivais de vos comer!". É essa ligação entre os movimentos da sociedade que se torna presente na escrita amadurecida de Saramago. E não seria o Quinto Império o horizonte da sociedade humana reconciliada, com cidadãos da mesma pátria conscientes do respeito mútuo, para não se comerem uns aos outros, facto que tanto preocupa o romancista? Por outro lado, em Cervantes podemos encontrar a raiz de um teatro fantástico, pleno de prodígios, como nos momentos em que Blimunda vê dentro de cada corpo ou quando uma “jangada de pedra” se desprende, como para um mundo de moinhos de vento. Mas não é apenas D. Quixote que se manifesta, mas também Alonso Quijano, ao cair em si, procurando libertar-se, no fim da vida de uma loucura de mil sonhos. Sem Cervantes, a Península seria uma casa sem telhado? Sim, porque com o cavaleiro da triste figura passamos da fantasmagoria dos romances de cavalaria para a tomada de consciência de uma vontade que decorre da coragem de encarar a realidade tal com ela é. E a cultura ibérica manifesta-se como complementaridade entre a loucura e o bom senso, entre o continente e o mar, como condomínio entre a dureza e a abertura, entre a expressão trágica, o lirismo e o picaresco. Já em Montaigne é a singularidade que se manifesta, pondo-se a tónica na capacidade de ser cético e de se perguntar sistematicamente sobre quem somos, o que sabemos e o que fazemos. E em termos literários, no caminho do escritor, o romance torna-se meio privilegiado de expressão, como diálogo com a vida e como exigência de reflexão adequada ao movimento e à compreensão da existência humana.


REGRESSO AO “CÂNDIDO”
Já a memória de Voltaire, que tão ligado esteve, pela reflexão, aos acontecimentos portugueses do grande terramoto, corresponderia a uma exigência que deveria funcionar como fator de renascimento e de regeneração, como apelo de Cândido ao espírito de denúncia social, sem esquecer a ironia e a corajosa defesa da tolerância. Raúl Brandão representa a força da representação dos dramas humanos e a influência da grande literatura russa, favorecendo a definição dos conflitos tal como se manifestam e a tensão que resulta da complexidade de fatores que determinam a evolução humana. Como fica patente em O Ano da Morte, mas também no gradual conhecimento que se vai tendo da riqueza da obra de Pessoa, designadamente através da revelação do conteúdo da célebre “Arca”, em especial do “Livro do Desassossego”, a riqueza de conjunto da genialidade pessoana torna-se um fator de enriquecimento da criação de Saramago. Franz Kafka permite a compreensão do absurdo e do horror que se manifestam no mundo – enquanto Eça de Queirós se torna, desde muito cedo, mestre da ironia e da crítica, com as suas personagens marcantes, o que constitui uma presença constante nas referências do romancista, apesar da diversidade nos temas e no seu tratamento. Quanto a José Luís Borges é o culto do paradoxo e da complexa convergência plural de fatores no mundo da vida que se torna marcante. A realidade social tende a ser explicada por algo mais do que a análise da realidade social. Por fim, Gogol procura entender uma humanidade dominada pela indiferença e pela incompreensão. Dir-se-ia que assim seria possível superar uma sociedade sonâmbula, difícil de perceber, que obriga a recorrer a diversos pontos de vista, de modo a perceber-se o efeito da evolução do tempo e das mentalidades. E assim chegamos ao ponto em que Saramago se prepara para escrever o Ensaio sobre a Cegueira, que corresponde a uma reflexão que se encontra delineada em Cadernos de Lanzarote II: “Pensei na História e via-a cheia de homenzinhos minúsculos como formigas, uns que não cabem nas portas que fizeram, outros que arrancaram às pedreiras o mármore com que Miguel Ângelo fez o seu David, outros que a esta hora estão contemplando a estátua e dizem ‘Talvez ainda não tenhamos começado a crescer’”… E assim, à medida que a obra de foi afirmando, todos estes elementos convergiram e se complementaram…      


Guilherme d’Oliveira Martins
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