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Blogue do Centro Nacional de Cultura

Um espaço de encontro e de diálogo, em defesa de uma cultura livre e pluridisciplinar. Estamos certos de que o Centro Nacional de Cultura continuará, como há sete décadas, a dizer que a cultura em Portugal vale a pena!

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A VIDA DOS LIVROS

De 3 a 9 de agosto de 2020

Em “Manuel Amado – Pintura sem Álibi” (Fundação Arpad Szènes – Vieira da Silva, 2020) encontramos um artista que nos interroga sobre a essência da Arte na relação essencial com o espaço.

 

UMA ORIENTAÇÃO INCONFUNDÍVEL
A exposição “Manuel Amado – Pintura sem Álibi” na Fundação Arpad Szenes – Vieira da Silva integra obras da coleção Millenium – BCP e algumas de particulares, permitindo uma visão compreensiva sobre o essencial da linha criativa do artista, que há pouco nos deixou. E pode dizer-se que a independência criativa de Manuel Amado permite-nos, a um tempo, encontrar uma orientação inconfundível, mas igualmente um retrato do tempo atual, de uma sociedade fantasmática, onde a ausência de presença humana, nos remete para o essencial das formas e dos espaços. Daí o carácter paradoxal do espírito criador, que propositadamente vai ao essencial do mundo, cabendo ao pintor a capacidade de se fazer entender e de colocar na obra que apresenta ou na relação com a natureza o modo de fazer viver a arte. A Manuel Amado interessava sobretudo o espaço. Como disse em entrevista a Marta Ferreira dos Reis no Público: “Se puser uma pessoa, até pode estar sentada a ler muito quietinha, mas está parada, porque tem de estar parada na pintura. Metendo uma personagem, aquela imagem que a gente vê tem um tempo reduzido. Se não está lá ninguém, aquela imagem pode durar meia hora, uma ou duas horas, que não faz diferença nenhuma. A personagem introduziria o fator tempo, que é uma coisa que não me interessa” (2007). Ao contrário do caso de Edward Hopper, o fator tempo é expurgado nas evidências de Amado. Sentem-se influências de Chirico e Matisse, mas também uma certa demarcação de Magritte e Morandi. E segundo Mariana Pinto dos Santos, curadora da exposição, o artista “Opta pela clausura dos espaços para o exercício de outra ideia de liberdade, uma que passa pela encenação necessária da rememoração dos lugares dos afetos, aos quais não se pode regressar”. A pintura pára o tempo. E é aqui que o paradoxo se manifesta claramente. É certo que o pintor confessa a Maria João Seixas que a sua “é uma pintura sem literatura por trás. São imagens feitas de encontros e recordações, que se calhar evocam aos que olham para as minhas telas outros tantos encontros e recordações. Não há qualquer outra carga para além das coisas representadas” (Pública, 2007). Aqui está porventura um curioso engano, de que o teatro está cheio, ditado pela tensão entre a imagem e a memória. Será talvez verdade que se trata de uma pintura sem literatura por trás, contudo porque está impregnada de literatura na sua expressão mais pura e genuína. A literatura está, pois, presente essencialmente e não fora. Manuel Amado, filho de um grande homem de teatro, para quem a literatura seria sempre representação. Nesse ponto a expressão artística, qualquer que seja, confunde-se com a narrativa e com a vivência da  memória. Que é o teatro senão a literatura viva, e não algo que dissimula a narrativa? E o pintor, fascinado pela representação e pela expressão cénica, põe a narrativa não numa paráfrase mas na apresentação do próprio espaço. Não por acaso, Almada Negreiros, grande amigo de Fernando Amado, o pai, tem no teatro a melhor expressão do seu génio literário. Deste modo, a lição do diálogo presenciado pelo jovem Manuel Amado entre seu pai e Almada, em especial no Centro Nacional de Cultura e na Casa da Comédia, permite-nos entender o paradoxo que assume e a marca original da obra do artista plástico.

 

UM PACIENTE ARTESANATO
De facto, Vítor Silva Tavares tem razão ao afirmar, claramente: “Não sobeja parte de casa para confidências ou leituras paralelas: exata, nítida, esta pintura manifesta-se ao olhar em seu paciente artesanato. É o que é – o real na pintura ou a pintura sem álibi” (1984). É uma pintura sem pretextos, sem justificações. Mariana Pinto dos Santos escolheu, por isso, muito bem este título para a exposição, pondo a tónica na realidade, reconhecendo a etimologia da palavra quase policial alius ibi, outro lugar. A pintura de Manuel Amado não tem, porém, outro lugar, ela própria corresponde, em si mesma, ao que pretende representar. E o teatro está bem presente, no espaço, no cenário, no acolhimento de quem vai dialogar como se fosse na vida real, ou como é, de facto, na vida real. Se falei de paradoxo, devo ainda referir ambiguidade. Arte, teatro e vida, misturam-se. E “Manuel Amado lamentou profundamente que o pai, morto em 1967, não tivesse visto a sua pintura a não ser numa fase muito inicial, tão pouco Almada Negreiros, que elegeu o teatro e as personagens da Commedia dell’Arte como arquétipos da sua arte. E que ambos não tivessem chegado a notar a dívida que a sua arte teria ao teatro”. E não podemos esquecer, na peça de Almada Antes de Começar, Lourdes de Castro (figura histórica do Centro Nacional de Cultura) a contracenar, numa reposição, com o próprio Manuel Amado no ACARTE na Fundação Calouste Gulbenkian em 1984. E quando Amado fez a série O espetáculo vai começar, Lourdes Castro escreveu talvez uma das melhores sínteses que podemos encontrar sobre a obra do pintor, muito para além da série em causa: “Aplausos, aplausos. O Manuel voltou ao teatro. Ao mundo do teatro. Ao teatro vazio”. E o certo é que esse vazio corresponde, na expressão de Emily Dickinson, a uma “força que renova o mundo”. Eduardo Prado Coelho tinha razão ao falar de uma pintura “que ensina a repousar de todas as mensagens” e Eduardo Lourenço ao referir uma pintura sem “deus dentro”. Sempre o culto do paradoxo. As evidências revelam vitalidade e movimento. Além das invocações da Estrada da Comenda, como metáfora do caminho e da renovação, encontramos na exposição das Amoreiras exemplos da série Comboios, Estações e Apeadeiros (1986), de A Casa sobre o Mar (1992), de A Grande Cheia (1996), ou de O espetáculo vai começar (2004-2007)… A cada passo, encontramos o exercício do puro prazer da procura dos espaços. Mas, não há artista sem enigma e não há mostra sem mistério, daí a importância de uma obra que, parecendo contrariar o conjunto, não faz mais do que confirmá-lo plenamente. Falo de Homem sentado de costas (ou O meu pai sentado de costas), de 1967. Não é uma exceção, mas uma confirmação premonitória. “Metendo uma personagem, aquela imagem que a gente vê tem um tempo reduzido” – dirá o pintor. Mas neste caso, propositadamente tem todo o tempo do mundo, acaba de partir e é, por isso, a eternidade que aqui se encontra representada, numa memória jamais esquecida. Que é o teatro senão a capacidade de ir ao encontro da representação da vida tal qual é, e neste caso sem a ilusão de se confundir com outro lugar?…

 

Guilherme d'Oliveira Martins
Oiça aqui as minhas sugestões - Ensaio Geral, Rádio Renascença

A VIDA DOS LIVROS

De 27 de julho a 2 de agosto de 2020

 

A Guerra e Paz publica de Bernard-Henry Lévy “Este Vírus que nos Enlouquece” (2020), que constitui uma oportuna reflexão sobre um tema atual e profundamente perturbador, que deve ser refletido, para além dos lugares comuns.


QUE CONFINAMENTO?
Muito se tem dito sobre o “confinamento” e sobre as medidas excecionais de preservação da saúde pública perante a estranha pandemia que nos assalta. Hoje sabemos, que além das mortes ditadas pelo vírus, houve muitos outros efeitos que sacrificaram vidas humanas, como a solidão, a violência doméstica, o isolamento e o medo – e, infelizmente ainda iremos ter no futuro mais ou menos próximo outros efeitos negativos. Veja-se o tema da escola e da educação, e compreenda-se que a distância é exatamente o contrário do que se pretende na aprendizagem. Teremos, afinal, de regressar rapidamente à socialização educativa. Como há pouco disse: «Se queremos melhor democracia, temos de dar tempo ao tempo, para que a reflexão não seja substituída pela manipulação. É verdade que o ensino, no seu conjunto, pode sair da pandemia mais preparado para aproveitar as tecnologias e as novas correntes de aprendizagem, mas temos de cuidar dos que não podem ser abandonados, favorecendo a criatividade e a cooperação pessoal. No dilema saúde / economia, o valor fundamental é o da vida, da existência, da liberdade, da igualdade e da fraternidade… O capital social e a confiança obrigam ao que Adela Cortina designa como “amizade cívica” (El Pais, 16.5.2020). Só com esta estaremos mais preparados para afrontar próximas epidemias e ameaças de destruição da humanidade…». No livro de BHL todos os alertas são dados. O ambiente de confinamento é malsão e não pode ser aceite de forma passiva ou indiferente. Não esqueçamos que o “confinamento” italiano foi uma palavra mussoliniana. Confinavam-se as vozes críticas e a oposição para criar bolhas autossuficientes em ilhas ou lugares escolhidos para evitar que as ideias perigosas se espalhassem. Eis por que o filósofo considera indispensável não tornar esse um método normal. Mas há o risco para a vida das pessoas em virtude da presença do vírus. É verdade. Importa adotar soluções inteligentes que nos permitam lidar com o perigo e controlar o medo. Temos de formar crianças conscientes de que não irão viver num mundo assético. Têm de estar preparadas. Temos de regressar à lealdade do aperto de mão como sinal de confiança mútua. Não se esqueça que esse hábito nasceu para dizer que não há armas e que podemos estar seguros uns com os outros. E assim as pessoas mais lúcidas têm de falar, dando confiança e delineando caminhos que preservem a autonomia e a responsabilidade, a segurança e a amizade. Importa dizer: a pandemia não terminou, mas está a ser controlada. Visa-se reduzir efetivamente uma segunda vaga, havendo para tal capacidade médica e hospitalar. Importa, pois, substituir o discurso do medo, pela racionalidade e pela criação de condições para que as máscaras, a higiene das mãos e as distâncias prudentes reduzam a transmissão da doença. Dar sinais de que não há epidemia é criminoso, como é absurdo criar um ambiente de culpa e eleger bodes expiatórios. Se há quem diga que estamos numa boa ocasião para o combate da globalização e do capitalismo, estamos a assumir a mesma atitude medieval contra as grandes epidemias, como se uma qualquer providência estivesse por trás de uma maldição.

 

UM CAMINHO PARA DIANTE…
Se o ritmo da descoberta dos tratamentos e das vacinas pode ser mais rápido e resultar da cooperação internacional, tal deve-se à globalização, não tenhamos dúvidas… Aproveitar a morte e o drama humano para defender uma agenda ideológica é inaceitável. Temos de romper com a tentação de tirar partido de um desastre. Qual a atitude inteligente? Importa viver com mais sobriedade, como nos ensinou a última crise financeira, devemos consumir menos, racionalizar o uso dos transportes, no entanto a frugalidade e a proteção do meio ambiente organizam-se, não se decretam. O experimentalismo social e um novo malthusianismo limitam a cidadania e a liberdade. Não há contradição entre a saúde e a economia. Temos de evitar que a vida destrua a vida. Se pararmos a economia e se não definirmos uma estratégia de melhor utilização dos recursos, teremos mais desemprego, mais fome, mais desigualdade e menos desenvolvimento. Os cientistas não são os novos oráculos de Delfos, são importantes agentes na estratégia humana, mas caminham, como nós, no nevoeiro. Importa mobilizar a sociedade toda. Urge haver partilha de responsabilidades. Importa evitar o abuso de autoridade, onde quer que ele se manifeste. E o certo é que a manipulação do medo leva a pôr em causa a autonomia e a liberdade. O trabalho a distância pode ser bom se houver melhor conciliação familiar, melhor utilização do tempo na vida das pessoas, mas é negativo se favorecer a solidão, o tédio e se levar à incompreensão das fronteiras entre o público e o privado ou à espionagem eletrónica dos empregados pelos patrões.

 

UMA METÁFORA PERIGOSA
Diga-se ainda que a metáfora da guerra é perigosa. Há um vírus, há uma doença, não há uma guerra. Ao contrário do combate do tráfico da droga ou da existência de um inimigo externo, o vírus não tem uma intenção, nem uma vontade. É verdade que há medo. Temos, assim, de saber lidar com ele. Não podemos deixar que os poderes do Estado e da economia ocupem o espaço da cidadania e dos direitos humanos. Não devemos deixar que o medo se torne pânico, limitando a inteligência e a vida humana. Nesse sentido, BHL faz nesta obra um discurso contra a servidão voluntária. A cidadania e a democracia têm, deste modo, de se aliar contra a tomada dos espaços públicos pelos Estados e pelas grandes redes como Google, Amazon, Facebook e Apple… O “Big Brother watching us” tem de ser prevenido. A proteção dos dados pessoais não pode tornar-se uma burocracia inútil e opressiva. Como se mede a liberdade? Na medida em que protegermos a vida privada ou o segredo de que somos detentores. Haverá outras epidemias depois desta, e não poderemos deixar que segmentos da democracia se percam. Por exemplo, espiritualidade e higienismo não podem confundir-se… O distanciamento social preventivo não deve ser sinónimo de fragmentação social. O distanciamento que gere indiferença e torne as pessoas abstrações põe em causa a organização da sociedade e a vida democrática, conquistada ao longo de décadas. Eis o que está em causa… Martha Nussbaum tem, aliás, analisado este tema na perspetiva do “cosmopolitismo”, considerando este como “um nobre e imperfeito ideal”, pela necessidade de ligar o interesse geral e interesse próprio nacional. E o certo é que o empenhamento de cada um no seu país precisa da consideração da proximidade e a compreensão do interesse geral assumido como defesa da dignidade de todos em qualquer parte do mundo…

 

Guilherme d'Oliveira Martins
Oiça aqui as minhas sugestões - Ensaio Geral, Rádio Renascença

A VIDA DOS LIVROS

De 20 a 26 de julho de 2020

 

Ao reunir em livro um conjunto de cerca de quarenta crónicas radiofónicas, Lídia Jorge apresenta Em Todos os Sentidos (D. Quixote, 2020) reflexões que prendem o leitor da primeira à última página num encadeamento notável, no qual se manifestam as qualidades há muito reconhecidas da autora.

 

 

CRÓNICAS E ENSAIOS
Começando pela designação de crónicas, devo dizer que muitas vezes estamos perante verdadeiros ensaios, género em que Lídia Jorge muito bem se evidencia há muito. Basta lembrarmo-nos de Contrato Sentimental (2009) para ficar claro como a romancista sabe muito bem lidar com a reflexão, não apenas na construção romanesca, mas também na consideração dos problemas mais relevantes da vida contemporânea e na busca de um sentido ético, cívico e existencial para a humanidade. Partindo do quotidiano, chegamos depressa à essência das coisas. Se durante a crise financeira de 2008, a autora deixou-nos considerações extremamente pertinentes sobre as ilusões do curto prazo, sobre a idolatria dos bezerros de ouro e sobre a tentação de oscilarmos entre considerarmo-nos “heróis do mar” ou ser lixo no perverso julgamento das agências de rating, encontramos a preocupação essencial de ir ao encontro da compreensão de que o tem mais valor não tem preço. E, ao contar uma história passada consigo, quando procurava desesperadamente uma capa para o modelo já desatualizado de telemóvel (com apenas três anos de idade), lá descobriu graças a uma balconista zelosa um utensílio de aspeto rebarbativo mas no essencial útil, ainda por cima com um inesperado desconto por se estar num Black Friday… Mas porquê uma tal designação tão estranha? Ao que parece (num tempo de tantos pruridos e más consciências) a explicação parece ser esta: na cidade do Cabo, na África do Sul, “diz quem, mostra as gaiolas da escravatura que antigamente, em certos dias de sexta-feira, antes do fim-de-semana, os escravos mais franzinos, os mais velhos, os que não tinham dentes, eram vendidos ao desbarato…”. A explicação é bizarra, mas convincente. O seu uso nos dias de hoje revela-se absurdo, pois a expressão esclavagista não poderia ser mais evidente, quando temos necessidade do mais elementar bom senso, em especial no respeito efetivo dos direitos fundamentais, em lugar de ressentimentos e complexos. E Lídia Jorge termina a reflexão, dizendo: “enganemo-nos uns aos outros, compremos inutilidades sem fim. Mas, na dúvida, não lhe chamem Black Friday”…

 

MONTAIGNE E O AMIGO
E se falo do tom ensaístico, não posso deixar de apontar um verdadeiro ensaio testemunhal intitulado “Montaigne e o Amigo”, a propósito da oferta que Pierre Léglise-Costa, um amigo comum, lhe fez e do avisado conselho que deu a Lídia – “Relê o capítulo sobre a amizade, e lê este livro, o do amigo desaparecido, que Montaigne fez publicar”. Devo acrescentar que estava em causa La Boétie, o autor do magistral “Discurso da Servidão Voluntária”, que não teria chegado até nós se não fosse Montaigne, não apenas pela amizade, mas pelo reconhecimento do génio do seu amigo. “Si on me presse de dire pourquoi je l’aimais, je sens que cela ne se peut exprimer, qu’en répondant: ‘Parce que c’était lui, parce que c’était moi’”. É uma das mais belas referências à amizade na literatura de sempre. E Lídia e Pierre conversaram sobre isso. E falaram do “fruto da clarividência que sobressai nas grandes épocas de perda e de ameaça…” e no que acontece “quando um olhar inteligente abrange de relance o passado e o futuro, percebendo que o tempo histórico se desloca por ondas de avanço e recuo, e dessa inquietação surge uma proposta nova”. Ainda no registo do ensaio, somos levados a um poema de Emily Dickinson, com tradução de Ana Luísa Amaral, na exposição sobre o Cérebro, na Gulbenkian. “O poema de Emily Dickinson promete, além da vastidão, uma fusão entre matéria e espírito, e um sentido”… “Mais vasto o Cérebro – que o Céu - / Pois – lado a lado os põe - / E um facilmente conterá / O outro – e a Ti – também. / Mais fundo o cérebro que o mar - / Pois – mede-os – Azul a Azul - / E aquele o outro absorverá / Tal como – o Balde – à Esponja - / Um peso igual, Cérebro e Deus - / Pois – Pesa-os – Libra a Libra / E a distinção – se tal houver - / É como o som da sílaba”. A relação entre a Arte e a Ciência torna-se avassaladora, sendo biunívoca, como a criatividade e o paradoxo dos pequenos robôs. E, num momento, a ensaísta, pronta a perceber a liberdade e a determinação, vê-se impedida de voltar atrás, ao princípio, pela lógica do espaço e do tempo…

 

COMO AMAREMOS A EUROPA?
Os temas sucedem-se. Numa tentativa de definição da Europa, partindo de um poema do mexicano José Emílio Pacheco, diz-nos: “talvez nós não amemos a Europa, mas se fosse necessário, ainda que soasse mal, talvez déssemos a nossa vida para preservar alguns dos seus incunábulos, algumas das suas catedrais, algumas das suas sinfonias, ou o estado social que nos aproxima uns dos outros. Depois de tanta batalha sangrenta, tantas fonteiras de ferro, cidades vizinhas inimigas de morte, a proposta de uma moeda única e de livre circulação de pessoas e bens é uma oferenda de paz que se faz aos mortos”… E, falando do mais nobre dos conceitos de dignidade e de identidade, lemos o testemunho do encontro da jovem Lídia com o avô José Jorge Júnior. “A casa já cá não está, porque tudo se transformou num espaço raso onde os tomilhos vão crescer, mas contrariando o descampado aberto, onde nada ficou, eu vejo a entrada da casa do Aroal como ela era, ouço uma voz e vejo a silhueta de um homem idoso sentado, de perfil, como se o ultimo encontro com o meu avô Jorge tivesse acontecido ontem. Foi há muito tempo”… É a marca da memória que aí está bem expressa. Mas também no exemplo sublime da Maria Inácia, que eu conheci bem de toda a vida, e que pôde defender heroicamente o órgão de Boliqueime – num extraordinário paralelo com a memória de Leipzig, das igrejas de S. Nicolau e de S. Tomé… É verdade que não era a memória de Bach a estar em causa, mas sim a opus 24 de 1789 construída por António Xavier Machado e Cerveira, irmão de Machado de Castro… E que há de mais importante senão uma memória viva?

 

O encontro com Agustina neste conjunto de crónicas é fantástico, no sentido literal do termo. Não vou, obviamente, contar a peripécia, mas posso dizer que é digna de um mistério romanesco, mais de Edgar A. Poe do que de Simenon – o pobre, coitado. Tudo começou numa viagem de comboio, e na descoberta por Agustina de um português, sem que Lídia Jorge pudesse suspeitar. Ninguém se parecia com a típica imagem de um português emigrante. Mas, a verdade é que Agustina tinha toda a razão, era mesmo um português, que ali apareceu com grande prosápia literária. A autora de Sibila identificara-o pelo mover dos lábios. Foi surpreendente o acerto… “Curiosamente, é um homem de compleição germânica, que já se levanta, já se aproxima, curva-se na direção do nosso assento e começa a falar português”. Nada devo dizer mais, porque o que se vai passar só é relevante se for descoberto pelo leitor, na descrição minuciosa de Lídia Jorge e no carácter inimaginável de Maria Agustina…

 

 Guilherme d'Oliveira Martins
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A VIDA DOS LIVROS

De 13 a 19 de julho de 2020

 

No centenário da publicação de “Clepsidra” de Camilo Pessanha (1867-1926), temos de recordar a história misteriosa de uma das obras mais importantes da literatura portuguesa do último século. Fernando Pessoa reconheceu-o. Não é possível, de facto, entender a rica placa giratória que constituiu “Orpheu” sem considerarmos a influência deste poeta.

 

 

 

UMA INICIATIVA DE RECONHECIMENTO
A história de “Clepsidra” é de talento e de amor, de estoicismo e de inteligência. Sem a iniciativa de Ana de Castro Osório não teríamos essa obra-prima das letras portuguesas. Passaria despercebida ou esquecida, como os poemas de Cesário Verde, sem a intervenção de Silva Pinto… A história é mais do que comovente, como tantas vezes mo tem lembrado o meu querido amigo António Osório. E quando celebramos os cem anos, é bom que ao ouvirmos o poeta nos lembremos de um amor, que apesar de impossível, não impediu a generosa iniciativa que tornou grande um poeta grande. “A sete chaves – a carta encantada! / E um lenço bordado… Esse hei de o levar / Que é para molhar na água salgada / No dia em que enfim deixar de chorar”… O livro “O Amor de Camilo Pessanha” de António Osório (Elo, 2005) conta, aliás, como tudo se passou, revelando as cartas de amor que Ana não destruiu. Arnaldo Saraiva afirmou que se Camilo Pessanha fosse de um outro país, certamente que abundariam traduções e estudos sobre a sua obra. No entanto, estamos longe do justo reconhecimento, apesar da opinião de Fernando Pessoa, que constitui uma importante referência. Tudo começa pela paixão de Pessanha por Ana de Castro Osório, a que esta não correspondeu. Pessanha era amigo íntimo do seu colega de curso em Direito Alberto Osório de Castro, irmão de Ana, com quem passava férias em Mangualde em casa do Pai, João Baptista de Castro, que tratava por “primo”. Ana não podia, porém, corresponder ao amor de Camilo Pessanha, por namorar o jornalista e político republicano Paulino de Oliveira, com quem casará em 1898, cinco anos depois da tentativa. A jovem exprime, porém, o desejo «de que Camilo lhe perdoe o desgosto que lhe causa e que seja seu amigo…». E se é certo que autoriza Camilo a destruir a sua carta, tal não acontece, prevalecendo uma «atitude de estoica nobreza». Camilo “restitui” a carta de Ana, e esta guarda essa correspondência, que virá a ser revelada pelo poeta António Osório. Anos depois, em fins de 1915, reata-se o convívio entre Ana e Camilo – que “jantava e seroava em nossa casa invariavelmente duas vezes por semana”, segundo o testemunho de João de Castro Osório, filho de Ana. E é este que se vai encarregar da recolha da poesia: «Comoveu-o ver que um rapaz de dezassete anos lhe pedia para repetir os seus versos de modo a poder escrevê-los, e que, ao fim da noite, lhe mostrava dois ou três dos seus Poemas para ele emendar qualquer erro de interpretação. Prometeu então Camilo Pessanha escrever em cada noite dos nossos serões de família um ou dois dos seus Poemas, até juntar todas as suas obras poéticas». E assim Ana assume o encargo da publicação dos poemas que recolhera «e dos outros que deveria enviar e se esperaram durante quatro anos, sempre em vão». Ana de Castro Osório toma a iniciativa de publicar, há exatamente cem anos, em 1920, nas Edições Lusitânia, de que era proprietária, a Clepsidra.

 

UM VERDADEIRO SONHADOR
Em entrevista a Fernanda de Castro no “Diário de Lisboa” dirá: «De há muito conheço Camilo Pessanha. É um verdadeiro poeta e um verdadeiro sonhador. Mas é também um tímido e um misantropo». Não encontrava nele qualquer desejo de glória. E aí confessa como nasceu “Clepsidra”. “Sem dizer ao poeta os meus planos, pedi-lhe que fosse ditando versos seus, pois queria guardá-los num caderno. Camilo Pessanha ditou-me algumas belas poesias. (De facto foi seu filho o verdadeiro artífice). E foi assim que nasceu a sua Clepsidra”. Na última carta de Pessanha para Ana, de 3 de junho de 1921, o poeta agradece, aliás, tudo o que foi feito pela sua obra: «Acredite que foi das mais doces comoções da minha vida e da minha surpresa, ao ver assim evocada e acarinhada diante dos meus olhos a minha pobre alma – há tantos anos morta». Através de seu sobrinho António (seu pajem) é que Ana de Castro Osório reatou o contacto com Camilo Pessanha, numa ida deste ao Hotel Francoforte no Rossio, em 1915. No testemunho de António, temos recordação dos grânulos de ópio, que tomava nas deambulações de Lisboa e de como o poeta recitava nas ruas da cidade… «Camilo Pessanha possuía a musicalidade dos seus versos, como em estado natural. Da sua poesia, era ela a música essencial e suplicada. Recitando, dir-se-ia que acordara de uma abstrata melancolia para ser ele o choro, a tristeza, a emotividade e a dor dos seus próprios versos». Mas foi o ópio a danação do poeta. Ele fala mesmo de “tormento dessa horrível angústia fisiológica”. «O demónio da deceção foi realmente o demónio da sua vida, e não apenas o dos seus sonhos em Macau, com Ana próximo de si, em vez da pequenina Águia de Prata, que o enganava (e ele saberia?) e do “desgraçado filho”». José Régio disse que o poeta «da sua derrota fez o seu triunfo»… E António Osório afirma ainda que das histórias de amor contidas na Histórias Maravilhosas de Ana nenhuma é tão impressionante como esta – de que apenas há uma carta encantada e o silêncio sereno da nobreza íntima. E assim continuaremos a ouvi-lo: “Eu vi a luz em um país perdido / A minha alma é languida e inerme. / Oh! Quem pudesse deslizar sem ruído! No chão sumir-se, como faz um verme”… Ou “Temo de regressar… / E mata-me a saudade… / - Mas de me recordar / Não sei que dor me invade”… Na expressão de António Quadros este discípulo de Verlaine vive no íntimo a força musical da poesia: “Uma vida inteira de angústia e sofrimento para um minuto de luz, fora do tempo e do espaço? Tal a humana condição, tal a fortuna de um homem infeliz, tocado pelo génio da poesia”.

 

Guilherme d'Oliveira Martins
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A VIDA DOS LIVROS

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   De 6 a 12 de julho de 2020

 

A intervenção do Cardeal D. José Tolentino Mendonça no dia de Portugal, de Camões e das Comunidades Portuguesas, no Mosteiro dos Jerónimos, merece uma leitura muito atenta e uma reflexão séria.

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RECUSAR A IDOLATRIA DO TER
Como poderemos entender quem somos, de onde vimos, para onde vamos, sem compreender as raízes, a comunidade, as pessoas, o encontro das várias gerações, o enriquecimento mútuo das experiências e dos exemplos, a atenção e o cuidado com os outros e com o que nos cerca, a troca das aprendizagens, a dignidade do ser e a recusa da idolatria do ter? No recente discurso proferido por ocasião do dia de Portugal, a convite do Presidente da República, o Cardeal D. José Tolentino Mendonça recordou um ensaio de Simone Weil “destinado a inspirar o renascimento da Europa sob os escombros da Segunda Guerra”, onde afirma que “um país pode ser amado por duas razões, e estas constituem, na verdade, dois amores distintos. Podemos amar um país idealmente emoldurando-o para que permaneça fixo numa imagem de glória, e desejando quer esta não se modifique jamais. Ou podemos amar um país como algo que, precisamente por estar colocado dentro da história, sujeito aos seus solavancos, está exposto a tantos riscos. São dois amores diferentes. Podemos amar pela força ou amar pela fragilidade. Mas, explica Simone Weil, quando é o reconhecimento da fragilidade a inflamar o nosso amor, a chama desta é muito mais pura”. E aqui está a raiz do patriotismo e a diferença relativamente aos nacionalismos. Também Eduardo Lourenço tem insistido neste ponto, afirmando que mais do que a glória passada, importa considerar que, cada um, não sendo nem melhor nem pior do que outros, tem o dever de partir da imperfeição para o desafio emancipador e de superação das dificuldades (cf. Portugal como Destino). O amor do país, como patriotismo prospetivo, obriga, assim, à compaixão, como exercício efetivo de fraternidade (cuja importância Marcuse reconheceu a Habermas no leito de morte). Com base na compaixão é que importa ligar as raízes à vivência da comunidade. E a comunidade associa etimologicamente os dois termos latinos cum e munus. Trata-se de ligar um dever comum (munus) a uma tarefa partilhada. Nestes tempos de pandemia fica assim lembrada a primeira tarefa de uma comunidade: cuidar da vida. “Não há missão mais grandiosa, mais humilde, mais criativa e mais atual”. E Camões é recordado por Tolentino Mendonça – na referência à tempestade, que invoca a ideia de vulnerabilidade, “com a qual temos sempre de fazer conta”, já que as “raízes, que julgamos inabaláveis, são também frágeis, sofrem os efeitos da turbulência da máquina do mundo”. De facto, não há super-homens nem super-países, todos temos as nossas forças e as nossas feridas. E o certo é que a raiz da civilização é a comunidade.

 

O CERNE DO CONCEITO DE PATRIMÓNIO
Estamos no cerne da noção de património cultural, como realidade viva, por cuja defesa o diretor do Arquivo e Biblioteca do Vaticano foi reconhecido na atribuição do Prémio Europeu Helena Vaz da Silva 2020, da Europa Nostra, Centro Nacional de Cultura e Fundação Calouste Gulbenkian. Como salientou a esse propósito José Tolentino Mendonça, “a cidadania europeia é também uma cidadania cultural. E esta liga-se ao tesouro da memória, à pluralidade das tradições e raízes, que através das gerações alicerçam uma identidade e um quadro de valores onde nos reconhecemos. E desafia-nos a não fechar o património cultural no passado. O património cultural é um motor indiscutível do presente e só com ele podemos pensar que há futuro”. E, como disse Agostinho de Hipona, os tempos são três: “o presente das coisas passadas, o presente das coisas presentes e o presente das coisas futuras”. Essa tripla dimensão liga-nos às marcas da história. Daí que o prémio ponha a tónica no património como realidade viva e permanente, material e imaterial, natural e paisagístico, digital ou criação contemporânea, tendo sido anteriormente outorgado a Claudio Magris, Orhan Pamuk, Jordi Savall, Pantu, Eduardo Lourenço, Wim Wenders, Bettany Hughes e Fabiola Gianotti – e agora o júri afirmou-se impressionado com a capacidade que o premiado demonstra ao divulgar a Beleza e a Poesia como parte do património intangível da Europa e do mundo. “Queremos homenagear a sua arte de comunicar não apenas através da sua notável poesia, mas também dos seus artigos de opinião publicados na imprensa portuguesa e italiana. Hoje, quando a Europa e o mundo se confrontam com uma crise sem precedentes, precisamos de ouvir as vozes desafiadoras dos principais intelectuais e artistas”. No discurso dos Jerónimos, o Cardeal lembrou que as tempestades põem a céu aberto as nossas raízes. Daí que devamos construir um pacto comunitário que obrigue a robustecer um pacto intergeracional. Temos de pensar em quem nos antecedeu e em quem nos seguirá. “O pior que nos poderia acontecer seria arrumarmos a sociedade em faixas etárias, resignando-nos a uma visão desagregada e desigual, como se não fossemos a cada momento um todo inseparável: velhos e jovens, reformados e jovens à procura do primeiro emprego, avós e netos, crianças e adultos no auge do seu percurso laboral. Precisamos, por isso, de uma visão mais inclusiva do contributo das diversas gerações. É um erro pensar representar uma geração como um peso, pois não poderíamos viver uns sem os outros”. A aprendizagem é sempre partilha e troca e não podemos dispensar ninguém. E o orador recordou a sabedoria de sua avó, a comunicar, como os antigos aedos, a sabedoria ancestral dos cancioneiros e das tradições.

 

A ESSÊNCIA DA TRANSMISSÃO
A transmissão dos conhecimentos, como aconteceu com os poemas celebrizados por Homero, faz-se de geração em geração, não podendo ser perdida essa extraordinária capacidade renovadora. E o poeta recordou a antropóloga Margaret Mead a dizer, para surpresa dos seus interlocutores, que o primeiro sinal de civilização, não foi a pedra de amolar ou os recipientes de barro, mas um fémur quebrado e cicatrizado… Uma pessoa não foi deixada para trás sozinha”. Alguém a acompanhou na sua fragilidade, cuidou dela até que recuperasse e continuasse a ser útil. E, regressando ao canto VI de “Os Lusíadas”, disse-nos que “a tempestade não suspendeu a viagem, mas ofereceu a oportunidade para redescobrir o que significa estarmos no mesmo barco”. Afinal, Camões, poeta maior e símbolo de todos nós, invoca um país em viagem e foi mais longe, representando o país como viagem. E não nos ensinou ainda Eduardo Lourenço, que mais importante que o destino é a viagem? Esta a nossa marca! Como explica o poeta, ilhéu da Madeira, que não fora a pandemia deveria ter usado da palavra em cerimónia na sua terra natal, esta noção de viagem, ao encontro dos outros e de nós mesmos, torna-se uma espécie de “rasto de fulgor”, parafraseando Maria Gabriela Llansol, que exprime “a ardente natureza do sentido que interrogamos” porque uma grande viagem é como um grande amor, que permite entender, segundo Herberto Helder, “como pesa na água (…) a raiz de uma ilha”. E que é a vida senão esta compreensão?

 

Guilherme d'Oliveira Martins
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A VIDA DOS LIVROS

De 29 de junho a 5 de julho de 2020

 

“MRAR – Movimento de Renovação da Arte Religiosa – Os Anos de Ouro da Arquitetura Religiosa em Portugal no Século XX” de João Alves da Cunha (Universidade Católica Editora, 2015), põe-nos perante um movimento que contribuiu decisivamente para a necessidade de pôr a Arte Religiosa ao ritmo do nosso tempo. Publicamos esta nota em homenagem ao Arquiteto João de Almeida (1927-2020), que nos deixou há dias.


UM MOVIMENTO NECESSÁRIO
O arquiteto João de Almeida afirma, no prefácio do livro, que na sua génese a iniciativa foi designada propositadamente como movimento, em nome de uma dinâmica que era necessário pôr em prática. “O Movimento surgiu na sequência duma exposição organizada por um grupo de jovens arquitetos, artistas e estudantes, muitos destes ligados à Juventude Universitária Católica. Teve lugar em Lisboa em 1953, na Igreja de S. Nicolau, e seguidamente no Porto. Foi uma exposição didática e documental, fotográfica, em que mostrávamos o que era então a prática da arte e da arquitetura sacra na Europa Central em contraste com o que por cá se fazia”. Se o Cardeal Cerejeira tinha apoiado conceção e a realização da Igreja de Nossa Senhora de Fátima, em Lisboa (1938), do arquiteto Pardal Monteiro, com a participação de artistas modernos como Almada Negreiros, o certo é que houve depois um claro retrocesso nessa tendência que os jovens puseram em causa. Ainda segundo o aludido prefácio: “Para a realização da exposição (de 1953) contribuiu em larga medida o material” recolhido por João de Almeida “na Alemanha, em França e sobretudo na Suíça, onde durante mais de dois anos estagiara com Hermann Baur, consagrado profissional na área da arquitetura sacra”. O jovem arquiteto, que tinha formação teológica, viveu em Trier, onde estabeleceu contacto com o Instituto Litúrgico Alemão, então “na vanguarda da renovação das práticas rituais do catolicismo”. Por outro lado, conheceu bem a experiência dos padres dominicanos que dirigiam em Paris a prestigiada revista L’Art Sacré, “na vanguarda e na defesa intransigente duma modernidade sem cedências a estéticas passadistas”. A essa tendência deveu-se o projeto da célebre Igreja de Ronchamp de Le Corbusier e a encomenda da fachada da Igreja de Assy de Fernand Léger. Os autores da Exposição, com apoio da Igreja oficial, em especial do assistente da JUC, Padre Dr. António dos Reis Rodrigues, constituíram em 1952 o MRAR, Movimento de Renovação da Arte Religiosa, desde o início dirigido por Nuno Teotónio Pereira e “agregando numerosos membros e simpatizantes de diverso âmbito profissional: arquitetos, artistas, teólogos, museólogos, escritores (Vitorino Nemésio, inesquecível…)”.

 

A IDEIA DE RENOVAÇÃO
Para os fundadores, a designação de «movimento» exprimia o desígnio de “preparar e estruturar a mudança, criando as bases para uma renovação coerente e bem fundamentada da arquitetura e da arte sacras”. O método usado era o de uma criatividade partilhada, refletida e discutida, “sem que a criatividade e as características de cada um fosse prejudicada. (…) Se alguma coisa distinguiu o MRAR ao longo da sua existência, foi a recusa de vedetismos e a partilha das ideias e das soluções”. E assim o movimento deixou como herança o Secretariado das Novas Igrejas do Patriarcado de Lisboa, desde o início dirigido por Diogo Lino Pimentel. Constituíram o MRAR arquitetos recém-licenciados pela Escola de Belas Artes de Lisboa, mas também artistas plásticos e historiadores como Nuno Portas, Erich Corsépius, Luíz Cunha, António Freitas Leal, Manuel Cargaleiro, José Escada, Flórido de Vasconcelos, Madalena Cabral e Maria José de Mendonça, além dos referidos João de Almeida, Nuno Teotónio Pereira e Diogo Lino Pimentel. Outras exposições se seguiram, como as de Arte Sacra Moderna, ou de Paramentaria Moderna. Também foi criado um Boletim, publicado entre 1957 e 1967, e no estrangeiro houve repercussões do movimento português. Em 1964, a Fundação Calouste Gulbenkian, organizou a exposição “Novas Igrejas na Alemanha”, na Sociedade Nacional de Belas Artes, que tornou possível ao público português contactar com algumas das obras de referência que mais diretamente influenciaram e inspiraram as novas igrejas propostas pelos membros do MRAR. Infelizmente, a obra feita ficou aquém do que se esperaria quer por resistências culturais, quer por dificuldades económicas.

 

BELOS EXEMPLOS
Podemos referir os belos exemplos da Igreja de Santo António de Moscavide (1956, por João de Almeida e António Freitas Leal, com obras de Lagoa Henriques, José Escada e Manuel Cargaleiro), da Igreja Paroquial de Águas (1957, por Nuno Teotónio Pereira, com intervenção de Frederico George e obras de António Lino, António Luís Paiva e Euclides Vaz), da capela do Picote (1958, por Manuel Nunes de Almeida, com escultura de Barata Feyo) e da Igreja da Sagrada Família de Paço d’Arcos (1969, por João de Almeida). A obra maior do MRAR é a Igreja do Sagrado Coração de Jesus, em Lisboa (1970, por Nuno Teotónio Pereira e Nuno Portas), fruto de um concurso e debate público com resultados claramente positivos. O Concílio Vaticano II veio confirmar os objetivos e a dinâmica do MRAR, mas o impacto renovador do movimento foi-se reduzindo. No dizer de João Alves da Cunha: “Num tempo de forte secularização, o MRAR afirmou em Portugal um programa artístico, pastoral e circunstancialmente político que se constituiu como o melhor exemplo de intervenção religiosa e cultural de uma elite que operou uma efetiva renovação dos edifícios religiosos, bem como uma valorização das dimensões sociológica e antropológica dos espaços litúrgicos”. Infelizmente, o debate, o compromisso estético e teológico, bem como o método de diálogo e de partilha na arte e arquitetura religiosas preconizado pelo MRAR ao longo de cerca de duas décadas não tem tido continuidade nas novas gerações. Diogo Lino Pimentel tem razão ao dizer que “neste nosso tempo (passados mais de 50 anos) o ambiente tornou-se indigente, por um lado, e luxuosamente corrosivo, por outro. No meio persiste alguma anemia e tanto basta para justificar o insistente apelo do Papa Bento XVI em Lisboa ao convocar um encontro com a cultura e os artistas. (…) A cultura da ostentação e do espetacular não é certamente compatível com a igreja pobre e servidora..”.

 

Guilherme d'Oliveira Martins
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A VIDA DOS LIVROS

De 22 a 28 de junho de 2020

 

“Uma Voz na Revolução – Testemunhos e Causas” de Francisco de Sousa Tavares, com seleção de textos e introdução de Miguel Sousa Tavares (Clube do Autor, 2014) permite-nos recordar uma referência fundamental na democracia portuguesa e do Centro Nacional de Cultura.

 

UM CENTENÁRIO A LEMBRAR
Assinalamos o centenário de Francisco de Sousa Tavares, nascido a 12 de junho de 1920, e na sua pessoa lembramos uma componente fundamental da democracia que continuamos a construir no dia-a-dia - a independência de espírito. Fora de qualquer unanimismo, a sua atitude foi sempre autónoma, livre e própria. Desde muito cedo, acompanhei o seu percurso cívico e político, cultural e humano, e olhando para trás não esqueço como o seu pensamento e a sua coerência tiveram em mim influência significativa. Sendo meu avô monárquico e anglófilo, dois fatores que o levavam a recordar na história da nossa família, a marca indelével do constitucionalismo desde 1820, foi-me possível acompanhar através dos debates da época, muitas intervenções desassombradas de Sousa Tavares, contra as lógicas transpersonalista e totalitária, em nome da dignidade da pessoa humana. Recordo o que deixou escrito na I Semana de Estudos Doutrinários (Coimbra, 1960) ou o que se encontra evidenciado no livro do mesmo ano Combate Desigual (apreendido pela Censura logo na tipografia) de “uma luta ardente e incansável pela democratização do ideal monárquico”, mas também os documentos que subscreveu, em 1959, sobre as relações entre a Igreja e o Estado e a liberdade dos católicos e sobre os serviços de repressão do regime, bem como de outubro de 1965 – o célebre documento dos 101 católicos, em prol da democratização.

 

«DE MÃOS DADAS COM OS PERIGOS»
Como afirma o meu amigo Miguel Sousa Tavares: “Ele não nasceu politicamente em 25 de abril de 1974 e não morreu intelectualmente no dia seguinte. Estava antes e continuou depois – coisa que tantos oportunistas do 26 de abril jamais lhe perdoaram. A sua formação e o seu pensamento político não advinham nem de modas nem de adesão a movimentos coletivos e instantâneos de bem pensar – e, por isso, com inteira sinceridade e até inadvertida cautela, foi capaz de deixar escapar esta frase admirável: ‘Sempre me horrorizaram os que se servem da fé dos outros para negociarem o mundo’”. De facto, era um homem sem medo e com uma coerência, que tantas vezes parecia paradoxal. E o seu filho pergunta-se se essa ausência de medo não seria inconsciência. E lembra o belo poema de Sophia, que constitui o maior elogio a essa coragem determinada: “porque os outros vão à sombra dos abrigos e tu vais de mãos dadas com os perigos”. Não, não era inconsciência. Sabemos como fervia em pouca água. Mas também sabemos que acreditava no íntimo de si na força de ser livre e de crer na humanidade. Ele, no golpe da Sé (1959), fardado de oficial de Cavalaria para assaltar o regimento de Caçadores 5. E, no momento decisivo, empoleirado na guarita do Largo do Carmo em 25 de abril. Foi o único civil, “às horas ainda incertas da Revolução”, ao lado dos militares revoltosos da coluna de Salgueiro Maia. E quase se perdeu o que disse em poucas palavras com aquele megafone histórico. Pois bem, o que Francisco de Sousa Tavares afirmou naquela tarde de primavera, foi que ali acontecia o dia mais importante desde o Primeiro de Dezembro de 1640 e que caberia ao povo defender as promessas autênticas de liberdade e de cidadania. Mas, não podemos lembrar Francisco sem o Centro Nacional de Cultura, “palco privilegiado”, onde se bateu contra a resistência integralista, que durante anos, impediu o seu acesso a presidente. Mas, o Centro, “desde que consegui ganhar a eleição para presidente (1957), ocupou-me imenso tempo e abria as portas a grande parte da intelectualidade de Lisboa, sem que o núcleo inicial de fundadores deixasse jamais o seu rumo à deriva”. “Foi assim que consegui que na mesma sala se reunissem e discutissem personalidades tão frontalmente opostas como desde Henrique Martins de Carvalho – que como presidente da assembleia geral era um seguro de vida do Centro – a José Gomes Ferreira, a Fernando Namora, de Álvaro Ribeiro e António Quadros – que desapareceu há poucos dias (1993), deixando um rasto de saudade, pela sua doçura e urbanidade convivente – até à mocidade de então, que hoje são homens na pujança da vida, como Alexandre Bettencourt e Luís Coimbra, a Vasco Pulido Valente ou João Bénard da Costa”. Quando lemos os seus textos, primeiro reunidos por Maria Andresen Sousa Tavares e revistos por Miguel Lobo Antunes em dois volumes preciosos (Escritos Políticos) e depois antologiados em Uma Voz na Revolução – Testemunhos e Causas (2014) por Miguel Sousa Tavares, descobrimos a força dos ideais que o animavam. “A esquerda, a verdadeira esquerda, não aceita receitas; inventa, descobre, luta e vive. Senão é um cadáver” (1976).

 

UMA VONTADE VIÁVEL
E importava acreditar num Portugal de vontade e viável: “Para que Portugal seja viável é necessário que exista um futuro para os portugueses na terra que lhes cabe” (1977). Como disse em relação ao seu amigo Jorge de Sena: “odiava o dogmatismo, as seitas, os ‘conluios da mediocridade’, que denunciava com um vigor contundente” (1978). E deste modo afirmava, com determinação: “Eu, por mim, sustento há muitos anos que a mentira, a manobra, o oportunismo não são virtudes políticas e acabam por ter um preço muito caro. E que, como alguém disse, a política é, quer queiram quer não, um capítulo da moral, Desde Aristóteles” (1979). Todos quantos o conheceram sabem que nenhuma destas palavras era para si vã. O seu patriotismo prospetivo, em vários momentos afirmado e repetido com especial veemência, pressupunha que “Governar não é gerir o passado, nem remediar o presente, é construir e moldar uma conceção imaginativa do futuro. Essa conceção é a força e a alma de um Governo” (1980). Mas a Administração Pública continuava a sofrer dos males fundamentais como “a burocracia, a irresponsabilidade e a centralização do poder de decisão”, a que se somavam a quebra da dignidade da carreira pública e a instabilidade das funções (1982)… Mas, no essencial, “a primeira obrigação do Estado” deveria ser a “defesa e a realização da liberdade. Não a liberdade de uma ideia, de um partido ou de um esquema de poder. Mas a liberdade de cada homem e de todos os homens, o total respeito pelas ideias, pelas crenças e pela dignidade da pessoas humana em face do Estado” (1983)… Se lermos com atenção os seus textos, fácil é descobrir não apenas a atualidade e pertinência, mas sobretudo a preocupação de assegurar que a democracia, aceitando a imperfeição, teria sempre de se comprometer no sentido de ser melhor, de representar os cidadãos e de defender o bem comum.

Como afirmou António Barreto no prefácio ao segundo volume dos Escritos Políticos: “Diletante, como, com desgosto, se afirmava (dizia que era o seu principal defeito), mas um grande diletante, frequentemente exaltado, tinha a nostalgia dos cavalos e da vela, que praticara na juventude. Jogava bridge com pertinácia, interessava-se pela cultura em geral, viajava por desfastio, procurava o mar e o sol, estudava com curiosidade, lia com afinco e sem constancia, conspirava, advogava sem método, fazia jornalismo sem cartão profissional (…) e tinha uma verdadeira paixão, a política”. Muito mais do que diletante, porém, era um apaixonado da vida. Sem a sua determinação, o Centro Nacional de Cultura, por exemplo, não se teria tornado o lugar marcante que pôde ser!...

 

Guilherme d'Oliveira Martins
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A VIDA DOS LIVROS

De 15 a 21 de junho de 2020

 

“Evocação de Sophia” de Alberto Vaz da Silva (Assírio e Alvim, 2009) é a última das obras deixada por uma das referências essenciais do Centro Nacional de Cultura. Referimos a obra, como homenagem a Sophia, ao seu autor e ainda a Maria Velho da Costa.

 

A IMPORTÂNCIA DA MEMÓRIA
Naquela noite de sábado, depois de comemorar, à distância, com Amesterdão, os sete anos de um neto, feliz numa celebração auspiciosa, veio a notícia, entre os alertas que as novas tecnologias trazem, da morte de Maria Velho da Costa. Era uma amiga de confiança, Margarida Gil, que dava a notícia inesperada. Nessa tarde, falara com o Eduardo Lourenço, para lhe dar um abraço pelas suas noventa e sete primaveras, e estava longe de pensar que à noite iria relembrar as palavras premonitórias do seu prefácio a Maina Mendes, onde a personagem feminina emblemática simbolizava na mudez, a mudez de uma sociedade e a exigência de libertação de constrangimentos arcaicos. E relembrei as palavras do ensaísta, a ligarem a mestria literária e o grito de alerta humano… “É na trama de uma escrita densa e plural, de um virtuosismo sem exemplo entre nós, que Maina Mendes se encontra escrita e dispersa em múltiplos perfis, ‘puzzle’ voluntário organizado do interior (ou do lado invisível da trama) pela pressão uniforme do mundo recusado, mundo masculino, onde ele é a voz silenciada, negada ou submersa que se recusa à afonia definitiva”… E o certo é que para o ensaísta ninguém dos contemporâneos “redistribui com tanto sucesso as experiências mais criadoras da prosa portuguesa, de Fernão Lopes a Guimarães Rosa, paisagens atravessadas e recriadas, a par de outras, com uma originalidade absoluta”. Fui encontrando Maria Velho da Costa em diversos momentos e de diversas maneiras: antes do mais, na minha adolescência de leitor a acompanhar a geração de “O Tempo e o Modo”. Não esqueço a tradução de Opressão e Liberdade de Simone Weil, por Maria Velho da Costa para o Círculo do Humanismo Cristão da Morais – como Maria de Fátima Sedas Nunes – num texto significativamente encimado por duas citações, de Espinosa e de Marco Aurélio. Do primeiro: “No que diz respeito ao homem, nem o riso, nem as lágrimas, nem a indignação, mas o entendimento”. Do Imperador romano: “O ser dotado de razão pode transformar todo o obstáculo em matéria de trabalho, e dele tirar partido”. E aí Simone Weil partilha uma experiência espiritual emancipadora. Depois fui lendo e acompanhando os lídimos combates pela liberdade de ideias e de escrita – ao lado de duas outras amigas Maria Isabel Barreno e Maria Teresa Horta… No final dos anos setenta, encontrámo-nos numa singular experiência com Maria de Lourdes Pintasilgo, Teresa Santa Clara Gomes e Helder Macedo. Fomos tendo contacto e lendo com gosto e interesse a sua obra, num sentido seguro de maturidade. Casas Pardas (1977), Lúcia-lima (1983), Missa in Albis (1988), Dores (1994)… Quando estava no Ministério da Educação, tive a honra de poder contar com a sua colaboração no meu gabinete, num projeto, em que pus especial empenhamento, de escritores e artistas em contacto com as escolas. Nada melhor do que garantir uma aprendizagem viva, baseada no contacto dos estudantes com os nossos melhores no domínio da criação. A ideia nasceu uma noite no ateliê da Graça Morais na Costa do Castelo – e contou ainda com Lídia Jorge, João de Melo, Gastão Cruz, Paulo Teixeira. No projeto também se integraria Maria Velho da Costa, num tempo em que Maria Isabel Barreno representava o Ministério da Educação em Paris (no que foi uma colaboração muito profícua designadamente com Jack Lang). Nesse sábado, dia 23 de maio, em que a notícia infausta veio, dei-me a lembrar esse tempo e a nossa última conversa telefónica, em que Maria Velho da Costa me pediu desculpa por não poder corresponder a um convite para falar numa sessão pública, por se sentir muito cansada…

 

UM DIÁLOGO APAIXONANTE
Devo recordar, ainda, graças ao meu querido e saudoso Alberto Vaz da Silva, a lembrança de Sophia de Mello Breyner, a propósito de duas luminosas conferências feitas por ele no Centro Nacional de Cultura, no Porto e em Lisboa, que a Assírio e Alvim publicou, com o título Evocação de Sophia (2009), tendo na capa uma inesquecível fotografia de Sophia no Templo de Diana em Évora, da coleção de Alberto Lacerda e Luís Amorim de Sousa. Maria Velho da Costa fez um extraordinário prefácio, onde Sophia nos é apresentada, tal como era, num diálogo tocante que tanto nos sensibiliza, sobretudo escrito num tom que faz a prova do que Eduardo Lourenço premonitoriamente referiu a propósito de Maina Mendes. “Falávamos de noite, no alpendre quase morno, sem tom nem som. Nenhuma das duas era desesperadamente musical. Não havia música nem nos fazia preciso. Falávamos mais de todos do que de tudo; do tudo eram a arte e a poesia – nem política, nem mundos a mudar. Não era a prudência de pertencermos a fações políticas diferentes. Era a força da indiferenciação da noite, quando as mulheres falam. Falávamos de amores, de filhos. De amigos e desamigados. Desse mundo ginecêutico e caótico, onde tínhamos ambas de manter aparências. Brilhávamos na meia obscuridade como as estrelas que se viam no céu limpo, mortais e imortais, passe a solenidade. Porque não éramos solenes. (…) As estrelas reuniam-nos e aplacavam-nos, debaixo do alpendre de heras onde ressuscitavam as osgas do torpor do inverno. – Eu chamo-lhes Olgas, Sophia. Comem mosquitos e limpam o ar de moléstias. – Ah, Maria, dar um nome a um bicho é cativá-lo. É perigoso. Não se pode nomear um vírus, uma bactéria, um micróbio. Um cancro. Ia e vinha e perguntava a cada coisa que nome tinha. Não é verdade, respondeu ela quando a citei. Não é verdade, a poesia não pode tudo, a poesia não pode nada. Não pode nomear o mal”…


Estamos a vê-las, conversando serenamente, na quietude de uma noite algarvia. A lembrarem a astrológica injunção: Ó polvo, ó caranguejo, ó peixe. E a Menina do Mar a dizer, “A minha terra é o mar”. Mas também fica na nossa retina a imagem do percurso matinal, “nesses dias rosados de Primavera na casa da Meia Praia”: “Seguíamos, a praia estava a metros, por um carreiro de terra argilosa, ela à frente, naquele passinho andarilho, até estacar e deixar-me acudir. É que ao longe, ouvia-se o latir dos cães vadios ou soltos, a aproximar-se. Eu enxotava-os, sem pau, de manso, Vão, vão para casa, vão embora. Eles não iam, mas estacavam também, fitos, a ver-nos ir pesarosos. – A Maria parece a Diana, a dos romanos. Olha para os cães e eles ficam com cara de pessoas…”. O diálogo entre Sophia e Maria era a modos que uma projeção do Olimpo no nosso mundo. E isso torna-se evidente quando Maria recorda que um neto seu se assustou quando ela lhe recordou uma passagem belíssima de Sophia: Quando eu morrer voltarei para buscar / Os instantes que não vivi junto do mar”. A criança disse: “Que horror! Um fantasma na praia. - Não é. É o que disse a Menina do Mar, uns tempos que teve de viver cá fora. - Ah. Prontos. Está bem então, avó. - É um fantasma lindo que cabe na palma da mão. Pois é. Na mão do coração”. Maria Velho da Costa trouxe-nos na sua obra algo que nos permite compreender o mundo à nossa volta com gente de carne e osso, demonstrando, como fez em Myra (2008) “que há sempre uma ponta de paraíso, um véu de clemência que estende uma ponta, fugaz que seja”…

 

Guilherme d'Oliveira Martins
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A VIDA DOS LIVROS

De 8 a 14 de junho de 2020

 

Frei Henrique Pinto Rema, O.F.M., foi quem permitiu ao mundo conhecer melhor Santo António de Lisboa (c.1195-1231), proclamado Doutor da Igreja Universal, através da Carta Apostólica do Papa Pio XII - «Exulta Lusitania Felix». Na semana em que celebramos 789 anos da morte do Santo, recordamos o labor extraordinário do seu biógrafo.   

 

DOUTOR DA IGREJA
Não há palavras para agradecer o trabalho do Padre Pinto Rema. Sobre Santo António falamos da personalidade que levou mais longe a cultura portuguesa – ainda que, infelizmente, a sua obra seja pouco conhecida, apesar da sua riqueza. A cultura erudita ignorou a figura de Santo António de Lisboa durante muitos séculos, esquecendo a riqueza do seu pensamento e o papel fundamental que desempenhou no franciscanismo. O ano de 1946 e a proclamação do Santo de Lisboa e de Pádua como Doutor da Igreja foi um marco fundamental para lançar luz sobre a sua figura. Contudo, não foram portugueses os pioneiros na descoberta de tão importante figura da cultura europeia. Foram Cantini, Scaramuzzi e Heerinkx que começaram a dar uma especial atenção à obra deste português que se tornou elemento crucial na organização da Ordem dos Frades Menores, por indicação expressa de S. Francisco de Assis. De facto, estamos perante o prenúncio do papel que irá ser desempenhado na história da Ordem dos Frades Menores por S. Boaventura – o grande teólogo. De facto, muitos dos temas aprofundados mais tarde são indicados muito cedo nos Sermões do português. Falando ainda de Santo António, anote-se que a primeira impressão dos Sermões coube ao labor de Iadoco Badio Ascensio, em 1520. Há, no entanto um contraste entre a grande popularidade do taumaturgo, pela enorme fama granjeada em Itália, em Portugal e por toda a Europa, e o conhecimento da sua obra e da sua importância. Aliás, só em 1970 surgiu em português a primeira tradução integral da sua obra, graças à iniciativa e à persistência do Padre Henrique Pinto Rema, O.F.M.. Apesar de tardiamente, encontramos entre os portugueses, alguma atenção relativamente recente – João Ameal, Padre Domingos Maurício, S.J., Joaquim de Carvalho, Sousa Monteiro, mas sobretudo Francisco da Gama Caeiro e Maria Cândida Monteiro Pacheco (autora de «Santo António de Lisboa – A Águia e a Treva», INCM, 1986), além de Pinto Rema. Apesar de uma tão pouco compreensível desatenção, não há dúvidas de que Frei António é uma referência indiscutível na afirmação da cultura portuguesa desde muito cedo depois da Reconquista cristã e da criação do reino independente. Com razão, Jaime Cortesão refere o papel fundamental do franciscanismo na História da gesta portuguesa. Outros autores insistem nesse ponto, invocando expressamente o papel desempenhado por Frei António, como Agostinho da Silva e António Quadros.

 

DE AGOSTINHO A FRADE MENOR
Fernando Martins, também conhecido como Fernando de Bulhões, nasceu em Lisboa, onde iniciou a sua formação com os Cónegos Regrantes de Santo Agostinho, no Convento de S. Vicente de Fora, no qual esteve dois anos incompletos, partindo depois para Santa Cruz de Coimbra, onde estudou na mesma Ordem durante cerca de oito a nove anos. Fazia-se sentir a decisiva influência do primeiro Prior, S. Teotónio, braço direito do nosso primeiro rei. O prestígio académico de Coimbra precedeu, assim, o funcionamento do Estudo Geral, podendo dizer-se que a qualidade reconhecida ao futuro santo português é a demonstração da grande pertinência do ensino ministrado. Nesta fase da formação, notamos um especial apego à Regra de Santo Agostinho, a partir de três princípios: obediência, humildade e caridade. Todavia, esta sólida e completa formação teológica não vai impedir que espiritualmente Fernando se vá aproximando da força inovadora das novas ordens mendicantes, através de uma mística centrada na pobreza, o que o levará de Santa Cruz até ao eremitério dos Olivais, ainda em Coimbra, sob a nítida influência do «Poverello» e da trágica memória dos mártires de Marrocos, apesar de adotar o exemplo de Santo Antão. E assim encontramos a vasta cultura agostiniana transmutada para o ideal franciscano, o que leva o agora frei António até Itália. Quando S. Francisco de Assis conhece o português e verifica qual é o seu carisma e a solidez dos seus conhecimentos, incumbe-o do ensino da Teologia aos frades menores – numa carta fundamental, que a moderna historiografia considera autêntica. Estamos perante uma ligação teológica da maior importância, centrada no agostinianismo, que articula intelectualismo e misticismo no entendimento da Teologia como ciência prática – acentuando o papel da vontade e a necessária articulação de uma sensibilidade claramente aberta ao mundo e à singularidade pessoal, num horizonte global. Nesta perspetiva, o pregador afirma-se com um indiscutível carisma, que S. Francisco considera ser fundamental para a afirmação e consolidação dos Frades Menores, usando o método da pregação em que os dominicanos se haviam celebrizado e diferenciado. Quando nos confrontamos com o magistério de Frei António, verificamos serem os «Sermões Dominicais e Festivos» aqueles que constituem o núcleo autêntico de uma notável produção.

 

O OLHAR DO CORAÇÃO…
O que caracteriza a criação de Frei António? Textos impregnados de citações bíblicas, pressupondo um conhecimento exaustivo das Escrituras e uma memória prodigiosa e invulgar, capaz de garantir a sua articulação no sentido de uma pregação motivadora. E os autores citados confirmam e reforçam a solidez da fundamentação: Santo Agostinho, S. Bernardo, S. Hugo, Ricardo de S. Vítor, além de Orígenes e Gregório de Nissa. O naturalismo e o humanismo encontram-se numa «síntese dinâmica» entre a influência do autor de «Confissões» e a vocação do cultor de uma fraternidade assente na pobreza e na ligação à Natureza. É a edificação das Almas que está em causa. De entre os temas místicos, destacam-se o sentido da humildade, a discrição, a sublevação e a alienação, bem como os das asas, do voo da alma, a transmutação dos sentidos espirituais, o significado do «oculus cordis» (o olhar do coração), do «intuitus», e sobretudo a articulação mística da nuvem, da treva e da noite, num sentido que aproxima Santo António da mística peninsular de Santa Teresa de Jesus e de S. João da Cruz. Diz-nos o franciscano: «o ferreiro, assim chamado por fazer ferro, é o pregador da Santa Igreja, que fabrica armas espirituais. Tem de sentar-se junto da bigorna, que é o estudo e o exercício da Sagrada Escritura, a fim de se exercitar naquilo que prega… Também os pregadores devem primeiro exercitar-se no ar da contemplação com o desejo da felicidade celeste, para depois mais avidamente serem capazes de alimentar-se a si e aos outros com o pão da palavra de Deus». Nesta passagem, é o método de Frei António que surge definido, tendo suscitado o completo apoio de Francisco de Assis. E a ideia surge reforçada e clarificada: «Que alegria maior pode existir no espírito do homem do que estar diante dEle, pelo qual e no qual tudo o que existe verdadeiramente existe, sem o qual tudo o que parece existir nada é, e tudo o que abunda é pobreza?». Aqui encontramos a chave da originalidade franciscana – na procura da dignidade pessoal, no sentido da fraternidade, na troca de dons, na vivência espiritual da pobreza, na compreensão do outro, na procura de tudo o que a irmã Natureza tem para nos dar e nós para lhe atribuir… Mas os Sermões de Santo António, longe da abstração, contêm um voz severa e crítica contra os falsos profetas, os hipócritas, os padres avarentos, os prepotentes, os ladrões, os luxuriosos, os bispos indignos, os monges que fazem do deserto um palácio, do claustro um castelo, da solidão uma corte real – e ainda os leigos presos de todos os vícios… Sem eufemismos, Frei António põe cada um perante as suas responsabilidades, exigindo aos cristãos que saibam dar o exemplo… Frei Henrique Pinto Rema revelou-nos esta preciosidade!  Bem haja!  

 

Guilherme d'Oliveira Martins
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A VIDA DOS LIVROS

De 1 a 7 de junho de 2020

 

Maria Velho da Costa, designadamente em “Casas Pardas” (1977) e “Myra” (2008), é uma das escritoras da segunda metade do século XX que melhor contribuiu decisivamente para a renovação da língua e da literatura portuguesa pela valorização da palavra.

 


UM MODO ESPECIAL DE ESCREVER
Se eu escrevesse de escrever não escreveria para ser entendida. Há para isso correios, telégrafos, até falar” – é Maria Velho da Costa quem o afirma no início de Cravo (1976)De facto, se há escritora contemporânea que pretende escrever mais do que simplesmente escrever é a autora de Missa in Albis (1988). E escrever de falar é, no fundo, cuidar da palavra no sentido de ser entendida. Por isso, Maria Velho da Costa era apaixonada pelo falar comum, como daquele homem em Santa Apolónia que explicou de onde e como chegava o próximo comboio. A língua é essencial para a afirmação das identidades, mas também para enriquecer, pelo diálogo, as culturas e civilizações. É verdade que os povos primitivos criaram diferentes línguas para poderem preservar os seus segredos, mas sem novos vocábulos e novas experiências as línguas esmorecem. Germano Almeida diz-nos que tem duas línguas, sendo a primeira o crioulo. “Nós em Cabo Verde devemos estar preocupados com o uso da língua portuguesa. É isto que tento transmitir. Temos de dominá-la bem, porque nos põe em contacto com o mundo. A língua cria proximidades. Eu quero transmitir a cultura cabo-verdiana, a vivência cabo-verdiana em português. Posso dizer que é uma língua estranha. Utilizo-a como uma ponte entre culturas”. Segundo Ivo de Castro, “a história da língua portuguesa pode ser resumida numa frase: falamos uma língua que nasceu fora do nosso território e cujo futuro será em larga medida decidido fora das nossas mãos. A língua portuguesa, numa visão temporal ampla, acha-se de passagem por Portugal”. Quando falamos da língua portuguesa, consideramos uma longa história a partir do galaico-português, referimos uma língua antiga, que cedo alcançou uma assinalável maturidade, certamente em virtude do rei D. Dinis, na linha de seu avô Afonso X, o Sábio, tê-la tornado cedo língua dos tabeliães em lugar do latim, o que favoreceu a afirmação do idioma como modo de comunicar do povo e dos letrados. E é importante deixar claro que, de facto, o português ou o espanhol nunca foi dialeto um do outro, sem prejuízo de um encontro entre ambos por volta de 1400, no momento do ofuscante esplendor da cultura vizinha. A partir da matriz galega, temos uma diversidade de influências, como dos moçárabes, principal veículo transmissor de um grande número de vocábulos árabes para o nosso léxico pela parte bilingue da população, além dos caracteres próprios adquiridos com a cultura quinhentista. Quando hoje relemos os “Cantares Gallegos” de Rosalia de Castro (1863) depressa nos apercebemos de onde vimos como língua. “Minha terra, minha terra / Terra donde m’eu criei, / Hortinha que quero tanto, / Figueirinhas que prantei. // Prados, rios, arvoredos, / Pinares que move ó vento, / Passarinhos piadores, / Casinha do meu contento…”.

 

LÍNGUA DE VÁRIAS CULTURAS
Como disse Rui Knopfli, a língua tenderá a ser um denominador comum de vários espaços africanos, asiáticos, brasileiros, europeus numa espécie de “pátria coincidente”. E para compreender, basta lermos a literatura da língua portuguesa contemporânea. Cultura de várias línguas. Língua antiga, língua moderna sempre em movimento. Lemos Camões na lírica e é nosso contemporâneo: “Descalça vai para a fonte, Leonor pela verdura / vai formosa e não segura…”. Ouvimos Vieira, e está ao nosso lado: “Arranca o Estatuário uma pedra dessas montanhas, tosca, bruta, dura, informe…”. Encontramos Manuel Bandeira: «A vida não me chegava pelos jornais nem pelos livros / Vinha da boca do povo na língua errada do povo / Língua certa do povo / Porque ele é que fala gostoso o português do Brasil»… O Dia Mundial da Língua Portuguesa, este ano comemorado pela primeira vez a 5 de maio, é uma responsabilidade de todos. O Embaixador António Sampaio da Nóvoa salientou-o melhor que ninguém no seio da UNESCO. E se falamos de uma língua viajante com presença em todos os continentes, temos de lembrar Eduardo Lourenço a dizer: “mais importante que o destino é a viagem”…

 

O CENTRO DA PALAVRA…
Há dias, deixou-nos Maria Velho da Costa. É uma das grandes escritoras contemporâneas (sobretudo quando fala em desescrever). Maria Velho da Costa trouxe-nos na sua obra algo que nos permite compreender o mundo à nossa volta com gente de carne e osso, demonstrando, como fez em Myra (2008) “que há sempre uma ponta de paraíso, um véu de clemência que estende uma ponta, fugaz que seja”… Se falamos da língua portuguesa, temos de afirmar que para a autora de Maina Mendes (1969) e de Casas Pardas (1977) antes da literatura está a força da palavra. Quando a lemos, entendemos bem como uma língua viva se centra na força e na vitalidade da expressão. Por isso, em sua homenagem, citamos o testemunho da sua amizade com Sophia de Mello Breyner. “Falávamos de noite, no alpendre quase morno, sem tom nem som. Nenhuma das duas era desesperadamente musical. Não havia música nem nos fazia preciso. Falávamos mais de todos do que de tudo; de tudo eram a arte e a poesia – nem política, nem mundos a mudar. Não era a prudência de pertencermos a fações políticas diferentes. Era a força da indiferenciação da noite, quando as mulheres falam. Falávamos de amores, de filhos. De amigos e desamigados. Desse mundo ginecêntrico e caótico, onde tínhamos ambas de manter aparências. Brilhávamos na meia obscuridade como as estrelas que se viam no céu limpo, mortais e imortais, pese a solenidade. Porque não eramos solenes (…) As estrelas reuniam-nos e aplacavam-nos debaixo do alpendre de heras, onde ressuscitavam as osgas do torpor do inverno”… Maria Velho da Costa representa uma relação única com a criação literária, preocupada com o modo de comunicar a vida, mais do que cuidar do tratamento formal. O seu inconformismo e as aproximações a Agustina e Nuno Bragança estão bem presentes na obra romanesca e ensaística. E assim procura ligar pessoas e acontecimentos a uma reflexão emancipadora. Estamos perante uma escritora que desde cedo se foi revelando como uma extraordinária cultora da renovação da língua – desde logo na tradução, sendo exemplar o modo como tratou a riqueza espiritual de Simone Weil… Tem, pois, razão Luísa Costa Gomes quando insiste no facto de estar bem viva a escritora, sendo a melhor homenagem a fazer-lhe a sua leitura.

 

Guilherme d'Oliveira Martins
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