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Blogue do Centro Nacional de Cultura

Um espaço de encontro e de diálogo, em defesa de uma cultura livre e pluridisciplinar. Estamos certos de que o Centro Nacional de Cultura continuará, como há sete décadas, a dizer que a cultura em Portugal vale a pena!

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A VIDA DOS LIVROS

De 19 a 25 de agosto de 2019

 

«Abécédaire de Raymond Aron» (Éditions de l’Observatoire, 2019) acaba de ser publicado por Dominique Schnapper e Fabrice Gardel. Trata-se de pequeno volume em forma de Dicionário que faz uma seleção de fragmentos importantes da obra do autor francês.

 

 

TEMPOS OBSCUROS
Na apresentação do livro, é recordada uma carta de Romain Gary (1914-1980), três dias antes de se suicidar, onde faz uma apreciação justa e atual sobre a importância de Aron no pensamento democrático europeu: “Caro Raymond Aron, o seu espírito sublinha tão bem estes tempos obscuros, que somos levados por vezes a crer, quando o lemos, na possibilidade de uma saída e da existência de um caminho. Raros são os casos em que um pensamento encontra um carácter”. Nos dias de hoje a apreciação ganha evidente sentido – numa Europa descrente de valores, onde a violência, o ódio, o medo do outro parecem vencer, torna-se necessário pensar caminhos novos que impeçam o desastre. O insulto substitui o diálogo democrático. Em vez de tempo e de reflexão preferem-se mensagens de poucas palavras e suposto efeito imediato. E no entanto a democracia obriga à ponderação da liberdade individual, à consideração do pluralismo e da diversidade, à complexidade e à aceitação da imperfeição humana e da exigência de tirar lições dos erros. Daí a importância de Montesquieu e de Tocqueville, que não apresentam soluções fechadas e definitivas e apelam constantemente à ponderação das diversas legitimidades. Que são as redes sociais hoje senão circuitos fechados, que não criam compromissos de abertura? Daí a obsessão de Aron pelo gosto da verdade, pela detestação das notícias falsas (fake news) e das meias verdades, e pelo apego às instituições democráticas (o pior dos regimes à exceção de todos os outros). Recentemente, entre nós, Carlos Gaspar em Raymond Aron e a Guerra Fria (Alêtheia, 2018) e Álvaro Vasconcelos em 25 de Abril no Futuro da Democracia (Estratégias Criativas, 2019) deram-nos retratos impressivos de Raymond Aron e da sua reflexão, demonstrando como o tempo deu razão ao pensador, a ponto de hoje merecer especial atenção o modo como analisou a construção da democracia e a defesa dos direitos humanos, num contexto de equilíbrio de forças e de influências, de institucionalização de uma cidadania ativa e de criação de mediações eficientes no sentido de uma cultura de paz.

 

RESPEITAR AS INSTITUIÇÕES
Dominique Schnapper é filha de Raymond Aron e recorda, nos dias de hoje, como a democracia representativa mantém atualidade, contra todas as formas que se traduzem numa verdadeira contradição nos termos, a que se chama “democracia iliberal”. É preciso, de facto, dizer com todas as letras que essa realidade não é senão um regime autoritário. “Ser democrata é respeitar as instituições democráticas. E a crise que se manifesta sob formas diversas em alguns países europeus reflete o questionamento da legitimidade do voto e das instituições” (El Pais, 21.7.19). Mas não se pense que a “democracia representativa” é uma realidade fechada – é, sim, um modo aberto de organização política, que tem de ser completado com mediação, com melhor participação, com legitimidade de exercício, com partilha de responsabilidades e com subsidiariedade. Uma democracia abstrata e absoluta não pode existir, pelo contrário quando procura afirmar-se destrói a democracia concreta, como temos visto. Veja-se o caso dos referendos: “os referendos contínuos fazem com que os países complexos se tornem totalmente ingovernáveis. Significa que num momento de emoção toma-se uma decisão”. E o que acontece? Ela é imponderada, imediatista e esquece os fatores essenciais. E Dominique Schnapper lembra o exemplo do “Brexit”. O referendo dividiu a sociedade britânica a meio, e esse impasse não oferece soluções, capazes de salvaguardar o interesse geral. E note-se que, feito o mal inicial, não há possibilidades de encontrar uma solução que não continue a manter a sociedade dividida e fragmentada. É uma ilusão pensar-se que o povo, como abstração, governa – quem governa são os cidadãos organizados. Se a representação não é respeitada entramos no caos. Se, por absurdo, criássemos um sistema de decisão eletrónica imediata e instantânea, criaríamos uma monumental máquina de condicionamento, ou seja, a tirania do número, centrada no condicionamento pavloviano. As decisões fundamentais exigem ponderação, tempo, reflexão. Daí a importância das legitimidades do voto e do exercício. A sociedade complexa obriga à partilha de responsabilidades e de soberanias.

 

DEMOCRACIA CONTRA O CAOS
“Temo que em nome da democracia se instaure um caos, e um caos sempre acaba com governos autoritários ou totalitários” – diz-nos ainda D. Schnapper. Não significa isto que não devamos ter a ambição de aperfeiçoar o sistema. Chantal Mouffe fala de um novo populismo. Leia-se com atenção o que nos diz. É preciso evitar todas as armadilhas que a ausência de “checks and balances” pode conter. É preciso dar resposta aos cidadãos, recusando, no entanto, o tudo, para todos, ao mesmo tempo e já, que significa o caos acima referido. A chave está na criação de mediações eficazes, quando o Estado se tornou grande e pequeno de mais. O Estado-nação está vivo e não pode ser ignorado, mas nem tudo depende dele. Voltando ao caso britânico, veja-se que os efeitos do “Brexit” podem pôr fim ao Reino Unido – e isso será sempre mau para todos. E o mundo de “polaridades difusas” não pode funcionar segundo o método do “salve-se quem puder”. A ordem internacional definida em 1945 deveu-se à grande tragédia suscitada pelos erros de Versalhes em 1919. E o certo é que, por falta de memória, estamos a regressar à lógica da humilhação e do medo das diferenças que libertou todos os fantasmas dos anos trinta… Tragicamente, “a ideia de que todo o mundo aceitará a democracia, que é uma questão de tempo e que não há outra ideia que se lhe oponha acabou. Os chineses contrapõem outra ideia, Orbán tem outra”… Raymond Aron no seu Essai sur les libertés (1965), onde se encontram as conferências proferidas em Berkeley, pôs a tónica na síntese necessária de duas formas de liberdade: o domínio da autonomia deixado aos indivíduos e os meios que o Estado dá aos mais frágeis económica e socialmente, a fim de que possam exercer os direitos que lhes são reconhecidos. “E as democracias modernas não ignoram nem a liberdade de escolha, nem a liberdade-capacidade, uma assegurada pela limitação do Estado, a outra pelas leis sociais. Nos seus melhores momentos, as sociedades ocidentais parecem concretizar esse compromisso exemplar”. Percebemos que é esta síntese que alguns põem em causa e que não pode ser esquecida. As duas formas de liberdade são incindíveis – o que nos obriga a concordar com a liberdade igual e a igualdade livre, contra o igualitarismo, e a compreender que o pensamento político é versátil, mas nunca deve esquecer o primado da dignidade humana…   

 

Guilherme d'Oliveira Martins

A VIDA DOS LIVROS

De 12 a 18 de agosto de 2019

 

“Muitas e muito estranhas que viu e ouviu” (Biblioteca Nacional de Portugal, 2016) de João José Alves Dias é o guia da exposição sobre o primeiro século de edições da “Peregrinação de Fernão Mendes Pinto”.


UM SUCESSO EXCECIONAL
Falamos de um caso excecional de sucesso internacional de um livro português. Trata-se da “Peregrinação”. Pode afirmar-se que a “Peregrinação” de Fernão Mendes Pinto (c. 1510-1583) põe-nos perante uma narrativa moderna e uma verdadeira personagem romanesca, que assume diferentes acontecimentos e até personalidades, mas que descreve de um modo notabilíssimo, o que era a vida de um português no Oriente – mercador, missionário, soldado, corsário, marinheiro, diplomata... O próprio título com que a obra foi publicada dá-nos bem a evidência da riqueza e complexidade do relato. "Peregrinaçam de Fernam Mendez Pinto em que da conta de muytas e muyto estranhas cousas que vio & ouvio no reyno da China, no da Tartaria, no de Sornau, que vulgarmente se chama de Sião, no de Calaminhan, no do Pegù, no de Martauão, & em outros muytos reynos & senhorios das partes Orientais, de que nestas nossas do Occidente ha muyto pouca ou nenhua noticia. E também da conta de muytos casos particulares que acontecerão assi a elle como a outras muytas pessoas. E no fim della trata brevemente de alguas cousas, & da morte do Santo Padre Francisco Xavier, unica luz & resplandor daquellas partes do Oriente, & reitor nellas universal da Companhia de Iesus". Ao ler a obra, houve quem duvidasse da verdade dos relatos, respeitantes aos vinte e um anos em que andou pela Ásia, tendo sido, na sua própria expressão, “treze vezes cativo e dezassete vendido nas partes da Índia, Etiópia, Arábia Feliz, China, Tartária, Macáçar, Samatra e muitas outras províncias daquele Ocidental arquipélago dos confins da Ásia”. A escrita começou uma vez regressado o autor a Portugal, em 1557, só sendo publicada trinta e um anos depois da sua morte (1614), por Pedro Craesbeek, com tardia autorização do Santo Ofício. Aos que duvidaram da veracidade dos relatos, o autor respondeu significativamente: “a gente que viu pouco mundo, como viu pouco também costuma dar pouco crédito ao muito que os outros viram”. João Alves Dias apresentou numa mostra memorável na Biblioteca Nacional de Portugal em 2016 que deve ser recordada.


UMA GRANDE CURIOSIDADE
A “Peregrinação” conheceu logo após a publicação um assinalável êxito. Se o poema “Os Lusíadas” (1572) de Luís de Camões foi traduzido para castelhano (1580), latim (1622), inglês (1655) e italiano (1658), a obra de Fernão Mendes Pinto (1614) foi-o para castelhano (1620), francês (1625), holandês (1652), inglês (1653) e alemão (1671), em edições que conheceram diferentes impressões e edições, tendo algumas delas apresentadas pela primeira vez na mostra da Biblioteca. É fácil de verificar a grande curiosidade gerada pelo livro, mas também o extraordinário interesse suscitado pela vivacidade do enredo e pelo modo atraente como é tratado. Na primeira edição portuguesa, registe-se que o autor é identificado diversamente nas duas dedicatórias ao rei Filipe II, como “nobre e criado dos reis” na primeira impressão, e como “homem de vivo engenho e feliz memória”, na segunda. Também numa é dado como natural de Almada e na outra de Montemor-o-Velho. Na segunda edição (1678), registe-se o comentário do grande bibliógrafo Inocêncio Francisco da Silva: “edição incomparavelmente de mérito menor que a primeira, pois não só lhe tiraram a dedicatória, mas alteraram a ortografia, e o texto, cortando palavras, mudando frases e desfigurando consideravelmente a obra. Anote-se que decorre um ano entre as primeiras licenças, a impressão e a taxa final, de novembro a novembro de 1677 e 1678. A terceira edição (1711) integrará o curioso discurso sobre a conquista do reino de Pegu e eleição de capitão Salvador Ribeiro de Sousa como seu rei no ano de 1600, publicado inicialmente em castelhano em 1617. Encontramos nas diferentes edições um conjunto muito rico de curiosidades que merecem uma atenção muito especial – a começar na edição castelhana da “História Oriental de las Peregrinaciones de Fernan Mendez Pinto português…” (1620). Trata-se da tradução do cónego Francisco Herrera Maldonado, um dos grandes defensores do escritor português, tendo sido um dos exemplares expostos na Biblioteca Nacional de uma edição dedicada a Manuel Severim de Faria. A segunda edição castelhana do mesmo ano é dedicada a D. Duarte de Bragança, marquês de Flechilla e Malágon. A primeira edição em língua francesa (1628) é significativamente dedicada ao Cardeal Richelieu e traduzida por Bernard Figuier (Bernardo Figueira?), Gentil-homme Portugais e apresenta a tradução da já nossa conhecida Apologia feita pelo cónego Herrera Maldonado da obra de Fernão Mendes Pinto. Não será por acaso a dedicatória a Richelieu. O poderoso governante e prelado será, como bem sabemos, doze anos depois um defensor ativo da causa da Restauração portuguesa… A tradução holandesa de 1652 é da autoria de Jan Hendrik Glazemaker, feita em Amesterdão. Houve grandes cortes de texto nessa versão, em especial nas partes onde se aludia a Companhia de Jesus, devendo o autor ter tido como base a versão francesa. Tem sete gravuras com temas alusivos à presença europeia no oriente. A primeira edição em língua alemã também foi impressa em Amesterdão (1671), tem onze gravuras, seis das quais são cópias ou adaptações da edição holandesa, sendo qua algumas foram aguareladas. A primeira edição em língua inglesa (1653) é da autoria de Henry Cogan e dedicada a William Wentworth, 2nd Earl of Strafford, publica a Apologia do cónego Herrera Maldonado e suprime algumas partes relacionada com os jesuítas e S. Francisco Xavier. Saliente-se, porém, que em 1625 fora publicado em língua inglesa numa miscelânea de viagens um resumo da obra sob o título “Obseruations of China, Tartaria and other Easterne parts of the World, taken out of Fernam Mendez Pinto his Peregrination”.


A IMPORTÂNCIA DO LIVRO
Ao compararmos a riqueza das diferentes edições da “Peregrinação” nos primeiros cem anos depois da sua publicação, fica-nos a demonstração evidente da importância do livro escrito e impresso. É a memória viva que se transmite, e no caso de Fernão Mendes Pinto (e até de António Faria, que Aquilino Ribeiro considerou ser um outro lado do autor) podemos perceber como o testemunho direto completa o relato formal dos cronistas oficiais. A riqueza dos textos de Diogo do Couto, por exemplo, apenas pode ser inteiramente apreendida e compreendida se tivermos presente a extraordinária riqueza, a imaginação, o trágico e o picaresco explanados brilhantemente pelo mestre do Pragal.

 

Guilherme d'Oliveira Martins
Oiça aqui as minhas sugestões - Ensaio Geral, Rádio Renascença
 

A VIDA DOS LIVROS

De 5 a 11 de agosto de 2019

 

Nos ensaios “O Naufrágio das Civilizações” (2019) e “As Identidades Assassinas” (1998), Amin Malouf, prémio Gulbenkian 2019, liga o naufrágio do Levante mediterrânico, de onde é originário, ao naufrágio de outras civilizações.

 

 

ARQUIPÉLAGO DE VOZES
Volto ao ponto em que tinha ficado na última crónica, para insistir na referência ao poeta e cidadão Manuel dos Santos Serra que, por uma troca de imagens, não ilustrou o texto de então. Com a presença certa e regressando a um dos seus títulos de 2015, falo hoje do complexo tema das identidades culturais, invocando um dos seus poemas. “Poema invisível / Lido nas trevas / Por vozes misteriosas / Ao acordar num mundo árido / Einstein, Luther King, / E muitos outros, / Semeiam cardos / Ou plantam rosas”. O título é “A Força do Sonho” e o sentido geral tem a ver com a força cidadã da diversidade e do pluralismo, compreendendo-se que a História não se faz de fatalismo, seja ele do sucesso ou do atraso, mas de vontade e de diferença. O mundo é naturalmente diverso e a governação da pólis obriga ao reconhecimento das diferenças e das trocas que lhe são inerentes. E “Arquipélago de Vozes” significa não podermos cuidar do futuro com caminhos unívocos ou com fechamentos. A cidadania constrói-se como encruzilhada e caleidoscópio, como troca e enriquecimento mútuo. O tema das identidades culturais está na ordem do dia. Regressam muitos fantasmas sobre quem somos e onde estamos, e sobre a importância das heranças históricas. A noção de património comum choca com as pertenças e com os protecionismos. Emerge o medo e a desconfiança do outro e chocam-se relativismo e absolutismo. Partilha e pluralismo tornam-se de difícil coexistência. Amin Malouf, prémio Gulbenkian 2019, pôs o dedo na ferida. Sabemos bem como o tema é fundamental, mas pleno de riscos. “Não é uma questão simples. Não há uma solução milagrosa, estamos num mundo que atravessa um momento extremamente delicado, na minha perspetiva uma das coisas essenciais reside na necessidade de repensar a questão da identidade”. “Temos necessidade de mudar a atitude que consiste em resumir a identidade de uma pessoa a um aspeto, seja religioso, nacional ou outro, e é necessário ajudar as pessoas a assumir o conjunto da sua identidade, o conjunto da sua pertença. Quando algumas pessoas têm uma pátria de origem e uma pátria de acolhimento, é necessário que possam assumir plenamente a sua pertença a duas” (Observador, 20.7.19).

 

COEXISTÊNCIA HARMONIOSA
De facto, é importante fazer garantir uma coexistência harmoniosa – o grande projeto da época presente. E Malouf lembra como o século XX, que se anunciava aberto e pacífico, se tornou trágico. “Houve evidentemente a tragédia arménia, todas as tragédias que se sucederam, nem as contamos, toda esse região que era uma região de reencontro, de Sarajevo a Alexandria, de Bagdad a Constantinopla, toda essa região que tinha potencialidades gigantescas, que poderia ter sido um polo de progresso para todo o mundo”… Mas o que aconteceu foi uma autêntica tragédia. De facto, há relações muito pouco saudáveis entre diversas partes do mundo, estamos num mundo que precisa de coexistência, de uma gestão serena das identidades, e não caminhamos nessa direção”. Precisamos de lucidez, temos de ver o mundo pela óptica das pessoas. Daí que Francisco Bethencourt tenha razão quando privilegia, numa sociedade aberta, a mobilidade e a integração social na perspetiva da desracialização (cf. Público, 18.7.19). Não basta falar dos problemas, é fundamental mobilizar, agir. E há pouco, no dia Mandela, ouvíamos os testemunhos duros, feitos de sangue e dor, mas de uma vontade férrea em busca da esperança. E lembrava-se a filosofia “ubuntu” – uma pessoa estar aberta e disponível para as outras. Como disse o Arcebispo Desmond Tutu: quem tem essa atitude, “não se sente ameaçado quando outras pessoas são capazes e boas, com base em uma autoconfiança que vem do conhecimento de que ele ou ela pertence a algo maior que é diminuído quando outras pessoas são humilhadas ou diminuídas, quando são torturadas ou oprimidas”. Como diz o célebre provérbio zulu, “uma pessoa é uma pessoa através de outras pessoas”. Os outros são a metade de nós mesmos. No entanto, por indiferença ou esquecimento, como lembrou Amin Malouf: “Já ninguém possui uma verdadeira credibilidade moral. Nem pessoas nem instituições. (…) Estamos numa época em que tudo é posto em causa, tudo parece em vias de perder a capacidade de exercer uma autoridade moral”. Um pouco por toda a parte, a credibilidade foi abalada. E de que precisamos? Não dos que recusam a responsabilidade, mas de quantos estão dispostos a assumir a liberdade e a igualdade, a igualdade e a diferença como faces de uma mesma moeda. E se falamos de identidade e de diferença, temos de falar de reconhecimento mútuo, temos falar de troca e de enriquecimento. Ninguém é invulnerável à imperfeição. Todos erramos, mas temos de assumir o dever de o reconhecer e de sermos melhores.

 

A EDUCAÇÃO DO DELFIM
Num livro notável, acabado de sair – “A Educação do Delfim” (Tinta da China), contendo cartas a seu neto Mikaël Essayan de Calouste S. Gulbenkian este diz: “o ser humano está sujeito a paixões, não é perfeito e comete erros com frequência. Porém, se nele estiverem profundamente enraizados os princípios que acabo de expor, ao saber onde se encontram o bem e o mal conseguirá na maioria das vezes manter o domínio de si mesmo e ultrapassar os momentos difíceis, e a partir dessa vitória sobre si, reunir a força para prosseguir o caminho” (24.8.42). A absolutização das identidades pressupõe a autossuficiência e a tentação de nos instalarmos na incapacidade de sermos melhores. E a perda da “credibilidade moral” corresponde à ilusão da invulnerabilidade, ou à busca de bodes expiatórios, que supostamente aliviem as consciências. Ora, a responsabilidade, a persistência e a exigência obrigam, a um tempo, à busca do “very best”, hábito que se desenvolve “com a idade e assegura, no futuro, o completo domínio de si mesmo” (insistia Calouste) – desde que haja “a plena consciência de o ter realmente feito”. Num tempo de veraneio, com muito boas razões para podermos pensar sobre o “very best”, num tempo de tantas incertezas, proponho aos nossos leitores que percorram a magnífica exposição “O Gosto da Arte Islâmica” na Fundação Gulbenkian para se aperceberem da extraordinária riqueza do diálogo de civilizações – nós e os outros! E vejam com olhos de ver a imagem magnífica de Istambul (que há tempos entusiasmou Orhan Pamuk) e digam como essa magia se nos torna familiar. Que fantásticas raízes comuns! E se descermos à bela mostra sobre a relação da obra de Sarah Affonso com a Arte Popular do Minho, encontramos, nas cores, nos temas, nas relações, o diálogo indo-europeu com o mundo céltico, que não é compreensível sem as raízes do sânscrito e sem o Levante de Malouf, desde a Índia à Capadócia, do Bhagavad Guitá até à viagem de Paulo…     

 

Guilherme d'Oliveira Martins
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A VIDA DOS LIVROS

De 29 de julho a 4 de agosto de 2019

 

Taras Shevtchenko (1814-1861) é um dos símbolos da Ucrânia moderna, tendo sido poeta, pintor, desenhador, artista e humanista, fundador da literatura moderna ucraniana e visionário.

COMPREENDER A UCRÂNIA
Ao longo da história, Kiev, capital da Ucrânia, é uma das cidades mais antigas e com maior riqueza histórica da Europa Oriental, tendo passado por diversas fases de notoriedade e de decadência. A urbe foi fundada pelo menos no século V da nossa era, como um entreposto comercial, tendo ganho progressivamente importância, a ponto de se tornar o centro da civilização eslava oriental, até passar a ser a capital política e cultural entre os séculos X e XII. Importa lembrar que a Igreja Ortodoxa Russa se afirmou com especial intensidade no século IX em Kiev, lugar onde, segundo a tradição, Santo André teria profetizado a criação de uma grande e influente cidade cristã. Daí que o nascimento da Terceira Roma tenha tido as suas raízes em Kiev, ainda que com a queda de Constantinopla (1453), Moscovo se tenha afirmado como sucessora de Roma, em virtude de Kiev estar numa fase de subalternização. De facto, Kiev foi completamente destruída pelos mongóis em 1240, tendo então perdido grande parte de sua influência. Tornou-se então uma capital de província de pouca relevância na periferia dos territórios controlados por vizinhos mais poderosos: o Grão-Ducado da Lituânia, a Polónia e a Rússia. A cidade apenas voltou a prosperar com os primeiros sinais da revolução industrial russa no final do século XIX. Após o período turbulento que se seguiu à Revolução Russa de 1917, Kiev passou a ser uma cidade importante da República da Soviética da Ucrânia e, a partir de 1934, sua capital. Durante a Segunda Grande Guerra, Kiev voltou a sofrer danos pesados, mas recuperou no pós-guerra, continuando a ser a terceira maior cidade da hoje Federação Russa. Em 24 de outubro de 1945, a Ucrânia foi aceite como membro das Nações Unidas com a Belarus, conseguindo assim o então bloco soviético três votos formais. Com o colapso da União Soviética e a independência real da Ucrânia em 1991, Kiev manteve-se como capital do país.

 

KIEV E A CULTURA ESLAVA
Muito se tem falado da cultura ucraniana, nem sempre com conhecimento de causa. De facto, o que hoje é a Ucrânia corresponde a um território sob as influências dos Impérios dos Habsburgos e da Santa Rússia, pelo que é um lugar único onde as culturas do oriente e do ocidente se cruzam, devendo haver uma especial compreensão dessa realidade. Taras Shevtchenko é um símbolo dessa determinação. Foi um poeta, pintor, desenhador, artista e humanista ucraniano, fundador da literatura moderna ucraniana e visionário da Ucrânia moderna. O poeta nasceu 25 fevereiro de 1814 em Morintsy província de Kiev (hoje, região Cherkasy). Seu pai era um servo que pertencia ao senhorio Engelgardtu. A vida de Taras foi, assim, marcada pela situação dramática dos servos da gleba, que persistiram até muito tarde na sociedade russa. Taras revelou, no entanto, desde muito cedo as suas excecionais qualidades artísticas que, aliás, lhe permitiram obter a liberdade em 1838, por 2.500 rublos, graças à qualidade da sua arte revelada no modo como executou a difícil encomenda de um retrato. Os melhores anos da vida de Taras situam-se entre 1840 e 1847, nos quais o seu talento poético floresce. Em São Petersburgo, em 1840, escreve uma primeira coleção de poemas "Kobzar", que o tornam admirado e célebre, interpretando os sentimentos do povo ucraniano. Lança, assim, as bases para uma nova era na história da língua e da literatura do seu povo. O poema épico "Haydamaky" – a mais importante obra de Shevchenko - aparece em 1841-42. Entre outras obras deste período, salientem-se: em 1838, "Katherine"; em 1842, "Blind", bem como o drama de 1843 "Nazar Stodolya", além de "Sonho" (1844) e "Cáucaso" (1845). A denúncia do despotismo e da discricionariedade são evidentes, apelando o poeta à conquista da liberdade. Tal é evidente no célebre «Testamento» de 1845, aqui lembrado em tradução livre: «Quando eu morrer, sepultai-me /Na minha amada Ucrânia./ Meu túmulo ficará sobre um monte elevado, / No meio da planície, /Entre campos e estepes sem limites, / Cuja margem mergulha no Dniepre, / Onde meus olhos possam ver e meus ouvidos ouvir / O rugido poderoso do rio. / Quando os ursos da Ucrânia / Lançarem no profundo mar azul / O sangue dos inimigos, / Então, eu vou deixar esses montes / E campos férteis /  e voar para longe / Para a morada de Deus / Onde irei rezar. / Mas até esse dia / Eu nada saberei de Deus. / Depois de me enterrarem, porém, levantem-se. / E quebrem as cadeias que nos prenderam. / Lancem na água o sangue dos tiranos / E comemorem a liberdade que irão conquistar./ E na grande família nova, / A família do livre, do Justo e do Fraterno, / Com fala serena e palavras amáveis, / Lembrem-se também de mim».

 

UMA REFERÊNCIA PERENE
Shevtchenko viajou por toda a Ucrânia. As aspirações emancipadoras do escritor e poeta, reforçaram-se no contacto com os camponeses de Chernihiv, Poltava e Kiev. Em 1846, Taras terá entrado na sociedade secreta de Cirilo e Metódio, fundada no ano anterior por alunos e professores da Universidade de Kiev e composta de jovens interessados no desenvolvimento dos vários povos eslavos, incluindo ucraniano. A pouco e pouco, Taras Shevchenko tornou-se um símbolo, em especial para os mais jovens e para os cultores da identidade ucraniana. No entanto, os últimos anos de vida foram dominados pela doença, em parte originada pelas dificuldades da vida e pelos excessos da juventude. A morte encontrou-o em S. Petersburgo em 26 de fevereiro de 1861, um dia depois de ter completado 47 anos … Hoje, a sua memória é venerada pelo povo ucraniano, como um símbolo, mas mais do que isso, como um exemplo de determinação, de amor à liberdade, às tradições populares, às raízes da cultura. É assim de toda a justiça, em homenagem à diáspora ucraniana em Portugal, que a memória do grande artista, do autor fique perpetuada entre nós – mantendo na lembrança o seu inesquecível “Testamento”.

 

Guilherme d'Oliveira Martins
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A VIDA DOS LIVROS

De 22 a 28 de julho de 2019

 

Quando a Antologia Poética (Oro, 2018) de Manuel dos Santos Serra (1926-2018) me chegou às mãos já ele não pôde apor a sua assinatura no livro, nem a mim foi possível cumprir o desígnio há muito prometido de apresentar consigo esta obra.

 

 

CIDADÃO IRREPREENSÍVEL
Devo dizer que é com um gosto muito especial que escrevo não apenas sobre o livro, mas também sobre a amizade que me ligava ao seu autor. Li, por isso, pausadamente e com emoção esta escolha de poemas, ao longo de quase quinhentas páginas. E em cada linha recordei quem conheci sempre, como amigo de meus pais, como médico de família, mas, muito mais do que isso, como um cidadão exemplar, um democrata a toda a prova. O poeta conheci-o mais tarde, mas em boa hora. Tudo na vida nos foi aproximando em múltiplos domínios, o da confiança e da cumplicidade humana, que não pode deixar de existir quando se trata de um médico próximo e atento, mas também o da cidadania e da paixão política, da cultura e da arte e do amor da natureza e da justiça. De facto, falámos de tudo ao longo da vida, apesar de ser uma pessoa de palavras essenciais. Nas consultas com meus avós, que o adoravam, havia a atenção máxima, o cuidado extremo, mas não fazia comentários e no fim havia sobretudo conselhos e amizade… A descrição de Albufeira é familiar: “Branca / Tão alva como as mulheres / Nórdicas do frio // Quente / Do sol de latitudes fugidias / Que te deram nome / Com palavras de barro / Refundido em ferro / E cobre reluzente, / Tão antigas como o esquecimento // Esta terra que nós temos / Que nos tem, / Impenitentes argonautas neste cais de pedra / Por magia do elixir do sol e mar salgado / Eterna fonte do instante novo / Que te vai renovando o rosto / A rolar a vida, / Sempre a mesma vida ondulada e nova (…) / Branca / Quente / Terra que nós temos / Que nos tem, / És de todo o mundo / És de ninguém!” (pp. 154-155). Albufeira é isso mesmo, um lugar de muitas magias, onde o Doutor Serra fez a sua vida, a sua profissão e o seu incansável magistério cívico. E ao invocar no final do poema o “Auto da Lusitânia” de mestre Gil é o gosto da gente comum que aí exprime. Texto após texto, deparamos com uma atitude sempre inconformista, mas sempre compreensiva sobre o diálogo entre as raízes e as mudanças. E como sinal desse respeito sagrado pelas origens, temos o belo poema que serve de pórtico a este livro: “Meus pais e meus avós / Para minha liberdade / Abriram fenda na muralha / Que os detinha prisioneiros! / Percorri longos caminhos / Guiado pelas sombras, / Pitonisas, / Adivinhos. / Na prisão sonho que os retinha / Contemplavam, ao longe, / O esforço penitente / A que eles me condenaram / Por amor! // Deslumbrados, / Ao verem-me descer / E a subir / Foram morrendo, em paz, / Atrás das grades / A sorrir!” (p. 7). De facto, é também uma autêntica saga que aqui se encontra, de quem saiu muito cedo de Penela (Coimbra) (“Acrópole antiga / Com aroma grego”) e veio para o Algarve, num caminho de liberdade delineado pelos seus maiores. E não esqueço sempre essa fidelidade à persistente capacidade de fazer da experiência vida. Quando o meu irmão Francisco iniciou as suas lides médicas, nos tempos heroicos das periferias, foi com o Doutor Serra que deu passos decisivos, conhecendo o modo de arar a terra, que o mesmo é dizer, na profissão clínica, lidar com as pessoas concretas e a sua vida irrepetível. E foi esse o seu ensinamento maior – não há doenças, mas doentes, não há horas, há pessoas que se conhecem olhos nos olhos.

 

UMA OBRA RICA E PLURAL
A Antologia percorre a obra do poeta: Romance Residual (1991), A Desordem na Harmonia (1992), Mosaico de Palavras Oblíquas (1996), Sobreposições (2001), A Sombra do Silêncio (2005), Olhar das Palavras (2007), Labirinto de Memórias (2009), Pomar de Pedras (2011), Miradouro do Tempo (2013), Arquipélago de Vozes (2015) e As Margens dos Rios de Horas (2017). Os temas são diversos e recorrentes, numa renovação permanente: a natureza, as pessoas, o mar, o mundo, a cidade, o amor, Coimbra, o Algarve, Albufeira, os amigos, as palavras, a saudade, a liberdade, o sonho, a História. E em fundo: “A praia, / Fímbria de seda / Borda-lhe o rosto, / A pulular de voluptuosas ninfas / A fazer inveja / À Ilha dos Amores” (p. 241). E lembro-me de ver o movimento sincronizado dos pescadores, com as suas vozes compassadas (como Raul Brandão descreveu) a arrumar os barcos, com os grandes olhos fenícios a ver-nos. As vozes dos pregões e das lotas tornavam-se ali seguras e comandos de alerta. E o cheiro a maresia misturava-se com o do alcatrão que calafetava o fundo das embarcações. “Que terra é esta / Que o sol nos elegeu / Para deslumbrar / As férias curtas / Que a morte / Dá à vida?” (p. 383). E, ao ler o Diário de Miguel Torga vislumbro anónima, aqui e acolá, a presença discreta do médico-poeta, como em 8 de agosto de 1987: “Algumas horas de aconchego amigo no deserto afetivo em que o Algarve se transformou. Os dias de praia são provisórios e, por isso, fúteis e desatentos, Quem vem, vem para repousar das suas responsabilidades humanas”. Mas acrescentava que as “Almas sensíveis e solidárias (…) nunca estão em férias da vida” (vol. XV).

 

AH TERRA BEM-AMADA
Não esqueço o que Torga escreveu sobre o Algarve: “… Ah terra bem amada! / Bênção da natureza / Caiada / De pureza / E nimbada de saudade. / Algarve. Liberdade…” (Diário, vol. XIV, 27.7.1982). Foi através de Santos Serra que conheci pessoalmente Miguel Torga, e nunca esquecerei esse momento único – num dia em que falámos de Portugal e da História, desde D. Dinis e de D. Pedro das Sete Partidas até ao reencontro com a liberdade, no 25 de abril. E oiço agora o poeta de Arquipélago de Vozes a falar do seu amigo Miguel Torga: “Lembro-me de O ver / Em Santa Eulália praia / A divagar sobre homens feitos / E homens por fazer // Alto, magro de olhos fundos, / A voz tinha o timbre dos profetas / O discurso a profundeza dos mistérios / E a magia encantatória dos poetas” (p. 346). E eu talvez fosse, nesse tempo já distante, um dos jovens aprendizes que bebiam “as palavras poliédricas / De consoantes duras e límpidas vogais”. E lembro-me ainda dos ecos de Fogo Preso (1976), em que Torga dizia que “a desgraça é que na maioria dos casos, a abnegação é uma pura perda”. E invocava os exemplos de Herculano, Antero e Oliveira Martins… Para o autor de Antologia: “a poesia é o mundo ficcionado pela imaginação com raízes nas emoções continuamente destiladas em sonhos acordados”. Assim amou o Algarve, terra onde o mar abraça a terra. “A navegação foi a grande / Invenção do Homem / Para poder andar de pé sobre as ondas do mar” (p. 456). Por isso, o Infante para aqui veio. É certo que o sonhador, o cidadão exemplar que conheci foi endurecido pelas injustiças do mundo – mas continuou sempre a recusar a “arte manhosa / De administrar a cidade / Em proveito de alguns tiranos” (p. 454)… Não esquecerei a sua lição e imagino-me a seu lado, silenciosamente, num dia de Levante: “Ali diante do mar / Respiro fundo o ar quente / Do Suão do oriente / Sopro de contos mistério” (p. 471).

 

Guilherme d'Oliveira Martins
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A VIDA DOS LIVROS

De 15 a 21 de julho de 2019

 

“Terra de Ninguém 1981-1995” é o catálogo da Exposição individual realizada em 1996 na Fundação C. Gulbenkian, dedicada a Gaëtan, com textos de Jorge Molder e Manuel de Castro Caldas, além da biografia e de bibliografia – onde se reconhece a originalidade e a força da obra do autor que agora nos deixou. 

 

 

UM TEMPO QUE EVOLUI DEPRESSA
Quando traduziu “O Tempo Envelhece Depressa” de António Tabucchi, Gaëtan deixou a expressão exata de um percurso rico e multifacetado, no qual sempre foi um interrogador: o tempo dos acontecimentos que cada um vive ou está a viver confronta-se permanentemente com o tempo da memória ou da consciência. E, de algum modo, a atitude que o artista assume na sua criação pressupõe este confronto. Não se pense, pois, que a autorrepresentação repetida ao longo de uma obra muito rica significou uma preocupação consigo próprio. Não. A cada passo encontramos o seu rosto como espelho de outros rostos e modo de compreender plenamente que é na relação com os outros que se manifesta plenamente a dignidade humana. Há, pois, a presença do rosto como espelho das almas. Os outros são sempre o princípio e a continuação de nós mesmos, a outra metade… Como disse João Pinharanda: estamos perante “máscaras que Gaëtan coloca, não sobre o seu rosto, mas em frente do seu rosto? De qualquer maneira, são um Outro”. E quando lemos Emmanuel Lévinas sobre a importância do rosto, compreendemos melhor o significado da obra de Gaëtan. De facto, é a responsabilidade para com os outros, tão importante para o filósofo francês, que se manifesta. E a ligação entre o pensamento, a literatura e a representação gráfica e artística é decisiva para Gaëtan já que aí encontramos referências desde o Padre António Vieira até Truffaut ou Jacques Demy, nos vários domínios em que trabalhou, em especial o da edição, uma vez que trabalhou na extinta Ulisseia e assinara traduções de autores, além de Tabbuchi, como Marguerite Yourcenar, Italo Calvino ou Bruno Zevi. 

 

UM MARCO DECISIVO…
Não podemos, de facto, esquecer a exposição antológica "Terra de Ninguém", que a Fundação C. Gulbenkian dedicou a Gaëtan, em 1996, assim como o facto de ter incluído o seu trabalho, "inúmeras vezes", em mostras permanentes da coleção e em exposições coletivas, "tornando assídua a força inquieta da personalidade culta e delicada" do artista. Uma força que deve destacar-se na sua obra, mas também quando “dirigia um sorriso, uma observação, uma vontade genuína de empatia". Em 1981, Gaëtan centrou-se no desenho, que passou a tratar de modo continuado, aprofundando as variações sobre o mesmo tema, que era o seu rosto, como pretexto de trabalho. Olhando a obra multifacetada, refira-se que participou na XXI Bienal de Paris (1980), na mostra "Depois do Modernismo", na Sociedade Nacional de Belas-Artes, em Lisboa (1983), em "Tríptico", no Museum van het Hedendaagse Kunst, em Gent (1991), na Bélgica, em "Drawing Towards a Distant Shore: Selections from Portugal", no The Drawing Center, em Nova Iorque (1994). Expôs ainda no Museu Nacional de Arte Contemporânea - Museu do Chiado, em Lisboa, em 2004, sendo reconhecido como “um dos artistas portugueses que mais recorreram ao desenho, praticando-o de forma quase exclusiva", lê-se na apresentação do Museu de Serralves. "Apostado em expulsar da sua prática quaisquer tiques de academismo, cedo decidiu que, sendo destro, passaria a desenhar apenas com a mão esquerda. "Esta recorrência ao seu rosto", como material de base, foi já descrita como "uma arte da fuga, composta de variações sobre o mesmo tema". "Os desenhos em que Gaëtan se retrata, e onde surgem pequenas mudanças mais ou menos percetíveis da sua face e do seu corpo (...) têm servido para eleger o tempo e a memória como os verdadeiros temas do seu trabalho". Daí a ligação com a reflexão de António Tabbuchi em “O Tempo Envelhece Depressa”. Saliente-se ainda que a Fundação Calouste Gulbenkian disponibiliza 'online' a reprodução de "Agnus Dei (olhos castanhos, camisa aberta)", uma das obras de Gaëtan, da sua coleção, assim como a série "Arte de Fuga”. Gaëtan está representado em coleções públicas e privadas, nomeadamente da Fundação Calouste Gulbenkian, Fundação Luso-Americana, Caixa Geral de Depósitos, do Ministério da Cultura, da Fundação Carmona e Costa, do Ar.Co - Centro de Arte e Comunicação Visual, em Lisboa, bem como no Museu de Arte Contemporânea de Serralves, no Porto ou no Museu de Arte Contemporânea, no Funchal, entre outras instituições. Gaëtan estava a preparar uma exposição individual para a Fundação Carmona e Costa, em Lisboa, que esperamos poder ver realizada.

 

UM CASO ESPECIAL
Ao lado de Helena Almeida e Jorge Molder, Gaëtan apresenta a especificidade da representação de si mesmo como interpretação do mundo e como projeção do mesmo. Segundo a socióloga Anabela da Conceição Pereira, em “O Rosto da Máscara” (2013): “A singularidade, como observado, pode ser autoral ou biográfica. Embora, a singularidade exceda a autoria em muitos aspetos, dificilmente, um autor pode ser separado da sua corporalidade/identidade. Não há, por exemplo, autor sem um corpo que lhe corresponda. Contudo este (autor) continua a ser apenas um dos papéis desempenhados pelo ator (artista), ou na formulação de Foucault (1971) uma das funções sujeito. E, o reconhecimento é ao mesmo tempo singular (casos típicos) e social/artístico ou simbólico (representativos). As duas dimensões requerem formas de exercer o poder, como a criatividade e de o manter (durabilidade) como a legitimação, que pode ser intrínseca (qualidade da obra, originalidade, agência) ou atribuída (redes de reconhecimento, mediadores, mercado, etc.)”. De facto, olhando as diferenças e as aproximações entre Helena Almeida, Jorge Molder e Gaëtan percebemos a importância da perspetiva assumida pelos artistas, na qual é o diálogo com o mundo e a vida que está em causa – percebendo-se que a tensão especial assumida por Gaëtan “contra mundum” constitui um modo próprio de afirmação da humanidade como ato de sobrevivência.

 

Guilherme d'Oliveira Martins
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A VIDA DOS LIVROS

De 8 a 14 de julho de 2019

 

Quando se inaugura uma exposição em que Sarah Affonso (1899-1983) dialoga com o artesanato do Minho (Gulbenkian) e quando no Dia de Portugal se falou da necessidade de haver valores mobilizadores, recordamos hoje algumas pistas de reflexão.


NÃO TE PERCAS BUSCANDO…
“Porque tiveste o mar nada tiveste. / Não te percas buscando o que perdeste; / Procura Portugal em Portugal”, foi Manuel Alegre quem disse em “O Canto e as Armas” onde nos devemos encontrar. E não há mistério nesta ideia fundamental. É encontrando quem somos, o que nos une, o que queremos – e percebendo donde vimos – que poderemos continuar a singrar. Uma cultura antiga tem, no seu caminho, múltiplas e contraditórias razões. É conhecida a ciclotimia em que oscilamos entre o considerarmo-nos melhores e piores, o que levou José Mattoso a entender a identidade como uma realidade aberta e multifacetada, de múltiplas trocas, do mesmo modo que Eduardo Lourenço afirma que não somos nem melhores nem piores que os outros. E Agustina, no final de “Os Meninos de Ouro”, encontra nas geresianas (“iris boissieri”) um sinal da «alma portuguesa» (de que Bernardim e Sá de Miranda não falaram), que indica a rota sólida que vai em direção ao caminho certo, num “tempo original em que a alma convive com a eternidade”. E essa planta fugaz representa a durabilidade e a capacidade de renascer sempre. É a vontade que se dispõe a construir o destino. Somos porque queremos e não porque outros nos julgam pelo que não somos. João Miguel Tavares, no discurso de Portalegre do dia de Portugal, chamou, e bem, a atenção para a necessidade da procura de um ponto de encontro mobilizador. A interpretação que faço das suas palavras não tem, no entanto, a ver com o apelo a qualquer realidade mítica, como se a vida pública fosse externa à vida quotidiana, do que se trata é da procura de uma vontade partilhada e emancipadora. E se invoquei no início o poema de Manuel Alegre, foi para afirmar que temos de ligar a memória e a compreensão das diferenças como fatores de enriquecimento mútuo. “Não é fácil saber por que é que estamos a lutar hoje em dia”. Quantas vezes ouvimos esse lamento ao longo dos séculos. Mas é bom que estejamos conscientes dele e dos seus riscos. Não podemos tolerar que “o sonho de amanhã ser-se mais do que se é hoje” se vá desvanecendo, “porque cada família, cada pai, cada adolescente, convence-se que o jogo está viciado”. E não pode estar! O talento, o trabalho, o mérito têm de valer. Não devem bastar uns conhecimentos de certas pessoas ou de certos amigos ou nascer-se na “família certa”, temos de cuidar da justiça.

 

APERFEIÇOAR A DEMOCRACIA
O aperfeiçoamento da democracia tem a ver com a resposta a essas incertezas. Não tenhamos medo de dizer as palavras necessárias. As instituições têm de fazer participar e de saber representar os cidadãos, têm de ser mediadoras e têm de dar as respostas justas aos legítimos anseios de todos. A metáfora de Agustina das geresianas significa, assim, perceber que a durabilidade e a capacidade de renascer sempre têm de se traduzir em atos concretos. Eu sei que persistir ou remar contra a maré não é fácil, que usar o método do “antes quebrar que torcer”, perante as dificuldades, contém o risco de se pensar que a facilidade ou o improviso, que o favor ou a ilusão constituem uma inexorável fatalidade. Não basta, porém, gritar ao lobo, sem prevenir seriamente a sua chegada. Quem corre atrás de tudo o que mexe estará desprevenido quando o perigo realmente chegar. E que perigo é esse? É tanto o da indiferença quanto o dos bodes expiatórios e da cega acusação por tudo e por nada… E sabemos que a mistura das acusações supostamente graves com as meras vinganças pessoais tem como resultado a impunidade. Sim, devemos dar prioridade à verdade dos factos, às provas concretas, à educação, à cidadania, à justiça e à ética, demonstrando que a recompensa deve corresponder ao esforço. “O desespero não nasce do erro, mas do sentimento de que não vale a pena esforçarmo-nos para que as coisas sejam de outra forma – porque nunca serão”. Repita-se que é falsa a ideia de que somos bons no improviso. Olhe-se a nossa História: apenas fomos além das dificuldades com persistência, planeamento, experiência e cuidadoso trabalho. Alguém recordava, há pouco tempo, que o grande feito de Magalhães foi a passagem do estreito, a saída do Oceano Atlântico e a difícil navegação de todo o Pacífico – só possível com muito saber de experiências feito. De facto, deve ser dito e ouvido que nos cabe cultivar uma sã consciência crítica, de modo que a “perda de esperança” não apareça “travestida de lucidez”, que “rapidamente se transforma numa forma de cinismo”. Tudo isto foi afirmado por João Miguel Tavares. Para sermos lúcidos, devemos ser determinados. A desesperança não pode ser confundível com realismo… E como estabelecer pontes entre a cidadania e a coisa pública? Eis o que tem de ser claramente assumido. Não se pense, porém, que a situação presente é singular. Daí que o Presidente da República tenha dito, com oportunidade: “Não podemos nem devemos esquecer ou minimizar insatisfações, cansaços, indignações, impaciências, corrupções, falências da Justiça, exigências constantes de maior seriedade ou ética na vida política”. Há portugueses a merecerem destaque, afirmam-se um pouco por toda a parte – “são todos os dias, cá dentro e lá fora, líderes sociais, científicos, académicos, culturais ou empresariais, muitos dos quais nós nem sabemos quem são, até que chega a notícia de que um português ganhou um prémio de melhor investigador ou, ainda, que uma portuguesa foi considerada a melhor enfermeira num país estrangeiro ou um artista foi celebrado noutro continente”… 

 

RECORDANDO JORGE DE SENA
Em 1977, Jorge de Sena falou de Camões como símbolo dos portugueses: “Ninguém, como ele desejou representar em si mesmo a humanidade, representar tão exatamente o próprio Portugal, no que Portugal possui de mais fulgurante, de mais nobre, de mais humano, de mais de tudo e todos, em todos os tempos e lugares”. Eis o que urge compreender: devemos prosseguir a aprendizagem, a procura, a inovação, a dignidade. O épico foi “o homem que viajou, viu e aprendeu”. O homem com sentido crítico que se sentiu moralmente “no direito de verberar com tremenda intensidade, as desgraças de viver-se e os erros ou vícios da sociedade portuguesa”. O exilado físico também era exilado moral, “clamando por justiça, por tolerância, por dedicação à pátria, por espírito de sacrifício, por unidade nacional e universal, lá onde via que o homem é, como ele disse mais que uma vez, o ‘bicho da terra tão pequeno’ contra o qual se encarniçam os poderes do mal”. A cada passo continuamos a ter de lutar contra o fatalismo, contra o atraso, contra a má-língua, a inveja e o oportunismo. Importa garantir que sejamos nós mesmos a afirmar perante outros que podemos lutar de igual para igual. Não precisamos de ser os melhores, mas temos de saber ser cada vez melhores.

 

Guilherme d'Oliveira Martins
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A VIDA DOS LIVROS

De 1 a 7 de julho de 2019

 

Quando Fernando Namora (1919-1989), cujo centenário do nascimento ocorreu no dia 15 de abril, publicou «Retalhos da Vida de Um Médico» (1949) não se esperava um tão grande sucesso de um jovem autor, que ficou a dever-se essencialmente à escrita acessível, ao humanismo e ao retrato fiel do país profundo com que os leitores se identificaram.

 

 

A AUTONOMIA DE PENSAMENTO
Pode dizer-se que Fernando Namora assumiu, ao longo da sua vida, uma atitude baseada na autonomia de pensamento e na liberdade pessoal, tornando-se dificilmente classificável, ainda que com aproximações a uma visão realista do mundo. Há uma forte componente testemunhal que assenta numa escrita clara e facilmente compreensível, muito preocupada com a experiência vivida e influenciada na dimensão existencial, onde se encontram o eterno mito de Sísifo e a presença do homem inconformado… E não é apenas o eco de Camus ou de Malraux que encontramos, mas de Kierkegaard, Dostoievski, Tolstoi, Huxley ou mesmo de Sartre. Do que se trata, como bem sentimos na “Cidade Solitária” (1959) e fundamentalmente em “Domingo à Tarde” (1961), é da procura da relação entre a singularidade, o reconhecimento e a angústia com a vida que segue o seu curso nas suas múltiplas contradições. E em “Diálogo em Setembro” (1966), um longo diário de invocação memorialística, encontramos a descoberta, através do contacto com a Europa das ideias, com as suas contradições e paradoxos, e da necessidade de compromissos diversos e complexos, num mundo em profunda mudança, consciente dos limites das receitas políticas ou das explicações simplificadoras. Eduardo Lourenço refere, aliás, que esse encontro com os outros em Genebra torna-se um “verdadeiro encontro connosco”, feito à distância. Como nos veem lá fora? Como nos vemos de fora? Ao longo do percurso literário, enriquecido pela sua experiência de médico, primeiro na província e depois no Instituto de Oncologia, vamos encontrando uma aproximação humana entre a importância da liberdade individual e a consideração da sociedade e da sua organização. O filme “Domingo à Tarde” (1966) produzido por António Cunha Telles, realizado por António Macedo, projetou na tela o romance no qual Namora associa a análise da realidade social e a existência individual, através do encontro de Jorge (Ruy de Carvalho) e Clarisse (Isabel de Castro), bem como de Lúcia (Isabel Ruth), assumindo no novo cinema português uma perspetiva que abria novos horizontes, salientando João Bénard da Costa a qualidade da adaptação, da conceção estética, da novidade formal e até a sua ousadia. Por isso o filme superaria o romance, mas de facto, essas qualidades só são possíveis (dizemo-lo nós) em virtude da capacidade de Fernando Namora.

 

LITERATURA E LIBERTAÇÃO
Compreende-se, assim, a afirmação de Namora: “A literatura é um processo de libertação e, por conseguinte, aspira à liberdade. Quer dizer que o seu ponto de partida é uma recusa aos constrangimentos. Quer dizer, ainda, que os constrangimentos estão na sua génese ou no desencadear da sua explosão, como tem sido proclamado por tantos criadores. Homem livre, pois, o escritor – ou que visceralmente deseja sê-lo. Tão livre, ou tão necessitado de o ser, que nem sequer pode estar de acordo com certas situações para que ardorosamente contribuiu: seja numa sociedade burguesa, seja numa sociedade proletária, ele sempre encontrará razões para a sua insubmissão e para o seu inconformismo, mesmo se, muitas vezes, se trate de uma contestação inconsciente” (in “Jornal sem Data”, 1988). De facto, o tempo revelou que a diversidade da obra produzida e legada por Fernando Namora nos permite encontrar pistas bastante fecundas que nos levam a compreender que o encontro sobretudo no início da carreira literária com o neo-realismo, não impediu a afirmação de um percurso singular que levou Fernando Pinto do Amaral a dizer que “tendo chegado a ser por meados do século XX o prosador português mais divulgado e traduzido em todo o mundo (antes da atual difusão de Saramago e Lobo Antunes), Fernando Namora inscreve-se no quadro de um neo-realismo progressivamente temperado por aspetos menos esquemáticos, que o irão aproximar das preocupações existencialistas”. O êxito retumbante de “Retalhos da Vida de um Médico”, sobre a sua experiência clínica na Beira Baixa e Alentejo, representa, assim, algo mais do que uma receita marcada pelo “espírito do tempo”, o que, aliás, permite encontrar já alguns sinais de cunho pessoal não apenas no sentido humanista e solidário, mas também na análise existencial contemporânea, podendo encontrar-se a maturidade reflexiva em “Rio Triste” (1982).

 

A COMPLEXIDADE DO NEO-REALISMO
Eduardo Lourenço chamou a atenção, com especial ênfase, para a complexidade do Neo-realismo. Carlos de Oliveira e Fernando Namora são referidos, aliás, como exemplos de independência de espírito e de um trilhar de caminhos próprios que ilustram bem a complexidade do fenómeno. A prevalência da forma nos critérios de avaliação estética sobre orientações ideológicas torna-se especialmente importante e integradora. E Namora, até mercê da evolução da sua obra e da não subordinação a critérios instrumentais, faz parte do grupo intelectual de que Lourenço se aproxima, mostrando bem (como o fez ao descobrir Pessoa) qual era o Neo-realismo que lhe merecia solidariedade tanto geracional quanto oposicionista: aquele mais livre esteticamente falando… Como Rosa Maria Martelo afirmou em 2014, na apresentação em Coimbra do segundo volume das Obras Completas de Eduardo Lourenço da Gulbenkian, o ensaísta teve uma importante e inequívoca “participação geracional ao lado dos jovens do Novo Cancioneiro quanto nas leituras coetâneas que foi fazendo do Neo-realismo, e ainda nas leituras retrospetivas que depois elaborou. Como defende, “o Neo-realismo é a expressão literária de qualquer coisa muito mais ambiciosa, muito mais importante” do que o plano literário ou artístico, ou sequer cultural”. Assim, recorre à palavra “galáxia”, dizendo «que o Neo-realismo foi “o aparecimento em Portugal da galáxia marxista, da galáxia da cultura marxista”, capaz “de se determinar em relação praticamente a todos os temas da sociedade portuguesa”. E ao recordar o papel da coleção Novo Cancioneiro nos inícios da década de 40, pergunta: “Haveria nesse utopismo um excesso de ilusão, como o tempo o provou? Sem dúvida. Mas nos melhores, a crença num futuro menos inumano era vivida e sincera”». E Fernando Namora correspondeu, com assinalável coerência, à compreensão de que a liberdade na literatura constituía um valor inestimável, que obrigou a uma especial atenção à realidade social e humana e a uma exigência crítica capaz de entender a complexidade da compreensão. Daí que o ponto de partida da liberdade do escritor seja, de facto, a recusa dos constrangimentos – que sempre assumiu, em benefício da sua obra e da sua coerência, atribuindo à arte e à autonomia individual os lugares necessários.

 

Guilherme d'Oliveira Martins
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A VIDA DOS LIVROS

De 24 a 30 de junho de 2019

 

Agustina foi sempre uma pessoa surpreendente. O seu sentido de humor, mas sobretudo o seu sentido crítico, eram únicos. Por isso admirava a alegria de Camilo – “uma alegria profunda, rasgada, furibunda que as inteligências estreitas não entendem”. Ligava, assim, permanentemente o pícaro e o trágico da vida.

 

UMA PAIXÃO ESPECIAL
A permanente pesquisa sobre a humanidade encerra a procura da culpa e da sua razão de ser – como tantas vezes Agustina confessou. Tinha uma paixão especial por Dostoievski, não tanto para seguir os seus passos, mas por encontrar nele uma força original. Muitas vezes, fazia misturar a realidade com a ficção. Isso divertia-a intimamente. A vida, para si, era sonho e era drama. O célebre episódio do casamento com Alberto Luís, através de um anúncio de jornal, tem a ver com um cenário romanesco que quis inventar. E assim procurou forçar a realidade, como deus ex machina. Ao ouvi-la contar esse momento, como lhe ouvi várias vezes, ela ria-se intimamente ao lembrar o que o padre lhe disse a certa altura – “nem um táxi à porta da igreja…” – ou quando recordava um rato afoito a atravessar a Confeitaria do Bolhão, onde os noivos celebraram, com um chá, a singular boda… Quando conheci pessoalmente Agustina, quase tudo o que ouvira dizer sobre ela correspondeu à realidade, mas ao vivo era muito mais interessante e misteriosa do que todas as lendas que à sua volta se desenvolviam. Grandes amigos meus tinham uma paixão absoluta pela sua obra e pela sua força – e a verdade é que essa aura se revelava de forma fantástica na pessoa que encontrei e de quem tenho saudades. Os seus diálogos eram desarmantes. Nunca fazia o comentário que esperaríamos. Abria-nos sempre os olhos para o outro lado das coisas que nos passava despercebido. Estou a pensar na extraordinária admiração por Maria Agustina de Alberto Vaz da Silva e João Bénard da Costa. Contra ventos e marés, foram dos primeiros e chamar a atenção para a genialidade da escritora. E tão persistentes souberam ser que obrigaram tantos distraídos a ler com olhos de ver a sua escrita. Frederico Lourenço tem um belo ensaio onde descreve um curioso ciclo, iniciado pela extraordinária admiração da geração de seus pais pela escrita de Agustina, continuado no sentido crítico do jovem que desconfiava de tão radical admiração e terminado num verdadeiro reconhecimento da genialidade da escritora. António José Saraiva disse-o claramente: não tinha dúvidas sobre estarmos perante um nome máximo nas nossas letras de sempre – isto, com a autoridade especial de se tratar da apreciação de um dos nossos maiores mestres na história da literatura.

 

UMA FORÇA INESGOTÁVEL
A escrita de Agustina era torrencial e a sua letra (como insistiu Alberto Vaz da Silva) era reveladora de uma força inesgotável. Essa era a letra que Alberto Luís (que devo lembrá-lo com muita admiração) meticulosamente decifrava, revelando a prosa em todo o esplendor. Várias vezes Eduardo Lourenço me chamou a atenção para a grande energia contida no riso dela e para o seu caráter cortante. Era uma ironia que contagiava, sobretudo porque fazia questão de deixar claro que (pelo menos na aparência) não se levava demasiado a sério e que gostava verdadeiramente de ver o mundo às avessas, como se ela quisesse e pudesse mudar o curso da História. Gostava de cultivar episódios folhetinescos. Vi, um dia, o Alberto e o João Bénard a disputarem intensamente a propriedade de uma carta que, certamente por puro gozo, Agustina dirigiu ao João, apesar de ter endereçado o sobrescrito a Alberto. Nunca a situação se esclareceu. O mistério permaneceu – e o caso demonstra bem como a personalidade de Agustina gostava de alimentar universos romanescos. E se estes universos eram avidamente procurados pela escritora, também vinham ao seu encontro, como aconteceu com a carta de Teixeira de Pascoaes, descoberta depois do poeta ter morrido, no seu espólio, sobre a leitura atenta que fizera de Mundo Fechado. Dizia ele: «trata-se de uma escritora de raça, dotada de excecionais qualidades visionária e dotada de um raro instinto do real. Sem este instinto há só literatura e mais nada. Se os românticos excederam a realidade, caindo na falsidade, os chamados naturalistas cometeram o pecado contrário, e tornaram-se inferiores à natureza. A autora de Mundo Fechado não praticou esses erros. E, por isso, a felicito com o maior entusiasmo». O episódio vale por si e Pascoaes, que estava no fim da vida, e já não lia as obras que lhe mandavam, abriu uma exceção e revelou a fina qualidade crítica que possuía. Agustina usaria, aliás, esse acontecimento extraordinário em Os Quatro Rios, para descrever a angústia de um jovem perante o silêncio de um escritor consagrado a quem enviara uma obra na qual punha toda a esperança de se tornar conhecido. Aliás, falando de Pascoaes, não podemos esquecer outro romance, O Susto, em boa hora recentemente reeditado, com um magnífico prefácio de António Feijó, onde Agustina encena um encontro entre figuras que representam Pascoaes e Fernando Pessoa – salientando a sua superior admiração pelo autor de Maranus… No entanto, a família de Pascoaes não ficou agradada com o retrato imaginário dado no romance… Ossos do ofício…

 

O LADO ALEGRE DA VIDA
Um dia fui com Agustina até Amarante, em homenagem à sua Vila Meã. Era um sábado glorioso, com a temperatura tépida do fim da primavera. A natureza estava como Agustina gostava, ridente e viva. Depois de termos debatido os mistérios de A Sibila, numa iniciativa de escolas e professores, em torno de complexas relações do poder, subimos em excursão, lado a lado, até ao primeiro degrau do Marão e a romancista, olhando a paisagem que se estendia na frente do autocarro onde seguíamos, lembrou com júbilo as giestas batidas pelo vento e as aras de pedra onde o gado se abrigava – e veio à baila um livro de Pascoaes, Duplo Passeio, pelo humor que continha. “A arte de pedir, ó padre António Vieira, é a única arte nacional. Está para a Lusitânia como a escultura para a Grécia”. E Agustina ria, ao lembrar ainda, a frase do poeta: “quem pede é um ladrão amável, digno de toda a simpatia”. - «Já reparou, por certo (disse-me então), afinal somos um país pedinte… Veja bem que não tardará alguém aí…». “Pedir é uma realidade em que cabem todas as ilusões. É um dormir, deixando os dentes a fazer a sua função de morder, e as mãos a de voar come as borboletas”. Agustina “lia Pascoaes com uma devoção que só pertence à maturidade da criança que nunca se perde dentro de nós (…) Este Pascoaes é bem o meu padrinho nas Letras. Alegro-me disso…” (DN, 2.10.1993). E assim olhava a realidade que a cercava à procura do que a pudesse espantar e até divertir.  

 

Guilherme d'Oliveira Martins
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A VIDA DOS LIVROS

De 17 a 23 de junho de 2019

 

 

«As Terras do Risco» de Agustina Bessa-Luís (Guimarães Editores, 1994) serviu de base ao filme «O Convento» de Manoel de Oliveira (1995). É um caso curioso em que duas obras se completam e se antagonizam – dando origem talvez à mais notória crise entre dois autores que tão ligados se encontram em substância. Mas, como costumava dizer Oliveira – “Agustina fez o seu livro e eu fiz o meu filme”.

 

 

UM MISTERIOSO CONVENTO
Começamos pela sinopse oficial da obra de Agustina: «O romance decorre na Arrábida, onde há muitos séculos o homem conhece a confrontação com a sua própria obscuridade, dando-lhe às vezes o nome de Deus, outras de rei ou de poderes telúricos, terramotos e tempestades. É um romance que Goethe teria aberto, recomendando-o a Eckermann, mas sem o ler... É um livro elegante, insensível a tudo quanto é a ênfase do mistério, tornando-o tanto quanto possível trivial como a dedução dum criminologista». A trama do filme desenrola-se no misterioso convento, isolado na serra da Arrábida. Michel Padovic, investigador americano (John Malkovich) está apaixonado pela busca de uma pista histórica inédita e procura indícios de que William Shakespeare era um Judeu espanhol, descendente de gente expulsa da Península Ibérica pelos Reis Católicos e por D. Manuel, que teriam partido para Florença e daí para Inglaterra. Acompanhado pela mulher, Helène (Catherine Deneuve), trabalha na Arrábida, vindo a envolver-se com os restantes inquilinos do convento. Mas com que nos deparamos? Com a releitura do mito universal de "Fausto" – começado em Shakespeare, mas baseado em Goethe. A história é, no fundo, a de alguém que vende a alma ao demónio em troca do conhecimento. E Manoel de Oliveira trabalha o mito, demonstrando que Fausto existe em qualquer tempo. Assim, pode encarnar em Michel, que chega ao Convento, onde espera encontrar elementos que comprovem as suas teorias. Mas é por Hélène que se interessa o guardião do local, a figura algo sinistra de Baltar (Luís Miguel Cintra), que vive com Piedade (Leonor Silveira). Temos então vários tempos sobrepostos: o presente, a Idade Média (origem do convento) e a Antiguidade clássica, já que Hélène se transfigura em Helena de Troia.

 

DESENCONTRO E MISTÉRIO
João Bénard da Costa ficou muito ligado a este filme. Conhecia a serra como a palma das suas mãos. Manoel de Oliveira pediu-lhe por isso ajuda para fazer um levantamento dos lugares e das histórias da Arrábida, acabando a convidá-lo para participar no filme. “Numa das cenas, eu devia contar (disse João) à Catherine Deneuve a história do Convento Velho, que eu contei tantas vezes a tanta gente ao longo da minha vida. Lembro-me perfeitamente de ter pensado, naquele momento, que sentia estar a viver um sonho. Um ano antes, naquele mesmo sítio onde vou tantas vezes, até poderia ter imaginado esta cena, rido com ela e pensado que ela era um sonho. Mas não. Estava ali, com a Catherine Deneuve, a contar uma história da Arrábida”. E esse momento mágico ligava-se, no fundo, ao mistério de todo o filme e do próprio livro. "A verdade é que tenho vivido coisas que nunca pensei viver, que parecem fazer parte da dimensão do sonho, da dimensão do cinema. Nesse sentido, sou um homem privilegiado". De facto, todo o carácter mágico que rodeia “O Convento” estava bem patente nos vários planos apresentados. Havia uma história ficcional e duas presenças que se misturavam, a de Shakespeare e a de Goethe, a do teatro e a da literatura, ligando-as um mito que tanto entusiasmava Manoel de Oliveira e Agustina. Aqui entra o drama real. Agustina, por sugestão do seu amigo começa a escrever “Pedra de Toque”, sobre um dos lugares mais misteriosos e mágicos de Portugal. A escritora pensa em Depardieu e Deneuve, segundo a ideia do próprio Oliveira. No entanto, Agustina demorou-se na escrita, pelo menos mais do que o realizador necessitaria. Então este falou a Agustina para que ela resumisse o enredo. Assim foi, e Oliveira tirou-se de seus cuidados e elaborou um guião próprio, dando início ao processo de concretização do filme. E apresentou o filme como “inspirado na ideia original de Agustina Bessa-Luís”. Resultado? Agustina não gostou. Recusou-se a ver o filme e qualificou o episódio como “desencontro total” e “colaboração falhada”. “O Manoel de Oliveira teve sempre toda a liberdade, liberdade de que ele abusou”…

 

UMA ZANGA PASSAGEIRA
A zanga foi séria, mas o certo é que o tempo aplainaria esse acidentado episódio. Agustina seguira uma via algo diferente da de Oliveira. Teria preferido seguir a obsessão do investigador tão concentrado no seu estudo, correndo o risco de se confundir com ele. Pelo contrário o cineasta optara por enfatizar a história dos ciúmes entre duas mulheres. E, como bem sabemos, Agustina sempre repetiu que “o Manoel de Oliveira filma filmes de amor, e o amor não entra nos meus romances”. A verdade é que não podia ser durável a zanga, por várias razões – de facto o que houve com “Pedra de Toque”, que depois se tornou “Terras do Risco”, por maior fidelidade à Arrábida, que passou à tela como “O Convento”, foi um mero equívoco, gerado pela pressa de Oliveira e pela falta de um real acerto de ideias quanto ao projeto. No entanto, entre Agustina e Manoel há muito que havia preocupações e ideias comuns ou próximas. Quando vemos o filme, percebemos que poderia ter sido ela a principal responsável pelas ideias, com mais ou menos peso dos ciúmes e dos desencontros. Talvez tenha existido no cineasta um excesso de confiança no exercício de seguir o que a autora teria feito. Mas o certo é que podemos ler “Terras do Risco” e analisar em paralelo o filme. A complementaridade lá está, numa distância muito menor do que a que encontramos em tantas transposições de romances para a tela… Passada a tempestade, no ano seguinte Oliveira voltou a lançar a Agustina o desafio para escrever sobre mulheres e homens, num cenário em que dois casais, um mais novo e outro mais velho, se encontram nos Açores. E assim o filme “Party” (1996) vai marcar uma rápida reconciliação – sendo curiosa a forma como Agustina vai aos Açores para conhecer pessoalmente Michel Piccoli e Irene Papas, que contracenam com Rogério Samora e Leonor Silveira. Surpreendida, a escritora depara-se com a filmagem de uma garden party em plena tempestade – com chuva, neblina e vento forte… E o certo é que Agustina concluiria que a nova colaboração cinematográfica foi interessante. Manoel de Oliveira fez a distinção entre os diálogos de Agustina Bessa-Luís e o argumento do próprio cineasta. E a vida seguiu em frente, entre os dois amigos – fundamentais na história da cultura portuguesa hoje. 

 

Guilherme d'Oliveira Martins
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