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Blogue do Centro Nacional de Cultura

Um espaço de encontro e de diálogo, em defesa de uma cultura livre e pluridisciplinar. Estamos certos de que o Centro Nacional de Cultura continuará, como há sete décadas, a dizer que a cultura em Portugal vale a pena!

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A VIDA DOS LIVROS

  
De 24 a 30 de junho de 2024


Publicamos hoje, quando iniciamos o “Disquiet”, uma carta imaginária a Eugénio de Andrade, invocando a sua obra. 


Meu Caro Eugénio de Andrade


Começo por lembrar o que um dia o meu amigo (permita-me que o trate deste modo) disse sobre Camões, e que constitui referência fundamental para compreendermos como a língua se faz através da vida dos seus melhores cultores. E se falo de vida, refiro-me ao testemunho de quem faz da literatura a essência da comunicação e do ofício.


«Foi Camões que deu à nossa língua este aprumo de vime branco, este juvenil ressoar de abelhas, esta graça súbita e felina, esta modulação de vagas sucessivas e altas, este mal corrosivo da melancolia”. Não poderia haver melhor apreciação, ligando o maior poeta da nossa língua à própria existência da língua como a mais intensa e pura expressão da nossa cultura.


O aprumo do vime branco representa o equilíbrio no uso das palavras, no que podemos considerar como a maturidade da língua na poesia, desde as origens dos trovadores, da decisão do rei poeta de tornar a língua vulgar em idioma oficial para legistas e tabeliães, até à lírica e à épica em “Os Lusíadas”. O juvenil ressoar das abelhas significa ouvir os passos de Leonor pela verdura, formosa e não segura. A graça súbita e felina vem do picaresco. A modulação de vagas sucessivas e altas põe-nos diante do Adamastor, mas também do juízo critico do saber de quem estava na praia, todo de experiências feito e do alerta contra a glória de mandar e a vã cobiça. Enquanto o mal corrosivo da saudade e da melancolia, do desejo e da lembrança desenvolve a tensão entre o drama e o sentimento, o passado e o futuro…


Por isso mesmo, estimado Eugénio de Andrade, pela sua sensibilidade e pela sua escrita, pôde tornar, por exemplo, a cidade do Porto, onde viveu, vindo da Beira Serra, ainda mais heroica, dramática e sentimental. Bem haja. Por um momento, percebemos, como a transparência se liga ao granito, à saudade e ao humor melancólico. «A transparência é aqui nostalgia: até a luz terá a cor do granito. Mas o granito é às vezes de oiro velho, e outras azulado, como o luar escasso que nesta noite de outono escorre dos telhados. Quando o sol, mesmo arrefecido, incide nos vidros, as mil e uma claraboias e trapeiras e mirantes da cidade enchem o crepúsculo de brilhos – o Porto parece então pintado por Vieira da Silva: é mais imaginário que real».


E, mesmo sem querer, ouvimo-lo como poeta na mais pura expressão da sua palavra: «É urgente o amor. / É urgente um barco no mar. / É urgente destruir certas palavras, / ódio, solidão e crueldade, / alguns lamentos, / muitas espadas. /É urgente inventar alegria, / multiplicar os beijos, as searas, / é urgente descobrir rosas e rios / e manhãs claras. / Cai o silêncio nos ombros e a luz / impura, até doer. /É urgente o amor, é urgente permanecer».


As palavras marcam, deste modo, a ligação íntima entre pessoas e pessoas, entre pessoas e lugares, e na sua obra, Eugénio, isso se sente com especial intensidade.


E não nos cansamos de o ouvir, dirigindo-se à palavra poética: «1. Sê tu a palavra, / branca rosa brava. / 2. Só o desejo é matinal. / 3. Poupar o coração / é permitir à morte / coroar-se de alegria. /4. Morre de ter ousado / na água amar o fogo. /5. Beber-te a sede e partir / - eu sou de tão longe. / 6. Da chama à espada / o caminho é solitário. / 7. Que me quereis, / se me não dais / o que é tão meu?». E como não recordar o modo como tem procurado o essencial: «Colhe / todo o oiro do dia / na haste mais alta / da melancolia»?


E tenho bem presente o que sempre nos disse: «É contra a ausência do homem no homem que a palavra do poeta se insurge, é contra esta amputação no corpo vivo da vida que o poeta se rebela». E o nosso Eduardo Lourenço com a lucidez poética que bem conhecemos disse, melhor que todos: “Talvez a essência e o milagre dessa singular transparência, que tornaram a poesia de Eugénio de Andrade ao mesmo tempo a mais refinada e a mais popular do nosso tempo português, se cifre toda no facto de ser, na medida em que isso é possível, uma poesia sem sujeito. Poesia sem sujeito como o pode ser a do nosso contacto, impossivelmente inocente, com as realidades primordiais que nos inventam no ato em que as olhamos e nos devolvem sem mediação à nossa esquecida mas sempre presente condição celeste, a luz do sol, o fluir dos rios, o passar do vento, o ritmo das estações, a visão das árvores, o apelo dos frutos. Como se um Alberto Caeiro, realmente novo Adão antes da culpa (da consciência) se tratasse, foi quase irresistível inscrever o poeta de As Mãos e os Frutos na arcádia do paganismo poético moderno”. E o ensaísta reforça esta intuição. “Toda a poesia é ‘palavra no tempo’ sem dúvida, mas a do autor de Ostinato Rigore, de tão colada ao tempo, de tão íntima do instante e sua fulguração, mais parece, sem ser intemporal, uma como que sensível suspensão do tempo”.


Lembramo-nos da sua estreia de 1939 com “Narciso”, ainda como José Fontinhas, e de “Adolescente”, ou do encontro com António Botto, e sobretudo da publicação de As Mãos e os Frutos, com o auspicioso reconhecimento de Jorge de Sena e de Vitorino Nemésio. José Saramago resumiu com felicidade o lirismo dessa poesia, que se singulariza por uma permanente referência ao corpo, a que chega através de um depurado caminho de aperfeiçoamento da palavra. Ficam na memória As Palavras interditas (1951); Ostinato rigore (1964); Escrita da terra e outros epitáfios (1974); Limiar dos pássaros (1976); Memória doutro rio (1978); Matéria Solar (1980); Ofício de Paciência (1994); O Sal da Língua (1995); ou Os Sulcos da Sede. Cada uma destas palavras constitui exemplo de uma maturidade poética conquistada num permanente exercício digno de uma oficina de artesão… O mesmo se diga na prosa: em Rosto precário (1979) ou À sombra da memória (1993). E em 2001, veio, com inteira justiça, o Prémio Camões, graças a uma obra segura e consistente, como de primeira grandeza na poesia portuguesa do século XX.


Em carta de junho de 1949 (leio a “Correspondência - 1949-1978 entre Jorge de Sena e Eugénio de Andrade”), Jorge de Sena foi muito claro a propósito de As Mãos e os Frutos: “Não sei se alguma vez lhe disse da estima que a sua poesia me merece, pela categoria autêntica, tão diferente do que a nossa desvairada geração tem produzido (…). Lembro-me que, em tempos, o acusaram de desumanidade. Não encontro, todavia, senão uma pagã humanidade; e mais vale uma humanidade assim, que só se importa com o que liricamente toca, do que fingir sentimentalidades oportunas”. Estou de acordo e julgo que ao longo do tempo tem-no demonstrado. O curso do tempo confirmou e afinou essas qualidades e a coerência.


E devemos recordar Montaigne: “l’essentiel est dit: deux êtres singuliers se rencontrent et comprennent en un éclair, que leur vie ne sera plus jamais comme avant». E o Eugénio fala dos Amigos com especial cuidado: «Os amigos amei /despido de ternura/ fatigada;/uns iam, outros vinham, /a nenhum perguntava /porque partia, /porque ficava; /era pouco o que tinha, / pouco o que dava, / mas também só queria / partilhar / a sede de Alegria / - por mais amarga». É La Boétie que vem à lembrança, já que não existiria na nossa memória sem o testemunho admirável do amigo Montaigne: “parce que c’était lui, parce que c´était moi!”.


E devo dizer, caro Eugénio, que a sua humanidade se exprime bem no diálogo com Dario Gonçalves, ao mesmo tempo, causa e consequência de muitos de seus versos. Passou a ser, de facto, uma espécie de afinador de palavras e fonte de inspiração. O piano poético em que o intérprete toca torna-se naturalmente mais legível.


Leia-se o postal de outubro de 1987 sobre uma viagem do Porto até Ribatua. Aí se nota a proximidade e a cumplicidade de uma partilha quase perfeita de sentimentos e de sensações. “Querido Amigo. Retomo a tradição dos postais em viagem. Saímos do Porto atrasados, comemos bogas fritas, já perto do Pinhão, e mal chegamos a casa, por volta das quatro, o Laureano acendeu o lume e aqui me tem à lareira a escrever-lhe. Só para lhe dizer que tem de ter cuidado consigo, que tem que alterar o seu ritmo de vida, essas correrias tiram-lhe anos de vida e eu quero que V. dure muitos anos, porque a sua amizade me é preciosa, além do livro sobre o Porto».


E voltamos ao mal corrosivo da saudade e da melancolia, ao desejo e da lembrança que desenvolve a tensão entre o drama e o sentimento, o passado e o futuro… E interrogo-me sobre as “Espadas da Melancolia”. Aqui está o corpo e pergunto-lhe se não é a essência da sua humanidade que aqui se encontra, como Jorge de Sena reconheceu.


“Um corpo / para estender a náufragos – o teu corpo. / Um rasto de cadelas aluadas, / um charco de maçãs apodrecidas / ou longas cabeleiras apagadas // Não dizias palavras, ou só dizias / aquelas onde o rosto se escondia. // Palavras onde o sangue não abria / a corola de fogo à madrugada. // O azul não canta, a água morre / na mais secreta boca do teu corpo. // Aqui não brilha a terra, a luz é fria, / aqui o horizonte não respira. // Não havia vento: só medo e cobardia”.


É esta a realidade humana, contraditória, duvidosa, mas próxima. Sem ilusão, importa entender que o lirismo nos obriga a ouvir a história trágico-marítima, e que esta também reclama o picaresco. Não acha, caro Eugénio de Andrade, que todos temos em nós um pouco do aventureiro Fernão Mendes Pinto? E a sua paixão pela língua que nos une e o seu amor camoniano obrigam-nos a ligar tudo isto, compreendendo que, como disse ainda o nosso querido Eduardo Lourenço – “Eugénio de Andrade, nascido já para cá de Pessoa, reinventou o canto dessa aparência (com que só em sonhos Pessoa comunicava) tornou-se puro olhar, escuta atenta do milagre do mundo, fez do universo seu espelho, aceitando-lhe o brilho da superfície e a sua sombra. É o poeta do mistério em pleno dia: ‘Claridade sem repouso, ó claridade, / aguda nos juncos, nas pedras rasa.”


Caro Eugénio, não é fácil descortinar a realidade humana na sua integralidade. Para os mais distraídos até parece que a humanidade está ausente quando deseja torná-la evidência. Mas basta ler atentamente e ouvir as palavras realmente ditas para não ter dúvidas. “Ama / como o rio sobe os últimos degraus / ao encontro do seu leito”.


Por isso, chamei para junto de nós Eduardo Lourenço, com a preocupação de ir além das aparências. Ele tinha toda a razão. Ao interrogar o mistério da realidade, o Eugénio tornou puro o olhar, como escuta atenta do milagre do mundo. “Estou de passagem: / amo o efémero”. E tenho de lhe agradecer, como leitor fiel, essa sua capacidade única. E por isso não esqueço: “Assim eu quero o poema: / fremente de luz, áspero de terra / rumoroso de águas e de vento”. Desse modo deve ser.


Eis por que lhe fico eternamente grato, evocando a busca do que está para além da superfície do tempo: “De palavra em palavra / a noite sobe / aos ramos mais altos // e canta o êxtase do dia”.


Aceite, assim, um abraço do admirador que o não esquece


Guilherme d'Oliveira Martins
Oiça aqui as minhas sugestões – Ensaio Geral, Rádio Renascença

A VIDA DOS LIVROS

  
De 17 a 23 de junho de 2024


Ao ler a reedição de Sophia de Mello Breyner Andresen – Biografia de Isabel Nery (D. Quixote), quando celebramos os 500 anos do nascimento de Camões e os 50 anos da Revolução de Abril de 1974 devo salientar como na referência à autora de Mar Novo encontramos, em ligação estreita, a recordação do épico e a evocação perene da liberdade.



ESTA É A MADRUGADA QUE EU ESPERAVA
Se lembramos como Camões tem sido ao longo da nossa história símbolo da liberdade, desde antes de 1640 ou no período final do século XIX, no centenário de 1880, temos de ter presente como Sophia simbolizou a voz corajosa de “vemos, ouvimos e lemos, não podemos ignorar” e a proclamação inolvidável - “Esta é a madrugada que eu esperava / O dia inicial inteiro e limpo / Em que emergimos da noite e do silêncio / E vivos habitamos a substância do tempo”. Estão assim evidenciados os ecos da essência poética das nossas raízes, desde os trovadores até às mais recentes gerações, passando pela maturidade da língua na poesia de Camões, Sá de Miranda, Bocage, Garrett ou Antero… “Sophia afirmou em várias entrevistas que foi feliz enquanto aluna do colégio, mas o que mais a marcou foram as aprendizagens recebidas dos avós – e das criadas.  Sólida terá sido a experiência que a levou a memorizar a Nau Catrineta”.  “Lá vem a Nau Catrineta / Que tem muito que contar / Ouvi agora, senhores, / Uma história de pasmar…”. “A transmissão oral dos versos, mesmo antes de saber ler, levaria Sophia a afirmar ter crescido a acreditar que a poesia tinha existência própria, depois de um primeiro contacto com as palavras de Antero de Quental e de Camões que o avô Tomás de Mello Breyner lhe ensinava. E que a pequena Sophia não compreendia ainda, mas reconhecia”. E o avô não lhe poupava elogios: “Admirável na maneira como recita”. “Um assombro”. E acrescentava: “Quando há dias estive no Porto via-a decorar um soneto de Antero de Quental depois de ouvir apenas três vezes. Que encanto de pequena!”. “Com apenas 10 anos, Sophia passeava-se com uma edição dos Lusíadas na algibeira e já fazia furor perante as visitas que ficavam de boca aberta quando a ouviam recitar”. Mais do que o natural orgulho do avô, que conhecera a geração excecional do próprio Antero e que se formara na valorização das raízes do Romanceiro de Garrett, a verdade é que sentimos desde cedo em Sophia a importância da vivência poética, cujo ritmo sentia intimamente, a ponto de afirmar que os três pontos cruciais numa escola deveriam ser: poesia, música e a consciência do corpo, pela ginástica e pela dansa, palavra que escrevia sempre com um s, para que não se perdesse o sentido do movimento. As artes constituíam, assim, o começo de qualquer aprendizagem. “todo o mundo é poético quando visto em verdade. Todas as coisas são maravilhosas quando as compreendemos. E a poesia limita-se afinal a iluminar a verdade, a beleza secreta que há em tudo aquilo que existe” – como afirmava Francisco Sousa Tavares, ao considerar Sophia como alguém “que se adivinha, adivinhando o mundo, para além das aparências e atinge o ritmo secreto, verdadeiro e universal da vida”…


DEPURADA PERSONALIDADE DE POETA
Convergindo com a sabedoria inconformista do Padre Manuel Antunes, mestre da cultura clássica, Sophia encontra nele o elogio da unidade, da concentração e da intensidade de uma “poesia intemporal que revela uma forte e depurada personalidade de poeta”. E a própria esclarece: “A poesia não me pede propriamente uma especialização pois a sua arte é a arte do ser. Também não é tempo ou trabalho o que a poesia me pede. Nem me pede uma ciência, nem uma estética, nem uma teoria. Pede-me apenas a inteireza do meu ser, uma consciência mais funda do que a minha inteligência, uma fidelidade mais pura do que aquela que eu posso controlar. Pede-me uma intransigência sem lacuna (…). Pede-me que viva atenta como uma antena, pede-me que viva sempre, que nunca durma, que nunca me esqueça. Pede-me uma obstinação sem tréguas, densa, compacta” (Arte Poética II). De facto, há um evidente contacto entre o crítico da Brotéria e a artista: “A palavra é dada ao homem para traduzir, interpretar, dizer a realidade que está aí, na sua imediatez, bruta e elementar, diversa e una”. É a busca da coerência da vida que está em causa, tal como encontramos nos Contos Exemplares, quer na figura de Mónica, que em nome do sucesso não renuncia à poesia, ao amor e à santidade; quer em “O Jantar do Bispo” onde o padre (Varzim) diz: “Da nossa própria fome podemos dizer que é um problema material e prático. A fome dos outros é um problema moral”. A atenção e o cuidado eram marcas da coerência de Sophia, bem sentida na casa da Travessa das Mónicas.


UMA BUSCA APAIXONADA
“Nuno Júdice recorda a busca por livros que não faziam parte do programa. Nos intervalos, no Liceu Camões, em Lisboa cambiavam-se conquistas literárias. Ora Guterres chegava dizendo, orgulhoso, que tinha acabado de comprar um exemplar de Sophia, Geografia, ora Cintra trazia o Livro Sexto de presente a Nuno Júdice, aniversariante no mesmo dia do amigo encenador. Procurávamos tudo o que fosse contra a ditadura. Livro Sexto que é importantíssimo, tem muitos textos com forte componente política. Sophia marcou toda aquela geração”. O Centro Nacional de Cultura, depois do encerramento da Sociedade Portuguesa de Escritores, aquando da atribuição do prémio a Luandino Vieira, tornou-se um lugar de desassossego e de jovens poetas que seguiam o exemplo de Sophia e Francisco de Sousa Tavares. E ele mesmo tem a ideia de pedir a sua mulher que assuma a presidência do Centro, uma vez que havia que mobilizar uma nova geração de poetas e escritores, perante a afronta do regime contra a liberdade de criação e a cultura. E havia ainda que cuidar clandestinamente do apoio aos presos políticos, e Sophia era a melhor pessoa para poder assumir-se como necessário polo agregador. É um tempo decisivo que vai preparar a democracia que se anunciava. Numa dedicatória dirá exemplarmente: “Para o Francisco, que me ensinou a coragem, e a alegria do combate desigual”. E como ensinaram os teólogos do Concílio Vaticano II: “Gostar da Terra é gostar da obra de Deus”. E Eduardo Lourenço verifica que a mitologia grega lhe serviu de inscrição para os seus próprios santos, ao culto da beleza e do natural. “Porque é a ética que concilia a imanência e o presente (o instante e a eternidade), as nossas ações compõem o futuro depois da morte. Se não formos capazes de criar o paraíso no dia a dia ele nunca será encontrado”. A cada passo “a paixão helénica” enche o pensamento poético centrado no ser. Já falámos da centralidade da arte na educação, da ética no bem comum, da atenção e do cuidado, do exemplo e da experiência, e sentimo-lo intensamente quando fomos à Escola que tem o seu nome em Carnaxide, tendo Sophia pedido a professores e alunos que representassem de cor A Menina do Mar. E, ao ouvi-los, emocionada, compreendeu quanta esperança há na arte de educar, como modo de fazer da palavra a expressão do ser.


Guilherme d'Oliveira Martins
Oiça aqui as minhas sugestões – Ensaio Geral, Rádio Renascença

A VIDA DOS LIVROS

De 10 a 16 de junho de 2024


Lembrar Camões (1524-1580) é mais do que louvá-lo. É abrir horizontes para a sua obra, no momento em que, no século XVI, foi com ele, que se atingiu a maturidade da língua portuguesa na poesia.


E não é indiferente dizê-lo, uma vez que falamos de um idioma nascido na poesia dos trovadores e que teve no rei D. Dinis o impulsionador que permitiu tornar a língua vulgar língua de cultura e meio de expressão formal para legistas e tabeliães. Essa decisão permitiu que em três séculos tenhamos podido ter com Camões a afirmação das origens do português moderno e no século seguinte a maturidade da prosa com o Padre António Vieira. Este é um caso especial no contexto das línguas europeias, que justifica plenamente que o dia nacional não se refira a uma batalha ou a um acontecimento político, mas a um ato de cultura que é a evocação da vida de um grande poeta. A língua italiana tem em Dante e na sua “Comédia” a definição suprema do paradigma da língua nacional, mas enquanto nesse caso é a unificação política nacional que determina a adoção do idioma, no caso português é a identidade que se afirma originalmente através da língua. O Estado precede a Nação, como apontou Alexandre Herculano, mas é a afirmação da língua que constitui um fator de congregação. E Camões é um símbolo natural de unificação, que constitui corolário de um caminho no qual a afirmação literária e poética assume um papel agregador fundamental. E a maturidade da poesia antecede a maturidade da prosa e da oratória, numa língua que se vai desenvolvendo pela comunicação da palavra. Como lembrou Vítor Aguiar e Silva, António Sérgio, em primeiro lugar deu um fundamental contributo “para a descoberta de um Camões pensador profundo e dramático”; José Régio elaborou uma admirável análise “interpretativa desta dialética do amor e do desejo”; Rodrigues Lapa advogou o regresso ao texto das primeiras edições das “Rimas” e Jorge de Sena foi quem pôde descobrir com a sua fulgurante inteligência teórica e crítica as virtualidades de um poeta que revelou a vitalidade cultural do seu tempo e a força do diálogo cosmopolita da riquíssima experiência renascentista. E a admiração e amor de Jorge de Sena pelo “maior escritor da língua portuguesa e cremos que um dos maiores poetas do mundo”, na sua própria expressão, merecem uma especial atenção (Cf. V. Aguiar e Silva, Jorge de Sena e Camões – Trinta Anos de Amor e Melancolia. Angelus Novus, 2009). Daí a importância da tese segundo a qual “o génio de Camões é um génio abstrato, ou seja, em que se define o universal concreto hegeliano – o qual consiste na unidade do universal e do particular, “que reduz sempre as emoções a conceitos, conceitos que não são ideias, mas a vivência intelectual delas”. Afinal, haveria que olhar Camões à luz da sua verdadeira grandeza e não de qualquer projeção de uma biografia construída, pouco consistente e tantas vezes falsamente imaginada.  E o pecado mortal do biografismo camoniano teria a ver com procurar-se interpretar a poesia do épico a partir de leituras arbitrárias, erróneas e transviadas da vida e obra e da própria poesia de Camões, baseada em muitos poemas apócrifos ou pertencentes a outros poetas. Haveria, assim, um círculo vicioso, desde a utilização de factos supostamente surgidos de modo a justificar as construções biográficas. Daí a importância das revisões críticas de Audrey Bell que visavam desmontar várias invenções tecidas por imaginativos biógrafos. Por isso, Jorge de Sena afirmou em 1951: “Apenas desejo aqui deixar consignada a mais calorosa adesão ao Camões humano que, entretanto, Aquilino Ribeiro tentou, em tão boa hora, ‘desbiografar’, se assim se pode dizer do que não é mais que uma nobre e veemente obra de humanização de um ‘mito’ nacional”. Porém se Aquilino romancearia essa reconstrução, o que importava para Jorge de Sena era essencialmente a necessidade de desconstruir o mito e os ilegítimos aproveitamentos do mesmo…


Como dirá no célebre discurso sobre o Dia de Portugal de 1977, importava «dar a Portugal um Camões autêntico e inteiramente diferente do que tinham feito dele: um Camões profundo, um Camões dramático e dividido, um Camões subversivo e revolucionário, em tudo um homem do nosso tempo, que poderia juntar-se ao espírito da Revolução de Abril de 1974, e ao mesmo tempo sofrer em si mesmo as angústias e as dúvidas do homem moderno que não obedece a nada nem a ninguém senão à sua própria consciência». Jorge de Sena deixava, assim, claro que, «sendo Camões o maior escritor da nossa língua que é uma das seis grandes línguas do mundo e um dos maiores poetas que esse mundo alguma vez produziu (ainda que esse mundo, na sua maioria, mesmo no Ocidente, o não saiba), ele é uma pedra de toque para portugueses, e porque tentar vê-lo como ele foi e não como as pessoas quiserem ou querem que ele seja, é um escândalo».


Para Jorge de Sena, Camões é «o homem universal por excelência, o português estrangeirado e esquecido na distância, o emigrante e o exilado, é em Os Lusíadas e na sua obra inteira, tão imensa e tão grande, a medida do mais universal dos portugueses e do mais português dos homens do universo». Fora de qualquer tentação de autossatisfação ou de ilusão, «ninguém, como Camões, desejou representar em si mesmo a humanidade, representar tão exatamente o próprio Portugal, no que Portugal possui de mais fulgurante, de mais nobre, de mais humano, de mais de tudo e todos, em todos os tempos e lugares». No essencial, «ele é, como ninguém, o homem que viajou, viu e aprendeu. O homem que se sente moralmente no direito de verberar com tremenda intensidade, as desgraças de viver-se e os erros ou vícios da sociedade portuguesa». Eis a legitimidade própria para considerar Camões como um verdadeiro símbolo, em que o sentido crítico sobreleva quaisquer argumentos de oportunidade. José Bento insistia, aliás, em que Sena não se ficava pelo meio – “procurava sempre a totalidade”. Porventura sem querer, ou querendo-o intimamente, Jorge de Sena deixou nesse dia a mensagem fundamental de um grande poeta e ensaísta moderno. Aliás, em “Sinais de Fogo”, obra-prima, apesar de incompleta, que começa no tempo da guerra de Espanha, sentimos “a tensão existencial entre conhecer e o agir, na vida social, amorosa, sexual, desencadeia a criação poética”, como disse João Fazenda Lourenço. E de facto raramente se terão harmonizado, numa mesma personalidade, o poeta, o dramaturgo, o ficcionista, o crítico, o ensaísta, o erudito, o investigador, o historiador da cultura, o professor, o engenheiro, o cidadão do mundo. E, como afirmou ao grande amigo Ruy Cinatti, aos 22 anos, “Viver é coisa de mar, cheira a horizonte. Que mais é preciso? Só é preciso o que existe – eu é que exijo tudo o que existe”. E o discurso da Guarda remata com o apelo para Camões: «Leiam-no e amem-no: na sua epopeia, nas suas líricas, no seu teatro tão importante, nas suas cartas tão descaradamente divertidas. E lendo-o e amando-o (poucos homens neste mundo tanto reclamaram amor em todos os níveis, e compreensão em todas as profundidades) – todos vós aprendereis a conhecer quem sois aqui e no largo mundo, agora e sempre, e com os olhos postos na claridade deslumbrante da liberdade e da justiça. Ignorar ou renegar Camões não é só renegar o Portugal a que pertencemos, tal como ele foi, gostemos ou não da história dele. É renegarmos a nossa mesma humanidade na mais alta e pura expressão que ela alguma vez assumiu. E esquecermos que Portugal como Camões, é a vida pelo mundo em pedaços repartida».


Guilherme d'Oliveira Martins
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A VIDA DOS LIVROS

  
De 3 a 9 de junho de 2024


A Desoras – diário – 2017-2023
(D. Quixote) é o sexto volume dos diários de Marcello Duarte Mathias, publicados sob o título geral de No Devagar Depressa dos Tempos.


METÁFORA DA VIDA HUMANA
O título geral destes Diários lembra-nos o extraordinário conto de João Guimarães Rosa “A terceira margem do rio”, onde, no percurso da narrativa, o genial autor nos diz a dado passo, que “Os tempos mudavam no devagar depressa dos tempos”. A escolha do conto e da passagem não foi arbitrária, pois essa terceira margem é uma metáfora sobre a vida humana, talvez hoje com uma pertinência mais evidente, permitindo a compreensão do mundo por um memorialista de exceção que nos fala do tempo e das pessoas sempre sob a tónica da procura de uma outra dimensão para além do lugar-comum, representado pelas duas margens do rio. Como tem salientado Paula Morão, a quem este volume é justamente dedicado, o escritor continua a deixar-nos preciosos fragmentos autobiográficos que se referem não apenas a si próprio, mas também a quem o rodeia. E a paixão pela História corresponde, no fundo, à necessidade de a compreender a partir dos pequenos pormenores, dos microcosmos, único modo de dar um panorama geral que nos liberte do momentâneo ou daquilo que a evolução das coisas vai desvanecendo irremediavelmente. É real a observação do “verso e reverso das coisas e dos dias: livros, citações, lembranças – entre viagens, amizades e desaparecimentos”. De facto, há uma permanente busca das raízes, das luzes e das sombras e da razão de ser dos acontecimentos, que constituem verdadeiros mestres interiores do autor, para usar a expressão clássica de Mounier.


NUNCA ESCREVEMOS AQUILO QUE SOMOS
“Somos sem dúvida aquilo que escrevemos e, todavia, nunca escrevemos aquilo que somos” – disse-nos Marcello Mathias, em tempos, no primeiro volume destes diários. Hoje, continua a pensar do mesmo modo e tem razão, mas é levado a acrescentar: “acabamos também por nos tornar naquilo que deixamos escrito, especialmente em textos de índole intimista, pois quer queiramos quer não, somos o que fomos, sobretudo o que nos foi dado viver (…) Sim, para lá de uma cronologia, somos por igual uma série de datas que constituem outras tantas linhas-fronteiras do nosso percurso”. E precisamos da presença de espírito para não nos deixamos apanhar pelas armadilhas da vida. A cada passo notamos nestes diários a capacidade de estar desperto para olhar o horizonte e para ver o outro lado das coisas, para além do que está na ordem do dia. E não podemos esquecer as ironias do destino, como é recordado a propósito do caso de Giuseppe Tomasi di Lampedusa, autor de um dos grandes romances do século XX, O Leopardo, recusado em vida pelos maiores editores, e que poderia ter ficado, por um triz, esquecido no fundo de uma gaveta. Morreu esquecido e só depois se tornou celebrado. E quantos casos desses nunca tiveram um desenlace favorável? A História está à mercê de vicissitudes absurdas, ditadas pela pura ilusão ou pela incapacidade de ver para além da escuridão de um canto esconso.


COMPREENDER O VERDADEIRAMENTE IMPORTANTE
Como compreender o que é realmente importante? E Marcello D. Mathias lembra-nos uma série dedicada no “Le Monde”, por Jean Birnbaum, a figuras marcantes do seu tempo, como Albert Camus, Hannah Arendt, George Orwell, Raymond Aron e Georges Bernanos. Talento, cultura e carácter – todos eles espíritos de exceção. E aí se realçavam qualidades como a capacidade de admirar, a consciência dos limites, a pluralidade infinita da condição humana, o gosto da liberdade, a recusa do slogan e da servidão ideológica, a necessidade de preservar a ética do justo e do verdadeiro, a simplicidade aliada à autenticidade, a apreensão do real em toda a sua complexidade, o decifrar das contradições, sem desconhecer a pulsão das forças irracionais, o heroísmo da incerteza, o sentido do humor, como coragem e distanciamento. Eis as virtudes que entusiasmam o memorialista. “O culto da nuance é um ato de bravura”. E Bernanos afirma claramente que escrevia para se justificar. Aos olhos de quem? Da criança que foi. “Moral da história: as imposturas e os impostores têm a vida curta e a decantação do tempo acaba, em regra, por selecionar quem merece sê-lo”. Dir-se-ia que aqui encontramos assim o denominador comum de um pensamento e de uma atitude perante a existência. Recordando um amigo comum, Alberto da Costa e Silva, embaixador e intelectual de exceção, evoca as suas memórias, e a afirmação de que “a imaginação vai alterando com o tempo o entrelaçado da lembrança”. De novo, o elogio de uma atitude essencial. A escrita tem capacidade de alterar o tempo. E essas são memórias que correspondem àquela “galeria de livros-depoimentos que não vêm nos manuais escolares, mas que pertencem ao mais íntimo da nossa biblioteca, integrando ao lado de outros a nossa pessoalíssima família”. E assim se recorda um excelente companheiro e a sua ironia, lâmina fina, que lembrava um florete pela leveza e precisão… Acompanhamos, a cada passo, o que o autor vai partilhando connosco – dúvidas, angústias, prazeres e preocupações, os passeios matinais com o saudoso Charlie, que conhecemos com expressão simpática na badana do livro. “Em regra a passagem do tempo cimenta, solidifica, congrega. A doença de Alzheimer perfaz o caminho contrário afasta, separa, desune. Onde se está, afinal? Simplesmente alhures, entre desconhecidos”. Mas há pequenos milagres que se usufruem de modo inesperado, como a natureza que renasce, o cheiro da erva molhada, depois da chuva, as padarias ao abrir do dia, o pão quente…  E compartilhamos gostosamente a divisa do Conde de Ficalho, autor dessa pequena maravilha que é o Conto do Malhadeiro: “Sei andar só e a pé”…  E há o barulho do mundo. Perante os tremendos acontecimentos no leste europeu, independentemente de todos os riscos e incertezas, Marcello tem razão: “hoje Putin é um homem acossado, à cabeça de um país enfraquecido, sujeito a um conjunto de imponderáveis que não domina: a situação militar no terreno, as relações com a China, o empobrecimento da Rússia devido à severidade das sanções, etc. E não se vislumbram soluções favoráveis. Porque não as há. É o proverbio grego: ‘O carvão quando quente, queima as mãos; frio, suja-as’”. Afinal, e a desoras (com o tempo fora do tempo), procuramos compreender-nos e compreender o que dura e o que passa. E é verdade o que o autor nos diz sobre todos quantos connosco viveram e já não os temos próximos. “Minha infância, embora se situe para lá do tempo ainda não morreu”. Por absurdo que pareça assim é. Eis o grande enigma da vida. E se pensamos na relação entre a vida e a literatura podemos dizer, sem hesitar: “Afinal, feitas as contas, ninguém morreu”.   


Guilherme d'Oliveira Martins
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A VIDA DOS LIVROS

  

De 27 de maio a 2 de junho de 2024


Ao terminar em 23 de maio a celebração do centenário do nascimento de Eduardo Lourenço, a Gradiva acaba de publicar “Eduardo Antes de Ser Lourenço – Textos de Juventude” coordenado por Luciana Leiderfarb, um conjunto dos primeiros textos do ensaísta.

 


Falaremos oportunamente da obra, assim como da nova edição de “Do Colonialismo como nosso Impensado” – com organização de apresentação de Margarida Calafate Ribeiro e Roberto Vecchi. Hoje publicamos parte de um ensaio sobre a relação do ensaísta com Antero de Quental no período de Vila do Conde vivido pelo poeta.


«Aqui as praias são amplas e belas e por elas passeio ou me estendo ao sol com a voluptuosidade que só conhecem os poetas e os lagartos adoradores da luz». É Antero que o confessa a João de Deus, em 13 de janeiro de 1882. Desde os finais do ano anterior mudara-se ao encontro de paz, sossego e da proximidade dos seus amigos mais próximos. «Fixei atualmente a minha residência em Vila do Conde, terrinha antiga, plácida e campestre, muito ao sabor dos meus humores de solitário» - diz a João Machado de Faria e Maia. «Vivo aqui como um verdadeiro ermita» (2 de janeiro). Sentia-se bem e confessara a Jaime Batalha Reis, nos últimos dias de outubro de 81: “Eu aqui consigo uma coisa rara, prodigiosa: dormir. Faço-o como se fosse a coisa mais natural deste mundo! Veja se não hei de considerar esta terra, além de maravilhosa, salvadora».


De facto, na vida de Antero, há um tempo e um “espírito de Vila do Conde”, que merece atenção especial. E se a relação de Eduardo Lourenço com a memória de Fernando Pessoa é especialmente relevante, a ponto de podermos dizer que é a descoberta do mistério fundamental dos heterónimos um dos maiores contributos do ensaísta para o conhecimento do modernismo português no seu conjunto, o certo é que há com Antero de Quental um elo incindível que ilumina todo o fascínio que a obra do autor de Psicanálise Mítica do Destino Português nos reserva. É, realmente, o poeta de Odes Modernas que constitui referência fundamental para o entendimento da raiz de Heterodoxia, o que leva entender-se justamente que Eduardo Lourenço é um herdeiro legítimo da Geração de 70.  Como, aliás, está afirmado e reafirmado, há uma presença indelével do tema matricial das Causas da Decadência dos Povos Peninsulares, nas duas visões complementares que o ensaísta considera, a da segunda Conferência do Casino de Antero e a da releitura de Oliveira Martins na História da Civilização Ibérica. Com efeito, podemos dizer que a marca desses dois textos está claramente presente quando Eduardo Lourenço se demarca de uma interpretação tradicional da cultura portuguesa, marcada a um tempo pelos ecos das glórias antigas e pelo peso do decaimento moderno. No fundo, reinterpretando Antero e Oliveira Martins, Eduardo chega a um enigma subjacente à Mensagem segundo o qual o destino português está marcado pela revelação crítica dos mitos, marcados pelos dois textos. Se o Fernando Pessoa não esconde a importância que reconhece à herança poética de Antero, deixa na penumbra a influência de Oliveira Martins na interpretação deste relativamente ao auge da afirmação histórica da dinastia de Avis e de Os Filhos de D. João I. E Eduardo Lourenço não tem dúvidas de que na Mensagem, a matriz fundamental utilizada por Fernando Pessoa corresponde à leitura que fez do autor da História da Civilização Ibérica. Como diz Eduardo Lourenço: “Em sentido próprio só com Oliveira Martins e a partir de Oliveira Martins, Portugal é história e tem a sua História. À perceção do destino português como ‘epopeia’ (transcendente ou positiva), Oliveira Martins opôs a ideia do nosso destino como ‘drama’ permanente e ambíguo. A integração do ‘mito’ no discurso histórico separa o grande Herculano, homem ainda do século XVIII, de Oliveira Martins, o autêntico romântico. Paradoxalmente, contudo, o discurso histórico do autor de Portugal e o Socialismo se tem o mérito de integrar a sombra no processo épico da visão tradicional, confere-lhe, por outro lado, um perfil fantasmagórico ao separar na escrita dele o plano vital e psicológico do plano material que condiciona o permanente balancear entre euforia e tragédia característico, segundo a sua visão, da nossa peripécia nacional” (Prefácio a Oliveira Martins, Uma Biografia, INCM, 1986, pp 16-17).


Sabemos a importância do período de Vila do Conde e não será demasiado audacioso dizer que, não por acaso, esse momento marcou especialmente a relação entre Eduardo Lourenço e o poeta de Sonetos. Sem sombra de saudosismo, o ensaísta encarou o tempo de Vila do Conde de Antero como uma oportunidade serena, de modo a pensar o inconformismo como atitude necessária, ditada pela tensão entre transcendência e imanência. Por isso, o ensaísta lembra que há entre Antero e Pessoa uma diferença intransponível, entre os sonhos sonhados e as frustrações que os acompanham. “Foi na vida mesma – na sua e na da sociedade que o cercava – que Antero quis realmente encarnar os seus sonhos, não seus apenas, mas os de uma longa utopia humana, sonho de igualdade, de justiça, de fraternidade, todos muito século XIX, que nunca foram – se não ironicamente os de Pessoa. Os sonhos de Pessoa foram, desde a origem assumida e provocatoriamente sonhos, de negação ou viagem numa outra realidade, que aquela que assim chamamos, loucura calma ou arrebatamento proposto como a sabedoria suprema. Como se tivesse nascido, e de facto teve consciência disso, sobre as ruínas do sonho anteriano que mesmo utopia de vida era já a consumação de um desastre (A Noite Intacta, pp. 140-141).


Guilherme d'Oliveira Martins
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A VIDA DOS LIVROS

  
De 20 a 26 de maio de 2024


A décima quarta edição de “Bibliotecando em Tomar” constituiu mais uma vez uma excelente oportunidade para um debate sobre ideias bem como sobre livros e leitura no tema “Hospitalidade e Hostilidade”.


Maio traz-nos “Bibliotecando em Tomar”. É sempre uma emoção regressarmos às ideias que os livros nos trazem. Este ano ocorreu a décima quarta edição do certame e sentimos intensamente a força da língua portuguesa como expressão viva da comunicação entre culturas que partilham um mesmo idioma. A escritora homenageada este ano foi Ana Paula Tavares e sentimos o calor da sua palavra e do seu afeto, lendo e relendo os seus textos, desde a poesia de Ritos de Passagem até às crónicas amargas e doces de O Sangue da Buganvília, onde sentimos que “somos cada vez mais como as buganvílias a florir em sangue no meio da tempestade”. O tema escolhido para esta edição não poderia ser mais apropriado: “Da hostilidade à hospitalidade – Um Caminho de Paz”. A proposta definida há um ano e anunciada por Agripina Carriço Vieira revelou-se de uma atualidade perturbante. As incertezas, os medos, a violência e o ressentimento assaltam o mundo a cada passo, com uma intensidade inequívoca. O étimo comum das duas palavras, de origem indo-europeia, serviu de mote a uma reflexão séria que obriga a pensarmo-nos como seres humanos com sentimentos contraditórios na relação com os outros. O hóspede e o hospedeiro (host) encontram-se a natural tensão entre quem é recebido e quem recebe, num contexto de surpresa e perplexidade. Com afirma a escritora angolana: “A guerra, o abandono e a fome são o pano de fundo de seres que a terra mãe nem sempre adotou como devia. (…) O rosto mais visível da devastação e da guerra tem olhos de criança, tão grandes e espantados como os símbolos solares das pinturas rupestres mais antigas”. E a presença de Ana Paula Tavares permitiu demonstrar a importância do humanismo no diálogo entre culturas diferentes que se confrontam e completam. 


Carmen Tindó Secco e Tania Macedo trouxeram-nos, nesta perspetiva, uma leitura da obra de Ana Paula Tavares assente no apelo permanente a uma fecunda e complexa diversidade, incompatível com qualquer simplificação, desde a arqueologia da vida e da palavra até a um rico universalismo angolanamente sentido. E, na roda do oleiro, a argila amassada simboliza o húmus donde deriva a humanidade. Assim, a reflexão filosófica de José Gil colocou-nos perante o que Derrida considera ser a tensão permanente entre a hospitalidade incondicional e a hospitalidade absoluta, quando entra no nosso desejo o desejo do outro ou quando convertemos o desejo da morte (e da destruição) em desejo de convívio. De facto, a relação entre o hóspede e o hospedeiro é sempre ambígua – porque o estrangeiro é recebido como hóspede ou como inimigo, mercê da desconfiança perante a chegada do outro. E o certo é que a paz perpétua de Kant torna-se irrealizável, abrindo caminho à necessidade de repensar o sistema de relações entre pessoas e culturas, no que podemos designar como reforma profunda da democracia, que permita respeitar as diferenças. Afinal, o outro ao chegar a um novo lugar muda o seu desejo. O hóspede (guest) é refém de quem o convida, tornando-se convidador do convidador, ou seja, o hóspede (host) torna-se o hospedeiro do hospedeiro. E o estrangeiro cristaliza a simbolização o outro. Afinal, todos os homens e mulheres tornam-se estrangeiros, e somos levados a agir perante os outros segundo essa consideração hipotética. Ser amável para com o estrangeiro será assim ser amável para com qualquer pessoa com a qual podemos encontrar-nos. E a hospitalidade revela-se vital como remédio eficaz contra a hostilidade. Estaremos sempre em dívida para com o outro quando o encontramos e a hospitalidade comum jamais é suficiente, tendo de ser analisada na perspetiva da hospitalidade absoluta e da hospitalidade incondicional. E José Gil põe-nos perante o dilema permanente entre os dois termos da situação. Eis como uma aparente contradição assume a naturalidade da imperfeição humana, num contexto de imanência que obriga a cuidar da vontade e da determinação na recusa da indiferença e no compromisso sempre incompleto entre seres humanos livres e iguais em dignidade e direitos.


E ao longo das reflexões que nos foram oferecidas em Tomar em dias de intensa reflexão foi possível afirmar o que José Carlos Seabra Pereira, neste ano de Camões, generosamente, voltou a considerar sobre A Cultura como Enigma, colocando os livros e as bibliotecas na encruzilhada entre as diferentes gerações da humanidade, numa comunicação mágica entre nós e os autores que lemos e ouvimos, que se projeta para além da passagem momentânea do tempo. E poderíamos ouvir, de novo, Ana Paula Tavares a dizer “Não posso escorregar na emoção fácil que a saudade e a distância criam”. De facto, o grande enigma desse grande caleidoscópio que é a cultura e a arte exprime-o Dante no termo da jornada paradisíaca: “ânsias e vontades era a movê-las, já como roda por igual movida, / o amor que move o sol e as mais estrelas”… E celebrar Camões significa compreender a nossa cultura antiga, cujas raízes nos conduzem à atualização permanente e a uma noção de património vivo. E nada melhor do que o prolífero autor de uma lírica inesgotável e atualíssima, duma dramaturgia bem presente e de uma épica que nos faz reviver uma aventura coletiva que ombreia com Homero e Virgílio, com Ulisses e Eneias, para podermos entender o cerne desse enigma inconfessável da cultura. Centrado no triângulo essencial Educação, Ciência, Cultura, “Bibliotecando” pôde ouvir ainda em diálogo vivo os testemunhos de Eduardo Barroso, Pedro Simas e Sandra Barão Nobre pondo a tónica na experiência inesperada de uma humanidade que se confrontou num tempo relativamente curto com uma crise financeira, a ilusão de uma riqueza aparente, e uma inesperada pandemia, com um confinamento longo e angustiante e o surgimento de vacinas eficazes, tudo isso seguido da ocorrência de uma guerra que parece multiplicar-se e da emergência de um populismo que ameaça a racionalidade, a ponderação e a reflexão. Todavia, se a paz perpétua de Kant parece distante – o diálogo entre as culturas revela-se urgente, como bem deixaram evidente, num rico encontro sobre o primado da humanidade, Ana Paula Tavares, João de Melo e Alice Neto de Sousa. E correndo as palavras como as cerejas Ricardo Cruz, Álvaro Laborinho Lúcio, Alexandre Castro Caldas interrogaram-se oportunamente sobre a Inteligência Artificial e o progresso científico. Graça Capinha e Joaquim Arena falaram sobre a Língua como espaço necessário de encontro da Humanidade; além da participação de Marco Daniel Duarte, Rita Gaspar Vieira, Afonso Seixas-Nunes, Isabel Baltazar e Vasco Becker-Weinberg numa convergência da sensibilidade, da arte e da espiritualidade, na vivência da ideia que a Biblioteca mais intensamente nos traz – a conexão entre criatividade e a capacidade de compreender.     


Guilherme d'Oliveira Martins
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A VIDA DOS LIVROS

  
De 13 a 19 de maio de 2024


«Filosofia Medieval – Uma Introdução Histórica e Filosófica» de John Marenbon (Gulbenkian, 2024) é a mais recente publicação da reconhecida Coleção dos Clássicos, permitindo um conhecimento de um dos períodos mais ricos e complexos da história europeia.


Filosofia Medieval
 de John Marenbon (Gulbenkian, 2024) oferece um relato sintético e abrangente sobre a história da filosofia na Idade Média, referindo os principais escritores e ideias daquele período histórico, envolvendo os contextos sociais e intelectuais e os principais conceitos a considerar. O Professor John Alexander Marenbon (1955) é um prestigiado filósofo britânico, Fellow do Trinity College da Universidade de Cambridge e membro da British Academy. Exerceu a docência ou realizou conferências na Sorbonne, na Universidade de Toronto, no Vaticano e em Beijing. Tem vasta obra publicada, avultando a conferência “De quando foi a Filosofia Medieval” (2011) e “Pagans and Philosophers. The problem of paganism from Augustine to Leibniz”, Princeton University Press 2015. Esta introdução fornece um relato cronológico que trata das quatro principais tradições da filosofia que derivam da herança grega da Antiguidade tardia (filosofia cristã grega, filosofia latina, filosofia árabe e filosofia judaica); inclui secções de «estudo» focadas nos argumentos e «interlúdios» mais curtos que apontam para questões mais amplas do contexto intelectual; combina a análise filosófica com antecedentes históricos; incluindo um guia detalhado e útil para leitura adicional e uma extensa bibliografia, atualizada para esta edição. A tradução foi coordenada por José Meirinhos.


Foi Boécio, filósofo do século VI, quem definiu pessoa humana como “substância individual de natureza racional”. A citação do pensador romano na declaração sobre a dignidade humana permite-nos fazer a ligação, numa inserção plural, da obra agora publicada à declaração “Dignitas Infinita” sobre a Dignidade Humana, elaborada durante cinco anos e publicada em março de 2024 pelo Dicastério para a Doutrina da Fé, pondo a tónica na dimensão universal, filosófica e antropológica, do respeito pela pessoa humana enquanto fator de salvaguarda dos direitos humanos, do primado da justiça e do reconhecimento de que todos os seres humanos como livres e iguais em dignidade e direitos. De facto, importa enfatizar «o caráter único da pessoa humana, incomensurável em relação aos outros seres do universo» (DI, 14). Assim se pode compreender o modo como é usado o termo dignidade na Declaração Universal das Nações Unidas de 10 de dezembro de 1948, onde se fala «da dignidade inerente a todos os membros da família humana e dos seus direitos, iguais e inalienáveis». Apenas esse caráter inalienável da dignidade humana permite que se fale de direitos da pessoa humana na sua plenitude. Contudo, para melhor esclarecer o conceito de dignidade, deve tornar-se claro que esta não é concedida à pessoa humana por outros seres humanos, a partir de seus talentos e qualidades, por isso não pode ser perdida ou retirada por decisão aleatória. A dignidade é, pois, intrínseca à pessoa. «Em consequência, todos os seres humanos possuem a mesma dignidade, independentemente de serem ou não capazes de exprimi-la adequadamente» (DI, 15). Assim, o Concílio Vaticano II refere a «eminente dignidade da pessoa humana, superior a todas as coisas e cujos direitos e deveres são universais e invioláveis». E para a Declaração conciliar Dignitatis humanae, «os seres humanos tornam-se sempre mais conscientes da própria dignidade, crescendo o número daqueles que exigem poder agir por iniciativa própria, com a sua liberdade responsável, movidos pela consciência do dever e não obrigados por medidas coercivas».  Assim, a liberdade de pensamento e de consciência, individual ou comunitária, é baseada no reconhecimento da dignidade humana «como foi dada a conhecer pela Palavra de Deus revelada e pela própria razão». 


Infelizmente, há numerosos mal-entendidos sobre o conceito de dignidade, que distorcem o seu significado. Longe de uma abstração devemos insistir no facto de se tratar da dignidade de cada pessoa humana, “para além das circunstâncias”, reconhecendo-se ao ser humano uma dignidade que não se perde mais, sendo possível garantir a tal qualidade um inviolável e seguro fundamento, que não oscila à mercê de diferentes e arbitrárias avaliações, pois «os direitos da pessoa são direitos do ser humano». Assim, a dignidade não se identifica com uma liberdade isolada e individualista. A defesa da dignidade do ser humano é fundada em exigências constitutivas da natureza humana, que não dependem nem do arbítrio individual, nem do reconhecimento social. Os deveres que resultam do reconhecimento da dignidade do outro e os correspondentes direitos que daí derivam têm, pois, um conteúdo concreto e objetivo, fundado sobre a natureza humana assumida em comum. Desse modo, a dignidade do ser humano compreende a capacidade ínsita na mesma natureza humana, de assumir obrigações em relação aos outros.


Segundo nos lembra o Papa Francisco, «devido à sua dignidade única e por ser dotado de inteligência, o ser humano é chamado a respeitar a criação com as suas leis internas. [...] Por isso o homem deve respeitar a bondade própria de cada criatura, para evitar um uso desordenado das coisas». E assim, a vida humana torna-se incompreensível e insustentável sem as outras criaturas. Pertence, por isso, à dignidade humana o cuidado com o ambiente, considerando em particular a ecologia humana que lhe preserva o próprio existir. Importa ainda salientar que um dos fenómenos que contribui consideravelmente para negar a dignidade de tantos seres humanos é a pobreza extrema, ligada à desigual distribuição da riqueza. De facto, «continua “o escândalo de desigualdades clamorosas”, em que a dignidade dos pobres é duplamente negada, seja pela falta de recursos à disposição para satisfazer as suas necessidades primárias, seja pela indiferença com que são tratados por aqueles que vivem a seu lado» (DI, 36).


Outra tragédia que atinge a dignidade humana é o prolongamento da guerra, hoje como em todos os tempos. E o Papa Francisco sublinha, que «não podemos mais pensar na guerra como solução. Diante desta realidade, hoje é muito difícil sustentar os critérios racionais maturados em outros séculos para falar de uma possível “guerra justa”. «Aqueles que invocam o nome de Deus para justificar o terrorismo, a violência e a guerra não seguem o caminho de Deus: a guerra em nome da religião é uma guerra contra a própria religião. Também os migrantes estão entre as primeiras vítimas das múltiplas formas de pobreza. E é urgente recordar que «cada migrante é uma pessoa humana que, enquanto tal, possui direitos fundamentais inalienáveis que devem ser respeitados por todos em todas as situações». O seu acolhimento é um modo importante e significativo de defender «a inalienável dignidade de toda pessoa humana para além da origem, da cor ou da religião». O tráfico de pessoas, os abusos sexuais, a violência contra as mulheres, o recurso ao aborto, a maternidade de aluguer, a eutanásia e o suicídio assistido, o desrespeito pelas pessoas com deficiência, a violência digital e tecnológica são violações graves da dignidade humana. E urge ainda reafirmar que cada pessoa, independentemente da própria orientação sexual, deve ser respeitada na sua dignidade e acolhida com respeito, evitando “toda marca de injusta discriminação” e particularmente toda forma de agressão e violência.


É nesse espírito que, com referida Declaração, a Igreja Católica exorta a colocar o respeito pela dignidade da pessoa humana, para além de toda circunstância, no centro dos esforços pelo bem comum e de todo o ordenamento jurídico. “O respeito pela dignidade de cada um e de todos é, de facto, a base imprescindível para a existência mesma de cada sociedade que se pretende fundada sobre o justo direito e não na força do poder. Sobre a base do reconhecimento da dignidade humana se sustentam os direitos humanos fundamentais, que precedem e fundam toda convivência civil” (DI, 64). E Pedro Mexia tem razão ao afirmar que, “a dignidade vale mais do que a identidade” (Expresso, 10.5.2024). Não que esta não seja importante, mas é a dignidade da pessoa humana que se torna pedra angular de qualquer entendimento identificador, até pela importância da compreensão de que urge distinguir para unir… “É importante que um entendimento acerca do humano seja tão ambicioso quanto judicioso. E que esteja atento às formas de desumanização, as novas e as antigas”.


Guilherme d'Oliveira Martins
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A VIDA DOS LIVROS

  

De 6 a 12 de maio de 2024


A publicação da obra de Jürgen Habermas Uma Outra História da Filosofia – I – A Constelação Ocidental da Fé e do Saber, com tradução de José Lamego (Gulbenkian, 2024), constitui um acontecimento assinalável.



A publicação na coleção dos clássicos da Fundação Calouste Gulbenkian da obra de Jürgen Habermas Uma Outra História da Filosofia – I – A Constelação Ocidental da Fé e do Saber, com tradução de José Lamego, constitui, de facto, um acontecimento assinalável, incompatível com uma apreciação superficial de algo profundamente pensado pelo seu autor, que é hoje “indubitavelmente o filósofo alemão com maior projeção e o modelo, por excelência, do ‘intelectual público’ intervindo regularmente na imprensa”, com participação marcante nos principais debates sociais e políticos. Ao pôr mãos à obra na História da Filosofia, começa por se perguntar que sentido têm hoje as bem conhecidas perguntas de Kant: “Que posso saber?”, “Que devo fazer?”, “Que me é permitido esperar?” e “O que é o homem?”. E confessa não estar seguro sobre se a filosofia, tal como a conhecemos, ainda tem futuro. “Tal como todas as disciplinas, a filosofia segue a tendência de um acréscimo contínuo de especialização”. Nuns casos presta serviços analíticos e conceptuais para as ciências cognitivas, noutros há uma fragmentação perante a crescente necessidade de aconselhamento nos campos da economia, da bioética e da ética ambiental.  Ora, se para as ciências em geral a especialização corresponde a um progresso, para a filosofia não pode perder-se a visão de conjunto. Ora, ao dirigir-se ao todo, a filosofia não pode aspirar a uma visão metafísica nem a uma perspetiva científica. “A questão que me move (diz Habermas) é a de saber o que restaria da filosofia se ela (…) não procurasse contribuir para o esclarecimento racional da compreensão que temos quer de nós próprios, quer do mundo – esta disjunção sublinha precisamente a temática que, com o avanço da especialização, ameaça acabar por se desvanecer”. E assim o acréscimo do conhecimento do mundo exige a referência ao todo, evitando tentar saber mais sobre cada vez menos.


A FILOSOFIA COMO COMPREENSÃO
A filosofia não pode resignar-se perante a crescente complexidade da nossa sociedade e do nosso conhecimento, devendo encorajar os nossos contemporâneos a fazerem o uso autónomo da razão para terem um papel positivo no moldar da sua existência social. Como usar a nossa liberdade racional? Para Habermas, a filosofia apenas pode assegurar a independência do seu julgamento mediante uma autorreferência de natureza histórica – assumindo uma configuração pós-metafísica, segundo a qual a emancipação com vista ao uso da liberdade racional significa ao mesmo tempo, libertação e vinculação normativa. “O afastamento pós-metafísico da crença numa justiça redentora ou ‘salvífica’ permite ter em conta a disponibilidade para a cooperação que os sujeitos socializados em termos comunicacionais devem esperar com vista a fazerem o uso da sua liberdade racional”. Eis a preocupação que ocupa o filósofo nesta sua reflexão panorâmica sobre a fé e o saber, na procura de um fio condutor para encontrar a genealogia de um pensamento pós-metafísico, que mostre como a filosofia se apropriou de conteúdos essenciais das tradições religiosas e se transformou num saber suscetível de fundamentação. Importa, assim, assumir uma atitude de abertura e de diálogo, envolvendo a fé e o saber, com disponibilidade para uma aceitação recíproca de pontos de vista. Daí a demarcação de uma atitude secularista esclerosada, urgindo um diálogo como o que o filósofo entabulou com Johann B. Metz, com evidentes frutos positivos. E essa perspetiva genealógica obriga não apenas a evidenciar as circunstâncias contingentes, a que conduziram os processos de aprendizagem, mas também a insistir nos argumentos a favor de um conceito compreensivo da razão.


UM PENSAMENTO PONDERADO
Este volume de uma obra longamente ponderada pelo autor, começa por equacionar a questão da genealogia do pensamento pós-metafísico, formulando os cenários de crise e do declínio das grandes teorias filosóficas do século XX, até à pretensão de universalidade do pensamento pós-metafísico, continuando na análise das raízes sacrais das tradições do “período axial” de Karl Jaspers – ou seja, o eixo em torno do qual a rotação da história universal como que se acelerou, cerca de 500 a.C., com inerente transformação da consciência religiosa. Daí a necessidade de uma comparação provisória das imagens do mundo nesse período axial, prosseguindo na análise da simbiose da Fé e do Saber no Platonismo cristão e do surgimento da Igreja Católica Romana e da diferenciação progressiva entre Sacerdotium e Regnum, com os desafios colocados por Aristóteles à teologia do século XIII, com as respostas de Tomás de Aquino e a ontologização da ética aristotélica, com consequente transformação da filosofia prática. E o presente volume culmina com as reorientações filosóficas conducentes à modernidade científica, religiosa e político-social. Duns Escoto introduz a mudança de paradigma e Guilherme de Ockam opera a “revolução nominalista”, aproximando-nos da teoria funcionalista do poder estadual, representada por Nicolau Maquiavel, preocupado com a unificação italiana e por Francisco de Vitória com a necessidade de aperfeiçoar a legitimação. Para Maquiavel, com base no exemplo da República Romana, importaria considerar a convergência entre a estabilidade do poder e as qualidades do Estado, da sociedade e da população suscetíveis de legitimar o regime republicano. Este, para ser virtuoso, não depende da liberdade, da moralidade, da razão política dos cidadãos, mas da estabilização das instituições. Deste modo, os problemas da legitimação são subalternizados em relação aos problemas de estabilização do poder. Maquiavel negligencia, porém, a relação entre o poder político e o direito. Mas dois acontecimentos vão obrigar a reequacionar o pensamento jusnaturalista cristão: a chamada guerra dos camponeses e a inclusão colonial de povos pagãos.


UMA EVOLUÇÃO RICA
A guerra dos camponeses representa para o Império, para os territórios dos príncipes locais e para os domínios eclesiásticos o prelúdio da dissolução do poder temporal da Igreja, com passagem do domínio fundiário senhorial para as relações jurídicas modernas e para o direito à propriedade privada. Já Francisco Vitória afirma em De Indis que os “bárbaros”, se antes da chegada dos espanhóis tinham o dominium sui et rerum, não lhes poderia ser negado o direito de disporem livremente de si e das suas propriedades, devendo ser considerados pessoas jurídicas autónomas, não havendo o direito de os subjugar, devendo a fé cristã ser livremente assumida com base na convicção. Antecipa-se, deste modo, o conceito moderno de autonomia individual. Por isso, haveria que favorecer compromissos devidamente esclarecidos. No entanto, haveria que justificar a legitimidade do poder colonial, pelo que, forçando a nota, a guerra e a submissão colonial acabariam por se justificar pela resistência à incorporação dessas comunidades no sistema de domínio colonial… Habermas dá-nos, assim, nesta obra fundamental, uma visão compreensiva da evolução da filosofia contemporânea como fator de autonomia e de responsabilidade.


Guilherme d'Oliveira Martins
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A VIDA DOS LIVROS

  
De 29 de abril a 5 de maio de 2024


Neste ano de Camões, em que assinalamos a comemoração dos 500 anos do nascimento do nosso maior poeta, iniciamos a publicação de textos que pretenderão dar a conhecer melhor uma figura que os portugueses conhecem mal, em toda a sua importância e originalidade. Deste modo, mais do que repetirmos o que tem sido dito, pretendemos dar ao grande poeta o lugar a que tem direito na língua comum falada por duas centenas e meia de cidadãos do mundo.
 


Camões é um todo inesgotável que, se soubermos lê-lo, nos enche de ventura, não sendo por acaso símbolo pátrio. A sua obra multifacetada está na encruzilhada das grandes componentes culturais das nossas letras. A lírica é inultrapassável, na tradição trovadoresca, a épica ombreia com a melhor tradição clássica, e todos os géneros que o autor pratica são seguramente cultivados, sempre com mestria. E até o fino humor é usado com a melhor ironia, como no delicioso episódio de Fernão Veloso… Não admira o verdadeiro culto que lhe votava Jorge de Sena, sempre com tão exigentes critérios de julgamento. Vítor Aguiar e Silva e Vasco Graça Moura demonstram a suprema valia, a cada passo verificável. Infelizmente a leitura de Camões não tem sido servida pela melhor pedagogia. Seja na lírica, seja na épica, devemos procurar entrar pela porta grande. Basta ler com olhos de ver e sem tentações formalistas. Com sólida formação e conhecimento da vida e do seu tempo, embrenhou-se não só na existência comum do seu tempo, mas também na cultura greco-latina como nenhum dos nossos escritores e, segundo Rodrigues Lapa, teve “a felicidade de viver e ser criado num tempo excecional, em que as disciplinas humanísticas, trazidas até cá por grandes professores, florescia entre nós intensamente”.


Oiçamo-lo: “Busque Amor novas artes, novo engenho, / para matar-me, e novas esquivanças; / que não pode tirar-me as esperanças, / que mal me tirará o que eu não tenho…”. São inesgotáveis a força, a sensibilidade, o ritmo, o génio, a arte, tudo…  Luís de Camões em “Os Lusíadas” apresenta e representa a maturidade poética da língua portuguesa. Toda a obra do épico constitui, assim, oportunidade para lidarmos com uma riquíssima convergência entre os maravilhosos pagão e cristão, servidos pelo domínio exemplar da palavra e da imagem. Só um humanista completo poderá dar-nos o que nele encontramos. Deveremos, por isso, ler Camões nos seus momentos mais marcantes. Centremo-nos em “Os Lusíadas”, poema que se divide em 10 cantos, compostos em oitava rima, totalizando 8.816 versos, na chamada medida nova, predominando os decassílabos heroicos, com a 6ª e a 10ª sílabas tônicas.


“Os Lusíadas” têm cinco partes, segundo a tradição clássica: Proposição, Invocação das Tágides, Dedicatória ao Rei D. Sebastião, Narração e Epílogo. A narração compreende três ações: a viagem de Vasco da Gama, a narrativa da história de Portugal e as intervenções dos deuses do Olimpo. Nos Cantos I e II, narra-se a introdução e o Concílio dos Deuses, para deliberar sobre o destino dos novos Argonautas. Baco é crítico dos portugueses, Vénus e Marte, tomam a sua defesa, com a concordância de Júpiter. Vasco da Gama está no Índico, próximo de Moçambique. Baco, inconformado, instiga o governador de Moçambique contra os portugueses e põe a bordo um falso piloto, mas graças a Vénus, às nereidas, a Mercúrio e à coragem de Gama, os portugueses chegam a Melinde. No Canto III, começa o relato ao rei Melinde da história de Portugal, “onde a terra se acaba e o mar começa” e das origens, de Viriato, da Reconquista, da Primeira Dinastia, da Casa de Borgonha, de Ourique até à morte de Inês de Castro. No Canto IV, prossegue a narrativa, fala-se da revolução de 1383, de Nuno Álvares Pereira, de Aljubarrota, do Mestre de Avis, de Ceuta. E começam os episódios do início da viagem. D. Manuel sonha com os rios Indo e Ganges, a profetizarem sucessos e perigos no Oriente, e pede a Gama que monte a esquadra para concretizar a visão, mas na partida, o velho Restelo previne contra a “glória de mandar e a vã cobiça”. No Canto V, Gama fala do Cruzeiro do Sul, do fogo-de-santelmo, até ao citado relato picaresco do Fernão Veloso. No Cabo das Tormentas, o Adamastor simboliza a superação do medo.  No Canto VI, Baco desce ao palácio de Neptuno e incita os deuses marinhos contra Vasco da Gama, mas Vénus intervém. Veloso entretém os companheiros com a narrativa cavalheiresca dos Doze de Inglaterra. E os navegadores avistam Calicute. Nos Cantos VII e VIII, o samorim determina que o governador receba Gama, que o visita e oferece a amizade dos portugueses. Paulo da Gama esclarece o governador acerca do significado das figuras desenhadas nas bandeiras e conta os feitos dos heróis da pátria. Mas os muçulmanos intrigam, Gama é preso e tem de negociar a liberdade, em troca de mercadoria. Nos Cantos IX e X, depois de diversos incidentes, o samorim ordena que a armada possa levantar ferro e iniciar o regresso. E temos o longo episódio da Ilha dos Amores, já que Vénus decide premiar os navegadores numa ilha paradisíaca. O epílogo do poema contém as lamentações, num tom de desabafo, de Camões por todas as incompreensões sofridas. Mas fica a reflexão sobre a exigência da porfia e do trabalho aturado para se alcançarem os sucessos necessários. Não por acaso, Camões inicia o poema épico citando o início de “A Eneida”: “Arma virumque cano, Trojae qui primus ab oris…”. E, como em Dante, é sob a invocação de Virgílio que se trata o tema sublime relativo à essência da vida humana… Mais do que símbolo pátrio, “Os Lusíadas” apresenta-se, na linha dos grandes clássicos como uma obra sobre o caminho da humanidade no sentido da emancipação e do aperfeiçoamento.


Guilherme d'Oliveira Martins
Oiça aqui as minhas sugestões – Ensaio Geral, Rádio Renascença

A VIDA DOS LIVROS

  
De 22 a 28 de abril de 2024


“Uma Voz na Revolução” (Clube do Autor, 2014). É emblemática a imagem de Francisco Sousa Tavares no Largo do Carmo a dizer que esse dia 25 de Abril de 1974 era o dia mais importante da história portuguesa, desde o dia Primeiro de Dezembro de 1640.


UMA HISTÓRIA EXEMPLAR
A Revolução de 25 de Abril de 1974 constitui um momento especial na História política contemporânea. Soma-se, no caso português, a 1820, 1826, 1834, 1836, 1851 e 1910 – datas marcantes na afirmação do constitucionalismo liberal e democrático. Para Samuel Huntington, Abril de 1974 foi mesmo o começo da Terceira Vaga da Democratização, numa perspetiva global. (Cf. Democracy’s Third Wave, Journal of Democracy, Spring 1991). De facto, entre 1974 e 1990, pelo menos em 30 países operaram-se transições para a Democracia, duplicando-se no mundo o número de governos legitimados pelo primado da lei e pela legitimidade do voto e do exercício. Para o pensador norte-americano, a Primeira Grande Vaga da democratização começou em 1820 com a conquista nos Estados Unidos do reconhecimento da generalização voto masculino, antecâmara do sufrágio universal, com a consagração até 1926 de 29 democracias constitucionais. Contudo, já em 1922, a chegada ao poder de Mussolini em Itália determinou o início de uma reversão de tendência que levou, tragicamente, até 1942, à redução drástica do número de democracias no mundo a apenas 12, na contabilidade de Huntington.


Com o triunfo dos Aliados na II Guerra Mundial iniciou-se a Segunda Vaga da Democratização que atingiu o seu apogeu em 1962 com 36 países governados democraticamente. Apesar de ter ocorrido no período 1960-1975 uma segunda reversão que reduziu a 30 os regimes de liberdade. A Terceira Vaga, que o 25 de Abril de 1974 lançou, tem expressão significativa na Europa, em especial com a transição em Espanha e na Grécia e com o impulso democrático nas Comunidades Europeias, designadamente a partir de final dos anos oitenta com os alargamentos decorrentes da queda do muro de Berlim, do fim da Guerra Fria e da abertura política ocorrida no centro e leste do Velho Continente. Contudo, a situação atual apresenta-se com especial complexidade, uma vez que assistimos a uma nova tendência de regressão, especialmente evidenciada nas tensões manifestadas quer na Europa quer na América… São evidentes hoje as incertezas ditadas pelas Presidências de Donald Trump e de Vladimir Putin, pela crise financeira de 2008, pela Pandemia Covid-19, pelos conflitos da Ucrânia e do Médio Oriente, pela ambiguidade da R. P. da China, pela evolução protecionista na Hungria e na Polónia, pelos efeitos do Brexit, num contexto de polaridades difusas no sistema internacional, que ditam a emergência de paradoxos originados por tensões entre as liberdades políticas, as ineficiências económicas, o agravamento das desigualdades e a afirmação de correntes radicais de sinal contrário, que têm posto em causa a afirmação dos Estados de Direito. A emergência de situações autoconsideradas como democracias iliberais e o desrespeito da legitimidade democrática nas relações internacionais constituem fatores que têm marcado negativamente uma evolução equilibrada e gradualista, de um pluralismo capaz de favorecer o desenvolvimento humano.


UMA CRISE A SUPERAR
Vivemos, pois, um tempo em que as democracias registam uma crise de legitimidade quer pela ausência de mecanismos institucionais de mediação, que permitam aos cidadãos sentirem-se devidamente representados e participantes, quer pela crise demográfica nos países desenvolvidos e pela pressão migratória proveniente dos países menos desenvolvidos do sul. Por um lado, temos a crise do Estado-Providência pelo desequilíbrio entre contribuintes e beneficiários dos sistemas de segurança social, por outro, há as carências de mão-de-obra para empregos indiferenciados que conduzem a uma pressão significativa ditada pelo afluxo de migrantes – com consequências na coesão social e no sentimento de insegurança. Nestes termos, a crise da Democracia tem a ver com a necessidade do estabelecimento de soluções que visem a coesão, a confiança e a estabilidade das sociedades. A sustentabilidade cultural entra, assim, na ordem dia, ligando questões diversas e complexas como a preservação do meio ambiente e as respostas ao aquecimento global, o envelhecimento das populações nos países desenvolvidos, a transição digital, a emergência a Inteligência Artificial e a desmaterialização da economia, exigindo a criação de instituições mediadoras capazes de favorecer a defesa do bem comum, a prevenção da corrupção e do desperdício e a estabilização social. 


COMPROMISSO NECESSÁRIO
Jorge de Sena, num poema de 1971, distinguiu as “verdadeiras revoluções que terminam em compromisso e as que não começam nem acabam” (Poesia III, Moraes, 1978). E foi João Fatela quem lembrou, na revista “Esprit” (1979), as duas razões que podem explicar os compromissos que ritmaram a vida portuguesa. Antes do mais a economia e a sua incerteza e ainda o desejo de salvaguardar e de estender os valores democráticos, que surgem como a conquista fundamental de Abril. Em Portugal, primeiro, houve a tentação radical e depois o compromisso europeu. E a ideia de compromisso constitucional e político apresenta uma dupla face: a estabilização necessária e um conformismo perverso. Eis o dilema. Mas o compromisso permitiu a duração e a continuidade da Democracia. Como salientou Eduardo Lourenço, a questão colonial foi o detonador da eclosão da revolução. “Quando os portugueses regressam a casa, fecham-se como os piratas sublimes com o seu tesouro imperial. E pouco importa que esse tesouro seja um verdadeiro tesouro ou apenas a lembrança de um tesouro perdido. O imaginário português não tem outro centro nem outra circunferência a não ser os desse império sonhado” (Cf. Une Vie Écrite, Gallimard, 2015). E a diáspora portuguesa assumiu toda a sua amplitude com os movimentos migratórios para as Américas e, a partir dos anos sessenta do século XX, para França e para a Alemanha. Assim, a Europa e a Democracia foram as duas faces da mesma moeda, suscetíveis de mobilizar os portugueses no sentido da liberdade necessária. Mário Soares compreendeu perfeitamente a necessidade de ligar estas duas referências num projeto político de abertura e de estabilização que designou com “A Europa Connosco”. Ernesto Melo Antunes, o dirigente militar que assumiu com exemplar coerência o caminho desde o programa do MFA até ao compromisso constitucional, teve um papel fundamental ao afirmar, em 25 de novembro de 1975, quando foi vencida a última tentativa dos militares radicais, que o pluralismo e a democracia deveriam ser defendidos com todas as suas consequências, e sem qualquer exclusão. E João Fatela afirmou: « Se a democracia não se forma sem compromisso, só o exercício coletivo da liberdade o torna possível». A grande lição de Abril, é, deste modo, o que Agustina Bessa-Luís exprimiu ao dizer: «Não se tratava de uma revolução no sentido que cada um desejava dar-lhe, como triunfo de uma classe sobre outra, por exemplo, mas de algo talvez mais profundo, como o fim de um medo milenar e do desprezo de si» («Crónica do Cruzado Osb», 1976). Esta é sem dúvida uma das reflexões mais lúcidas sobre a «revolução portuguesa».


Guilherme d'Oliveira Martins
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