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Blogue do Centro Nacional de Cultura

Um espaço de encontro e de diálogo, em defesa de uma cultura livre e pluridisciplinar. Estamos certos de que o Centro Nacional de Cultura continuará, como há sete décadas, a dizer que a cultura em Portugal vale a pena!

Blogue do Centro Nacional de Cultura

Um espaço de encontro e de diálogo, em defesa de uma cultura livre e pluridisciplinar. Estamos certos de que o Centro Nacional de Cultura continuará, como há sete décadas, a dizer que a cultura em Portugal vale a pena!

A VIDA DOS LIVROS

De 24 de fevereiro 1 de março de 2020

 

“Glória – Biografia de J.C. Vieira de Castro” de Vasco Pulido Valente (Gótica, 2001) – tornou-se um livro de referência na historiografia portuguesa, num importante conjunto de outras obras de um autor que marcou indelevelmente a literatura, o comentário e a ciência da História.

 

 

UM LIVRO DE HISTÓRIA
 Significativamente, o autor começa por deixar claro: “Este é um livro de história. Não é um livro de história a fingir de romance, nem um romance ‘documental’. Convém começar por dizer isto para que não haja confusões. As variantes do positivismo que ainda hoje dominam a disciplina foram reduzindo ao geral e abstrato a investigação sobre o passado”. Em lugar do desinteresse do indivíduo e de um mundo assético, de onde desapareciam a irracionalidade e a imaterialidade da vida, o historiador desta obra apresenta-se a descrever, a partir de uma rigorosa análise dos documentos e dos acontecimentos, a vida tal como a conhecemos. Vasco Pulido Valente procurou na biografia solução para a tal dificuldade que afastava a história e a vida. Por isso, abalançou-se na análise de figuras como o Duque de Palmela, Costa Cabral, Marcelo Caetano e Paiva Couceiro, até que se deparou com um caso muito especial: o de José Cardoso Vieira de Castro (1837-1872). Trata-se de um dirigente académico com alguma importância, um jornalista menor, um escritor sem talento, um político sem poder, e ainda por cima, um criminoso e um degredado. Todos estes elementos permitiram a consideração de alguém que, pelas promessas que representou, pelos meios que frequentou, pela personalidade que tinha, nos revelou um período social, cultural e político extremamente rico, que permite ao leitor adentrar-se no século XIX português tal como foi. E assim, a partir de uma figura dramaticamente célebre, podemos encontrar uma historiografia capaz de entender a complexidade da vida, desde a singularidade de cada um à encruzilhada das relações humanas. “Vieira de Castro não queria perder a vida num remoto canto da província. Queria conquistar Lisboa e o país. Queria glória”. A intenção do historiador foi de ‘mostrar’ como agiam, sentiam e pensavam os portugueses letrados de meados dos século XIX e não de os meter nos seus casulos…” E assim seguimos, passo a passo, as personagens e os acontecimentos, os encontros e os desencontros.

 

UMA AMIZADE FUNDAMENTAL
No caso de Vieira de Castro deparamos com uma ambição que tem a ver com uma carreira política. No ano de 1860, algo de fundamental ocorrera. Camilo Castelo Branco e J.C. Vieira de Castro criaram amizade especial, quando o romancista se refugiou na Casa do Ermo, solar ancestral da família do segundo, por aquele se encontrar em fuga devido aos amores com Ana Plácido, casada com Pinheiro Alves… E lemos “As Memórias do Cárcere”, “no ‘Ermo’ me esperava com os braços abertos e o coração no sorriso José Cardoso Vieira de Castro. Falseei a verdade. Vieira de Castro esperava-me a dormir naquela madrugada dele, que era meio-dia no meu relógio”. Depois, Vieira de Castro escreve a biografia de Camilo, que merece elogios de circunstância de Júlio Dinis. E volta a Coimbra, com a intenção de terminar o curso, enguiçado pelos sucessos do líder estudantil. Mas quando regressa, depara-se com o movimento encabeçado por Antero de Quental, notando-se uma contradição evidente na relação entre ambos. Vieira de Castro pensa na carreira política. Em 1864, o sucesso em Coimbra determina, de facto, a sua candidatura e eleição em 1864 pelo partido Regenerador num sufrágio suplementar para o círculo de Fafe. “Acabara enfim o exílio d’O Ermo, daquela província que o ‘sufocava’. Vieira de Castro podia vir para Lisboa em busca de uma glória que não se comparava aos triunfos de Coimbra, nem às pequenas vitórias de Fafe, nem sequer à meia celebridade que tinha no Porto. No Parlamento e com a retaguarda assegurada por Ferreira de Melo, a sua presa, a sua audiência era o país inteiro”. Vai morar para Santa Catarina, a dez minutos de S. Bento. “As janelas dominavam o Aterro e o Tejo” do Montijo até ao mar: um esplêndido “panorama”. “Como qualquer ‘elegante’ estabeleceu relações de ‘boa sociedade’”. Em abril de 1866 participa num jantar oferecido por Bulhão Pato, onde estavam o visconde de Seabra, Rodrigues Sampaio, o barão da Trovisqueira (a quem Vieira de Castro devia muitíssimo dinheiro), Rebelo da Silva, Francisco Luís Gomes, Eduardo Cabral, Tomás de Carvalho (…), Luís Augusto Palmeirim, Teixeira de Vasconcelos e Ramalho Ortigão”…

 

UM ORADOR ESQUECIDO
Na Câmara dos Deputados evidenciar-se-á a sua verve tribunícia. Depressa o orador ganha notoriedade, que ultrapassa fronteiras e chega ao Brasil. O seu modelo é o grande José Estevão, o mais célebre dos oradores parlamentares. É recebido com honras de triunfador no Brasil, e aí se casa no Rio de Janeiro (em fevereiro de 1867) com Claudina Adelaide Gonçalves Guimarães, filha do comendador António Gonçalves Guimarães, natural de Fafe e um dos diretores do Banco Rural e Hipotecário do Brasil. De regresso a Portugal, a jovem não parece conformada com uma vida provinciana, prefere uma casa na Rua das Flores, onde o casal se instala, recebendo uma tertúlia literária, onde estão Ramalho Ortigão, António Rodrigues Sampaio, e José Maria Almeida Garrett, sobrinho do célebre Garrett. Em 7 de maio de 1870, sábado, Vieira de Castro surpreende a jovem mulher a escrever uma carta a José Maria Almeida Garrett e tudo se precipita e se desmorona. Iludindo uma solução pacífica, para a não deixar fugir, Vieira de Castro mata a mulher, desafiando sem sucesso o jovem literato para um duelo, que este recusa. “Quando se entregou à polícia, a 10 de maio, Vieira de Castro não mediu o horror que o seu crime ia inspirar na ‘opinião pública’. Não acreditava que a sociedade que o aplaudira como um ‘ídolo’, ‘repentinamente o repelisse como um monstro’. Estava, aliás, seguro de que seria absolvido: era vítima, não era o culpado. A Camilo escreveu com toda a frieza: ‘Fizeste bem, ou antes, não fizeste mal em dizer que eu não tenho remorsos nenhuns’. Naqueles primeiros dias só se afligiu com a ruína da sua carreira política. A morte de Claudina não passava de uma desgraça que o privara de um grande e decisivo triunfo”… Em 1871 partiu para Luanda para cumprir a pena de degredo a que fora condenado, de 15 anos. A morte condená-lo-ia apenas um ano depois. O silêncio foi a regra. Poucos o recordaram. Camilo foi exceção: falou do “atribulado mártir” e da “divina Providência que lhe comutara em agonia de instantes o suplício de 15 anos”…

 

Guilherme d'Oliveira Martins
Oiça aqui as minhas sugestões - Ensaio Geral, Rádio Renascença 

A VIDA DOS LIVROS

De 17 a 23 de fevereiro de 2020

 

Homenageamos Luís Santos Ferro (1939-2020), um homem de cultura, conhecedor profundo de muitos domínios das artes e das letras, em especial sobre Eça de Queiroz, de quem era um exímio especialista no sentido mais universal do termo.

 

O LUÍS E O NOSSO QUEIROZ
O Luís Santos Ferro era uma imprescindível companhia. Com ele era um verdadeiro deleite a conversa e sobretudo o deambular no universo romanesco de Eça de Queiroz, que familiarmente designava como o “nosso Queiroz”. Nestes últimos dias já senti a necessidade incontida de lhe perguntar alguma coisa ou de lhe pedir ajuda sobre vários enigmas desse conjunto tão familiar como fascinante e heterogéneo. Infelizmente, deixou-nos inesperadamente. Estivemos a última vez juntos num inolvidável concerto na Gulbenkian, e encontrávamo-nos nas sessões mensais do Conselho Literário do Grémio. A sua formação de engenheiro tornou-o uma simbiose inesquecível entre o rigor e a liberdade de espírito. Quando recebia um livro novo de referência, apressava-se a verificar se tinha um índice onomástico, e perante a sua falta tão comum, infelizmente (contra mim falo), era absolutamente demolidor, uma vez qua a falta desse precioso auxiliar limitava drasticamente a plena utilidade da obra. Os seus amigos sabiam que a obra queiroziana não tinha para si segredos. A partir da dúvida metódica, ele próprio era sistematicamente interrogativo. Na sua perceção de privilegiado observador desejava evitar que faltasse alguma coisa, que não desejava perder. De facto, como bem sabia, quando se lê ou relê uma obra, há sempre qualquer coisa, um pormenor, uma ninharia, que não topamos no momento próprio e que se revela fundamental. Que é a literatura senão a chave para entendermos a vida e o seu sentido? Mas não era apenas José Maria Eça de Queiroz que estava em causa, era o tempo e a História, eram as artes e os valores. Por outro lado, era um extraordinário melómano, no sentido mais rico da palavra. Se dúvidas houvesse, bastaria visitar o extraordinário inventário de referências musicais na obra queiroziana, que se encontram no seu artigo integrado no Dicionário coordenado pelo Arquiteto A. Campos Matos. E aí encontramos não só é o conhecimento profundo da criação literária de Eça, mas também a ligação exata às mais difíceis referências artísticas e musicais.

 

CICERONE EXÍMIO
Tendo como cicerone o Luís Santos Ferro, a compreensão de qualquer um dos romances de Eça ou da sua obra tornava-se motivo do maior fascínio, numa descoberta para além do que é comum encontrar-se. Por exemplo, na sua apreciação, as referências musicais na obra de Eça não são um “mero elemento decorativo, acessório ou supérfluo na composição”, mas antes fatores de qualidade, reunindo “componentes atentamente doseadas e preenchendo função específica, ponderada, de efeito sabiamente calculado”. Como disse Catherine Dumas, “a música representava para ele (E.Q.) o mais alto grau de arte e expressão mais completa da espiritualidade”… Lembre-se a récita do “Fausto” de Gounod, a que assistiram em O Primo Basílio Luísa e Jorge. O romancista seguiu fielmente o que se passava em cena – numa ligação perfeita ente a encenação, a ação e a música. Mas não se trata apenas da invocação da forma, como se de um apêndice erudito se tratasse; não, o que importa é encontrar uma chave simbólica capaz de ligar o enredo narrativo e os sinais dramáticos. Na invocação da “Traviata” e de “A Dama das Camélias” de Alexandre Dumas, que lhe serve de base, a ópera e o romance surgem naturalmente associados ao destino funesto de Luísa, que se prenuncia. O mesmo se diga nas referências à “Norma” de Bellini e à “Lúcia de Lammermoor” de Donizetti, cujo tema estava nas leituras de Luísa de Walter Scott… Essas alusões não eram gratuitas ou inúteis, e Luís Santos Ferro era único na procura e descoberta desses pequenos segredos e no modo como os estudou e partilhou no extraordinário texto sobre música do Dicionário de Eça… Num encontro ocasional, poderia ser no seu antigo gabinete da Fundação Luso-Americana na Rua do Sacramento, no Grémio, na Gulbenkian ou em S. Carlos, era fácil familiarizar-nos em animada conversa com as principais personagens queirozianas, designadamente com Carlos Fradique Mendes. Os textos são inesquecíveis. “Durante três anos Carlos tocou guitarra pelo Penedo da Saudade, encharcou-se de carrascão na tasca das Camelas, publicou na Ideia sonetos ascéticos, e amou desesperadamente a filha de um ferrador de Lorvão”. E ali ficávamos a invocar as diversas encarnações Fradique, na filiação partilhada de Antero, Batalha Reis e Queiroz, mas também Afonso da Maia, Acácio, Pacheco, Dâmaso, Alencar, Cruges, Craft… Esse o prazer supremo de Luís, o puro sonho criador. Afinal, esse conhecimento fazia parte do extraordinário usufruto da imaginação e da inteligência. E vinha à baila o fado, que, contra tudo e contra todos, João da Ega defendera contra a opinião de Craft.

 

COMPASSSOS GENTIS E MELODIOSOS
E os relógios? Esses eram cantantes variados. Fradique regulava a vida metodicamente por um que fazia soar “compassos, gentis e melodiosos, de Haydn, Cimarosa ou Gluck”. Mas, rindo connosco, logo vinha à lembrança o facto de, em casa de Jorge e Luísa, ser “o cuco que marcava o tempo e enchia o silêncio”. E os pianos? Acácio e Dâmaso possuíam pianos, mas apenas decorativos e mudos. Esse facto denunciava o respetivo carácter. Amélia e Genoveva (da Tragédia da Rua das Flores) tocavam piano; no Ramalhete, havia piano, ora bem ora mal tocado consoante o tangedor. Mas, além, dos instrumentos (sempre Luís Santos Ferro a lembrá-lo) havia as comparações das personagens romanescas com figuras celebrizadas em obras musicais. João da Ega aparece comparado ao “Mefistófeles” de Gounod; Genoveva aparece associada à cançoneta “L’Amant d’Amanda”, muito em voga na época em Paris… E o namoro de Basílio e Luísa desenvolve-se e encerra-se ao som da canção de Médjé ainda de Gounod. Maria Eduarda é um caso especial. A música marca a sua aparição. E, além do mais, era uma excelente pianista. As suas interpretações de Chopin e Mendelsohn são elogiadas pelo rigoroso Cruges, e é a ária de Ofélia que a simboliza – “Pâle et blonde /Dort sous l’eau profonde”. E quando toda a tragédia se desenha, e Ega já sabe do terrível segredo: Maria nunca parecera tão bela. “Carlos era positivamente o homem mais feliz destes reinos”. Mas são as palavras finais do poema cantado que encerram o terrível augúrio: “Pour toujours adieu, mon doux ami! (…) Pour toi je meurs! Ah ah je meurs”. De facto, como insistia Luís, “na narrativa, mesmo quando de música não se trata”, esta existe no estilo da prosa e Guerra da Cal dissera já que literariamente Eça empregava sem reservas, “toda a classe de recursos de natureza musical”... O Luís Santos Ferro pôde, assim, como ninguém, ir ao âmago da narrativa de Eça de Queiroz, permitindo-nos compreender a complexa oficina criativa do extraordinário romancista. Mas neste momento é já a saudade que impera, sobretudo quando retiramos da estante qualquer das obras que tanto amava. Cada palavra, cada ideia lembra-nos tudo o que sabia e todo o prazer que sentia, e não esquecemos.    

 

Guilherme d'Oliveira Martins
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A VIDA DOS LIVROS

De 10 a 16 de fevereiro de 2020

 

Com o número da revista “Brotéria” de janeiro de 2020 (vol. 190-1) inicia-se uma nova fase na existência desta importante instituição cultura portuguesa.

UM NOVO CENTRO CULTURAL
Em 1965, quando a revista Brotéria passou a assumir-se como uma revista de cultura, inspirada na “grande abertura conciliar”, o Padre Manuel Antunes, S.J. afirmou: “Procurando sentir e fazer sentir que somos de uma pátria e que ao seu sentido estamos ligados, a Brotéria não ignorará que o facto cultural, constituindo um sistema de valores suscetíveis de difundir-se, transcende as condições de espaço e duração. Procurando alimentar a grande esperança que os novos tempos e o Concílio dos novos tempos sopraram sobre o mundo, a Brotéria não poderá esquecer que o homem não saiu da sua condição e que o mal vive connosco”. O tempo passou e esse apelo forte dos “sinais dos tempos” continua bem vivo, não podendo ser repetido como se fosse uma rotina. Por isso a revista publicada pelos jesuítas portugueses desde 1902 continua por novos caminhos. E assim nasce o Centro Cultural, dirigido pelo P. Francisco Mota, que afirma: “Acreditamos que o cristianismo pode e deve contribuir para a construção do bem comum, apelando para a justiça e para o respeito pela vida das pessoas, das culturas, das sociedades e do próprio planeta. (…) Estamos abertos a todos os que queiram encontrar-se com a Igreja e com esta linguagem que alia arte e espiritualidade, a sociedade e as pessoas que a compõem. Como o diretor da revista Brotéria, P. António Júlio Trigueiros, bem recorda, importa ter presente o que o Papa Francisco disse há pouco à Cúria: “nas grandes cidades, precisamos de outros ‘mapas’, outros paradigmas, que nos ajudem a situar novamente os nossos modos de pensar e as nossas atitudes. Já não estamos na cristandade! Hoje, já não somos os únicos que produzem cultura, nem os primeiros, nem os mais ouvidos”. Eis por que razão a construção do bem comum tem de se fazer de um fecundo encontro de diferenças e convergências – como no-lo ensinava S. João XXIII em “Mater et Magistra”. E nessa experiência da Brotéria devemos lembrar ainda o que disse o P. Luís Archer, em 1999: “Se considerarmos como cultura o sistema simbólico que cada povo constrói para dar sentido à sua história, à sua vida, à sua comunidade e ao seu universo, concluiremos que é pela cultura que o ser humano se realiza plenamente como pessoa”. Neste sentido, o novo projeto da Brotéria corresponde à preocupação de tornar viva a Palavra de Jesus Cristo, num contexto de liberdade, de abertura, de diálogo, de encontro, de respeito mútuo e de paz. Infelizmente, há dificuldade em debater ideias, a partir da liberdade de consciência. Prevalecem os preconceitos, o desconhecimento e a indiferença. Em lugar de uma troca de experiências prevalecem os diálogos de surdos, em que cada qual se limita a repetir o que julga ser a verdade que possui. Acontece, porém, que somos limitados e imperfeitos e que, de facto, “o mal vive connosco”. Precisamos, por isso, de conhecer os outros e de assumir a modéstia necessária para ter resposta e ser responsáveis. Temos de saber colocar-nos no lugar do outro, e o confronto de ideias apenas pode ser fecundo se o conhecimento for o caminho que Paul Claudel nos propôs, ao dizer que “connaître” deve ser nascer com o outro.

 

A CULTURA COMO PROGRAMA
Se virmos o longo caminho da revista Brotéria, compreendemos que houve uma preocupação de rigor e de conhecimento. A revista foi fundada por três professores do colégio de S. Fiel, em Louriçal do Campo (Castelo Branco), especializada nas ciências naturais (1902), tendo sido subdividida em três séries independentes (1907) – Botânica, Zoologia e Vulgarização Científica. De 1907 a 1924, os jesuítas portugueses publicaram cerca de 350 recensões e 450 artigos de divulgação na agricultura, geografia, física e química, medicina e higiene. Em 1925 nasceu a revista cultural (com o subtítulo “Fé, Ciências, Letras”), afirmando o P. Joaquim Silva Tavares, fundador em 1902 e seu reformador, que urgia investigar a verdade no campo religioso e aumentar os conhecimentos científicos e literários dos leitores. E qual a razão da escolha do nome da revista – “Brotéria”? A homenagem à figura extraordinária de Félix da Silva Avelar (1744-1828), que adotou em Paris o nome de “Brotero”, significa em grego “amante dos mortais”. Brotero foi capelão da Sé Patriarcal de Lisboa, frequentou o curso de Direito Canónico em Coimbra, foi amigo do Padre Francisco Manuel do Nascimento, o célebre Filinto Elísio, tendo-o acompanhado no exílio em França. Formou-se em Medicina em Reims e dedicou-se ao estudo da Botânica, seguindo Lineu e criando a terminologia portuguesa na obra-prima “Flora Lusitanica”. Foi Professor de Agricultura e Botânica na Universidade de Coimbra e diretor do Jardim Botânico, sucedendo a Domingos Vandelli, sendo o verdadeiro modernizador das suas áreas de especialidade. A influência científica, o seu prestígio académico e o resultado efetivo do seu trabalho levaram a que fosse eleito para a Assembleia Constituinte de 1821, na sequência da Revolução liberal. Foi em razão do seu prestígio, da sua atitude ética, do apego à liberdade de consciência e ao rigor no conhecimento que os fundadores da revista científica da Companhia de Jesus adotaram o seu nome, que persiste até aos dias de hoje.

 

TEMAS MUITO OPORTUNOS
O número que abre esta nova fase na vida da revista e do seu projeto cultural apresenta um conjunto bastante importante de temas de grande atualidade, merecendo referência o texto de Viriato Soromenho-Marques intitulado “As Universidades perante o desafio existencial da crise ambiental e climática. Com o agravamento do ritmo e da intensidade do processo de alterações climáticas. Perante a componente mais visível da crise global do ambiente, torna-se necessário mobilizar a comunidade académica e científica, no sentido de encontrar soluções práticas que impeçam ou reduzam as situações que se apresentam. “Se as universidades quiserem seguir em frente, como se tudo estivesse bem, então poderemos estar certos de que no horizonte se erguerá o espetro do colapso e não o anjo da salvação”. De facto, estamos perante uma questão de sobrevivência. Num outro tema, é de assinalar o ensaio de Manuel Braga da Cruz sobre “o impasse da reforma do sistema eleitoral” entre nós. Na linha do que já está estabelecido na Constituição, mas sem execução prática, é proposta uma reforma eleitoral que combine a máxima proporcionalidade do círculo nacional com a pessoalização da uninominalidade, a redução da influência das máquinas dos partidos, com a governabilidade da força maioritária. Deste modo, será necessário um sistema misto, de duplo voto com duplo escrutínio, que pode ser coadjuvado com aperfeiçoamentos no recenseamento e no voto. Cristina Azevedo trata ainda do tema da descentralização e Joaquim Sapinho apresenta-nos uma crítica oportuna do filme “O Irlandês” de Martin Scorsese.     

 

Guilherme d'Oliveira Martins
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A VIDA DOS LIVROS

De 3 a 9 de fevereiro de 2020

 

As Literaturas em Língua Portuguesa (Das Origens aos Nossos Dias), de José Carlos Seabra Pereira (Gradiva 2019) é um reportório fundamental para quem queira conhecer o panorama atual da língua portuguesa.

 

UMA OBRA INDISPENSÁVEL
É difícil proceder à apresentação de uma visão de conjunto das literaturas em língua portuguesa. Poucos poderiam encarregar-se de tal tarefa a contento, daí que a escolha de José Carlos Seabra Pereira merece aplauso, não só pelas provas académicas e pedagógicas sobejamente consagradas, mas também pelo resultado do trabalho agora dado à estampa em As Literaturas em Língua Portuguesa (Das Origens aos Nossos Dias) – em edição da Gradiva (2019), com o apoio do Instituto Politécnico de Macau e do Conselho Coordenador dos Institutos Superiores Politécnicos. Carlos Ascenso André, impulsionador do livro, está certo quando diz que “precisávamos (…) de uma obra que não se limitasse a Literatura Portuguesa, mas que se alargasse de forma abrangente, às demais literaturas de língua portuguesa. Mas precisávamos, igualmente, de que tal obra tivesse em conta esse público-alvo muito específico que são os milhares de aprendentes do Português mundo fora, com os seus condicionalismos próprios: um público heterogéneo, com patamares de conhecimento muito assimétricos, com interesses diversificados. Ou seja, uma obra acessível, mas rigorosa, útil a quem se limita à superfície das coisas, mas não menos instrumental para quem pretende descer mais fundo na sua reflexão e no seu conhecimento”. Não se trata, pois, de um manual, mas de um ensaio panorâmico, feito com especial cuidado, e apto a abrir novos caminhos e pistas, a partir da recusa uniformizadora e da consciência de que estamos perante uma língua de várias culturas, e portanto de diversas literaturas. Como língua, o português irá enriquecer-se pluralmente, num exigente desafio, pois as literaturas são, de facto, indicadores fundamentais para definirem os diversos sentidos que serão seguidos pela língua e pelas línguas. Por isso, o autor apresenta “um ensaio longo de roteiro das literaturas em língua portuguesa, que se distingue pela perspetiva de conceção e pelos parâmetros de elaboração”. E assim, em lugar de um tratamento minucioso e dilatado das épocas mais distantes, prefere uma “nítida expansão a partir da viragem para o século XX e decidida progressão pelos terrenos da literatura hodierna”. Se assistimos nesse momento à afirmação de maior pujança das literaturas portuguesa e brasileira, inicia-se também a consolidação das literaturas angolana e cabo-verdiana, além dos casos de Moçambique e Macau.

 

COMUNIDADE INTERLITERÁRIA
No dizer do autor, o livro procura captar e acompanhar um fluxo de águas vivas que, quanto mais se abre em inestimáveis deltas nacionais, mais parece dirigir-se para uma comunidade interliterária (na aceção de Dionýs Durisin)”. Estamos perante uma realidade multifacetada e multímoda em que se detetam pontos de encontro e de separação, num diálogo complexo a partir de inexoráveis raízes comuns, que coabitam com afluências divergentes. Há, assim, várias culturas e várias línguas que coabitam e dialogam. Longe de qualquer tendência uniformizadora ou centrada em hegemonias ou convergências, “não são rasuradas as tendências emergentes ou epigonais que coabitam com aquelas hegemonias estético-literárias em cada período e mormente nas fronteias fluidas do seu dealbar ou do seu ocaso”. Muito relevante é, aliás, a referência à língua literária portuguesa “com a interferência de variantes idiomáticas, de fenómenos de crioulização, de transvases de outras línguas”. De facto, quando nos referimos a uma língua falada em todos os continentes, percebemos que a consequência não é a uniformização global, mas sim a diversidade, as interferências e as complementaridades, tantas vezes exemplificadas em expressões e palavras de torna-viagem e em múltiplas trocas e partilhas de sentido. Daí que as simplificações seriam impossíveis e só um estudioso como J.C. Seabra Pereira poderia abalançar-se numa empresa desta dimensão, acompanhando as literaturas de uma língua antiga com as suas origens em textos de poesia lírica e satírica dos trovadores e dos cronistas – entre a Galiza e Portugal. E deste modo encontramos os fundos lírico, trágico e picaresco, que se vão projetando em caminhos diversíssimos.

 

UM PERCURSO SISTEMÁTICO
Propositadamente, encontramos um percurso lesto, mas não menos rigoroso, sobre o tempo cortês, o Renascimento e o Maneirismo, as Luzes e o arcadismo luso-brasileiro, os romantismos, o realismo e as suas margens, o decadentismo e o simbolismo na transição para o novo século, até à escrita vital de Aquilino… Vamos percorrendo, com sublinhados bastante nítidos, que exigem uma leitura atenta e compassada, os pontos fundamentais da literatura, com o aparecimento gradual e em crescendo da criação brasileira e depois africana. Veja-se a título de mero exemplo, como prolegómeno da parte mais desenvolvida da obra, a referência ao facto de Eça de Queiroz ficcionar “um vetor de caracterização peculiar do ethos português numa aproximação à literatura identitária de Portugal que nunca se quer isenta de alguma valência de ironia”. Fala-se, naturalmente, de A Ilustre Casa de Ramires e da ida de Gonçalo Mendes Ramires a África, num capítulo acrescentado pelo romancista, na versão final do livro, ao que foi publicado em folhetins na “Revista Moderna”. Noutro registo, refira-se a atenção do autor à “escrita vital” de Aquilino Ribeiro, surgido na margem do Modernismo, com um estilo versátil que se atualiza “numa réplica moderna daquele ‘porte desusado’ de ‘idioma novo e civilizado’ e daquela madre língua manejada com ‘agilidade e limpidez’ e ‘elegância sem perda de vigor e com ganho de harmonia’ que o mesmo Aquilino certeira e oportunamente louvava em Camões”. Considerando em Portugal e no Brasil “autores axiais” como Fernando Pessoa e Mário de Andrade, encontramos entre as duas guerras mundiais a emergência de uma modernidade estética de matriz baudelairiana, na “tradição do novo”. Modernismos e Vanguardas confrontam-se desde “A Águia” a “Orpheu”, até ao Livro do Desassossego. E Fernando Pessoa, ortónimo e heterónimos, procura intervir como patriota cosmopolita, para superar a condição decadente da nação portuguesa, na aceção, anteriana e sergiana, de atraso relativamente à modernidade sócio-cultural do Ocidente… Por seu lado, a “Presença”, relativamente ao Modernismo de “Orpheu”, representa não uma rutura, mas uma plataforma comum do inconformismo, do individualismo, da urgência do novo e do cosmopolita, considerando o valor da arte como instituição. E tem razão J. C. Seabra Pereira quando afirma que “a articulação de ‘Orpheu’ e de ‘Presença’ ganha em ser lida na ótica de dissociação conceptual e histórico-literária entre Modernismo e Vanguarda(s)” – sem esquecer as interferência vanguardistas nos dois modernismos e percebendo-se que, em toda a Europa, os dois movimentos são concomitantes mas não confundíveis. Os exemplos dados permitem ilustrar como a obra ora dada à estampa é um instrumento importante que abre perspetivas de trabalho em progresso para uma melhor compreensão no mundo da língua portuguesa não só das diferenças culturais, mas também das confluências interliterárias.    

 

Guilherme d'Oliveira Martins
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A VIDA DOS LIVROS

De 27 de janeiro a 2 de fevereiro de 2020

 

"Património Cultural – Realidade Viva" (Fundação Francisco Manuel dos Santos, 2020) será lançado no dia 30 de janeiro no Centro Nacional de Cultura, com a presença do arqueólogo Luís Raposo, presidente do ICOM-Europa e do jornalista Henrique Monteiro – além do autor Guilherme d’Oliveira Martins. Apresentamos hoje um excerto da obra.

 

 

«Definido ao longo do tempo pela ação humana, o património cultural, longe de se submeter a uma visão estática e imutável, tem de ser considerado como um “conjunto de recursos herdados do passado”, testemunha e expressão de valores, crenças, saberes e tradições em contínua evolução e mudança. O tempo, a história e a sociedade estão em contacto permanente. Nada pode ser compreendido e valorizado sem esse diálogo extremamente rico. Usando a expressão de Rabelais, estamos sempre perante “pedras vivas”, já que as “pedras mortas” dão testemunho das primeiras. O património surge, nesta lógica, como um primeiro recurso de compromisso democrático em prol da dignidade da pessoa humana, da diversidade cultural e do desenvolvimento durável. E constitui um capital cultural resultante do engenho e do trabalho de mulheres e homens, tornando-se fator de desenvolvimento e incentivo à criatividade. Quando falamos de respeito mútuo entre culturas e das diversas expressões da criatividade e da tradição estamos a considerar o valor que a sociedade atribui ao seu património cultural e histórico ou à sua memória como fator fundamental para evitar e prevenir o “choque de civilizações”, mas, mais do que isso, para criar bases sólidas de entreajuda e de entendimento. Impõe-se, deste modo, o reconhecimento mútuo do património inerente às diversas tradições culturais que coexistem no continente e uma responsabilidade moral partilhada na transmissão do património às futuras gerações. E não esqueçamos o contributo do património cultural para a sociedade e o desenvolvimento humano, no sentido de incentivar o diálogo intercultural, o respeito mútuo e a paz, a melhoria da qualidade de vida e a adoção de critérios de uso durável dos recursos culturais do território. Daí a importância da “cooperação responsável” na sociedade contemporânea, através da ação conjugada dos poderes públicos, do mundo da economia e da solidariedade voluntária. Perante a exigência do reconhecimento mútuo do património inerente às diversas tradições culturais que coexistem e de uma responsabilidade moral partilhada na transmissão do património às futuras gerações, realizamos um exercício prático, onde, a propósito da herança cultural e da salvaguarda de marcos de memória, descobrimos a importância do diálogo entre valores e factos, entre ideais e interesses, entre autonomia e heteronomia. O certo é que os valores quando reconhecidos socialmente adquirem um carácter de permanência, tornam-se expressão da memória e do movimento, da tradição e da criação e aliam-se às constantes e invariáveis axiológicas numa relação complexa em que o património e a herança culturais se tornam fatores de liberdade, de responsabilidade, de emancipação, de respeito mútuo e de afirmação da dignidade humana. Uma obra de arte, uma catedral ou uma choupana tradicional, um conto popular, as danças e os cantares, a língua e os dialetos, as obras dos artesãos, a culinária ancestral – eis-nos perante expressões de valores que põem em contacto a História e a existência individual, a razão e a emoção, que constituem a matéria-prima de uma cultura de paz.

 

Há ainda exemplos que nos são dados pela natureza e que constituem motivo sério de reflexão sobre as noções de património e de memória. As borboletas-monarca são alvo de atenções especiais dos cientistas, em virtude das misteriosas migrações que protagonizam de muitos milhares de quilómetros e há milhões de anos, no Atlântico e no Pacífico, especialmente nas Américas. Tendo uma vida curta, de 2 a 7 meses, esse tempo não permite a estas borboletas realizarem mais do que uma viagem em vida e num só sentido – demonstrando que a memória genética pode ser mais importante do que a aprendizagem. Um segundo exemplo tem a ver com as nossas observações do firmamento. Verificamos que muitos dos corpos celestes que ainda vislumbramos, há muito que estão extintos e no entanto ainda parecem ser nossos contemporâneos, em virtude da «lentidão» da velocidade da luz. Vemo-los, mas já não existem… O terceiro caso relaciona-se com os belos jacarandás que temos em Portugal e que têm uma fugaz floração, quase impercetível no outono europeu, uma vez que prevalece a lembrança genética da primavera brasileira. Afinal, as árvores têm memória. As três referências levam-nos a dar uma especial atenção às nossas responsabilidades ligadas ao tempo e ao que dele recebemos. No fundo, temos o dever de estar atentos ao valor dinâmico do que recebemos e do que legamos – seja memória genética, seja perceção virtual do passado, seja reminiscência histórica… Quando falamos de património cultural é de atualização criadora que cuidamos – pelo que não é apenas o passado que importa, mas sim uma responsabilidade presente que renova e atualiza a fidelidade à herança recebida. Quantas épocas diferentes, quantos estilos, quantas intervenções compõem o mosteiro dos Jerónimos? O mesmo se diga das grandes catedrais europeias, que foram sendo construídas em diversos momentos e em camadas arqueológicas e arquitetónicas múltiplas. Na catedral de Salamanca, entre os elementos decorativos foi acrescentada no século XX a representação de um pequeno astronauta, que não choca quem o descobre e que apenas demonstra que a História não se detém. Também no património imaterial, assistimos a atualizações, desde a gastronomia aos hábitos e costumes, não esquecendo a língua…

 

Para entender a memória e o património cultural invoquemos ainda uma afirmação que é muito citada, mas mal compreendida… Fernando Pessoa através do semi-heterónimo Bernardo Soares fala-nos da língua como pátria. A frase é normalmente citada fora do contexto, como tantas outras. Mas quando se lê o texto onde ela se insere notamos, normalmente, um sentimento contraditório. Em primeiro lugar, temos uma surpresa, uma vez que se julga que a afirmação é heroica. No entanto, o autor não lhe dá essa natureza. Depois, quando se lê melhor, compreende-se que há um patriotismo aberto e desdramatizado, não territorial, não patrimonial, mas espiritual, eminentemente cultural. Anglo-saxonicamente, Soares dá força à palavra. É o domínio da língua, das palavras e do respeito mútuo que está em causa. Afinal, dizer bem a língua e as suas palavras é um ato elementar de dignidade, de cidadania e de sede de compreensão e de sentido.

 

«Não tenho sentimento nenhum político ou social (diz o “Livro do Desassossego”). Tenho, porém num sentido, um alto sentimento patriótico. Minha pátria é a língua portuguesa. Nada me pesaria que invadissem ou tomassem Portugal, desde que não me incomodassem pessoalmente. Mas odeio, com ódio verdadeiro, com o único ódio que sinto, não quem escreve mal português, não quem não sabe sintaxe, não quem escreve em ortografia simplificada, mas a página mal escrita, como pessoa própria, a sintaxe errada, como gente em quem se bata, a ortografia sem ípsilon, como o escarro direto que me enoja independentemente de quem o cuspisse. Sim, porque a ortografia também é gente. A palavra é completa, vista e ouvida. E a gala da transliteração greco-romana veste-ma do seu vero manto régio, pelo qual é senhora e rainha». Pátria – língua! «Procuras Portugal e andas com ele / nos mil destinos do teu destino. / Doí-te na pele. / Babilónia Sião Paris Babel. / Meu povo peregrino» — diz Manuel Alegre. A identidade enquanto identidade aberta começa, no fundo, nesse peregrinar e na hospitalidade de receber muitos povos e pessoas neste pedaço de terra à beira-mar plantado. Somos, mesmo na língua, e sobretudo nela, um cadinho, um melting-pot: iberos, celtas, fenícios, gregos, romanos, visigodos, suevos, alanos, vândalos, árabes… E na base há a herança indo-europeia e o sânscrito. De cada um ficaram marcas, palavras e sinais.

 

O Atlântico e o Mediterrâneo cruzam-se neste ocidente peninsular — a cordilheira central e a nossa Beira-Serra dividem as influências... E o romance galaico-português, paredes-meias com a língua asturo‑leonesa (que permanece no mirandês), consolidou a nossa identidade pela palavra. Língua, fronteira, povo — fizemo-nos portugueses ou “portugaleses”, com quase nove séculos de autonomia. A história fez a língua que é a herança viva com que podemos contar. E o romance galaico-português tornou-se profeticamente, com o provençal, a língua própria do género poético — cantigas de amor, cantigas de amigo, escárnio e maldizer. Afonso X, o Sábio, cultivou a língua dos trovadores (do trovar da língua d’Oc) e D. Dinis, seu neto, pôde dizer: «Se sabedes novas do meu amigo / ay deus e hu e». E não o ouvimos também dizer: «Quer´eu en maneira de provençal / fazer agora um cantar d’amor»? Ao ouvirmos, dos confins do tempo, a nossa língua podemos entender que o velho português se construiu pelo cuidado da palavra e das palavras. Como afirmou António Ferreira: «Floresça, fale, cante, ouça-se e viva / a portuguesa língua, e, lá onde for, / Senhora vá de si, soberba e altiva.». E podemos ainda ouvir mestre Gil, na transição dos temas medievais para os modernos: «Ó, famoso Portugal, conhece teu bem profundo».

 

Mesmo na ironia, a palavra ressalta alegre e viva, versátil e risonha em Camões — «Perdigão que o pensamento / subiu ao alto lugar, / perde a pena do voar, / ganha a pena do tormento. / Não tem no ar nem no vento / asas com que se sustenha: / não há mal que não lhe venha». Isto em contraste, mas complemento, em “Os Lusíadas”, com: «Ficava-nos também na amada terra / o coração, que as mágoas lá deixavam»… A língua pátria, a língua materna construíram-se e constroem-se de vida, ora erudita ora simples, ora sagrada, ora profana, ora amorosa, ora picaresca. E não se diga que o património é constituído pelos marcos de pedra ou pelos grandes monumentos da arquitetura — o património cultural é constituído por pedras mortas e por pedras vivas, por monumentos e tradições, o património imaterial, mas também pela natureza, pela paisagem e pela criação contemporânea, pelo valor acrescentado que adicionamos ao que recebemos das gerações que nos antecederam. A identidade exige a compreensão da memória, da vivência, da recepção e da entrega, do receber e do dar. Uma identidade viva tem de ser disponível, aberta, rigorosa e apta a receber e a dar».

 

Guilherme d'Oliveira Martins
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A VIDA DOS LIVROS

De 20 a 26 de janeiro de 2020

 

A «Revista Ocidental» dirigida por Antero de Quental, Jaime Batalha Reis e Oliveira Martins teve uma existência fugaz, de fevereiro a julho de 1875, mas constitui uma referência essencial para a compreensão da chamada Geração de 1870.

 


VINDO DE SANTA EUFÉMIA
Regressado à pátria, vindo das minas de Santa Eufémia, em Espanha, Oliveira Martins vai para o Porto em 1874, para dirigir as obras de construção da linha de caminho-de-ferro do Porto à Póvoa de Varzim, “levantando plantas, traçando perfis, fazendo planos de estações de caminho-de-ferro, estudando pontes, dirigindo e executando trabalhos, tanto de campo como de gabinete, ao lado de dois engenheiros”. Está em contacto estreito com Antero de Quental e Jaime Batalha Reis, com quem participa ativamente no lançamento em 15 de fevereiro de 1875 da “Revista Ocidental” (com o editor Rovere). Antero avisara um ano antes: “O Batalha lhe escreverá, para lhe comunicar o plano de uma empresa minha e dele, para a qual contamos com a sua coadjuvação. É uma Revista que vamos fundar, cujo projeto o Batalha fica encarregado de compor” (13.4.1873). Havia que continuar o combate social e político, que se exprimira nas Conferências Democráticas e na intervenção política, que deveria assumir uma dimensão ibérica. Importava, por isso, “provocar a reunião de elementos de renascença intelectual da Península e a formação de novas escolas espanhola e portuguesa”. Assim, a nova revista, que teve existência fugaz (de fevereiro a julho de 1875), afirma-se com o objetivo audacioso de suscitar uma reflexão que não se ativesse apenas à dimensão nacional. “Provocar a reunião dos elementos da nova renascença intelectual da península e a formação das novas escolas espanhola e portuguesa, é o fim da ‘Revista Ocidental’”. Esta era a justificação constante do programa da nova publicação. E nessa linha, Oliveira Martins escreve de modo eloquente, sob o título de Introdução, o ensaio programático “Os Povos Peninsulares e a Civilização Moderna”, a abrir a revista. É um texto entusiástico e militante, com preocupação histórica, que antecipa a História da Civilização Ibérica. Estava em causa a criação de “um campo ao mesmo tempo vasto e livre, onde todos os homens que mais ou menos proeminentemente representam uma face, um lado, um aspeto, do génio peninsular, hão de vir com a pena arar os fundos sulcos da lavoura intelectual; onde todas as opiniões têm uma voz, todas as tendências um lugar, quando entrem no sistema de opiniões e de tendências, que formam o edifício do Progresso neste século”. E assim segundo o autor, só uma revista como a que se fundara, poderia "representar perante a Europa o génio dos povos que habitam a península ibérica, e dos que, filhos dela, foram acampar na América meridional”. Para tanto, haveria que definir o “génio peninsular ibérico”. Seria escrita nas duas línguas peninsulares, o que lhe asseguraria leitura em Espanha e na América do Sul.

 

O INCIDENTE COMO EÇÃ DE QUEIROZ
Antero, em carta a Oliveira Martins, exprime algum ceticismo: “Quanto ao Socialismo, o Batalha mostra-se receoso um pouco, e recomenda-lhe prudência: V. por certo saberá combinar convenientemente as tintas com que escrever. Eu receio muito mais do Padre Amaro (que é Pigault—Lebrun forrado de Flaubert, como V. irá vendo e pasmando) do que do Socialismo mas o Batalha tem ideias fixas, e algumas bem singulares: diz que o Padre Amaro é uma revolução e não sai daqui” (março 1875). Havia, de facto, razões para preocupação, mas diferentes das que Antero julgava. Eça vai, agastado, proibir a continuação da publicação do Padre Amaro na revista, porque o “borrão” não está revisto e não reconhece a Antero qualquer legitimidade para os reparos feitos (“O Antero é o maior crítico da península mas entende tanto de arte – como eu de mecânica” – 26.2.1875). Mas regressemos ao texto programático de Oliveira Martins. Para definir o génio peninsular ibérico, haveria que salientar a importância de um “sentimento de independência”. E o traço elementar orgânico desse génio peninsular seria o heroísmo. Seria este a dar unidade ao sistema de caracteres nacionais dos “povos espanhóis”. E a “invasão árabe” teria sido a maior fortuna histórica da Península, por lhe ter dado a renovação literária, o sentimento do infinito, que vem do deserto, mas também Córdova e Granada, os eirados da Andaluzia, os frutos de mármore da Alhambra, uma arquitetura, e a compreensão de como o heroísmo cristão que “era ainda sanhudo, feroz, infantil” se pôde tornar tolerante. Mas não estava em causa apenas a arte: também havia Averróis, Ibn-Tophail,, Maimonides e Avicebron, árabes e judeus transmitindo a medicina e a álgebra, mas igualmente Afonso, o Sábio a receber os ensinamentos de alquimia. “A França é uma abelha, a Espanha é uma águia. Tem desta o voo largo, a garra firme e a alvura das penas; a alvura, porque é à Itália misteriosa e fatídica que cabem as negras cores, cores terríveis que obumbram a imaginação medonha do etrusco: a águia negra é imperial e italiana”. Eram, pois, indiscutíveis as qualidades peninsulares, que tinham de ser reconhecidas.

 

AINDA A CIVILIZAÇÃO IBÉRICA
Como acontecerá em História da Civilização Ibérica, estamos perante uma crítica severa relativamente à obra de Henry Thomas Buckle, History of Civilization in England (1857-1865), em especial no tocante à “lenda negra” sobre a civilização peninsular. “Negar redondamente a hombridade peninsular, não surpreende num inglês incapaz de a compreender”. Em lugar do fatalismo e paganismo ultramontanos, havia que reconhecer que a religião conservava em Espanha um carácter humano – Santa Teresa humaniza Jesus “nos delírios do seu amor místico” e as Virgens de Murillo ou de Morales “são belas raparigas que brotam com as flores sob o céu azul da Andaluzia, os santos de Ribera são titãs ou prometeus roídos pelo abutre, não profetas ou sibilas como os de Miguel Ângelo”. O heroísmo ativo que gera o amor da liberdade é, assim, uma característica peninsular por contraponto a um qualquer frio estoico. E “à raça hispano-portuguesa coube o papel grandioso de explorar o mundo”, ao invés da construção do génio saxónio. “Os sentimentos produzidos pelos atos livres do homem não têm aplicação para fenómenos coletivos que estão imediatamente no domínio da necessidade que os determina”. Deste modo, para os povos ibéricos não haveria nem motivo para vergonha nem para exultar de orgulho. Importaria, sim, compreender a realidade, comparando, pesando e avaliando, para aprender a lição… Daí o historiador lembrar que o primitivo sistema colonial dos hispano-portugueses se moldava nas tradições antigas. “Uma esquadra conduzia um exército que, depois duma batalha ganha, impunha um tributo e construía uma fortaleza para manter o senhorio e cobrar o tributo. À sombra da fortaleza comerciavam os conquistadores, e aos lucros da guerra, receita do Estado, juntava-se o lucro comercial, receita privada. Este sistema distinguia-se do das colonizações fenícias ou gregas, no facto de os conquistadores prescindirem do domínio público, sem prescindirem do domínio religioso”. Não se tratava de iberismo (Antero insistia também aí), mas da consideração de uma complementaridade necessária de realidades independentes. O génio peninsular ibérico, como marca de “Revista Ocidental”, era, pois, uma exigência cultural, social e política…

 

Guilherme d'Oliveira Martins

A VIDA DOS LIVROS

De 13 a 19 de janeiro de 2020

 

“Uma Beleza que nos Pertence” de José Tolentino Mendonça acaba de ser publicado na Quetzal (2019). Trata-se de uma coleção de aforismos e citações sobre o sentido da vida, a beleza das coisas e a presença de Deus.


TEMAS NECESSÁRIOS
«A alegria é uma revelação da vida profunda. É abrir uma porta, um caminho, um corredor para a passagem do espírito. Nesse sentido, a alegria que é a íntima condição de um cristão, é também um estilo a assumir. Somos chamados a viver na alegria. (…) Um elemento que caracteriza a alegria é o facto dela não nos pertencer. Ela atravessa-nos simplesmente e irrompe quando aceitamos construir a existência como prática de hospitalidade. Estremecemos pela leveza da alegria em nós. Em vez de crescermos na severidade, na intransigência, na indiferença, no sarcasmo, na maledicência, no lamento, caminharemos suavemente no sentido contrário. Cresçamos na simplicidade, na gratidão, no despojamento e na confiança. A alegria tem a ver com uma essencialidade que só na pobreza espiritual se pode acolher». Assim, se exprime o nosso autor, no início de uma longa lista de reflexões extremamente pertinentes. É a exigência de lidarmos com a imperfeição que nos obriga a refletir e como afirma o Papa Francisco: «É necessário chegar aonde são concebidas as novas histórias e paradigmas, alcançar com a Palavra de Jesus os núcleos mais profundos da alma das cidades. (…) Nas grandes cidades, pode observar-se uma trama em que grupos de pessoas compartilham as mesmas formas de sonhar a vida e ilusões semelhantes, constituindo-se em novos sectores humanos, em territórios culturais, em cidades invisíveis. Na realidade, convivem variadas formas culturais, mas exercem muitas vezes práticas de segregação e violência».

 

A IMPORTÂNCIA DA CULTURA
Há dias, o Cardeal D. José Tolentino Mendonça afirmou no Seminário do Instituto Camões sobre Cooperação e Língua, na Fundação Calouste Gulbenkian, que a “cultura é um recurso essencial para a construção da paz. Nos momentos de escassez e de crise financeira ou de sentido, como é a que o nosso mundo de hoje vive, é nesses momentos que a cultura deve ser vista como bússolas e motor de desenvolvimento. Todos vivemos na e da cultura”. A palavra cultura, como a consideramos hoje, é relativamente recente, e surge na cultura alemã, como “kultur”, para significar a capacidade criadora e necessidade de protegermos e salvaguardarmos o património que herdamos das gerações anteriores a nós. Na tradição grega e na reflexão romana, encontramos duas outras palavras que preenchem o mesmo entendimento: “paideia” e “humanitas”. Em ambos os casos, referimo-nos, no entanto, mais às ideias de educação, memória, herança e criação. O tempo presente e a compreensão da pessoa humana com centro da sociedade e da economia obrigam a valorizar a cultura. E o orador recorreu, para desenvolver o tema, aos contributos do Papa Francisco, na Exortação Apostólica “Evangelii Gaudium” (2013) e na encíclica “Laudato Si’” (2015), para dar expressão à importância da cultura, como fator de liberdade, de dignidade humana e de enriquecimento individual, indispensável para a concretização de uma cultura de paz.

 

DEFENDER A MEMÓRIA
A língua é um poderoso veículo de comunicação, devendo ser um elemento crucial de criação cultural, de diálogo e de intercâmbio nos domínios educativo e científico. E o certo é que nos tempos atuais nos deparamos não apenas com os efeitos da crise ditada pela destruição do meio ambiente, pelo aquecimento global, mas também pelas ameaças de destruição do património histórico. Como afirma o Papa na referida Encíclica: «A par do património natural, encontra-se igualmente ameaçado um património histórico, artístico e cultural. Faz parte da identidade co­mum de um lugar, servindo de base para cons­truir uma cidade habitável. Não se trata de des­truir e criar novas cidades hipoteticamente mais ecológicas, onde nem sempre resulta desejável viver. É preciso integrar a história, a cultura e a arquitetura dum lugar, salvaguardando a sua identidade original. Por isso, a ecologia envol­ve também o cuidado das riquezas culturais da humanidade, no seu sentido mais amplo». O Papa Francisco pede, pois, que se preste atenção às cul­turas locais, mais diretamente, “quando se analisam questões relacio­nadas com o meio ambiente, fazendo dialogar a linguagem técnico-científica com a linguagem popular. É a cultura – entendida não só como constituída pelos monumentos do passado, mas especialmente no seu sentido vivo, dinâmico e participativo – que não se pode excluir na hora de repensar a relação do ser humano com o meio ambiente» (LS, 143). Deste modo, o Cardeal diretor do Arquivo Apostólico do Vaticano e Bibliotecário da Biblioteca Apostólica Vaticana, pôs a tónica na valorização da história, da cultura e da arquitetura dos lugares, com salvaguarda da sua identidade, encarada como “beleza que nos pertence”, aberta e capaz de se enriquecer no diálogo entre pessoas e culturas.

 

A CIDADANIA ECOLÓGICA
A perspetiva ecológica exige, pois, a consideração das riquezas culturais da humanidade, no seu sentido mais amplo. Património cultural é material e imaterial, são monumentos e tradições, mas também a relação com a natureza e a preservação da paisagem – do mesmo modo que a inovação digital e a integração da criação contemporânea. E a lembrança do que o Papa Francisco afirmou na Exortação Pastoral de 2013 merece assim referência especial. A nossa relação com a cultura obriga à necessidade da compreensão da gratuitidade, da partilha, em lugar de uma cega atitude consumista, esquecida da justiça e da solidariedade. «A sobriedade, vivida livre e consciente­mente, é libertadora. Não se trata de menos vida, nem vida de baixa intensidade; é precisamente o contrário. Com efeito, as pessoas que saboreiam mais e vivem melhor cada momento são aque­las que deixam de debicar aqui e ali, sempre à procura do que não têm, e experimentam o que significa dar apreço a cada pessoa e a cada coi­sa, aprendem a familiarizar com as coisas mais simples e sabem alegrar-se com elas» (EG, 223). E importa ainda lembrar que «a cidade dá origem a uma espécie de ambivalência permanente, porque, ao mesmo tempo que oferece aos seus habitantes infinitas possibilidades, interpõe também numerosas dificuldades ao pleno desenvolvimento da vida de muitos. Esta contradição provoca sofrimentos lancinantes. Em muitas partes do mundo, as cidades são cenário de protestos em massa, onde milhares de habitantes reclamam liberdade, participação, justiça e várias reivindicações que, se não forem adequadamente interpretadas, nem pela força poderão ser silenciadas» (EG,74). Eis como só uma cultura respeitadora da liberdade e da responsabilidade, da memória e do conhecimento poderá encontrar caminhos de autonomia, emancipação, dignidade e paz.

 

Guilherme d'Oliveira Martins
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A VIDA DOS LIVROS

De 6 a 12 de janeiro de 2020

 

«Textos Escolhidos» de Gonçalo Ribeiro Telles, com organização do Arquiteto Fernando Santos Pessoa (Argumentum, 2016), é um livro que constitui uma excelente oportunidade para conhecer melhor o fascinante pensamento de uma referência viva da cultura portuguesa contemporânea.

UMA CULTURA ECOLÓGICA
Falar de uma cultura ecológica entre nós obriga a falarmos de Gonçalo Ribeiro Telles, que sempre nos ensinou que a democracia para se consolidar precisa de cuidar da memória e da cultura, como fatores de humanização – de modo que o ser prevaleça sobre o ter e que a dignidade humana seja o denominador comum da vida em sociedade. O jardim é a verdadeira metáfora da ação criadora de Deus em diálogo com o homem – por isso o confronto entre os textos e aquilo que nos tem sido legado pelo Arquiteto Paisagista é um motivo especial para compreendermos a cultura como ponto de encontro entre a compreensão da natureza e a capacidade humana de a transformar. «O homem desempenha na modelação da paisagem um papel muito importante; pode ser considerado, neste aspeto, como um autêntico criador de beleza. Toda a atividade humana tem como fim a satisfação das suas necessidades, quer espirituais, quer materiais. (…) A paisagem terá de ser considerada como um todo orgânico e biológico em que cada elemento é interdependente, influenciando e sofrendo da presença dos restantes participantes. A reciprocidade é a lei fundamental da natureza». Estas são palavras de 1956, na revista “Cidade Nova”, mas poderiam ter sido escritas hoje. Centrando-se nas pessoas e no seu sentido comunitário, GRT apela a uma natureza equilibrada, na qual a lembrança e o desejo, a memória e a criação se encontrem. A vida e a ação do cidadão corresponderam a uma grande coerência científica, política e cívica. Por exemplo, se temos o corredor verde em Lisboa e se a cidade é um símbolo, que em 2020 é devidamente reconhecido, tal deve-se, em parte significativa ao seu exemplo e à sua permanente determinação. Estamos perante um militante intransigente e persistente de uma sociedade mais humana, capaz de salvaguardar o meio ambiente, a paisagem e o ordenamento do território.

 

CONHECER PORTUGAL
Qual a sua grande lição? É indispensável conhecermos Portugal e o facto de não ser um país compreensível superficialmente. Não podemos esquecer a mata mediterrânica e a necessidade de uma agricultura adequada às qualidades do nosso solo. Assim, há muito que combate a ideia de uma florestação industrial extensiva com pinheiros e eucaliptos, em nome da madeira para as celuloses e para a construção civil. Lembremo-nos de alguns exemplos históricos, como o da campanha do trigo, por muitos considerada desadequada, mas posta em prática, a partir da lógica autárcica e de uma suposta autossuficiência. A floresta industrial foi outra das soluções com resultados nefastos. O professor, o pedagogo e o arquiteto paisagista tem lembrado que os romanos dividiam o território em três áreas: o ager, o campo cultivado intensamente; o saltus, ou pastagem, com agricultura menos intensiva e a silva, a mata de proteção com produção de lenha e madeira. Todo esse ordenamento foi posto em causa com sacrifício da silvicultura e a escolha contra natura da floresta industrial. Se estudarmos a nossa cultura geográfica, verificamos facilmente que não temos uma tradição florestal, mas sim mata mediterrânica e matos. Orlando Ribeiro fala do garrigue e do maquis, respetivamente: charneca de arbustos originada no bosque primitivo de azinheiras, substituído por tufos baixos de carrasco e de um cortejo de plantas aromáticas: alfazema, rosmaninho, tomilhos e cistáceas; e um sub-bosque em certos casos com povoamentos densíssimos de medronheiros. No século XIX, o pinheiro bravo veio responder às necessidades de desenvolvimento do caminho –de-ferro. Só mais tarde surgiu a utilização da resina, a indústria da celulose e a pressão da construção civil. Houve, assim, tendência para seguir orientações de curto prazo, em lugar de um pensamento estratégico. Veja-se o caso da limpeza das matas: a verdade é que no que hoje se prevê faltam condições para a circulação de água e para o aproveitamento da matéria orgânica. Daí que a prevenção dos fogos exija ações planeadas com preservação da matéria orgânica e não ações ad hoc sem consideração global. Não devemos esquecer que na mata mediterrânica, há fogos maus e bons – contribuindo estes últimos para o enriquecimento dos solos. A limpeza tem, assim, de ser considerada uma operação agrícola e ecológica – tendo de ser integrada na lógica do ordenamento do território. Do mesmo modo, GRT tem insistido no facto de o eucalipto constituir uma solução perigosa, até porque precisa de muita água – e não a temos suficiente para concorrer com o Brasil ou África. Entre Douro e Minho é a zona de maior pluviosidade, mas não pode transformar-se em floresta. Onde se considerassem os terrenos aptos à florestação, deveriam privilegiar-se as madeiras de qualidade da cultura mediterrânica, como os carvalhos, o sobreiro, a azinheira e pinheiro criteriosamente distribuídos. Com efeito, um ordenamento do território adequado necessita de equilíbrio entre o povoamento e a natureza, ou seja entre as pessoas e as culturas. Lembremo-nos do que dizia Oliveira Martins no seu célebre Projeto de Lei de Fomento Rural: “Necessitamos hoje de implantar homens a implantar árvores: dar terra a quem a fecunde. É preciso sangrá-la nuns pontos, laqueá-la noutros”…  Eis por que razão o património cultural não é uma questão do passado, mas uma realidade viva – património material e imaterial, natureza, paisagem, domínio digital e vida presente.

 

OPÇÃO VERDE
Para Gonçalo Ribeiro Telles, a opção verde e ecológica não é (não pode ser) uma questão de moda, mas de sobrevivência. A agricultura vai, por isso, ter de ganhar uma nova importância na economia contemporânea. O homem do futuro vai ser cada vez mais o homem das duas culturas – urbana e rural. Não esqueçamos, que já hoje 30 por cento das pessoas que se dedicam à agricultura económica na Europa não são agricultores profissionais. A expansão urbana aumenta e não podemos viver sem agricultura, sob pena de morrermos à fome e vítimas da destruição irreversível do meio ambiente, sem capacidade para combatermos o desperdício e para garantirmos o equilíbrio ecológico. Constrói-se mal, planta-se mal, esquece-se a relação entre as pessoas e a natureza. A lógica do progresso pelo progresso tem de ceder lugar à racionalidade, ao respeito pela complexidade e pelas diferenças. Não podemos continuar a pensar produzir tudo, para todos ao mesmo tempo. E o mesmo se diga para o caso do consumismo desenfreado. No velho texto de 1956, o nosso autor insiste no pensamento estratégico, baseado nas relações humanas: “Procurar solucionar problemas de ordem demográfica ou de consumo à custa da quebra do equilíbrio e da ordem acarreta prejuízos no fundo biológico da mesma, só remediáveis a longo prazo...". O Papa Francisco na encíclica “Laudato Si’” di-lo com muita clareza. A economia mata não apenas pela especulação financeira, mas também pela cegueira relativamente ao capital social e à ecologia.

 

Guilherme d'Oliveira Martins
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A VIDA DOS LIVROS

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  De 30 de dezembro de 2019 a 5 de janeiro de 2020


«Ensaios em Persuasão» (Imprensa da Universidade de Lisboa, 2018) de John Maynard Keynes é uma notável coleção de artigos e ensaios publicada em 1931 sobre temas momentosos, onde fica demonstrada a extraordinária capacidade visionária do autor na compreensão da complexidade e das limitações da análise económica no contexto histórico, social e político.

 

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UM LIVRO NOTÁVEL
Em primeiro lugar, cabe prestar homenagem à Imprensa da Universidade de Lisboa, que preenche um espaço importante na divulgação científica e cultural, à semelhança das principais e mais prestigiadas instituições universitárias. E cabe uma referência grata aos órgãos académicos, e em especial a António Feijó, grande entusiasta e animador do projeto. Regressaremos a outras obras, mas hoje atemo-nos a este conjunto de ensaios, que não perderam atualidade, apesar de escritos há quase nove décadas. Lorde Keynes é um caso muito especial. Se não tivesse sido o maior economista do século XX, teria sido um notabilíssimo ensaísta em qualquer dos campos em que se tivesse aventurado, para além das artes e da dança, da filosofia e da história, da matemática ou do cálculo de probabilidades. A sua participação no grupo de Bloomsbury é essencial. Os génios são raros e só podem ser plenamente compreendidos quando a usura do tempo já produziu os seus efeitos. No caso de Keynes essa demonstração está feita. É certo que muitas vezes teve razão antes de tempo, mas na maior parte dos casos fez os avisos certos no momento adequado, sem que os seus contemporâneos o quisessem ou pudessem ouvir. Lembremo-nos dos Tratados de Versalhes ou de Bretton Woods, nesses casos o tempo veio claramente a demonstrar que a sua razão era insofismável. Hoje, ouve-se muitas vezes referência ao “keynesianismo”, no entanto conhecendo a obra do autor, fácil é de perceber que o próprio não se sentiria à vontade a integrar-se num grupo com tal designação. Assim como não criou uma teoria do desenvolvimento, privilegiou sempre uma análise dos fenómenos complexos sem retirar ilações genéricas. Segundo o autor, “a maioria destes ensaios foi escrita (...) num espírito de persuasão, numa tentativa de influenciar a opinião pública, embora muitos deles tenham sido considerados na altura declarações extremas e imprudentes”. Quando os releu encontrou, porém, mais subavaliações do que sobreavaliações em face do que os acontecimentos vieram a demonstrar – e assim a profecia foi mais eficaz que a persuasão.

 

MAIS DO QUE CASSANDRA…
Keynes compara-se a Cassandra, ainda que o seu objetivo não fosse esse, falando mesmo de uma autocontenção analítica, que apenas teve como efeito atenuar a profecia, mas não fazê-la esquecer. Quando abandonou a mesa das negociações de Versalhes (1919) previu que as imposições dos vencedores da guerra gerariam o colapso económico alemão e uma desesperada e irracional reação totalitária. Escreveu então o célebre “The Economic Consequences of the Peace”, que hoje se lê com um arrepio na espinha, pois aí estão palavras proféticas fundadas numa análise rigorosíssima. O primeiro ensaio do livro de hoje é exatamente sobre esse tema, completando as considerações de 1919 e procurando ainda encontrar uma saída que evitasse a tragédia alemã, que de facto ocorreu. E assim há uma tentativa para evitar a hecatombe: a educação e a imaginação poderiam mudar a opinião. Mas haveria que falar verdade, que desmascarar a ilusão, que dissipar o ódio, pela expansão e educação do coração e do espírito humano. Ao lermos o que o ensaísta nos diz, parece-nos encontrar algo de familiar para os nossos dias: “O método utilizado pelos estadistas modernos é o de dizerem todos os disparates que o público reclama, não praticando mais do que aquilo que é compatível com o que disseram, e confiando que os disparates assim postos em prática se revelarão em breve por aquilo que são, criando desta forma uma oportunidade de retorno á sensatez – uma espécie de método Montessori aplicado à criança que é o público. Aquele que contrariar esta criança terá rapidamente de dar lugar a novos tutores”. Mas ninguém quis ouvir. No presente volume temos intervenções sobre a inflação e a deflação (1919-31), sobre o regresso do padrão-ouro, além de textos sobre a Rússia e o Futuro. Aqui exprime “a profunda convicção de que o problema económico, como lhe podemos abreviadamente chamar, o problema da privação e da pobreza, e a luta económica entre classes e nações, não é senão uma terrível confusão transitória e desnecessária. Porque o mundo ocidental dispõe já dos recursos e da técnica (conseguíssemos nós criar a organização certa para os utilizar) capazes de reduzir a uma posição secundária o problema económico que agora absorve as nossas energias morais e materiais”.

 

PARA ALÉM DA ECONOMIA
E o homem de cultura acredita que é possível criar condições para cuidar do essencial: “os problemas da vida e das relações humanas, da criação, do comportamento e da religião”. Afinal, mais do que as questões materiais, importaria considerar a economia como realidade humana e instrumental. Além da crítica aos banqueiros sobre inflação e deflação (“estão tão habituados a que a sua posição não seja questionada que nem os próprios a questionam – até ser demasiado tarde”), temos o notável texto sobre o Padrão-ouro, que pode ser lido nos nossos dias, a pensar no “Brexit”. Eu sei que as questões são bem diferentes, mas há pontos de contacto, que têm a ver com o saudosismo imperial. O regresso do padrão ouro teve consequências dramáticas, que Keynes escalpeliza. Em nome das vantagens para o comércio e a indústria britânicos havia que acabar com os esforços para manter artificialmente a moeda acima do seu valor real mercê da referência ouro. As medidas adequadas não seriam aduaneiras, mas a libertação da moeda de um jugo artificial. O resultado de um câmbio elevado incentivava as importações e desincentivava as exportações, virando contra a Inglaterra o saldo da balança comercial. É o “common sense” baseado na ciência. E leia-se, com especial atenção o texto “Possibilidades Económicas para os nossos netos” (1930). “O ritmo a que poderemos alcançar este destino de felicidade económica será definido por quatro elementos: a nossa capacidade de controlar a população; a nossa resolução de evitar guerras e conflitos internos, a nossa disponibilidade para confiar à ciência a orientação das questões que são do domínio da ciência, e a taxa de acumulação fixada entre a produção e o consumo. Destes quatro elementos, o último cuidará de si mesmo, se os três primeiros forem cumpridos”. Após estes ensaios, sairia “The General Theory of Employment, Interest and Money” (1936), que criou a econometria e demonstrou que os governos podem gerir e prevenir depressões económicas. O génio compreendia a economia como cultura.

 

Guilherme d'Oliveira Martins
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A VIDA DOS LIVROS

De 23 a 29 de dezembro de 2019

 

No âmbito do centenário de Eduardo Teixeira Coelho (1919-2005), foi com muito gosto que aceitei o convite do Clube Português de Banda Desenhada, com sede na Amadora, para, mais uma vez, partilhar despretensiosas reflexões nessa prestigiada instituição.

 

LEMBRAR EDUARDO TEIXEIRA COELHO
Desta vez, com José Ruy, mestre indiscutível da nona arte, e João Manuel Mimoso, cultor desse apaixonante tema, tratou-se de homenagear Eduardo Teixeira Coelho (1919-2005), referência fundamental nas histórias aos quadradinhos em Portugal, o mais internacional dos nossos autores, cujo centenário do nascimento ocorre em 2019. Se é certo que a popularidade da Banda Desenhada em Portugal não oferece dúvidas, a verdade é que no panorama mundial não temos referências essenciais reconhecidas. Mas tal não significa que passe despercebido o lugar de Portugal – e, no tocante a autores nacionais, Eduardo Teixeira Coelho (ETC) é uma exceção, uma vez que trabalhou em França e em Itália, a partir de 1953, ano em que “O Mosquito” (1ª série) deixou de se publicar. Então teve uma atividade intensa em relevantes publicações dos países onde esteve, destacando-se pessoalmente pelas qualidades demonstradas no plano artístico e no domínio das narrativas ilustradas, com uma identidade própria e uma especial originalidade. No entanto, quando saiu de Portugal já atingira uma inequívoca maturidade, afirmando-se como um autor reconhecido por todos pela sua excecional qualidade. Nascido em Angra do Heroísmo, começou a colaborar no “Sempre Fixe”, com apenas 17 anos, e a partir de 1943 vemo-lo nas páginas de “O Mosquito”, ao lado de Raul Correia, constituindo uma dupla influente e talentosa. “O Mosquito” foi lançado em 1936, dirigido por António Cardoso Lopes (Tiotónio, autor de Zé Pacóvio e do Grilinho) para responder a “O Papagaio” de Adolfo Simões Müller, criado em 1935 – onde foram publicadas as primeiras aventuras de Tim-tim, tendo na sua equipa pessoas como Júlio Resende e José Viana. “O Mosquito” atingiu uma tiragem de 70 mil exemplares (o que é impressionante), ao preço de cinquenta centavos, metade de um escudo, o preço da concorrência. Foi inicialmente semanário até 1942, e depois bissemanário, às 4ªs e aos sábados, dias em que os liceus não tinham aulas à tarde… “O Mosquito” publicou estórias de autores britânicos, como Roy Wilson; espanhóis, como Jesus Blasco (criador de Cuto), americanos como Harold R. Foster (autor de “Príncipe Valente”) – além dos portugueses ETC, Vítor Péon, José Garcês e José Ruy. A lista de publicações de ETC em “O Mosquito” é notável, devendo referir-se “Os Guerreiros do Lago” (1945); “Os Náufragos do Barco sem Nome” (1946); “Falcão Negro” (numa tentativa de lançar um herói, que pudesse perdurar, mas apenas se manteve até de 1946 a 1949): “O Caminho do Oriente” (1946-48); “Sigurd, o Herói” (1946); “A Lei da Selva” (1948); “Lobo Cinzento” (1948-49); “A Torre de D. Ramires” (adaptado da “Ilustre Casa” de Eça); “O Defunto” (1950); “Suave Milagre” (do conto também de Eça); “Os Doze de Inglaterra” (1950-51) e “A Ásia” (1952). Assina algumas capas do “Cavaleiro Andante”. O esmero e a qualidade vão-se afirmando, quer no tratamento gráfico, quer nas narrativas e na escolha dos temas. A vida dos celtas e dos povos nórdicos, a presença dos animais na natureza, a História de Portugal, as tradições culturais – de tudo encontramos numa versatilidade fantástica e numa inesgotável capacidade de trabalho, sem cedências no tocante à exigência artística.

 

UM PORTUGUÊS ALÉM-FRONTEIRAS
O caso de “Os Doze de Inglaterra” merece atenção. Trata-se de uma das obras-primas de ETC – recentemente reeditada (Gradiva, 2016), graças ao inexcedível trabalho de recuperação de José Ruy, sobre o episódio relatado em “Os Lusíadas” no canto VI por Fernão Veloso, no qual se contam as aventuras do célebre “Magriço”, Álvaro Gonçalves Coutinho, que passa por mil aventuras e glórias e chega a Inglaterra, quando todos os onze companheiros desesperavam, para defender, com sucesso, a honra de doze donzelas ultrajadas, que haviam solicitado o auxílio de tão intrépidos cavaleiros. ETC baseou-se em Camões de na obra de António Campos Júnior, “Ala dos Namorados” (Edições Romano Torres, 1905) e daí resultou o magnífico álbum disponível nas livrarias. Nele se sente a influência de Harold Rudolf Foster (1892-1982), o célebre autor do “Príncipe Valente”, série iniciada em 1937. Aliás, os anos trinta são decisivos para o desenvolvimento moderno dos “comics” nos Estados Unidos e dos quadradinhos (BD) na Europa. Em 1939 foi criado o “Super-homem”, graças a Jerry Siegel e Joe Schuster, e em 1928 nasceu o Rato Mickey de Walt Disney, para concorrer com o Gato Felix de Otto Messmer (1919). Dez anos antes nascera Tintin e a Escola da Linha Clara, com Hergé, e a revista Spirou (da chamada Escola de Marcinelle) surge em 1938… Voltando a Harold Foster e a ETC, ambos dispensam os balões para os diálogos, enquanto Foster escolhe o período compreendido entre o final do Império Romano e o início da Idade Média, integrando-se no ciclo bretão que envolve a tradição céltica, o rei Artur, os Cavaleiros da Távola Redonda, Camelot, Merlin, Sir Galahad e Lançarote do Lago, o português escolhe o início da dinastia de Avis e a Ínclita Geração, invocando a Rainha vinda de Inglaterra e a origem da mais antiga aliança do mundo. Pode dizer-se que ETC atinge aqui a sua maturidade, o momento mais fecundo e de mais nítido domínio da ilustração. Há uma articulação perfeita entre a evolução da aventura e a apresentação das imagens, que se sucedem a um ritmo cinematográfico (como o autor desejava), impulsionando o movimento, a intensidade da identificação e a representação das personagens. E se as influências de H. R. Foster são evidentes, ETC cedo se libertou das amarras de qualquer seguidismo, demonstrando a sua excecional personalidade artística.

 

AO ENCONTRO DO ELDORADO
Quando ETC decide emigrar para França em 1953 vai usar o pseudónimo Martin Sièvre e colabora no semanário “Vaillant”, depois “Pif Gadget”, até 1970, com “Ragnar, o Viking”, “Till Ulenspiegel”, “Davy Crockett”, “Yves Leloup”, “Robin Dubois”, “Le Furet”, “Ayak”, “Erik le Rouge” e “Pipolin les Gaies Images” (1957-63), para os mais novos. É um período de grande produtividade, notando-se uma evolução na técnica usada, que corresponde à influência sentida pela moderna Banda Desenhada europeia, que ETC bem conhecia. No entanto, as grandes qualidades mantêm-se evidentes, continuando a ser reconhecido pelos melhores cultores. Em Portugal foi o “Mundo de Aventuras” que publicou a tradução de algumas dessas obras. A partir de 1970, trabalha em Itália, também com reconhecimento, sendo premiado como o prestigiado “Yellow Kid” do festival de Lucca. Jorge Molder, no magnífico Catálogo da Exposição organizada pela Fundação Calouste Gulbenkian, em fevereiro de 2000, “Banda Desenhada Portuguesa Anos 40 – Anos 80”, comissariada por João Paulo Paiva Boléo e Carlos Bandeiras Pinheiro, faz justiça à importância da obra de ETC, apresentando-se na capa uma genial ilustração tirada de “O Mosquito”, número 673 (1945).

 

Guilherme d'Oliveira Martins
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