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Blogue do Centro Nacional de Cultura

Um espaço de encontro e de diálogo, em defesa de uma cultura livre e pluridisciplinar. Estamos certos de que o Centro Nacional de Cultura continuará, como há sete décadas, a dizer que a cultura em Portugal vale a pena!

Blogue do Centro Nacional de Cultura

Um espaço de encontro e de diálogo, em defesa de uma cultura livre e pluridisciplinar. Estamos certos de que o Centro Nacional de Cultura continuará, como há sete décadas, a dizer que a cultura em Portugal vale a pena!

A VIDA DOS LIVROS

De 23 a 29 de abril de 2018.

 

«En Lutte contre les Dictatures – Le Congrès pour la Liberté de la Culture – 1950-1978» de Roselyne Chenu, com prefácio de Alfred Grosser (Félin, 2018) acaba de ser publicado, dando conta da importância das ações no âmbito da defesa das liberdades e da democracia, como projetos de cultura.

 

MOMENTO INESQUECÍVEL
A fotografia que ilustra o presente texto é memorável. João Bénard da Costa em junho de 2005 condecora Roselyne Chenu, em nome do então Presidente da República Jorge Sampaio, com a Ordem da Liberdade, em agradecimento pelo contributo desta extraordinária mulher, que foi braço direito de Pierre Emmanuel no Congresso para a Liberdade da Cultura, na defesa dos valores da democracia em Portugal, nos tempos difíceis da ditadura. A sessão em que esse ato teve lugar foi organizada pelo Centro Nacional de Cultura e deu lugar a uma obra que se encontra publicada sobre a intervenção em Portugal do referido Congresso. Falo de «Liberdade da Cultura – Preparar o 25 de Abril» (Gradiva, 2015) – livro que reúne não apenas o repositório dos passos fundamentais desse projeto, com tão importantes repercussões entre nós, mas também depoimentos de personalidades, a maioria das quais já nos deixou, que em discurso direto nos dizem como participaram e das consequências sentidas do que foi feito nesse tempo. Pode dizer-se, aliás, que o livro acabado de publicar por Roselyne Chenu obriga, para o caso português, à leitura circunstanciada da obra portuguesa. Com efeito, as idiossincrasias portuguesas permitem valorizar o papel desempenhado entre nós pelo Congresso – que foi na transição para os anos setenta a grande seiva do Centro Nacional de Cultura. E ainda hoje temos o testemunho vivo dos jovens intelectuais que então despontaram e são unânimes em dar enorme importância a essa iniciativa, essencial no lançamento de um ambiente cultural aberto, plural e criativo. Cito João Bénard da Costa: «em 1960, após dez anos em que o Congresso para a Liberdade da Cultura se irradiou, sobretudo nos países chamados socialistas, Pierre Emmanuel pensou na Península Ibérica e nos países que, nela, não gemiam sob o comunismo, mas atabafavam com o franquismo e com o salazarismo. Primeiro criou um comité espanhol, depois, quando conheceu o António Alçada, pensou num comité português.

Em dezembro de 1965, na presença de Roselyne Chenu, assistente de Pierre Emmanuel e particularmente encarregada dos povos ibéricos, teve lugar a primeira reunião do Comité Português, que adaptou o púdico nome de Comissão para as Relações Culturais Europeias. Dez membros: Adérito Sedas Nunes, António Alçada Baptista, João Pedro Miller Guerra, João Salgueiro, Joel Serrão, José-Augusto França, José Cardoso Pires, José Ribeiro dos Santos, Luís Filipe Lindley Cintra e Mário Murteira. Estava representado quase todo o espectro político e quase todas as áreas do saber, com um leve favoritismo para as ditas ciências humanas (sociologia, economia, história), o que à época dava seriedade. Tudo acabou (em Dezembro de 1965) com um festivo jantar em casa da Zezinha e do António, onde conheci melhor Roselyne Chenu. Ela tinha 33 anos ("l"âge du Christ") olhos muito azuis e cabelo louro cortado à Jean Seberg. É a imagem que ainda tenho diante dos olhos». Aos nomes referidos do Comité Português acrescente-se que, ao longo do tempo outros elementos foram integrados na Comissão de Relações Culturais Europeias: o Padre Manuel Antunes, Nuno Bragança, João de Freitas Branco, Maria de Lourdes Belchior, José Palla e Carmo, Rui Grácio e Nuno Teotónio Pereira – além do próprio João Bénard da Costa, naturalmente.

 

UM EPISÓDIO SIGNIFICATIVO
Há dias, a 17 de abril, em Paris, na Delegação da Fundação Gulbenkian, teve lugar com assinalável concorrência e participação, a invocação das relações entre Emmanuel Mounier (1905-1950), a revista “Esprit” e Portugal. “Autour d’Emmanuel Mounier et Portugal” teve a presença de João Fatela, Jacques Le Goff, Yves Roullière e Jean Louis Schlegel – que recordaram, a propósito da publicação da obra “Entretiens” de Mounier, as relações com António Alçada Baptista e João Bénard da Costa, mas também com Nuno Bragança e Pedro Tamen, nos anos sessenta, no tempo da direção da revista “Esprit” por Jean-Marie Domenach. Presente na sessão, Roselyne Chenu recordou Pierre Emmanuel e José Bergamin, lembrando o episódio ocorrido em 1969 da vinda a Portugal de Domenach, a convite do Congresso. Apesar da luz verde de princípio do governo de Marcelo Caetano e da intervenção de José Guilherme de Melo e Castro (amigo de António Alçada) – a polícia política impediu que o diretor da revista “Esprit” pudesse fazer as conferências combinadas, com o argumento de que assinara textos críticos da política colonial. Ao chegar ao Aeroporto da Portela foi levado para o Hotel Mundial e repatriado no dia seguinte sem que pudesse falar com quem quer que fosse. Domenach diria depois, que estava longe de supor que no final dos anos setenta ainda pudesse encontrar os métodos da Gestapo. O escritor católico pôde então compreender a importância do apoio às iniciativas que preparavam a democracia. Recorde-se que o secretário-geral da Comité Português do Congresso era João Bénard da Costa, que funcionava no Centro Nacional de Cultura, onde também estava então o Comité de Apoio aos Presos Políticos, na clandestinidade, presidido por Sophia de Mello Breyner. Roselyne Chenu e João Fatela contaram o episódio – e a primeira juntou o pormenor delicioso do pedido da companhia aérea para que fosse pago o suplemento por ter sido usado um voo e um lugar não programados. Naturalmente, Pierre Emmanuel devolveu placidamente a conta, dizendo que a mudança se devia exclusivamente à polícia política portuguesa, pelo que o Ministério do Interior deveria responder por esse encargo adicional. Olivier Mongin recordou o papel fundamental dos intelectuais portugueses da revista “O Tempo e o Modo” e da Livraria Moraes – e referiu como a revista “Esprit” foi decisiva na criação de uma encruzilhada democrática, indispensável para a abertura democrática da Europa. Neste ponto, é de salientar ainda o facto de muitos dos assinantes de “O Tempo e o Modo” e de leitores das edições da Moraes serem militares portugueses mobilizados em África, entre os quais Ernesto Melo Antunes, que viria a ter papel decisivo no Movimento das Forças Armadas (MFA), com uma singular coerência democrática, não podendo ser esquecida a influência de uma obra crucial de Emmanuel Mounier, significativamente intitulada como “L’Éveil de l’Afrique Noire”. Tratou-se de um momento rico e emotivo em que foi realçada a influência de Mounier e a coragem de António Alçada Baptista e de João Bénard da Costa bem como a importância da cooperação entre católicos e não católicos na construção das bases da democracia.

 

Guilherme d'Oliveira Martins
Oiça aqui as minhas sugestões - Ensaio Geral, Rádio Renascença

A VIDA DOS LIVROS

 

De 16 a 22 de abril de 2018.

 

António Tabucchi descobriu Portugal, um dia na Gare de Lyon, em Paris, através de uma tradução de “Tabacaria”, de Álvaro de Campos, por Pierre Hourcade.

 

UM ENCONTRO INESPERADO

António vinha para Itália e esse encontro marcou a sua vida. Depois, tudo o aproximou de Portugal: a literatura, a família, as cidades, as letras e as artes. A sua aldeia lisboeta foi a Rua do Monte Olivete, num lugar de tantas recordações literárias – Ruben A., Alexandre O’Neill… E a sua obra é um acervo fantástico de um europeu autêntico, cosmopolita, sedento de encontros e diálogos. Quando lemos em Sonhos de Sonhos (1982) o que dedica a Fernando Pessoa, poeta e fingidor, podemos perceber um pouco o significado de uma empatia. “Na noite de sete de Março de 1914, Fernando Pessoa, poeta e fingidor, sonhou que acordava. Tomou café no seu pequeno quarto alugado, fez a barba e vestiu-se com esmero…”. Depois, chegou à estação do Rossio e partiu para Santarém. No comboio encontrou a mãe que não era a mãe e depressa se viu chegado ao destino esperado e numa tipoia em direção à casa de Alberto Caeiro. O cocheiro sabia bem onde era esse lugar e conhecia o senhor Caeiro. Mas, num ápice, já estavam na África do Sul. Ao chegar à casa, descobriu inesperadamente que Caeiro era o Headmaster Nicholas, o seu professor da High School. E a misteriosa personagem apressou-se a revelar que era a parte mais profunda de si, a sua parte obscura – “por isso sou seu mestre”. E a orientação era clara: “terá de escutar-me, deverá ter a coragem de escutar esta voz, se quer ser um grande poeta”… No princípio do encontro Fernando era apenas um rapazinho com calças à marinheiro. Agora já regressara à condição de adulto. O essencial estava definido. E apenas pediu ao cocheiro que o levasse ao fim do sonho. Era o dia triunfal da sua vida… Pode discutir-se se, afinal, foi num dia apenas que tudo aconteceu, a partir do “Guardador de Rebanhos”, isso é tema de especialistas, o certo é que esse foi o ápice crucial – e sem ele não podemos compreender a força da criação.

 

PEREIRA COMO METÁFORA FORTE
Ao lermos Afirma Pereira (1994) e A Cabeça Perdida de Damasceno Monteiro (1997) compreendemos que o escritor é vigorosa e humanamente crítico. Em Afirma Pereira há uma metáfora forte, em que o ano de 1938 não é um tempo confinado ao passado, mas uma realidade atual de alertas e preocupações. Monteiro Rossi, a namorada e o Dr. Cardoso, invocando a “confederação de almas”, mas sobretudo Pereira são exemplos de que o conformismo e a indiferença têm limites. Bernanos mudou ao tomar contacto com a barbárie em Espanha. Pereira vai mudando. Tabucchi afirma-se, para além de rótulos, apenas democrata. Como disse a Maria João Seixas (Público, 3.4.2000): “aquele sistema que os senhores de Atenas inventaram de se pôr uma cruzinha num caco de uma bilha, para depois se juntarem todos os pedacinhos e serem contados, esse sistema a que chamaram democracia é o melhor que até agora se inventou”. As utopias respeitava-as, desde Tommaso Campanella a Thomas More até aos escravos brasileiros que fugiram para a Amazónia – mas com cautela, já que fazem parte dos nossos desejos e sonhos. O homem tem de sonhar, sobretudo de olhos abertos. O sonho é motor da história, porque somos seres desejantes – o que lembra Spinoza sobre a necessidade de se fortalecer a alma coletiva. Por isso a luta do povo de Timor Leste foi exemplar, porque permitiu à democracia vencer, apesar de tudo… Nesta perspetiva, centrada na liberdade igual e na igualdade livre (que Norberto Bobbio sempre defendeu), era um defensor das minorias: “a nossa civilização, esta, a nossa, ocidental, não seria o que é, sem as várias minorias que a atravessam e compõem”… Por isso, via com preocupação as tendências populistas, na medida em que caiam na tentação de uniformizar tudo e de fazer da vontade geral um modo a subalternizar os poderes e contrapoderes, o pluralismo e a diversidade, que são a seiva fecunda da democracia. É importante a governabilidade se não esquecer a legitimidade do exercício, ou seja, o permanente respeito pela justiça.

 

RECORDAR “O PRANTO DE MARIA PARDA”
E sobre Portugal? Tabucchi foi um analista arguto da nossa cultura, pondo-nos de sobreaviso relativamente às simplificações e caricaturas. Voltamos à entrevista de Maria João Seixas, que lhe perguntava se seremos essencialmente líricos? Não só, disse, mas também bucólicos, não podemos esquecer a “comoção da alma lusitana” – ou seja, a “saudade”, mas o ensaísta não torna a saudade um estereótipo, seguindo o alerta de Antero de Quental. A lírica, o bucolismo e a dimensão épica têm de ser consideradas no seu conjunto. Contudo, para si a definição da “alma portuguesa” não pode esquecer o lado picaresco. Leia-se a linha que nos leva de Gil Vicente ou de Fernão Mendes Pinto até Dinis Machado de O que diz Molero. Aí está o português trocista, cultor do trocadilho e da anedota. Para escândalo de alguns, citou no “Die Zeit”, em 1997, o Pranto de Maria Parda, de Mestre Gil, onde ela diz “cada traque que eu dou é um suspiro de saudade”. De facto, como ensinou Jorge de Sena, há também uma anti-saudade que faz parte de nós portugueses, “desde as cantigas de escárnio e maldizer, consideradas, intelectual e institucionalmente, como um parente pobre das cantigas de amigo”. José Cardoso Pires concordou plenamente com esse entendimento. “Há nos portugueses um veio pícaro, um escárnio sempre presente, uma maldadezinha, um tom mais baixo, rabelaisiano”. Em Gil Vicente, “o que se escolhe habitualmente são os Autos, os do ‘sublime’. E foge-se das comédias e das farsas, onde há personagens que cheiram mal, andam rotas, sem eira nem beira, como Maria Parda”. Falando do “sublime”, dizia que apenas o tomava homeopaticamente, “porque se pode ter, com muita facilidade, uma indigestão e ficar enjoado do ‘sublime’” – e referia os poetas místicos como detentores da “chave misteriosa” que dá acesso “desenjoado e desenjoativo” aos banquetes do ‘sublime’… O analista da nossa cultura pôde assim compreender a complexidade de um cadinho cultural muito rico e pleno de vias de conceitos impossíveis de conter em meia dúzia de ideias redutoras… Não nos esqueçamos ainda dos alertas que fez relativamente à noção de lusofonia. Escreveu no “Le Monde” um texto emblemático, que intitulou de “Suspeita Lusofonia” (18.3.2000), onde dizia que Portugal, tendo perdido o seu império e as suas colónias, pode encontrar nessa ideia um terreno fértil para “uma invenção metahistórica” que funciona no imaginário coletivo como um sucedâneo do passado. Há, por isso, que contruir uma nova relação de igualdade e de intercâmbio, capaz de considerar o diálogo intercultural como multipolar, heterogéneo e complementar – sem paternalismos nem dependências. Pode pois dizer-se que a atitude de Tabucchi constitui um modo maduro e consistente para afirmar o mundo diverso da língua portuguesa, como um caleidoscópio composto por várias culturas e por uma extraordinária capacidade de recriação e de enriquecimento mútuo.

 

Guilherme d'Oliveira Martins
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A VIDA DOS LIVROS

 

De 9 a 15 de abril de 2018.

 

«De Lisboa a La Lys» de Filipe Ribeiro de Menezes (D. Quixote, 2018), a assinalar os cem anos da Batalha de La Lys (9 de abril de 1918), trata do tema “o Corpo Expedicionário Português (CEP) na Primeira Guerra Mundial”, procurando esclarecer um dos mais perturbadores enigmas da história militar portuguesa.  

 

 

PORTUGAL E A GUERRA DE 14-18
Quando lemos os diferentes relatos e interpretações sobre o desastre de La Lys, ocorrido há exatamente um século, somos obrigados a tirar conclusões equilibradas que integrem as diferentes perspetivas ligadas à participação portuguesa no teatro europeu da guerra de 1914-18 – recusando as visões unilaterais. Antes do mais, esclareça-se que o tema obriga a considerar a intervenção portuguesa na guerra num sentido mais amplo, já que a defesa das fonteiras dos territórios de Angola e Moçambique, vizinhos respetivamente das zonas de domínio alemão, o Sudoeste Africano (Namíbia) e o Tanganica, correspondeu a um envolvimento desde o início das hostilidades Lembrem-se o combate e a derrota de Naulila no sul de Angola, em dezembro de 1914, bem como os episódios de Quionga no norte de Moçambique e a difícil defesa da fronteira, desde outubro de 1914. As tropas portuguesas em África sofreram fortes perdas em vidas humanas devido sobretudo às doenças e foram alvo da desgastante da guerrilha local, alimentada pelos alemães, que procuravam evitar a todo o custo que as tropas deslocadas em África viessem reforçar a Frente Ocidental europeia. Foram razões de política interna que influenciaram a posição portuguesa na guerra europeia. Apesar da cautelosa posição dos ingleses relativamente a uma participação efetiva de tropas portuguesas no teatro de guerra – havendo preferência por outras formas de apoio – o certo é que houve um entendimento no sentido do envio de tropas para a frente europeia. Não se esqueça, porém, que Portugal estava fortemente condicionado em termos financeiros, uma vez que não podia recorrer diretamente ao crédito internacional para pagamento da guerra – em virtude de vigorarem as condições drasticamente penalizadoras do Convénio dos credores externos de 1902. Nesse sentido, o crédito necessário viria a ser conseguido através de uma sub-rogação do governo britânico. Aos ingleses interessava-lhes a aliança portuguesa, mas com a maior eficácia possível – sendo conhecida a fragilidade do nosso exército em formação e meios. Para os britânicos, haveria que ter oficiais preparados e sobretudo abertos a integrar-se no seu próprio aparelho militar. Contudo, depois do acordo sobre a participação portuguesa, tudo se revelaria muito lento e os oficiais portugueses resistiam a uma integração na cadeia de comando britânica. Havia, nas Forças Armadas, a má memória das guerras peninsulares nas quais tinha havido uma clara subalternização dos comandos portugueses. Então ocorre um paradoxo – quando a operacionalidade militar começa a funcionar (ao longo de 1917) e a articulação de comandos tem resultados positivos (com raides portugueses eficazes na frente alemã) começa a crescer o descontentamento no seio do CEP, com a opinião pública portuguesa a opor-se cada vez mais à participação na guerra. E ocorre o golpe de Estado de Sidónio Pais, contrário à presença portuguesa.

 

O PORQUÊ DE UMA DECISÃO
Não se compreende o resultado de La Lys sem as diversas condicionantes políticas – o Partido Democrático quis reforçar a sua legitimidade ligando-se aos ingleses e aos aliados, mas a opinião pública estava cansada de mortos e de um grande desgaste moral e psicológico. E assim entramos no que viria ser o último ano de guerra. As tropas estão muito desgastadas, uma vez que não se faz o normal “roulement”, não sendo substituídos os efetivos e compensadas as baixas desde outubro (até devido à situação política interna). Ainda por cima vai-lhes caber a defesa das duas primeiras linhas na zona que lhes tinha sido atribuída, normalmente as mais sacrificadas em caso de ofensiva. Ora, os alemães, nesse dia de abril, vão atacar de modo arrasador, aproveitando a noite e o nevoeiro, e usando uma barragem rápida de artilharia que corta as comunicações. O general Gomes da Costa não consegue comunicar com as suas unidades. O CEP é assim paralisado e os alemães dominam o terreno, abrindo brechas e penetrando nas trincheiras. Diz o capitão Francisco José Barros em “Portugueses na Grande Guerra”: “O avanço do inimigo havia-nos transposto em todos os sentidos num formigueiro incomensurável”. Os “boches” cercam as zonas onde estão tropas portuguesas, que não compreendem o que está a passar-se – e daí a onda de pânico. Ao contrário das análises simplistas, o pavor e a retirada devem-se à estratégia usada pela frente de ataque alemã. Assim, os portugueses foram carne para canhão, já que estavam nas primeiras linhas, mas fragilizados. Sem reforços, a situação tornou-se perigosa e insustentável. As baixas portuguesas sofridas nessas poucas horas representam a maioria das perdas do CEP na Frente Ocidental (num total de cerca de 2 mil mortos). É verdade que o “milagre de Tancos” não conseguira preparar adequadamente as forças, mas quando já havia experiência e resultados positivos faltou o apoio da retaguarda. A participação portuguesa por razões políticas contrastou com a luta de sobrevivência de ingleses e franceses.

 

QUEM ABRIU A BRECHA DECISIVA?
O conhecimento histórico das circunstâncias leva a que não possamos pôr em causa a valentia dos portugueses ou o seu brio. Daí o cuidado que o historiador português teve na leitura das fontes inglesas, imbuídas de um preconceito negativo em relação à atitude das nossas tropas O caso do historiador J. E. Edwards é significativo, segue as teses britânicas, mas não considera as narrativas contraditórias, que merecem leitura cuidada de Filipe Ribeiro de Menezes. No episódio de La Lys o cerco às primeiras linhas portuguesas tornou-se inexorável nas suas consequências – e a falta de comunicações foi decisiva. Os soldados cansados e aturdidos (apanhados no momento em que esperavam regressar a casa) consideraram-se abandonados e traídos e isso explica a derrocada. Não se esqueça os focos de revolta no seio do CEP que se faziam sentir há algum tempo. E não foi só a frente portuguesa que cedeu, a 40ª Divisão inglesa também foi obrigada a recuar, com muitas baixas e capturas. No nosso caso, o general Gomes da Costa confessa ao general Haking que não tem possibilidade de segurar os seus homens na defesa dos rios Lawe e Lys. E este é um dos pontos que leva à crítica dos ingleses relativamente à posição dos nossos soldados. No debate sobre quem cedeu primeiro nos flancos, nem Haking nem Gomes da Costa têm a razão toda. Tudo foi muito confuso. Na linha entre a 2ª Divisão portuguesa e a 40ª Divisão britânica é difícil saber quem cedeu primeiro, enquanto no resto foi o CEP a fraquejar, num recuo desorganizado, mas talvez não tão caótico como os ingleses sugeriram, até pelo número de prisioneiros capturados. A verdade é que se o recuo da 40ª Divisão manteve a coesão, o movimento do CEP não a conseguiu manter, ignorando até a ordem para participar na defesa dos rios… Numa análise cuidada, o autor conclui que a participação portuguesa na Frente Ocidental foi influenciada pelas condições políticas da jovem República. La Lys foi assim um corolário da decisão de levar o CEP para a frente europeia. Houve, porém, excesso de voluntarismo e um cálculo errado sobre a melhor forma de participar ao lado dos aliados. E tudo se agravou quando no país prevaleceu a lógica não intervencionista do Presidente Sidónio Pais. Mas também aqui não deve haver simplificações, sendo certo que La Lys foi o canto do cisne do CEP e o fim de diversas ilusões… Mas é difícil saber o que teria acontecido se La Lys tivesse ocorrido ainda na vigência do governo da União Sagrada. Sobreviveria? O certo é que houve uma confluência de fortes fatores negativos que geraram o desastre… E há muitas lições a tirar, até porque a guerra e as suas consequências marcariam a história portuguesa por várias décadas.

 

Guilherme d'Oliveira Martins
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A VIDA DOS LIVROS

 

De 2 a 8 de abril de 2018.

 

«Correspondências» (2016), o filme de Rita Azevedo Gomes, parte de uma amizade e de uma fecunda relação epistolar entre Sophia de Mello Breyner Andresen, Francisco de Sousa Tavares e Jorge de Sena.

 

 

DIFERENTES E COMPLEMENTARES
A cineasta usou o título no plural para deixar claro que ia além da relação assente apenas num conjunto de cartas. É uma relação complexa que está em causa. Correspondências significa encontros, pontos de contacto, identificações. Daí que o registo epistolar se misture com os poemas, os testemunhos e as missivas. Se há um diálogo, há igualmente um confronto e uma complementaridade. Como são diferentes Sophia e Jorge, mas como faz sentido a continuidade da sua presença. Usando as palavras de Maria Andresen de Sousa Tavares na Nota Prévia à Correspondência propriamente dita: «a sua dimensão poética e romanesca resultará (…) do convívio com a intimidade de um pensamento que se apresenta como se desenrolado “ao correr da pena”, ou com um modo singular de uma conversa que se crê a dois, pouco precavida (…) no seu modo de ser confidencial ou lugar de manifestação de sentimentos vitais, de natureza amorosa ou da natureza dessa raridade maior, a Amizade, talvez o mais alto e mais misterioso sentimento humano». No filme, em coerência com o que a autora tem apresentado como marca própria em obras anteriores, deparamo-nos com um percurso de vários registos, em que é, no fundo, a dimensão poética e romanesca a ser procurada, em que as múltiplas vozes procuram dar-nos com fidelidade a expressão viva do que foram Sophia e de Jorge de Sena, figuras maiores de uma geração de exceção, com modos próprios de se afirmar e de resistir. Como é forte o testemunho de Sophia, ao lado de Francisco, a dizer não ser compreensível que o regime tivesse investido na polícia e em prisões, em lugar da aposta na educação e nas escolas…

 

BELAS IMAGENS, REGISTOS DIFERENTES
Vemos belas imagens em registos diferentes, numa cadência que nos permite ir ouvindo em várias línguas, mas sobretudo na original expressão dos próprios, o diálogo cruzado e as cartas trocadas entre Sophia e Jorge de Sena entre 1959 e 1978. O diálogo é a ilustração do contraponto entre a casa e a ideia mesma de hospitalidade, representadas pela autora do Livro Sexto – e a viagem, a distância e o exílio, permanentes e incertos, simbolizados pelo poeta de Fidelidade… Sophia viaja e regressa a casa. Sena é um andarilho impenitente. Mas é sempre a ideia de Amizade, de procura e de encontro que estão bem presentes – como se o “trobar” dos velhos trovadores medievais reencontrasse a ambiguidade etimológica da poesia, da procura e do encontro. Com grande limpidez vamos registando diversos sinais. Sophia vai recebendo mensagens e cartas, perguntas e incertezas. E a PIDE vai fazendo das suas, apreendendo cartas e vigiando tudo. Amiúde Sophia exprime o sentimento de ausência, a falta que faz não haver os almoços antigos na casa da Travessa das Mónicas. É muito mais do que aquilo que sentem “a Luiza e a Sofiazinha”…. É recorrente a referência ao vazio deixado por Jorge. Do que se trata, obviamente, é de um tempo dividido… “Caminho nos caminhos onde o tempo / Como um monstro a si próprio se devora”…E ouvimos Sophia a dizer-nos “Marinheiro Sem Mar”: “E ao Norte e ao Sul / E ao Leste e ao Poente / Os quatro cavalos do vento / Exatos e transparentes / O esquecerão // Porque ele se perdeu do que era eterno / E separou o seu corpo da unidade / E se entregou ao tempo dividido / Das ruas sem piedade”… Mas Jorge de Sena, com a sua voz forte e bem timbrada, exprime-se, num registo bem diferente do de sua interlocutora, sobre um tema que ambos muito bem conhecem: “Em Creta com o Minotauro, / sem versos e sem vida, / sem pátrias e sem espírito, / sem nada, nem ninguém, / que não o dedo sujo, / hei de tomar em paz o meu café”. A encruzilhada de percursos é, de facto, fascinante. Fascinante mas difícil, serena e agitada como a vida: “Será que a vida é a luta das imagens que não morrem?”. Dir-se-ia que aqui está a chave da obra de Rita Azevedo Gomes. De facto, a sucessão de imagens, de registos, de palavras, de pessoas tem o significado de exprimir os sentimentos vitais que subjazem à Amizade aqui retratada… Mas não é uma amizade feita de placidez, mas de combate incessante. “Eu começo a sentir-me incapaz de fazer tudo o que quero fazer. Ser ao mesmo tempo poeta, mulher do D. Quixote e mãe de cinco filhos é uma tripla tarefa bastante esgotante” (10.6.63). Sena pergunta: “Diz-me o Francisco, na carta: ‘Alguma vez aí nos encontraremos todos?’ Eu creio que sim; e creio que chamados a várias responsabilidades por aqueles que nos acusarão dos seus próprios fracassos” (1.3.63)…

 

«TENHO VIVIDO UM VERÃO MARAVILHOSO»…
As belas imagens obtidas nos rochedos da Praia de Dona Ana são a melhor ilustração da paixão mediterrânica de Sophia. Afinal, a Grécia da sua poesia começa no Algarve, como tantos estudiosos da obra têm dito com justeza. As imagens do filme são fidelíssimas relativamente ao que sabemos das impressões das cartas e dos poemas: “Aqui em Lagos tenho vivido um Verão maravilhoso nesta luz mais que limpa, neste calor leve e doirado, nesta água verde e transparente e nas grutas invisíveis que são o mais espantoso barroco, roxas e doiradas por dentro. Em Agosto quando o mar estava liso como um chão e completamente transparente eu alugava uma chata e ia de gruta em gruta e nadava na gruta do leão e na ‘sala’ e na ‘porta do sol’ e na ‘Balança’, rodeada pelos pequenos e guiada por um extraordinário barqueiro, um pescador chamado José Vicente, que mergulhava para trazer do fundo ouriços, pedras e búzios e que nos ensinava o nome dos peixes e nos contava as mais fabulosas histórias de pesca. (…) Acho este povo algarvio maravilhoso de honestidade e dignidade e muito mais evoluído e consciente do que o povo do Norte” (22.9.1961). João César Monteiro ilustrou magnificamente tudo isto e com as suas imagens revemos Sophia a nadar de gruta em gruta e a usufruir do mais espantoso barroco dessa costa de configuração mágica. É preciso dizer que este belo filme é um ato de generosa compreensão da Amizade, da natureza e da humanidade. Quando, por exemplo, ouvimos e vemos Alberto Vaz da Silva encontramos uma presença saudosa, singular e única – e lembramo-nos da ausência de João Bénard da Costa. Para os filhos de Sophia eles eram o Tempo e o Modo, espécie de siameses inesquecíveis no mundo dos melhores cultores da poesia da mãe. Alberto conhecia bem a obra de Sophia, falava dela com ternura e saber – e a última grande viagem que fez foi à Grécia (com o Centro Nacional de Cultura, ao qual Sophia deu muito de si) seguindo os passos e a obra poética que tanto admirava. E recordava o poema profético de Geografia: “O sol rente ao mar te acordará no intenso azul / Subirás devagar como os ressuscitados / Terás recuperado o teu selo a tua sabedoria inicial / Emergirás confirmada e reunida / Espantada e jovem como as estátuas arcaicas / Com os gestos enrolados ainda nas dobras do teu manto”.     

 

Guilherme d'Oliveira Martins
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A VIDA DOS LIVROS

 

De 26 de março a 1 de abril de 2018.

 

Adília Lopes acaba de publicar «Estar em Casa» (Assírio e Alvim, 2018), o terceiro volume de um conjunto autobiográfico, em que se integram «Manhã» (2015) e «Bandolim» (2016), numa série em que a originalidade e a imaginação da autora continuam a afirmar-se plenamente.

 

UMA CAPA FEITA DE MEMÓRIAS
A capa de «Estar em Casa» é muito atraente e representa os brinquedos da infância da poetisa dispostos em cima de uma mesa em sua casa na José Estevão. De facto, a casa está muito presente não só neste livro, mas também nos volumes que o antecederam – e em toda a prolífera obra precedente. A casa é o refúgio, a proteção e a defesa. Com um finíssimo sentido de humor, inconfundível, lemos impressões aparentemente espontâneas e simples, mas profundamente pensadas, palavra por palavra… Adília Lopes tem insistido em dizer que o fascínio que sente pela obra de Sophia de Mello Breyner é exatamente originado pela busca permanente da palavra certa. E a verdade é que, ao longo da obra poética da autora, sentimos essa permanente exigência, em que a imaginação e a lucidez se ligam intimamente num objetivo determinado e exigente em que o non-sense surge de um modo cuidado como ilustração e compreensão da realidade. Ver o mundo às avessas é, assim, procurar vê-lo melhor. Como no casaco de malha, quando parecia faltar-lhe uma casa para o botão… De facto, estava mal abotoado… E lembramo-nos do gosto que José Blanc de Portugal (figura marcante da cultura, que foi tão próximo da nossa autora) tinha pelos «Disparates do Mundo» de Chesterton, que magistralmente traduziu, fácil é de fazer um paralelo com a preocupação que Adília tem em apresentar a realidade sob um ponto de vista atípico e aparentemente cómico ou até chocante, para que se compreenda melhor a singularidade do que nos procura dizer. Sobre essa marca muito especial, lembramo-nos do que disse Paula Rego, quando tomou contacto com a escrita e as recordações de Adília Lopes: «fizeram-me logo lembrar a minha juventude, com as criadas, as bonecas, as mães ultraprotetoras. Adília Lopes é de um grande romantismo e ao mesmo tempo de um grotesco e de um cómico transbordantes». Não é demais dar ênfase ao extraordinário paralelismo, com as distâncias necessárias e as especificidades próprias, entre as duas, Paula e Adília.

 

VERSO E REVERSO DE UMA MESMA REALIDADE
Não devemos esquecer o que um dia disse a autora: «Adília Lopes é água no estado gasoso e Maria José a mesma água em estado sólido». Não se trata de duas facetas diferentes de uma rica e complexa personalidade, de uma transbordante criatividade – mas de verso e reverso de uma mesma realidade, que não esconde as raízes familiares e a determinação em encontrar um caminho próprio, que a levou, naturalmente a migrar da Física para a Literatura e Linguística, numa ilustração evidente sobre as fronteiras ténues que ligam as Humanidades. Mas ficou a paixão da matemática e o sincero gosto pelo rigor científico e pela busca da incerteza. Como diria Pascoaes trata-se de se debruçar da «velhinha janela» para saber ouvir «a voz das cousas». Nunca Adília / Maria José deixou de ter uma atração especial pela Física, como antecâmara natural para uma boa compreensão do mundo da vida. E voltando a José Blanc de Portugal, nele encontramos essa ligação íntima entre o espírito científico (do geógrafo) e a paixão literária, a demonstrar que as humanidades são abrangentes, não albergando duas (ou várias) culturas distantes e separadas. «A literatura continua a ser para mim uma coisa muito séria». A água é a mesma esteja no estado gasoso ou no estado sólido. Daí a importância do conselho de Sebastião e Silva para a “utilização do Compêndio de Matemática” - «adotar um critério de escolha que elimine exercícios supérfluos e exercícios estapafúrdios». E que significa isso? Exatamente, compreender que o real quotidiano é bem mais simples e suscetível de clareza do que julgamos à primeira vista… «Gosto muito de comparações. Escrevo muitas vezes a palavra como. Como gosto muito de comer até tem mais graça». Assim mesmo – como se fosse tudo óbvio. Fernando Pessoa diz: «Olha que não há mais metafísica no mundo senão chocolates». E Cristina Campo diz que «não tem mal nenhum uma pessoa repetir-se» Tudo depende de as ideias valerem a pena. E o que é «ser sempre criança»? É fazer da memória uma atenção permanente. «Memória / puzzle». É não esquecer. É pôr os brinquedos na mesa redonda para falarem. E é compreender a magia do escorrega – uma bela comparação para pensar e escrever.

 

UM MUNDO DE COMPARAÇÕES
Em maré de comparações, estamos diante de um mundo inesgotável. É esse o mundo em que Adília habita, com prazer genuíno, mas também com incomodidade. «Ao fim da tarde, depois de os amigos se terem ido embora, a sombra do bule fez-me ver como sou feliz às vezes». E na casa habitam os espíritos, as lembranças, os desejos, as perplexidades – tudo. Proust encontra-se com Cesário, Agustina vai ter com Sophia, Verlaine desencontra-se com Rimbaud. Os brinquedos falam sobre a mesa. «Escrevo / esgravato / com o bico da caneta / o caderno…». No caso de «Estar em Casa» temos de entender que com ele os outros dois livros autobiográficos fazem um conjunto só. O seu valor é do conjunto, das memórias, das dúvidas, das descobertas. «Manhã» e «Bandolim» anunciam «Estar em Casa» - e os três livros ler-se-ão naturalmente em conjunto. «Ler, escrever, ouvir música, andar a pé, brincar». Se virmos bem há um fio de Ariadne que liga tudo. «Cismar tagarelar». E um médico disse que «a novidade estimula» ou ainda que «a capacidade de esquecimento das pessoas é muito grande»… Isto a propósito da senhora que era pobre e não tinha dinheiro para comprar bibelots. Por isso tinha um baú, donde ia fazendo circular os poucos bibelots que tinha, para dar a impressão de que eram muitos e novos. «Não é bom ser pobre mas é bom ter imaginação». E se agora não encontramos as «caras baratas», vislumbramos a pata firme de Lu, uma gata omnipresente que chegava aos seus dias do fim. «Acho que só os animais são capazes de amar assim tanto. Eu não sou capaz». Maria José / Adília continua a dar-nos o retrato da vida. E diz-nos ser verdade que as flores baloiçam no ar!...

 

Guilherme d'Oliveira Martins
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A VIDA DOS LIVROS

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   De 19 a 25 de março de 2018

 

«Memórias» de Rómulo de Carvalho (edição da Fundação Calouste Gulbenkian, 2010) é um precioso relato de uma vida muito rica de um grande pedagogo, homem de ciência e humanista.

 

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MESTRE DE MESTRES

 

Era Campo de Ourique e chovia. Foi o dia em que, muito justamente, fomos lembrar e homenagear Rómulo de Carvalho na casa onde morou. Com uma ponta de emoção, o Presidente da República não pôde deixar de lembrar, com palavras oportuníssimas do mestre, os tempos em que teve como professor o homenageado de agora. E ficou como marco dessa invocação uma placa, que lembrará a quem por ali passar o professor, o poeta, o homem de ciência, numa palavra, o humanista no sentido mais rico do termo. O quarteirão desse bairro cheio de memórias é, aliás, o mesmo em que viveu Bento de Jesus Caraça… E tal placa levará os passantes à recordação do exemplo de quem foi sempre um legítimo praticante da arte de ensinar e aprender. Sim, porque para o pedagogo de exceção o fundamental era compreender que há sempre uma troca quando se trata de educar. É a aprendizagem a marca da civilização, e é do despertar das consciências e do transmitir de saberes que depende a vivência da cultura. Com que zelo, com que amor sincero, como confessava seu filho Frederico (ao seu trabalho se deve a publicação das Memórias), Rómulo se encarregava de ensinar (a começar na própria casa), nunca como monólogo, mas como autêntico diálogo. Não se tratava, porém, de descer até ao jovem aprendente, mas sim de o elevar ao conhecimento maduro, com a preocupação da clareza e do gradualismo. Para o mestre, haveria sempre que saber dar os passos necessários para chegar ao conhecimento e à compreensão. “Estimular é saber tirar proveito das coisas, saber encantar, digamos, pôr as coisas em relevo, mesmo as coisas insignificantes”. Para Rómulo de Carvalho, o experimentado docente: “o Professor tem de ter qualidades muito humanas e saber expressar-se, manifestar as suas ideias. Os alunos agradam-se disso. Tal como deliram com as experiências”. Mas na arte de educar tem de haver uma dramaturgia. É como se estivéssemos num teatro – com encenação, marcação, representação e climax. O amadorismo ou o improviso não cabiam nos procedimentos de Rómulo de Carvalho. Tudo tinha de estar muito bem preparado. Os alunos são julgadores severíssimos. Apenas se deixam impressionar se tudo for brilhante e irrepreensível. O metodólogo sabia-o, melhor que ninguém, e explicava isso com muito cuidado e rigor aos seus formandos. No testemunho de duas discípulas, Alcina do Aido (minha professora) e de Maria Gertrudes Bastos: “a preocupação que nos procurava incutir com a maior ênfase era a necessidade de, nas vésperas de uma lição em que se previa a realização de uma certa experiência, executá-la com o maior cuidado, testando todo o material até ao último pormenor, na tentativa de evitar qualquer falha que pusesse em risco a conclusão que se pretendia tirar”…

 

 

A CHAVE DA CIVILIZAÇÃO

 

Num texto intitulado Presença de Descartes afirmava: “A finalidade dos estudos deve consistir em orientar o espírito para a construção de juízos sólidos e verdadeiros sobre todos os objetos que se lhe apresentem”. E isto obriga à liberdade criadora – de alguém que foi, em complementaridade perfeita (o próprio diria, no seu sentido autocrítico, quase perfeita), o pedagogo, o praticante da cultura científica, o divulgador e também, com existência própria, o poeta… Não esqueço, como na sua História do Átomo da coleção Ciência para Gente Nova (Atlântida) dizia: “A história do átomo é a história de uma das mais belas vitórias dos homens. Quer-nos até parecer que em todo o desenrolar das atividades humanas nunca a Ciência e a Poesia estiveram ligadas tão intimamente como neste caso”. António Gedeão era uma figura à parte, que não iludia a personalidade do seu criador, mas não se confundia com ele. Daí que Rómulo de Carvalho tenha tido o cuidado de o fazer sair do mundo dos vivos antes dele próprio. De facto, há uma fronteira, que permite compreender que a ciência e arte se ligam, na compreensão dos diferentes métodos que usam. Rómulo de Carvalho era um homem do método. Em célebre artigo publicado na revista “Palestra” em 1959, intitulado “A Física como objeto de Ensino”, afirmava ser “necessário ter cuidado ao considerar a experiência como base fundamental do ensino da Física em vista do seu valor como estimulante do processo indutivo. Realmente, não é a experiência que permite a indução. Somos nós, nós os que ensinamos, com as palavras que escolhemos e proferimos no decorrer da sua execução, com as nossas hábeis insinuações, com as nossas escamoteações oportunas, com o nosso conhecimento sagaz do aluno e das suas circunstâncias. Nós somos, em última análise, o método, o processo, a forma e o modo”. Esta a chave fundamental da Educação, compreendendo-se que estamos sempre perante o complexo desafio de ligar a aprendizagem, o conhecimento, a relação direta entre o professor e o aluno, a valorização do trabalho, da exigência e da justiça. O essencial da educação está na aprendizagem. Esse o elemento crucial, que não pode ser alvo de confusões ou de qualquer tipo de inversão de valores. Só há Educação justa se houver exigência, só a qualidade pode combater a exclusão e a desigualdade.

 

 

LEMBRAR TAMBÉM NATÁLIA NUNES

 

Há poucas semanas, fomos despedir-nos de Natália Nunes. Então pude lembrar, com sua filha Cristina, o percurso multifacetado e rico da mulher de Rómulo de Carvalho, que ele tanto admirava. Não esqueço a última vez que a acompanhei à rua Sampaio Bruno, depois de termos ido ao Liceu de Pedro Nunes homenagear o Professor no seu Laboratório de Física, pleno de recordações e lugar onde pôde exercer a sua missão didática, pedagógica e científica. Foi uma oportunidade para lembrar a personalidade excecional de Rómulo na instituição secular que tanto marcou. Personalidade discreta, Natália Nunes é uma grande escritora, que foi sempre uma cidadã aberta e corajosa, a quem devemos Autobiografia de uma mulher romântica (1955), Regresso ao Caos (1960), Assembleia de Mulheres (1964) e Vénus Turbulenta (1997) – além de contos, ensaios e traduções. Era uma pessoa de rara sensibilidade e de grande cultura – que se singularizou como profissional de referência no mundo das Bibliotecas e Arquivos. Tenho testemunhos de muitos dos com ela trabalharam ou a ela recorreram bem demonstrativos das suas excecionais qualidades. Posso confirmá-lo pessoalmente. Falámos longamente, e era a liberdade da cultura que cultivava e uma fantástica curiosidade pelo mundo e pela vida – como notamos na sua obra, na variedade de temas e situações e no contacto conhecedor com a melhor literatura de Tolstoi, Dostoievski e Balzac, além de Raul Brandão. Nas palavras que troquei no dia da homenagem a seu pai com Cristina Carvalho pude ligar as duas personalidades cativantes que tive o gosto de conhecer e admirar – completavam-se naturalmente e o amor à cultura, à ciência e aos livros era apaixonante.

 

Guilherme d'Oliveira Martins
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A VIDA DOS LIVROS

 

De 12 a 18 de março de 2018.

 

A Sinfonia nº 2 de Gustav Mahler, que o autor designou como “Ressurreição”, constitui uma obra-prima da história da música de todos os tempos.

 

 

MOTIVO DE MEDITAÇÃO
Neste tempo de Quaresma, ouvir a Sinfonia nº 2 de Mahler (1860-1911), à qual o autor daria o título de “Ressurreição”, constitui motivo de intensa meditação (Coro e Orquestra Gulbenkian, Maestro David Afkhan). Estamos no centro do Mistério Cristão e o grande compositor fez questão de pôr nesta sua obra o essencial do caminho que o levaria à conversão (1897). Sendo certo que a estreia é de 1895 em Berlim, a verdade é que a versão final é de 1903 – abrangendo o resultado da evolução pessoal. De facto, a ideia nasceu quando Gustav Mahler ainda estava a escrever a primeira sinfonia, no final dos anos oitenta, sentindo necessidade de dar uma identidade própria aos temas que agora se encontram, numa das obras-primas da música de sempre. Pode dizer-se, aliás, que esta segunda sinfonia acompanha o caminho espiritual do seu autor, verificando-se que no início se nota angústia e sofrimento, que vão evoluindo gradualmente no sentido de uma espiritualidade libertadora. Eduardo Lourenço dirá: “Mahler começa a grande oração da nossa Ausência que é ao mesmo tempo a de uma Busca como esta que desenrola os seus desertos e as suas reversíveis imagens neste mar de música em alma sem orla imaginável” (Tempo da Música, Música do Tempo, Gradiva, 2012, p. 54). E este dilema desenvolve-se numa procura determinante. Na parte final, a soprano diz-nos: “Ah, crê: não nasceste em vão / Não foi em vão que viveste, sofreste”. Ao que coro e contralto respondem: “O que foi criado tem de perecer! / O que pereceu ressuscitará! / Para de tremer! / Prepara-te para viver!”. E assim o compositor antecipa o momento final, em que, depois das naturais dúvidas, inerentes à própria natureza da fé, o coro proclama triunfalmente: “Com asas, que para mim ganhei, / Desaparecerei! / Morrerei para poder viver!”. Aqui estamos no momento crucial do próprio percurso individual do autor, que se implica diretamente na consideração da obra como uma ilustração do percurso existencial. “Ressuscitarás, sim, ressuscitarás, / Meu coração, num instante! / Aquilo por que lutaste / A Deus te levará!”.

 

DA DÚVIDA À ESPERANÇA
O começo da Sinfonia nº 2, segundo o próprio Mahler tem a ver com a meditação exasperada sobre a condição mortal da humanidade. Eis por que encontramos pontos de contacto com a terceira sinfonia de Beethoven (“Eroica”) – uma marcha fúnebre contrasta com a perspetiva lírica. Com um extremo cuidado técnico, graças a um complexo e hábil recurso a dissonâncias harmónicas, encontramos a coexistência do sofrimento e da esperança… Depois, temos uma inocente e nostálgica visão do passado individual do herói – e a alegria vai contrastando com a ideia de morte. Um ambiente campestre e idílico evolui no sentido de uma visão incerta e perplexa sobre a vida De que valerá algo que está condenado a desaparecer e é estéril? E G. Mahler recorre a material relacionado com a canção do “Sermão de Santo António aos Peixes” (1893) – para salientar como o santo, perante a indiferença e a incapacidade de as pessoas ouvirem o que quer que fosse, se dispõe a falar aos peixes (“O bom Deus enviar-me-á uma pequena luz”…). Lembramo-nos deste tema, bastamente glosado pelo Padre António Vieira. E assim chegamos ao quarto andamento, em que o compositor insiste no desejo de libertação dos dramas humanos em direção à transcendência. À complexidade anterior sucede uma maior simplicidade (enquanto clareza na expressão) que, no entanto, é produzida por uma orquestração muito cuidada, apenas possível graças à grande capacidade inovadora de se autor. Dir-se-ia que estamos perante uma autêntica depuração espiritual, em que o sofrimento e a angústia iniciais dão lugar a uma paz de espírito, que não deixa de conter no seu íntimo toda a diversidade de um sentimento pleno de tensões contraditórias. É por isso que a Sinfonia nº 2 de Mahler tem hoje tanto sucesso (que no início não foi claro) – de facto, há na mesma obra não apenas a presença da personalidade complexa e riquíssima em termos espirituais de Mahler, mas também a capacidade revelada por um artista genial, capaz de usar uma panóplia inesgotável de meios artísticos ao serviço de uma forte emancipação humana. E assim no final da sinfonia temos a recapitulação do caminho percorrido: o ambiente fúnebre do começo, o tema “Dies Irae”, que corresponde à consciência da pequenez e da imperfeição, a que sucede a marcha orquestral que ilustra a procissão para o “Juízo Final”, até que soa a última trombeta do Apocalipse. E assim dá-se início à cantata sinfónica final, já aqui referenciada – com o poema “Ressurreição” de Friedrich G. Klopstock (1724-1803), grande poeta anunciador do romantismo – num extraordinário crescendo que representa a afirmação do autêntico júbilo, assumido como força vital pelo compositor, num momento crucial da sua vida atribulada, em nome de uma esperança forte e renovadora.     

 

Guilherme d'Oliveira Martins
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A VIDA DOS LIVROS

 

De 5 a 11 de março de 2018.

 

«Paul Ricoeur: Penseur des Institutions Justes” constitui um importante dossiê da revista Esprit (Paris, novembro 2017) coordenado por Jean-Louis Schlegel que merece reflexão aprofundada.

 

 

O REGRESSO DAS IDEIAS
Nos tempos que correm, persiste a dúvida sobre se, como tem sido afirmado em alguns meios intelectuais, estão a regressar as ideias, para substituir a lógica apenas centrada no pragmatismo. É verdade que a vida política precisa de consciência prática, mas, como tem ficado demonstrado, a ausência de reflexão gera a decadência e induz o oportunismo. Os populismos correspondem ao resultado dessa tendência dominada pelo curto prazo e pela inversão de valores – na qual se desvaloriza a capacidade de orientar e vence o predomínio dos sentimentos inorgânicos e dos interesses momentâneos e egoístas. Não podemos esquecer o que afirmou Fernando Henrique Cardoso: “a política é a arte de transformar o possível em necessário”. No entanto, tem havido a renúncia a pensar, prevalecendo o imediato, o deixar ir e a tirania da indiferença. E assim no tema dos refugiados emerge sobretudo o medo do outro, em lugar da ponderação da humanidade. Também nas reformas sociais falta dimensão de futuro – não se inserindo a coesão económica e social e a sustentabilidade na consolidação das instituições democráticas mediadoras, capazes de representar a sociedade e de garantir a participação dos cidadãos – em nome da legitimidade do voto e do exercício. Como temos visto, a lógica da indignação não favorece a democracia como cidadania ativa e partilhada. A fragmentação social gera movimentos incapazes de encontrar soluções duradouras e estáveis. As redes sociais, em lugar de fazerem convergir responsabilidades, formam grupos separados, em circuito fechado, incapazes de criar movimentos de emancipação e de mobilização no sentido da justiça e do desenvolvimento, da liberdade e da igualdade.

 

NÃO HÁ DEMOCRACIA SEM IDEIAS

O certo é que não há democracia sem ideias, sem pluralismo, sem tempo para a reflexão. A possibilidade de alternativas é essencial, O tempo para ponderar e decidir é crucial. A pressa induz a ilusão e a mentira. Só a mediação das instituições impede a manipulação das vontades. Eis por que razão os referendos devem ser usados com conta, peso e medida. O mesmo se diga do uso das tecnologias de informação, para que não se tornem instrumentos da tirania cega do número. Os casos do «Brexit» e da crise catalã revelam a contradição entre uma suposta vontade da maioria e a proteção das minorias e do bem comum. A crise financeira de 2008 e os seus efeitos obrigam a repensar a democracia e a vida dos partidos e das instituições. Se é certo que tem havido a tentação (como nos anos trinta do século passado) das respostas nacionalistas, populistas e protecionistas, à direita e à esquerda, a verdade é que foram, apesar de tudo, os frágeis instrumentos supranacionais que puderam minimizar os males. Sem dimensão orçamental adequada na União Europeia e depois de muitas hesitações, só o Banco Central Europeu pôde encontrar uma terapêutica de recurso para atacar a doença – que tinha diversas origens (bancária, orçamental, de endividamento público e privado). Não foram a social-democracia e a economia social de mercado postas em causa – mas sim a tentação das receitas indiferenciadas. Voltou-se à fórmula do pós-guerra: o mercado tanto quanto possível, o Estado tanto quanto necessário. A austeridade foi defensiva – incapaz de compreender que a sustentabilidade não é apenas financeira ou orçamental, mas sim económica, ambiental, social e cultural… Os casos irlandês e português são bem demonstrativos de que foi a sociedade a encontrar a economia, o que permitiu o sucesso e não a rigidez das receitas preconizadas.

 

VIDA BOA E INSTITUIÇÕES JUSTAS
Temos de compreender o alcance prático da afirmação de Paul Ricoeur, segundo a qual temos por objetivo: “uma vida boa, com e pelos outros, no âmbito de instituições justas. O alcance ético da democracia encontra-se aqui. De facto, o cerne da cidadania responsável e partilhada está na mediação assegurada pelas instituições. É de uma sociedade e de uma economia de pessoas que falamos. A justiça consiste em atribuir a cada um a sua parte – o que pressupõe a justiça distributiva (de Rawls e Habermas), mas também a correção das desigualdades na justiça complexa (de M. Walzer), a igual consideração e respeito de Ronald Dworkin, o republicanismo (de Quentin Skinner e Philip Pettit) ou a relação entre diferentes culturas (de Charles Taylor e Will Kymlicka). O tema que tem de estar presente na reflexão democrática obriga a ir ao encontro da ideia de confiança e de coesão, que encontramos em Robert Putnam e na noção de capital social. Afinal, as conceções de justiça têm tudo a ver com o aperfeiçoamento da legitimidade democrática, já essencialmente baseada no exercício. A sociedade é cada vez mais conflitual porque complexa, carecendo da regulação mediadora. O justo e o bom, a igualdade e a autonomia entram em contradição. Mas a sociedade humana, sendo imperfeita, é perfectível. Daí a importância da disponibilidade para ser melhor. A democracia é, assim, a abertura permanente a esse caminho, sem nunca o considerar adquirido. E Ricoeur dá especial importância à relação interpessoal, ao que designa por amor, como modo de completar o justo pelo bom… Mas importa não esquecer as lógicas diferentes em presença – a da superabundância no amor, e a da equivalência na igualdade. Perroux falava, por isso, de troca e de dom – considerando o que tem preço e não o tem, entendendo-se que aquilo que tem mais valor é o que não tem preço (desde a honra até às relações e bens especialmente estimados)… Hoje, o ponto essencial na construção democrática está no equilíbrio entre as dimensões singular e comunitária. Mas a democracia exige cada vez mais a subsidiariedade contra a autossuficiência. Deve tratar-se o que é mais próximo a nível local, compreendendo ainda que muitas decisões passam pela ação das regiões ou do Estado-nação e outras, desde o ambiente até à paz, passam pelo nível supranacional.

 

COMO CHEGAR A CONSENSOS?
É difícil haver consensos nas chamadas reformas estruturais, mas deve haver compromissos essenciais, que permitam completar políticas de interesse vital comum – como a assunção de um planeamento estratégico relevante, como as políticas de Educação, Cultura e Ciência (veja-se o caso da Perfil dos Alunos à saída da ensino obrigatório, num horizonte estável independente dos ciclos eleitorais) ou a consolidação e sustentabilidade do Estado Social. Da qualidade e da exigência dependem os resultados de longo prazo – sobretudo quando a aprendizagem é o fator distintivo do desenvolvimento humano. O mesmo se diga da cultura de paz, da política externa e de defesa… Também a construção europeia e a dimensão internacional exigem compromissos estáveis. Muito mais do que temas abstratos, estamos diante de desafios que obrigam ao debate de ideias, à superação da tentação de pôr em causa tudo em cada nova legislatura. Há opções diferentes e escolhas relevantes a fazer, mas há que dar estabilidade às decisões fundamentais. Eis por que razão as ideias e o seu debate são tema de sobrevivência, sempre.

 

 

Guilherme d'Oliveira Martins
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A VIDA DOS LIVROS

De 26 de fevereiro a 5 de março de 2018.

 

O livro de Marco Polo é uma referência essencial nos relatos de viagens, sobretudo pela influência que exerceu na abertura de horizontes nas descobertas oceânicas dos séculos XV e XVI, em especial iniciadas pelos portugueses.

 

 

MARCO POLO E PORTUGAL
Em Portugal é conhecido o facto de um exemplar manuscrito constar da livraria de D. Duarte, devendo pensar-se que esse exemplar esteja relacionado com o que foi trazido pelo Infante D. Pedro de Veneza na década de 1420, depois das importantes deambulações europeias. Temos notícia da tradução impressa em 1502 (vd. imagem), escrita antes, feita por Valentim Fernandes com objetivos informativos, para os portugueses que se dirigiam ao Oriente, e políticos, para enaltecer o rei D. Manuel, tendo um texto introdutório que descrevia os territórios correspondentes à Etiópia, Arábia, Pérsia e Índia. Sobre a Pérsia são parcas as palavras de Valentim Fernandes, que remete para o relato do próprio Marco Polo, onde se faz referência às regiões desde Tabriz (noroeste do Irão) até Caxemira. É essencialmente o mercador que está em causa, referindo as rotas comerciais, dando natural ênfase a Ormuz e aos produtos trocados em cada região, bem como aludindo ao clima, às riquezas naturais e às condições de segurança. Aí se fala da devastação operada pelos chamados incorretamente de tártaros, já que se trata de mongóis; da cidade de Saba, terra mítica dos magos que foram a Belém, adorar Cristo; da fauna, avultando as referências aos falcões e aos asnos; da flora exótica e desconhecida dos europeus; das práticas bárbaras dos habitantes da zona; da influência exercida pelos indianos nas práticas de magia; da beleza das mulheres de Timochain no norte da Pérsia e dos vestígios da presença de Alexandre Magno. A Pérsia interessa aos europeus como território da rota da seda e como repositório histórico de interesse superlativo. No caso português, a Pérsia fará mesmo parte dos títulos do rei D. Manuel, onde expressamente se refere a «conquista, navegação e comércio da Etiópia, Arábia, Pérsia e Índia». Ormuz, por onde Marco Polo passou duas vezes, constituirá o ponto estratégico crucial da presença portuguesa no Golfo Pérsico – definida e iniciada por Afonso de Albuquerque. O primeiro português em terras do Golfo e na ilha de Ormuz, em 1489, foi porventura Pêro da Covilhã, enviado por D. João II em busca do reino do Preste João. O rabi Abraão de Beja e o sapateiro José de Lamego, que andaram na região, também terão estado em Ormuz, mas as informações destas explorações terrestres apenas chegaram a Portugal depois de terem sido contadas por Pêro da Covilhã ao Padre Francisco Álvares em 1520, quando foram estabelecidas relações com o Imperador da Abissínia…

 

O ESPÍRITO DAS CRUZADAS
Devemos lembrar os planos de D. Manuel para a conquista do Médio Oriente, desde o reino mameluco à ambição da tomada de Jerusalém, segundo os velhos ideais das cruzadas. Afonso de Albuquerque participava de tais ideias messiânicas – facto que não pode ser esquecido quando analisamos a sua ação. Como sabemos, em outubro de 1507 houve uma primeira conquista da praça de Ormuz por Albuquerque, já que o domínio da entrada do golfo Pérsico constituía uma condição essencial para o comércio do mar Arábico, sobretudo perante o insucesso na tomada de Adém. Assim se poderia enfraquecer a influência otomana no levante do Mediterrâneo, apesar de o império turco conhecer um período de expansão e consolidação no território persa. Ormuz era um importante centro de comércio, onde se trocavam alimentos, drogas, incenso, especiarias, marfim, metais e minerais, cavalos (persas e árabes), tecidos e joias, perfumes e produtos de luxo. Não foram fáceis, porém, os primeiros tempos para os portugueses, já que Albuquerque foi levado a abandonar a presença em Ormuz (1508), na sequência de um motim de capitães – tendo, mesmo assim, praticamente concluída a construção da fortaleza. A expansão otomana e a ameaça desse movimento avassalador levaram a uma aproximação da Pérsia a Portugal. Deste modo, o próprio Afonso de Albuquerque, pouco depois da conquista de Goa (1510), recebeu um enviado do xá Ismail – que apontou no sentido de haver possibilidades de uma aliança. De facto, havia objetivos convergentes no antagonismo relativamente ao Sultão do Cairo e à expansão turca… Contudo, foram tímidos os progressos no sentido de um entendimento formal, que perdeu premência com os sucessos das conquistas otomanas, com o enfraquecimento do poder do xá, com a incorporação do sultanato mameluco no império turco e com a morte de Afonso de Albuquerque (1515). Como se nota nas “Décadas da Ásia” de Diogo do Couto, o tom adotado é o de um relacionamento pacífico entre o Estado Safávida e o Estado Português da Índia…

 

FINALMENTE EM ORMUZ…
Em Abril de 1515, Albuquerque, “o cavaleiro grande e forte leão dos mares”, então governador da Índia, concretizaria a conquista de Ormuz, para mais de um século, e então pôde ter lugar o completamento e a consolidação do Forte de Nossa Senhora da Conceição de Ormuz. Sobre a importância da Praça, Diogo do Couto citará o vice-rei D, Afonso de Noronha, em 1552: “as outras fortalezas podem-se chamar membros particulares da Índia, mas Ormuz é corpo de que todos os membros rebem substância e se sustêm (…) nem a Índia se pudera sustentar sem a contratação de Ormuz”. Um fidalgo velho acrescentou que “Ormuz era a chave de toda a Índia, e cabeça daquele comércio da Pérsia e da Arábia, título de que os reis de Portugal tanto se jactavam”. Tomé Pires, logo em 1513, ao passar por Ormuz a caminho da China, descrevera, aliás, o reino como “rico e nobre” e “chave para a Pérsia” – “o povo é civilizado e humilde; tem espírito guerreiro, boas armas e cavalos”. Gaspar da Cruz em apêndice ao seu “Tratado das Cousas da China” escreveu sobre a cidade de Ormuz, onde viveu três anos (1560-63), que a urbe “tem todas as riquezas e abastança de todas as cousas que de fora lhe trazem” – sendo os rendimentos da alfândega muito vultosos. Couto não é, porém, pródigo na análise das vantagens económicas, limitando-se a referir a utilidade de Ormuz enquanto escala, onde as armadas deviam “invernar”. Se os navios de maior porte se recolhiam na baía de Mascate, os mais ligeiros ficavam em Ormuz, retornando a Goa em setembro/outubro… E, sendo o reino de Ormuz como que um protetorado português, reconhecendo-se o monarca como vassalo do rei de Portugal, a quem pagava um tributo anual (as páreas), o cronista trata as questões desse território como do Estado da Índia, até por haver uma fortaleza com capitão e contingente militar. Duraria até 1622 a presença em Ormuz, quando as forças persas e britânicas tomaram a cidade. Hoje, podemos com a distância do tempo analisar as relações de Portugal e da Pérsia, a partir dos acontecimentos, considerando as condicionantes geoestratégicas, a expansão do império otomano, os altos e baixos na situação muito vulnerável como é a do golfo. As narrativas, como a moderna historiografia o reclama, deverão ser equilibradas e não celebratórias nem anacrónicas na definição dos termos de referência. O importante é registar o conhecimento mútuo e compreender o futuro como capaz de entender a diversidade das circunstâncias e a complexidade dos factos. A diversidade das culturas, dos valores e interesses conduz-nos à necessidade de uma ponderação serena e objetiva dos factos e à procura de pontos de encontro.    

 

Guilherme d'Oliveira Martins

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A VIDA DOS LIVROS

 De 19 a 25 de fevereiro de 2018.

 

«Vidas numa Vida» de Maria Germana Tânger (Manufactura, 2016) é um livro de memórias onde encontramos as andanças de uma mulher apaixonada pela arte e pela poesia. 

 

O LARGO DE S. CARLOS

Não esqueço as belas tardes passadas na acolhedora casa do Largo de S. Carlos, onde pairavam os mais puros espíritos poéticos. A primeira vez que lá entrei, deparei-me com a mais enigmática das frases de Almada Negreiros – escrita e autografada com a letra inconfundível do mestre e com o belíssimo d com a singular haste que nos levava aos mais ambiciosos sonhos. “Chegar a cada instante pela primeira vez”. Nunca mais perdi essa referência fantástica. Conheci pessoalmente Maria Germana Tânger no final dos anos sessenta, graças à amizade de seu filho António. E quantas vezes não lembrámos, aí mesmo, a presença forte de José de Almada Negreiros, iconoclasta, modernista, inconformista, poeta d’Orpheu, futurista e tudo. O certo é que fora ele a levar a jovem para a leitura de poesia – com o célebre “Corvo” de Edgar A. Poe, na tradução de Pessoa… O grande mestre morreu por essa altura, e não deixámos mais de o considerar na ara das nossas afinidades eletivas. E aqui o plural não é majestático, mas literalmente referido a quantos ali aprendemos a cultivar os mistérios da Arte. Maria Germana gostava da presença dos jovens, entre os alunos do Conservatório Nacional de Garrett e os muitos amigos que passavam por sua casa. Era uma pedagoga inata, que amava a arte como ponto de encontro do espírito. Esse era um tempo em que as mudanças se anunciavam, mas naquela casa, com toda a serenidade, vivíamos a geração de “Orpheu” como se ela se mantivesse viva. E não estaria? Ainda hoje quando todos os dias passo em frente do painel “Começar” na Gulbenkian, feito nesse ano em que comecei a visitar assiduamente a adorável casa do Largo de S. Carlos, recordo essa memória bem presente.

 

SEMPRE ALMADA NEGREIROS
“Chegar a cada instante pela primeira vez” é todo um programa de vida que jamais pode ser esquecido. Que desafio mais obrigatório que o de sermos os “primitivos” das novas gerações? E que é a capacidade criadora senão a fantástica virtude de possuirmos o olhar limpo para podermos descobrir o mundo, numa verdadeira “invenção do dia claro”? E, de facto, ouvíamos em silêncio completo: “Mãe vem ouvir a minha cabeça a contar histórias ricas que ainda não viajei! Traze tinta encarnada para escrever estas coisas! (…) Mãe! Passa a tua mão pela minha cabeça! Quando passas a tua mão pela minha cabeça é tudo tão verdade”. E era ali que tudo se passava, em frente do lugar em que Fernando Pessoa tinha nascido, com todos os seus heterónimos. E assim ouvíamos com júbilo o sino da sua aldeia (na torre da igreja dos Mártires). Ali sonhámos as primeiras viagens que tínhamos a descobrir. E se refiro a casa de S. Carlos não esqueço a de Queluz, onde a hospitalidade também era uma constante… A lembrança mais antiga que tenho de Maria Germana Tânger? A vê-la e a admirá-la na “Ronda Poética”, nos primeiros tempos da televisão. Então aquela voz pausada, ligeiramente rouca, a dizer na perfeição a língua portuguesa tornou-se-me familiar. Devo ainda lembrar Manuel Tânger Correia, seu marido, que iniciou Maria Germana nas andanças teatrais da velha Faculdade de Letras no Convento de Jesus. A qualidade de pensamento e de reflexão que tinha está bem evidenciada no ensaio “Em Busca de uma Estética Literária”, que dele recebi e guardo religiosamente. “O que não oferece dúvida é o personalismo que caracteriza o génio. O transpersonalismo é determinista. O homem tentará sempre. A estética do futuro será mais humana”…

 

OLHO E CONTENTA-ME VER
Em diversos momentos de sua vida, ouvi Maria Germana dizer de cor a “Ode Marítima” de Álvaro de Campos. A sensação que tínhamos era difícil de explicar. Esse exercício nela parecia natural, como se tratasse de uma conversa longa e compassada. Era assim que na Antiguidade os Aedos transmitiam de geração em geração os poemas heroicos. A última vez foi no Teatro da Trindade, com o seu aluno João Grosso, em 1999. E posso dizer que mesmo então a sua memória continuava fielmente segura. Olhando para o seu interlocutor ia dizendo mentalmente as partes que lhe estavam destinadas. O mano-a-mano dessa noite de justíssima homenagem serviu apenas para confirmar tudo – a mestria, o talento, a sabedoria, o amor, a capacidade de dizer comunicando, o entusiasmo, a alegria. “Sozinho no cais deserto a esta manhã de Verão, / Olho pró lado da barra, olho pró Indefinido, / Olho e contenta-me ver, / Pequeno, negro e claro, um paquete entrando. / Vem muito longe, nítido, clássico à sua maneira. / Deixa no ar distante atrás de si a orla vã do seu fumo”… Nesse longo poema estava não apenas Álvaro de Campos, mas o fundo poético da nossa língua – levando-nos até Cesário Verde, a Antero de Quental e a Camilo Pessanha… Sim, todos lá estavam – nesse “giro lento do guindaste” que traçava “um semicírculo de não sei que emoção / no silêncio comovido da minh’alma”… Da janela da casa do Largo de S. Carlos adivinhava-se uma nesga de mar ao fundo da rua – e a nossa imaginação associava o lugar do nascimento de Fernando Pessoa (inesquecível ortónimo), a sua memória distante, às andanças escandalosas de Almada Negreiros, a proclamar pelo Chiado os manifestos futuristas. Tudo se ligava e fazia sentido – o teatro, a poesia, a música, a dança, o desenho, a pintura: Pessoa, Almada, Mário de Sá Carneiro, Amadeo de Sousa-Cardoso.

 

POETA DE POETAS
Em Vidas numa Vida (Manufactura, 2016) encontramos as andanças de uma mulher apaixonada pela arte e pela poesia. Cecília Meireles, Fernanda de Castro, Sarah Afonso, Natália Correia fizeram parte do seu círculo de amizade e de culto da Arte. Mário Cesariny chamou-lhe poeta de poetas… O método que usava era simples, mas permitia compreender a diferença entre o declamar (que não praticava) e o dizer, que foi o seu trabalho de sempre. Começava pela descontração, e continuava pela respiração, pela articulação, pelo conhecimento do corpo e pela máscara. Os seus alunos e os amigos (e os primeiros rapidamente entravam para o grupo dos segundos) sabiam-no bem por experiência e entusiasmo. O fundamental era saber dizer, o que pressupunha compreender e transmitir o que o poeta escreveu e o que o leitor sentia. Em quase cem anos de vida, Maria Germana Tânger viveu intensamente, resumindo esse caminho deste modo: “tanta surpresa, tanta dedicação, tanto amor, tanta amizade, tanta desilusão, tanta força, tanta alegria, tanta esperança, tanta rebeldia, tanto desgosto, tanta saudade”… Ah! como sentimos, mais intensamente em cada dia que passa, o que Fernando Pessoa disse: “No tempo em festejavam o dia dos meus anos / Eu era feliz e ninguém estava morto. / Na casa antiga, até eu fazer anos, era uma tradição de há séculos, / E a alegria de todos, e a minha, estava certa com uma religião qualquer…”.  

 

Guilherme d'Oliveira Martins

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