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Blogue do Centro Nacional de Cultura

Um espaço de encontro e de diálogo, em defesa de uma cultura livre e pluridisciplinar. Estamos certos de que o Centro Nacional de Cultura continuará, como há sete décadas, a dizer que a cultura em Portugal vale a pena!

Blogue do Centro Nacional de Cultura

Um espaço de encontro e de diálogo, em defesa de uma cultura livre e pluridisciplinar. Estamos certos de que o Centro Nacional de Cultura continuará, como há sete décadas, a dizer que a cultura em Portugal vale a pena!

A VIDA DOS LIVROS

 

De 16 a 22 de julho de 2018

«O Fundo da Gaveta» de Vasco Pulido Valente (D. Quixote, 2018) fala-nos da Contra-Revolução e do Radicalismo no Portugal do século XIX.

 

 

ENTRE IDEIAS E REALIDADE
Na capa estão duas imagens – um painel de azulejos sobre a primeira constituinte portuguesa (4 de julho de 1820), com Manuel Fernandes Tomás a discursar (como acontece na sala de sessões do Parlamento) e uma Alegoria à Primeira Revolução Liberal do Porto, de 24 de agosto de 1820. As imagens completam-se e correspondem à apresentação dos dois ensaios que constituem o presente volume – de facto, há um confronto na estabilização do constitucionalismo português entre as ideias e a realidade, ente os princípios e as contradições sociais. Os dois ensaios, correspondendo a dois períodos bem diferentes, completam-se e revelam um país inseguro e heterogéneo. No primeiro caso, falamos de 1823-1824, da Vilafrancada e da Abrilada, movimentos que interromperam a vigência fugaz da Constituição de 1822 e que abriram caminho à restauração absolutista e à guerra civil (1828-1834). No segundo caso, fala-se do que é designado como “ressurreição e morte do radicalismo” (1864-1870), depois de pelo menos duas guerras civis, e do facto de com a “Regeneração” de 1851 e o “Ato Adicional” (1852) ter sido enterrado o machado de guerra pelas forças políticas mais significativas, através de uma solução constitucional muito próxima da Constituição de 1838, que podia contentar a direita e a esquerda liberais, no dealbar do rotativismo…

 

QUE ALTERNÂNCIA?
A tentação fusionista e a ausência de uma verdadeira alternância política formal geraria esse movimento algo especial que teria o condão de pôr termo a uma solução à qual faltava um espaço para a respiração e para a afirmação dos verdadeiros descontentes. Se no primeiro ensaio, assistimos à tentativa dos radicais instalados ainda no poder reforçarem posições contra a crescente influência dos partidários do “Ancien Régime” absolutista, no segundo já os radicais perderam alguma força real e procuram apenas recuperar espaço de manobra. Perante estes dois quadros, e com uma diferença de quase quarenta anos, encontramos o mesmo País e a mesma procura de instituições civilizadas ou aptas as representar um povo insatisfeito e bem diferenciado entre “a cidade e as serras”, entre a urbanização e o campo. Na Vilafrancada o rei moderou os ímpetos de D. Miguel e prometeu um “justo meio”. Nomeou uma Junta Preparatória presidida por Palmela para redigir uma Carta Constitucional que prometera no lugar da Constituição, segundo uma transação que permitisse aos dois lados renunciarem a algumas pretensões. Houve uma repressão branda. Mas os absolutistas criticavam a tolerância com jacobinos e pedreiros e temiam que a Carta “administrada por gente como Palmela e Subserra, servisse de passagem para o radicalismo”, em vez de ser “o melhor remédio para ele”. Assim, a ideia de Carta foi posta na gaveta e Palmela passou a pensar numa “compilação das normas de direito público português compatíveis com o sistema representativo”. O ambiente geral externo e interno não permitiu esse caminho. E o partido miguelista acalmou. Mas o que surgiu foi um “absolutismo mitigado, menos despótico do que arbitrário e, na essência, moribundo”. E como a obra jacobina ficara no limbo, os partidários de D. Miguel temiam que os moderados pudessem permitir a sua sobrevivência. E ainda por cima, havia a esperança vã de evitar a perda definitiva do Brasil. Aliás, essa parte relativa ao Brasil merece leitura atenta, já que desmonta muitas ideias nessa matéria…

 

FICAR EM CASA…
É verdade que D. Pedro rompera com Portugal por não aceitar a posição dos constituintes, mas tudo avançara muito já, o acordo era impossível, uma solução negociada não podia funcionar e as potências europeias consideravam que a independência brasileira com D. Pedro estava desenhada nos astros, mesmo que o seu reconhecimento não fosse imediato. Acrescia que o exército não estava disposto a fazer uma guerra para recuperar o Brasil. Preferia ficar em casa. E assim, no momento próprio, D. Miguel deu o golpe definitivo (aproveitando ventos favoráveis) com a Abrilada… Muita água correu sob as pontes, desde o assassinato do marquês de Loulé até à misteriosa morte do próprio rei… Apesar de Herculano sempre ter alertado os regeneradores para nunca perderem a ideia de alternativa, o certo é que as circunstâncias e a oposição a Sá da Bandeira levaram a uma “fusão”, composta por Fontes, Sampaio, Martens Ferrão, Loulé, Braamcamp e Mendes Leal. Seria uma “Regeneração” pura, baseada nos melhoramentos. E a “fusão” tornou-se governo, mas não pediu dissolução do Parlamento. Rodrigo da Fonseca disse que preferia comprar deputados feitos a fazê-los. E assim viveu dois anos e três meses. Mas a opinião radical manifestou descontentamento forte pelo oportunismo campeante. Os ventos não corriam de feição, já em 1866, e a suposta concórdia universal confrontou-se com sinais crescentes de crise social, financeira e económica – apesar de medidas importantes como o novo Código Civil e a abolição da pena de morte, que já vinham detrás. As leis contra a mendicidade de Martens Ferrão suscitaram debates acesos, o défice e a dívida pública descarrilavam, a austeridade veio, a supressão de quatro distritos e medidas administrativas mal recebidas geraram todas as condições para o renascimento de uma oposição radical – condições que o anúncio de um eventual novo imposto de consumo veio a reforçar. Os comícios multiplicavam-se, designados como meetings, o ambiente era de descontentamento generalizado. O Centro da Travessa da Queimada (criado pelo conde de Peniche) unira-se à União Patriótica do Porto e propunha um ambicioso programa sobretudo em matéria fiscal. A agravar tudo, o ano agrícola de 1867 foi desastroso, nos cereais, nas vindimas, nos olivais e pomares. Os preços e o desemprego subiram em flecha. O bode expiatório são as medidas do governo. O copo transvasava e o clima é de insurreição. A Janeirinha eclodiu no início de 1868, num violento levantamento popular inaudito. Nasce uma maioria capitaneada por António José de Ávila – “mistura improvável de ‘conservadores endurecidos’, ‘progressistas convictos’ e ‘quase republicanos’, incapaz de unir e permanecer unida”. E não houve milagres. A situação continuou difícil, com a fome e o desemprego a crescerem – o que culminaria na queda de Ávila em julho. Loulé foi encarregado de formar governo, mas houve uma forte reação contrária, motivada pelos radicais. O Bispo de Viseu, D. António Alves Martins, foi então convidado. A Janeirinha dos políticos vencia – com Viseu, Sá da Bandeira e Latino Coelho – e chegava ao governo. O programa respeitava a simplificação dos serviços, a luta contra a corrupção e a descentralização. Mas depressa nasceu um descontentamento larvar, a partir dos funcionários atingidos pelas reduções, agravado pela crise financeira e pelo insucesso nas negociações com os mercados. O ministério cairia, mas houve manifestações para a sua manutenção, o que obrigou o rei D. Luís a convidar Saldanha, embaixador em Roma, que no caminho desistiu do encargo. O rei dissolveu a Câmara, mas os governamentais (Viseu e Sá) foram fugazmente reconduzidos. As dificuldades avolumaram-se e Loulé suceder-lhes-ia. “A derrota de Sá e Viseu e o regresso dos históricos mostravam que as receitas do radicalismo para a crise nacional não se podiam aplicar ou eram vãs, mas também não existia uma alternativa conservadora”… E o ocaso dos radicalismos corresponderia à tentativa desastrada do Duque de Saldanha de fazer ainda vencer um programa de rutura. Não conseguiria. Porque já se estava num outro tempo…

 

Guilherme d'Oliveira Martins
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A VIDA DOS LIVROS

 

De 9 a 15 de julho de 2018

 

A Cimeira de Berlim do Património Cultural foi um momento culminante deste Ano Europeu. Se é verdade que há ainda muito para fazer, pode afirmar-se que o aprovado “Apelo de Berlim” constitui um documento fundamental que põe a tónica na defesa da Cultura, da Educação e da Ciência como fatores de desenvolvimento sustentável, de diversidade e de paz.

 

 

PATRIMÓNIO, LEMBRANÇA VIVA…
A vitalidade cultural de Berlim, nos últimos anos, desde a arquitetura e urbanização à presença da nova geração de artistas plásticos e cultores das diversas artes foi o melhor cenário para este extraordinário encontro. Ao caminharmos em “Unter den Linden”, entre tílias, em direção à Porta de Brandeburgo e ao novo Bundestag pudemos lembrar as gravuras antigas e as grandes referências da cultura alemã: os Museus, a Biblioteca, e a sombra de grandes espíritos, como Fichte e Humboldt. Que é o património cultura senão essa lembrança viva? O “Apelo de Berlim para a Ação” constitui um importante desafio para governos, instituições da sociedade civil e cidadãos, organizações internacionais e supranacionais, no sentido de considerar o património cultural como fator de superação do vazio de valores éticos, da indiferença, do medo dos outros – no sentido de uma “cultura de paz”, suscetível de pôr a tónica num culto comum da herança e da memória, do respeito mútuo e de uma verdadeira partilha de responsabilidades. Valores, culturas e memórias constituem a base de uma Europa que deve caracterizar-se pela “Unidade na Diversidade”, resistindo à fragmentação dos egoísmos e da intolerância. Fora da lógica das identidades fechadas, devemos construir realidades abertas e complexas, que não excluam ninguém. A pertença a uma comunidade local e o reconhecimento da importância da proximidade não podem ser contraditórios com a ideia de uma pertença múltipla e de uma solidariedade europeia e global. O património cultural liga gerações, suscita complementaridades, cruza influências e assenta na evolução histórica de encontros e desencontros – abrindo caminhos de diálogo e de cooperação entre comunidades na Europa, mas também com outras culturas do mundo. Trata-se de uma ponte entre o passado e o futuro, um processo contínuo de criatividade e inovação, que assenta as suas raízes na evolução histórica e suplanta-a em nome de uma cultura viva e de uma cidadania ativa e responsável. Mas, falar do tema, é referir ainda o desenvolvimento sustentável, uma sólida coesão social e o surgimento, direta e indiretamente, de condições para novas possibilidades de trabalho. O património cultural traz harmonia e beleza para o nosso meio ambiente, humano e natural, mas também permite desenvolver o bem-estar e a qualidade de vida. Neste Ano Europeu, quando celebramos os 70 anos da Declaração Universal dos Direitos Humanos, estamos em condições para ir além de meras declarações de princípios. E importa seguir destes para a ação, tornando os valores culturais como sentidos por todos – certos de que, deste modo, poderemos, a um tempo, respeitar as pertenças locais, regionais ou nacionais, compreendendo que estas só serão preservadas se não esquecermos as diferenças e a relação com os outos. E não se pense que é fácil este compromisso. Muitos pensam que fechando-se se protegem melhor, quando a história nos dá eloquentes exemplos que demonstram que cultura fechada é cultura ameaçada e morta. O valor universal da dignidade da pessoa humana defende-se com unidade e diversidade. A prevalência da hostilidade sobre a hospitalidade gera consequências dramáticas, que levam a conflitos desregulados, guerras sangrentas e à trágica espiral da violência. O desenvolvimento humano exige equilíbrio entre identidade e diferença, tradição e modernidade, liberdade e igualdade… Eis por que razão o Apelo de Berlim tem de ser considerado na sua dimensão política e democrática.

 

UM PLANO DE AÇÃO EUROPEU
De que falamos? De desenvolver o Plano de Ação Europeu para o Património Cultural; de reconhecer o Património como uma prioridade no âmbito das políticas europeias; de criar pontes entre as dimensões local, nacional e europeia; de preservar e transmitir o que é insubstituível; de investir na regeneração do Património com qualidade; de promover o melhor conhecimento, a compreensão aprofundada e de aproveitar a oportunidade que o momento atual nos reserva. Cada um destes pontos corresponde a uma responsabilidade concreta, que supera em muito a marginalidade de um tema secundário. É a sociedade no seu todo e o desenvolvimento humano que estão em causa. Só um ambicioso Plano de Ação Europeu pode obter resultados efetivos. A Nova Agenda Europeia para a Cultura não pode ficar nas boas intenções nem ser confundida com uma cornucópia de meios usados sem critério nem avaliação. Importa envolver promotores e beneficiários, do espaço público e da sociedade civil – articulando o investimento na cultura, educação e ciência com os objetivos de coesão social e de desenvolvimento regional, envolvendo cidades, campos, litoral, meio ambiente, turismo, sustentabilidade, mudança climática, investigação e inovação, política digital, educação, objetivos de qualidade e, naturalmente, juventude. Estamos a referir a obrigação de maior relevância da Europa e de coerência com a Convenção de Faro do Conselho da Europa, com a Estratégia Europeia para o Património no Século XXI e com a Agenda das Nações Unidas para o Desenvolvimento Sustentável. Deste modo, as instituições europeias deverão reconhecer o património cultural como prioridade estratégica, com expressão no quadro financeiro plurianual (2021-2027). Isto contribuirá para o mais do que urgente investimento europeu para o capital humano e cultural e para a promoção dos valores europeus. Daí a importância da eleição do novo Parlamento Europeu em 2019 e da Comissão, para que haja compromissos concretos. Os diferentes níveis de governação têm de se coordenar para que o património cultural funcione como um verdadeiro recurso para a sociedade, economia, cultura e meio ambiente. O âmbito local, regional, nacional e europeu tem de definir planos articulados e coerentes, para serem eficientes, do mesmo modo que devem envolver organizações internacionais e sociedade civil. Não podemos esquecer ainda que o património cultural é único e insubstituível, vulnerável e sujeito a riscos – daí a necessidade de criar sinergias no tocante à investigação, à criação artística, às novas tecnologias, ao investimento económico, no sentido da preservação, salvaguarda e a um melhor conhecimento. Também a regeneração das cidades, arredores e meios rurais obriga à criatividade, inovação e adaptação, com critérios de elevada qualidade, de acordo com a Declaração de Davos. Ainda a ligação com as escolas e a educação, com a formação e mobilização de novos públicos, a começar nas crianças e jovens, revela-se de importância crucial, até para facilitar uma melhor compreensão, respeito e inclusão de novos habitantes na Europa. Ora, se tem sido possível concentrar esforços neste Ano Europeu, importa aproveitar o movimento para encontrar uma fórmula de ação adequada no sentido da criação de uma plataforma futura permanente para o melhor conhecimento e coordenação de ações na defesa do património cultural na Europa.  

 

Guilherme d'Oliveira Martins
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A VIDA DOS LIVROS

 

De 2 a 8 de julho de 2018

 

«A Experiência Reflexiva – Estudos sobre o Pensamento Luso-Brasileiro» de António Braz Teixeira (Zéfiro, 2009) permite uma visão prospetiva do atual panorama filosófico luso-brasileiro. O Autor foi um ativo participante da vida do Centro Nacional de Cultura durante muitas décadas até pela sua ligação de amizade e pensamento a Afonso Botelho um dos nossos fundadores.

 


UM PENSADOR DOS VALORES
Homenagear António Braz Teixeira é recordar um amigo e um mestre. Há muito que nos ensina, com meridiana coerência e clareza, na linha do saudoso mestre Miguel Reale, que as “constantes ou invariáveis axiológicas”, enquanto ideias diretoras universais da conduta ética e jurídica, condicionam decisivamente a configuração do Direito. Deste modo, os valores éticos não são objetos ideais, modelos estáticos, mas inserem-se na experiência histórica, através de um processo ou de um nexo de implicação e polaridade. Assim, os valores não possuem uma “realidade ontológica”, são referência à pessoa do sujeito, têm uma objetividade relativa, uma vez que são objeto de realização na História. Deste modo, a dignidade da pessoa humana torna-se referência angular, já que “enquanto autoconsciência do espírito como valor”, constitui “o valor primordial ou o valor-fonte de todos os demais valores”. Assim, diversidade cultural e pluralismo têm de ser preservados, com especiais cautelas, contra a homogeneização ou a harmonização indiferenciada. E se falamos de memória e de raízes comuns, a verdade também é que estamos perante a construção inédita e original de uma cultura de paz baseada na extensão do Estado de direito, na diversidade das culturas, na soberania originária dos Estados-nações, na dupla legitimidade (dos Estados e dos cidadãos ou povos), na adequação de objetivos comuns à heterogeneidade social e cultural, pondo a tónica na criação de um espaço de respeito mútuo e de partilha de responsabilidades no âmbito do desenvolvimento humano. Eis por que razão se tornou importante a procura dos direitos da pessoa humana e de um “património cultural comum”, implicando as ideias de proporção e de ordem, na realização do bem comum, segundo uma referência exigida pelos valores da pessoa e pelo desenvolvimento da cultura.

 

UM ENTENDIMENTO HUMANISTA
António Braz Teixeira, num entendimento humanista e personalista, lembra-nos, assim, que o fim do Direito é o Bem Comum e que a Justiça é um valor moral que impõe outro valor, o Direito, ao qual “impõe uma forma e um conteúdo determinados”. As relações entre ambos têm natureza axiológica, impondo-se como Direito e tornando a Justiça valiosa essa imposição. E “porque o direito assenta na moral, o que é imposto sob forma jurídica para realizar o Bem Comum vem a coincidir com o mínimo ético exigido, em cada momento, pelo espírito objetivo da comunidade”. Ora, lembrando as ideias diretoras universais da conduta ética e jurídica, que condicionam a configuração do direito positivo, fácil é de entender a importância destas considerações a propósito de uma disciplina nova do campo do Direito. E essa disciplina põe os direitos culturais no centro do moderno Direito Público e da Filosofia jurídica. No fundo, trata-se de procurar os caminhos adequados para garantir a um tempo o reconhecimento das diferenças culturais contra todas as tentações de homogeneização e de centralização uniformizadora, bem como da importância da preservação e do desenvolvimento da proteção dos valores comuns da cultura. Fora da absolutização do Estado ou da sua menorização, o que se impõe é equilibrar, a partir do respeito universal dos direitos, liberdades, garantias e responsabilidades da pessoa humana, as legitimidades centradas nos Estados, nas instituições mediadoras, capazes de ligar representação e participação e nos cidadãos, segundo a partilha de soberanias inerente ao alargamento das experiências democráticas.

 

“A cultura, porque criação humana – afirma ABT -, é marcada, simultaneamente, pela temporalidade, pela historicidade e pela objetividade, já que a obra de arte, a proposição filosófica, a norma jurídica, uma vez criadas ou formuladas, adquirem vida própria, tornam-se como que independentes do seu autor e do seu criador, são portadoras de um sentido próprio e seu, aberto dinamicamente ao conhecimento e à interpretação vivificante daqueles que com elas entram em contacto, sendo nessa relação, a um tempo cognitiva e estimativa, que plenamente são e adquirem a sua plenitude de ser”. Por um lado, não se esquece a visão marcada pela História, mas, por outro, lembra-se a circunstância pessoal e comunitária, que projeta a vida individual para além de uma visão autorreferenciada, fechada e redutora. E a saída está na consideração de uma tripla dimensão da vida humana, como realidade individual, social e histórica, “as três constituindo o ser pessoal do homem”. 


*

Se hoje falo do humanismo axiológico de um amigo, não posso deixar de invocar a memória do Engenheiro Amândio Secca, que conheci e de quem me tornei amigo próximo, através do meu saudoso Amigo José Rodrigues, e que se tornou a grande Alma da Cooperativa “Árvore”. Voltarei a falar dele, mas devo hoje, como fiz na cerimónia da Universidade do Porto deste fim de semana de aniversário de “As Artes entre as Letras”, deixar aqui a minha sentida e comovida homenagem!

 


Guilherme d'Oliveira Martins
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A VIDA DOS LIVROS

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  De 25 de junho a 1 de julho de 2018

 

«Estuário» (D. Quixote, 2018) é o mais recente romance de Lídia Jorge, no qual domina uma metáfora forte: o estuário surge, para a escritora, como uma paragem antes do esquecimento…

 

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UM CERTO REGRESSO

 

Em Estuário, Lídia Jorge volta, de algum modo, a O Dia dos Prodígios, não para repetir o tema, mas para retomar um certo sentido bíblico ou até litúrgico na consideração do tempo. Se o primeiro romance, justamente celebrado, nasceu da urgência libertadora, e se Os Memoráveis procuram uma reflexão feita a partir da relatividade dos acontecimentos, das pessoas e das coisas, Estuário parte da crise portuguesa e procura reencontrar “o carácter estoico e a honradez antiga” – perante a incapacidade de uma resposta que permita uma “sobrevivência digna”. E o que é aqui o homem moderno? Alguém que não sendo capaz de salvar o mundo, procura a ficção como modo de tentar consegui-lo. Edmundo Galeano são várias figuras a falar ao mesmo tempo – e o tema central não é outro senão o da resistência. E é bom que se diga que Lídia Jorge regressa, com coerência e determinação, a um tema que é seu e a que tem voltado persistentemente, em diversos registos e tons. E diz a autora: “o livro é sobre a grande crise que estamos a viver – mais do que sobre a crise que passámos” (DN, 26.5.2018). De facto, é ilusório pensar-se que a crise circunstancial está definitivamente passada. Há elementos duradouros que exigem reflexão e prevenção. E, ao longo de todo o romance, notamos um apelo constante a que nos mantenhamos atentos e firmes, e mais do que isso, que estejamos ativos. De facto, há muitos elementos dissuasores que impedem que as vozes cidadãs cheguem onde devem chegar para ser ouvidas. A comunicação de que muito se fala, torna-se tantas vezes uma ilusão. É este o problema da democracia hoje, tão mergulhada em crises e perplexidades, porque faltam instituições mediadoras, que impeçam a tirania do número, do imediato e da indiferença. E nos desencontros com o Estado a que aqui assistimos é da falta de mediação que, essencialmente, se trata.

 

 

UMA FAMÍLIA ENCLAUSURADA

 

O que encontramos no romance é uma família que vive enclausurada. E presenciamos um diálogo entre os grandes dramas globais, os processos históricos, e o que está próximo – o que vive ao nosso lado, sem cuja compreensão não podemos entender quem somos e onde estamos. Afinal, só se pode perceber o significado da tragédia dos outros quando esta deixa de ser abstrata – quando o medo deixa de ser difuso e passa a ser possível e próximo. Ao sentir a compaixão pelo próximo compreende-se que se pode escrever sobre o longínquo, sem que seja através de um mero conjunto de vagos lugares comuns. A distância desempenha, pois, um papel fundamental – os grandes problemas globais deixam na penumbra os dramas concretos que estão perto. E como em O Dia dos Prodígios também há a presença da magia, em breves apontamentos. Por exemplo, um casal atira ao mar uma mensagem dentro de uma garrafa à espera de uma boa notícia. Só os escritores podem perder o pudor para falarem sobre o que cada um procura esconder. Lídia Jorge tem-no repetido e assume como romancista o dever de não deixar por mãos alheias essa determinação. Urge desocultar o que está escondido. Resistência e emancipação, eis o que aqui encontramos ao longo de toda a obra. E Charlote encontra a sua força revelando a sua pele e o seu corpo, tornando a vulnerabilidade um modo de afrontar o medo, protagonizando uma história de amor. E que é o medo senão uma recusa de sermos nós perante os outros? Fechamo-nos dentro de uma concha, enclausuramo-nos e a memória, em lugar de se tornar um modo de nos abrirmos aos outros, torna-se lugar de ressentimento. Estuário poderia, segundo a autora, ter-se chamado “Casa dos Sonhos Trocados”. A crise geral, de facto, deve-se a uma inversão de valores e de sonhos… “A partir do que escrevemos tentamos iluminar. Cada frase é uma sombra da sombra de um sonho. Esse sonho é a realidade” (JL, 23.5.18).

 

Edmundo Galeano andou pelo mundo, esteve numa missão humanitária do Alto Comissariado das Nações Unidas para os Refugiados (ACNUR) no campo de Dadaab e regressou à casa paterna sem parte da mão direita. A grande casa de cinco pisos do Largo do Corpo Santo é uma metáfora da vida e do mundo e a mão direita desfigurada de Edmundo torna-se motivo da defesa da invenção literária perante a realidade nua e crua. Manuel Galeano, o pai, representa um tempo ligado ao mar que passou, mas faz da honradez a sua marca indelével, até às últimas consequências. A espera do Estado é desesperante, mas não é essa a salvação que se pode esperar. A resistência, afinal, manifesta-se contra esse Estado burocrático, distante, insensível. Há a frieza de Amadeu Lima, mas também o encontro entre ele e Charlote. São as duas faces da moeda – quem representa o poder de decisão e quem desesperadamente pede uma solução. “O que tinha ficado, isso sim, era um relâmpago que unia pessoas. Entre eles acontecia um relâmpago”… Esta era a face oculta de uma relação cheia de interrogações. A ficção da literatura torna-se um modo de afirmação substancial da resistência e da emancipação. Mais do que na culpa, importaria pôr a tónica na determinação em ir em frente. A literatura fixa a imagem que fica.

 

 

SOB A SOMBRA FERNANDO PESSOA

 

Se é verdade que “Ode Marítima” de Álvaro de Campos marca este romance – entre o drama do mar e a defesa da casa –, a Ilíada torna-se referência natural de um modelo literário revelador da humanidade de sempre. O funeral de Heitor, o herói amado pelos deuses, é lembrado – “como se o destino dos homens fosse um eterno combate, havendo um outro valor a defender” – para além do “compromisso dos contendores de adiarem por uns dias a nova batalha”. E Heitor é sempre um símbolo especial. Apesar de derrotado por Aquiles, depois de vencer Pátroclo, deixa-nos a ideia de que é essencial resistir. Com esta matéria-prima far-se-ia o caminho de salvação da humanidade, não feita de abstrações, mas de gestos e compromissos concretos. E aqui começa o romance de Edmundo Galeano, denominado 2030, no qual vamos encontrar temas de ameaça e perdição, mas também de salvação. Do que se trata é de um processo de aproximações sucessivas – a Terra gerida por quem tivesse a bomba nuclear ou o maior número de armas potentes e mortíferas; a ocorrência do Apocalipse e o subsequente Inverno Nuclear; e por fim a salvação dos que passavam por perto… “Salvavam-se os que conhecia, aqueles que surpreendera em plena batalha pela vida diária, esse humilde plano”… E que é o estuário? O encontro do rio e do mar, da água doce e da água salgada. A vida faz-se de contradições e complementaridades. E este romance permite-nos lidar com uma realidade multifacetada e inesgotável. Uma metáfora forte: o estuário surge, para a escritora, como uma paragem antes do esquecimento… E, não por acaso, Lídia Jorge usa como paráfrase do romance o que diz Saint-John Perse: “Eleva-se em nós um canto / que não conheceu nascente / e não terá foz em estuário”…

 

Guilherme d'Oliveira Martins
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Ensaio Geral desta sexta-feira é dedicado ao jardim botânico do palácio nacional de Queluz, que foi reabilitado e mereceu o prémio da União Europeia para o Património Cultural, prémio Europa Nostra. Convidados da Renascença foram Manuel Batista, presidente do conselho de administração da Parques Sintra; Nuno Oliveira, engenheiro que faz a direção técnica do espaço; e Guilherme d’Oliveira Martins.
 
 

A VIDA DOS LIVROS

 

De 18 a 24 de junho de 2018

 

A atribuição do Prémio Europeu Helena Vaz da Silva a Bettany Hughes leva-nos a lembrar uma das suas obras marcantes, «Helen of Troy» (Jonathan Cape, London, 2005; com tradução portuguesa, Alêtheia, 2008), que nos permite tomar contacto com as maiores qualidades desta historiadora que se tem afirmado na investigação e divulgação histórica e na defesa do conhecimento das raízes como base do património cultural como realidade viva.

 

PATRIMÓNIO REALIDADE VIVA

Para além do Património construído, importa valorizar a componente espiritual e humana, que nos permite assumir uma atitude humanista, assente na cultura como criação. A herança e a memória preservam-se estudando, cultivando, refletindo sobre a humanidade. Só assim compreenderemos como o tempo é fundamental na consolidação das instituições e de uma sociedade aberta. Referindo-nos à perspetiva de Bettany Hughes que parte de um exemplo concreto para nos relacionar com o Património Humano, Helena de Tróia faz parte da antiga mitologia grega. Filha de Zeus e de Leda, possuía a fama de ser a mulher mais bela do mundo. Diz a lenda que Teseu a chegou a raptar, mas ela foi libertada por Castor e Polux, seus irmãos. A conselho de Ulisses, o rei de Ítaca, veio a casar com Menelau, rei de Esparta, não sem que continuasse cobiçada por muitos pretendentes. Até que, numa viagem a Esparta, Páris, filho do rei Príamo, raptou Helena e levou-a para Tróia. Menelau, Agamemnon, rei de Micenas, e os seus aliados gregos, empreendem então uma poderosa ofensiva contra Tróia, com cerca de mil navios e a presença, segundo a lenda, dos mais valorosos guerreiros e estrategas de que se poderia dispor, no sentido de recuperar Helena, cuja defesa tinham jurado. Assim se dá início à longa guerra descrita em «A Ilíada» de Homero que durará, segundo a tradição, dez anos. Para a moderna historiografia essa memória relaciona-se com a expansão dos micénios para a Ásia Menor, região dominada pela presença dos hititas. Além de Homero, também Hesíodo e outros atores da cultura grega ocuparam-se de Helena de Tróia, como símbolo fundamental da cultura grega mais antiga – articulando os mitos sagrado, político e humano. Através da combinação de vestígios físicos, históricos e culturais que esta princesa da Idade do Bronze recente (1600-1050 a.C.) deixou na Grécia, no Norte de África e na Ásia menor, B.Hughes procura revelar, de modo brilhante, os factos e os mitos que rodeiam uma das figuras mais enigmáticas e famosas da história das civilizações mediterrânicas. A autora acredita que o mito de Helena tem como base uma personalidade que existiu de facto, assentando a sua identidade em três pilares, que correspondem a três arquétipos, que se anunciam no próprio título da obra: princesa, deusa e prostituta. Notam-se, assim, a legitimidade política, a maternidade sagrada e a fecundidade. Partindo da ideia de que Helena é uma personalidade que existiu, a escritora localiza o seu nascimento no Peloponeso, referindo que a efabulação mitológica decorre da cultura do Mundo Antigo, perante o evidente poder carismático da princesa. O tema do rapto traduz, por isso, um sintoma de uma forte e inequívoca ligação à tradição do politeísmo grego – sendo Helena considerada filha de Zeus e imortal. O mito torna-se, pois, compreensível pelo carácter excecional da figura. Deste modo, a obra revela as qualidades fundamentais da autora – estudiosa e divulgadora da cultura clássica, para se compreender melhor a importância das raízes históricas e o significado complexo e dinâmico do património cultural.

 

COMO DEFENDER O PATRIMÓNIO?
A melhor maneira de não deixar ao abandono o património é o seu conhecimento e o seu estudo. E, sem prejuízo, de poder haver dúvidas historiográficas sobre as pistas lançadas e as conclusões assumidas pela historiadora, a verdade é que, partindo de um período tão complexo e difícil, pleno de incertezas, desde a própria existência da guerra de Tróia até à complexidade das figuras míticas, estamos perante a consideração dos elementos conhecidos e disponíveis que constroem uma narrativa coerente, e pedagogicamente consistente, sobre as origens da Grécia Antiga. Os claros e escuros não impedem a procura de uma chave de leitura que permita associar os mitos e as realidades históricas, sendo que não podemos dispor de testemunhos seguros que façam luz sobre as naturais dúvidas que existem e a própria autora assume. Não há certezas, mas propostas com verosimilhança para responder à pergunta: quem foi Helena de Tróia como figura com existência e personalidade próprias. B. Hughes é ainda autora de «The Hemlock Cup: Socrates, Athens and the Search for the Good Life» (Uma Taça de Cicuta: Sócrates e a procura da Vida Boa) (2010), que fez parte da lista de bestsellers do The New York Times e foi finalista dos prémios da associação norte-americana de escritores. Em 2017 publicou, também com assinalável êxito, «Istambul: A Tale of Three Cities» (Istambul, Um Conto de Três Cidades), onde faz uma apaixonante viagem por Bizâncio, Constantinopla e Istambul e pelas suas três culturas, enfatizando o diálogo entre o Ocidente e o Oriente, em oito mil anos de História – desde o Neolítico e Antiguidade até hoje.

 

A HISTÓRIA CIÊNCIA DO FUTURO
Encontramos a noção de Património Cultural, como realidade humana, em toda a pujança – como fator de relacionamento e compreensão da complexidade e da diversidade. A historiadora é uma referência na comunicação respeitante à História antiga e medieval – com mais de 50 programas, em canais de rádio e televisão, como a BBC, ITV, Channel 4, Discovery, Canal História, National Geographic, além do sistema de televisão pública dos Estados Unidos, PBS. Bettany Hughes formou-se na Universidade de Oxford (St. Hilda College), especializou-se na Antiguidade e Idade Média, tendo sido investigadora no King’s College de Londres com tutoria no Institut of Continuing Education da Universidade de Cambridge – sendo convidada pelas principais instituições de ensino superior inglesas e norte-americanas para proferir conferências. A lista de temas que tem abordado é impressionante. A título de exemplo referimos: os egípcios, a verdadeira face de Nefertiti, o mistério de Tutankamon, engenharia no antigo Egipto, a história bíblica, a democracia ateniense, os espartanos, a ilha do Minotauro, a invasão romana da Grã-Bretanha, as origens do cristianismo, Alexandria, as maravilhas do mundo budista, o fim de Pompeia, até às figuras de Sócrates, Buda e Confúcio, bem como de Marx, Nietzsche e Freud… Estamos diante da consideração do Património Humano que nos permite compreender a importância do Património Cultural como realidade viva.

 

Guilherme d'Oliveira Martins
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A VIDA DOS LIVROS

 

De 11 a 17 de junho de 2018

 

«Do Monte Cara vê-se o Mundo» (Caminho, 2014) de Germano Almeida dá-nos conta do melhor que a cultura de Cabo Verde tem. Germano Almeida foi Bolseiro do Centro Nacional de Cultura, em 2001, no âmbito das Bolsas Criar Lusofonia.

 

BIÓGRAFO DE CABO VERDE
Germano Almeida é o biógrafo de Cabo Verde. Não podemos compreender a vitalidade cultural do arquipélago e do país sem ler hoje o autor de Do Monte Cara vê-se o Mundo. É verdade que Baltazar Lopes é uma espécie de patriarca da “caboverdianidade” ou que Corsino Fortes é um poeta que sente como ninguém a identidade dessa extraordinária cultura da Macaronésia do Sul, mas Germano busca a naturalidade, a alegria de viver, a ironia, a arte de contar, a diversidade de tipos populares e a sensualidade dos corpos e das relações humanas. Não esqueço um dia que nos encontrámos na Praia, numa iniciativa do Centro Nacional de Cultura, e falámos dum tempo que estava para vir, em que de um modo natural a literatura cabo-verdiana seria reconhecida como exemplo maior na diversidade da língua portuguesa. Esse tempo chegou primeiro com o reconhecimento de Arménio Vieira no Prémio Camões e agora com o próprio Germano Almeida. A vitalidade cultural de Cabo Verde augurava essa evolução como natural. Desde que li pela primeira vez O Testamento do Sr. Napomuceno da Silva Araújo não tive qualquer dúvida sobre a qualidade excecional da obra e do autor. E em imaginação, percorremos o caminho iniciático do protagonista. “Atravessou a Rua de Lisboa, o Largo do Palácio e subiu ao Forte de Cónego trotando atrás de Jovita e extasiando-se com a maravilha que era o Mindelo, nunca vira tanta gente junta e sentia-se envergonhado de estar descalço atrás daquela carregadeira que calçava sandálias de plástico. Naquele dia não saiu de casa, temeroso de se perder na cidade enorme ou ser atacado por bandidos que sabia existirem e perseguirem as pessoas de dia ou de noite…”.

 

MINDELO, A CIDADE LIVRE
Ah, o Mindelo, cidade de história conturbada que Germano Almeida aprendeu a conhecer de trás para a frente. S. Vicente foi povoada tardiamente, tempo houve em que os piratas usavam a baía do Porto Grande como local de descanso, antes de avançarem para temíveis investidas. O povoamento foi lento, vindo de Santo Antão e S. Nicolau. E foi a memória da gloriosa revolução liberal, em que Garrett e Herculano estavam entre os bravos de Pampelido que deu o nome à extraordinária cidade que o escritor ama. Aqui acabava a escravatura. E essa invocação do Mindelo mítico era o melhor elogio da liberdade, como recusa a subalternização ou menoridade. E assim se tornou centro de irradiação de uma especial riqueza cultural que aproveitou as potencialidades do entreposto mercantil. Em Do Monte Cara vê-se o Mundo a personagem viva é a própria cidade do Mindelo e a sua gente. O velho Pepe é o cicerone, funcionando como um verdadeiro revelador e encenador de tudo o que vai acontecer. Júlia, Guida, D. Aurora, a Professora Ângela, o Trampinha – todos ilustram uma realidade humana muito rica, com uma ironia inesquecível, sob o olhar divertido e sábio do Monte Cara, em frente à cidade. E eis-nos embrenhados no dédalo que conduz ao Fortim d’El-Rei, à Alfândega Velha ou a Praça Nova, vibrante ao som do funaná. Aqui Nhô Baltas, Manuel Lopes e Jorge Barbosa criaram a revista “Claridade” – onde Chiquinho começou a ser publicado, com a originalidade cabo-verdiana, “excluindo os portugueses de toda e qualquer discussão referente ao destino das ilhas e dos homens”, como disse Alfredo Margarido.

 

UMA LITERATURA FEITA DE VIDA
O percurso de Germano Almeida começou na ilha da Boa Vista, onde aprendeu a viver entre a ruralidade e a cultura urbana. Em Regresso ao Paraíso dirá que “da Boa Vista da minha infância pouco mais já resta que o prazer de usar o tempo. É uma noção do tempo em que o hoje e o amanhã, o agora e o mais daqui a bocado, continuam significando a mesmíssima coisa. E quando para lá ia de férias ia sobretudo em busca desse tempo sem relógio, que é nosso está por nossa conta”. O futuro escritor fez a tropa em Angola, numa zona de confronto. Com vinte cinco anos, graças às qualidades da sua escrita consegue uma providencial bolsa da Fundação Calouste Gulbenkian que lhe permitiu estudar Direito em Lisboa – onde fomos contemporâneos. Em 1977 regressou à pátria e em 1983 fundou com Leão Lopes e Rui Figueiredo a revista “Ponto e Vírgula” – onde publicou contos com o pseudónimo de Romualdo Cruz… Depressa foi descoberta a sua verdadeira identidade e seguiu-se uma entrada natural no mundo literário, com obras reveladoras duma originalíssima maneira de usar a língua portuguesa de Cabo Verde, na tradição dos seus melhores compatriotas. A Ilha Fantástica é constituída por um conjunto de textos, aparentemente despretensiosos, saídos na revista “Ponto e Vírgula”, que se revelam essenciais para a compreensão de uma cultura, onde o picaresco se associa a uma extraordinária apetência de compreender e revelar sentimentos. A última obra publicada, a sair em breve entre nós, – O Fiel Defunto – confirma essa capacidade para privilegiar a ideia de “divertimento”, de prazer com as pequenas coisas… E alguém pergunta ao “fiel defunto”: “mas deves estar a fazer alguma coisa para assim te divertires durante tanto tempo”. “Sim, respondia galhofeiro, ouço música, navego na internet, espreito o facebook, onde aprendo muito sobre as pessoas em geral e as pequenas vaidades que lhes enchem a alma, leio livros, falo com amigos, faço má-língua, digo mal das criaturas de quem não gosto, cuido das plantas do meu jardim que nunca estiveram tão bonitas de tão bem tratadas, enfim um enorme rol de ocupações que me preenchem os dias que gostaria que tivessem 48 em vez de apenas 24 horas”… E assim se confessa imune aos vícios, incapaz de escrever o que não tem para dizer e apenas disponível para deixar passar o tempo, com uma cana de pesca na mão, “sem sequer desejar apanhar um peixe para não ter a maçada de o transportar para casa”… Tem sido ainda importante a intervenção de Germano Almeida no tema da língua portuguesa. Devo dizer que concordo muito com o seu pensamento. Conversei muito sobre isso também com Corsino Fortes. É indispensável um ensino rigoroso do crioulo e o português deve ser muito bem ensinado como língua segunda. É fundamental aprender a falar o português corretamente. A alfabetização em crioulo obriga a cuidados especiais, para evitar barreiras entre ilhas ou comunidades. Dada a natureza dos crioulos é fundamental que o português não seja sentido como língua estranha. A tarefa da escola e da pedagogia obriga a que haja um desenvolvimento harmónico das línguas – como fatores de comunicação e integração. Não esqueçamos que o autor de Chiquinho era professor de latim ou que a taxa de analfabetismo em Cabo Verde era em 1974 menor do que em Portugal. Que significa isto? Que só uma exigência significativa para a comunicação linguística – em crioulo e português, pode evitar a exclusão. Daí Germano Almeida insistir “na necessidade de nós em Cabo Verde dominarmos o português até mais que os portugueses, Porque com o crioulo não vamos longe, não saímos das ilhas. Com o português vamos para Portugal, para o Brasil, para Angola”…

 

Guilherme d'Oliveira Martins
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A VIDA DOS LIVROS

 

De 4 a 10 de junho de 2018

 

Este domingo fomos ao Campo de Ourique e pudemos, entre mil pesquisas descobrir como o 5º Marquês das Minas invocou o Milagre de Ourique para instalar um Quartel e uma Parada, que o Conde de Lippe tornaria a primeira das instalações militares modernas de Lisboa.

 

UMA HISTÓRIA NOTÁVEL
A história da cidade de Lisboa reserva-nos tantas vezes boas surpresas no tocante ao modo de aproveitar bem as qualidades naturais de uma das mais belas capitais europeias. Partindo de um núcleo antigo marcado pela Alcáçova e pelos bairros populares da cidade velha, delimitado no século XIV pela cerca fernandina, a cidade foi-se alargando até que o terramoto de 1755 determinou a completa reestruturação do tecido urbano, tendo prevalecido a ideia de manter a Baixa, ainda que beneficiando de um sistema novo, inspirado na experiência de Amesterdão, assente em estacaria de pinho verde. No século XVI a urbe tinha ganho a estrutura ortogonal do Bairro Alto e no século XVIII vai conquistar novos espaços populacionais, na Lapa e no Campo de Ourique. Foi este bairro que acabámos de visitar no último Passeio de Domingo e é sobre ele que hoje falaremos – esclarecendo algumas dúvidas ou imprecisões que ainda existem. Se é uma zona de desenvolvimento relativamente recente da cidade, já que se trata de uma urbanização essencialmente do início do século XX, a verdade é que a sua base foi lançada em pleno século XVIII, a partir de dois núcleos fundamentais – o da nova paróquia de Santa Isabel e o do chamado Campo de Ourique. Se consultarmos mapas anteriores ao terramoto, verificamos que grande parte dos terrenos dessa zona eram ocupados por produção agrícola variada. Tratava-se de chãos rústicos de quintas e olivais, com cultivos vários, além dos barros favoráveis à instalação de olarias e fábricas de telha e tijolo… A rua de Silva Carvalho, que começa nas Amoreiras no Palácio Anadia e termina no limite do antigo Hospital Inglês, divide-se em duas secções que tiveram toponímias diferentes – S. João dos Bem-casados até ao antigo Largo da Páscoa e de S. Luís no troço final. Antes de 1755, a serventia do primeiro troço era rudimentar, marcada por uma ermida, entretanto demolida em 1884, construída em 1581, com fama de favorecimento das curas dos doentes, até pelos bons ares que usufruía, vindos de Monsanto. O pequeno templo antigo situava-se em frente de onde hoje se encontra o Centro Comercial das Amoreiras, sendo da invocação de S. João Baptista e de Nossa Senhora da Boa Sentença. A construção da ermida deveu-se a António Simões, que foi soldado em Alcácer Quibir e esteve na edificação da primitiva igreja da Penha de França (1597). O palácio dos condes de Anadia, bem como as três importantes quintas que lhe correspondem (S. João dos Bem-casados incluindo a casa nobre, Pousos que vai até ao Campo de Ourique e do Pé de Mu e do Fetal que seguia até ao que hoje é o Largo do Rato), tornaram-se propriedade de Francisco Duarte de Almeida e Sousa, depois da insolvência da família Palhares; recebendo Aires de Almeida e Sousa e Sá, irmão de Francisco, em doação, toda a larga propriedade. Em parte do palácio Anadia, morou e faleceu D. Tomás de Mello Breyner, conde de Mafra, médico do rei D. Carlos e avô de Sophia de Mello Breyner. No prédio fronteiro, morou Veva de Lima, filha de Carlos Lima Mayer, um dos “vencidos da vida”, mulher de Ruy Ulrich, conhecido professor de Direito, e mãe da pedagoga Maria Ulrich. Nas Amoreiras, a proximidade das fábricas pombalinas, em especial das sedas, exigia a presença das árvores cujas folhas alimentavam os preciosos bichos-da-seda. Andando pela rua de S. João dos Bem-casados chegamos ao grande prédio de esquina na rua do Sol para a rua do Campo de Ourique, onde esteve instalada a Companhia da Panificação e onde se encontra a Sociedade Filarmónica Alunos de Apolo (fundada por guardas de polícia em 1872). O antigo largo da Páscoa leva-nos aos velhos arruamentos que ligavam a Santa Isabel, ao Rato, a S. Bento e ao Vale do Pereiro – Arrábida e Cabo.

 

RESVÉS CAMPO DE OURIQUE
Antes de irmos ao Campo de Ourique, cuidemos, porém, um pouco de Santa Isabel. A freguesia foi criada em 1731 pelo primeiro Cardeal Patriarca de Lisboa, D. Tomás de Almeida, que começou por estabelecer a sede na Ermida de Santo Ambrósio, já desaparecida. O novo templo foi começado a construir em julho de 1742 e só se concluiu depois do terramoto sem que D. Tomás o visse concluído, apesar do seu apoio com a dádiva das suas pratas pessoais à Irmandade, para que as obras não parassem. No arruamento que liga a igreja paroquial à antiga rua de S. Luís, hoje como o nome de Silva Carvalho, situou-se a última morada de Almeida Garrett, entretanto destruída, escolhida especialmente pelo escritor por se encontrar próximo do cemitério inglês e por dela se avistar o monumento funerário em honra de Henry Fielding (1707-1754), o célebre autor de “Tom Jones”, que morreu inesperadamente numa passagem por Lisboa. Mas regressemos ao início da rua de S. Luís, na saída de uma das travessas do cimo dos quartéis. Estamos no Quartel do Campo de Ourique, construção iniciada em 1758 numa propriedade de Miguel Mendes da Costa e Patrícia Maria – sendo constituída por camaratas, casa da pólvora e logradouros. A instalação foi levada a cabo por D. Lourenço de Lancastre e Noronha, descendente do Conde dos Arcos, 5º Marquês das Minas por casamento. Lembre-se que não havendo serviço militar obrigatório o sistema era profissional e mercenário. Estamos no mais antigo edifício militar de Lisboa construído de raiz, já que os quartéis da Ajuda são posteriores. A praça de armas é imponente e é daqui que parte a organização do Campo de Ourique. De facto, é a partir do Quartel do Marquês das Minas e Conde do Prado que o Conde de Lippe vai proceder a uma construção adequada à modernização do exército português, muito depauperado então. O Conde de Lippe é enviado pelo rei Jorge II de Inglaterra, por iniciativa de Sebastião José de Carvalho e Melo, futuro Marquês de Pombal, com a responsabilidade de Marechal-General do Exército Português. Mercê de tal reorganização, indispensável, o Exército passa de 18 mil para 40 mil homens. Recorde-se que estávamos no termo da Guerra dos Sete Anos (1756-1763), entre a França e o império Habsburgo, de um lado, a Inglaterra, a Prússia, Hanôver e Portugal, de outro, o que obrigava a um especial esforço de organização e de eficiência – com a presença de mercenários estrangeiros. No Quartel do Campo de Ourique, assim designado, instalar-se-á o regimento Infantaria 4, comandado por Gomes Freire de Andrade (nos anos 1790 a 1807). Um alemão – J.H. Friedrich Link - descreve em 1798 o caminho da Basílica da Estrela até à Parada do Quartel, “deixando o casario para trás de nós, chegamos a uma agradável planície chamada do Campo de Ourique, separada das colinas vizinhas por fundos vales, e utilizada nesta época como local de exercício por um regimento de imigrantes que aí estava alojado em graciosos abarracamentos inicialmente ocupados pelo regimento de Dillon e mais tarde de Montemar”. Acrescente-se que o visitante esclarecia que a Parada também servia para promenade para as classes média e baixa. Depois do terramoto muita gente viera para aqui, pois o local tinha sido poupado às destruições (resvés Campo de Ourique). Esta unidade militar revelar-se-á muito ativa, designadamente na defesa dos ideais da liberdade. Lembrem-se os Motins do Campo de Ourique de 1803. Nas festividades do Corpo de Deus Grosson, ajudante do Conde de Novion, comandante da Guarda Real da Polícia de Lisboa foi preso por Gomes Freire. A prisão ocorreu no Passeio Público e causou um sério conflito entre o Exército e a Guarda. Quando em final de julho o regimento de Infantaria 4 celebrou as festas de Nossa Senhora da Piedade, na Ermida próximo do quartel, patrulhas da Guarda Real lançaram provocações a militares do regimento, tendo havido tiroteio e feridos. Por intervenção do Príncipe Regente, D. João, o Secretário de Estado da Guerra procedeu disciplinarmente contra o comandante do regimento, sendo Gomes Freire preso. De referir que os motins tinham finalidade política. Havia dois partidos que pretendiam influenciar o monarca – Novion e a oficialidade da Guarda Real representavam a sensibilidade francesa e jacobina, e Gomes Freire de Andrade e seus subordinados correspondiam ao partido pró-britânico e maçónico. No final dos acontecimentos, Gomes Freire apenas receberia uma repreensão e Novion seria destituído do comando da Guarda Real…

 

SAIU DAQUI HERCULANO PARA O EXÍLIO
Merece também referência o golpe de 21 de agosto de 1831, em que interveio Alexandre Herculano e o levaria para o exílio. É um golpe, em que o regimento saiu em defesa da Constituição liberal contra a governação de D. Miguel, por incitamento do lente da Academia de Marinha Albino Francisco de Figueiredo e Almeida. Sobre esta tentativa falhada de golpe Herculano diz: “a infeliz tentativa do 4º Regimento de Infantaria foi tentativa conduzida com tanto valor pelo tenente-coronel Bravo”. Um “agente incógnito” entrou clandestinamente no quartel de sobrecasaca e chapéu redondo. E assim levantou o regimento, que saiu pelo largo da Páscoa, descendo a rua do Sol ao Rato em direção a S. Bento. Contudo a resistência dos guardas de polícia fez-se logo sentir. E ao entrarem na rua do Sol, um mestre de meninos equivocado pela charanga, deu vivas a D. Miguel – e foi varado pelas balas – o que originou grande perturbação. Daí para a frente os efetivos foram-se reduzindo, por fuga de muitos dos soldados, incapazes de resistir. Alexandre Herculano não interveio diretamente no movimento, mas apercebendo-se do fracasso foi para uma nau francesa, “Melpomène, fiel ao rei Luís Filipe e à monarquia de julho – e daí passou a um paquete inglês que o levou para o exílio até à Mancha. Os resultados do funesto golpe são conhecidos – em frente à porta de armas do quartel no dia 10 de setembro foi fuzilada uma primeira leva de revoltosos – 10 praças e um alferes. A 24 há uma segunda leva de 21 homens, incluindo tambores e outros músicos. Só se salvaria o último contingente de 30 homens, que incluía um tenente e diversos músicos. O resultado final da aventura levou à dissolução do regimento de 4 de Infantaria… Pode dizer-se, pois, que Campo de Ourique nasceu como um campo militar, que se integraria no programa reformista do conde de Lippe. É, assim, o quartel mais antigo de Lisboa. Muito provavelmente, a designação do local deve-se à invocação do milagre de Ourique pelos comandantes militares – invocado nas quinas das armas de Portugal. De facto, o quartel do Campo de Ourique aparece como estruturante na construção do novo bairro – bastando lembrarmo-nos do Jardim da Parada, recordação desse tempo e dessa vocação primordiais. Em memória do inconformismo liberal, o Jardim da Parada alberga a estátua de Maria da Fonte, figura da resistência popular às medidas fiscais e às leis de saúde pública de Costa Cabral (1846). Não se esqueça ainda a intervenção decisiva do regimento de Infantaria 16 na Implantação da República, com o qual contaria Machado Santos na Rotunda – foi na rua Ferreira Borges que teve lugar o primeiro disparo da revolução - , bem como a intervenção importante do Batalhão de Sapadores de Caminhos de Ferro, na Primeira Guerra Mundial…

 

UM PÁTIO DE ARTISTAS FANTÁSTICO
Em suma, se no tempo do terramoto estávamos nos arrabaldes de Lisboa e tudo tendo começado com um campo militar e uma parada para exercícios sob a invocação do milagre de Ourique, em meados do século XIX a futura rua Maria Pia é o início da primeira circular ou circunvalação, construindo-se aqui o Cemitério Ocidental ou dos Prazeres e o acesso da rua Saraiva de Carvalho (1863). O bairro é previsto em 1878 e delineado num plano ortogonal em 1906 por Ressano Garcia. Em 1910 apenas chegava à rua de Tomás da Anunciação, progredindo até 1939 para chegar à rua de Sampaio Bruno. E Campo de Ourique das artes, da ciência e da cultura? Temos tudo! Além de Alexandre Herculano, que daqui saiu para o exílio, Almeida Garrett que teve a sua última morada na rua de Santa Isabel, Gomes Freire de Andrade, comandante do 4 de Infantaria, Guerra Junqueiro, que viveu na rua de S. Luís na quinta da brasileira (D. Ida Rosa Benthim), Fernando Pessoa (na sua casa da rua Coelho da Rocha, de fronte ao seu fiel barbeiro – o senhor Manassés), Bento de Jesus Caraça e Ferreira de Macedo, eminentes matemáticos e pedagogos, fundadores da Universidade Popular Portuguesa na Padaria do Povo, António José Saraiva, Rómulo de Carvalho, Luís Sttau Monteiro, os artistas Cristino da Silva, Leopoldo de Almeida, Cotinelli Telmo, António Lino, Álvaro de Brée, Domingos Rebelo, Helena Almeida, Bárbara Assis Pacheco… Fomos, aliás, recebidos principescamente por Jorge Martins no Pátio dos Artistas – que começou por nos explicar a autoria dos magníficos baixos-relevos aqui colocados graças a Leopoldo de Almeida, da autoria do escultor espanhol Juan de Ávalos y Taborda (1911-2006)… Estes são apenas breves apontamentos. Muito fica por dizer. Propositadamente não há espaço para mil outros protagonistas… Só Fernando Pessoa daria pano para muitas mangas… Hoje foi apenas oportunidade para dizer que a origem do Campo de Ourique está encontrada!

 

Guilherme d'Oliveira Martins
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A VIDA DOS LIVROS

De 28 de maio a 3 de junho de 2018

 

«As Ilhas Desconhecidas – Notas e Paisagens» de Raul Brandão é uma das obras-primas da literatura de viagens em língua portuguesa, facilmente ombreando com os melhores clássicos.


UMA OBRA - PRIMA 

No início das Memórias, Raul Brandão (1867-1930) define o seu modo de ver, a sua atitude: “Não me habituo: não posso ver uma árvore sem espanto, e acabo desconhecendo a vida e titubeando como comecei a vida. Ignoro tudo, acho tudo esplêndido, até as coisas vulgares: extraio ternura de uma pedra”. E isto plenamente se manifesta em As Ilhas Desconhecidas – Notas e Paisagens, sem sombra de dúvida uma das obras-primas da literatura de viagens em língua portuguesa, facilmente ombreando com os melhores clássicos. Com efeito, ainda hoje, é impossível compreender os Açores moderno, sem trilhar os passos e entender as apreciações do escritor nessa viagem realizada de junho a agosto de 1924, ao encontro de um mundo de magia e mistério. Ligam-se a natureza, as pessoas, as tradições e a história, e o que resulta é um panorama que naturalmente nos atrai, numa identificação em que nos tornamos participantes num extraordinário laboratório onde o povo açoriano se singulariza nas suas qualidades, através de um melting pot baseado numa rica simbiose entre natureza e sociedade. Dir-se-ia, pois, que Brandão pôde compreender bem a natureza da autonomia açoriana, confirmando os objetivos de sensibilização, que também levaram ao arquipélago no mesmo ano de 1924 a chamada “Missão Intelectual”, por iniciativa de José Bruno Carreiro, constituída entre outros por Antero de Figueiredo, José Leite de Vasconcelos, Teixeira Lopes, Luís de Magalhães, Armindo Monteiro e Joaquim Manso. Não esquecendo Mês de Sonho de José Leite de Vasconcelos, com objetivos mais específicos, pode dizer-se que a obra de Raul Brandão constitui uma peça crucial para a compreensão da especificidade açoriana e para a construção da autonomia constitucional hoje consagrada. E a grande qualidade cultural e literária contribuiu decisivamente para a afirmação da moderna identidade açoriana.

 

A AÇORIANIDADE
Não por acaso, Vitorino Nemésio coloca uma afirmação de As Ilhas Desconhecidas como uma das epígrafes, ao lado de Melville e Chateaubriand, em Mau Tempo no Canal: “Já percebi que o que as ilhas têm de mais belo e as completa é a ilha em frente - o Corvo as Flores, Faial o Pico, o Pico São Jorge, São Jorge a Terceira e a Graciosa...”. O arquipélago manifesta-se em toda a sua pujança e originalidade nessa relação entre as ilhas. E assim a identidade não é uniforme, mas necessariamente polifacetada. Como tem sido salientado, é talvez nesta afirmação que se encontra condensada a compreensão exata da açorianidade – como paradigma cultural, geográfico e antropológico. Lembremo-nos do capítulo emblemático sobre a pesca da baleia. É como se participássemos desse espetáculo único do homem perante a necessidade e o perigo: “A claridade espelha-se e escorre no dorso escuro e molhado. O barco aproxima-se sem ruído, o arpoador à proa, com o arpão erguido nas duas mãos, firme nos pés e na atitude de arremesso. É um ferro com setenta e cinco centímetros e dois metros de cabo. Ao lado, no barco, vai a lança, que é maior, para acabar este monstro do tamanho dum prédio. Mas o homem impressiona-me ainda mais que a baleia: é tremendo, de pé, minúsculo, com a vida no olhar e nas mãos. No barco está tudo calado e ansioso, ninguém diz palavra inútil: homens, barco, arpoador e arpão, tudo tem o mesmo corpo e a mesma alma…”. A descrição coloca-nos de pleno na cena teatral. Sentimo-nos protagonistas do combate. Como na grande literatura, as palavras servem para dar o ritmo certo – até ao momento em que tudo se consuma. O bicho hesita e é como na arena quando o touro é atingido pelas bandarilhas, com outra intensidade, com outra força. Garrett foi claro um dia: a valentia dos homens do mar sobreleva a dos toureiros e campinos. É que tudo começa aqui num verdadeiro combate de sobrevivência, até ao momento dramático e heroico, em que se ouve finalmente: “ – É nossa! é nossa!”. Arreiam-se as velas, tranca-se a baleia! Define-se quem partilha os louros. Mas a função não terminou. “Falta o pior; falta trazer o bicho para terra, o que leva horas, leva o dia”. Neste combate, está o climax da obra, justamente considerado como o elemento definidor do caráter dos protagonistas e do seu povo. E a descrição, apresentada na sua crueza e força, completa-se pelo testemunho das gentes. “Os homens do Pico são os homens mais sãos que conheço. Vejo-os diante de mim como torres e um olhar que não engana. (…) Quase toda a gente sabe ler no Corvo e no Faial. Há menos analfabetos que no continente. Reparem na gente do campo, na limpeza das casas, e na situação da mulher, que é tratada com respeito e ternura”. Ah! A gente falada é acolhedora e recorda a faina do mar e a labuta em terra, mas alimenta o sonho de ir até à América, levar a experiência do mar açoriano a terras longínquas – Nova Iorque, a grande metrópole, Califórnia, S. Francisco, a febre do ouro, as ilhas Fidji, as boas tripulações de portugueses. “Quase todos os homens, e até mulheres, emigram para a América, e os que não emigram é porque não podem fugir. Se a América abrisse largamente as portas, os Açores despovoavam-se. Já faltam braços para cultivar as terras”.

 

UMA SOBERBA ESCRITA
O livro é feito de notas de viagem. E a escrita é soberba. “Os jardins são sempre uma obra de arte, e, quanto mais desordenados, mais belos”. Ao falar do Corvo o autor encontra braveza, solidão e negrume, nesta “democracia cristã de lavradores”, e recorda Mouzinho da Silveira e o seu incumprido testamento: “Quero que o meu corpo seja sepultado no cemitério da ilha do Corvo, a mais pequena das dos Açores. (…) Gosto agora da ideia de estar cercado, quando morto, de gente que na minha vida se atreveu a ser agradecida”... Enquanto o Corvo é espesso e nu, as Flores são violeta e verde. Brandão espanta-se por não ser o padre a oficiar o culto do Espírito Santo – “é o povo que o celebra, o povo grosseiro e rude, que traz para diante do Santo Espírito a Santa Matéria. O Padre apenas colabora”. O escritor vê e ouve, em êxtase, o límpido ruído das águas, descobrindo nas Flores a “música pastoril e sagrada”, que é a voz da “floresta adormecida”. No Faial, a ilha azul, Raul Brandão apaixona-se pelas hortenses que ladeiam os caminhos. “O Faial adormece em azul sob o céu de cinza e com o Pico todo violeta ao lado”. E tal é a luminosidade que os melros se enganam nas “noites de lua redonda e branca e desatam a cantar desvairados”. A Horta é uma cidade encantadora, de gente ilustrada e hospitaleira, tendo em frente o Pico formidável. O capote das mulheres protege-as de tudo – e é “pelo sapato e pela meia que se sabe se é bonita”. A beleza do Pico é estonteante, sem igual. É, como o Adamastor, “uma estátua erguida até ao céu e amoldada, pelo fogo”. Ponto a ponto, ilha por ilha, Raul Brandão deixa-se enamorar pelos Açores: em S. Miguel, com as Furnas e as Sete Cidades, transportado à pura natureza e às mais antigas lendas; em Angra do Heroísmo, perde-se “nas quintas e nos jardins entre quadros rústicos de lavoura”; ou no súbito vislumbrar de quatro ilhas, saindo do mar ao mesmo tempo – a Graciosa de um “verde muito tenro”, a Terceira quase desvanecida, o “biombo violeta” de S. Jorge e o “cone do Pico aguçado até ao céu”… Sente-se a cada passo um incontido prazer, de usufruir de uma beleza fantástica.

 

Guilherme d'Oliveira Martins
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A VIDA DOS LIVROS

 

De 21 a 27 de maio de 2018

 

«Pós-Pop – Fora do Lugar Comum», mostra a ter lugar na Fundação Calouste Gulbenkian, representa, com significativa originalidade, uma visão abrangente da Arte Pop crítica, em Portugal e em Inglaterra, nos anos 1965 e 1975.

 

A REFERÊNCIA DE LONDRES
Partimos da experiência de criadores portugueses que foram ao encontro dos meios artísticos britânicos, num tempo em que, fundamentalmente graças às bolsas apoiadas pela Fundação Calouste Gulbenkian, há uma salutar abertura de horizontes num sentido da inovação. Do que se trata é de cultivar uma divergência bem-humorada em relação ao lugar-comum proposto pela Arte Pop. Numa palavra, trata-se da crítica da crítica. Joga-se com a linguagem popular para desconstruir uma imagem que não sendo uniforme dá lugar a leituras contraditórias – longe de um paradigma. A obra de Teresa Magalhães, em finais dos anos sessenta, praticamente inédita até hoje, usa uma imaginação que nos desvia do previsível, no tocante à linguagem gráfica e artística. Mas se esta é bastante livre e fora de uma disciplina visível, a obra de Ruy Leitão é mais sistemática e ditada pela exigência académica, caldeada pela imaginação crítica, que lhe concede uma inconfundível originalidade. Aluno dileto de Patrick Caulfield, Ruy Leitão, filho de Menez, falecido prematuramente aos 27 anos, demarca-se claramente da perspetiva mais comum da Pop-Art. Há uma preocupação interventiva – em que a crítica surge como denúncia daquilo que na revista “O Tempo e o Modo”, de António Alçada Baptista e João Bénard da Costa, se designou como “desordem estabelecida”. Perante a expressão propositadamente paradoxal identificadora de um regime que não reconhecia as liberdades, haveria que tornar outra desordem manifestação da consciência crítica. Afinal, dir-se-ia ser necessária uma certa “desordem desestabelecida”. É verdade, como afirmou Eduardo Batarda, que as artes plásticas não eram tão diretamente atacadas pela censura como o pensamento e a escrita, no entanto havia que fazer a denúncia crítica de um tempo dominado por uma certa claustrofobia. E os artistas portugueses que saem e vão até Inglaterra reagem relativamente a uma certa situação anacrónica que se vive em Portugal. E é esse encontro que nos revela nesta Exposição artistas ingleses como: Bernard Cohen, Tom Philips, Jeremy Moon e Allen Jones. Dos portugueses, temos, além de Teresa Magalhães e Ruy Leitão, Eduardo Batarda, Menez, Nikias Skapinakis, Sérgio Pombo, Fátima Vaz (surpreendente revelação…), João Cutileiro e José de Guimarães.

 

O CASO DE CLARA MENÉRES
Mas permitam o destaque especial para Clara Menéres (1943-2018), há pouco falecida, quando a exposição já estava aberta. A sua obra “Jaz Morto e Arrefece o Menino de Sua Mãe”, uma escultura em gesso realizada em 1973 de um soldado morto, constitui um alerta sobre o tempo de incertezas, de segredo e de censura vivido quando foi realizado. É um ícone que não pode passar despercebido em toda a exposição. Surpreende, é certo. Mas só surpreende, de facto, quem perdeu a memória desses anos e do que eles representaram para a juventude de então. Clara Menéres não tinha 25 anos e a imagem torna-se um verdadeiro manifesto. Se há o livro de Spínola “Portugal e o Futuro” a pedir uma solução política para a guerra, com as consequências conhecidas, esta obra constitui uma marca indiscutível de uma denúncia necessária, inesquecível. Do mesmo modo o “Relicário” iconoclasta serve de símbolo propositadamente chocante sobre a lembrança da existência de censura – numa sociedade vigiada. E a apresentação desta obra, tal como está feita, representa uma inteligente solução para demonstrar que o proibido e a censura constituem sempre riscos em qualquer momento histórico. Dir-se-ia que esta obra nos transporta ao profundo choque causado por Eça de Queiroz com a sua “Relíquia”. A presença de Clara Menéres singulariza-se pela sua originalidade e por um percurso de uma paradoxal coerência – e de uma exigente atitude de denúncia. Como afirmou José Tolentino Mendonça: “A arte escandalosa de Clara Menéres insistia num diálogo em contracorrente com a história, procurando intervir mais sobre o espaço vivo das convicções e dos desejos do que em encontrar para si um lugar entre a monumentária oficial” (…) Diz Adília Lopes: ‘O iconoclasta / reconstrói o ícone’. Acho que exatamente isso que acontece (…) Clara Menéres não era nem um espírito conformista, nem uma personalidade cómoda e isso são coisas que lhe temos de agradecer” (Expresso, 19.5.2018).

 

UM PERCURSO MUITO RICO
Continuando a percorrer a magnífica exposição, encontramos em “caixas negras” estrategicamente colocadas a lembrança dos tempos que passam quando os artistas criam as peças apresentadas: E devemos ainda lembrar outros nomes: António Palolo, John Furnival, Manuel Baptista, Joaquim Bravo, Ana Vieira, Lourdes de Castro, René Bértholo, Ana Hatherly, Hein Semke, Cruz-Filipe, António Sena, Fernando Calhau, Sá Nogueira ou José Rodrigues… A exposição merece uma atenção especial e ficará na memória do público como uma riquíssima reflexão sobre um diálogo cosmopolita que tem Portugal em fundo. Se nos lembramos de Nikias Skapinakis em “Delacroix no 25 de Abril em Atenas” reportamo-nos a uma invocação sentida e inteligente do nosso Maio de 1968 – que foi a “revolução dos cravos” e que iniciou uma nova vaga das democracias. Na Gulbenkian estão duzentas e quinze obras, das quais vinte inéditas. Como Teresa Magalhães afirma, a propósito de uma obra emblemática sobre a viagem num Mini até Torremolinos, aquilo era a realidade. Não foi inventado. É o quotidiano, usado como motivo para combater o tédio. Aquela viagem significou ir para fora, ver outro lado das coisas. Eis a verdadeira metáfora que está subjacente a esta exposição – era preciso ver o outro lado das coisas, era isso que significava superar o que era vulgar, mesmo que, para desconstruir, fosse necessário partir do que os outros faziam… A curadoria de Ana Vasconcelos e Patrícia Rosas é de uma grande competência técnica, artística, e histórica. Pegando num tema que exigia criatividade e imaginação, capacidade de relacionamento e elevado sento crítico – é-nos apresentada uma mostra que nos leva até aos anos sessenta e setenta, numa perspetiva de conjunto, compreendendo a complexidade social e histórica, e lembrando os cinquenta anos do Maio de 1968, para além do lugar comum…    

 

Guilherme d'Oliveira Martins
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A VIDA DOS LIVROS

 

De 14 a 20 de maio de 2018

 

A «História de Portugal» de Alexandre Herculano constitui ainda hoje obra de consideração obrigatória para compreender as origens da Nação. “Querer é quase sempre poder: o que é excessivamente raro é querer”. Com esta afirmação o historiador responde a muitos dos que consideram o primado da liberdade crítica como um não querer.

 

UMA POLÉMICA CIVILIZADA
Sabemos como o autor de Eurico se demarcou das novas gerações que se lhe seguiram, em especial da que se afirmou nas Conferências Democráticas pela evolução e pela igualdade. Conhecemos os termos da polémica civilizada, mas claríssima, que travou com Oliveira Martins (sob o olhar atento de Antero), em que deixou muito clara a sua atitude essencial relativamente ao primado da liberdade política, económica e cultural. De qualquer modo, se há uma marca própria na atitude de Herculano, ela corresponde à afirmação da liberdade como um fator necessário de afirmação de vontade. Liberdade e não querer são assim antagónicos e contraditórios, na perspetiva herculaniana. E aí os detratores do velho historiador viram uma contradição insanável, entre o distanciamento na intervenção e a retidão quase profética na ética. Nesse sentido, a partir de Kant, aproximou-se de Montesquieu e de Tocqueville, numa demarcação evidente em relação a Rousseau. Não é a liberdade do bom selvagem que Herculano invoca, mas a articulação de vários poderes, a sua autolimitação e a consideração da cidadania, como distinta de uma “vontade geral”, abstrata ou uniformizadora, e enquanto concretização de instituições livres, capazes de assegurarem uma mediação eficaz e legitimadora. Os fundamentos medievais das instituições animaram, de facto, a sua investigação histórica, com especial ênfase para o municipalismo, o que motivou críticas à historiografia moderna. O certo é que, para Herculano, o bem comum resulta de uma mediação, capaz de tornar a vontade algo de positivo, com vista a realizar desígnios comuns e a contrariar qualquer ilusão onírica. Daí a sua interpretação da “História de Portugal” como uma afirmação de vontade – sem esquecer, contudo, um certo “espírito público”, a animar a causa da independência. Apesar das diferenças, o certo é que há uma óbvia convergência entre as linhas emancipadoras dos primeiros românticos, Garrett e Herculano, e os desígnios da geração de Antero, Eça e Oliveira Martins. E sobretudo verifica-se uma certa confluência crítica sobre a degenerescência das instituições liberais, com aceitação por Herculano de algumas soluções sociais visando combater as injustiças (a enfiteuse, as caixas económicas, o crédito cooperativo)… Não por acaso, José-Augusto França prolonga a sua análise do Romantismo português até às repercussões ocorridas quase no fim do século: “1835 (ou 1834), pax liberalis, é uma data indiscutível: marca o começo do processo romântico nacional, na sua fase de instauração. 1880 situa-se no fim deste mesmo processo, no momento em que se caracteriza uma viragem da sociedade portuguesa e onde, sobretudo, esta sociedade toma consciência dos seus próprios valores – e da sua própria falência”.

 

O ESTADO COMO GÉNESE DA NAÇÃO
A consideração da vontade criadora do Estado e em consequência a génese da Nação no século XII português põe a tónica na convergência de fatores orgânicos e históricos que permitiram a origem de Portugal – “nascido no século XII em um ângulo da Galiza, constituído sem atenção às divisões políticas anteriores, dilatando-se pelo território do Gharb sarraceno, e buscando até (…) aumentar a sua população com as colónias trazidas de além dos Pirenéus, é uma nação inteiramente moderna”. A sua história própria “é assaz honrada e ilustre sem essas vaidades estranhas que estão longe de terem o valor que se lhes atribui”… Herculano falava das invocações de Viriato, de Sertório e dos lusitanos – sobretudo referidas a partir do século XV, fruto de um modismo clássico. No entanto, não há um nexo de continuidade entre a resistência à invasão romana e os povos que formaram o reino de Portugal. A nova monarquia compôs-se, digamos assim, de duas componentes, da fisiologia e da fisionomia da sociedade, enquanto do outro lado “impôs, vencedora, os seus próprios caracteres, posto que, como devia acontecer, dele recebesse modificações orgânicas”. E assim, como é fácil de compreender, a cultura do ocidente peninsular construiu-se em dois movimentos, de norte para sul e de sul para norte. A presença dos barões de Entre-Douro-e-Minho, que apoiaram Afonso Henriques, vai completar-se, a partir de Coimbra, por uma aliança muito profícua com os municípios moçárabes. Daí a construção da língua portuguesa, a partir da convergência de diversos dialetos, em que a Península Ibérica foi sempre fértil – que culminou na uniformização do idioma, com pequenas diferenças de pronúncia ou terminologia (com a exceção do mirandês), em virtude da mobilidade interna e da centralização. Herculano pôs, deste modo, a tónica na vontade, a que se somou o fator unificador da costa marítima – que reforçou o carácter atlântico de Portugal, por contraponto à continentalidade da Espanha, com a centralidade de Leão e Castela a ter de se virar para oriente (Aragão e Navarra), já que não se concretizou a ligação ocidental, com os funestos desaparecimentos do filho de D. João II, Príncipe D. Afonso, e do filho de D. Manuel, Miguel da Paz, simbolicamente sepultado em Granada com seus avós, os Reis Católicos.

 

A TÓNICA NA ÉTICA CÍVICA
Herculano põe a tónica na ação animada pela ética cívica. Assim se explica o interesse dos jovens de 1870. Como afirma Fernando Catroga: “o velho soldado liberal” interessa a Oliveira Martins, “desde cedo, não só como historiador (…) e como reformador social, mas também como modelo de virtudes cívicas. É que, para ele, o dissídio herculaniano não encerrava uma lição negativista. Bem pelo contrário, o seu magistério, antes e depois de ‘Vale de Lobos’, surgia-lhe como um símbolo de luta pela subordinação da política à moral, como um protesto rico de significação social” (“Ética e Sociocracia – O exemplo de Herculano na geração de 70”, in “Studium Generale”, nº 4, Porto, 1982). Aqui está porventura a chave que liga uma tradição de pensamento que vem de Garrett e Herculano, passa pela Geração de 70 e chega, nos nossos dias, a Eduardo Lourenço. E Catroga, ao falar de Oliveira Martins (de quem o autor de O Labirinto da Saudade se aproxima), ainda refere uma “propensão sociologista – corrigida pela sobredeterminação ética – e o seu apego às questões práticas da vida” que não bloquearam “a sua adesão à gesta individual de Herculano, a qual acabará por emergir como critério aferidor do sentido da sua própria ação como homem público”. Afinal, o que articula estas perspetivas, diversas mas complementares, não é qualquer negativismo ou ausência, mas uma visão crítica dos mitos como modo de emancipação – nunca como aceitação de qualquer fatalismo, ou acomodação à inexistência de vontade. “Somos porque queremos” – repetirá Herculano e com ele os seus seguidores, animados pela verve crítica, capaz de alimentar fecundamente a vontade.

 

Guilherme d'Oliveira Martins
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