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Blogue do Centro Nacional de Cultura

Um espaço de encontro e de diálogo, em defesa de uma cultura livre e pluridisciplinar. Estamos certos de que o Centro Nacional de Cultura continuará, como há sete décadas, a dizer que a cultura em Portugal vale a pena!

Blogue do Centro Nacional de Cultura

Um espaço de encontro e de diálogo, em defesa de uma cultura livre e pluridisciplinar. Estamos certos de que o Centro Nacional de Cultura continuará, como há sete décadas, a dizer que a cultura em Portugal vale a pena!

A VIDA DOS LIVROS

  

De 23 a 29 de maio de 2022.


Em «Economia de Missão» (Temas e Debates, 2021), Mariana Mazzucato, põe a tónica na necessidade de organizar a União Europeia de modo a responder aos desafios do desenvolvimento a partir das novas necessidades da sociedade e da cultura, da ciência e da técnica.


NOVAS ASPIRAÇÕES EUROPEIAS
«Precisamos de integrar plenamente os países com aspirações europeias” – afirmou Mário Draghi, primeiro-ministro italiano no Parlamento Europeu. Em nome de um “federalismo pragmático”, o governante pôs o dedo na ferida. De facto, há muito que necessitamos de uma abertura corajosa relativamente à construção europeia. Não se trata de seguir um caminho ilusório ou de dar um salto no escuro, mas de uma exigência que permita fazer da construção europeia um corpo político que possa enfrentar a crise múltipla que vivemos, e que tende a agravar-se, nos campos humanitário, energético, económico e de segurança. Os desafios são os da paz e do estabelecimento de relações estáveis no velho continente, abrangendo os países do centro e do leste da Europa, obrigando a uma nova arquitetura que aprofunde o que está concretizado em sessenta anos e que abra novos horizontes, não apenas relativamente à Ucrânia, mas também para a Albânia e a Macedónia do Norte, ou para o Kosovo e a Bósnia-Herzegovina. Estão em causa a União Europeia, o Espaço Económico Europeu, o Conselho da Europa, a OTAN e a OSCE. E só com esta enumeração percebemos que há uma grande complexidade na definição futura das soluções que abranjam o Atlântico e o Mediterrâneo, as relações com a Federação Russa e a República Popular da China, os direitos humanos, o comércio internacional, a globalização e uma cultura de paz. Tudo obriga a garantir o cumprimento da Carta das Nações Unidas, a respeitar a soberania dos Estados soberanos no âmbito da paz e da guerra e a salvaguardar o primado da lei e do direito. De facto, não há soberania ilimitada, nem a Declaração Universal dos Direitos Humanos pode ser considerada letra morta. E Draghi foi muito claro: “As instituições fundadas pelos nossos antecessores serviram bem os cidadãos europeus nas últimas décadas, mas são desadequadas para a realidade atual”.


FEDERALISMO PRAGMÁTICO
A ideia de “federalismo pragmático” deverá, assim, incluir os processos de tomada de decisão conjuntos para os setores da economia, energia, defesa e política externa. Há que avançar para maiorias qualificadas em decisões fundamentais, já que precisamos de uma União que possa decidir em tempo útil, poupando vidas e recursos. Se a guerra iniciada pela Federação Russa contra a Ucrânia pôs à prova a unidade europeia, o certo é que há interesses vitais comuns que têm de ser salvaguardados solidariamente – no tocante às sanções, ao embargo ao petróleo russo ou ao pagamento em rublos do gás natural, em violação do princípio “pacta sunt servanda” e do cumprimento dos compromissos comerciais assumidos… “Agora é o momento para agir”, quer perante os apelos a uma decisão política, como os de Volodymir Zelensky, quer quanto à resposta à chegada de migrantes. E o mesmo se diga no domínio das incertezas económico-financeiras ditadas pelas consequências das últimas crises de recursos, sanitária e bélica. Contudo, perante a diversidade de atores e interesses e a heterogeneidade de situações, impõe-se agir em vários tabuleiros, com métodos diferenciados, que não se limitem a seguir as conveniências do curto prazo. O sinal político de solidariedade e de entendimento não pode confundir-se com um alargamento europeu frágil, precipitado e insuscetível de sucesso. E Draghi conhece bem o método adequado, lembrando as cautelas que tomou no Banco Central Europeu na crise financeira, para que não ocorresse o choque fatal entre a panela de barro e a panela de ferro. Se precisamos de regras que protejam todos, é fundamental rever o modo de funcionamento das instituições europeias e os seus objetivos, que devem ser menos ambiciosos do que agora, centrando-se na paz, na segurança, no desenvolvimento humano sustentável e na diversidade cultural. Como afirmou Jean-Paul Fitoussi, há pouco falecido: “ou a Europa muda ou os povos abandonarão a ideia”. Urge prevenir esse risco. Eis o que tem de estar bem presente na nossa mente, porque precisamos do projeto europeu, mais do que nunca. Como vimos na crise pandémica, sem cooperação seria a catástrofe. A reação à guerra da Ucrânia foi um sobressalto. Mas tal não basta. Há que distinguir os efeitos comuns de todos e o interesse de cada povo. Longe da tentação burocrática uniformizadora, impõe-se criar um verdadeiro sistema de geometria variável. Em vez da oposição entre sul e norte, entre beneficiários e “frugais”, importa deixar claro que a fragmentação europeia será fatal para todos. Tem de haver uma consciência comum que permita privilegiar equidade e eficiência, justiça e desenvolvimento humano. E as novas instituições deverão privilegiar a legitimidade democrática e o respeito dos direitos fundamentais. Daí a necessidade de representar os Estados (num Senado igualitário) e os cidadãos, proporcionalmente.   Novos membros deverão ver preservada a sua independência, com um apoio à reconstrução, semelhante ao do Plano Marshall, adaptado ao nosso tempo. O “federalismo pragmático” corresponde ao combate ao centralismo e à fragmentação, favorecendo a cidadania ativa e responsável e não uma fortaleza. Reforçar a decisão e a relevância das instituições europeias obriga a transferências equilibradas de soberania no seio da União Europeia, com menos centralismo e burocracia e mais descentralização, proximidade e participação cívica. A aceleração do processo de integração pressupõe a preservação da legitimidade dos Estados e a representação e participação dos cidadãos. Ter-se-á, assim, de pensar em alterar os Tratados, em nome da sobrevivência, mudando a unanimidade e o sistema pernicioso de vetos cruzados e avançando para as maiorias qualificadas. Talvez a pandemia e a guerra da Ucrânia tenham mudado as perceções sobre a nova realidade política. Cada Estado, só por si, não tem condições para apresentar remédios para a crise. E devemos ouvir Denis de Rougemont a dizer-nos que o Estado-nação é grande demais e pequeno demais, exigindo a subsidiariedade. Draghi insiste: “uma Europa capaz de tomar decisões no tempo certo é uma Europa mais credível perante os seus cidadãos e o mundo”. Afinal, Putin avançou contra a Ucrânia acreditando na fragilidade europeia, sobretudo depois das diatribes do Senhor Trump, alter ego do imperador russo.  Não se pense, porém, que será fácil encontrar novas soluções, ou que as respostas imediatas são suficientes. No domínio internacional e da segurança, há interesses e valores comuns que devem prevalecer, em lugar da subordinação dos países pequenos e periféricos relativamente aos mais poderosos. Como tem salientado Mariana Mazzucato (Economia de Missão, Temas e Debates, 2021): as respostas para o desenvolvimento “dependem da organização da economia, mais do que da mera quantidade de dinheiro gasto para resolver os problemas. Dependem das estruturas concretas, da capacidade e dos tipos de parceria entre os setores público e privado. Exigem também uma visão para imaginar um mundo diferente”. É de cultura que falamos. Precisamos do entusiasmo pela ação, do autogoverno baseado no valor ético da liberdade, do valor mobilizador do bem comum, da inovação baseada na experiência, do cuidado e do serviço público de qualidade, sem o que nos faltará o que Saint-Exupéry designava como a aprendizagem pela ânsia da imensidão infinita do mar.        

 

Guilherme d'Oliveira Martins
Oiça aqui as minhas sugestões – Ensaio Geral, Rádio Renascença

A VIDA DOS LIVROS

  

De 16 a 22 de maio de 2022.


“Saramago – Os Seus Nomes – Um Álbum Biográfico” edição de Alejandro Garcia Schnetzer e Ricardo Viel (Porto Editora, 2022) reconstitui no ano do centenário o percurso do romancista, a partir das referências fundamentais.


DÁ VONTADE DE PERGUNTAR: PORQUÊ? 
“Da história de Portugal sempre nos dá vontade de perguntar: porquê? Da cultura portuguesa: para quê? De Portugal, ele próprio, para quando? Ou: até quando? Se estas interrogações não são gratuitas, se, pelo contrário, exprimem, como creio, um sentimento de perplexidade nacional, então os nossos problemas são muito sérios”. Na obra de Saramago não há indiferença perante qualquer destes temas. Para todas as interrogações o escritor procura pistas. E assim a sua obra corresponde a um percurso cultural e humano que merece, na sua complexidade, atenção, sobretudo pela diversidade criadora que pressupõe um constante enriquecimento da cultura, da literatura e da língua. Quando o escritor salienta que Almeida Garrett em “Viagens na Minha Terra” e Almada Negreiros em “Nome de Guerra” constituem casos especiais na inovação e renovação da língua portuguesa, que enriqueceram o que encontramos nas várias culturas e línguas que, a partir do português, se difundiram e difundem no mundo global, permite-nos ler a sua obra multifacetada à luz de uma preocupação emancipadora, em ligação à língua e à sociedade como realidades vivas. Saramago chega mesmo no “Ano da Morte” a lamentar que Alberto Caeiro não tenha vivido o suficiente para conhecer o contributo extraordinário de Almada Negreiros. Aliás, a “Viagem a Portugal” é um modo atual e necessário de ver o País, a partir da realidade das gentes concretas, do país profundo, na senda de Garrett e de Raul Proença. E na obra de Saramago está também um complemento, com naturalidade e originalidade, da obra do romancista, de “Levantado do Chão”, de “Memorial do Convento” ou de “O Ano da Morte de Ricardo Reis”.  E se a sombra de Garrett e de Almada está bem presente, o certo é que há uma evolução, que permite compreender Portugal como realidade em confronto permanente entre o presente e o passado. 


LIBERTAÇÃO DA LITERATURA
E assim a literatura liberta-se. Como? Colocando-se do lado da vida e assumindo a incerteza histórica, mais do que qualquer cânon ou receita. O sucesso da obra de José Saramago não se deve, assim, a uma predisposição previsível, mas a uma exigente procura de algo que possa mobilizar o leitor, não pelo que seria esperável, mas como demanda e descoberta da própria humanidade de um povo heterogéneo, mas com raízes unificadoras. Nesse ponto encontramos a cultura, como Cícero lhe chamou “humanitas”, como algo que define a essência da vida. Assim a libertação da literatura não é separação da realidade, mas compreensão do ato criador, que não pode ceder à repetição ou à previsibilidade, porque a vida se contrapõe a essa ideia. Lembre-se o que Saramago diz de “Levantado do Chão”. “Era uma questão que eu tinha que resolver e que tinha que ver com a minha própria vida, com o lugar onde nasci, eu não nasci no Alentejo, mutatis mutandis, a história é a mesma. Assim como se eu tivesse que agarrar aquela gente, que foram os meus avós, os meus pais, os meus tios, essa gente toda, analfabetos e ignorantes, e tivesse que escrever um livro”.  E nesse “agarrar” da gente”, encontramos uma dupla aceção: compreender a realidade descrita e mobilizar os leitores para acompanharem a narrativa, como uma relação biunívoca. Também a criança que ouve uma história vive as peripécias da mesma e sente-se ao mesmo tempo como protagonista e destinatária.  É o tecido humano que importa, ou seja, o movimento que mobiliza a um tempo a atenção e a iniciativa. Há, pois, na obra de Saramago, uma persistente procura da heterogeneidade da existência: pensamento e ação, vontade e inércia. E assim a obra vai sofrendo alterações no texto e no contexto, na tónica e na temática. “Mafra é um pouco como as nossas pirâmides do Egito. Andaram a trabalhar nas suas obras 400 mil pessoas. Como é que uma massa de gente construiu uma massa como esta?”. A emancipação humana liga-se à emancipação da cultura. E se Almada Negreiros e Fernando Pessoa acompanham a viagem terminal de Ricardo Reis, é o Padre António Vieira, e os ecos do pregador barroco, que acompanham Baltazar Sete-Sóis e Blimunda Sete-Luas, apesar da distância temporal. E a capacidade de adivinhar e de ver por dentro é, no fundo, a invocação da tarefa do escritor de poder ver para além de todas as aparências. E a dureza da existência e da exploração humana, ao longo de milénios, encontra na exigência do sonho o caminho para encontrar novos modos de nos compreendermos.


UM CAMINHO COMPLEXO
E José Saramago, o neorrealista dos começos, evolui naturalmente no sentido do recurso a elementos que abrangem a realidade e o mistério, além do encontro com a vontade de emancipação, como se queira entendê-la. A escolha de Ricardo Reis, em “O Ano da Morte” é, assim, justificada “por ele ser o contrário de mim”; “escolhi-o por isso, para falar dele e para falar de mim. São dialéticas contrárias”, diz o autor. A ficção obriga, de facto, a que a realidade seja desconstruída, para melhor ser descrita nas suas contradições. E Marcenda e Lídia constituem um permanente confronto. A dúvida sobre a escolha fica em suspenso. E não podemos esquecer a muito inesperada aparição de um “humano” cão das lágrimas em “Ensaio sobre a Cegueira”, símbolo de fidelidade e de compreensão, ou de Salomão, o elefante. Os símbolos são fundamentais explicações. “Não é impossível que, ao menos uma vez, apareça um elefante, e que esse elefante traga sobre os ombros um cornaca chamado subhro, nome que significa branco, palavra esta totalmente desajustada em relação à figura que, à vista do rei de Portugal e do seu secretário de estado se apresentou no cercado de belém”. Há, pois, uma preocupação do escritor na procura de uma melhor compreensão da realidade que o cerca, quer através da interrogação das raízes próprias, quer em referências humanas ou históricas, numa dupla abordagem da emancipação, como exigência pessoal e responsabilidade da humanidade, literária e cultural. “No fundo, a coisa é muito simples: eu posso criticar Portugal, mas há uma pergunta. E quem seria eu se não tivesse nascido neste lugar do mundo?” E na interrogação essencial sobre quem somos, como portugueses, Saramago pergunta: “Como explicar esta dormência, que é também ‘inquietude’, sem cair em destrutivos negativismos? Como evitar que a ‘antiga e gloriosa história’ continue a servir de derradeira e estéril compensação de todas as nossas frustrações?” Longe do conformismo, o que encontramos é uma constante insistência na exigência de recusar o fatalismo. “Como resistir à tentação falaz de sobrevalorizar o que há anos se acreditou ser “uma certa renovação cultural”, fazendo dela um álibi ou uma cortina de fumo. Ou chegámos já tão baixo, que, depois de termos desistido de explicar-nos, nem nos damos ao trabalho de justificar-nos”. A recusa de destrutivos negativismos, de uma antiga e gloriosa história ou de uma estéril compensação das nossas frustrações significará a confirmação do que Eduardo Lourenço designa como a aceitação de quem somos - imperfeitos, nem melhores nem piores do que os outros, postos perante as responsabilidades de corresponder aos desafios presentes e não a ilusões mirificas. Mais do que cair em sonhos providenciais, trata-se de entender que o velho Alexandre Herculano considerava ser o querer a verdadeira explicação da nossa existência coletiva. Na epígrafe de “O Ano da Morte”, está uma citação do próprio Ricardo Reis: “Sábio é o que se contenta com o espetáculo do mundo”. É o confronto que anima o romancista, porque há uma contradição entre a vontade de agir e necessidade de seguir os acontecimentos. Mas Fernando Pessoa está noutra dimensão, do sonho e da indiferença. A ideia de emancipação é mista – emancipando-nos, desejamos libertar-nos do que nos limita e constrange, e participar de um anseio comum, a que não podemos ser indiferentes. Tal como Blimunda, ansiamos por compreender para além das aparências, ver com outros olhos. O espetáculo do mundo faz-nos embrenhar-nos em mil enigmas, sabendo que não podemos desvendá-los como desejaríamos. Apenas podemos demandar novas perguntas. “Exatamente, meu caro Reis, vida e morte é tudo um, Você já disse hoje três coisas diferentes, que não há morte, que há morte, agora diz-me que morte e vida são o mesmo, Não tinha outra maneira de resolver a contradição que as duas primeiras afirmações representavam, e dizendo isto Fernando Pessoa teve um sorriso sábio, é o mínimo que deste sorriso se poderia dizer, se tivermos em conta a gravidade e a importância do diálogo”. Ver melhor significa, no fundo, recusar a tentação de uma racionalidade sem contradições. 

 
Guilherme d'Oliveira Martins
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A VIDA DOS LIVROS

  

De 9 a 15 de maio de 2022.


“Fomos em Busca do Japão” (Verbo, 2015) de Camilo Martins de Oliveira, com fotografias de José de Guimarães é um livro fascinante que não permite que esqueçamos o seu autor e a sua viagem.


NO RASTO DE HERÓIS
Quando soube que o meu amigo Camilo Martins de Oliveira (1942-2022) tinha partido, veio-me à lembrança, imagem por imagem, a maravilhosa viagem que em 2010 fizemos ao Japão, sob a sua coordenação, acompanhados de José Tolentino Mendonça e de José de Guimarães.  E fui reler o pequeno livro que escreveu, cheio de boas recordações, Fomos em Busca do Japão. Partimos no rasto de Fernão Mendes Pinto, de Francisco Xavier e de Wenceslau de Moraes e ainda hoje sentimos o peso de um conhecimento ancestral, já que os portugueses foram os primeiros europeus a ter contacto com o Japão, quando em 1543 três naufragaram em Tanegashima e deram a conhecer a primeira arma de fogo. Conheci Camilo Martins de Oliveira, ao longo de quase cinquenta anos, como bom amigo e exemplar diplomata no campo económico. A primeira vez que nos encontrámos foi em Bruxelas e com ele comecei a percorrer os corredores comunitários. O seu currículo já merecia atenção. Como católico inconformista, foi em 1965 um dos subscritores do Documento dos 101 contra a ditadura. Na Morais e em “O Tempo e o Modo” traduziu e publicou Teilhard de Chardin. Depois de ter estado na Guiné como alferes, veio trabalhar em 1969 com Rogério Martins, então Secretário de Estado da Indústria, tendo tido papel relevante no fim do condicionamento industrial e do protecionismo. Depois seguiu-se um percurso notável no exterior: como delegado na OCDE, diretor da Missão Comercial em Bruxelas, perito em Missões das Nações Unidas, representante económico nos Estados Unidos e depois em Tóquio (1987-2001), com funções no Japão, Coreia do Sul e Nova Zelândia, sendo ainda Comissário Geral de Portugal na Exposição Universal de Aichi (Japão). Era um conversador extraordinário; num serão, começávamos por falar da história de um biombo Namban, continuávamos na reflexão sobre a arte contemporânea, muitas vezes com a presença discreta, mas agradabilíssima, do irmão Gaëtan Martins de Oliveira, e terminávamos discreteando sobre a economia, a política internacional, a integração europeia, e ainda história ou filosofia, tantas vezes em diálogo com António Sousa Franco, grande amigo comum. Além do mais, era um leitor insaciável, imbatível no conhecimento da última novidade literária.


VIAGEM FANTÁSTICA
E volto à lembrança dessa viagem fantástica. Quando chegámos a Quioto sentimos a tradição japonesa, como sinal de um povo antigo, sereno, amável e hospitaleiro. No bairro de Gion, que conhecíamos das narrativas e descrições romanescas, testemunhámos o desenho tradicional de uma antiga cidade nipónica. O movimento é intenso, os edifícios baixos e pequenos, em madeira, bem ordenados, assinalados com balões coloridos de papel iluminado e vemos geishas em trajes de função. As ruas são estreitas e limpas, a ordem e a organização imperam. A cada passo, as pessoas saúdam-nos com vénias, ora para nos convidarem a entrar, ora para nos agradecerem se lhes demos primazia no burburinho dos passeios. Era no Outono, uma das estações privilegiadas do Japão, e havia uma especial alegria e jovialidade no ar, mesmo que a noite já tivesse caído. Não havia humidade e a temperatura rondava os 12 graus. Ao passar pela zona dos teatros, recordamos a importância do Kabuki e a sua evolução. No restaurante Nishisaka, usufruímos a refeição de um delicioso shabu shabu, pequenas fatias de carne de vaca cozidas por nós em água a ferver, que Camilo Martins de Oliveira nos aconselhou, com aplauso geral. As árvores que rodeiam a cidade no Outono têm as folhas vermelhas ou amarelas. Wenceslau de Morais (1854-1929), cujos textos nos acompanham, lembra que «as espécies europeias não oferecem igual maravilha em colorido». Sentimos entusiasmo ao ver as grandes massas desta folhagem belíssima do “moimiji”. O Pavilhão de Prata, o Ginkaku-ji, literalmente apagava-se diante da natureza outonal pujante. Era a memória do xógum Yoshimasa, no século XIV, que estava presente, a partir da recordação de seu avô Yoshimitsu, que num gesto de suprema audácia, cobriu de folha de ouro o Pavilhão Dourado, o surpreendente Kinkaku-ji, celebrado por Mishima… O importante foi o enaltecer da natureza em toda a sua intensidade. O momiji tudo domina, parecendo dizer que a natureza culta, domada pelo ser humano, é dominada pelas folhas escarlate, como se fossem flores. Deambulamos pelas veredas do jardim, contamos as suas pedras, deslumbramo-nos com os musgos tratados, com as águas, com os lagos, com os jardins secos, com o saibro riscado ou a terra cuidadosamente penteada, a representar o mundo.


CAMINHO DOS FILÓSOFOS
Seguimos pelo caminho dos filósofos ou via dos mestres. Um canal ladeado de cerejeiras segue sinuoso pelo sopé das Montanhas Orientais e há muita gente que caminha, gozando a natureza, conversando, lendo ou simplesmente indo ao templo zen de Nanzen-ji. E recordamos Nishida Kitaro (1870-1945), professor da universidade de Quioto, que tornou este lugar obrigatório para a compreensão da cultura japonesa. Os tons vermelhos e amarelos das folhas do Outono inebriam-nos, o sol e o dia ameno contribuem para o nosso deleite. E com que esmero Camilo nos indicava todos os pormenores. Em Nanzen-ji aprendemos a lição «sê mestre da tua mente». A colossal Sanmon à entrada do recinto do templo demonstra estarmos num lugar essencial da cultura zen. O portão descomunal não tem um prego, foi erguido no século XVII apenas com encaixes que põem à prova a habilidade e a inteligência humanas. Tudo para consolar as almas dos que morreram no cerco do Castelo de Osaka. Nos aposentos do Abade do Convento deparamos com o célebre “Tigre a beber água”, obra-prima da pintura japonesa do século XVII de Tamyu Kano, além de uma intervenção de Kobori Enshu, com seixos e pinheiros num impressionante jardim seco. Na relação do tempo e do universo, sentimos o equilíbrio entre a arte e a natureza, nos jardins, nos seixos, nas representações, mas especialmente na cerimónia do chá, no templo de Kodai-ji. Tudo exige o domínio do corpo e o respeito, da tranquilidade, da pureza e da harmonia e a cerimónia do chá é um gesto litúrgico, como ficou demonstrado por Wenceslau de Moraes no clássico “O Culto Chá”. E Camilo Martins de Oliveira levou-nos para além da imaginação até ao âmago do encontro entre culturas e afetos, com as belas fotografias de José de Guimarães. Tratou-se de uma peregrinação que correspondeu a um desafio, para que conhecêssemos melhor o Japão…   E ficou a lembrança viva de que “para o japonês, o que se procura, o que determina a entrega à contemplação, é o que não se vê. Olhar ou escutar – assistir a um concerto no Japão - é perceber como o silêncio é participante – torna-se, assim, mais do que um exercício de sentidos, uma extensão da alma. E é esse olhar ou escuta da alma que traz a obra de arte – cheia do mundo invisível e inaudível para o convívio quotidiano”.


Guilherme d'Oliveira Martins
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A VIDA DOS LIVROS

  

De 2 a 8 de maio de 2022.

 

“Tia Suzana, Meu Amor” de António Alçada Baptista (Presença, 1989) mostra-nos como o mundo e a vida se caracterizam e desenvolvem através dos sentimentos e dos afetos e que a compreensão do sentido obriga-nos a entender o mistério do amor.


AMOR, SERENIDADE E PAZ
René Dubos disse um dia que "as descobertas que condicionarão o futuro não hão de vir do conhecimento do que se passa na célula, na bioquímica, na ciência ou na técnica, mas daquilo que nos ajude a compreender os mecanismos centrais que condicionam a afetividade". O amor, a serenidade e a paz têm de ser cultivados. Mas como integrar tudo isso nas nossas relações para que "a violência, a astúcia e a agressividade não sejam moeda de troca das relações humanas"? O valor dos afetos permite a passagem lenta e segura da natureza à cultura… E no entanto, perante o cenário de guerra, de incerteza e de violência, que nos rodeia, somos levados a descrer. Eis, por que razão Edgar Morin apela, do alto de um século de vida, para que acordemos da terrível letargia que corrompe o mundo e a vida. "Repara que o Evangelho não nos manda amar a humanidade, mas o próximo. E isto porque a humanidade é uma abstração" - disse Lanza del Vasto, um dia, a António Alçada Batista. E o certo é que de tanto se falar de crise, quase nos esquecemos do que devemos fazer para compreender quem está connosco e da necessidade de combater a indiferença. Mais importante do que os tratados de edificação moral é a vida prática e os exemplos colhidos nela, o saber de experiências feito. O anti-herói Fernão Mendes Pinto e as suas mil peripécias, voluntárias e involuntárias revelam muito melhor o inesperado sentido da vida do que a tentação de nos levarmos demasiado a sério. O Quincas Berro d'Água de Jorge Amado, apesar de parecer aos nossos olhos de europeus um caso de compaixão, desperta-nos para a esperança e para o gosto de viver. E a poesia de Alexandre O'Neill dá-nos o outro lado da realidade, com ironia e non sense, em nome da busca muito séria de sentido - "é tempo de unir o mesmo gesto/ o real e o sonho…/É tempo de acordar nas trevas do real/ na desolada promessa/ do dia verdadeiro".


LEMBRAR UM MUNDO DE AVENTURAS
António Alçada Baptista recordava, tantas vezes, a lembrança das aventuras de Sandokan ou de Texas Jack, porque é bom que tenhamos a cabeça povoada de imaginárias aventuras, as mesmas que nos levam a compreender e a amar intensamente as pessoas. Por isso, costumava dizer: "tenho a certeza que Kierkegaard não teria escrito “O Desespero Humano” se tivesse nascido na Bahia, nem o Jorge Amado o Quincas Berro d'Água se fosse dinamarquês". E Eduardo Lourenço diz que "é para trazer à luz, mostrar aos outros, e a si mesmo, o que ainda não era visível, palpável, audível, que a obra nasce" (“O Tempo e o Modo”, n.º6, Junho 1963). Eis a chave da cultura como criação e da compreensão dos sinais dos tempos, em nome do respeito da dignidade humana. Devemos remar contra a maré. Esse o sentido da obrigação de compreender e conhecer o mundo e a vida. Segundo um cuidado saber náutico, António Alçada sempre achou que se todos se juntam a bombordo ou a estibordo, a embarcação naufraga. É sempre indispensável que alguém fique do outro lado, mesmo que as incompreensões continuem. Assim como assim… Por isso, tantas vezes foi incompreendido. E a verdade é que só deixaremos de ser sonâmbulos (na expressão de Broch) se nos dispusermos a fazer da liberdade e do bem comum os indicadores estáveis das nossas bússolas. Assim, o autor da “Peregrinação Interior”, em vez dos banquetes de sabedoria pura, contrapunha o diálogo dos afetos, com elevação e inteligência, seguindo a lição de Denis de Rougemont. Afinal, é de sabedoria que se trata. Por isso, invocava Borges: "Creo que un dia mereceremos que no haya gobiernos". E insistia: precisamos de o merecer. E oiçamos a romanesca tia Suzana: "Julgo que o mais importante são as palavras. Quando se vive a solidão, sabe-se que, por causa duma palavra verdadeira, caem muitas vezes as muralhas que levantámos à volta das nossas almas. Uma palavra verdadeira pode ser um milagre: é a solidão derrotada". Apesar das suas depressões cíclicas, a verdade é que foi sempre a busca das palavras (e das pessoas que as proferem e que buscam nelas sentido) que ocupou António Alçada, para nos levar à compreensão do tempo e do mundo. Como nos disse, temos de ter o cuidado de compreender que “a verdadeira relação com Deus – como Deus é um ser superior, e os que se dedicam a isso, seres superiores”, não pode limitar-se às ideias, aos silogismos, às lógicas, às abstrações, porque uma teologia abstrata é uma idolatria.


COMPREENDER A CULTURA
Compreender a cultura? Mas não é a cultura a capacidade de melhor entender a humanidade? Eis que temos de ser claros! Edgar Morin volta a apontar-nos o caminho: «Só podemos pensar o futuro, se estivermos conscientes do passado e do que se passa no presente. (…) E hoje o futuro depende dessas grandes correntes que atravessam a Humanidade e que são ameaçadoras e regressivas. Portanto, é urgente pensar o futuro. (…) É preciso estar vigilante. É preciso esperar o inesperado   para saber navegar na incerteza. Há toda uma série de reformas e modos de pensar e de se comportar, que são hoje necessários». Uma celebração, qualquer que seja, centrada apenas no passado torna-se vazia e inútil. Compreender a cultura é procurar perceber o tempo e o futuro, mas sobretudo entender que, longe das idolatrias, devemos cuidar da dignidade do ser.

 

Guilherme d'Oliveira Martins
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A VIDA DOS LIVROS

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   De 25 de abril a 1 de maio de 2022

 

“Padre António Vieira – a arquitetónica do Quinto Império e a carta Esperanças de Portugal - 1659” da autoria de Miguel Real é um pequeno ensaio pleno de interesse, que revela uma faceta menos conhecida do grande orador sagrado.

 

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UMA PRESENÇA INESPERADA

Regressei há dias aos Países Baixos, numa visita familiar, adiada há mais de dois anos pela pandemia. Apesar das previsões meteorológicas anunciarem mau tempo e a proximidade de uma frente polar, houve boas condições, que permitiram um belo regresso. E aproveitei para seguir as pisadas do Padre António Vieira nas célebres viagens diplomáticas, em representação do rei D. João IV. E deparei-me com a presença inesperada de Menasseh ben Israel (1604-1657) nesta peregrinação, ao encontro dos judeus portugueses.  Em 20 de abril de 1646, Vieira chegou a Haia, vindo de Rouen, com duas missões: discutir o futuro de Pernambuco, na posse dos holandeses, e contactar os sefarditas portugueses sobre a possibilidade de regressarem a Portugal num momento decisivo em que os meios financeiros faltavam, com o Tesouro exaurido por sessenta anos de monarquia dual com a Espanha. O jesuíta conhecia bem o estado de espírito dos judeus portugueses – tinham uma boa lembrança da pátria antiga, mas desejavam, no essencial, liberdade de consciência e garantias de segurança, que a Inquisição não dava. Sem provas documentais, sabemos que o Padre Vieira se encontrou com Menasseh ben Israel, cuja pessoa admirava, partilhando muitas das suas convicções. Tal como pensavam os conselheiros económicos do rei, defensores do que designamos como política de fixação, que obrigava a investimentos mercantilistas, era indispensável atrair capitais e mobilizar iniciativas para reconstruir uma economia empobrecida. O facto de os capitais ligados ao comércio das Índias Orientais e Ocidentais estarem nas mãos de judeus e cristãos-novos constituía um motivo para que a diligência defendida pelo diplomata jesuíta representasse uma oportunidade que teria de ser aproveitada. Daí a importância do diálogo com a comunidade judaica com a preciosa ajuda de um líder religioso e civil de indiscutível prestígio.

 

MENASSEH BEN ISRAEL

Explique-se que Menasseh ben Israel nasceu na Madeira, filho de Gaspar Rodrigues Nunes, sendo-lhe dado o nome de Manuel Dias Soeiro. O pai, acusado de práticas judaizantes, teve de partir para a Holanda em 1613 e tomou o nome de Joseph ben Israel, dando a seus filhos os nomes de Ephraim e de Menasseh. Em 1622, encontramos Menasseh como pregador da comunidade, no ano seguinte casado com Raquel Abarbanel, de uma família importante. Em 1626, funda a primeira tipografia de caracteres hebraicos, onde publica obras em hebraico, latim, espanhol e português. Corresponde-se com Rembrandt van Rijn (que o retrata) e com Hugo Grócio, sendo figura muito respeitada. Semuel ben Israel Soeiro, o filho, prosseguirá a intensa atividade editorial paterna. Em 1651, Menasseh tentará estabelecer pontes com as ilhas britânicas, mantendo contactos com Cromwell, num primeiro momento com resistências, apesar de uma predisposição positiva por parte da fugaz República britânica. Em 1656 é inaugurada a Sinagoga de King Street e é decidida a construção do hospital de Mile Ende, iniciando-se um grande crescimento da comunidade judaica, sobretudo a partir do reinado de Carlos II, marido de D. Catarina de Bragança. Menasseh está em Londres entre 1655 e 1657, regressando aos Países Baixos em 1657. Morre em Midleburgo em novembro e está sepultado no cemitério judeu de Beit Haym, que conheço bem, e que fica em Ouderkerk no Amstel, nos arredores de Amesterdão. Diga-se que o rabino Menasseh ben Israel não estava em Amesterdão quando Saul Levi Morteira assinou a condenação de Bento Espinosa, e diz a tradição que se Israel tivesse intervindo tal decisão não teria sido tomada.

 

UM DIPLOMATA ESPECIAL

O Padre António Vieira ficaria nos Países Baixos durante três meses, voltando a Haia a 17 de dezembro de 1647. A missão de Vieira era complexa, desde o casamento de D. Teodósio, filho de D. João IV, alvo de uma grande pressão diplomática da parte de Mazarino, no sentido de reforço da influência francesa, até ao destino de Pernambuco, mas sobretudo na tentativa de mobilizar recursos para a reconstrução do País – abrindo as portas do comércio marítimo com os territórios africanos e americano aos judeus portugueses da Holanda. Se é certo que os resultados práticos não foram efetivos, é fundamental o que António José Saraiva descobriu, na sua estada holandesa. Não foi apenas o dinheiro dos judeus que interessou António Vieira, mas a aproximação das teses judaicas. Assim considerou os judeus, a “gente da nação”, um povo laborioso, enriquecedor das comunidades em que se inseriu, em nada podendo perverter os costumes tradicionais da Igreja Católica. E como está bastamente demonstrado na reflexão e na oratória, se o capital mercantil dos judeus lhe importou, com resultados práticos, houve igualmente uma preocupação de justificar a aproximação às ideias positivas que poderiam colher-se no pensamento judaico. Daí o sucesso na negociação dos empréstimos para a coroa portuguesa com Duarte Silva, cristão-novo de Lisboa, que abriu caminho aos créditos obtidos em Haia e Amesterdão. E a proposta de solução económica para o reino, enviada a D. João IV em 1643, consagra a necessidade de convergência entre judeus e cristãos, “que esperarão juntos e harmonizados o fim dos tempos sob um mesmo Império temporal e um só Império espiritual de Cristo”. Estamos perante a revelação lenta e gradual do pensamento profético do Padre António Vieira no sentido que virá ser defendido na “Chave dos Profetas”. E é com Menasseh ben Israel, em Amesterdão, que o jesuíta encontrará os fundamentos da complexa ideia de “Quinto Império do Mundo”, baseada no livro de Daniel. Como diz Miguel Real, “o sentido que o Padre Vieira encontrara em Amesterdão fora o sentido total da história e do mundo concentrado num único ano, 1666, e numa única teoria englobalizadora, o Quinto Império do Mundo ou o Reino de Cristo Consumado” (in “Padre António Vieira – a arquitetónica do Quinto Império e a carta Esperanças de Portugal - 1659” – “Revista Lusófona de Ciência das Religiões”, 2008). E, de modo pioneiro, António José Saraiva, em 1972, nos “Studia Rosenthaliana” destacou as semelhanças entre o espírito profético de M. ben Israel e do Padre Vieira, que Hernâni Cidade enfatiza em “Vieira à Luz de um Recente Estudo de António José Saraiva”, in “Colóquio-Letras”, F.C. Gulbenkian, março de 1973. Saraiva salienta o facto de em 1644, nos planaltos da Colômbia, ter sido descoberta uma das tribos desaparecidas de Israel, de Ruben, segundo o pensamento profético judaico, referido por Bandarra; bem como o facto de Vieira ter concluído que a doutrina cristã, de índole eminentemente espiritual, não excluir a doutrina judaica sobre um Messias de ordem eminentemente temporal. De facto, é no regresso de Amesterdão que Vieira inicia a escrita, nunca acabada, da “História do Futuro” (1649), e em 1659 a carta “Esperanças de Portugal, Quinto Império do Mundo”, pela qual será processado pela Inquisição (a partir de 1663), explicitará a síntese obtida, segundo a qual o “Quinto Império localizar-se-ia na Terra, na totalidade geográfica da Terra, e não no Céu”, mercê da convergência de vontades de um Imperador espiritual e de um Imperador temporal, no sentido da criação de um estado de justiça e santidade, de paz universal e de sobriedade. Amesterdão lembra tudo isso.

 

Guilherme d'Oliveira Martins

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A VIDA DOS LIVROS

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   De 18 a 24 de abril de 2022

 

“Vírus” de André Ruivo (2022) com prefácio de João Pinharanda, é uma leitura ou aventura gráfica dos tempos a que fomos condenados por esta nova peste designada como COVID-19, ou mais simplesmente como Corona-Vírus.

 

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UMA TRADIÇÃO NACIONAL

Comecemos pelo princípio. O livro de hoje é uma crónica gráfica. «A tradição nacional desta linha de fino humor é forte – vem de Bordalo a Carlos Botelho, de Sam a Luís Afonso, por exemplo. No caso de André Ruivo (como no de Bordalo) o leve desvio / deslocação do ponto de vista que provoca a situação humorística não é apenas detetável no discurso escrito mas é também visualmente acentuado pelas perspetivas urbanas, as vistas de janela, as distorções anatómicas». Quem o diz é João Pinharanda, compreendendo que, mais de dois anos depois do início da pandemia, e quando a espada de Dâmocles continua sobre a nossa cabeça, é necessário iniciarmos a tarefa de tirar conclusões sobre um estranho tempo em que nos vimos envolvidos e que, por certo, voltará a repetir-se. Estamos longe de estar libertos de confinamentos, quarentenas, distâncias, máscaras etc. No fundo, fomos nós que desarranjámos a máquina do mundo. A capa do livro é bastante clara, ao pôr-nos perante um rosto velado que esconde o seu sorriso, ou será riso ou será agastamento e raiva? É estranho que não venhamos apresentar o essencial deste livro com episódios caricatos sem o desenho inicial de uma boca a sorrir-se. Afinal, quando lemos o velho “Album das Glórias”, lá encontrámos Rialto, Ribaixo, Ripouco… Aqui, nem muito nem pouco, nem assim-assim, apenas um boneco enigmático, sem sombra de riso, tapado por uma máscara. Tão só um olhar espantado, e tudo o mais nos vai intrigar, quando começamos a folhear o livro.

 

O QUE AINDA FALTA

«Falta talvez um desenho nesta série. E poderia ser mais um auto-retrato, onde se visse o autor injetando grandes doses de humor através das finas agulhas dos seus desenhos. Na realidade cada desenho deste livro é uma dessas doses. A toma não é intravenosa mas ocular. As doses administradas pelo artista parecem homeopáticas, tal é a leveza de cada cartoon, mas cada um deles é um poderoso projétil lançado pelo farmacêutico Ruivo, que é cientista sem diploma, e que não usa as pessoas como cobaias mas como amostras do tecido social, como casos de estudo». É ainda João Pinharanda, o crítico contaminado (pelo vírus ou pelo humor?), quem insiste na caracterização deste contributo vacinal, uma vez que ao vermo-nos tantas vezes ao espelho nesta reunião de comentários ilustrados percebemos que o nosso lado picaresco é dos mais importantes que devemos cultivar. Carlos Botelho dava os seus “Ecos da Semana” com leituras quotidianas desenhadas de estórias que todos os dias a cidade protagoniza. Leitão de Barros fazia, assim, os seus “Corvos”. E em cada apontamento, em cada desenho, encontramos oportunidade para muitas lembranças e para uma dose apreciável de paciência e de sentido de ridículo, que tantas vezes esquecemos, por nos levarmos demasiado a sério. Démos vários exemplos, clássicos e para levar muito a sério, mas o mais importante é compreendermos que o quotidiano dá-nos mil oportunidades para fazermos da realidade uma verdadeira oportunidade para nos desmancharmos a rir. Poderíamos ainda lembrar Stuart de Carvalhais, Almada Negreiros, Emmérico Nunes, Francisco Valença, António Antunes, João Fazenda… Mas atenhamo-nos a este livro e aos seus episódios. Nós, os leitores, somos contaminados gostosamente com este vírus, que André Ruivo nos transmite, por transmissão ou como vacina com várias doses de reforço. E, ao mesmo tempo, não só contraímos este vírus, certamente benigno, mas também ganhamos o saudável sentido de nos sentirmos desprotegidos e ridículos, cientes de que este humor funciona como verdadeiro anti-corpo, homenagem ao Dr. Jenner e à sua fantástica capacidade de compreender como uma pobre vaca (com as mulheres que a ordenhavam) se tornou salvadora de muitas vidas pela inoculação vacinal do vírus. Também André Ruivo desejou. A janela permitia fazer amigos. E dentro de casa, todos fomos percebendo, que não foi apenas a família que foi confinada, mas também uma grande Arca de Noé de pequenos bichos, como baratas e percevejos, pulgas e tudo o imaginável, que povoam os cantos das nossas casas e de que tardiamente nos apercemos. Eis um dos efeitos do confinamento. Liberdade para respirar o ar da cidade, para transportar os alimentos, para sair a passear o animal de companhia, percebendo que nós é que somos a sua companhia, e que a bicharada torna-se pretexto para podermos pôr um pé na rua. O nariz de fora merece especial atenção, pois de nada serve. É como trazer a máscara na barba. É um adereço inútil. E os milhares de especialistas merecem atenção, não pelo que nada dizem, mas por terem aparecido como gafanhotos com estantes psicadélicas nas suas costas. Alguém pergunta policialmente: “E o senhor que faz na rua?” – Eu? Deve ser confusão… - Hoje fui à Rua! Foi cá uma emoção! – “Não se fechem demasiado”. “Que dia é hoje?” – Estou completamente perdido. “E o que é abraçarmo-nos a nós próprios?” – Mas quem mete medo ao vírus? E o Doutor pergunta: Onde lhe dói? – “Nas orelhas Senhor Doutor”. E que máscara usa? A do Carnaval ou a do vírus? Mas o Carnaval já passou há muito. Os diálogos sucedem-se, cada um mais estranho do que outro… E as estatísticas falsas e as datas verdadeiras misturam-se como dados imaginários. Qual a diferença entre teletrabalho e televida? Ou será vice-versa? André Ruivo explica exaustivamente.

Guilherme d'Oliveira Martins
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A VIDA DOS LIVROS

  

De 11 a 17 de abril de 2022.


«Os Poemas» de Gastão Cruz (Assírio & Alvim) põe-nos em contacto com um dos grandes poetas contemporâneos de língua portuguesa.

 

 

“Palavras não existem / fora da nossa voz as / palavras não assistem / palavras somos nós”
Gastão Cruz, A Doença, 1963.


Um poeta que nos deixa, e ficamos mais sós no mundo. Há um poema de Gastão Cruz a que gosto sempre de regressar, uma vez que me recorda o Algarve que sempre conheci, de minha mãe e de meus avós, e de tantos amigos, muitos que já partiram. Quando percorro as ruas de Faro, não só lembro a “Gente Singular” de Manuel Teixeira Gomes, mas também, há muitos, muitos anos, o meu avô a dizer-me que ali encontrava o poeta Cândido Guerreiro. O título, “Faro, 1952”, tem a marca do ano em que nasci, mas lembra-me recordações de que ouvi falar ou que presenciei, ao longo dos tempos. Quando homenageámos em Querença Gastão Cruz no FLIQ, essas mesmas palavras soaram com especial intensidade e brilho: “O café, do outro lado a livraria / essa a meta / da tarde / quando esfria a pele / sem que / frio fique o dia, / as linguagens regressam às cúpulas / de folhas / e os treze noturnos ainda nos esperam…”. Quantas lembranças? E por isso este poema ainda ganha para mim maior sentido, já que é essa memória que aqui se recorda. “… Percorremos a rua / até onde entra nela a aragem da ria / e o café dum lado, do / outro a livraria, / à porta o chapéu largo e a barba / branca / dum poeta do passado”… Assim se ilustra bem a afirmação de Gastão Cruz sobre ser “poeta do real”, singularíssimo, na boa companhia de outros poetas como Sophia, Sena, Ruy Belo, Fiama Hasse Pais Brandão, Armando Silva Carvalho, Fernando Assis Pacheco, Luiza Neto Jorge… De facto, cada um imprime na realidade que nos cerca uma marca especial de crítica e de confronto.


LEMBRAR A POESIA 61
Hoje podemos entender melhor a importância de “Poesia 61”. Não foi um cânone ou uma orientação, mas um encontro, em que houve uma procura de radicalidade por diversos caminhos. Luiza Neto Jorge disse ao “Diário de Lisboa”, em maio de 1961: “Parece-me que entre nós o surrealismo ainda terá razão de ser – como total destruição de cânones bafientos, como reação a um ambiente social rígido”. Sim, há rutura com um certo “discursivismo”, como disse Gastão. E se há prenúncios relativamente a essa atitude, temos de referir os casos de António Ramos Rosa, espécie de padrinho do grupo de 1961, em Faro, com “O tempo concreto” e “O boi da paciência” (em “O Grito Claro”) e do “Poema podendo servir de posfácio” de Mário Cesariny, que encerra “O discurso sobre a reabilitação do real quotidiano”. 1961 foi um ano especial. Os acontecimentos nacionais sofreram aceleração, em virtude da guerra de África. Nada seria como dantes. É verdade que 1958 tinha anunciado esse movimento uniformemente acelerado no sentido da democracia – a candidatura de Humberto Delgado, sob o impulso de António Sérgio, a tomada de posição do Bispo do Porto, o seu afastamento do país, mas também a publicação de “Mar Novo” de Sophia, como grito de alerta, perante a injusta e absurda desclassificação do projeto de João Andresen, Júlio Resende e Barata Feyo vencedor do concurso para homenagear o Infante e as Navegações, em Sagres. E muitos esquecem esse episódio fundamental. Lembro-me de ter sugerido a alguém que relesse o livro de Sophia de 1958, à luz desse impulso de uma genuína revolta. E o meu interlocutor não teve dúvidas. Se relermos a correspondência de Sophia com Jorge de Sena lá está tudo. Reuniram-se então os fatores que tornavam inexorável a liberdade. E era Sagres, e era o Algarve, e era a consciência da democracia que estavam em causa. E era a paisagem algarvia dominada pelo mar, que revelava a personalidade fantástica que domina o filme de João César Monteiro “Sophia de Mello Breyner Andresen” (1969). Frederico Lourenço tem razão quando afirma que é no Algarve que se inicia a Grécia de Sophia.


FORÇA DOS CORPOS E DO DESEJO
Quando lemos “A Morte Percutiva” de Gastão Cruz, ou quando encontramos Fiama, Luíza Neto Jorge, Maria Teresa Horta e Casimiro de Brito, nos textos de 1961, compreendemos o movimento comum, marcado pela energia resultante “do embate entre o corpo que aspira à sua plenitude e um país cercado, onde todos os movimentos são vigiados ou proibidos”. Percebe-se uma visão pessimista, a consciência de uma doença de repressão e de guerra, ligada a uma circunstância pessoal de luto. Contudo, subjacente a esse embate, a esperança tornava-se uma coisa física, como “força dos corpos e do desejo”. E Gastão Cruz em “A Doença” precisa: “A este sítio há de o amor / ainda amor chegar / agora vamos ambos / pelos campos à espera duma dor de que viver”. Eis por que razão o curso do tempo foi revelando nessa atitude não uma escolástica, mas o reconhecimento da coexistência de caminhos múltiplos. “Uma revolta de palavras, apelando a um novo discurso” (para Luíza Neto Jorge).


A LUZ AMADURECE AS PEDRAS E OS FIGOS
Volto a lembrar tudo, deambulo com o estio, ao som da música das cigarras e das palavras de Gastão Cruz (“Os Poemas”, Assírio e Alvim, 2009): “A luz amadurece as / pedras e os figos nos lados dos caminhos / adoça as alfarrobas fende a casca / cinzenta das / amêndoas e desprende-as / varejamos / as que ficam presas de leve / aos ramos; / no armazém da casa amontoadas / descascar as / amêndoas o verão”. Mas também lembro o ritmo antigo, junto de quem conheci e amei: “Na horta atrás da casa laranjeiras / figueiras e uma / romãzeira junto à nora / Às vezes vagarosa a mula com antolhos / rodava toda a tarde / fazendo os alcatruzes despejar / incessantemente água”. É quase perturbador como tudo se assemelha. Estou a ver tudo como se fosse agora. Este Mediterrâneo banhado pelo Atlântico leva-nos muito longe, aos fenícios e aos cartagineses, aos gregos e aos romanos, aos misteriosos povos da língua do Sudoeste. E vêm à lembrança Manuel Viegas Guerreiro, com especial atenção, às tradições e costumes, à memória imaterial, mas também Miguel Torga, sentado em Albufeira, num círculo de amigos, com o doutor Serra, a comentar a política, a gozar o fim da tarde e o luminoso pôr-do-Sol. Quando recordei com Clara Rocha esse tempo, reluziram-lhe os olhos com as recordações.


E volto a Gastão Cruz, a lembrar Sophia e Ruy Belo em “Repercussão” (2004) numa Esplanada do Campo Pequeno (“Não achas que a esplanada é uma pequena pátria a que fomos fiéis?”): “o autor entrara e a presença / dele tinha tornado mais longa a hesitação / entre o sentido e o som ou suprimira-a? / É pouco fotográfica a memória / sonora e uma noite em casa de Sophia / (Que fica dos teus passos dados e perdidos?) / mais do que cada frase, cada pausa / do voo do tempo fizera a suspensão / seria primavera novamente / era talvez em tempo de tormenta / janeiro de 70 mês de febre / um dia só que na memória sobra / (o resto vem do Ruy Belo / Ruy Belo é o poeta vivo que me interessa mais / e é talvez hoje o tempo de tormenta”. Quantas memórias neste regresso às ruas de Faro e ao rincão algarvio, povoados por velhos amigos? E assim ficamos mais sós. Mas as palavras acompanham-nos. 

 

Guilherme d'Oliveira Martins
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A VIDA DOS LIVROS

  

De 4 a 10 de abril de 2022.


“A Mais Breve História da Rússia, dos Eslavos a Putin” de José Milhazes (D. Quixote, 2022) é um importante documento no qual encontramos o essencial da história russa, o que nos permite compreender melhor os acontecimentos mais recentes, designadamente na Ucrânia.


UMA HISTÓRIA RICA E COMPLEXA
Ao falarmos da Ucrânia estamos perante um caso especialmente difícil, longe do que quer a narrativa de Putin, porque a história envolve um conjunto vasto de razões. Kiev está na origem da civilização russa. Segundo a tradição, no século VI, aí se reuniram treze tribos eslavas orientais voluntariosas e determinadas, que fizeram prosperar a região do Dniepre. Se o primeiro Estado russo nasceu em Novgorod, quando o príncipe Riurik, um normando, não eslavo, foi convidado a assumir o poder, foi o seu irmão Oleg que transferiu para Kiev a capital da Rus. Iniciaram-se então as relações com Bizâncio e geraram-se as raízes dos povos russo, ucraniano e bielorusso. Kiev tornou-se o coração da Santa Rússia, herdeira da segunda Roma (Constantinopla). Contudo, no ocidente da Ucrânia, em Lviv, cidade fundada pelo Grão-duque da Ruténia, em 1256, encontramos, de certo modo, uma outra história. A cidade passou sucessivamente da soberania polaca, em 1340, para a austríaca em 1772, integrando o Império Austro-húngaro. Depois, a cidade foi polaca, em 1919, no fim da Grande Guerra, e tornou-se ucraniana em 1939. Em 1945, nas partilhas territoriais do fim da 2ª Guerra, a região foi integrada na República Soviética da Ucrânia, que viria a ser fundadora das Nações Unidas, ao lado da URSS e da Bielorrússia. A soberania de Direito da Ucrânia é assim inequívoca e antiga. A Ucrânia é um Estado soberano, com raízes históricas complexas e claras, a partir de influências que se completam – eslava e europeia central. Kiev é uma das cidades mais antigas da Europa e uma referência matricial da rica cultura eslava. Fundada no século V é um centro da economia e da cultura. E o cristianismo ortodoxo, de bases profundas, teve Kiev como matriz. A própria língua ucraniana tem raízes próprias, próximas da língua russa, do servo-croata e do polaco. A palavra “ukraina” significa zona fronteiriça, onde o domínio cossaco se distinguia dos principados eslavos do norte e oeste e das hordas turcas do sul. Em 1240, a cidade foi ocupada e destruída pelo Império tártaro-mongol, na conquista iniciada por Gengis-Khan. Kiev perdeu influência, mas manteve autonomia, no âmbito do Canato da Horda do Ouro. Em 1321, a cidade seria conquistada pelo Grão-Duque da Lituânia, passando ao domínio polaco-lituano até ao final do século XVII, quando Kiev passou para a esfera do Império russo, tornando-se o mais importante centro cristão ortodoxo, antes da transição para Moscovo. Nos séculos XVIII e XIX a vida da cidade foi dominada pelas autoridades militares e eclesiásticas, em 1834 foi criada a Universidade de S. Vladimir e em 1846 constituiu-se a proibida Irmandade de S. Cirilo e S. Metódio, defensora de uma Federação eslava de povos livres, animada por Nikolay Kostomarov. Kiev foi a terceira cidade do império, importante centro de comércio, beneficiando do rio Dniepre. As lágrimas e a vontade de um povo resistente reforçam a história, a herança e a memória de um dos fundamentos da civilização europeia, que a cegueira bárbara de um ditador será incapaz de destruir.     


A CULTURA RUSSA E A EUROPA
A cultura russa faz parte integrante da cultura europeia. Confundir as decisões de um ditador com o espírito de um povo é não compreender a essência da humanidade e da cultura. Cada nova guerra põe novas questões, mas não pode fazer-nos esquecer a memória histórica e o seu significado. A literatura russa é, aliás, bem ilustrativa da importância dos testemunhos e das reflexões sobre a guerra. Tolstoi e Pushkin muito nos ensinaram nesse domínio, como Dostoievski e Tchekov em matéria de psicologia humana. Os escritores são as melhores testemunhas das suas épocas. E muitos grandes artistas russos têm sido, ao longo dos tempos, dos melhores intérpretes da vida humana. Lembremo-nos de Berdiaev e da compreensão profunda da existência humana. E não esqueçamos que a identidade de Kiev e da atual Ucrânia estão no coração histórico da civilização russa, com um rico património, que está a ser destruído. E eis que não poderemos cultivar animosidade que atinja a sublime cultura eslava na sua diversidade. A grande Rússia é um complexo caleidoscópio, uma simbiose, ligada a uma história complexa, entre a tradição da Rus e a presença dos mongóis da Horda do Ouro, uma mistura de eslavos, fino-úgricos, alanos e turcos.


QUE FUTURO DA EUROPA? 
O futuro da Europa dependerá de um modus vivendi abrangendo a galáxia eslava, que em lugar da lógica imperial, deverá basear-se no respeito da Carta das Nações Unidas, na democracia, no Direito Internacional e nos direitos humanos. A Ucrânia constitui um caso especial de convergência entre as raízes culturais da Rússia, como herdeira da segunda Roma (Bizâncio), e as tradições dos povos ocidentais, que integraram a Polónia e o Imperio Austo-húngaro. A comunidade internacional tem de contrariar energicamente a lógica da guerra, do ressentimento e da mútua humilhação. A barbárie não pode continuar a impor-se à civilização. Andrei Kourkov, escritor de língua russa, defende a causa ucraniana, rebelando-se contra a guerra total e a destruição de teatros, museus, hospitais e escolas, património comum da humanidade. Não é só a Ucrânia a estar em causa. Eis por que faz sentido, o apoio aos cidadãos russos ilustrados e democráticos e o acompanhamento das consequências das sanções económicas, de modo a criar condições concretas para uma saída do conflito que limite as consequências desumanas. “A liberdade do homem distingue-se de qualquer outra força, porque é reconhecida pela nossa consciência, mas aos olhos da razão em nada se distingue das outras”. Foi Tolstoi quem o disse, no fecho do seu romance maior.

 

Guilherme d'Oliveira Martins
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A VIDA DOS LIVROS

  

De 28 de março a 3 de abril de 2022.


A guerra da Ucrânia está a pôr em grave perigo um património cultural de valor incalculável, que aqui referimos. É a humanidade que está em causa, uma vez que a memória histórica é a memória das pessoas e das culturas.

 


CULTURA EM PERIGO! 
Quando o património cultural está em perigo é a própria humanidade a estar em causa. E temos insistido em que não falamos de pedras mortas, mas de pessoas, como pedras vivas, na expressão do “nosso” António Sérgio, mas também de Rabelais. Longe do entendimento tradicional de um património visto como referência do passado, falamos de uma realidade viva, que abrange transversalmente todos os domínios dos direitos humanos. Quando a Diretora-Geral da UNESCO Audrey Azoulay lançou um dramático alerta a propósito dos bombardeamentos indiscriminados a que temos assistido nas últimas semanas na Ucrânia, afirmou expressamente: “Devemos salvaguardar este património cultural, como testemunho do passado mas também como vetor de paz para o futuro, que a comunidade internacional tem o dever de proteger e preservar para as gerações futuras. É também para proteger o futuro que as instituições de ensino devem ser consideradas santuários”.


De facto, o apelo envolve os monumentos históricos, mas também as escolas e as instituições da ciência e da cultura. Lembramo-nos do hediondo assassinato de Khaled Al Assad, estudioso e guardião de Palmira, que demonstra a ligação íntima que se estabelece naturalmente entre a defesa dos direitos das pessoas concretas e a salvaguarda da sua memória cultural e histórica. Como se sabe, quando se começam por queimar livros ou a destruir a memória humana, acaba-se por matar as próprias pessoas. No fundo, a criação cultural, a sua preservação e a sua comunicação têm a ver com a essência do ser humano. O avanço na UNESCO e no Conselho da Europa relativamente aos conceitos de património cultural e de direitos culturais tem contribuído, de facto, para ligar os direitos da Declaração Universal de 1948 à vida e à dignidade humana no sentido mais essencial. O caso da Convenção de Faro sobre o valor do Património Cultural na Sociedade Contemporânea (2005) é bem demonstrativo disso mesmo. Por isso, o património cultural envolve direitos e deveres, não retrospetivos mas prospetivos, abrangendo o presente e o futuro, de modo a acrescentarmos valor ao que recebemos das gerações que nos antecederam. E o que está hoje em causa no tocante à necessidade de respeitar a Carta das Nações Unidas é a defesa de uma verdadeira cultura de paz e de respeito mútuo. João XXIII disse-o claramente na Encíclica “Pacem in Terris”.


DIREITO PATRIMONIAL COMO DIREITO HUMANO
Quando um tirano viola claramente o direito internacional comummente aceite, e até se propõe erradicar da face da terra um Estado soberano e um povo, de um modo unilateral, recusando o Direito e a própria História, compreende-se que a invocação de direitos culturais assuma uma importância insofismável. Falamos dos fundamentos dos valores éticos, morais e jurídicos.  Julgar que se pode tornar a Carta das Nações Unidas letra morta, esquecendo garantias essenciais como o primado da lei, o multilateralismo, a estabilidade de fronteiras, a soberania legitima, ou o direito de fazer a paz e a guerra são gravíssimos atentados de natureza humanitária, que tocam a essência da memória cultural dos povos e da partilha de um património comum da humanidade. Desde 1945 que a dúvida se não punha, e qualquer incerteza neste domínio a todos prejudicará, uma vez que o que os direitos protegem, os direitos garantem; o que os deveres salvaguardam, os deveres consolidam. O primado do direito a todos interessa, porque assenta no respeito mútuo.


A Ucrânia conta atualmente com diversos bens culturais e um natural, declarados como Património da Humanidade pela UNESCO. Todos estão, agora, diretamente ameaçados: a Catedral de Santa Sofia de Kiev, conjunto de edificações monásticas e o Mosteiro de Petchersk,, símbolo da Nova Constantinopla, de um valor espiritual e unificador incalculável (inscrito em 1990); o Conjunto do Centro Histórico de Lviv, onde que se encontra praticamente intacta a topografia urbana medieval, a que se acrescentam as construções barrocas e posteriores (inscrito em 1998 e 2008); Dezasseis Tserkvas de madeira da região dos Cárpatos, nos territórios da Polónia e Ucrânia, trata-se de templos da igreja ortodoxa tradicional (inscrito em 2013); o Arco Geodésico do astrónomo Friedrich Georg Wilhelm Struve (realizado entre 1816 e 1855), abrangendo dez países, desde o Báltico ao Mar Negro (inscrito em 2005); a Residência dos Metropolitas da Bucóvina e da Dalmácia em Tchernivtsi, junto da Roménia e da Moldávia, do arquiteto checo Josef Hlavka, reflexo da política de tolerância religiosa mantida pelo Império Austro-húngaro (inscrito em 2011); a Cidade Antiga de Quersoneso na Crimeia, que apresenta os restos da cidade fundada pelos gregos dóricos no século V a.C. no norte do Mar Negro, importante centro vinícola envolvendo relações entre os impérios grego, romano, bizantino com referências atá ao século XV (inscrito em 2013); e, no domínio natural, as Florestas Primárias de faias dos Cárpatos, abrangendo 12 países (inscrito em 2007). Além destes casos, refira-se o Centro Histórico de Chernigov, perto de Kiev, agora sob ameaça direta, com referência à célebre Catedral da Transfiguração do século XI. Há já a lamentar a destruição confirmada e irreversível do museu de Ivankiv, localidade a noroeste de Kiev. A instituição apresentava 25 obras da Maria Prymachenko (1908-1997), artista fortemente influenciada pelo folclore ucraniano, elogiada por Pablo Picasso, pelo seu caráter percursor. Segundo a imprensa local poucas obras terão sido salvas por um cidadão local, que enfrentou sozinho as chamas. Note-se que a grave situação no terreno levou alguns especialistas, a duvidarem do efeito positivo do pedido de proteção, com receio de atrair atenções…


ESCUDOS AZUIS PARA PROTEÇÃO
Entretanto, representantes da UNESCO e das autoridades ucranianas decidiram colocar Escudos Azuis nos bens patrimoniais ameaçados na zona do conflito. Além dos casos referidos, foi também assinalado o centro da cidade e o porto de Odessa. Esta prevenção insere-se na aplicação da Convenção para a Proteção dos Bens Culturais em Caso de Conflito Armado, assinada na cidade de Haia em 14 de maio de 1954. O Comité Internacional do Escudo Azul (Blue Shield ou Bouclier Bleu) foi fundado em 1996 pelo ICOM (Conselho Internacional dos Museus), ICOMOS (Conselho Internacional dos Monumentos e Sítios), Conselho Internacional dos Arquivos e Federação Internacional dos Bibliotecários e Instituições com o fim de assegurar a proteção do património cultural ameaçado por guerras e catástrofes naturais. O acompanhamento deste tema torna-se neste momento melindroso em virtude de o Comité do Património Mundial ser presidido por Alexander Kuznetsov, de nacionalidade russa, estando prevista em junho uma reunião na cidade de Kazan do referido Comité, o que é fortemente contestado. O fundamental é deixar claro que é motivo muito sério de preocupação por parte das organizações multilaterais o facto de haver na comunidade internacional dificuldade evidente em fazer prevalecer a perspetiva dos direitos humanos, dos valores democráticos e a ligação efetiva destes ao desenvolvimento humano e à cultura.  

 

Guilherme d'Oliveira Martins
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A VIDA DOS LIVROS

  

De 21 a 27 de março de 2022.


«O Testamento Político» (1749) de D. Luís da Cunha é um dos Documentos mais importantes da História Política Portuguesa.

  

COMO RESPONDER À SITUAÇÃO? 
Portugal, depois da Restauração de 1640, saiu enfraquecido, procurando responder às novas circunstâncias. E assim jogou com a liberdade dos mares e com a relação com a Inglaterra (em plena crise interna de índole constitucional, religiosa e política). Daí as tentativas para criar núcleos economicamente ativos nas zonas de influência, em especial no Brasil, sendo desse tempo a proposta do Padre António Vieira de recorrer aos cristãos-novos e judeus, de modo a refazer o império marítimo, contra a lógica do isolamento a que a Espanha nos quis condenar. Jorge Borges de Macedo refere então duas tendências em confronto na política externa portuguesa – uma atlântica, inclinada ao entendimento com a Inglaterra, e outra continental, orientada para uma ligação à França. E se o casamento de D. Catarina de Bragança com Carlos II de Inglaterra, procurou pôr fim ao isolamento português, segundo uma opção atlântica, que parecia ser a mais consistente, não podemos esquecer a ambiguidade do casamento de D. Afonso VI com a princesa francesa D. Maria Francisca Isabel de Sabóia. “Para Portugal, - refere ainda Borges de Macedo - as boas relações com as potências marítimas apresentavam-se como indispensáveis, uma vez que era por mar que se fazia o comércio externo; por aí saíam o vinho, o sal, as frutas, chegavam e partiam as produções coloniais, como sejam o açúcar, o tabaco e os couros”. A participação portuguesa na guerra da sucessão espanhola (1701-1714) foi bem ilustrativa dos cuidados estratégicos. Havia que acautelar o que restava da influência marítima, sobretudo na América do Sul e no Estado da Índia. E se houve mudança de campo por parte de D. Pedro II, primeiro ao lado de Luís XIV e da causa dos Bourbons, e, depois de uma aparente hesitação neutralista, na “Grande Aliança”, de Inglaterra, Holanda, Áustria e Estados alemães, a verdade é que a preocupação fundamental estava ligada à necessidade de preservar a relevância de Portugal como potência atlântica. O primeiro Tratado de Methuen (1703) celebrado com a Inglaterra inseriu-se nesta orientação e teve influência decisiva na evolução económica do século XVIII. No entanto, os lucros da comercialização pertenceriam aos grandes comerciantes franceses, ingleses e holandeses. O tratado de Utrecht (1712), no fim da guerra de sucessão, permitiu, contudo, reforçar a sua posição no Brasil – num momento em que se anunciava a riqueza e magnanimidade do ouro… 


A ALIANÇA BRITÂNICA

Enquanto a Grã-Bretanha se tornava paulatinamente a potência marítima hegemónica, Portugal vivia uma fase próspera, com meios de pagamento abundantes, graças ao ouro, e ao resultado das vendas do açúcar brasileiro, dos vinhos e das frutas, e gozava de prestígio internacional, designadamente junto da Santa Sé (com a atribuição do título de “Fidelíssimo” ao monarca português) reforçado pela participação na vitória sobre os turcos em Matapão (1717). Desde o século XVII, um conjunto de portugueses preocuparam-se com a necessidade de recuperar a posição no contexto internacional, não só evitando a subalternização relativamente a Espanha, mas também garantindo a defesa dos domínios ultramarinos e das frotas do Brasil. Estiveram neste caso diversas figuras relevantes, como: Manuel Severim de Faria, Duarte Ribeiro de Macedo, o Padre António Vieira, o 4º conde da Ericeira, Alexandre de Gusmão, José da Cunha Brochado, o Cardeal da Mota (D. João da Mota e Silva) ou António Ribeiro Sanches. É nestas águas que encontramos D. Luís da Cunha, autor do célebre Testamento Político. E quando encontramos referências aos estrangeirados, estamos perante uma corrente política que procurava assegurar ligação à chamada “Europa das Luzes”, que procurava seguir os países com maior desenvolvimento, pelo conhecimento científico. Está nesse caso o Dr. António Ribeiro Sanches, formado nas Universidades de Coimbra e Salamanca, de origem judaica, que D. Luís da Cunha conheceu num contacto que fez com a Universidade de Leide (Países Baixos), numa diligência para a aquisição de livros de Medicina e de Filosofia Moderna, destinados à Universidade de Coimbra (1730). No relatório que produziu, Sanches salientava, porém, que os lentes de Coimbra iriam ter certamente dificuldades em aceitar as novas ideias, por exemplo no tocante à Física de Newton ou à moderna medicina experimental, por demasiado dependentes do ensino escolástico. Ribeiro Sanches partiria pouco depois para S. Petersburgo (donde regressaria em 1747) a solicitação da czarina Catarina II. Continuou, porém, a reflexão sobre Portugal, o que, segundo o conselho dado a D. Luís da Cunha obrigaria a encontrar alguém com grande influência junto do Rei que pudesse contrariar as práticas censórias e inquisitoriais e mudar profundamente as mentalidades e os métodos vigentes. Sanches escreveu as “Cartas sobre a Educação da Mocidade” (1759), onde preconizou as urgentes medidas necessárias a ultrapassar os atrasos do país.


COMO ULTRAPASSAR ENTRAVES?
Importa referir ainda Luís António Verney, autor do “Verdadeiro Método de Estudar” (1746), leitor dos pensadores britânicos, como John Locke, que faz uma crítica ao ensino rígido, devendo proceder-se a uma nova orientação, baseada na inovação e na experiência, devendo a instrução elementar ser ministrada a ambos os sexos e a todas as classes, cabendo ao Erário fomentar e custear as despesas da educação. Refira-se ainda o caso de Francisco Xavier de Oliveira (Cavaleiro de Oliveira), autor da mais severa crítica aos métodos inquisitoriais, que considerava serem a razão do atraso português. Menos preocupado com uma perspetiva pedagógica e reformista, assume essencialmente a atitude de denúncia. Por isso, será condenado pelo Santo Ofício, tendo-se convertido ao protestantismo, escreveu vasta obra crítica entre a qual as Reflexões de Félix Vieira Corvina dos Arcos… Já Filinto Elísio foi um admirador dos franceses, com o cuidado de evitar excessos galicistas. Clérigo de formação, foi mestre de latim de D. Leonor de Almeida, a marquesa de Alorna (Alcipe). No exílio, com o seu amigo Félix Avelar Brotero, aplaudirá a Revolução Francesa, regressando no ano seguinte a Portugal. Por fim, o Padre José Agostinho de Macedo, conhecido como Padre Lagosta, também foi influenciado pelos ventos afrancesados, mas tornou-se conhecido por ser indisciplinado, pelas diatribes antiliberais e pela linguagem radical. Pertenceu com Bocage à Nova Arcádia, com Cruz e Silva e Reis Quita, onde teve por nome Elmiro Tagídeo… Celebrizou-se pela negativa e como defensor do retrocesso. E D. Luís da Cunha? Há quem ponha dúvidas. Contudo, foi indiscutivelmente o verdadeiro símbolo de inteligência fulgurante, num tempo de radical mudança.  

 

Guilherme d'Oliveira Martins
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