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Blogue do Centro Nacional de Cultura

Um espaço de encontro e de diálogo, em defesa de uma cultura livre e pluridisciplinar. Estamos certos de que o Centro Nacional de Cultura continuará, como há sete décadas, a dizer que a cultura em Portugal vale a pena!

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Um espaço de encontro e de diálogo, em defesa de uma cultura livre e pluridisciplinar. Estamos certos de que o Centro Nacional de Cultura continuará, como há sete décadas, a dizer que a cultura em Portugal vale a pena!

A VIDA DOS LIVROS

de 18 a 24  de outubro de 2021

 

“Que Fizeste do Teu Irmão? – Um Olhar de Fé sobre a pobreza do mundo” de Alfredo Bruto da Costa (Cáritas, Forum Abel Varzim, 2020) constitui um testemunho fundamental do autor sobre o momentoso problema da pobreza.

 

DOCUMENTO PRECIOSO E ORIGINAL
Quando a engª Vera Bruto da Costa me mostrou o texto que o marido deixara incompleto, ao partir, não tive dúvidas em dizer que se tratava de um documento precioso e original, sobre um tema que ocupou intensamente Alfredo Bruto da Costa. É um conjunto indispensável de temas, no qual se unem o rigor da análise e o alerta atualíssimo relativamente a uma situação dramática da pobreza na atualidade. Seguindo passo a passo o livro, começamos pela referência ao “maior equívoco da história da Humanidade”, a contradição entre a espera de um libertador e a sua recusa, como vemos na atitude do Grande Inquisidor em “Os Irmãos Karamazov” de Dostoievsky, a dizer a Jesus Cristo, regressado inesperadamente, que deveria desaparecer rapidamente por ser indesejado. É verdade que não era a pobreza o tema do grande equívoco, mas a partilha e a exigência do cuidado dos outros e da não indiferença, marcantes na essência da novidade cristã. E, refletindo sobre o Amor de Deus, o autor pergunta: “quem pode ousar falar do Amor de Deus”, realidade tão complexa e indefinível, não suscetível de simplificações humanas. E então a pobreza surge como exigência de disponibilidade, como obrigação de compreender o outro e de ter respostas. Assim, os pobres de que fala a Bíblia são aqueles que o são no seu íntimo, como afirma a primeira Bem-Aventurança. É de disponibilidade que se fala, como scolè é a origem etimológica grega da palavra escola como lugar do ócio, enquanto disponibilidade plena para saber e compreender. Não há, contudo, não pode haver, elogio da pobreza sociológica. E lembre-se o que dizem os Atos dos Apóstolos relativamente à vida na comunidade cristã. “Ninguém chamava seu ao que lhe pertencia, mas entre eles tudo era comum”. Estamos perante a relação do ser humano com os bens materiais. Não está em causa o reconhecimento do direito de propriedade, mas a compreensão do princípio do destino universal dos bens da terra. E assim temos de compreender o sentido e o alcance do direito de uso e do direito de posse. Como afirma a encíclica Laborem Exercens de João Paulo II, “a propriedade adquire-se primeiro que tudo pelo trabalho e para servir ao trabalho”. Eis a importância do desapego ao material, para que dele não nos tornemos servos. A necessidade do outro, como outra metade de nós, para usar a expressão do Padre Mateo Ricci, significa a possibilidade de ter resposta ao outro, não nos fechando sobre nós mesmos.


OS BENS DA TERRA NO MUNDO
A distribuição de bens da terra no mundo é hoje, contudo, cada vez mais desigual. As disparidades agravam-se. Em 1960 o rendimento dos 20 % mais ricos da população mundial era 30 vezes o rendimento dos 20 % mais pobres. Mas no ano 2000 essa relação passara a 75 vezes. Por outro lado, “as desigualdades no domínio das capacidades avançadas estão a agravar-se. Por exemplo, apesar dos desafios no tocante aos dados, as estimativas apontam para ganhos ao nível da esperança média de vida aos 70 anos, entre 1995 e 2015, duas vezes superiores nos países com um nível muito elevado de desenvolvimento humano, em relação aos países com um baixo nível de desenvolvimento humano. Existem elementos que demonstram a presença do mesmo padrão de divergência num vasto leque de capacidades avançadas. De facto, as divergências no acesso a um conhecimento mais avançado e à tecnologia são ainda mais vincadas” (p. 107). Daí a exigência, para Alfredo Bruto da Costa, de uma leitura evangélica da pobreza no mundo. A noção de cidadania mundial, de que falou o Papa João Paulo II e de que fala o Papa Francisco vem reforçar a urgência de alargarmos o horizonte do nosso pensamento para além das fronteiras nacionais. Trata-se de assumir o princípio da subsidiariedade, que significa, a um tempo, tratar e solucionar os problemas o mais próximo possível das pessoas, mas sempre a um nível adequado. O pensamento “glocal” é a um tempo global e local, centrífugo e centrípeto. Se as questões do ambiente ou das pandemias, do aquecimento global ou da cultura da paz têm de ser tratadas acima das fronteiras nacionais, as opções ligadas à organização local ou aos cuidados das pessoas concretas têm de ter dimensão local e comunitária.


GLOBALIZAÇÃO E DESCENTRALIZAÇÃO
Como lembra Bruto da Costa: “a globalização é demasiado importante para ser deixada ingovernada, como acontece presentemente, porque tem capacidade de fazer extraordinário mal, como bem”. Exige-se, assim, coesão social, sustentabilidade cultural, económica, social e ambiental, conhecimento e aprendizagem. O que é libertar os pobres de hoje? É combater e resolver a privação (fome, sede, nudez, falta de abrigo) e a falta de recursos, de modo a garantir autosuficiência, autonomia e defesa do bem comum. “A definição de pobreza que adotámos (diz ABC) conduz-nos a duas conclusões da maior relevância teórica e prática. A primeira reside no facto de ser possível resolver a privação, sem resolver a pobreza. Para tanto, basta que o pobre tenha acesso aos bens e serviços básicos por via de apoios extraordinários (por exemplo, o acesso aos alimentos do Banco Alimentar, a algum ‘roupeiro’ gratuito, a uma residência social para indivíduos e famílias sem habitação, etc.). Apoios deste tipo têm duas características importantes: resolvem a privação, mas mantêm o pobre numa situação de dependência. Isto acontece porque, apesar de sair da privação, o pobre continua sem os recursos necessários para satisfazer as necessidades básicas como o comum dos cidadãos. Matar a fome, sendo indispensável, não conduz, só por si, à autonomia. Daí a segunda conclusão, a de que a pobreza só é vencida quando o pobre sai da situação de privação por seus próprios meios… Por outras palavras o pobre só vence a pobreza quando já não precisa de recorrer a medidas e políticas de luta contra a pobreza” (p. 131).


O QUE FAZER? 
O que fazer? Agir em vários tabuleiros: na igualdade de oportunidades, na correção das desigualdades, na justiça distributiva, na equidade integeracional, no desenvolvimento sustentável. Não é por acaso que o primeiro dos objetivos das Nações Unidas sobre o Desenvolvimento Sustentável é a erradicação da pobreza. Partindo do destino universal dos bens da terra e da exigência de sobriedade, o combate à pobreza obriga a haver metas claras e uma definição de meios que nos permitam superar as condicionantes que nos afetam, sobretudo depois da pandemia, que agravou as disparidades e tornou mais difíceis os objetivos anteriormente definidos. E Alfredo Bruto da Costa deixou-nos o desafio de não baixarmos os braços nesse caminho no sentido da cidadania e da dignidade da pessoa humana. 

 

Guilherme d'Oliveira Martins
Oiça aqui as minhas sugestões – Ensaio Geral, Rádio Renascença

A VIDA DOS LIVROS

De 11 a 17 de outubro de 2021


A publicação “Unicórnio” a “Pentacórnio” (1951-1956) dirigida por José-Augusto França constituiu um marco importante na renovação do panorama cultural português num tempo de provação e ausência de liberdade de imprensa.

 

UMA LEMBRANÇA INESQUECÍVEL
Jamais esquecerei a tarde em que, na Biblioteca Municipal de Tomar, no Bibliotecando, em maio de 2016, José-Augusto França e Eduardo Lourenço se encontraram para debater “Os Outros e Nós”. Com o método desafiante habitual (lembremo-nos do ensaio de Unicórnio), o ensaísta de “A Nau de Ícaro” referiu aos seus ouvintes: “A Europa nunca existiu, nem sei se alguma vez existirá como ator dela mesma”. Afinal, os países que habitam este espaço comum sempre estiveram a braços com “uma espécie de guerra civil permanente, desde os Romanos, até hoje praticamente”, na medida em que cada uma das nações com maior poder, foi à vez, tentando dominar as outras para hegemonizar o continente… As ideias foram-se desfiando e chegado o ponto de J.-A. França falar usou o tom irónico, que lhe era habitual, afirmando que “nós somos sempre os outros. É algo reversível e reflexo. Contudo sendo sempre os outros nós, temos de ter muito cuidado com os outros, naturalmente, e esse cuidado nós não temos tido”. Em nome desse cuidado, lembrou que o Grémio Literário, a cujo Conselho Literário então presidia, foi a única instituição que assinalou e debateu a conquista de Lisboa pelos mouros em 713, lembrando que “a língua portuguesa é a única falada na Europa que usa todos os dias uma palavra ‘o oxalá’ (se Deus quiser), ou seja nós estamos a falar árabe sem dar por isso, e vivemos muito bem e muito pacificamente. Em suma, nós somos sempre os outros”. O diálogo que se estabeleceu nessa tarde, prolongou-se na viagem que fizemos juntos entre Tomar e Lisboa. Foi animada a conversa, entre a perplexidade pela intolerância na cena internacional e a lembrança de episódios passados, entre enganos e genuínos encontros inesperados, a ilustrar o difícil tema que nos levou de Almada Negreiros, “Português sem Mestre” até Mário de Sá-Carneiro e a Bernardo Soares, já que identidade e alteridade são palavras que alternam e coexistem sempre…


TROCA LIVRE DE IDEIAS
Quando tive a notícia de que José-Augusto França partira, veio-me à memória essa tarde inesquecível e irrepetível – a lembrança do prazer verdadeiro em conversar, como troca livre de ideias. Por isso o encontro continuará a acontecer na nossa mente. E estou também a ver uma pequena corrida surpreendente e lépida do jovial professor a atravessar Avenida Infante Santo, apesar dos 93 anos…  José-Augusto França foi um pedagogo, homem do Renascimento, acima de tudo. A sua obra é fundamental e indispensável – e sê-lo-á por muito tempo. Contudo, ao acompanharmos a sua vida muito fecunda, encontramos uma complementaridade evidente entre o académico, o ficcionista, o cidadão e o protagonista do seu tempo. Pessoalmente, muito ganhei sempre com o seu convívio e a sua amizade. E testemunhei, enquanto teve saúde, o evidente entusiamo de viver, de pensar, de abrir pistas de ação e reflexão. Sentimos intimamente o pioneirismo do Centro Nacional de Cultura, que França salvou depois de 1974, como Presidente, graças ao Mestrado de História da Arte e ao projeto delineado com Fraústo da Silva – que permitiu uma nova Fénix Renascida com Helena Vaz da Silva. Do mesmo modo, devotou ao Grémio Literário um especial apreço, solidariamente com as suas grandes referências históricas. E sentimos intensamente a destruição da última casa de Garrett – que era um exemplo puramente romântico, escolhido com muito amor pelo genial poeta. A fotografia que dele fez Fernando Lemos é uma referência marcante de uma série de qualidade internacional. É um justo reconhecimento de quem compreendeu, como poucos, o sentido da modernidade. Leia-se o texto sobre Unicórnio, etc. “Unicórnio nasceu na ‘Brasileira do Chiado’, onde muitas outras coisas nasceram ou se geraram, desde meados dos anos 10. Nos seus anos 50, foi já em fim de época, nas transformações de então da cidade, do Chiado. Em 1960 já nada lá podia nascer. Fora o Orpheu, fora o Nome de Guerra e os quadros de 1926, fora a Variante de 41, de António Pedro, fora o Grupo Surrealista de 1949, já em terceira geração da modernidade pátria que então terminava. Os novos quadros de 1971, com um grande balcão de pastelaria no café encolhido, foi já um post scriptum sem recuperação possível e ainda menos o Pessoa-à-Porta, em anos 70 ou 88, de outra cidade ou não cidade. (…). Na ‘Brasileira’, então, veio a ideia do Unicórnio, por efeito do convívio com os amigos surrealistas, quando ainda, nas mesas do café, se convivia, lendo o Diário de Lisboa, engraxando os sapatos, pagando a bica com gorjeta de dois tostões para acertar a conta, e aguardando horas do elétrico para casa. Era em 1951”. Tornava-se necessário contornar a censura (“num país não-legal”, com “um capitão pequenino, reformado, de óculos”) e por isso a série intitulou-se antologia, com edição de autor, sem periodicidade e com título mutante, “como era mister, para iludir a continuidade”. Durou até 1956, até Pentacórnio. Os colaboradores mais assíduos foram, além de J.-A. F., Jorge de Sena, José Blanc de Portugal, Eduardo Lourenço e Fernando de Azevedo, em todos os números, Delfim Santos, António Pedro e Fernando Lemos em quatro, e Vespeira em três. António Sérgio escreveria no último número “Em torno do Problema da Importância dos Escritores na Sociedade Portuguesa”. O projeto terminaria com a decisão pacífica de finalizar a “empresa”, com reconhecimento de que a revista falhara. Não concordou José Régio, numa polémica bem curiosa. “Ao contrário do que é costume a posição crítica era do autor da obra e a defesa dela cabia ao seu crítico, que nela, uma vez ou outra, colaborara também, simpaticamente – não exatamente do mesmo lado de uma ideia da cultura portuguesa, mas no mesmo sítio dela”.


UM PORTUGAL ABSOLUTAMENTE MODERNO? 
Poderia ser Portugal “absolutamente moderno”, na fórmula de Rimbaud? Ao menos, mereceria sê-lo. A série Unicórnio foi uma tentativa que, na apreciação do principal promotor não teve sucesso. Depois da tentativa surrealista de finais de 1940 ou da publicação do romance Natureza Morta (1949), na procura da superação do presencismo e do neorrealismo, José-Augusto França avançou nos anos cinquenta pelos caminhos de um terceiro modernismo, apesar de tudo há cinco números, que hoje merecem leitura circunstanciada, mas a paciência esgota-se. “Se o próprio relógio não satisfaz a necessidade do tempo europeu que alguém sinta, consulte-se outra máquina e vá-se à Europa consultá-la”. É o caminho que seguirá, como bolseiro do Estado francês em 1959, a trabalhar como o historiador consagrado Pierre Francastel, doutorando-se em História com a tese “Une Ville des Lumières: la Lisbonne de Pombal” (1962) e em Letras com a tese “Le Romantisme au Portugal” (1969). O ativista abriu caminho ao exemplar pedagogo. Não é possível compreender a arte e a cultura em Portugal, em diálogo com o mundo, no Pombalismo e nos séculos XIX e XX sem conhecer e estudar a obra de José-Augusto França. Lembre-se, na Fundação Calouste Gulbenkian, que tanto lhe deve, a direção exemplar da Colóquio – Artes (1971-1997), bem como da Delegação em França da instituição (1983-89). Num trabalho persistente e único de estudo e partilha, segundo uma visão larga da cultura portuguesa, para além das fronteiras físicas, buscando Portugal fora de Portugal, como Ulisses em demanda da sua Ítaca, José-Augusto França contribuiu decisivamente para a democracia como fator de modernidade. Disso não haja dúvidas.

 

Guilherme d'Oliveira Martins
Oiça aqui as minhas sugestões – Ensaio Geral, Rádio Renascença

A VIDA DOS LIVROS

De 4 a 10 de outubro de 2021


Por ocasião da preparação dos duzentos anos da independência do Brasil referimos três obras que permitem compreender a realidade cultural brasileira – da autoria de Jaime Cortesão, António Cândido e Celso Lafer.


 

ENTENDER A FORMAÇÃO TERRITORIAL DO BRASIL
Jaime Cortesão (1884-1960) foi um dos portugueses que melhor compreendeu o Brasil, onde viveu o período mais fecundo do seu exílio político. A sua obra é prolífera, permitindo-nos escolher como referêncial “Raposo Tavares e a Formação Territorial do Brasil” (Portugália Editora, 2 volumes, 1966), onde encontramos uma análise muito rica da génese do movimento Bandeirante, sobre a política audaciosa de D. João IV no Brasil, tantas vezes pouco lembrada, mas decisiva para a unidade territorial do território, além da consideração da figura de António Raposo Tavares (1598-1659), nascido em Mértola e chegado a S. Paulo em 1618, na comunidade cultural luso-brasileira, quer no plano nacional no Brasil e em Portugal, quer no contexto internacional, como precursor do conceito de Estado moderno. Encontramos dois “bandeirismos” que se completam, na expressão do historiador: «um luso de raiz, espontâneo ou oficializado, implícito, aliás, em toda a história dos descobrimentos e conquistas dos portugueses; outro misto, desencadeando-se sem freio com o vigor rompente  das forças naturais, moldado apenas aos acidentes e grandes sulcos geográficos do território; obedecendo a necessidades económicas primárias…». A obra de J. Cortesão é magnífica, de uma assinalável probidade histórica, mostrando a tensão entre duas influências que se digladiaram, bandeirantes e jesuítas, da qual resultaria a grande unidade brasileira. O percurso das bandeiras de Raposo Tavares, de 12 mil quilómetros em 4 anos, desde S. Paulo até Belém do Pará, rompendo o meridiano de Tordesilhas constitui uma das grandes epopeias em prol do conhecimento do mundo desconhecido. Sem pôr em causa a violência, os conflitos, a contradição entre a diplomacia oficial e as ações de facto, o historiador procura dar-nos nota sobre o modo como ocorreu a formação territorial do Brasil, com todas as tragédias e vicissitudes. 


A GÉNESE DA LITERATURA BRASILEIRA
A obra mais marcante de António Cândido de Mello e Souza (1918-2017) é a “Formação da Literatura Brasileira” (1959), que influenciou várias gerações de professores e intelectuais, permitindo entender a encruzilhada plural de influências da cultura brasileira, como ponte entre diferentes gerações – aproximando Oswald de Andrade, João Guimarães Rosa e Graciliano Ramos. Usando o método dialético e comparatístico, a partir da sua formação sociológica, pôde dar uma nova luz para a compreensão do caráter poliédrico da poderosa criação literária e cultural do Brasil. Antonio Cândido chama a atenção para os arrabaldes do trabalho crítico e para as razões que determinam de que maneira somos levados a encontrar, conhecer e amar as obras que se tornam prediletas, “sobretudo quando nos fazem companhia pela vida toda numa sucessão de leituras”. Por isso, sobre Darcy Ribeiro (1922-1997), recorda as três bandeiras que cobriam o seu caixão: a do Brasil, a do seu Estado de Minas Gerais e a dos Sem-Terra, referindo que “elas não encarnavam o país dos donos da vida, nem eram pendões de festa cívica, objetos cansadíssimos de discursos em cerimónias rotineiras”. E assim se incorporavam “os pais dos pobres, dos que precisam ser finalmente incorporados à nação”.


A POLÍTICA EXTERIOR DO BRASIL
Celso Lafer (1941) é, entre os contemporâneos um autor importante para a compreensão do Brasil. Discípulo de Hannah Arendt e de Norberto Bobbio, tem desenvolvido a sua ação intelectual em torno da relação entre Ética e Política, entre valores e meios técnicos, a partir da exigência de uma racionalidade pública tornada essência do desenvolvimento. Escreveu “Paradoxos e Possibilidades – Estudos sobre a Ordem Mundial e sobre a política exterior do Brasil num sistema internacional em transformação” (Rio de Janeiro, Nova Fronteira, 1982). Como o seu amigo Hélio Jaguaribe (1923-2018), considera fundamental a convertibilidade do valor da cultura em capacidade criadora, segundo a flexibilidade de “geometrias variáveis”, numa lógica de integração aberta e de uma democracia social complexa. Razão e vontade exigem um compromisso ético que marca os limites do exercício dos dois fatores. Depois do fim da guerra fria prevaleceu um sistema de polaridades difusas, modeladas pelo jogo de duas forças profundas: as centrípetas de unificação e globalização e as centrífugas de fragmentação. Quando lemos “Raízes do Brasil” de Sérgio Buarque de Holanda (1902-1982), compreendemos que a obra se encontra na encruzilhada crítica de obras referenciais como “Casa Grande e Senzala” de Gilberto Freyre (1900-1987) e da “Formação do Brasil Contemporâneo” de Caio Prado Júnior (1907-1990). Como salienta António Cândido: «trabalho e aventura; método e capricho; rural e urbano; burocracia e caudilhismo; norma impessoal e impulso afetivo – são pares que o autor destaca no modo de ser ou na estrutura social e política, para analisar e compreender o Brasil e os brasileiros». O tempo confirmou a necessidade de uma análise da realidade brasileira mercê da justaposição de fatores contraditórios – ex parte principis e ex parte populi. Deste modo, poderemos entender que o desafio atual do contexto brasileira se relaciona com a qualidade da democracia e com a eficiência dos instrumentos política de legitimidade, representação e participação. 

 

Guilherme d'Oliveira Martins
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A VIDA DOS LIVROS

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  De 27 de setembro a 3 de outubro de 2021

 

Quando hoje nos deparamos com a capa da revista “O Tempo e o Modo”, nascida em janeiro de 1963, encontramos, ao lado do fundador António Alçada Baptista, os nomes de dois futuros Presidentes da República, Mário Soares e Jorge Sampaio.

 

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CULTURA COMO MEIO NATURAL

De facto, o grupo que criou a nova revista, como testemunhou João Bénard da Costa, tinha um certa consciência de que algo de novo se preparava nos meios culturais portugueses. E mais do que os caminhos novos e plurais, era a própria ideia de democracia que estava em causa, onze anos antes da sua consagração efetiva através do Movimento das Forças Armadas, em 25 de abril de 1974. A presença do jovem Jorge Sampaio era significativa. Dirigente estudantil de um movimento marcante, escreve na revista, com Jorge Santos, um texto emblemático “Em Torno da Universidade”, no qual afirmam: “uma vez que haviam tomado consciência do papel que tinham a desempenhar na vida nacional, uma vez que tinham bem presente as suas responsabilidades perante a Nação, uma vez ainda, que a Universidade deixara de ser o tal ‘vase clos’, a tal corporação hermética dos tempos passados, os estudantes passaram a ocupar-se dos seus problemas de uma forma que, frequentemente saindo do ‘casulo universitário’, atinge o plano da própria vida política do país. (…) Entraram decisivamente a preocupar-se com o problema do alargamento do ensino ao maior número possível de jovens; começaram a exigir sistemas de subvenção de estudos, de seguros sociais para estudantes, de assistência médica estudantil etc.”. Hoje, quase parece profética essa convergência de contributos diferentes no pensamento e na ação, e a verdade é que a história da revista “O Tempo e o Modo” é bem ilustrativa de como a democracia se preparava, abrindo horizontes, mobilizando ideias diferentes e até contraditórias. As heterodoxias contrapunham-se às ortodoxias e o resultado era a emergência do cadinho das ideias democráticas que se afirmava.

Se refiro este momento emblemático, faço-o para salientar como a cidadania política é algo que não se faz instantaneamente, nem com ilusões de certezas absolutas. Quando lemos a biografia modelar de José Pedro Castanheira, percebemos em Jorge Sampaio um caminho feito de tentativas e erros, mas de uma essencial coerência. E a vida política é apaixonante porque é de riscos extremos. O estudo da história política corresponde à análise de uma sucessão de êxitos e de naufrágios, de persistência e de recuperação, e é preciso haver essa clara consciência. Por isso, Mário Soares disse que só é vencido quem desiste de lutar. O exemplo de Jorge Sampaio é o de alguém que sempre compreendeu que a política tem de ser assumida com independência e sentido de serviço público. Os valores éticos e as causas da cidadania são essenciais, mais importantes do que o sucesso fácil e imediato. Brilhante advogado, jurisconsulto de mérito, defensor ativo dos direitos humanos com todas as consequências, como demonstrou internacionalmente quando esteve no Conselho da Europa, no âmbito da Convenção Europeia dos Direitos Humanos, ainda hoje há quem recorde em Estrasburgo o período em que Jorge Sampaio se ocupou ativamente desses sempre complexos temas.

 

LIBERDADE AUTÊNTICA

Com uma apetência especial para as questões da criação cultural e da sensibilidade artística, deve dizer-se que o político foi moldado por essa especial ligação a essas questões. De facto, a liberdade autêntica constrói-se pela compreensão da complexidade, da capacidade criadora, da incerteza, da dúvida e do sentido crítico. Melómano conhecido, que gostaria de ter sido maestro, Jorge Sampaio amava os grandes autores e as suas obras musicais – Mozart, Beethoven, Chopin, Mahler, Schostakovich. Como leitor ativo de prosa e poesia, era ainda um amante da boa dramaturgia, e também um cultor da memória enquanto património vivo. Com sua Mãe falava indiferentemente em português e inglês – e a literatura e o jornalismo anglo-saxónicos eram-lhe familiares. Nascido de uma família com raízes muito antigas e arreigadas, em que os Bensaúdes, a diáspora e os Açores tinham uma marca forte de abertura, diversidade e apego à liberdade, a Cultura, ou a sensibilidade das artes, era para Jorge Sampaio um meio natural. Assim como, no texto de 1963, para o jovem que há pouco deixara os bancos da universidade ficava clara a necessidade de abertura de horizontes, em lugar da claustrofobia dos ambientes fechados, das soluções herméticas, essa abertura só seria possível se as liberdades fossem conquistadas, já que o valor da cultura obrigaria à democracia – numa ligação íntima entre cultura e liberdade. Daí que a identidade nacional só se enriqueceria de modo aberto, exigindo uma ligação entre cultura, educação e ciência. Afinal, haveria que compreender que “a educação é uma espécie de lugar geométrico de três grandes desígnios cívicos: desenvolvimento, democracia e emancipação individual.” (27.11.2002). Os avanços realizados nas aprendizagens foram importantes, mas não podem satisfazer-nos só por si, porque os progressos gerais não param, e porque a exigência de qualidade é permanente. O mesmo se diga da absoluta prioridade à ciência, a partir da internacionalização, do diálogo e cooperação com os principais centros mundiais. Daí Jorge Sampaio salientar “o papel absolutamente pioneiro que a Fundação Calouste Gulbenkian teve neste movimento de aproximação dos investigadores portugueses aos centros de excelência sediados no estrangeiro” (15.10.2002). De facto, é incindível o triângulo cultura, educação e ciência, obrigando a que a capacidade inovadora do artista permita compreender o impulso criador do cientista, e a afinação de um instrumento de precisão se assemelhe ao que permite ao instrumento musical dar maior fidelidade ao desejado pelo compositor.

 

O PATRIMÓNIO E A LÍNGUA

“O património histórico-cultural é por natureza diverso. Ele alimentou-se de uma tensão entre interno e externo, entre local e universal, entre elites e povo, entre exclusão e integração, entre uniformidade e alteridade. (…) Conservar é promover uma reaproximação. É, portanto, reinterpretar, de acordo com critérios e expectativas do presente. Finalmente porque a identidade de uma sociedade não é um dado imutável, é, isso sim, uma aquisição permanente, um processo continuo entre o passado e o desejo do futuro” (10.10.1996). As raízes históricas apenas podem ser entendidas pela compreensão deste movimento imparável – o que nos permitirá entender, no património imaterial, que “a língua que falamos não é apenas um veículo funcional e utilitário de comunicação, molda o que pensamos e o que sentimos, leva-nos ao mundo e traz-nos o mundo. A língua que falamos exige que a renovemos, que a recriemos, que a amemos. (…) Quando ouvimos falar o português nas vozes dos outros povos, sentimos que a nossa voz se amplia nessas vozes e que o futuro começa na língua que falamos” (6.12.2004). E assim uma cultura aberta e plural constitui-se fundamento da liberdade.

 

Guilherme d'Oliveira Martins
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A VIDA DOS LIVROS

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   De 20 a 26 de setembro de 2021

 

Dante Alighieri morreu há setecentos anos, a 14 de setembro de 1321, e foi muito mais do que um grande poeta e pensador. É autor de um poema imortal - “A Divina Comédia” - a um tempo teológico e épico, uma das obras-primas da literatura universal, mas, mais de que uma obra literária, tornou-se a base da língua italiana moderna, representando o culminar do modo medieval de entender o mundo e a abertura para o pensamento moderno.

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 UM POETA DESESPERADO

Segundo Vasco Graça Moura, que transpôs exemplarmente para português “A Comédia” de Dante Alighieri (1265-1321), provavelmente rebatizada por Boccaccio para a expressão que imortalizou a obra até aos nossos dias, representa “um homem desesperado, aos 35 anos, no meio do caminho da vida, seguindo a formulação de Isaías, diz ter empreendido uma jornada singular entre a noite de Quinta-Feira Santa (7 de abril) da Páscoa do ano de 1300 e a quarta-feira seguinte (13 de abril)”. Esse homem vivia numa Itália perturbada por querelas políticas em que interferiam constantemente as ambições do Império, da Coroa francesa e do Papado, para além das grandes famílias da Toscana, do comércio e da manufatura. Dante nasceu e cresceu numa cidade onde, desde há décadas, duas fações se digladiavam intensamente, consoante seguiam o Sacro Império Romano-Germânico ou o Papado, respetivamente, Gibelinos e Guelfos (estes últimos ainda subdivididos em Brancos e Negros). O poeta reclama que os abusos e a simonia (tráfico das coisas sagradas) sejam reprimidos, aspirando a uma vida civil regenerada capaz de combater a corrupção. A jornada descrita na “Comédia” enumera um conjunto significativo de exemplos, com incidência e repercussão variáveis, que apresentam o ambiente vivido na República. Dante aproveita para invocar desde a mitologia à Bíblia, da história local à história antiga e à contemporânea, da observação da Natureza e da paisagem até aos ofícios artesanais e às práticas sociais, e assim aponta os efeitos negativos da fragmentação política e do negocismo imperante…

 

UM EXÍLIO PERPÉTUO

A “Divina Comédia” foi escrita entre 1304 e 1321, no período correspondente ao exílio da cidade de Florença a que Dante foi condenado em 1302 pelos guelfos negros – sendo ele um guelfo branco, defensor do Papado, mas próximo dos partidários do Sacro Império. É sob essa condenação, que o poeta considera injusta, que este vai escrever a sua obra-prima – guiado pela sombra de Virgílio, primeiro, e pelas presenças de Beatriz e S. Bernardo, acompanhado longamente por Estácio, faz a sua “jornada transcendente, da abjeção das trevas à redenção da luz”. Cada uma das três partes em que o poema está dividido (Inferno, Purgatório e Paraíso) em 33 cantos, com mais um de introdução. A obra soma 100 cantos, número que significa a perfeição da perfeição, e soma 14.233 versos em "tercetos dantescos". Dante e Virgílio começam por atravessar o rio Aqueronte, que separa os mundos dos vivos e dos mortos, na barca de Caronte. O barqueiro, assustado e incrédulo, pede a Dante que se afaste dos mortos, mas Virgílio esclarece que Dante tem uma permissão de Deus para fazer a viagem. Começam por avistar o Inferno, com nove círculos concêntricos: onde estão os pagãos virtuosos (limbo) e onde penam os pecadores da luxúria, da gula, da ganância, da ira, da heresia, da violência, da fraude e da traição. Cada um recebe um tipo diferente de tormento. E são descritos três vales da violência, dez fossos da fraude e quatro esferas da traição, para as diferentes formas das ações licenciosas. Nesses mundos perversos os dois visitantes encontram personagens conhecidas da Antiguidade clássica como Paris, Helena, Cleópatra e Dido. Então avistam a cidade de Dite, onde Lucifer é rei, e onde estão as Érinis, deusas da vingança, que têm o corpo coberto de sangue e a cabeça de cobra, e Medusa, que petrifica quem a olha. E o viajante dialoga com os condenados e procura compreender o que levou a estarem ali, encontrando o Papa Nicolau III condenado por simonia…

 

O TERMO DE UMA VIAGEM ESSENCIAL

Passando ao Purgatório os visitantes encontram seis partes - o rio Tibre, o ante-purgatório dos arrependidos à hora da morte; o baixo purgatório dos que perverteram o amor; o médio purgatório dos que não conseguiram amar; o alto purgatório dos que amaram em excesso e, no cimo, o Paraíso terrestre ou Jardim do Éden. A elevada montanha está dividida em sete degraus, correspondentes ao pecados capitais: orgulho, inveja, ira, preguiça, avareza, gula e luxúria. Tratando-se da preparação para a entrada no Paraíso, os pecadores praticam as virtudes que não cultivaram na vida terrena. Ao sair do Purgatório, Dante despede-se de Virgílio, que não viveu a cristandade, não podendo por isso ultrapassar o umbral do Paraíso. É a formosa Matilde que fica com o poeta e começam por presenciar uma procissão onde se representam as virtudes e as glórias da Igreja. Então Dante é acompanhado pela bela Beatriz Portinari, modelo de virtudes, na visita das nove esferas celestes do Paraíso – Lua, Mercúrio, Vénus, Sol (como símbolo da prudência e do bom uso da teologia), Marte (sinal de coragem), Júpiter (lugar de justiça, onde, inesperadamente, se encontra o pagão Rifeu de Tróia), Saturno (da contemplação), Estrelas fixas (da Igreja triunfante) e a última esfera do universo físico que antecede o Empíreo, onde se dá a contemplação, o encontro com Deus, olhos nos olhos. Beatriz deixa Dante com S. Bernardo. É a teologia que comanda, sobre a essência de Deus – mas Dante, na reflexão mais elevada, confessa: “não é voo para as minhas asas”… Nunca tendo podido regressar à amada cidade natal, Dante morreu no exílio, mas tornou-se um verdadeiro símbolo dos valores da paz, da dignidade humana e da busca sincera da verdade.

 

Guilherme d'Oliveira Martins
Oiça aqui as minhas sugestões – Ensaio Geral, Rádio Renascença

 

A VIDA DOS LIVROS

De 13 a 19 de setembro de 2021


«Os Fidalgos da Casa Mourisca» é a última obra de Júlio Dinis, já publicada depois da sua morte. Há cento e cinquenta anos morreu Júlio Dinis (1839-1871). Desde então muito se tem debatido sobre a importância real do romancista na cultura portuguesa.


UM AUTOR POUCO LEMBRADO
Lembramo-nos do que Eça de Queiroz disse quando soube da morte de Júlio Dinis: “Tréguas por um instante nesta áspera fuzilaria! Numa página à parte, tranquila e meiga, pomos a lembrança de Júlio Dinis. Que as pessoas delicadas se recolham um momento, pensem nele, na sua obra gentil e fácil, que deu tanto encanto, e que merece algum amor. (…) Júlio Dinis viveu de leve, escreveu de leve, morreu de leve” (As Farpas, setembro de 1871). É um comentário que pressupõe distância, que compreendemos por parte de quem pugnava por uma renovação profunda da literatura e do pensamento, colocando o autor de Uma Família Inglesa no lado romântico da geração que o antecedera. Trata-se de uma apreciação comprometida, e o certo é que o comentário persistiu ao longo do tempo, numa situação agravada pelo facto de Júlio Dinis ser um dos nossos melhores escritores, infelizmente mal compreendido porque pouco lido. E assim fica por parte de Eça de Queiroz o reconhecimento de uma aura de simpatia, apesar da relativização da obra. Contudo, estamos perante um dos mais marcantes autores da sua geração, que bem conhecia os mais importantes autores da língua inglesa do seu tempo, notando-se a preocupação especial no tratamento dos temas dos seus romances, obedecendo a um sentido cuidado de clareza, verdade e pedagogia, além da escolha de um ritmo ponderado capaz de entender a diversidade da vida, de procurar a autenticidade e a regulação dos conflitos, numa gradual aproximação ao naturalismo.  Jane Austen, Charles Dickens ou William Thackeray eram bem conhecidos do romancista portuense, notando-se essa influência, não numa perspetiva de escola, mas com uma preocupação de compreender e representar a sociedade portuguesa.


AUTOR MAIOR DA NOSSA LITERATURA
Júlio Dinis é um autor maior da nossa cultura, com identidade própria, profundamente influenciado pela melhor literatura anglo-saxónica. O certo é que não é possível conhecer a sociedade portuguesa do seu tempo (e as origens da nossa) sem ler os seus romances, onde se nota, com nitidez a coexistência da tradição antiga, patriarcal e conservadora, do tempo anterior, com as manifestações e anseios de modernidade, de uma nova época. É o Portugal profundo que se confronta com o mundo em mudança. As personagens do romance português do século XIX coexistem e coabitam. Dir-se-ia que as gerações se sucedem e se completam, entre dramas e desencontros, entre anseios e sonhos – com Garrett, Júlio Dinis, Camilo e Eça. Em bom rigor, se não seguirmos essa pequena multidão pouco compreendemos. E quando se nos depara a rica panóplia de Portugal Contemporâneo, não podemos esquecer que tudo está ilustrado nessa rica complementaridade romanesca. No caso de Júlio Dinis, numa leitura superficial, pareceria que são os fatores conservadores a prevalecer. É uma ilusão. Leia-se As Pupilas do Senhor Reitor, publicado em 1866, Uma Família Inglesa, retrato da vida citadina e da pequena burguesia nascente (1868), A Morgadinha dos Canaviais, a melhor análise da vida política do constitucionalismo liberal. O que o romancista já anuncia é o surgimento do realismo e do naturalismo, sobretudo numa Europa em profunda mudança, como os jovens do Bom Senso e do Bom Gosto cedo compreenderam. Atormentado pela doença, luta contra o tempo, em 1869, parte para a Madeira, em busca de melhoras da doença, reflete profundamente sobre o mundo que se transforma. Em 1870, no Porto publica os Serões da Província e conclui Os Fidalgos da Casa Mourisca, cujas provas tipográficas já não acaba de rever. E é talvez nesta ponta final que poderemos encontrar uma curiosíssima síntese capaz de fazer compreender a sociedade em que o escritor vivia e que anunciava culturalmente significativas mudanças. A leitura da obra romanesca de Júlio Dinis permite-nos lidar com uma literatura que acompanha a evolução de uma sociedade que se vai emancipando progressivamente pelo exercício da liberdade.


ENTENDER PAÌS PROFUNDO
Se entendemos o país profundo na complexa trama de A Morgadinha dos Canaviais, em especial na tensão extraordinária entre o Conselheiro Manuel Bernardo Mesquita e Joãozinho das Perdizes e no panorama do enredo, não podemos compreender o liberalismo constitucional português sem ler o romance e sem compreender as suas personagens. Mas, como assinalou com extrema pertinência, Helena Carvalhão Buescu em “A Casa e a Encenação do Mundo: ‘Os Fidalgos da Casa Mourisca’ de Júlio Dinis” (“Veredas – Revista da Associação Portuguesa de Lusitanistas”, 1, Porto, 1988) o romancista na sua derradeira obra usa a metáfora da “Casa Mourisca” para representar Portugal, enquanto realidade histórica e política. No início, o velho País, como a casa do título, surge majestoso e severo, dominado pela questão do tempo e pela heterogeneidade da sua construção. À imponência de um passado visto como glorioso mas perdido, segue-se a decadência material do presente, projetando-se a recuperação do futuro. “Os tempos e os países, reflete Júlio Dinis, não se fazem já da predominância de velhos senhores agarrados à tradição enclausurante do passado, mas do estabelecimento de mediações e contratos (sociais, evidentemente, que Rousseau não é já desconhecido) que ao mesmo tempo preservem (trata-se de uma solução reformista) e alterem o tecido social no sentido da sua heterogeneidade e cooperação interativa” (H. Buescu). Deste modo, aproximamo-nos da reflexão de Gonçalo em A Ilustre Casa de Ramires – e, nas duas situações, as Casas são as matrizes sociais. Portugal, isto é, a Casa Mourisca (como na Torre de Ramires) não se constrói pela eliminação de contrários, mas pela criação de condições para a convivência, através do contrato social. A guerra civil nacional reproduz-se em miniatura na Casa Mourisca, no confronto dramático entre D. Luís Negrão de Vilar de Corvos e o cunhado, ou no diálogo entre Frei Januário e o liberal hortelão ex-companheiro do cunhado morto. A verdade é que a guerra civil terminara há mais de trinta anos, mas importava entender esse tempo como passado. Maurício, Jorge e Berta da Póvoa representam um novo tempo e uma nova vontade. A filha de Tomé da Póvoa, antigo caseiro de D. Luís, representa, assim, como a sociedade se transformava decisivamente. “Desenganemo-nos; a época não é de privilégios nem de isenções nobiliárias; é de trabalho e de atividade. Plebeu é hoje só o ocioso, nobre é todo o que se torna útil pelo trabalho honrado”. Um escritor é a sua época e projeta-se para além dela, usando a literatura como modo de melhor compreender os acontecimentos e as pessoas. Eis a atualidade permanente da melhor literatura. Júlio Dinis faz parte dela.    

 Guilherme d’Oliveira Martins
Oiça aqui as minhas sugestões – Ensaio Geral, Rádio Renascença

A VIDA DOS LIVROS

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  De 30 de agosto a 5 de setembro de 2021

 

“A Intimidade de Um Intelectual Indomável” é o subtítulo da Fotobiografia de António José Saraiva, da autoria de António Manuel P. Saraiva, José António Saraiva e Pedro António P. Saraiva (Gradiva, 2021).

 

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A MARCA DO INCONFORMISMO

O percurso de um dos intelectuais mais importantes da segunda metade do século XX português constitui excelente oportunidade para conhecermos um pensamento complexo, cuja coerência significa uma permanente busca de razões de ser para a história portuguesa, com recusa de conclusões adquiridas. O inconformismo é uma marca indelével que, longe de significar hesitação, representa a clara compreensão de que os factos históricos não têm explicações unívocas, resultando sempre de uma confluência de fatores contraditórios e heterogéneos. Deste modo, percebemos que o caminho de António José Saraiva é de permanente exigência, com aproximações e distanciamentos relativamente a autores e explicações, em resultado de um sentido crítico apurado, essência do fenómeno cultural e da sua compreensão. Ser “intelectual indomável” significa, assim, colocar o pensamento como bussola para uma caminhada capaz de conciliar a liberdade de espírito e o rigor na análise dos acontecimentos. E o irmão, José Hermano Saraiva, revela-nos uma explicação: “a ideia que ele escreveu na minha fita de formatura: quando tiveres encontrado enfim uma verdade, rasga-a e procura outra verdade melhor”. Ao seguirmos a obra de António José Saraiva, encontramos na dissertação de licenciatura o tema da poesia de Bernardim Ribeiro (1938) e no doutoramento em Filologia Românica a referência a Gil Vicente e ao fim do teatro medieval (1942) e em ambos encontramos a originalidade e a relevância das considerações do jovem investigador, em temas cruciais na afirmação da cultura portuguesa. No Liceu Gil Vicente fora aluno de Fidelino de Figueiredo e em 1940 travara conhecimento com Óscar Lopes, seu companheiro na empresa referencial da “História da Literatura Portuguesa”, a partir de 1949 – “vademécum” de muitas gerações na compreensão da nossa identidade literária. Quando hoje lemos textos de 1946 como “As Ideias de Eça de Queirós” ou “Para a História da Cultura Portugal” notamos já uma evidente maturidade, que prossegue não só em “A Escola, Problema Central da Nação”, mas igualmente em “A Evolução do Teatro de Garrett”, em “A Obra de Júlio Dinis e a sua Época” e sobretudo no fundamental “Herculano e o Liberalismo em Portugal – Os Problemas morais e culturais da instauração do regime”. Seguir a produção intelectual do jovem professor é, desta forma, extremamente atraente, uma vez que, apesar das referências ideológicas, nunca perdemos o extremo rigor no lidar com os acontecimentos e a consideração de uma rica dialética crítica, que recusa as explicações unívocas ou simplificadoras. Aliás, a perenidade da obra fica a dever-se a esse permanente viés crítico que tantas vezes corrige as naturais tentações simplificadoras. Dir-se-ia que a fidelidade ao mestre Herculano constitui uma marca que dá atualidade e coerência ao historiador e ao pensador. Quando lemos “O Caprichismo Polémico do Senhor António Sérgio” notamos, é certo, o espírito do tempo e a circunstância política, mas o tempo veio a corrigir a influência ideológica, de que Saraiva ao longo do tempo se soube libertar, como confessará no final da vida. É muito rica a lista dos temas que ocupam o cientista social e o pedagogo, cujo percurso é afetado pelas opções políticas – militância partidária na oposição, apoio à candidatura de Norton de Matos, proibição de ensinar no ensino oficial e prisão por motivos políticos.

 

TEMAS APAIXONANTES

Os temas estudados não são neutros. A Idade Média portuguesa até à crise social do século XIV, a importância de Fernão Lopes, a Inquisição em Portugal, Fernão Mendes Pinto ou a Sátira Picaresca da Ideologia Senhorial, Luís de Camões, a Ressaca do Renascimento, o “Dicionário Crítico da Algumas Ideias e Palavras Correntes” constituem reflexões ricas, nas quais se nota a preocupação pela prevalência de uma opção de independência e liberdade, nem sempre corretamente compreendidas. Impedido de ensinar em Portugal, exila-se em França no final dos anos cinquenta, integrando a equipa de Marcel Bataillon, e chega a preparar a ida para o Brasil, o que se torna impossível em virtude da ocorrência do golpe militar de 1964. Em 1966 retoma o estatuto de investigador em Paris, no CNRS, por proposta de Fernand Braudel, assistindo aos acontecimentos de maio de 1968, que merecem a sua análise, em muitos pontos se revelará premonitória. Quando obtém um lugar na Universidade de Amesterdão (1970) publica “Maio e a Crise da Civilização Burguesa”, que suscita acesa polémica. Regressado a Portugal em 1975, assume funções na Universidade Nova de Lisboa e na Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa, prosseguindo uma muito ativa intervenção literária: “Épica Medieval” (1979), “O Discurso Engenhoso – Estudos sobre Vieira e Outros Autores Barrocos”, “Filhos de Saturno – Escritos sobre o Tempo que Passa” (1980), “A Cultura em Portugal” (2 volumes) e “O Crepúsculo da Idade Média” (1988).

 

PENSAMENTO INDOMÁVEL

Fiel ao pensamento indomável, conheci pessoalmente António José Saraiva, quando escreveu e publicou “A Tertúlia Ocidental” (1990), obra de maturidade, de quem tão bem conhecia os homens de 1870, a ponto de poder escrever sobre eles um genial romance. E um dia disse-me que, sem demonstração histórica, era mais cinematográfico que tenha sido José Fontana a apresentar Oliveira Martins a Antero. Por outro lado, a chave da “Ilustre Casa” não era o colonialismo, mas a atração pelo desconhecido. E recordava «As Minas de Salomão», onde Gonçalo foi buscar motivo de inspiração. Ao contrário de Fradique, a geração coimbrã de Antero e dos seus acreditava numa outra relação entre a liberdade e a igualdade, diferente da romântica. A. J. Saraiva considerara em “As Ideias de E.Q.”, o fradiquismo como «uma desistência de agir sobre o meio e as condições sociais». Eça deparar-se-ia com a dificuldade de combater a mediocridade e a plutocracia. E ter-se-ia desinteressado. O próprio «esforçado Oliveira Martins» acabaria a cultivar a «flor da arte» ou outras flores. Seria uma evasão… Os anos passaram, o ensaísta continuou a estudar e a pensar, como inesgotável crítico. E em «A Tertúlia» recusou «uma súmula de clichés então reinantes» sobre a geração de 1870. O certo é que importaria dar uma especial atenção à afirmação de Eça no prefácio a «Azulejos» de Bernardo Pindela: «A arte é tudo, e tudo o mais é nada». O perigo da ilusão perturbava quem ainda acreditava na ação e na política. É certo que Eça dissera a Luís de Magalhães: «Não se deixe levar pelas teorias abomináveis do amigo Oliveira Martins sobre a sinceridade da emoção». Não poderia esquecer-se a fórmula «sobre a nudez forte da verdade o manto diáfano da fantasia». O paradoxo tinha como polos não apenas a ação e a indiferença, mas também a vontade e a arte. E Saraiva concluía: «Hoje as ideias de Eça de Queiroz (que não são exatamente as que lhe atribuímos em 1945) aparecem-nos principalmente como temas de arte, tal como na “Correspondência de Fradique Mendes” são pretextos para cartas».

 

Guilherme d'Oliveira Martins

 

 

A VIDA DOS LIVROS

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   De 23 a 29 de agosto de 2021

 

“O Homem que só Queria ser Tóssan” foi editado por João Paulo Cotrim (“Arranha Céus”, 2021). São três volumes um sobre a obra gráfica e dois sobre a produção escrita – “Lógica zoológica. Frutos e desfrutos. Animalia. Contos e Descontos” e “Versos côncavos e com versos”.

 

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O FARO DE UM CÃO

«Se o faro de cão / está mesmo no cão / o cão tem faro. // Se o faro é do cão / o cão é de Faro / o faro é do cão. // Mas se fareja e cheira / é de Albufeira. // E se tem olho o cão / e ladra a ladrão / o cão é de Olhão. // Se curva e vira / é de Espinhaço de Cão / ou de Tavira / ou até de Portimão. // Mas se ferra o cão… / não é algarvio, não!». Em boa hora escolhi como leitura de um fim de semana algarvio bem passado “O Homem que só Queria ser Tóssan”, editado por João Paulo Cotrim, na “Arranha Céus”, com o apoio do Município de Loulé, que me foi oferecido pelo meu amigo Vítor Aleixo. São três volumes imperdíveis, um sobre a obra gráfica e dois sobre a produção escrita – “Lógica zoológica. Frutos e desfrutos. Animalia. Contos e Descontos” e “Versos côncavos e com versos”. Conheci Tóssan, António Fernando dos Santos, em Albufeira nos anos sessenta e sempre me deleitei com o traço fino e irónico dos seus desenhos e a personalidade das suas personagens. Nascido em Vila Real de Santo António, foi nos seus amigos de Coimbra, como António Almeida Santos (cujos contos de “Rã no Pântano” ilustrou), que encontrei inesquecíveis recordações. As caricaturas dos estudantes eram pagas a 30 escudos por unidade ou com latas de quilo de fiambre. E lembramos as caricaturas de José Régio, Teixeira de Pascoaes, Paulo Quintela, Lins do Rego, Alves Redol, Bertold Brecht… Tivemos uma referência comum, o Dr. Joaquim Magalhães, com quem discreteava, caminhando na rua de Santo António em Faro, quando ia entregar a crónica para o “Diário de Notícias”. A memória de António Aleixo e o humor de Tóssan eram temas de conversa – para além da invocação de Antero de Quental, de Eça e desse grupo heroico…  Foram o professor do Liceu de Faro e o relojoeiro de Loulé José Rosa Madeira os primeiros a darem atenção ao poeta popular. O caso de António Aleixo impressionou desde cedo Tóssan. “O contacto diário com ‘o poeta-cauteleiro e antigo guardador de cabras’ (…) no Sanatório dos Covões, a partir de junho de 1943, colocou-o perante a descoberta impactante de uma literatura oral com laivos filosóficos e políticos que a todos surpreendia pela acutilância e alcance humanista”, diz Vasco Rosa. O “Auto do Curandeiro” resultou do encontro de Tóssan com Aleixo. É de Tóssan o mais célebre retrato de Aleixo, de 1943, que Manuel Viegas Guerreiro popularizou junto dos estudantes dos liceus.

 

UMA CORUJA DE CARICATURA

Houve um período em que teve uma função essencial nas relações culturais com o Brasil. O embaixador Alberto Costa e Silva não lhe poupa elogios sobre o tempo do Presidente JK: “Tóssan, grande e gordo, tinha cabelos abundantes e negros que formavam tufos nos lados, usava uns óculos enormes, que aumentavam a vivacidade do olhar e o faziam parecer uma coruja de caricatura”. No Palácio Foz deu vida após 1974 a um breviário da cultura democrática na editora “Terra Livre” e multiplicou ilustrações para as crianças e os jovens, colaborando, por exemplo, com Leonel Neves. Tóssan não se levava a sério: “gordão, bonacheirão, / satisfeito, rezingão. / Carregado de pecados, / viajado, / arreliado, / mal-disposto / malcriado…”.  O teatro apaixonou-o sempre, desde o Lethes e do TEUC. O desenho era o modo de pôr a gente em ação, daí o entusiasmo de crianças e adultos com as suas ilustrações. Mário Viegas levou à cena “Tótó” com um conjunto extraordinário de textos de Tóssan. Teatro e vida confundiam-se. “O teatro diminui a luz como quem desce as pálpebras aos poucos (…). Uma mala de senhora atirou-se de um camarote para a plateia. Todos se levantam. Todos se sentam. Todos comentam. Um tosse; tossem todos. (…). Mas mal abriu a cortina, o público ficou natureza-morta – apenas se ouvem os olhos dos espectadores a devorarem a cena…”.

  

ODE AO FUTEBOL

E o mais célebre dos poemas de Tóssan: “Retângulo verde, meio de sombra meio de sol / Vinte e dois em cuecas jogando futebol / Correndo, saltando, ziguezagueando / ao som dum apito / Um homem magrito, também em cuecas / E mais dois carecas com uma bandeira / De cá para lá, de lá para cá / Bola ao centro, bola fora. / Fora o árbitro! / E a multidão, lá do peão / Gritava, berrava, gesticulava / E a bola coitada, rolava no verde / Rolava no pé, de cabeça em cabeça / A bola não perde, um minuto sequer / Zumbindo no ar como um besoiro, / Toda redonda, toda bonita / Vestida de coiro. / O árbitro corre, o árbitro apita / O público grita / Gooooolllllooooo! / Bola nas redes / Laranjadas, pirolitos, / Asneiras, palavrões / Damas frenéticas, gordas esqueléticas / esganiçadas aos gritos. / Todos à uma, todos ao um / Ao árbitro roubam o apito / Entra a guarda, entra a polícia / Os cavalos a correr, os senhores a esconder / Uma cabeça aqui, um pé acolá / Ancas, coxas, pernas, pé, / Cabeças no chão, cabeças de cavalo, / Cavalos sem cabeça, com os pés no ar / Fez-se em montão multidão. / E uma dama excitada, que era casada / Com um marinheiro distraído, / No meio da bancada que estava à cunha, / Tirou-lhe um olho, com a própria unha! / À unha, à unha! / Ânimos ao alto! / E no fim, / perdeu-se o campeonato!”

 

Guilherme d'Oliveira Martins

 

A VIDA DOS LIVROS

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  De 16 a 22 de agosto de 2021

 

Autor de “O Sangue, a Água e o Vinho” (1958) ou de “Retábulo de Matérias” (2018), Pedro Tamen é indiscutivelmente um dos grandes poetas e homens de cultura do último século.

 

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INFLUÊNCIA MARCANTE

Pedro Tamen representa no panorama cultural português da segunda metade do século XX um exemplo significativo de influência marcante nos diversos campos em que agiu. Ouvimo-lo: …“e às apalpadelas toco o rasto / do caminho que nunca percorri” (Rua de Nenhures, 2013). Logo a partir de 1958, proveniente da Juventude Universitária Católica e da revista “Encontro”, tornou-se, com António Alçada Baptista e João Bénard da Costa, não apenas um jovem editor interveniente e dinâmico, mas alguém que teve consciência de que se preparava um novo tempo, que conduziria, mais tarde ou mais cedo, à democracia. E há nessa compreensão uma convergência de três fatores que se associam, com inevitáveis consequências: o abalo causado pela candidatura presidencial de Humberto Delgado e pela primeira divisão nas Forças Armadas, que eram um fundamento estrutural do chamado Estado Novo; o mal-estar causado pelo memorando enviado pelo Bispo do Porto, D. António Ferreira Gomes, a Oliveira Salazar e que levaria ao exílio do prelado e à abertura de uma tensão com a Santa Sé, que não aceitou afastar o Bispo da titularidade da diocese, o que representou o primeiro sinal evidente de afastamento crítico por parte de uma figura relevante da Igreja Católica, outro apoio estrutural com que o regime contava, estava-se em vésperas do Concílio Vaticano II; por fim, no plano cultural a “aventura da Morais” e a preparação da revista “O Tempo e o Modo” representou a abertura de novos horizontes no meio intelectual, para além da forte influência neorrealista, sentida no pós-guerra. Abria-se caminho ao que Eduardo Lourenço designou como “heterodoxia”.

 

COERÊNCIA E SENTIDO PRÁTICO

Pedro Tamen envolveu-se com coerência e sentido prático nesse triplo desafio, que era, a um tempo, político, religioso e cultural. António Alçada Baptista transforma a Livraria Morais da Rua da Assunção num centro de renovação intelectual e religiosa. Tamen entrou como sócio, juntando-se uma equipa constituída por João Bénard da Costa, Nuno Bragança, Luís de Sousa Costa, Helena e Alberto Vaz da Silva. Premonitoriamente, o que aconteceu com o nascimento do projeto da Morais teve projeção logo em 1959 em abaixo-assinados de fevereiro e março sobre “as relações entre a Igreja e o Estado e a liberdade dos católicos” e sobre os serviços de repressão do regime, cujos primeiros subscritores foram os Padres Abel Varzim e Adriano Botelho. Pedro Tamen apenas não assina por estar a prestar o serviço militar. Acresce que, em março de 1959, tem lugar a tentativa de Golpe da Sé, com a participação de elementos próximos da Morais, designadamente o Padre João Perestrelo de Vasconcelos, Manuel Serra, Francisco de Sousa Tavares, António Alçada Baptista e Jorge de Sena. A atividade editorial da Morais é intensa. Quando compulsamos os livros e autores publicados no Círculo de Poesia, verificamos como se trata de dar eco de um autêntico movimento de renovação da poesia portuguesa, num momento raro de confluência de grandes valores: Jorge de Sena, José Terra, Murilo Mendes, Cristovam Pavia, Vitorino Nemésio, João Maia, António Ramos Rosa, João Rui de Sousa, José Blanc de Portugal, José Cutileiro, Maria Alberta Meneres, E. M. de Melo e Castro, Alexandre O’Neill, Ruy Belo, Fernando Echevarria, Fernando Lemos, Salette Tavares, Ana Hatherly, Sophia de Mello Breyner… É impressionante a produção reunida, o que corresponde a uma ação persistente de Pedro Tamen, que não deixa, ele mesmo, de manter a sua própria produção poética. O cuidado extremo chega à parte gráfica e ao contributo decisivo de José Escada. Diz o testemunho de Pedro Tamen: «Não tenho a certeza, mas creio que o António Alçada já tinha pedido ao meu amigo, e dele, José Escada o lay-out das capas do futuro Círculo de Poesia.  Lembro-me, isso sim, de discutir com o Escada o tipo e qualidade da cartolina a usar, na qual seria colada a «etiqueta» com o belíssimo desenho do «sol» que se tornaria clássico.  As dificuldades relacionavam-se com o facto de a cartolina escolhida ser importada. (…) Mas tais dificuldades foram rapidamente ultrapassadas, rendidos que ficámos todos – o António, o Jorge de Sena e eu – à beleza indiscutível daquele projeto gráfico». Pedro Tamen prestará, porém, homenagem a António Alçada pelo facto de sempre ter acompanhado a coleção – que por razões diversas não pôde contar com Eugénio de Andrade, Herberto Helder, David Mourão-Ferreira, a Poesia-61 ou Mário Cesariny. Contudo, no essencial, estamos perante um verdadeiro panorama da poesia portuguesa da segunda metade do século, a que acresceram grandes nomes da poesia brasileira. Feitas as contas, até ao ano de 1975, sob a direção de Pedro Tamen, «o Círculo de Poesia publicou ao todo 70 livros novos, alguns dos quais reeditados uma e mais vezes, perfazendo até essa data a bonita soma de 75 edições de 36 autores».

 

EM PROL DA CULTURA

Pedro Tamen desdobrou-se em atividades em prol da cultura da língua portuguesa numa perspetiva de liberdade, culminando num quarto de século na Fundação Gulbenkian, nas áreas da Cultura e das Belas Artes, do Centro de Arte Moderna, do ACARTE e da Biblioteca de Arte. Consciente de que a democracia e a cidadania se constroem pelo reconhecimento do papel fundamental da cultura, da educação e da ciência, esteve sempre atento aos novos ventos no mundo do pensamento e das artes. Daí a sua relação, como artista e criador, com a memória. Não memória do passado, mas compreensão de um tempo que permanentemente se renova. Quando escolhe a epígrafe de Sá de Miranda, assume a dúvida e a contradição: “Alma, que fica por fazer desd’hoje / na vida mais, se é vã minha esperança, / que sempre sigo, que me sempre foge? / Já quanto a vista alcança, a não alcança”. O poeta procura esclarecer essa relação necessariamente imperfeita e contraditória. Não há memória que se complete a si mesma – ela será sempre indescritível, ao invés de uma “memória descritiva”. “Deixar correr o tempo sem memória/ entre memoriais de tudo quanto houve/ valendo-me assim do que os outros lembram/ para nada lembrar”. É, no fundo e sempre, a complexa relação com o tempo, que tanto perturbava Agostinho, o bispo de Hipona, que está em causa - a tripla dimensão do presente, articulando o agora, o passado e o devir, numa observação atenta e inesperada. Lembrança e esquecimento, eis o que tem estar sempre presente quando nos interrogamos sobre a existência. “Por sobre o ombro (dói!) lobrigo/ tantas confusas coisas, falo delas./.../o peso, o contrapeso, a palavra que digo. / Sufoco o medo a medo, e olho a esteira/ remudo e quedo, sentado na cadeira”. E não é um acaso a invocação de Sá de Miranda, já que nos remete ainda para o célebre poema: “Comigo me desavim, / Sou posto em todo perigo; / Não posso viver comigo / Nem posso fugir de mim”. Com a memória, é também essa perplexidade que se manifesta. É o mistério da palavra que o poeta persegue, sempre preocupado com o domínio do ser. E é essa liberdade que a memória indescritível nos exige, capaz de compreender o limite do não alcançar no que a vista alcança. "Disseste: o sol nasceu. / Foi verdadeiramente então que o sol nasceu / e que nos habituámos todos a dizer / que o sol nasceu. / Às vezes pensamos que acontece várias vezes / mas é uma ilusão de ótica que não nos deixa ver / o grande círculo azul em cujo centro / tu dizes eternamente: o sol nasceu". A ironia completa a realidade. A memória permite que a palavra esclareça os limites do existir… Eis o caminho indescritível que Pedro Tamen procurou trilhar em pensamento e ação. E assim se pode compreender ainda o extraordinário tradutor que foi, demonstrando como o poeta cultivou um grande artífice da palavra, capaz de fazer da leitura de autores e obras consagrados a expressão da melhor escrita. Aí se sente o grande prazer da decifração.

 

Guilherme d'Oliveira Martins

A VIDA DOS LIVROS

De 9 a 15 de agosto de 2021


Eduardo Lourenço em “Nós e a Europa ou as duas razões” (INCM, 1994), tendo na capa a figura de Erasmo, assume claramente a linhagem da Geração de Setenta, e fala de “ressentimento” e de “fascínio” como referências polarizadoras que coexistiam na atitude dos intelectuais de Setenta, sendo a consciência da distância e da marginalidade uma marca permanente.


FASCINADOS E RESSENTIDOS
Portugal precisaria de ser outro, mais consonante com o continente civilizado, menos condenado à periferia e à distância. Fascinados ou ressentidos, a verdade é que precisaríamos da Europa – “com a mesma ironia calma com que Caeiro se vangloriava de oferecer o universo ao universo, nós, primeiros exilados da Europa e seus medianeiros da universalidade com a sua marca indelével, bem podemos trazer a nossa Europa à Europa. E dessa maneira reconciliarmo-nos, enfim, connosco próprios”. A receção do Realismo e do Naturalismo constituiu um momento fundamental em que uma geração intelectual procurou romper com o fatalismo do atraso e da mediocridade. Para tanto, haveria que seguir as tendências da modernidade, mesmo que isso representasse o assumir do escândalo da rutura. Mas se essa diferenciação era mister de gente culta, importava comparar, até para tentar perceber o que deveria fazer-se para romper com a inércia da repetição conformista ou dos nossos males que tanto irritavam os viajantes estrangeiros. Em maio de 1885, Oliveira Martins, no primeiro número de “A Província”, órgão do movimento da “Vida Nova”, afirma: “Esta é a vida nova que surge dentro do nosso partido, não como um renegar do passado, mas sim como uma afirmação positiva das suas tradições mais nobres e invariavelmente defendidas”. E nesse texto, invoca a referência europeia: “Toda a Europa se acha numa época de reação vitoriosa contra a anarquia económica; em toda ela predomina o pensamento da nacionalização do trabalho e da proteção dos trabalhadores”. Trata-se, assim, da invocação de um projeto claramente socializante, centrado na criação económica e na valorização do trabalho e dos trabalhadores. A Europa e a comparação com a Europa nunca são indiferentes à Geração de 70. Mas não se trata da Europa do livre-cambismo e das injustiças, mas do continente das ideias novas, da liberdade e da igualdade. Por outro lado, há sempre uma preocupação com o tentar perceber por que razão seremos menos europeus.


SEMPRE A EUROPA…
Continue a ler-se Eça de Queiroz, e veja-se como o tema europeu é quase obsessivo – o Primo Basílio vem de Bordéus, Maria Eduarda e Dâmaso Salcede também viajam num paquete vindo de Bordéus, “Os Maias” não se podem compreender sem a referência europeia, Alencar no célebre jantar do Hotel Central fala da “democracia humanitária de 1848” e diz querer “uma república governada por génios, a fraternização dos povos, os Estados Unidos da Europa” e em “A Cidade e as Serras” o que temos é um diálogo sui generis entre Portugal e a Europa. De qualquer modo, há sempre um confronto entre a Europa aceite como um horizonte referencial e a Europa considerada como desafio contra o fatalismo. O Alencar que fala dos Estados Unidos da Europa é o romântico, influenciado pelos engenheiros de Saint-Simon de que Fontes Pereira de Melo é o principal dos émulos. E o sentido crítico que Eça introduz a propósito de Tomás de Alencar aponta o dedo à inconsequência do utopismo romântico, contra o qual se ergue o naturalismo de Ega. A mesma crítica está, aliás, simbolizada no conde de Gouvarinho, representante do fatalismo e da mediocridade aceite. Quando lhe é posta a possibilidade de sobraçar a pasta dos Negócios Estrangeiros: “- essa nunca! – prosseguiu ele muito compenetrado. – Para se poder falar alto na Europa, como ministro dos Estrangeiros, é necessário ter por trás um exército de duzentos mil homens e uma esquadra de torpedos. Nós infelizmente, somos fracos… E eu, para papéis subalternos, para que venha um Bismarck, um Gladstone, dizer-me ‘há de ser assim’, não estou!...”. Como é sabido, Gouvarinho não foi para os Estrangeiros, mas para a Marinha e Ultramar, e então tomou a medida fundamental de criar um teatro normal em Luanda. Ainda em “Os Maias”, Carlos, no final do romance, cético e distante dos entusiasmos reformadores de dez anos antes, vindo da Europa, descreve o viver bem: “Passeio a cavalo no Bois; almoço no Bignon; uma volta pelo boulevard; uma hora no clube com os jornais, um bocado de florete na sala de armas; à noite a Comédie Française ou uma soirée; Trouville no Verão, alguns tiros às lebres no Inverno; e através do ano as mulheres, as corridas, certo interesse pela ciência, o bricabraque e uma pouca de blague. (…) Nada mais inofensivo, mais nulo, e mais agradável”. Eis o retrato de uma decadência perigosamente atrativa. E Carlos da Maia vê Portugal como uma realidade dividida: entre o dever ser civilizado e europeu e o peso do atraso e da sociedade antiga. De um lado, a “gente feísssima, encardida, molenga…”; de outro os sinais de imitação do que vem de fora – a Avenida, o obelisco dos Restauradores, a moda das botas aguçadas na ponta… A Europa aparece, assim, com um sentido nitidamente ambivalente – ora como referência externa que se imita sem consequência séria, ora como desafio transformador que não esqueça as nossas características próprias.


O CASO DA CIDADE E AS SERRAS
O caso de “A Cidade e as Serras” é bem ilustrativo. Jacinto está cansado da civilização e vem para as serras, não para a capital. Mas sabemos que, de certo modo, a insatisfação permanece. É verdade que Jacinto assume a clássica “aurea mediocritas”, que Gonçalo Mendes Ramires sonha com o Portugal em África, que Fradique Mendes entroniza a Quinta de Refaldes e outras deambulações no país genuíno – mas isso não significa a recusa queiroziana da referência europeia, antes representa o assumir de um mal-estar moderno europeu, simbolista. É, de algum modo, por influência da Europa que a crítica do excesso de civilização se faz. E, se bem virmos o que está em causa, não estamos perante um apelo isolacionista, mas um cosmopolitismo, que se centra no horizonte europeu. Em suma, o que está em causa é a recusa da condenação ao atraso, o apelo à vontade, às diferenças e à abertura de espírito e de fronteiras. Entre o fascínio e o ressentimento, sobretudo num tempo em que a história europeia prepara um século de incerteza máxima, e em que Portugal sofre uma crise muito profunda de credibilidade e de vontade, a Geração de Setenta sentiu no íntimo de si o peso de todas as contradições. A referência europeia é, no entanto, permanente e marcante, mas não pode ser superficial e mimética. A Europa de Alencar é aquela de que foge Jacinto. Ao invés do tédio que enfastia Jacinto, a Geração de Setenta tem no horizonte uma “sociedade outra” (na linha de Henriques Nogueira e de Lopes de Mendonça, influenciados pela “Primavera dos Povos” de 1848). Daí que o ceticismo de Carlos da Maia e o sentido crítico de João da Ega recusem a claustrofobia do país isolado e só. O “europeísmo” que a Geração assume é sempre o da abertura e da emancipação, não o da burguesia instalada e do bem-estar que entedia Carlos da Maia. “Ligar Portugal com o movimento moderno, fazendo-o assim nutrir-se dos elementos vitais de que vive a humanidade civilizada” – continua bem presente – na perspetiva de “adquirir a consciência dos factos que nos rodeiam, na Europa”.

 

Guilherme d’Oliveira Martins